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Os relatórios internacionais.

por FJV, em 04.02.09

Num avião, nesta segunda-feira, vejo na TAP-TV a notícia de que um relatório internacional com a chancela da OCDE festejou abundantemente a qualidade do nosso ensino. Nunca se deve recuar diante de uma boa notícia, sobretudo se ela é falsa. Sobretudo uma semana depois de ser desmentida.

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Chumbos.

por FJV, em 31.10.08

O Conselho Nacional da Educação vem propor que acabem os chumbos até ao 9.º ano – é uma medida e tanto, que o Sr. Secretário de Estado Valter Lemos festeja com as mãos ambas, uma vez que parece ser ele o encarregado de velar pelas estatísticas. Acho que o Sr. Secretário Lemos está a ser modesto em matéria de “mecanismos de alternativa a chumbos”. Defendo que, na hora do baptismo, perdão, no registo civil, seja atribuído logo o 9.º ano a cada pequeno cidadão. Assim, evitam-se logo os chumbos. Parece, além do mais, que o chumbo é visto como uma tentativa de responsabilizar os alunos e os pais, o que – no entender do Sr. Secretário Lemos e do sempre espantoso Albino Almeida, da confederação dos paizinhos – não pode acontecer. Sim, de facto, onde é que isto se viu? Na Finlândia?

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O «caso Esmeralda».

por FJV, em 31.10.08

 

O ‘caso Esmeralda’ não é folclore. Convém, para pessoas sensíveis e cosmopolitas, pensar que o drama de uma criança dividida por duas famílias é apenas uma coisa provinciana e pouco digna de figurar nas páginas dos jornais – quanto mais da nossa vida. Mas acontece que os tempos modernos não são apenas uma metáfora para nos mostrarmos mais luminosos e agradáveis. Com eles vêm as famílias monoparentais, pluriparentais ou o que quiserem – e novas formas de manifestar em público o afecto que nasce em privado. A história do nascimento de Esmeralda tem a ver com tudo isso e com uma soma de decisões judiciais que acabam por ser contraditórias ou discutíveis, quando pretendiam fazer justiça a todo o custo. Não há justiça nestes casos. Há apenas o sentimento do irremediável.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O passado.

por FJV, em 28.10.08

José Eduardo Agualusa escreveu um livro notável, O Vendedor de Passados, em que o personagem principal se dispunha a isso mesmo – a inventar o melhor passado possível para cada um dos seus clientes.Quem não quer ter um bom passado, altamente recomendável? A luta política em Portugal, longe de esgrimir argumentos e propostas, vale-se frequentemente da trafulhice de combater o passado dos adversários (se possível esquecendo o próprio). É um método como qualquer outro, disponível nos manuais – mas há-de acabar por rebentar nas próprias mãos do utilizador. Há sempre uma vergonha escondida, uma distracção, um gesto menos próprio, uma coisinha humana e natural que atraiçoa os defensores da moralidade ou os super-homens impolutos. As pobres viúvas de Lorca são o pior da política.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

 

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Contribuições & solidariedade.

por FJV, em 30.09.08

De repente, à esquerda e à direita surge uma onda de solidariedade com “as vítimas” do desastre financeiro que está à vista. Os mais “solidários” voltam-se contra o Congresso Americano que desobedeceu aos chefes partidários e achou que não devia aprovar o plano de salvamento que lhes era proposto lá de cima. Os “solidários” acham que é egoísmo não querer dar uns dólares ao vizinho. O problema é que não se trata de “uns dólares” – são, pelo menos, 2500 por cada cidadão americano. E não é ao vizinho – mas sim aos bancos que usaram e abusaram do risco. Não é preciso perceber de economia para saber que são os contribuintes que vão pagar a despesa; por isso, a falência desses bancos não me parece mal. Se é preciso aplicar o dinheiro dos contribuintes, há muito por onde começar.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Reflexões sobre o almoço.

