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O género da Natureza.

por FJV, em 30.04.19

Todos os anos dou um curso sobre história da literatura policial; um dos temas é “por que razão as mulheres matam melhor?” e diverte-me bastante porque a pergunta tem razão de ser. Agora, soube que o instituto meteorológico inglês (que, felizmente, não é “do mar e da atmosfera”, mas mesmo meteorológico) se preocupa com o nome e o género atribuído às tempestades e furacões. Por um lado, nomes femininos para temporais não mobilizam tanto a atenção do público, que os considera mais amenos; por outro, parece que as tormentas a que foram dados nomes femininos se revelaram mais mortais e destruidores. O estudo não é totalmente patarata; a universidade do Illinois (EUA) diz que, quando se aproxima uma tempestade com nome masculino, as pessoas ficam em casa e protegem-se; quando a borrasca tem nome feminino, tendem a desvalorizar. Ora, as tempestades mais mortíferas em Inglaterra na última década foram a Doris, a Ophelia e a Emma. Mas as autoridades querem ver se há aqui um problema de machismo à espreita, ou de género, como agora se diz. E é capaz de haver, que a natureza é muito tonta.

Da coluna diária do CM.

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A escola e a guerrilha.

por FJV, em 29.04.19

O senhor ministro da Educação tem uma pituitária atrevida. Só isso explica que, ao ouvir um deputado criticar a “ideologia de género”, tenha anunciado que lhe cheirava a naftalina, acorrendo com um poema desse grande reacionário chamado Álvaro de Campos (o “Aviso por causa da moral”) como antídoto. Fez mal. Uma coisa é termos um ministro da educação que gosta de gracejar – outra, diferente, é termos um ministro que, além de gracejar, discute com sensatez e sem sobranceria as coisas que se lhe apresentam. Mesmo que não concordemos com as objeções colocadas pelo deputado Bruno Vitorino em relação à “ideologia de género” (trata-se de “ideologia” e não de ciência), essas questões devem ser colocadas com seriedade e não declaradas aceites com unanimidade, ligeireza e estultícia. É certo que o senhor ministro da Educação tem a seu favor uma maioria política parlamentar, mas isso não lhe garante nem sabedoria nem razão. A escola transformou-se num território de guerrilha e formação ideológica e caberia ao ministro da Educação defender a liberdade dos cidadãos e não fazer tantas graçolas.

Da coluna diária do CM.

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A doença crescente.

por FJV, em 26.04.19

Das palavras do Bispo do Porto sobre a ditadura do trabalho gerada pelos “novos senhores do mundo que dominam a economia”, e sobre o capitalismo como inimigo da  família, fixámos sobretudo o que tinha a ver com o encerramento dos supermercados e centros comerciais ao domingo. É pena, porque o ataque de D. Manuel Linda ao capitalismo quotidiano é muito importante; o problema dos centros comerciais é outro. Encerrar os centros comerciais ao domingo até faz sentido como um ataque ao consumismo, mas coloca o problema do descanso obrigatório (que o judaísmo resolve com o ‘shabbat’, uma paragem radical do tempo em prol dos indivíduos e da família – de que o cristianismo já não dispõe) para os outros trabalhadores. Os dos cafés e restaurantes, das telecomunicações, do turismo em geral, dos transportes, da imprensa, dos museus, dos hospitais, dos aeroportos, etc. O Bispo do Porto não resolve isto com uma proibição, se bem que fosse bom que o mundo parasse um dia por semana. O problema é sermos cada vez menos espirituais. No seu rebanho, D. Manuel Linda sabe que é essa a doença crescente.

Da coluna diária do CM.

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É assim que se fazem revoluções.

por FJV, em 25.04.19

A história é muito simples. Na madrugada do 25 de Abril, a coluna militar que se dirigia a Lisboa tropeçou nos semáforos perto da Portela e parou porque a luz ficou vermelha. A marcha dos veículos ficou por instantes imobilizada diante de um sinal de trânsito, até que alguém lembrou que se tratava fazer uma revolução e não um exame do código da estrada sob o olhar da Polícia de Viação e Trânsito (era um nome de então). Quarenta e cinco anos depois, já não sei se esta história é verdadeira – tantas vezes ma repetiram (até por Carlos Beato – excelente homem que viria a ser presidente da Câmara de Grândola – que ia na dianteira da coluna) que deve ser. Tal como a do comandante do grupo de fuzileiros que ia tomar a PIDE e que foi bater com modos e educação à porta da polícia sacana (“Venho tomar esta casa em nome da Nação”, disse Miltinho, antes de um antigo camarada de armas, razoável, o mandar para trás). Pois cá estamos nós, quarenta e cinco anos depois, a recordar o semáforo da Portela e a porta da PIDE. Felizmente que tudo se recompôs na altura. É assim que se fazem revoluções.

