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O senhor juiz, 1.

por FJV, em 26.02.19

Deus nos livre de comentar as doutíssimas palavras do juiz Neto Moura (que se tem distinguido por desvalorizar agressões de violência doméstica). Acontece que nessas sentenças há parágrafos, passagens, frases notáveis, e não me refiro a matéria jurídica; são esses pedacinhos que me preocupam, não a sua conformidade ou concordância com a lei. Digamos, entre nós, que um parágrafo do meretíssimo Neto Moura há de estar de acordo com os códigos (por isso ele é juiz) – pode é não estar de acordo connosco, espécie humana. Por exemplo, num texto que ontem li, o juiz Neto Moura desagrava a sentença de um tribunal de Matosinhos que condenara um sujeito a usar pulseira electrónica (e três anos de pena suspensa) depois de ter agredido gravemente a ex-mulher e de, consequentemente, a ter ameaçado de morte. Para o Dr. Neto Moura a pulseira é um exagero, bem como a pena em geral: o energúmeno podia perfeitamente aproximar-se da ex-mulher passado um ano de lhe ter aplicado uns murros. A justiça da espécie humana é que não se aproxima, nem um pouco, da do Dr. Neto Moura, o que é uma pena.

 

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O Portalegrense.

por FJV, em 21.02.19

Onze milhões de almas, praticamente – é tudo quanto somos. Parte delas estavam ontem indignadas com a situação de abandono a que chegou o edifício do Teatro Portalegrense, inaugurado em 1854 e que está à venda desde 2013, até ter chegado às páginas da OLX, onde o anúncio da secção de imobiliário pede 350 mil euros. Por volta de 1943 uma inspeção tinha já declarado que o edifício não tinha condições para a representação de espectáculos – e na década de 80, a situação era bem degradante. Pela província fora, há outros edifícios semelhantes; representam um país em que havia vida na província e gente nas escolas. Agora há sobretudo exceções pontuais. Os Verdes, uma delegação do PCP, interpelou o governo porque o edifício é “propriedade de privados”, suprema afronta – e a ministra da cultura pediu tempo para avaliar eventual classificação, uma vez que foi aí representada a primeira peça de Régio (muito má). A câmara de Portalegre diz que não pode fazer nada – mas classificou-o de “interesse municipal” em 2010. São uma pena, as ruínas do Portalegrense. Mas uma pena já anunciada há muito.

Da coluna diária do CM.

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A liberdade pela força.

por FJV, em 20.02.19

O rei D. Pedro IV é o autor suspeito de uma frase controversa antes de iniciar a guerra civil: “Portugueses, não me obrigueis a libertar-vos pela força!” Justamente, o governo inglês acaba de emitir uma diretiva em que impõe a liberdade pela força, proibindo das associações de estudantes e de inteletuais de proibir conferências, aulas, visitas de professores, bem como “lugares seguros” em que os estudantes não se sintam agredidos por ideias que não partilham. Em tempos, um departamento de uma universidade portuguesa proibiu um debate sobre o Islão porque ele seria “ofensivo” e, recentemente, um autor foi também proibido de ir falar a uma outra universidade. Em Inglaterra (nos EUA seria pior), onde os maluquinhos tomaram já as rédeas das instituições de ensino, foi necessário que o governo chegasse a este ponto, tal como há muitos anos protegia os oradores furiosos do Speakers Corner londrino e defendia o seu direito a dizer o que lhes apetecesse sem serem perseguidos. Com a demissão cívica dos inteletuais e professores, criou-se um clima de censura que é necessário combater.

Da coluna diária do CM.

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A criação do mundo, por Júlio Dinis.

por FJV, em 19.02.19

A editora Guerra e Paz publicou, na sua coleção de clássicos, um dos autores mais subestimados da nossa literatura. Quando morreu, Eça de Queirós dedicou-lhe uma frase tão genial quanto cruel: Júlio Dinis (1839-1871) viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve (aos 31 anos). A verdade é que Os Fidalgos da Casa Mourisca é o romance mais programático do constitucionalismo – e As Pupilas do Senhor Reitor e Morgadinha dos Canaviais dois retratos (aparentemente inocentes) do regime rural e do país. Já Uma Família Inglesa (de 1868), acabado de publicar, é um dos grandes livros do Porto, um folhetim admirável e romântico que centrado na história de Carlos Whitestone e de Cecília Quintino (e do “anjo” Jenny). Portuenses e ingleses, ricos e remediados, as personagens da cidade burguesa e conservadora entram no romance iluminados pela beleza discreta que Júlio Dinis persegue e acaba por captar sem perceber que o momento é genial. Uma Família Inglesa é um romance para ser filmado sem a perversidade da classe média portuense, mas com parte da sua sabedoria. É um dever relê-lo.

