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Pobre Eça.

por FJV, em 19.02.21

Em Itália há uma ONG que quer banir a Divina Comédia, de Dante (este ano comemoram-se os seus 700 anos), das escolas italianas, porque a obra – um dos livros essenciais da cultura ocidental –, “ofende homossexuais, muçulmanos e judeus”. Sejam bem vindos. Nada disto é novo. Em 1983, a esquerda francesa, através do jornal Libération, pedia que o governo de Mitterrand colocasse no índex (por “provocação pública e ódio sexista”) obras de Hemingway, Thomas Hardy, Rabelais, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, todo o Kafka e a poesia de Baudelaire. Avancemos: ontem, 18, numa universidade americana, Darmouth (Mass.), uma investigadora fez uma conferência intitulada “É Os Maias um romance racista?” Pobre Eça, que tanto se preocupou com o racismo, a injustiça e a segregação. Nada disto é novo. Como não entendem nada de literatura, os ativistas dos cursos de letras preocupam-se com a “misoginia”, o “racismo” ou o “machismo” de Eça. Para os mais otimistas, aviso que nas nossas universidades vamos ainda ouvir falar do Pessoa racista & colonialista, do Camilo protofascista e misógino, do Camões e do Vieira imperialistas. Os tolinhos estão em todo o lado, e vão continuar.

Da coluna diária do CM.

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Sonetos Portugueses (Sonnets from the Portuguese).

por FJV, em 18.02.21

Diz-se que o escritor Robert Browning (1812-1889) tratava a sua mulher Elizabeth Barret Browning (1806-1861), que escreveu a mais bela poesia inglesa da época vitoriana, por “minha pequena portuguesa”. É certo que os antepassados de Elizabeth viveram na Jamaica, para onde se registou uma elevada imigração de judeus portugueses – mas o marido escolheu “portuguesa” por causa da tez morena da autora de “How Do I Love Thee?”, um poema maravilhoso, publicado justamente no livro Sonetos Portugueses (Sonnets from the Portuguese), que terminou por volta de 1845, altura em que o casal viajou para Roma, primeiro, e Florença, depois, onde se fixaram para o resto da vida – trabalhando “a partir de casa”, como diz a sua biógrafa Fiona Sampson no livro Two Way Mirror, biografia que é publicada hoje em Inglaterra. Os Browning criaram, pois, uma espécie primitiva de teletrabalho – e a cura contra os males de saúde de Elizabeth (que estava em confinamento perpétuo devido a dificuldades respiratórias), graças a comida fresca, sol, vinho e caminhadas noturnas. Não sei se estão a ver onde quero chegar.

Da coluna diária do CM.

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O coiso.

por FJV, em 17.02.21

Nada pode justificar as imagens de violência policial captadas ontem, no Barreiro. Caçar desobedientes ao “confinamento” tornou-se um desporto por parte das entidades policiais; não que não estejam em cumprimento da lei e das suas obrigações, mas porque se trata, muitas vezes, de um dispositivo desproporcionado e invulgar, com vistosas operações de auto-stop, controle discricionário, apoio das televisões e, por vezes, uso e abuso da posição de autoridade junto de pessoas que se limitam a ir trabalhar e não podem limitar-se a “ficar em casa” para cumprir um retiro espiritual. O “confinamento” tornou-se um pesadelo para muitos portugueses – e tanto o Estado em geral como as autoridades de proximidade parecem ter-se habituado ao controle que exercem e ao seu papel de mestres-escola quando o pano de fundo é a incompetência para passar mensagens não contraditórias. Não se podem desculpar a violência nem a insensatez dos que desobedecem às medidas mais elementares. Mas o “confinamento” está a tornar-se além das injustiças e situações de desespero que provoca – caso de anedota e de inabilidade.

Da coluna diária do CM.