Da coluna diária do CM.

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Sri Lanka.

por FJV, em 24.04.19

A barbárie adormece-nos pela sua repetição em diferentes lugares e circunstâncias: igrejas católicas ou outros locais de culto vandalizados começa a ser assunto banal nas notícias. Não preciso de invocar o número de sinagogas, cemitérios e instituições judaicas ou de mesquitas atacadas – mas o registo de templos cristãos não parece incomodar os próprios, mesmo quando o número de vítimas cresce todos os anos e aparece em primeiro lugar no registo de atentados criminosos. Não apenas em África e na Ásia ou Médio Oriente, mas também pela Europa fora, onde a chamada “consciência cristã” se limita a, muito vagamente, ter sido educada numa ordem a que já ninguém liga e a que a opinião dominante não parece prestar muita atenção. Se os atentados no Sri Lanka decorrem num território de conflitos religiosos permanentes (mas onde os católicos nunca tinham sido atacados desta forma) – sobretudo entre hindus, muçulmanos e budistas –, o vandalismo anti-católico na Europa é silenciado de forma envergonhada pela imprensa. A história não procura vinganças. Mas a indiferença provoca-as bastante.

Da coluna diária do CM.

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A regra de São Bento.

por FJV, em 23.04.19

No “começo da internet”, como no apogeu da cultura televisiva, ninguém – a não ser conservadores contumazes, cavernícolas por feitio ou gente sem apego às maravilhas do mundo moderno, que nem telemóvel se preocupavam em ter – se atrevia a pôr em causa as vantagens dos novos tempos. Elas são enormes e inegáveis, indispensáveis ao nosso modo de vida atual. Mas hoje, que é o Dia Mundial do Livro, convém perguntarmo-nos se perdemos ou não alguma coisa com essas “vantagens dos novos tempos”. Perdemos. Provavelmente, como nos explicam os “especialistas em comunicação” (que nunca arriscam mais do que o seu nariz), nasceram outras formas de leitura e de conhecimento. Há um denominador comum a uni-las: o desprezo a que votam o livro e a leitura aprofundada, demorada e concentrada. Nada que incomode os profetas. No século VI, a regra de São Bento impunha não o direito de ler (que já era um avanço na época) mas o dever de ler: os monges eram obrigados a ler. Hoje, isso passa por ser uma excentricidade monástica. Mas foi essa regra que permitiu a civilização tal como a conhecemos. Lembrem-se.

Da coluna diária do CM.

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Dia do livro, à beira do desastre.

por FJV, em 22.04.19

Amanhã, 23 de abril – Dia Mundial do Livro – decorre em Lisboa a iniciativa Manifesta-te pela Leitura. Um pouco por todo o país, livrarias, bibliotecas e escolas assinalarão a data e vários responsáveis falarão, como convém, de “leitura & cidadania”, e é provável que outras entidades com certo peso declarem, com um otimismo apalhaçado, que se lê cada vez mais, que é necessário defender e promover a leitura e que “nunca como hoje” se leu assim. Como é evidente, trata-se de uma falsidade rocambolesca: o mercado do livro em Portugal perdeu cerca de 30% nos últimos anos (a situação não é diferente de outros países). Simplesmente, uma coisa é perder 30% em relação a milhões de leitores  – outra coisa é perder 30% de quase nada. Nesta matéria, Portugal está nos últimos lugares nos estudos sobre hábitos de leitura nos inquéritos do Eurostat. A responsabilidade é de todos (a começar pelas “elites”) mas, sobretudo, da política escolar dos últimos 20 anos, que tem destruído a cultura do livro. Festejar a leitura é um sinal de fé e resistência – mas o desastre é demasiado visível e grave. 

Da coluna diária do CM.

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Páscoa, de novo.

por FJV, em 19.04.19

A Páscoa judaica celebrava-se cerca de mil anos antes de Cristo, assinalando a libertação dos escravos hebreus no Egito. Jesus celebrou essa Páscoa e transformou-se no intérprete de outra – que trata da sua vida, morte e ressurreição. A leitura dos evangelhos canónicos (respetivamente de Mateus, Marcos, Lucas e João) é uma experiência literária cativante e, para os cristãos, uma travessia da história. É curioso que, mesmo para não crentes, dois mil anos depois estes textos continuem a despertar uma torrente de interrogações, espantos, entusiasmos e emoções – que me interessam mais do que a fé absoluta. Falar disto é uma espécie de despropósito num mundo que reduz a Páscoa a confeitaria e chocolate, mas acredito que vale a pena insistir. Todos os anos há uma celebração importante a registar – mas sempre em nome da liberdade: ou em nome dos escravos que se libertam e atravessam o deserto, ou em nome de quem se liberta da lei da morte através de uma mensagem inovadora e tão cheia de ironia como de promessa. É isso que celebramos todos os anos. Boa Páscoa.