Da coluna diária do CM.

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Len Deighton, 90 anos.

por FJV, em 18.02.19

Li os primeiros livros de Len Deighton fascinado com o seu conhecimento do mundo da espionagem e dos bastidores da história militar da II Guerra – estão publicados em Portugal Adeus, Mickey Mouse, O Que Escondem as Águas e Um Cérebro de um Bilião de Dólares (na Gradiva), mas há muito esgotados, o que é uma pena. Deighton é um escritor formidável e, além disso, deixa para trás uma biografia cheia de boas referências: trabalhou como empregado de bar em comboios, comissário de bordo em aviões, ilustrador e publicitário, colaborador da espionagem, historiador militar, gastrónomo, autor de livros de cozinha e de guias de viagem (foi editor da secção de viagens da Playboy), produtor de cinema – e autor de maravilhosos thrillers (alguns transformados em filme com Michael Caine, que interpreta o papel de Harry Palmer). Alguns dos seus livros, sobretudo os da série com o personagem Bernard Samson, são um prodígio de humor negro e cinismo sobre o mundo da espionagem, cheio de tiques e traições. Vale a pena relê-los. Hoje, Deighton –·que vive em Portugal – festeja os seus 90 anos.

Da coluna diária do CM.

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Uma leitura errada das estatísticas do álcool.

por FJV, em 13.02.19

Os jornais anunciaram, com escândalo, que Portugal bateu a Rússia em consumo de álcool (ó Rússia, venham daí esses fígados!). Com a chancela da Organização Mundial de Saúde, esses números foram papagueados por jornalistas consumidores de sumos verdejantes e quinoa orgânica. Fui ver. Não era bem assim: Portugal baixou o consumo de álcool desde 2011. De 14,6 litros por cabeça passámos para 12,3 – a descida mais significativa foi da cerveja, que baixou de 31 para 26% de todo o álcool, sendo que na poderosa Rússia cerca de 40% do álcool consumido é, vá lá, vodka (o nosso nível de consumo de “bebidas brancas” fica-se pelos 9%). Para os parvinhos e moralistas que ficaram combalidos com o nosso “alcoolismo”, beber vodka ou beber cerveja e vinho é a mesma coisa. Não é. Os problemas de saúde devido ao álcool são de 9,3% na Rússia e apenas de 3 aqui. Beber excelentes vinhos e boas cervejas não nos prejudica como os álcoois do norte da Europa, onde caem redondos porque não sabem beber nem conhecem a arte de comer. Assim cai o mito da vitória alcoólica sobre a Rússia. Que pena, ó saudáveis da treta.

Da coluna diária do CM.

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Bola.

por FJV, em 13.02.19

Parece que o estádio municipal de Braga, construído para o Euro 2004, começou com um orçamento de 65 milhões e poderá, no total, chegar aos 180. Os deslizes desta natureza aconteceram com outros estádios – que, além do mais, poderão ser demolidos (como o de Aveiro, prodígio de mau gosto) e transformados em outra coisa qualquer. A “indústria de eventos” é de cálculos difíceis e representa um investimento não a fundo perdido, mas a “fundo desconhecido”. A embaixada do rei D. Manuel I ao papa Leão X, em 1514, somou um valor de 500 mil cruzados em oferendas, muito mais do que estava previsto. Foi Leão X que esteve na origem das grandes críticas de Lutero – os fundos portugueses prolongaram o fausto da Roma de então, que vendia indulgências e licenças; foi um negócio discutível, mas mais ou menos claro. Já o dos estádios do Euro 2004 nasceram no período de “dinheiro a rodos” que quatro anos depois terminou em depressão e ficará sempre obscuro. Além do caso da Caixa, o dos estádios continua a atormentar-me. Mas como é conluio com o futebol, trata-se de interesse nacional, não é verdade?

Da coluna diária do CM.

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Darwin, que nos fez ser assim. A Origem das Espécies.

por FJV, em 12.02.19

Durante cerca de quatro anos e meio, Charles Darwin (1809-1882) esteve fora de casa – durante a célebre viagem do navio Beagle. E o que fez ele durante esse tempo? Dedicou-se a estudar fósseis e animais vivos (como a vida das cotovias, dos tentilhões, ornitorrincos ou das tartarugas), desde conchas de mexilhões a famílias de tatus e preguiças. Para um observador externo, a vida de Darwin, que até aí estudara medicina, teologia (ambas sem muito sucesso) e geologia, não seria muito interessante – salvo a viagem a bordo do HMS Beagle, propriamente dita, que o levou de Londres à América do Sul e à Austrália, com passagem nos Açores e em Cabo Verde. No regresso, trazia os elementos para um livro que mudaria verdadeiramente o mundo, Da Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida, publicado em 1859, e no qual observava que as espécies se transformam, evoluem, modificam e melhoram a forma como habitam na Terra. O humilde, estudioso e paciente Darwin, de quem passam hoje 210 anos do seu nascimento, é um dos pais da modernidade.

