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A Mais Alta Voz. [José Luís Tavares em homenagem a Ildo Lobo]

por FJV, em 20.10.08

 

Declinava outubro com seu som

de poucas águas. E nem as lágrimas

da virgem da ladeira prometiam,

nesse ano, o sempre aguardado milagre.

 

E então tu partiste – pelas quebradas

de saibro e cieiro, pelas alturas de pico

d'antónia, tu, infante das planuras,

eterno enamorado do whisky e da maresia.

 

«Serenata nun luar klaru», «kabral ka more»

«djonzinhu kabral» – que compadecida voz

as recitará de novo nas madrugadas de facas

e despedidas? Quem rogará às ondas do mar

«faze-m un arku ba poiza la riba na krus d´igreja»?

 

Sin, «notísia tristi N ten pa N da:

fidju tera, barku grandi ka rizisti»,

declinava outubro com seu eco

de vígeis espigas, e lisboa era esse céu

toldado de presságios, tal indemne profecia

soluçando à ilharga da manhã.

 

Só tu eras a mais alta estrela «na séu di kabu verdi»,

só tu sabias ma «ka ten dia ka ten manhan»,

mas «na porton di nos ilha» bu vos é son

di strubon ta ronka pa iternidadi.

 

 

Passam hoje quatro anos sobre a morte de Ildo Lobo.

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por FJV, em 08.08.07
||| João Vário (1937 - 2007).










Morreu nesta madrugada, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, o poeta João Vário (aliás cientista e neurocirurgião João Manuel Varela, aliás poeta Timóteo Tio Tiofe, aliás contista G. T. Didial), o meu eterno candidato africano ao Prémio Camões.

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E então subimos aquele grande rio
e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do pais
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

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Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosissimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.


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Mais poemas de João Vário aqui.

[FJV]

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por FJV, em 25.06.07
||| Cabo Verde, hoje e por estes dias. Já se ouvem mornas no jardim da Casa.[*]













Hoje, às 18h30, inauguração da quinzena de Cabo Verde na Casa Fernando Pessoa. Haverá música e pontche, necessariamente. A exposição Cabo Verde / Coração de Coral apresenta materiais da vida quotidiana de Cabo Verde, de capas de discos a bilhetes de autocarros e instrumentos de cozinha ou manuscritos de poetas caboverdianos.
Amanhã, Arménio Vieira estará na Casa, para lançar o seu novo livro (com apresentação de Torcato Sepúlveda), às 18h30. Não perder a sessão de 4 de Julho, também com pontche para beber e boa música para ouvir; à meia-noite comemora-se o aniversário da independência do arquipélago.

[*] - E isto é rigorosamente verdade, nesta altura.
[FJV]

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