Da coluna diária do CM.

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Criatividade linguística e analfabetismo.

por FJV, em 18.04.19

A criatividade linguística tem limites? Talvez. Em literatura, o limite é mais vasto – e as suas fronteiras são indefinidas. Mas convém que, na “linguagem oficial”, os incumbentes de certos cargos (do Presidente da República ao diretor das alfândegas ou o secretário de uma associação de bombeiros), não se exprimam nem por sonetos (como, por graçola, Eça sugeria aos políticos de antanho), nem como Odorico Paraguaçu, o personagem de telenovela brasileira. Já tivemos um caso extraordinário e infeliz, o do “inconseguimento” (protagonizado pela segunda figura do Estado na altura, Assunção Esteves); de cada vez que alguém diz “inconseguimento”, desatamos a rir porque se trata de alguém que “desconseguiu” falar corretamente, de acordo com as normas. Ontem, o primeiro-ministro, ao falar da decisão de não construir uma barragem no Alto Tâmega, mencionou a sua “desnecessidade”. A Língua Portuguesa (eu escrevo com maiúsculas, porque ela merece) leva hoje em dia tratos de polé sem necessidade nenhuma. É nestes casos que se pede que o exemplo venha de cima, e em termos que nos tranquilizem.

Da coluna diária do CM.

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Ricardo Chibanga.

por FJV, em 17.04.19

Que pena, Portugal; que pena não teres prolongado a vida e a glória de Ricardo Chibanga (1942-2019). Naquele belo poema de Alexandre O’Neill – “ó Portugal, se fosses só três sílabas/ de plástico, que era mais barato” – há referência a “toureiros da Golegã” e eu lembrei-me de Ricardo Chibanga, nascido em Lourenço Marques (no pobre bairro da Mafalala), que morreu anteontem na Golegã. Eu sei que as meninas e os meninos hoje não gostam de tauromaquia e ficam transidos de indignação com as praças de touros, mas isto não tem a ver com o assunto: Ricardo Chibanga faz parte da nossa galeria de retratos e devíamos amá-lo com orgulho. Recordo-me (era miúdo) do olhar, do sorriso e do “porte altivo do rosto” de Chibanga, o negro mais negro das arenas, o nosso toureiro preto vestido de ‘traje de luces’, desafiando um país branquinho “de plástico, que era mais barato”, levando cornadas e encarando a morte com galhardia. Chibanga interpretou (tal como outros, a lista é vã) o orgulho negro em Portugal. E devia – em conformidade – ser motivo de orgulho português, aplaudido de pé. Com solenidade.

Da coluna diária do CM.

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«O resumo do antigo regime. Um país que produz muito pouco além de comerciantes, famílias ilustres, apelidos e casas de férias. O mal português é esse, o incesto.»

por FJV, em 17.04.19

«O resumo do antigo regime. Um país que produz muito pouco além de comerciantes, famílias ilustres, apelidos e casas de férias. O mal português é esse, o incesto. A endogamia. Banqueiros cujas filhas mais novas casaram com rapazes que dançavam bem nos anos setenta. Depois, os rapazes envelheceram e casaram com outras mulheres mais novas e ligeiramente mais tontas, mas conservaram a marca de origem. Filhos que receberam um apelido e que mais tarde entraram nos quadros do banco ou voltaram a casar com uma mulher que leva no nome qualquer coisa como Companhia Limitada. Sociedade Anónima. A mesma coisa há duzentos anos. Um avô que foi ministro da República e afilhado de um ministro da Monarquia. Uma avó que teve um amante diplomata em Roma. Temos os arquivos cheios de casos assim. Adolescentes que se conheceram no picadeiro, montando cavalos que também já são cruzamento entre famílias. Férias em Moledo, passeios no rio Minho, estadas no Algarve. Não. O Algarve é mais recente, é uma coisa recente. O Algarve é uma coisa do tempo de depois do ié-ié, do biquíni autorizado pela família, do tempo do segundo ou do terceiro divórcio quando a moral deixa de ser a porta de entrada e é só um corredor, uma passagem, uma genuflexão. Havia tios poderosos, ministros e subsecretários de Salazar que passavam férias com um criado ao pé do telefone. Salazar podia telefonar, se bem que Salazar nunca telefonasse. Sua excelência não gastava dinheiro em telefonemas – escrevia cartas, não tinha a febre da velocidade.» (Francisco José Viegas, O Colecionador de Erva)

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A Guerra dos Tronos.

