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Aguiar e Silva.

por FJV, em 13.09.22

Noutra vida qualquer, quando pensei em preparar o doutoramento, a primeira pessoa com quem falei foi Vítor Manuel de Aguiar e Silva (1939-2022), cuja Teoria da Literatura acompanhou os meus anos de estudante como uma referência indispensável e um repositório do melhor sobre a matéria – tal como os seus estudos sobre o barroco. Mais tarde, Aguiar e Silva, já na Universidade do Minho, regressou a Camões, a quem dedicou a organização de um dicionário de mil páginas, e um belo Camões, Labirintos e Fascínios. Em 2010 tinha publicado um premonitório livro de combate, As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua, antes de um melancólico Colheita de Inverno, páginas de crítica e leitura, pouco antes de receber o Prémio Camões, há dois anos. Era um humanista amável e solene, um dos últimos representantes de uma escola de seriedade que hoje infelizmente se despreza, um estudioso e erudito que marcou a vida das letras e da universidade. Com a sua morte, ontem, perdeu-se um homem discreto cuja obra não podemos ignorar nem esquecer.

Da coluna diária do CM.

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Javier, o Outono.

por FJV, em 12.09.22

Está portanto inaugurado o outono nas letras hispânicas. A morte de Javier Marías teve, ontem, esse efeito sobre nós, seus leitores. Não só porque a morte é como é, mas porque, como escritor, teríamos muito a esperar da sua obra. Filho de Julián Marías, filósofo e académico, Javier é o mais importante escritor espanhol das últimas décadas, um raio fulminante de literatura e só literatura. Todas as AlmasCoração Tão Branco, Amanhã na Batalha Pensa em MimEnamoramentosAssim Começa o Mal (todos publicados na Alfaguara) ou esse notável Berta Isla ficarão para sempre no panteão das letras espanholas. Talvez esteja a ser solene demais; num mundo de banalização da literatura, Javier Marías recusou descer os degraus da legibilidade – quando a generalidade dos autores optava por tratar ‘temas de agora’, encostando-se aos púlpitos da moral, ele prosseguia sendo escritor, se me faço entender. Por isso, os seus livros ficarão para sempre. Em Vidas Escritas, um livro sobre escritores, Marías escrevia sobre os seus pares e antepassados notáveis. Ele é um deles agora. Uma vida escrita.

Da coluna diária do CM.

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Livros em papel.

por FJV, em 09.09.22

Antes que os sinos dobrem, falemos dos arquivos do passado, guardados em papel, gravados em pergaminho, reunidos em vastíssimos corredores que levam a outros e a outrs, sem limite – e cujo acesso está geralmente vedado. Temo-los com mil anos de idade. Com mais de dois mil, se pensarmos nas carapaças de tartaruga, nas argilas do deserto, nas pedras onde os antigos gravaram palavras para a eternidade. A eternidade é o nosso tempo. Esses arquivos são hoje impensáveis, e substituímo-los por discos de sílica e nuvens invisíveis onde pairam pedaços encriptados da nossa vida: registos, dados, factos, memórias, segredos. Não durarão tanto como as tabuinhas, as placas e os pergaminhos. São assaltados e roubados a uma velocidade estonteante, transformados em poeira e acessíveis a ladrões especializados e à revenda em corredores digitais. Agora, que a feira do livro está a terminar, penso nos livros em papel que durarão mais do que um CD ou um arquivo digital, que manterão o seu odor e que os nossos netos poderão folhear. Já os arquivos militares portugueses, ó deuses, alguém sabe onde andam?

Da coluna diária do CM.

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A verdade tem um preço.

por FJV, em 08.09.22

No calor da discussão sobre a bondade do “pacote” anunciado na segunda-feira fui à CMTV e, como não sou economista, lembrei apenas que as decisões do governo costumam deixar um travo amargo quando se analisam à distância de dois ou três dias. Exemplos: a meia pensão antecipada para reformados (que na verdade antecipa penalizações para depois) e as taxas de eletricidade (poupança de 1,5€, se estiver no escalão mais baixo). Ambas traziam o lastro da astúcia. O problema é que nos habituámos a que sempre exista um truque, uma bilhardice, uma maneira de contornar a realidade. Para o gosto político português, muito trafulha e bisonho, isso é uma vantagem, porque parece gostarmos de enganos, caudilhos espertos e bravatas autoritárias. Em 2017, depois dos incêndios de Pedrógão, anunciou-se a “maior reforma da floresta desde D. Dinis”; esta semana, com atraso de meses, o “maior apoio de sempre”. Durante dois dias, isto enche o olho de um país pobre, de recursos limitados, servidor e dependente, impressionável; depois, a realidade mostra o malabarismo. A verdade é que tudo tem um preço.