Da coluna diária do CM.

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Assis, por este nome.

por FJV, em 08.02.19

© Fotografia do editor João Rodrigues.

 

Poeta maravilhoso – de “tom menor”, talvez –, poeta de pequenos instantes e de grandes recordações, sem épica nem pompa, desmontando verso sobre verso os grandes mitos da própria poesia. Fernando Assis Pacheco (1937-1995) começou por escrever nos anos sessenta (1963, Cuidar dos Vivos) sobre a guerra colonial (1972, Catalabanza, Quilolo e Volta e seguintes), até chegar ao grande momento de Variações em Sousa (1987), onde a grande melancolia se cruza com a ironia amarga, os repentes de uma vida dedicada a observar os outros – e o mundo que nunca passa: os pirilampos de Pardilhó, a família, o bairro, a herança galega, o trabalho de jornalista, a relação com a literatura, a marca anti-romântica. Uma poesia assim passou ao lado dos crepúsculos, tanto como dos empertigados: quase como se não fosse. Reunida agora, de novo (já teve várias edições anteriores, desde 1991), essa poesia que nos faz rir e chorar está em A Musa Irregular, organizada por Abel Barros Baptista, com um posfácio de Manuel Gusmão (edição Tinta da China). É bom ver regressar o Assis às livrarias, caramba.

Da coluna diária do CM.

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As leis sobre a violência doméstica.

por FJV, em 07.02.19

A imagem é do psicólogo Filipe Nunes Vicente e, como de costume, é certeira: “A violência não é ‘doméstica’, não é uma prateleira de esfregonas. É sexual, de posse, de reacção à mudança e emancipação delas.” Clamar contra a “violência doméstica” a propósito destes crimes, é meter tudo no mesmo saco para desvalorizar o essencial. Os crimes do Seixal, como os outros recentes, são violência brutal, no limite do humano. Gente que não suporta a rejeição ou a contradição, a perda de poder – e usa a força bruta como um esteróide de ginásio contra a emancipação das mulheres e a sua crescente autonomia e liberdade. É assassínio do fisicamente mais fraco – a que a justiça assiste, sentadinha sobre os códigos, apesar dos avisos da polícia. Leis mais duras? Sim. E que punam os sacanas desde o primeiro abuso. Que os afastem das vítimas, com vigilância apertada. Que penalizem os crimes contra as pessoas (que têm sido desvalorizados). Que os ponham com dono e a grilhetas, aos abusadores de crianças e de mulheres – como exemplo preventivo da luta contra a barbárie e a violência.

Da coluna diária do CM.

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O papa nas Arábias.

por FJV, em 06.02.19

O papa visitou os Emirados Árabes. Se a ignorância fosse cotada na Bolsa, haveria muita gente rica ao fim destas 48 horas em que o chefe da Igreja Católica esteve no Golfo: em Portugal o assunto não teve grande destaque e, pelo que ouvi em algumas televisões, alguns cavalheiros trataram o acontecimento em tom cómicos. Acontece que este foi um dos encontros mais importantes do papa com um líder muçulmano, na altura em que os cristãos estão a sofrer perseguições em África, na Ásia e no Médio Oriente (sem falar da Europa, mas isso é outro problema). Ao conseguir, com o Imã da universidade de Al-Azhar (um dos grandes centros de irradiação de teologia islâmica), assinar uma declaração condenando a violência e a intolerância religiosa, ou exortando ao fim das discriminação das mulheres. Em Abu Dhabi o papa estabeleceu uma ponte para o Islão (sunita) e um miradouro sobre os territórios do outro lado do Golfo; é um passo importante para alguma esperança entre gente de bem. Eu, que não sou papista nem faço parte da legião de fãs de Francisco, acho que se tratou de um momento raríssimo. 

Da coluna diária do CM.