por FJV, em 16.04.19

Passei a semana a ver a sétima temporada da Guerra dos Tronos como preparação para o primeiro episódio da nova série, que ainda não vi e, provavelmente, não verei esta semana. Não aguentaria passar uma semana a imaginar como seria o segundo episódio e, provavelmente, não aguentaria passar outra semana a imaginar como seria o terceiro – o que significa que não sei quando verei a oitava e derradeira temporada. O ideal seria isolar-me do mundo e evitar toda e qualquer conversa sobre A Guerra dos Tronos. Há quem pense que isto é um sinal de adolescência retardada ou atrasada. Têm razão: é. A Guerra dos Tronos tem tudo o que convém a um espírito que não quer perder a capacidade de imaginar: horror, sexo, morte, dragões, violência, fantasmas, medo, magia, superstição, poder, superação, humor e também poesia. Mesmo assim, tem menos ilusionismo do que as últimas declarações do ministro Centeno e menos humor do que as interessantes regras do concurso para guarda florestal. O problema é que daqui a um mês e meio estará tudo acabado. Na Guerra dos Tronos, claro. O resto continua.

Da coluna diária do CM.

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Chaplin.

por FJV, em 15.04.19

1889 é o ano do nascimento de Salazar, de Hitler e do último rei português, D. Manuel II (e, já agora, do filósofo Martin Heidegger) – e de Charlie Chaplin, em Londres, numa família de artistas do espectáculo; o pai, alcoólico, morreu de cirrose; a mãe, foi internada por ter “problemas mentais”. Charlot, a grande criação de Chaplin, estreou-se no cinema em 1914, nos EUA, onde o ator e realizador entrara quatro anos antes. Todas as peripécias biográficas são conhecidas – tal como as pantominas de Charlot, que hoje não comovem crianças nem adolescentes mas que há duas gerações ainda faziam rir toda a gente. A Quimera do Ouro (de 1925) é talvez o seu grande filme, mas eu prefiro O Grande Ditador (1940, no apogeu da II Guerra – a cena de Chaplin vestido de Hitler, e a fazer saltitar o globo terrestre, é a mais conhecida), As Luzes da Ribalta (1953, com Buster Keaton) ou Tempos Modernos (1936), para lá de todos ou quase todas as aparições de Charlot. Inovador no cinema mudo, Chaplin e Charlot andam de mãos dadas na nossa imaginação. Amanhã passam 130 anos sobre o seu nascimento.

Da coluna diária do CM.

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Os fascistas espanhóis levantam a cabeça.

por FJV, em 12.04.19

Várias escolas públicas de Barcelona decidiram varrer os ficheiros das suas bibliotecas a fim de eliminar os livros considerados sexistas. Entre estes, encontram-se Capuchinho Vermelho, Cinderela ou Branca de Neve – e, enfim, cerca de 30% dos títulos encontrados. São os livros que as fascistas de Barcelona consideram “tóxicos”; os restantes dividem-se entre “problemáticos” (60%) e os “adequados a uma perspetiva de género” (uns pobres 10%). Se um dia estas fascistas decidem que os “problemáticos” também devem ser retirados das estantes, bem podem acender uma fogueira e fazer o que fizeram os seus antepassados da Inquisição, a cujo mundo pertencem. Exagero? Uma sindicalista (as centrais sindicais espanholas têm grupos de fascistas pedagógicos) já o lembrou: “Não vamos acender uma fogueira, mas devemos refletir.” Esta purga é organizada por professores, pais e mães imbecis, sindicalistas e loucos indeterminados, mas ameaça fazer lei por todo o lado. Eu até aceitaria discutir o assunto com alguma cordialidade, mas prefiro começar pelo mais básico: chamando fascistas às fascistas.

Da coluna diária do CM.

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Claudio Magris, um mestre.

por FJV, em 10.04.19

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Há dois anos, com Magris.

 

Claudio Magris completa hoje 80 anos. Não falo dele por ser uma espécie de “eterno candidato” ao Nobel (aquele prémio que hoje é uma espécie de fancaria para iletrados nórdicos, como se viu), mas por ser um dos grandes pensadores da Europa – além de apaixonado de Portugal. Justamente, escreveu um conto, “O Conde”, sobre a figura do “Duque da Ribeira”, essa personagem incontornável da memória portuense. O seu Danúbio é um belíssimo livro de viagem e uma redescoberta da cultura europeia, único e duradouro. Pensador complexo e prosador simples, clássico e atrevido, nostálgico de “uma Europa dos cafés” (como George Steiner, outro grande mestre), por vezes a obra de Magris recorda-nos que somos um continente flutuante, tanto à deriva como à procura das suas raízes. Este italiano (de Trieste) fascinado pela cultura alemã e pelas línguas europeias, autor de Alfabetos e de Às Cegas, previa há muito que a Europa se transformaria nisto: um lugar envelhecido e tempestuoso – mas o único lugar onde sabemos viver em paz com a nossa ideia de felicidade e a memória dos nossos antepassados.