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Mau Tempo no Canal.

por FJV, em 16.02.21

Regresso por vezes à leitura de Mau Tempo no Canal (de que coleciono várias edições, de 1944 até hoje), de Vitorino Nemésio, para espairecer e recordar como era a Língua Portuguesa quando a escrevíamos com maiúsculas. Não porque um escritor deva ser um repositório do Dicionário da Academia (que, aliás, não temos) ou da gramática escolar (que tem pouco interesse) – mas porque os transcende. A história de um desamor (entre Margarida Dulmo, João Garcia e Roberto Clark) e de uma guerra de famílias passa-se entre quatro ilhas: Faial em primeiro lugar, depois o Pico, depois São Jorge e, finalmente, em epílogo de passagem, a Terceira. Almanaque de famílias, manual de botânica e geologia, estudo de meteorologia e de arquitetura, recolha de dialeto, apontamentos de humor ocasional, notas sobre endividamento e isolamento, Mau Tempo no Canal é trágico e como na literatura portuguesa do século passado talvez só conseguiram ser Aquilino e Agustina, nossa última voz clássica; a sua melancolia, iluminada pelo clima das ilhas, produz personagens que não podem esconder nada. É uma obra-prima.

Da coluna diária do CM.

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Os livros não choramingam.

por FJV, em 15.02.21

De excepção em excepção, e sem um pingo de bom senso, a novela das proibições de venda de livros ameaça não ser apenas uma tolice, mas entrar no anedotário português. Daqui a uns anos havemos de recordar este tempo em que se podiam vender livros em quase todos os lugares, excepto em livrarias – e em que o primeiro-ministro anuncia que só não proibiu a venda de livros porque o Presidente da República o proibiu. Se Portugal fosse um país de leitores impenitentes, vorazes e entusiastas, as autoridades sanitárias bem podiam temer ajuntamentos de cidadãos diante das livrarias – mas a realidade é que estamos nos últimos lugares das estatísticas europeias de leitores. Primeiro, proibiu-se a venda de livros nos supermercados invocando normas de concorrência; agora, permite-se o negócio em supermercados e certos espaços comerciais que também tenham livros nas prateleiras, agudizando as questões de concorrência, mas mantendo a proibição de as livrarias abrirem para vender a única coisa que podem: livros. Como os livros não choramingam nem se empoleiram em protestos, não são escutados.

Da coluna diária do CM.

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Incomodados com ideias desagradáveis.

por FJV, em 12.02.21

Ao contrário do que acontecia com a tradição universitária que mandava discutir, arriscar e contrariar, as novas gerações “protegem-se do perigo” – nos EUA criaram “zonas seguras” onde os estudantes não podem ser “agredidos” com discursos que os contrariem ou contenham ideias maléficas. No Reino Unido vigiam-se bem as audiências, proibindo-se conferencistas importantes mas discutíveis e cujos livros possam ser “problemáticos”. Basta sair um pouco do cânone, pressentir-se o mais pequeno risco de polémica. Veja-se a universidade de Durham (RU), onde a associação de estudantes exige ser informada do tema das conferências com duas semanas de antecedência, ou de quatro se o tema for “controverso” – caso em o texto da conferência deve ser conhecido previamente, a fim de não conter referências racistas, misóginas, transfóbicas ou homofóbicas, anti-semitas ou colonialistas. Os estudantes têm o direito, diz a comandita que governa a universidade, de não serem incomodados com ideias desagradáveis. Em silêncio, isso já se passou entre nós. Os nossos antepassados, que criaram a Europa e discutiram com intensidade e paixão, devem estar a rir. 

Da coluna diária do CM.

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Depois disto.

por FJV, em 11.02.21

Todos imaginamos o que vamos fazer “depois disto”. Um almoço de família, um jantar com amigos; um reencontro com os pais, com os filhos, os avós; um manhã na esplanada, uma caminhada pelas ruas da cidade; uma ida às compras (roupa, livros, inutilidades), um jantar ao ar livre; um passeio ou uma pequena viagem de fim de semana, uma saída noturna. Deixar de estarmos vigiados, controlados aqui e ali. Receber amigos em casa. Nem tudo vai ser fácil – uma pandemia não se interrompe; devagar, vai cedendo; e nós, com igual lentidão, vamos reconstruindo o tempo. Este é um aviso sério para os políticos que têm de decidir e para as empresas que têm de reabrir com urgência: tudo vai ser lento e quase tudo vai ser difícil. No Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago, ou em A Peste, de Albert Camus, a vida retoma-se de um dia para o outro, mas haverá muitas feridas para tratar, as janelas abrem-se para o ar entrar em casa, ainda que sem provocar vendavais. Esse – a pressa – foi o erro fundamental do verão passado. Vamos reaprender a caminhar, passo a passo. E lembrar os que partiram. Não vai ser fácil.