Da coluna diária do CM.

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O Lixo na Minha Cabeça.

por FJV, em 07.09.22

O que é mais fascinante nos desenhos de Hugo Van der Ding é que os textos que os acompanham não poderiam dar-nos tanta vontade de rir se não fossem acompanhados pelos desenhos de Hugo Van der Ding. Estão agora antologiados e reunidos num volume intitulado O Lixo na Minha Cabeça (Oficina do Livro) e são geniais. O resto é bastante: um humor corrosivo (é o mínimo que se pode dizer), mau, perverso, fútil, justíssimo, desagradável, malévolo, malcriado, enternecedor, em redor de personagens que modelam a nossa “vida moderna” e falam em nosso nome quando estamos na plena posse das nossas piores faculdades – como as extraordinárias psicanalista Juliana Saavedra e farmacêutica Madalena, as Duas Amigas, a Dra. Messalina, a velhinha moderna Celeste da Encarnação, ou A Mulher que Gritava Coisas Durante o Orgasmo. O mundo podia ser muito diferente sem a maldade destas personagens – mas seria artificial e pomposo. As pessoas demasiado agradáveis são aborrecidas e metem demasiado; Hugo Van der Ding desenha as suas personagens como um trituradores de bons sentimentos. É muito, muito bom.

Da coluna diária do CM.

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António Lobo Antunes, 80 anos.

por FJV, em 05.09.22

António Lobo Antunes completou 80 anos na passada quinta-feira. A data foi comemorada: é o nosso maior escritor vivo, não uma estrela de televisão, um convidado esporádico da política, um “ativista” que empresta o seu nome ao tempo que passa. Isso só o pode fazer um escritor que vive como escritor e que afronta sem receio o estado das coisas, ou seja, isto que somos. Não precisamos de “estar de acordo”; não precisamos de ser “do mesmo grupo”, da mesma família, do mesmo conjunto de “afinidades eletivas”. António Lobo Antunes, peço desculpa pela expressão, “está-se nas tintas” – e isso é o sinal vivo de um escritor, que decide sobre o que quer escrever, como quer escrever. Os seus livros não propõem uma forma de vida, um regime político, uma moral acerca do fim do mundo – são grandes livros, escritos com aquela melancolia, contígua da tristeza, que não se confunde com nenhuma amargura, nenhum ressentimento. O meu livro preferido é O Manual dos Inquisidores (de 1996), mas podia escolher outro. Seria igualmente de difícil leitura, o que não faria Lobo Antunes facilitar coisa nenhuma.

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O Velho e o Mar.

por FJV, em 01.09.22

A 1 de setembro de 1952, exatamente há 70 anos, a revista ‘Life’ publicou um grande excerto de O Velho e o Mar, a pequena história de Ernest Hemingway. O livro, publicado no mesmo dia (127 páginas, com belíssimas ilustrações), teve um êxito extraordinário e foi decisivo não só para a divulgação do nome de Hemingway mas, também, para a atribuição do Nobel, dois anos depois. É uma história humaníssima, passada em Cuba contando a história de Santiago, um pescador que não consegue arrancar peixe do mar ao longo de 85 dias – altura em que captura um gigantesco espadarte de cinco metros e meio. A luta contra o mar e contra o peixe é a parte do livro que se aproxima da epopeia, que relembra a história de Moby Dick, de Herman Melville. Mas isso seria fácil demais; Hemingway cria mais luta ainda, a de Santiago com tubarões que atacam o barco e o peixe capturado, que é maior do que a embarcação. Deixo o resto da história para os leitores descobrirem – o final é de uma melancolia muito à maneira de Hemingway, que fez deO Velho e o Mar um belo clássico da literatura do século XX.