Da coluna diária do CM.

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Census e raça.

por FJV, em 09.04.19

Coro de vergonha ao saber que um grupo de trabalho governamental vai propor que o Censos de 2021 tenha uma pergunta sobre a “origem étnico-racial” de cada cidadão, ou seja, se se é “branco, negro, cigano ou asiático”. Compreendo que a maquineta ideológica precise destes dados para tirar conclusões sobre “racismo e xenofobia” – quando o que é necessário é tirar conclusões sobre integração social e rendimento familiar (mas isso não lhes interessa, porque, moderninhos como são, já não acreditam na luta de classes). Mas tenho vergonha porque, ainda que essa informação não figure nos Cartões de Cidadão, ela foi pedida numa sondagem que garante que 78% dos portugueses quer essa informação, e que 80% está disposto a dá-la. Eu não quero. Não quero um país de guetos e de etnias em trincheiras. Quero um país onde a etnia, a raça, a religião, a língua ou o sexo não contem para o Estado. E em que sejam punidos os que se atreverem a discriminar alguém com base nestas características. E coro de vergonha ao saber que o grupo tomou a sua decisão com o apoio de uma sondagem onde há tanto racista iludido.

Da coluna diária do CM.

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Jacques Brel, on n’oublie rien.

por FJV, em 08.04.19

Em 1974, pelo 25 de Abril, o top de discos português era dominado por Terry Jacks, um canadiano que cantava ‘Seasons in the Sun’ – uma das canções preferidas de Curt Cobain, o líder dos Nirvana. Mas o autor da versão original (‘Le Moribond’) era um belga, Jacques Brel, e tinha aparecido em 1961, no álbum Marieke, ao lado de canções inesquecíveis como ‘On n’oublie rien’ ou ‘Le prochain amour’. Brel (1929-1978) é o meu cantor, juntamente com Leonard Cohen ou Bob Dylan; nasceu há exatamente 90 anos cumpridos hoje e merece ser ouvido com solenidade e admiração. ‘Ne me quite pas’, ‘La valse a mille temps’, ‘Quand on n’a que l’amour’, ‘Marieke’, ‘Les bonbons’ – a lista de canções de Brel é vasta para tão pouco tempo de carreira e de vida (dedicou-se ao cinema a partir de 1967 –morreu aos 49 anos). Filho da melancolia belga (é o autor da belíssima ‘Le plat pays’), católico e bilingue (francês e flamengo) de Bruxelas, Brel cantou toda a tristeza possível, a beleza, o riso e a ironia. Está sepultado nas suas amadas ilhas Marquesas, na Polinésia, a dois passos do pintor Paul Gauguin. 

Da coluna diária do CM.

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Família & famiglia, 2.

por FJV, em 05.04.19

Uma pessoa começa por ler as notícias sobre a nomeação de familiares (e relativos”, resumindo) para cargos políticos no Estado com alguma distância, esperando para ter o retrato completo. Depois, a lista aumenta e torna-se preocupante. Já aqui escrevi que o mais grave de tudo não é o escrutínio destes casos presentes – mas o que a situação revela quanto à endogamia da classe dirigente, ao seu escol de cumplicidades e à falta de mobilidade social que lhe está na base desde o século XIX. Ao contrário do que se diz, a campanha contra esses casos de familiaridade excessiva (não parece haver ilegalidade flagrante em nenhum deles), que acabam por constituir uma rede de amizades, não é a demonstração do “desespero da direita” diante dos sucessos governamentais, ou uma patetice que antecipa a silly season. É, além de tudo o resto, uma questão de pudor social. E de falta de elegância no exercício do poder e nas nomeações para cargos não eleitos que dependem de confiança política e pessoal. O The New York Times ficou espantado com o despudor. Nós não ficamos espantados mas também não apreciamos o gesto.

Da coluna diária do CM.

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Hugo Claus, a solidão belga.

por FJV, em 04.04.19

Conheci Hugo Claus em Antuérpia, a sua cidade natal – emblema da Flandres, terra de pintores (como Brueghel, Rubens, Snyders ou Matsys), grandes tipógrafos (Plantin ou Moretus), músicos, negociantes e lapidadores de diamantes. Claus, ele próprio filho de um tipógrafo, habituado ao cheiro da tinta e do papel impresso, foi um dos grandes escritores europeus do século XX (1929-2008) e autor de um dos mais belos livros sobre a Bélgica e a Europa, A Tristeza dos Belgas (Le Chagrin des Belges) – um romance publicado em Portugal infelizmente sem grande sucesso, e que contribuiu para que o seu nome estivesse quase sempre na lista dos candidatos mais prováveis ao Nobel da literatura. É um gigantesco livro passado durante a II Guerra, um retrato do nacionalismo flamengo e das suas contradições, bem como da nostalgia de um país impossível, sitiado e minúsculo. Há passagens que deviam ser lidas ao som de Jacques Brel. Viveu com Sylvia Kristel, a atriz de Emmanuelle (na sala, em Antuérpia, havia uma cadeira igual à do filme, que eu cobicei). Completaria amanhã 90 anos de solidão belga.