Da coluna diária do CM.

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Livros nos hipermercados.

por FJV, em 10.02.21

Os livros devem ser vendidos em livrarias, estejam elas onde estiverem – no nosso bairro, em praças onde entramos à procura delas, num beco escondido da chuva de inverno e da luz do sol, num supermercado onde compramos comida, em corredores de um centro comercial. Onde elas estiverem como estamos nós. O pedido para que, isoladamente, se autorizasse a venda de livros nos hipermercados soou-me sempre mal: porque nunca compreendi que, estando autorizada a abertura de lojas com venda à porta, ou no postigo, se proibisse a abertura de livrarias à porta – ou no postigo. Um interessante e compreensível lóbi de livreiros, aliados do governo, defendeu esta ideia como totalmente justa, na medida em que permitia aproveitar os apoios ao ‘lay off’. Apesar dos argumentos deste lóbi junto das autoridades, a decisão de proibir a venda de livros em livraria (à porta ou no postigo) não é justa e não está a ter bons resultados. É um argumento ideológico que menoriza e infantiliza a área do livro; esperamos que novo estado de emergência isto seja corrigido e as livrarias possam entreabrir as portas.

Da coluna diária do CM.

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Christopher Plummer (1929-2021).

por FJV, em 09.02.21

Gostava bastante de Christopher Plummer (1929-2021), que interpretou a figura do barão Georg Ludwig von Trapp no filme Música no Coração (de Robert Wise, 1965) – e havia um belo motivo: ele considerava-o “aborrecido, sentimentalão e banal” e irritava-o muito a parceira Julie Andrews; trabalhar com ela “era como ser todos os dias atingido na cabeça por um postal a dar-nos os parabéns”. Este canadiano de Toronto era tudo menos aborrecido, de bigode ou sem ele, na televisão ou no cinema, sempre em estado de ironia e auto-ironia, representando personagens tão variadas (de comandante no Star Trek IV a Sherlock Holmes) como modeladas pelo seu temperamento de resmungão amável e divertido, muito melhor a representar um “mau” do que um “bonzinho”. Talvez por isso ele tenha sido genial no palco, interpretando Shakespeare. Para quem o julga apenas capaz de papéis secundários (em que se tornou um especialista) há registos notáveis de A Tempestade, de Henrique IV, Macbeth ou Sonho de uma Noite de Verão. Morreu aos 91 anos na semana passada. Fazendo, por certo, uma piada sobre si próprio.

Da coluna diária do CM.

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Lana Turner.

por FJV, em 08.02.21

Hoje, se fosse vivo, James Dean festejaria os seus 90 anos – desapareceu aos 24, depois atuar em A Leste do Paraíso e Fúria de Viver, ambos de 1955, o ano da sua morte. Mas hoje assinalamos também o centenário de uma das grandes lendas de Hollywood, Lana Turner – não sei se se recordam de O Destino Bate à Porta, a versão de 1946 de O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes (também podemos ver a de 1981, com Jack Nicholson e Jessica Lange, ou a de 1943, de Luchino Visconti, Obsessão), onde Lana sobe ao estatuto de estrela. É um filme e tanto; o seu papel é marcante, cheio de falsa inocência, escaldante, e é definitivo na história do erotismo. A sua vida – uma criação do cinema – há de estar ligada a ele e aos seus equívocos: sete casamentos, sete divórcios, muitas ligações perigosas, o drama da filha Cheryl (que matou o seu amante Johnny Stompanato), alcoolismo – e filmes que construíram um destino nem sempre feliz. A sua beleza era tão mítica quanto rara e infernal. Há momentos discretos, bem como parcerias eternas (com Clark Gable, por exemplo). E não a esqueceremos nunca.

Da coluna diária do CM.