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Os revolucionários de pacotilha.

por FJV, em 05.02.19

A história da Venezuela é triste e mostra como aquele miserável populismo caudilhista destruiu o país. Assisti uma vez a um sermão dominical de Hugo Chávez e bastou-me, porque tinha visitado supermercados vazios, bairros pobres das colinas de La Guaira, chantagem na obtenção dos cartões de saúde (“Se não és do partido, não tens.”), perseguição aos comerciantes, repressão nas escolas e nas ruas, criação de uma burguesia bolivariana (a “boliburguesía”) arrogante e protegida pelos militares (comprados a peso de ouro), e de uma apertada vigilância política entregue a oficiais cubanos – o retrato não bastou para parte da esquerda portuguesa e europeia. Depois de falhadas as revoluções na Europa, toca a apoiá-las na América Latina, onde os filósofos do século XVIII tinham visto o “bom selvagem” e os patetas do século XX queriam plantar o “bom revolucionário”. Mas nem com o retrato do desastre, da repressão e da loucura de Maduro essa esquerda deixa de festejar, publicamente ou não, a “revolução bolivariana”. Não lhes dói; é tudo lá longe dos gabinetes da universidade ou do parlamento.

Da coluna diária do CM.

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Garrett, apesar de tudo.

por FJV, em 04.02.19

Mesmo que a sua poesia tenha sido sobrevalorizada por razões não literárias (‘Folhas Caídas’ tem momentos de certa valia), restam dois ou três momentos importantes na sua obra e da sua oratória, mas nenhum comparável a Viagens na Minha Terra (e sim, Frei Luís de Sousa vale a pena, tal como alguns versos do Retrato de Vénus). Só por isso vale a pena assinalar que passam hoje 220 anos sobre o nascimento de Almeida Garrett (1799-1854), no Porto. Exilado em 1823, depois da subida ao poder de D. Miguel, só regressa definitivamente a Portugal em 1833, depois de Paris e Londres. Deputado, vagamente ministro, figura do Setembrismo (a ala esquerda do campo liberal), cronista-mor do reino, “renovador do teatro nacional”, literato, orador cheio de verniz, visconde do regime – mas nada se compara às Viagens (1846), um texto desabrido, fora de todos os géneros (misturando-os), que Garrett nunca soube que era mesmo genial e inovador. Geografia, política, literatura, simplificação panfletária, história, incursões autobiográficas, as Viagens têm tudo, até talento. Dá prazer lê-lo. 

Da coluna diária do CM.

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Claude François.

por FJV, em 01.02.19

Não fosse aquele acidente estúpido (electrocutado por uma lâmpada durante o banho, em março de 1978) e Claude François podia festejar hoje o seu octogésimo aniversário, por ter nascido (família franco-siciliana) à beira do canal de Suez, em Ismaïlia, Egito, no primeiro dia de fevereiro de 1939. Em 1956, quando os estrangeiros foram expulsos do país, Claude vai para França e torna-se empregado bancário; começou por tocar bateria numa orquestra do clube de futebol de Monte Carlo e por cantar temas de Aznavour ou Ray Charles. Em 1961, Brigitte Bardot (a quem deu lições de dança) e Sacha Distel convencem-no a ir para Paris, onde estrelou no twist e no ié-ié. Notável dançarino. Grande êxitos? Eternos e desprezados: ‘Belles, belles, belles’, ‘Cette année-là’, ‘Lundi au Soleil’, ‘Magnolias Forever’ e, em especial, ‘Comme d’habitude’, depois cantada como ‘My Way’ por Paul Anka, Elvis e Sinatra (mas era dele, sabia?), sucesso dos sucessos. Hoje poucos se recordam da sua voz e do seu rosto – sorrimos, ignorantes, ao ouvir o nome de Claude François, mas ele merece esta homenagem pop e romântica.

Da coluna diária do CM.

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Violências.

por FJV, em 31.01.19

Os problemas “de violência” gerados na última semana merecem alguma reflexão para além da condenação. Em primeiro lugar, pelo seu aproveitamento político, porque convém muito à extrema-direita e à extrema-esquerda terem o “voto das ruas” expressos por bandos de adolescentes que queimam eco-pontos e atiram pedras à polícia ou aos carros de bombeiros – cada um quer os seus “coletes amarelos” a ocupar os média. Em segundo lugar, porque expõem a ferida aberta num país que gerou semi-favelas onde fervem a pobreza, a falta de Estado e a formação de guetos onde se alojam portugueses de origem africana. O racismo é uma reação desprezível e devemos condená-lo; infelizmente, ele floresce tanto com a pobreza como com a falta de educação e de humanidade (e não nas elites urbanas que evocam o seu ‘tom de pele’). É importante que a negritude (um conceito a revisitar) seja também uma das marcas da identidade portuguesa. Pretos ou brancos – são portugueses. E amarelos. Só dessa forma o Estado pode exigir o cumprimento da lei. Colorir Portugal é uma obrigação moral e política. 