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Diogo Faro em Teerão.

por FJV, em 03.04.19

O humorista Diogo Faro foi mandado embora do Irão – foi ontem anunciado pelo próprio. Parece que a República Islâmica do Irão não gosta de humoristas, especialmente dos que, como Diogo Faro, andam “a ser marxistas culturais, a defender a igualdade de género e os direitos LGBTI” (são expressões do próprio). Estou com Diogo Faro, embora eu gostasse de ir ao Irão, especialmente a Shiraz. Seja como for, acho estranho que nenhum “ativista cultural” (como agora se diz) tenha já antes avisado os visitantes do Irão de que podem enfrentar problemas desta natureza mal aterrem em Teerão – mas se tenham esfalfado a recomendar a Conan Osíris que não vá a Israel porque é um país onde uma pessoa chamada Conan Osíris pode até vencer o eurofestival, ser marxista cultural, e defender a igualdade de género ou os direitos LGBT (em Israel ambos estão garantidos historicamente), ao contrário de países com os quais os “ativistas” se solidarizam, e nos quais a comunidade LGBT e as mulheres são apedrejadas até à morte com bastante aplicação e publicidade. Ainda bem que Diogo Faro regressou incólume.

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Barca d’Alva e a nossa soberania.

por FJV, em 02.04.19

Lembro-me de Barca de Alva durante a minha infância e adolescência, quando se faziam ligações ferroviárias para Espanha. Em dois verões seguidos fomos às festas no lado de lá da fronteira — e havia um restaurante na estação, aguardando pelos comboios. No fundo, foi por lá que Jacinto e Zé Fernandes entraram em Portugal, no romance de Eça de Queirós, A Cidade e as Serras. Hoje, descendo para Barca de Alva pela Serra do Reboredo (o meu caminho preferido), vê-se um casario reduzido, a prata do rio e os sulcos de olivais e vinhas. Mas a aldeia – que sempre foi pequena – quase desapareceu, incluindo a estação dos correios (um ilustre edifício abandonado e em ruínas). O cais tem dois ou três barcos de cruzeiro, de bom porte, mas há poucos turistas pela rua. Sentimental, imagino Guerra Junqueiro a passear nos amendoais (ele passava temporadas aqui, na sua quinta), e Jacinto e Zé Fernandes a despertar da viagem num dos comboios que já não passa em Barca de Alva (“Cheira bem!”, repete Jacinto pela milésima vez). A nossa soberania em Barca de Alva é um risco de melancolia.

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São Salvador da Bahia de Todos os Santos, 470 anos.

por FJV, em 29.03.19

Passam hoje 470 anos sobre a fundação de São Salvador da Bahia de Todos os Santos – ou seja, a cidade de Salvador. A nossa história está ligada à da primeira capital do Brasil, estabelecida por Tomé de Sousa, o governador-geral da colónia, em 1549. Porque a conheço bem, não partilho a ideia festiva de uma “cidade alegre” e “desejável”. E, ainda hoje, mais do que a barulheira insuportável da cidade, procuro os sinais que me agradam e comovem: a passagem do Padre António Vieira, talvez certos versos de Castro Alves, e os melhores romances de Jorge Amado – além da música, naturalmente (está lá o génio miraculoso de Dorival Caymmi), e da chamada “arquitetura colonial”, um colosso. Cidade negra e misturada, Salvador é um gigantesco romance de Amado – mesmo que o não seja de verdade. Dona Flor e os Seus Dois Maridos é sublime, prodigioso; Tenda dos Milagres, um tratado de antropologia, tal como Os Pastores da Noite é um registo histórico a não perder. Pobre, sensual, histriónica, diabólica, violenta, e também divertida, a beleza impura de Salvador às vezes ainda comove perdidamente.

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Retrato da desgraça.

por FJV, em 29.03.19

Cerca de 33% dos americanos que terminam o ensino secundário nunca mais leu um livro até ao fim da vida. O número é avançado num estudo do Pew Research Center publicado recentemente. Por ele ficamos a saber que 42% dos licenciados jamais leram um livro depois da faculdade e que 70% dos adultos norte-americanos não entraram numa livraria nos últimos cinco anos. Num estudo similar regista-se que 80% das famílias norte-americanas não compraram nem leram um livro em 2018. Em resumo, nos últimos dez anos houve uma queda de 37% da venda de livros nos EUA. A situação em Portugal é, digamos, parecida. Ao contrário do que algumas boas almas apregoam, os números descem diante da passividade das chamadas instituições públicas – convencidas de que as más notícias trazem maus factos e de que o otimismo deve ser bombeado como oxigénio para incautos. Não me admira que assim seja. Ontem, a página digital e propagandística de um ministério trocava “concelho” por “conselho” e não é certamente por falta de analfabetos à solta, que andam um pouco por todo o lado. Deve ser confiança política.