por FJV, em 30.09.08

Para já, a crise financeira chega a Portugal como um eco de falências e turbulências na bolsa. O “cidadão médio”, no entanto, faz contas. E são simples: afastado da ribalta da grande especulação, limita-se a recordar as aulas de contabilidade salazarista, que é a mais apropriada para o seu caso – não pode gastar mais do que ganha. Bem vistas as coisas, pela lógica dessa contabilidade, também os bancos não podiam emprestar mais do que tinham, para que os clientes não pudessem dever mais do que podiam. O alto capitalismo vive na corda bamba, o que é bom para grandes contas e riscos incalculáveis, mas fatal para a economia de quem vive com decência. E é isso: o “cidadão médio” faz contas: deve o telemóvel, parte da casa, parte do carro, parte das férias. Ou seja, aprende o que já sabia – que um almoço nunca é de graça.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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As casas.

por FJV, em 30.09.08

Não há argumentos nem desculpas que justifiquem o escândalo. O problema do escândalo é que o escândalo se limita a escandalizar, toda a gente vem gritar para o meio da rua, as virgens ajeitam os xailes e a coisa fica por aí (e, como diz Vital Moreira, a arbitrariedade acaba por ser premiada com a impunidade)... Por exemplo, os jornais anunciam que há 3000 casas atribuídas de forma arbitrária; conhecemos alguns nomes, que servem de bode expiatório e que cobrem a generalidade das presidências da autarquia nos últimos anos. Krus Abecasis, como está morto, é o candidato a maior culpado; mas eu agradecia que os jornais investigassem mesmo os nomes dos jornalistas, por exemplo, que vivem em casas cedidas pela Câmara e não se limitassem a crucificar Baptista-Bastos.

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Estatísticas.

por FJV, em 11.09.08

 

O primeiro-ministro assegura que a melhoria de resultados nas pautas do ensino básico e do ensino secundário se devem às políticas educativas e aos investimentos realizados pelo seu governo. Lamento desmentir esse contentamento e tão largo optimismo mas a verdade é que tanto eu como o primeiro-ministro sabemos que as políticas educativas não produzem resultados de um ano para o outro; tal como ambos sabemos que os investimentos em educação levam anos a ter algum resultado e que isso não significa mais dinheiro. Portanto, é preciso outra explicação. Eu dou-a de graça: a melhoria de resultados existe porque os dados foram propositada e antecipadamente falsificados por provas demasiado fáceis, realizadas com o propósito de conseguir estas belas estatísticas. Ambos o sabemos. Todos o sabemos.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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À atenção dos apreciadores de estatísticas. Uma pequena vergonha nacional.

por FJV, em 20.06.08

Ou muito me engano ou, no próximo ano, os hierofantes do Ministério da Educação (aqueles que acham que os professores de Matemática percebem de Matemática mas não percebem de «avaliação» -- uma declaração que deveria forçar a comissão de educação do Parlamento a chamá-los para esclarecer o assunto) dirão que houve uma substancial melhoria da estatísticas e que o homem novo está a caminho com uma taxa de sucesso a festejar. Basta ver a manigância a que eles (os que percebem de «avaliação») se dedicaram. Se não fosse trágico para o sistema de ensino, contaríamos mais uma anedota sobre o assunto.

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Europa irlandesa.

por FJV, em 18.06.08

A Europa, que foi berço de várias civilizações – e não apenas de uma, maneirinha e conformista – não merece tanta arrogância desta gente mal-educada que se põe a pregar moral aos irlandeses por ter votado como votou. O argumento de que apenas dois milhões de irlandeses põem em causa o Tratado de Lisboa não pega: na verdade, apenas eles foram consultados. Se o texto do Tratado é assim tão complexo que apenas as luminárias das altas esferas o entendem, pois que trabalhem (para isso são pagos pelos contribuintes e cidadãos da Europa) e o ponham em língua de gente. Os europeus podem ser cépticos, mas não são tão estúpidos como querem fazer crer – e não podem ser tratados como o velho Mao Tse-Tung tratava os chineses: como carne para canhão. A piada é para Durão Barroso, sim.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Estado de sítio.

por FJV, em 07.06.08

Afazeres profissionais, muitos; muito trabalho; ligeira preguiça nocturna (ou seja, estava a ler os últimos capítulos de uma biografia de Mao e não queria largá-la; e tinha livros novos à espreita); indisposição geral acerca da web 2.0. De modo que o blog ficou reduzido à expressão mínima. A pedido, segue-se um O Cantinho do Hooligan.