Da coluna diária do CM.

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Humor

por FJV, em 30.01.19

Num dos seus livros dedicados à história dos intelectuais, o historiador Paul Johnson – conhecido tanto pela sua erudição como pela sua verve – faz um elogio aos humoristas: que, sem eles, a vida seria muito mais desagradável e desinteressante; e que o humor é também um espelho de inteligência (e, muitas vezes, de sabedoria). Ora, a verdade é que o mundo está cheio de chatos. Vemos na televisão, por exemplo, gente que passa uma noite a discutir futebol sem um pingo de humor; comentadores incapazes de uma curva flexível no seu ar professoral; exaltados a quem faria bem uma gargalhada – e que, quando riem, arrastam uma casquinada metálica onde o sarcasmo se funde com um certo “desejo de mal”. Gente que não ri é incapaz de humanidade; geralmente são pessoas pouco inteligentes que mascaram o défice neuronal com um ar de pregador amargurado. Levantam o dedinho, praticam uma sobranceria desajeitada ou, pior ainda, simulam a “necessidade de respeitar” (o tal respeitinho) instituições. O humor é uma bênção da inteligência – e uma espécie de atestado que prova a existência da vida.

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Portugal tem de pertencer à mesma gente e geração de sempre?

por FJV, em 29.01.19

Houve grande burburinho por causa da nomeação do portalegrense João Miguel Tavares como presidente da comissão organizadora do próximo 10 de Junho; a indignação foi pífia e resume-se a uma espécie de “ele não pertence ao nosso grupo”, acrescido de “só os nossos podem comandar o 10 de Junho”. Por princípio (a data tem uma carga simbólica importante, mas não me comove ao ponte de assistir aos desfiles), não tenho nada contra os anteriores nomeados; mas esta reação contra JMT revela mais do que água no bico: um segregacionismo classista muito típico da política, da academia e do incesto social a que o país se entrega. A ideia de que as comemorações pertencem à mesma gente e geração de sempre (tal como o regime tem os seus proprietários e capatazes comanditados, formados na mesma universidade e frequentando as mesmas amizades) é reveladora do quanto a nomeação de JMT chocou aquelas almas. Pode o país dos priminhos suportar isto? Pode, claro – mas com um nó na garganta inflamada de tanto despeito. A nomeação de JMT foi, por isso, importante para todos. Oxalá faça bom trabalho.

Da coluna diária do CM.

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O tom de pele.

por FJV, em 28.01.19

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O tom de pele do primeiro-ministro (PM), que o próprio invocou no parlamento, não me incomoda; pelo contrário, enobrece-me como português. Porque, ao contrário de sociedades onde o racismo foi lei escrita e onde o debate sobre “a raça” é hoje uma obsessão justicialista, nunca se levantou “o problema” da origem índica do PM. Os meus ancestrais, por exemplo, não vêm dos Ibn Egas do sul, mas com toda a probabilidade do leste iraniano ou indiano, nomeadamente; eram gente que atravessou meio continente em caravanas mantendo o tom da pele, de que me orgulho. O problema não é o do tom da pele, aliás – há “castas sociais elevadíssimas” com o tom de pele do PM, tão racistas, supremacistas ou plebeias (na verdade, são as mais racistas e segregacionistas, como sabemos) como a dos eslavos, dos khazares ou dos chineses. Inventar um problema de tom de pele é inteligente, mas para idiotas. É como se disséssemos que o PM respondeu daquela forma exaltada à líder da oposição no parlamento porque ela era mulher e porque, ao seu lado, na bancada, tinha um deputado negro. Mas não vamos dizer isso.

Da coluna diária do CM.

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Venezuela, os dias do fim.

por FJV, em 25.01.19

O regime caudilhista e populista de Hugo Chavez (“socialismo do século XXI”, como teorizou o alemão Heinz Dieterich Stefan, o seu inspirador e assessor até 2007) entrou em ruína há muito tempo, depois de ter transformado a Venezuela num salão de festas onde tocava uma orquestra de doidos que roubava o que podia e desafinava com obstinação (o segundo maestro dessa orquestra, Nicolás Maduro, era o doido mais aplicado e parlapatão) e à vista de todos. Não apenas transformou a Venezuela num país pobre e humilhado como instituiu a censura, a perseguição política, a pobreza, o militarismo e o roubo, com apoios ideológicos patetas de europeus que gostam de brincar ao socialismo. Aquilo a que estamos a assistir no país não é motivo para festejos, a menos que Maduro saia pelo próprio pé – para ser recolhido num reformatório cubano ou russo, cheio de ex-leninistas, ex-trotsquistas e um fantasma sonâmbulo de Bolívar. Até lá, com os EUA de um lado e a Rússia do outro, além de um país empobrecido e um povo cansado (que precisa de apoio humanitário), tem tudo para correr mal. Oxalá me engane.