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Família & famiglia.

por FJV, em 27.03.19

Admito, com sinceridade, que a maior parte dos membros do governo que nomeou familiares, amigos ou familiares de amigos e correligionários para funções no Estado não o tenha feito com base no desejo de criar uma rede de influência, poder ou puro nepotismo. Admito até que o tivessem feito por motivos de confiança política, um argumento aceitável. Simplesmente, é uma confiança que se manifesta através de redes familiares ou de amizade cúmplice. São duas gerações que ali se atravessam com as suas cumplicidades, justamente. Gente que se conhece bem, que  frequentou as mesmas escolas, os mesmos bailes, as mesmas praias, as mesmas festas de casamento, os mesmos padrinhos – e, também, os mesmos bancos de escola, os mesmos picadeiros, universidades, restaurantes da moda, ou os mesmos grupos nostálgicos de extrema-esquerda. O que pensam acerca da vida, das férias, dos amigos, das pessoas que admiram, dos sotaques e do dicionário que usam? Coisas parecidas. São as suas referências. Foi assim antes do 25 de Abril, é assim agora – os poderosos multiplicam-se uns aos outros desde cedo. 

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Mr. Chandler e Mr. Marlowe.

por FJV, em 26.03.19

Philip Marlowe, que no cinema foi interpretado por Humphrey Bogard, Robert Mitchum, James Garner, Eliot Gould ou Dick Powell, entre outros, é o detetive criado por Raymond Chandler (1888-1959) para livros como À Beira do Abismo, O Imenso Adeus ou A Dama do Lago. São obras que mudaram o rumo do chamado romance policial (até aí confinado a edições vulgares e desprestigiadas) mas, também, da literatura em geral. Chandler inventou o detetive melancólico, perdedor, cujo heroísmo não é físico, nem arenga como um fanfarrão: é uma espécie de homem perdido entre homens perdidos, capaz de amar mas sabendo que teria de atravessar um deserto cheio de tempestades. O seu génio foi ter compreendido a grande solidão dos anos 40 e 50 da América – e o fim da inocência do pós-guerra. Cineastas como Howard Hawks ou Robert Altman perceberam bem o modo como Raymond Chandler desenhava um mundo em dissolução, dando voz à tristeza e ao humor sem doçura de personagens destinados a nunca perecer. Chandler morreu há exatamente 60 anos, em San Diego, na Califórnia. Como ele há poucos.

Da coluna diária do CM.

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Lawrence Ferlinghetti fez ontem 100 anos.

por FJV, em 25.03.19

Lawrence Ferlinghetti fez ontem 100 anos. Falar deste novaiorquino que se estabeleceu em São Francisco (onde fundou a livraria e editora City Lights e foi cabeça de cartaz da geração Beat) é mais do que percorrer um século de literatura. Em Portugal há duas traduções de Ferlinghetti: um ensaio (A Poesia como Arte Insurgente) e uma antologia maravilhosa de cem páginas, Como Eu Costumava Dizer, traduzida em 1972 por José Palla e Carmo. Ferlinghetti é um caso à parte. O seu Coney Island of the Mind (de 1958) vendeu mais de um milhão de exemplares nos EUA, onde é uma espécie de grande decano da poesia, o herdeiro de Walt Whitman. Ferlinghetti é o lado tranquilo desses tempos. Os seus poemas são litanias onde ironia e melancolia nos chamam para cada passagem: “O mundo é um lugar maravilhoso/ para se nascer/ se as pessoas não se preocuparem demasiadamente/ com o facto de a felicidade nem/ sempre ser/ muito divertida.” Ou este começo, inesquecível: “Como eu costumava dizer/ o amor é mais difícil de nascer nos mais velhos/ porque já percorreram/ os mesmos caminhos muitas vezes.” 

Da coluna diária do CM.

