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As coisas que eles dizem.

por FJV, em 20.01.09

Causa estranheza, por exemplo, ser possível afirmar que «as condições económicas se degradaram e que, caso o banco central apresentasse agora previsões, estas seriam mais negativas que as divulgadas no passado dia 6 de Janeiro». Ou seja, como é que uma entidade como o Banco de Portugal, mesmo com a desculpa de estar a lidar com «dados disponíveis até Novembro», faz afirmações tão definitivas e públicas a 6 de Janeiro e ignora o que vieram a ser «as notícias dos últimos 10 dias»? Para a próxima, mais vale esperar pelas notícias dos jornais e desconfiar do BdP.

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Pacificar as massas.

por FJV, em 17.12.08

Uma das tácticas é a de pacificar as massas. Alguns téoricos fantasiam sobre a necessidade de tranquilizar as massas, travando-as com dinheiro ou «condições» para que elas não destruam a Acrópole nem incendeiem Paris. São duas coisas diferentes, é certo, mas tanto a Europa como os EUA optam pelo mais fácil, contentando «os banqueiros» e «as pessoas». Salvo erro, há um mês toda a gente criticava o dinheiro fácil.

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O capital.

por FJV, em 15.12.08

 

Alberto João Jardim acha que há “grupos dentro do PSD” que querem a vitória de José Sócrates para poderem, diz ele, “defenderem os seus interesses económicos”. Não é grande novidade. Para retomar um lugar-comum de séculos, o capital não conhece pátria nem se empata com minudências. Pode ser cruel, mas não deixa de ser verdade. Os “interesses económicos” vêem os tempos de crise a flutuar no horizonte e fazem contas aos milhões de euros que Sócrates anunciou para “apoio à economia”, aos pacotes de “incentivos fiscais” e às “linhas de crédito” que se anunciam – seja lá o que isso for. O pequeno capital lusitano é obrigado a pagar o crédito com o seu silêncio. Jardim esbraceja, como é seu hábito, mas tem razão. Não porque lhe valha grande coisa, mas porque as coisas são como são. Vem nos livros.

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Turbilhões.

por FJV, em 14.10.08

Vivemos em turbilhão. Depois da “onda de criminalidade violenta” durante o Verão, veio a crise financeira no Outono, com a questão dos combustíveis pelo meio. Não sabemos o que nos reserva o Inverno (Steinbeck escreveu “O Inverno do Nosso Descontentamento”), mas de uma coisa podemos estar certos: dificilmente iremos encarar o futuro com a mesma leviandade. As crises obrigam-nos a repensar o modo de vida e a forma como lidamos com as coisas banais: o preço da bica, as compras de Natal, a roupa do ano passado, os gestos menores do dia-a-dia. Há quem se lamente de que, assim, ficamos mais conservadores. Se for verdade, é uma vantagem. Os ‘optimistas’ têm mais desilusões; os ‘pessimistas’ estão mais preparados para os dias que aí vêm. É uma verdadeira lição de teoria política.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Economia pública, 4.

por FJV, em 14.10.08

Enquanto os EUA se iniciam nos mistérios da nacionalização da banca (uma perversidade que vai sair cara), aqui os tempos não estão para minudências. O presidente da Associação de Bancos, por exemplo, diz que a abundância acabou, sem que ninguém lhe tenha chamado astronauta, porque abundância, propriamente, não tem havido. A abundância está sempre a meio caminho da crise num mundo em que se pensa que o crescimento é infinito e que o crédito é o outro nome da riqueza. As pessoas querem uma vida mais fácil. Tem sido, mas para os gastadores, para as companhias de crédito e para os que ganham dinheiro rápido – as empresas e as pessoas têm de trabalhar no duro para sobreviver. É estranho, por isso, que sejam empresas e pessoas a pagar os desvarios de quem esbanjou quase tudo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Economia pública, 3.

por FJV, em 12.10.08

Os portugueses de outros tempos dividiam as sardinhas e sabiam que tanta comida devia servir para tantas refeições. Pelas minhas contas, depois de uma pesquisa bibliográfica, o último livro sobre cozinhar com «aproveitamento de restos» é dos anos setenta, e compra-se (vi lá dois exemplares) em Lisboa na Livraria Barateira. António Barreto falava de uma «década prodigiosa» em que os portugueses mudaram a sua vida e compraram electrodomésticos, foram a restaurantes e mandaram os seus filhos à universidade: estavam no seu direito, num mundo que tinha tudo e em que «o tudo era todo nosso». Sou desse tempo, anterior ao paraíso. Havia o assado ao domingo, sabíamos o que era um farnel e não protestávamos muito diante da comida da cantina da escola. Também visitávamos asilos, lares e hospitais. Durante a guerra, a minha avó recriou dezenas de receitas de sopa – são um prodígio gastronómico – e a primeira pasta fresca que comi não foi num restaurante italiano mas na varanda da casa, no Douro, feita por ela (aprendera a prepará-la durante a Guerra). A economia doméstica, desde então, mudou muito e assemelhou-se à «economia pública», com os seus níveis de desperdício, gasto e transfusões bancárias. O princípio a abater era, necessariamente, o da contabilidade salazarista – «não gastar mais do que se ganha», essa moral pequenina. E havia sempre o futuro, essa espécie de ameaça, de incógnita: uma doença inesperada, um filho na universidade, um azar. Antes do paraíso terreno, a vida era muito pequena e modesta. Que me lembre, ao ler os últimos vinte anos da literatura portuguesa (cada um tem as suas fontes), há muito glamour e dívidas aos bancos, viagens ao Índico e a Nova Iorque, casas copiadas das melhores revistas de arquitectura e um linguajar que nos não pertence. Mas não há portugueses modestos, pequeno-burgueses, daqueles que vão à pesca e sonham em passar uma tarde na Ericeira ou em Mira. Todos sonham com iPhone e, segundo me diz o meu merceeiro, já houve quem fizesse reserva de Beluga para o próximo Natal, porque não está para «os problemas do ano passado». Razão tinham os pessimistas de serviço quando Guterres repousava sobre aquele retrato de portugueses a passar fins-de-semana no Algarve e a encher as lojas de telemóveis. Estava escrito.