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O Estado no meio do ridículo

por FJV, em 05.02.21

Os livros vendidos nos hipermercados não são os mesmos das livrarias físicas ou online (onde há diversidade e pluralidade) – são, sobretudo, livros que os hipermercados decidem vender depois de as livrarias, que arriscam a pele e são o nosso orgulho, os terem promovido. Mesmo assim, os hipermercados não podem vender livros. No entanto, podemos comprar magníficos e insubstituíveis bens à porta de lojas que decidiram abrir; não livros, porque o ministério da Cultura foi formatado para não o autorizar. Depois de criar-se a ideia de que “a cultura” se esgotava no universo do espectáculo e dos concertos, que atravessam uma crise grave, as autoridades da Cultura & da Economia são indiferentes à crise igualmente grave em que vivem editores, livreiros, autores, tradutores, designers, impressores e distribuidores – o setor que nunca lhes dá trabalho nem fornece dependentes. Pelo contrário: é um dos mais importantes nas chamadas “indústrias culturais”. Espero que dia 14, na renovação previsível do estado de emergência seja corrigida esta injustiça tremenda que coloca o Estado no meio do ridículo.

Da coluna diária do CM.

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Adelaide João.

por FJV, em 04.02.21

Eu gostava muito quando ela aparecia no ecrã. Tinha um ar doce e sorridente – Adelaide João passou por nós, por todos nós, com aquela graciosidade de senhora simpática, mas é importante que falemos do seu talento, da sua carreira no teatro, da popularidade na televisão que tanto a fazia desempenhar papéis de gravidade (em projetos de Artur Ramos, em textos de Camões, Arthur Miller ou Tchekov) como personagens de comédia. Não é fácil ser atriz de papéis secundários, estar na sombra e iluminar o palco, obrigar-nos a rir quando aparece (ela fingia maravilhosamente aquele seu ar desajeitado e desorientado), obrigar-nos a reconhecer nela uma mãe, ou uma avó, ou uma tia com quem gostamos de conversar precisamente sobre a telenovela onde entrava Adelaide João. Ou reconhecê-la nesse papel secundário sempre que nos cruzávamos com ela num filme (de Fonseca e Costa, Fernando Lopes ou Manoel de Oliveira, por exemplo). Houve magníficos atrizes e atores de papéis secundários (supporting actors sem os quais não há nada), Adelaide João era uma das nossas melhores, até anteontem, até aos 99 anos. 

Da coluna diária do CM.

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Mehmed II e o império otomano.

por FJV, em 03.02.21

Passam hoje 570 anos sobre a definitiva subida ao poder de Mehmed II (ou Maomé II, 1432-1481) no Império Otomano, de que é uma das figuras históricas admiráveis, juntamente com a de Solimão, o Magnífico, que viveu um século mais tarde. A data tem interesse porque dois anos depois, em 1453, Mehmed II, o Conquistador, pôs termo ao Império Romano do Oriente, ou Bizantino, com a tomada de Constantinopla – determinando que a catedral de Hagia Sofia passava a mesquita, mas nomeando o patriarca cristão como governador da cidade. Criou bibliotecas, palácios, universidades, rodeou-se de humanistas, permitiu a liberdade religiosa – e foi amigo de Gentile Bellini, pintor a quem encomendou um retrato seu e paisagens de Constantinopla. E também uma pintura de S. João Batista decapitado – ou seja, da cabeça oferecida a Salomé. Quando o quadro chegou, Mehmed achou que Bellini, que estudara anatomia com Leonardo Da Vinci, não fizera uma boa representação do pescoço dilacerado. Para o provar, mandou decapitar um escravo, mostrando-lhe o erro de pormenor. Já o retrato do imperador, esse, é perfeito.

Da coluna diária do CM.