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Filhas de Bragança.

por FJV, em 24.04.08

O Expresso deste sábado avançará com uma reportagem sobre as meninas de Bragança. Ora, nós somos um país sério, em pantufas, metidos connosco, sentado diante da televisão, com uma província cheia de melros a cantar nas oliveiras que ainda restam. Em 2004, a Time não tinha nada que nos vir incomodar com aqueles retratos, aquelas declarações citadas entre aspas (como manda a decência jornalística), aquelas revelações sobre as meninas de Bragança. O que é divertido, no entanto, não é a confirmação da existência de «meninas de Bragança» pelo país fora. Até dá um certo colorido. É a existência das Mães de Bragança, entretidas com a moral. Mas Bragança evoluiu, Bragança cresceu, Bragança modernizou-se, Bragança vai na senda do progresso; segundo parece, como conta um agente do SEF, os pobres homens de Bragança, em vez de passearem pelo Largo da Sé e subirem e descerem a Rua Direita discutindo a geada, o futebol e o isolamento do Nordeste, ou consultarem o catálogo do Museu do Sr. Abade de Baçal, são seduzidos por «anúncios publicados na imprensa» e caem na perdição, dirigindo-se na calada da noite até apartamentos alugados por brasileiras. Ah, fossem cidadãs de Vila Flor, Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé ou Vinhais -- e tudo se explicava. Mas ainda por cima são brasileiras, não têm bigode e sabem-na toda.
Mas como o Altíssimo é perverso, o Expresso contará ainda mais esta miséria: «Duas das quatro mulheres mais activas do movimento contra a presença das meninas brasileiras na cidade, estão hoje divorciadas. E uma delas perdeu o marido para uma das prostitutas que tanto repudiava.»
Tudo isto ficaria bem num romance de Jorge Amado, se o retrato tivesse uma luz de decência ou de malandrice. Mas no meio do país sonso, de plástico sujo, incomodado com o espelho, eu limito-me a sugerir que Bragança deve ser defendida como uma explosão de sensualidade. E exorto bandos de machos fesceninos e malandros, a perderem a vergonha e a encaminharem-se para as portas da cidade, ao engate: às senhoras de Bragança, rapazes, às senhoras de Bragança!

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Eterna juventude.

por FJV, em 11.04.08

O presidente da República acha que há uma “obsessão” das empresas “sobre o contínuo rejuvenescimento dos seus trabalhadores”. A declaração merece ser retida – e aplaudida. Na verdade, não se trata apenas das empresas, em sentido geral. A ideia de “juventude” transfigura toda a gente mas ainda ninguém teve a coragem de dizer o óbvio, e o óbvio é isto: à juventude falta idade, bom-senso e muito conhecimento e experiência. A “ideologia da juventude”, ensinada desde cedo e difundida como se fosse uma obrigação inevitável, tem conduzido a erros de perspectiva pouco saudáveis. A sociedade portuguesa corre o risco de se transformar num jardim de infância onde nunca se passa da adolescência, enquanto se escondem os velhos e se desvaloriza a sua palavra. Daqui a alguns anos voltaremos à Idade Média, onde a esperança média de vida andava pelos 40 anos; a partir dessa altura devemos desaparecer por decreto para dar lugar a bandos de adolescentes decorados de piercings.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Infantil.

por FJV, em 11.04.08
O presidente do Comité Olímpico Português acha que o boicote às cerimónias festivas dos jogos de Pequim «só prejudica os atletas». Claro que não se pede a Vicente de Moura apoio ao boicote e aos protestos pela repressão no Tibete. Mas, assim triste, parece-se com um bebé a quem querem tirar o barquinho de plástico da banheira.
[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O caso «temor reverencial».

por FJV, em 08.04.08
Osvaldo Silvestre sobre a polémica provocada pela entrevista de J. E. Agualusa em Angola, no Os Livros Ardem Mal. Luís Januário no A Natureza do Mal. Rui Bebiano no A Terceira Noite.