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Pascal.

por FJV, em 19.08.22

Passam hoje 360 anos sobre a morte de Blaise Pascal (1623-1662), que deixou importantes contribuições para a Matemática e a Física. E mudou também a nossa forma de pensar sobre o destino e a condição humana. Primeiro, porque viveu depois de Michel de Montaigne (1553-1592), cujos Ensaios são o modelo de pensamento posterior na Europa; depois, porque esses tempos da modernidade e do racionalismo permitiram inventar o conhecimento pessoal como uma das tarefas essenciais da humanidade como hoje a conhecemos. A experiência subjetiva (“o coração tem razões que a razão desconhece”) e o reconhecimento da fragilidade, do medo ou da intimidade, ou do lugar da religião, são matéria essencial do que Pascal deixou disperso nos seus Pensamentos. Montaigne refletiu sobre a ociosidade, a solidão e a arte de aprender a morrer; permitiu o aparecimento de um Pascal que lidou com os enigmas da matemática e com os da imaginação ou da ética pessoal, em simultâneo. Não seríamos como somos sem Pascal. 

Da coluna diária do CM.

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V.S. Naipaul, 90 anos.

por FJV, em 17.08.22

V.S. Naipaul, ganhador do Nobel de Literatura, morre aos 85 anos | Pop &  Arte | G1

V.S. Naipaul (Vidiadhar Surajprasad Naipaul) nasceu há 90 anos em Trinidad e Tobago (1932-2018, Nobel em 2001, antes de o prémio perder todo o interesse) e é autor de alguns dos grande livros do nosso tempo, como A Curva do Rio, Num Estado Livre ou Uma Casa para Mr. Biswas. Antes do pós-colonialismo, do ressentimento e da hipocrisia política, Naipaul escrevia sobre o desenraizamento, o exílio, a perda, as sociedades que se tinham libertado da dominação colonial para serem submetidas por regimes despóticos – os seus personagens solitários, valentes, nostálgicos e discretos são miniaturas magníficas, preciosas. Em Metade da Vida passa por Moçambique quando os portugueses estão prestes a abandonar aquele país: “Nunca admirei tanto os portugueses como naquele momento.” Naipaul foi, como escritor, um repórter minucioso – e um autor desassombrado. Em Inglaterra, onde viveu, acusavam-no de ter “mau feitio” (um belo crime) e, depois, de ser racista (apesar de ter sofrido o racismo na pele) e de defender o colonialismo. Naipaul tinha mau feitio, sim. E era um grande, grande escritor.

Da coluna diária do CM.

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O Ocidente.

por FJV, em 17.08.22

Em Inglaterra, o Times fez um apanhado sobre a ameaça de censura nas universidades locais, e parece que um vendaval de tolice patológica tomou conta das faculdades de letras e do seu desejo de proteger o bem-estar dos alunos de ideias perniciosas, perturbadoras e ameaçadoras – que, naturalmente, vêm nos livros. O jornal conta que em 2022 houve mais de mil denúncias contra autores que, por serem maldosos, deviam ser censurados nas bibliotecas. Entre eles estão Charles Dickens, coitado, Jane Austen ou Shakespeare. Algumas bibliotecas universitárias retiraram livros de Colson Whitehead (recente prémio Pulitzer), por causa da sua descrição violenta da escravatura, A Menina Júlia, de Strindberg, por falar de suicídio, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, por ser racista, Hemingway, por ser machista, ou títulos de Philip Larkin, por ser misógino. Nos EUA, por exemplo, a edição das obras de Kant tem uma nota aos estudantes para informar que as opiniões do filósofo “sobre raça, género, sexualidade e relações interpessoais” são “produto do seu tempo”. O Ocidente entregue aos ratos.

Da coluna diária do CM.

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Os livros são uma coisa tola.

por FJV, em 16.08.22

Os livros, dizia Martin Amis, têm uma perigosa vantagem: estão abertos e disponíveis 24 horas por dia. Penso nisso a propósito do seu amigo Salman Rushdie, que sobreviveu ao atentado ordenado há 33 anos. E penso também em Sayyid Ataollah Mohajerani, que foi ministro iraniano da cultura entre 1997 e 2000 e a quem se deve alguma liberalização da vida intelectual do país ou a autorização para a imprensa reformista. É um homem culto. Mas é também o autor de um livro em que defende a ‘fatwa’ do aiatola Khomeini (repetiu essa defesa há pouco tempo), que considera “uma vacina” – curiosamente, vive não num dos treze países que proibiram a edição e a leitura de Versículos Satânicos, mas em Londres, perto da casa onde Rushdie esteve escondido durante anos. No livro, Mohajerani (que foi presidente do Centro para o Diálogo entre as Civilizações) não cita apenas teologia islâmica ou a tradição do zoroastrismo (a antiga religião persa), mas também os Provérbios ou o Livro de Job da Bíblia. Nas bibliotecas vai buscar justificação para o assassínio. Os livros são uma coisa perigosa, como se vê.