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Economia pública, 2.

por FJV, em 12.10.08

Os portugueses de antanho tinham depósitos a prazo e juntavam certificados de aforro, precisamente aqueles que desvalorizaram há uns tempos. Cidadãos de economia periférica, as suas arrecadas não flutuavam (julgavam eles) conforme a Bolsa. Por isso, muitos deles (de nós) não percebem o alcance da crise nem imaginam que os seus fundos, resultado de poupanças extraordinárias, parcimónia nos gastos e recusa de excessos, serviam para financiar empréstimos de duvidoso resgate. Esses portugueses, portanto, estão dispostos a tudo para salvar o seu futuro modesto. Ao ouvir Teixeira dos Santos declarar que há falta de liquidez no sistema bancário, eles ouviram bem e traduziram: há falta dinheiro.

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Economia pública.

por FJV, em 12.10.08

José Medeiros Ferreira tem razão na pergunta: «Não será mais barato, e mais eficaz, suspender algumas delas [bolsas] para uma semana de reflexão, e deixar a actividade económica seguir o seu curso, com o papel parado?» Mas a bolsa não pára. Nem a vida. Notam-se festejos a cada anúncio de nacionalização (uma perversidade que se vai pagar caro), porque assim se esmagam os argumentos «dos neo-liberais»; no entanto, a vingança serve-se fria e não a quente. A única coisa que me parece merecer preocupação assistencial são as economias dos cidadãos que não têm culpa dos desvarios em que não entraram. Meia-dúzia de conhecidos fizeram as últimas férias, com viagens pelas Caraíbas e pelo Oriente, com o recurso ao crédito; ainda não estão pagas, pelo que sei, mas fazem planos para as próximas. Os outros, os que não têm culpa dos desvarios em que não entraram, fizeram férias modestas, contaram os cêntimos, seguiram a lei da simples modéstia, geralmente classificada como de contabilidade pacóvia. Também não compraram casas de meio milhão de euros nem reservaram carro a contar com os dias futuros. Deve haver um sentido para isto. Para estes.

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Contribuições & solidariedade.

por FJV, em 30.09.08

De repente, à esquerda e à direita surge uma onda de solidariedade com “as vítimas” do desastre financeiro que está à vista. Os mais “solidários” voltam-se contra o Congresso Americano que desobedeceu aos chefes partidários e achou que não devia aprovar o plano de salvamento que lhes era proposto lá de cima. Os “solidários” acham que é egoísmo não querer dar uns dólares ao vizinho. O problema é que não se trata de “uns dólares” – são, pelo menos, 2500 por cada cidadão americano. E não é ao vizinho – mas sim aos bancos que usaram e abusaram do risco. Não é preciso perceber de economia para saber que são os contribuintes que vão pagar a despesa; por isso, a falência desses bancos não me parece mal. Se é preciso aplicar o dinheiro dos contribuintes, há muito por onde começar.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Reflexões sobre o almoço.

por FJV, em 30.09.08

Para já, a crise financeira chega a Portugal como um eco de falências e turbulências na bolsa. O “cidadão médio”, no entanto, faz contas. E são simples: afastado da ribalta da grande especulação, limita-se a recordar as aulas de contabilidade salazarista, que é a mais apropriada para o seu caso – não pode gastar mais do que ganha. Bem vistas as coisas, pela lógica dessa contabilidade, também os bancos não podiam emprestar mais do que tinham, para que os clientes não pudessem dever mais do que podiam. O alto capitalismo vive na corda bamba, o que é bom para grandes contas e riscos incalculáveis, mas fatal para a economia de quem vive com decência. E é isso: o “cidadão médio” faz contas: deve o telemóvel, parte da casa, parte do carro, parte das férias. Ou seja, aprende o que já sabia – que um almoço nunca é de graça.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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A crise.

por FJV, em 17.09.08

Grande parte da «crise actual do capitalismo» ainda não está a ser sentida pelo cidadão comum, para quem as designações de Merrill Lynch ou Lehman Brothers ou Freddie Mac vêm de um universo que apenas se conhece através da imprensa económica. Mas é esse 'cidadão comum' (eu, o leitor, o seu vizinho) que há-de pagar as favas depois de perceber como se devolve a 'teoria do dominó'. Por um lado, os acontecimentos minam a confiança no sistema financeiro; por outro, mostram que não é possível prolongar artificialmente a existência das corporações (como Merrill Lynch ou Lehman) que se portaram mal ou arriscaram em demasia; não há como evitar-lhes a falência. As leis da vida são cruéis, e convém um mínimo de sensatez na gestão das nossas economias. É essa a lição a retirar, como sempre.

Da coluna do Correio da Manhã.]

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