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Literatura sob alçada criminal.

por FJV, em 06.04.08
Ainda a propósito desta polémica, o oficial Jornal de Angola encetou uma campanha para a canonização absoluta de Agostinho Neto. Compreende-se. Mas neste outro artigo, sobre «Literatura e Identidade Política», a coisa vai mais longe, até ao «exercício de cidadania», depois «da “insolente” entrevista do Escritor José Eduardo Agualusa, sobre a poesia de Neto». Como preâmbulo não está mal: «Ao escritor importa narrar, verdades ou inverdades, mas cabe aos professores, intelectuais ou sábios ensinarem o que é verdadeiro, científico, afastando os embustes, malabarismos; e aos políticos servirem em nome do bem comum
A seguir, a canonização: «A escrita não pode servir para humilhar, banalizar, diabolizar os ícones, heróis, mitos, deuses ou divindades; Neto é Kilamba, kituta, kiximbi; sendo-o é intérprete das divindades aquáticas do Kwanza, é o antropónino de crianças que nascem com poderes especiais, segundo o antropólogo Virgílio Coelho (1989).» Note-se que «quem o ataca, ataca a razão da utopia – a Independência de Angola».
Mais adiante: «Exige-se respeito, veneração, solenidade aos heróis, escritores, mesmo quando os gostos estéticos diferem. É uma questão de temor reverencial, seja sobre Neto ou qualquer outro escritor que retrata da nossa identidade [...]

Chamo especial atenção para esta passagem, em que o autor (que ensina Ciência Política e Direito Público) pede a criminalização de José Eduardo Agualusa:

«[...] deve haver responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos requisitos do ultraje à moral pública (ofendeu a moral cultural ou intelectual dos angolanos), previsto e punido no Artigo 420º do Código Penal. É preciso moralizar, sob pena de banalizar a figura mais importância da nossa memória colectiva contemporânea.»

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Guerras antigas de Angola.

por FJV, em 28.03.08

Tudo começou com uma entrevista de José Eduardo Agualusa ao Angolense. Nela, Agualusa dizia isto: «Uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo se pode dizer de António Cardoso ou de António Jacinto. Foram todos eles grandes figuras do nacionalismo angolano, e eventualmente muito boas pessoas, não sei, não conheci nenhum deles, mas eram fracos poetas. Ruy Duarte de Carvalho é um bom poeta. Ana Paula Tavares tem um trabalho muito interessante. David Mestre merecia ser mais conhecido a nível internacional.»

Quem não gostou foi o Jornal de Angola, que publicou um editorial sobre o assunto: Agualusa procurava «humilhar figuras de relevo da História e da Literatura Nacional». Antes disso, Artur Queiroz, também no Jornal de Angola, protestava pela genialidade da poesia de Neto – mas alongava-se, tranformando a entrevista de J.E. Agualusa num problema de regime: «A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades. Vem agora uma flatulência retardada do colonial fascismo sujar a sua memória com uma tentativa de assassinato de carácter.» No mínimo, duvidoso; mas não original, porque não é a primeira vez que este género de reacções tem perseguido escritores que não estiveram do lado certo em Luanda, de David Mestre a Sousa Jamba, passando, claro, pelo ódio de estimação a José Eduardo Agualusa.