Da coluna diária do CM.

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O caso do Bairro da Jamaica.

por FJV, em 24.01.19

Volto ao tema de ontem – o caso do Bairro da Jamaica – mas não para comentar as declarações trapalhonas (apressadas e imbecis) de Joana Mortágua e de Mamadou Ba, às quais voltarei. O que é assustador é que os oficiais do regime continuam a debater a questão do racismo quando o problema é sobretudo o da pobreza e da degradação. Percebe-se muito bem que o PCP tenha dito que não quer “alimentar a intranquilidade” porque o seu município-bandeira, o Seixal (44 anos na câmara), mantém a vergonha de Vale de Chícharos, ou Jamaica. A história do bairro é lastimável. A sua origem é criminosa. Tem pelo meio as palavras ‘abandono’, ‘gueto’, ‘miséria’ e ‘marginalização’. Foi para lá que enviaram e se refugiaram os negros – e, na penumbra (porque o Estado ali não entra a não ser de capacete), toda a espécie de criminalidade. Entretanto, o bairro vive naquelas condições, o que nos deveria envergonhar a todos, mas sobretudo a autarquia; com tanto lerolero, já devia ter sido demolido e encontrada uma solução para os seus moradores. Não é preciso pensar muito para ver que é a única hipótese.

Da coluna diária do CM.

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O Bairro da Jamaica.

por FJV, em 22.01.19

Os ‘acontecimentos’ no Bairro da Jamaica, no Seixal, reduzem-se hoje aos confrontos entre a polícia e alguns dos seus moradores – mas não deviam. Quando Bruno Vieira Amaral publicou o romance As Primeiras Coisas (2013), centrando a ação no ‘Bairro Amélia’ (no Vale da Amoreira, Moita), o “país literário” descobriu – maravilhado – o mundo cercado dos subúrbios de Lisboa na Margem Sul que não era a futura chique Lisbon South Bay. Também podiam ter ido aos bairros da Bela Vista, em Setúbal, ao Pinheiro Torres, no Porto, ou ao 6 de Maio, na Amadora. Estes bairros, entre outros, são identificados como “problemáticos”, o que é uma designação cretina – como se os seus habitantes estivessem destinados a “causar problemas”, quando o problema mais sério é o de um país em que o Estado se ausenta dos lugares onde deve estar, para providenciar segurança para todos. Mas também para impedir que a pobreza e a discriminação cresçam de mãos dadas, uma na sombra da outra. A ninguém ocorreu, nestes dois dias, que o verdadeiro problema é o da necessidade de acabar com esses bairros e a sua degradação?

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Quem pôs a mão na Caixa?

por FJV, em 22.01.19

Joana Amaral Dias revelou, no domingo à noite (na CMTV), o relatório preliminar da auditoria à Caixa Geral de Depósitos. Não sei se assistiram. Vale a pena. Com a leitura suplementar do livro de Helena Garrido, Quem Pôs a Mão na Caixa? A História que Envergonha o País (Contraponto), são dois documentos importantes para compreender o Portugal contemporâneo e a forma como 1200 milhões de euros (além de outras centenas de milhões de permeio) se evaporaram entre favores, violação das regras de concessão de crédito, jogos de risco e outras irregularidades. Confirma-se que parte do empresariado lusitano vive não só à sombra do Estado mas de conluio obsceno com os incumbentes de ocasião. Trocam favores, claro; mas também casamentos, conveniências e perdas de juízo – uma endogamia perfeita, protegida por vários segredos cujo conhecimento envergonharia toda a gente. A história do banco público é parte dessa vergonha milionária. No entanto, se o leitor tem mais de 50 mil euros num banco, o fisco considera-o um ricaço tremendo e coloca-o na sua lista de vigilância. Brava gente. Bravíssima.