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O tuga bacteriologicamente puro, segundo Rui Santos, conhecido antropólogo.

por FJV, em 22.03.19

O jogador Dyego Sousa nasceu no Brasil e vive em Portugal há 12 anos. Tem, por isso, a nacionalidade portuguesa. Uma pessoa que tem a nacionalidade portuguesa é português, obedece às nossas leis e aprendeu o hino. Ponto. Para mim, Deco era ribatejano e Pepe minhoto de lei. Acontece que Dyego Sousa, que é português, não troca os pés e é bom de bola; por isso, foi chamado à seleção de futebol. O jornalista Rui Santos acha (vi-o num comentário na SIC) que essa opção é errada, preferindo que a federação da bola forme o chamado “jogador português bacteriologicamente puro”. A ideia, que tem partidários ilustres, é muito supimpa. Eu, há coisas bacteriologicamente puras que me deixam estafado – e uma delas é o portuguesismo, precisamente porque uma das nossas características mais amáveis, e que fez de nós gente do mundo, é o gosto pela misturança. Já em tempos tivemos um seleccionador trapalhão que queria “portugueses legítimos”; agora temos o Rui Santos, que é bom de gramática, a querê-los “bacteriologicamente puros”. Baixotes, sisudos, branquinhos, de bigode e tal, suponho eu.

Da coluna diária do CM.

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O chuchu.

por FJV, em 21.03.19

Segundo percebi, o chuchu, simpático legume das Américas que tanto pode fazer pela nossa saúde, foi entronizado na categoria dos “superalimentos” e há uma corrida por ele nas prateleiras dos supermercados. Já comprava chuchu para a sopa, vou agora aprender a cozinhá-lo de todas as maneiras. Há tempos, o abacate, outro “superalimento”, causou uma séria tempestade nos mercados financeiros – chegou a 5 dólares a unidade – e, inclusive, assaltos a supermercados (depois de a China ter aproveitado uma crise no abacate mexicano e ter comprado 4 mil toneladas do fruto). Antes do abacate, houve a febre da batata doce (que continua), a da beringela e a dos brócolos (irrita-me que os cozam por mais de três minutos) – e uma caixa de couve galega custava em Londres cerca de 40 libras porque, lá está, era um dos “superalimentos” recomendado pelos nutricionistas. Aguardo ansiosamente pelo momento em que a abóbora-manteiga entre na lista, juntamente com os grelos, o robalo da costa de Sesimbra, e a alheira de Vinhais. O arroz de tomate também me dava jeito, pelo sim, pelo não.

Da coluna diária do CM.

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A Beira, onde estivemos e devemos estar.

por FJV, em 20.03.19

Visitei a Beira pela primeira vez nos anos de repouso a seguir à guerra civil moçambicana, nos anos noventa. Cheguei do Norte, de Nampula e da Ilha de Moçambique, e reconheci na velha cidade um “ar do tempo” e uma extraordinária capacidade de resistência às atrocidades que marcaram esses anos. Construída por gente rebelde que não acatou a ordem da natureza e a enfrentara, erguida contra as areias e os pântanos, a Beira foi sempre uma cidade nobre, altiva e corajosa. E uma bela cidade. As imagens que chegam de Moçambique mostram um rasto de destruição e de vazio: casas que desapareceram, edifícios históricos (incluindo igrejas) que ruíram, ruas que foram engolidas e devastadas, pessoas sem abrigo e sem defesa. Pior do que desolação, trata-se de horror verdadeiro. A princípio, as televisões tentaram passar sobre o desastre – que é imenso, arrasador, medonho. Para quem conheceu a Beira, e o seu litoral, não há palavras que possam mostrar a grande tristeza ou o sentimento de impotência diante daquele sofrimento. É um dever ajudar Moçambique, onde também fomos gente da terra.

Da coluna diária do CM.

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Os norte-coreanos gostam muito de levar no toutiço.

por FJV, em 19.03.19

Jerónimo de Sousa filosofando sobre a democracia.

 

Em entrevista ao jornal Polígrafo, perguntado sobre se a Coreia do Norte é ou não uma democracia, o líder do PCP achou preferível discutir “o que é uma democracia”. É uma boa solução, tanto mais que Jerónimo de Sousa não diz nada sobre a sua ideia de democracia, mantendo assim uma nuvem sobre o delicado apoio ao regime de Kim Jong-un no contexto da guerra ao imperialismo ianque. Ora, interessa sabermos o que pensa Jerónimo de Sousa sobre a natureza da democracia norte-coreana? Sim, e muito. O PCP pode argumentar (com toda a legitimidade) que não morre de amores pela democracia como nós a conhecemos (eleições, liberdade de imprensa e de expressão, escrutínio popular) e que prefere, como se suspeita, um regime autoritário, disciplinado e militarizado. Só isso explica o acrisolado amor do PCP por Estaline, manifestado em cada efeméride ligada ao ditador. Claro que Jerónimo de Sousa diz que o seu modelo seria diferente do coreano “tendo em conta a nossa cultura, a nossa história, o nosso povo”. Ora aí está. É que ao contrário de nós, os norte-coreanos gostam muito de levar no toutiço.

Da coluna diária do CM.

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