Entretanto, Sousa Jamba publicou, no Angolense, um texto em defesa de Agualusa, a que se juntou outro de Justino Pinto de Andrade, logo depois de o director do Inald (Instituto Nacional do Livro e do Disco) ter declarado, para a posteridade, a genialidade da literatura angolana, e de o Jornal de Angola ter retomado o ataque a Agualusa («Agualusa foi longe demais ao atacar grandes figuras emblemáticas da literatura nacional, nomeadamente: Agostinho Neto, António Cardoso e António Jacinto. Afinal em que critério se baseia o agrónomo para fazer tal juízo do mais velho “Kilamba”? Agualusa precisa preparar um trabalho melhor elaborado para refutar todos os ensaístas que escreveram sobre Neto.»).

Guerras antigas de Angola. Convém estar atento, para que não pensem que ninguém ouve.


 

Entretanto, este é o texto de José Eduardo Agualusa publicado este fim-de-semana no jornal A Capital, de Luanda.

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Noivos, 2.

por FJV, em 25.03.08
A propósito dos noivos: a questão não está em perseguir os que escapam ao fisco. A questão é de princípio, e mais vasta, quando se quer transformar a sociedade boa em fiscal e polícia da sociedade má. E não me venham dizer que é a única maneira de controlar a fuga ao fisco.

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Noivos.

por FJV, em 25.03.08

Parece que a Direcção-Geral de Impostos (DGCI) está a enviar cartas a contribuintes recém-casados pedindo-lhes que prestem informações de natureza fiscal sobre o copo d’água, o número de convidados, a quantidade de crianças presentes, quanto custou e quem pagou o vestido de noiva ou as flores, entre outras matérias. Um dia, para alimentar o Estado, há-de querer taxar os presentes oferecidos aos noivos. A terminar as circulares enviadas aos contribuintes em idade casadoira, depois de fazer pedagogia, as repartições ameaçavam com penalidades e multas caso não obtivessem respostas. Porém, isto aconteceu durante a manhã. À tarde, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, reconheceu que os pedidos de informação eram “excessivos” e ia haver uma “correcção”. Alguém lembrou que não podia ser assim. Que há ou deve haver um mínimo de decência e de inteligência. Ou seja: os cidadãos devem estar alerta para o facto de o Estado nem sempre ter os neurónios no lugar certo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Música, ensino da música.

por FJV, em 12.02.08
A reforma do ensino da música é ridícula. Sobre o assunto assino por baixo este post fatal e minucioso do Fernando Sobral onde estão todas as palavras certas sobre o assunto.

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Justiça e foguetes.

por FJV, em 12.02.08
Ora aí está como o PGR deita tudo a perder num momento de desvario: diz Pinto Monteiro que a simples existência de processos já é um sinal positivo. Não é verdade. A simples existência de processos é um dado estatístico nos tribunais; a quantidade de processos mal instruídos, a falta de provas, os recuos na acusação por falta de materiais, acusações ridículas que caem pela base, enfim, tudo o que se está a ver, isso sim, é muito mais prejudicial para a justiça do que a ausência de processos. Quando o apito dourado cair por terra, ou quase, como caiu o caso do vereador Bexiga, veremos se isso foi benéfico para a justiça e para a imagem que os cidadãos têm da justiça.
Aliás, custa a crer que haja responsáveis que, publicamente, confirmem esta tese: a de que há um preconceito na acusação, que pode vir a ser fatal para todo o inquérito. O PGR colocou-se, voluntária ou involuntariamente, ao lado daqueles que da justiça apreciam apenas o foguetório e a lamechice. Muito mal.

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A shaaria no Reino Unido.