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Magalhães português e Magallanes espanhol.

por FJV, em 21.01.19

Lá para o fim do ano, quando se assinalarem os 500 da viagem de Fernão de Magalhães (um português ao serviço de Espanha) à volta do mundo, há de ouvir-se o ribombar de canhões ao longo da fronteira. A coisa agrada-me. Em setembro passado, Portugal e Espanha anunciaram que cada país teria uma exposição para assinalar o feito – e que, depois, muito amigos, se reuniriam numa só, de braço dado, mostrando que a amizade ibérica é coisa de antanho. Não é. A figura de Magalhães – como a de Colombo – já deu azo a muita asneira e a vários tomos de conspiração sobre os descobrimentos e a primazia de um e outro país nas conquistas de além-mar. Os espanhóis, que anunciaram a “dupla exposição” com serenidade e displicência, acham agora que Portugal (que tem uma “estrutura de missão” para comemorar o feito) ignorou Espanha nos seus papéis enviados à Unesco, de onde não sairão; têm razão, até porque D. Manuel I perseguiu Magalhães até onde pôde (é uma das vítimas da pátria). Mas, caramba, somos os melhores do mundo e ele era portuga; este provincianismo há de queimar-nos, como de costume.

Da coluna diária do CM.

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Mau tempo no canal.

por FJV, em 18.01.19

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Vitorino Nemésio começou a escrever o romance Mau Tempo no Canal em Bruxelas, a 17 de janeiro de 1838, passaram ontem 81 anos (terminou-o em 1944, ano que foi publicado). É o último dos grandes romances portugueses – mesmo se, depois dele, houve títulos como A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, O Delfim, de José Cardoso Pires, Os Meninos de Oiro, de Agustina Bessa-Luís, Para Sempre, de Vergílio Ferreira, ou Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes. A galeria de personagens de Mau Tempo no Canal é grandiosa; as paisagens e os momentos dramáticos são irrepetíveis; Margarida Clark Dulmo, a personagem principal, entra na eternidade da nossa literatura pela porta maior, como uma meteorologia resgatada para nosso deleite e melancolia. Nunca mais houve, até agora, romance como este – uma ventania de beleza que vem dos Açores e nos arrebata até ao fim, com os seus momentos de tragédia e perfeição. Devia ser lido e estudado nas escolas. Ter-se-iam evitado muitos maus escritores. E criado mais leitores.

Da coluna diária do CM.

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As ameaças do Maligno.

por FJV, em 17.01.19

Devemos defender-nos das ameaças do Maligno. Ontem, enquanto lia as reações disparatadas a um anúncio da Gilette (no qual a marca de lâminas de barbear insiste que se pode ser homem sem se ser idiota ou alarve), deparei com as regras de uma empresa do “ramo cinematográfico” para o comportamento dos seus funcionários, a Netflix – uma delas dizia respeito ao ‘namorico e era simples: não namoriques. Não me parece mal; uma empresa é uma empresa. Outra, porém, é decisiva para falarmos dos tempos que correm: não olhes para ninguém mais do que cinco segundos e não dês abraços. Devemos defender-nos dos abraços e dos embaraços do Maligno – evidentemente –, mas já me parece um abuso decretar que olhar nos olhos outra pessoa do sexo oposto (sou pessoa antiga, ainda escrevo “sexo oposto” em vez de “género diferente”) pode levar a abuso e a assédio. Olhemos para o chão. Olhemos para as unhas. Do outro lado há uma ameaça latente e nós (todos nós) somos seres despertos para a inconveniência, incapazes de resistir à brutalidade e à devassidão. Mais ou menos isto; um mundo de doidos.

Da coluna diária do CM.

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Voto secreto.

por FJV, em 16.01.19

Os ‘conselheiros’ do PSD estão divididos sobre a marcação do Conselho Nacional, CN, do partido para amanhã, às 17h00. Ora bem, não têm razão; as 17h00 estão bem para acabar o dia (parte delas não têm emprego propriamente dito): as pessoas reúnem-se, confraternizam, levantam o braço, tomam um mazagrã – e vão para casa calmamente, calçar as pantufas, e ver que imagens foram colhidas pelas televisões nos restaurantes da Mealhada ou na Cufra (onde costumam parar, de viagem), de que forma Luís Montenegro foi trucidado, como os motojornalistas acompanharam a ida de Rui Rio até ao CN, que lances polémicos merecem contestação depois de melhor vistas as repetições, o normal, enquanto não chega a sopa. Claro que, a mim, o que me espanta é ver certas pessoas a defender votações de braço no ar – porque já os vi, compungidos e anti-soviéticos, contestar votações de braço no ar noutros partidos. Este é o pormenor (“nominalmente, com uma chamada individual de cada um dos conselheiros”) que me faz espécie, mas compreendo-o: quando é para fuzilamentos, que seja um de cada vez.

Da coluna diária do CM.

