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«O resumo do antigo regime. Um país que produz muito pouco além de comerciantes, famílias ilustres, apelidos e casas de férias. O mal português é esse, o incesto.»

por FJV, em 17.04.19

«O resumo do antigo regime. Um país que produz muito pouco além de comerciantes, famílias ilustres, apelidos e casas de férias. O mal português é esse, o incesto. A endogamia. Banqueiros cujas filhas mais novas casaram com rapazes que dançavam bem nos anos setenta. Depois, os rapazes envelheceram e casaram com outras mulheres mais novas e ligeiramente mais tontas, mas conservaram a marca de origem. Filhos que receberam um apelido e que mais tarde entraram nos quadros do banco ou voltaram a casar com uma mulher que leva no nome qualquer coisa como Companhia Limitada. Sociedade Anónima. A mesma coisa há duzentos anos. Um avô que foi ministro da República e afilhado de um ministro da Monarquia. Uma avó que teve um amante diplomata em Roma. Temos os arquivos cheios de casos assim. Adolescentes que se conheceram no picadeiro, montando cavalos que também já são cruzamento entre famílias. Férias em Moledo, passeios no rio Minho, estadas no Algarve. Não. O Algarve é mais recente, é uma coisa recente. O Algarve é uma coisa do tempo de depois do ié-ié, do biquíni autorizado pela família, do tempo do segundo ou do terceiro divórcio quando a moral deixa de ser a porta de entrada e é só um corredor, uma passagem, uma genuflexão. Havia tios poderosos, ministros e subsecretários de Salazar que passavam férias com um criado ao pé do telefone. Salazar podia telefonar, se bem que Salazar nunca telefonasse. Sua excelência não gastava dinheiro em telefonemas – escrevia cartas, não tinha a febre da velocidade.» (Francisco José Viegas, O Colecionador de Erva)

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