por FJV, em 08.02.08
O arcebispo de Cantuária acha que a Shaaria deve ser aplicada entre os muçulmanos britânicos. O João Miranda lembra, citando esta peça, que existem tribunais judeus. Acontece que a eficácia destes tribunais se centra sobretudo sobre matéria religiosa (questões de liturgia, halachah, divórcio e casamento religioso) ou regulação comunitária, com precedência da lei geral, civil, sobre matérias do foro civil. A questão levantada pelo arcebispo de Cantuária é mais grave: a Shaaria decide a aplicação de penas (o Beth Din de cada sinagoga ou comunidade limita-se a procurar um acordo entre as partes e supõe que ambas as partes aceitem a decisão e o processo) independentemente da aceitação, ou não, da lei islâmica. Por exemplo, a apostasia é um crime à luz da Shaaria, e é punido com a morte; mesmo que o apóstata já não se considere muçulmano, essa não é a opinião do tribunal islâmico. Levar a ideia do arcebispo até às suas consequências normais seria aprovar apedrejamentos, pena de morte, etc. etc.  Mas sim, é um absurdo. A lei geral deve ser lei geral -- aplicada a todos os cidadãos independentemente da sua fé, sendo que a fé deve ser colocada a salvo.

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Aprendam. A aliança entre o Estado e o capitalismo da treta.

por FJV, em 07.02.08
«Um trabalhador que esteja cansado física ou psicologicamente – porque está mais velho, porque tem problemas familiares, porque trabalhar naquela empresa não era exactamente o que pretendia ou porque se desinteressou do trabalho – deve poder ser despedido por justa causa.» Gregório Rocha Novo, membro da direcção da CIP.

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Do «Blog».

por FJV, em 03.02.08
O português de antigamente era poupado, juntava moedas, sabia de economia doméstica, passajava as meias e sabia o que eram meias-solas. O mundo mudou radicalmente mas sobreviveram os certificados de aforro, uma instituição conservadora feita à medida de portugueses conservadores e timoratos, que desconfiavam da Bolsa e dos fundos especiais negociados pelos bancos. O mundo flutuava; os certificados eram sólidos. Não é preciso perceber de economia e Finanças para detectar a marosca, que vinha na primeira página do CM de ontem: “Governo tira 144 milhões a aforradores”. Foi-lhes ao bolso, como costuma? Não. Foi aos certificados, uma coisa fácil de subscrever e um incentivo à poupança efectiva – para o dia de amanhã, para os anos de intempérie. Baixou 0,8% os juros e ficou com 144 milhões para combater o défice e financiar os seus gastos. A Banca e o Governo agradecem em conjunto, desafiando o espírito comezinho dos portugueses que conheciam a palavra “poupança”.
[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Informação & conspiração, 2.

por FJV, em 03.02.08
Imaginemos o mais extremo dos cenários: a demissão de José Sócrates. E novas eleições. Ganharia as eleições de novo? É provável (o factor Menezes conta...). O que quereria isso dizer? Que os eleitores não são sensíveis a essas notícias. Dir-se-ia, então, que foi tempo perdido. Ou seja, que é tempo perdido avaliar ou conhecer o trajecto dos nossos políticos. Que o homem comum é sempre desculpado, porque o eleitorado gosta de pessoas comuns, aprecia manigâncias, tem um secreto gosto por desenrascados, gente que trata da sua vida. Eu tenho admiração por alguns deles, pantomineiros, gente que subiu a pulso, que enriqueceu ou rompeu com o passado de humildade. Mas não aceito que eles me forneçam, com abundância ou com parcimónia, lições de moral ou exemplos para a minha vida.
Ora, pode acontecer que os eleitores até nem sejam sensíveis a estas notícias sobre José Sócrates. Quer isso dizer que devemos desculpar ou deixar passar os factos como irrelevantes? E, se deixarmos passar os factos como irrelevantes, por que razão nos aborrecemos com a cigarrilha de António Nunes no Casino Estoril, com os presentes oferecidos a um autarca, com o sobrinho nomeado por um ministro ou um gestor público, com uma multa de trânsito desculpada? Não são essas as características do homem comum?