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Estruturalmente.

por FJV, em 15.01.19

A palavra usada por Rui Rio para desafiar os seus críticos e pedir-lhes que saiam do pobre partido a que preside é “estruturalmente”: “Aqueles que discordam estruturalmente devem sair do PSD.” Rio não sabe o que isso quer dizer. A prova é que, em poucos meses, transformou um partido num saco de gatos, obediente, dividido e incapaz de qualquer coisa notável ou digna de nobreza – e, sobretudo, impreparado para sair do pequeno albergue de gente mediana em que ele talvez gostasse de transformar o país. Acontece que, “estruturalmente”, o PSD – mesmo com os seus pecados, a sua gula, a sua cupidez – sempre teve gestos de grandeza para com os seus críticos internos. E, quando não os teve, perdeu o país (como está a acontecer-lhe). “Estruturalmente”, essa é a verdade, Rio conduz o PSD para o “velho PSD” – espertinho e cauteloso, mostrando que irá aproveitar oportunidades mas que é incapaz de deixar de ser “o outro partido do Estado”, que há-de acabar por querer gerir, ou vigiar (para isso tem lá gente), como uma Junta de Freguesia. “Estruturalmente” é assim que as coisas se estão a passar.

Da coluna diária do CM.

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A censura que esbarra na beleza.

por FJV, em 14.01.19

Por vários motivos veio parar-me às mãos um parecer dos serviços da PIDE, datado de 4 de outubro de 1966 (é o relatório n.º 7.882), relativo a Dona Flor e os seus Dois Maridos, sem dúvida um dos melhores, senão o melhor romance de Jorge Amado. O ‘leitor’ (é assim que ele assina, como um crítico literário encartado pela polícia política) Estêvão Martins aparece rendido ao livro, que é picante: “Romance cem por cento brasileiro de índole muito maliciosa em que são descritas algumas cenas pouco edificantes, senão imorais.” Bastaria isto para proibir o livro? Sim. Mas o colaborador da PIDE leu as cenas entre D. Flor e Vadinho, o defunto licencioso que regressa do Além para importunar os desejos da esposa – e não resiste: “Porém, a beleza da prosa e a delicadeza com que são apresentadas as brejeirices forçam-nos a uma certa condescendência favorável na nossa apreciação.” O texto é curto mas uma peça maravilhosa de “juízo literário”. A esta distância, Estêvão Martins, ai dele, merece a nossa simpatia: em nome da beleza e da “categoria literária do autor” salvou um livro das masmorras.

Da coluna diária do CM.

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Para já, multemos.

por FJV, em 11.01.19

Em Singapura a multa para quem deitar uma ponta de cigarro na rua é bastante alta; também está banida a venda livre de pastilha elástica para que não acabe no chão, pisada e eternizada (andar nu em casa também é punido, mas isso é outro assunto). É Singapura. Em Lisboa, de acordo com as regras anunciadas ontem pela Câmara, as multas também são pesadas para quem deite beatas e pastilhas para o chão (e para os estabelecimentos comerciais que não disponham de cinzeiros públicos, por exemplo) – estas medidas são acompanhadas de muitas outras sobre a utilização de plástico ou recolha de lixo, por exemplo. É uma boa lista. Lisboa merece ser mais limpa. Há anos, Vasco Pulido Valente perguntava-se: Lisboa é suja porque é suja ou porque os lisboetas a sujam? A pergunta tem razão de ser. Tenho tendência para fazer piadas sobre multas desta natureza (não sei se são inconstitucionais, aliás), porque geralmente é o Estado que não cumpre os regulamentos. Ontem, fiz piadas com isto, sim: é a câmara de uma cidade suja que lança multas sobre quem faz lixo. Mas guardei a beata numa caixinha.

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As novas rotas da seda.

por FJV, em 10.01.19

O novo livro de Bruno Maçães, Belt and Road, A Chinese World Order, acabado de publicar em Inglaterra, é um prodígio de informação e de inteligência. Mostra como a China tenciona refazer a economia mundial e as relações culturais através de uma rede de comunicações, influências e ocupação do espaço. A ideia de “transporte” é múltipla, reconstruindo as rotas que há séculos fizeram da seda e da porcelana instrumentos do poderio económico chinês. É esse também o tema do recente livro do historiador Peter Frankopan, The New Silk Roads (já tinha escrito As Rotas da Seda, Relógio d’Água) – onde os caminhos de antigamente levavam a Roma, levam agora a Pequim, que tenta fazer amigos em todo o lado, ao contrário dos EUA (um país cada vez mais isolado). Para Frankopan, este será um “século asiático” (tese de Maçães, em ‘O Despertar da Eurásia’, já publicado pela Temas e Debates) – e cético em relação às virtudes da democracia. Entre nós, o pobre racismo anti-chinês impede-nos de apreciar o nascimento de um mundo novo, perigoso e desconhecido.

Da coluna diária do CM.

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