Da coluna diária do CM.

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Um elevador.

por FJV, em 15.08.22

Antes do verão usei um parque de estacionamento no centro de Lisboa e deparei com um aviso: o elevador que sobe à superfície está avariado, de modo que os srs. clientes façam o favor de se dirigir ao outro que os deixará piso e meio abaixo da superfície. Um pouco de ginástica só faz bem – mas eu estava com uma distensão muscular. Achei estranho que um parque (com pisos até ao -5) numa cidade que vive de turismo e de ocupação do centro tivesse um dos elevadores neste estado – para não falar do estado de sujidade em que se encontra. Passado mês e meio voltei – está na mesma. Os clientes habituaram-se, os turistas julgam que é azar e nós continuamos a usar o parque, naturalmente. Habituamo-nos. Aguentamos os primeiros três dias, a primeira semana; ao fim de quinze dias já ninguém se lembra e é assunto encerrado. Habituamo-nos às filas de espera, à falta disto, à falta daquilo, ao lixo na rua, aos rumores, às notícias que não são dadas. O que era exceção passou a ser estrutural, robusto – e resiliente. Claro que o país não é um elevador avariado. Porque já nos habituámos a não reparar.

Da coluna diária do CM.

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O almanaque das expulsões.

por FJV, em 12.08.22

O livro que impulsionou os Descobrimentos está de regresso a Leiria –  Região de Leiria

Não é por Tomar, onde existe o Museu Abraão Zacuto, que devemos começar – mas por Leiria, onde em 1496 se imprimiu o seu Almanach perpetuum, (Almanaque Perpétuo dos Movimentos Celestes, título latino), instrumento fundamental para as navegações da época. Antes disso, o almanaque fora escrito em hebraico e as suas tabelas astronómicas terão servido a Vasco da Gama para, na viagem de 1497, enfrentar os mares até à Índia. Recuemos a Salamanca, 1452, data do nascimento do autor, Abraão Zacuto, que aí estudou astronomia depois de passar pelo filtro tradicional da erudição judaica: a Bíblia, o Talmude e a Cabala. A origem dos Zacuto é francesa; foi de lá que fugiram para Espanha; e foi de Espanha que fugiram para Portugal depois do decreto de expulsão dos judeus em 1492. Abraão, que já ensinara em várias universidades, foi astrónomo de D. João II e seria também de D. Manuel – que expulsa os judeus em 1496; Zacuto vai para Tunes e, de lá, para Jerusalém e Damasco, onde morre em 1515. Passam hoje 570 anos sobre o nascimento de Abraão Zacuto. Expulsamos demasiada gente que nos fez falta.
Da coluna diária do CM.

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Seu Jorge, o outro.

por FJV, em 10.08.22

Comecei a ler Jorge Amado (1912-2001) como qualquer português letrado – sobretudo os seus primeiros livros até Capitães da Areia, como O País do Carnaval, Cacau ou Jubiabá, da década de 30. Era a fase comunista de Amado; não nos fez mal nenhum conhecer aquele universo de pobreza, injustiça e poesia (a de Mar Morto, por exemplo), cuja forma definitiva é o seu microcosmos de São Jorge dos Ilhéus (1944). Depois, veio a fase da recusa daquela velharia – de Amado, da sua influência e da aritmética tropical do realismo socialista. Tinha, porém, faltado a leitura de Gabriela (de 1958, que a televisão transformou com êxito), de Os Velhos Marinheiros (1961) ou do seu melhor romance, Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966, depois no cinema, com José Wilker e Sónia Braga, no filme de Bruno Barreto), puro prazer e malandrice, invenção danada e maravilhosa, que talvez lhe tenha permitido depois escrever Tieta do Agreste (1977) ou um belo romance sobre negritude, Tenda dos Milagres (1969). Com estas leituras, e com Jorge Amado (que tive a sorte de conhecer como um homem generoso, afável, com apetite) já distante da engenhoca política inicial (hoje, o seu Bahia de Todos os Santos, um guia de Salvador, está condenado a ir ao castigo dos radicais), era a redescoberta da faísca do seu talento. Passando hoje 110 anos sobre o seu nascimento, deixo-lhe aqui um abraço amistoso, seu Jorge.