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Pois tu foste estrangeiro.

por FJV, em 25.01.08


Este caso dos ilegais marroquinos entregues às autoridades de Marrocos devia dar pano para mangas e não se percebe por que razão não deu. Nem a igreja católica protestou (e eu lembro os tempos em que a Rádio Renascença e figuras da igreja se empenhavam em discutir a situação dos ilegais em Ceuta, por exemplo), nem outras confissões mostraram a sua voz para chamar a atenção para o problema ou para as suas soluções. Pessoalmente, gostava de ver este sector mais atrevido; é uma pena que a Comunidade Israelita de Lisboa não tenha mencionado o tema; que a Mesquita não tenha aparecido. Todos estão adormecidos. Agora é tarde, porque dos 23 desembarcados em Olhão já foram expulsos 16, e desses 16 não há notícias senão de quatro que terão chegado a suas casas. A questão, como demonstrou o Eduardo, não é a da aplicação da lei, mas a da menção à frase essencial «pois tu foste estrangeiro». Tem de haver uma explicação para a dualidade de respostas até agora dadas pelas autoridades; nuns casos, com os holofotes das televisões, vão buscá-los a Espanha para mostrar a face humana da pátria; noutros, expulsam-nos às escondidas porque são marroquinos, gente do deserto, e nem sabiam que tinham chegado a Portugal.

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O fim de uma coisa que não chegou a começar.

por FJV, em 19.01.08
O governo vai acabar com a designação (ao menos para efeitos industriais) de motéis. É uma pena. So fosse no Brasil, seria uma guerra civil, no mínimo.

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Mas enfim, vai haver um hospital.

por FJV, em 18.01.08
O bloco de partos do Hospital de Chaves foi encerrado porque enfim, não fazia falta, está a 68 kms de Vila Real, e bem podem as grávidas de Sto. António de Monforte, Mairos, Izei, Chaves, Faiões, sei lá, Curalha e até Bolideira e Tronco, que já ficam a quase 100 kms, ir para o bloco de Vila Real, onde há tudo, essas merdas. Claro que os pais de Chaves esconderão dos filhos esse trauma vergonhoso que é terem nascido em Vila  Real, a cidade rival sobre a qual se contam histórias que nem vale a pena lembrar. Brincadeira. O que interessa não é isso. O que interessa é que acaba de nascer o Hospital Privado de Chaves que vai ter bloco de partos porque enfim, há 300 pequenos partos, o que já é negócio, antes que se lembrem de ir nascer a Verín ou a Ourense, porque, como me dizia um antigo colega de liceu, antes nascer em Verín do que em Vila Real, são coisas daquelas paragens. E acabo de saber que a filha nasceu mesmo em Verín, que sempre é terra nosa.

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Promessas.

por FJV, em 18.01.08
Este homem sabe o que é uma promessa eleitoral.

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Afinal, quem tinha razão?

por FJV, em 18.01.08
Vamos ser um bocadinho formais: a «posição oficial» deste blog foi a de não hostilizar a lei do tabaco. Cumpri. Tanto eu como o Manuel A. Valente cumprimos; limitámo-nos a indicar uma lista de locais onde é permitido almoçar, ou jantar e, depois, cumprir um hábito convivial e histórico, como fumar com o café e o álcool terminal. Nada demais.
Mas, na verdade, não hostilizámos a lei. Pelo meu lado, aliás, concordo com ela. Limito-me a dizer que o Dr. George tem coisas mais úteis a fazer. Parece que, hoje, o Diário de Notícias (como já antes tinha sido sugerido pelo CM) dá conta de mais uma excepção ao rigor do Dr. George. Não era preciso ir mais longe, e limito-me a repetir o que aqui tinha sido escrito três dias antes da entrada em vigor da lei:

«Sobre a questão do tabaco, os bares e restaurantes podem optar, em determinadas condições, por serem «abertos a fumadores». Alerto, no entanto, para o facto de haver uma lacuna legislativa a explorar: não está regulamentado o modelo desses bares e restaurantes. Roda livre. Esqueceram-se. E a minha fonte é segura.»

Por isso, a posterior tentativa de intimidação, feita pelo Dr. George, é apenas fogo de artifício, pela simples razão de que não pode legislar em directo. O civilizado é isso mesmo: fumadores podem fumar nos locais permitidos; os não-fumadores não fumam em nenhum.

Como, aliás, se percebe: a Asae não tem os procedimentos clarificados.

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