Da coluna diária do CM.

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Larkin, cem anos.

por FJV, em 09.08.22

Não é um poeta fácil, mas seria indesculpável deixar passar em silêncio o centenário do nascimento do inglês Philip Larkin (1922-1985), um dos meus autores mais celebrados e certamente um dos poetas mais lidos ou conhecidos em Inglaterra. Associo-o quase sempre a Yeats ou W.H. Auden – dois grandes –, mas a tristeza e a melancolia de Larkin são maiores, vagueiam como uma música (foi crítico de jazz do Telegraph, e alguns dos seus textos são comoventes), importunam como a chuva num dia de outono, ou a dificuldade de encontrar uma palavra feliz para dizer entre “os jardins de sombras oblíquas” a meio da madrugada. A poesia de Larkin vagueia como um diálogo sobre a fealdade das coisas, procurando o retrato fiel, familiar, íntimo, cru, solitário, obsceno muitas vezes. Recentemente, a crítica tem sido pouco amável, descobrindo na penumbra sinais de racismo e misoginia; mas nada apaga a beleza de dois livros traduzidos em Portugal – o romance Uma Rapariga do Inverno, traduzido por Ana Maria Chaves, e a coletânea de poemas Janelas Altas, traduzida por Rui Carvalho Homem. Um dos grandes.

Da coluna diária do CM.

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Humor e poesia.

por FJV, em 08.08.22

Um fim de semana de verão que nos trouxe duas despedidas – a de Ana Luísa Amaral (1956), recordação da poesia, professora de literatura; e a de Jô Soares (1938), humorista de um tempo que já não pode rir-se à vontade. Sobre Ana Luísa (que está ligada à minha vida) já escrevi ontem: ela será sempre a luz de um relâmpago a iluminar a beleza. Jô Soares foi, como Rubem Fonseca ou Jorge Amado, um brasileiro que enriqueceu a nossa língua, tão aborrecida naqueles tempos dos anos 70 e 80, tão cheia de solenidades – recordamos todos os seus tiques, frases, personagens ou quadros de paródia. Os humoristas são essenciais à nossa vida (tal como os poetas). Os grandes, como Jô, inventaram o riso onde não estava nada, puseram-nos a duvidar da língua e das certezas. Brincam com o sexo e com a pátria; hoje, nestes tempos de censura, o seu humor seria perseguido. Escreveu romances em que parodiou o policial; era um homem culto, porque o grande humor precisa de grandeza. Brincou consigo próprio (o gordo), brincou muito com os portugueses. Uma grande arte, notável, a de brincar e de fazer rir.

Da coluna diária do CM.

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Uma árvore para Ana Luísa.

por FJV, em 07.08.22

Floresta de carvalhos de outono com um caminho largo | Foto Premium

A última vez que falei com Ana Luísa foi em maio deste ano, quando me chegou O Olhar Diagonal das Coisas (Assírio & Alvim), o volume de 1400 páginas que reúne a sua poesia, de Minha Senhora de Quê (1990) até Mundo (2021) e onde estará sempre, luminosa, a escrita ainda clássica de Entre Dois Rios e Outras Noites (2008). O encontro anterior fora há um ano, numa espécie de congresso sobre “árvores e literatura”, logo depois de ter recebido o Prémio Reina Sofía, que lhe foi atribuído pela sua obra. Nada vinha mais a propósito: as árvores ensinam-nos aquele silêncio que muitas vezes vem na poesia e que, quase sempre, inclina a nossa vida para a contemplação. Depois, a notícia da doença – e tudo seria rápido demais, como sempre é; a recordação dos que deixam marca nunca é mais do que o brilho de um relâmpago. Passando os olhos pelos seus poemas, vêm lá esses relâmpagos. O da poesia inglesa (Blake, Dylan Thomas, Emily Dickinson), o de Camões, o de si mesma, o da sua melancolia. Brilhante, intuitiva, cultíssima nos estudos comparatistas de literatura, poeta maior, Ana Luísa Amaral será sempre esse relâmpago que mostra o caminho da beleza que fica como uma árvore que ainda não tem nome.

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Chavela Vargas.

por FJV, em 05.08.22

Eu me chamo Chavela Vargas. Não se esqueçam do meu nome” | Cultura | EL  PAÍS Brasil

Na vida mexicana, Chavela Vargas (1919-2012) nunca precisou de anunciar a sua sexualidade para se perceber o essencial: era lésbica, vestia-se como homem, murmurava-se do seu namoro com Frida Khalo (e Ava Gardner) e tinha uma voz incomparável. Em 1995 quis ouvi-la num bar em Coyoacán, na Cidade do México, onde decidiu que ia regressar à música depois de uma descida aos infernos do álcool; ouvir as suas rancheras e boleros era regressar às origens: José Alfredo Jimènez, Cuco Sanchez ou Agustín Lara, clássicos que a apadrinharam. A sua voz áspera e arrependida a cantar ‘Llorona’ ou ‘Paloma Negra’ ecoava por todos os pátios do México. Porém, Chavela Vargas, que foi amiga de Juan Rulfo, Picasso ou García Márquez, era mais do que uma cantora de rancheras – era o álcool, a alma perdida, o excesso de todos os seus demónios sobre um bando de mariachis. Nos seus últimos anos foi redescoberta (em parte, graças aos filmes de Almodóvar) como uma grande dama da canção. Passam hoje dez anos sobre a sua morte, em Cuernavaca, a terra onde se passa Debaixo do Vulcão, o livro de Malcolm Lowry.

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Norma Jeane.

por FJV, em 04.08.22

Cuba lembra Marilyn Monroe com exposições e cinema | Exame

Chegados aqui é preciso concordar no seguinte: Norma Jeane Baker (1926-1962) não era uma grande atriz. Como cantora, aquela voz foi sempre perversamente adolescente. Em Clash by Night (1952), um filme de Fritz Lang em que contracena com Barbara Stanwyck, podia ter escolhido aquela saída interpretando papéis dramáticos e “sérios” – como o seu derradeiro filme, Os Inadaptados, de John Huston, com Clark Gable e Montgomery Clift, num argumento do seu marido, Arthur Miller. Mas recordamo-la sobretudo em Como Se Conquista Um Milionário, O Pecado Mora ao Lado, e Quanto Mais Quente Melhor – ou a cantar os parabéns a JFK três meses antes de ter sido encontrada morta por overdose. Tudo o resto, sabemos: as suspeitas sobre a morte, a vida de adolescente, o início da carreira, os casos amorosos. Mas nada lhe retira um grão de beleza – aliás, o maior ícone de beleza e de sensualidade no século passado. Marilyn Monroe morreu há 60 anos e continuamos suspensos desse “grão de beleza” que nos devolve tanto a sua imagem de inocência perversa como de atrevimento e perdição permanentes.

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Os portugueses – quem vê, um vê todos,

por FJV, em 03.08.22

Além de racistas e xenófobos, como ontem não se cansavam de dizer, os portugueses – esta gente à nossa volta – são também, e passo a enumerar, pessoas preguiçosas, honradas, loiras, de ascendência africana, gordas, complacentes, generosas, praticantes de umbanda, benfiquistas, angustiadas, diabéticas, de pernas esculturais, de pele branca, com seios generosos, de ascendência paquistanesa, de cabelo frisado, sem bigode, com barbas hirsutas, de tornozelos finos, calvas, saudáveis, fanáticas de atletismo, que gostam de receber os estrangeiros, sportinguistas, demasiado descuidadas ao volante, com gosto pela comida, magras, com problemas de dioptrias, de ascendência ostrogoda e vagamente celta, boas nadadoras, fracas futebolistas, fraquíssimas em economia, de rabos elegantes e bíceps controversos, que não gostam de bacalhau, que usam bigode, de ascendência macaense ou goesa, portistas, apreciadoras de quinoa e cabidela, mentirosas, preocupadas, morenas, doutoradas em engenharia, que gostam de cantar sevilhanas e detestam fado. Amanhã podemos continuar. Isto quem vê um vê todos, não é?

Da coluna diária do CM.

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