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O Dicionário de Oxford e a nossa pobreza.

por FJV, em 02.02.21

Como fui criado no tempo em que ainda existiam caderninhos para “palavras difíceis”, vi com interesse O Professor e o Louco, um filme (com Mel Gibson e Sean Penn) sobre a criação do primeiro grande dicionário moderno, “o Oxford”, como designamos a obra monumental organizada por James Murray a partir de 1879 (20 volumes). Ora, não bastava incluir uma palavra no dicionário – era preciso mostrar como ela tinha chegado até nós, como fora usada ao longo dos séculos e de que forma “os autores” lhe tinham modificado o sentido. Murray, que falava 18 línguas, era um erudito mas, além de anotar as palavras dos escritores, acabou por prestar atenção à linguagem popular, o que fez do Dicionário de Oxford uma obra pioneira. Uma beleza. Penso nisso quando imagino o dicionário informal de certos best-sellers portugueses; parece que a ideia, hoje, não é a de usar o tesouro e os mestres da nossa língua, mas a de, por preguiça (“e para ser entendido”) banalizar e empobrecer orgulhosamente a escrita. Ao folhear os manuais de Português vejo a mesma pobreza. É um legado muito triste.

Da coluna diária do CM.

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Clark Gable.

por FJV, em 01.02.21

Podíamos dar voltas e voltas em redor de Rhett Butler, a personagem interpretada por Clark Gable (1901-1960) em E Tudo o Vento Levou (1939), ao lado de Vivien Leigh. Cínico, destemido, perigoso, herói em silêncio mesmo quando sabe que está do lado errado ou condenado a uma derrota previsível, Rhett nunca perde nem a aura de cavalheiro nem o tom de amargura sem ilusões. É difícil separar Clark Gable desse papel, que marcou todos os filmes que fez daí em diante, de Mogambo (de John Ford, com Ava Gardner e Grace Kelly) a Os Inadaptados (de John Huston, com Marilyn Monroe), até mesmo em comédias inocentes, como Começou em Nápoles (com Sophia Loren). Mas a filmografia de Gable, que é vasta, deu-nos sobretudo um grande ator, um intérprete capaz de usar quase todas as máscaras sem perder a elegância de um patife e o sorriso de um cavalheiro. Modelo de uma masculinidade de outros tempos (até na sua paixão comovente por Carole Lombard), mítico sedutor de Holywood, Clark Gable é inesquecível. Até hoje, quando passam 120 anos sobre o seu nascimento. Não, não podemos esquecê-lo.

Da coluna diária do CM.

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Diálogos bufos e facetos.

por FJV, em 28.01.21

De entre os “romances políticos” do século XIX, há três que vale a pena ler a propósito dos nossos tempos: As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis (com o suplemento militante e o idealismo infantil de Os Fidalgos da Casa Mourisca), o extraordinário Eusébio Macário (e a continuação em A Corja), de Camilo, e O Conde de Abranhos, uma comédia burlesca (a que se podem acrescentar A Capital e Os Maias) de Eça. É um mundo: os diálogos bufos e facetos, as nomeações de conveniência, a corrupção, os pantomineiros e velhacos, as conveniências, a impunidade dos peraltas e caciques, a ignorância provinciana, a boçalidade, a apropriação de vantagens; mas também o povo maltratado e pobre a quem se pode mentir e que não sabe nem quer distinguir a verdade da mentira, bem como a manipulação sem vergonha que passa por habilidade pura. A classe que está hoje no poder (bem como a que espera que, por milagre, o poder lhe caia no colo) sabe que tudo isto lhe podia ser fatal noutro país – mas só aqui os 303 mortos da pandemia podiam ser anunciados apenas depois do debate parlamentar.

Da coluna diária do CM.

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O patriotismo é o último refúgio de um canalha.

por FJV, em 27.01.21

O patriotismo é o último refúgio de um canalha. A frase é de Samuel Johnson (1709-1784), autor notável, e convém lembrá-la. Frequentemente, em circunstâncias funestas, críticas e dolorosas, invoca-se o patriotismo como uma espécie de benção e tábua de salvação. Não é. Temos uma ideia do que é patriotismo – mas não somos capazes de o definir. Como temos uma noção do que é a pátria – mas ela é várias coisas. Nos últimos tempos, as autoridades (um conceito que também é flutuante) insistem em que criticar o governo, duvidar das suas decisões ou discutir as medidas durante a pandemia – é anti-patriótico. Ou criminoso, até. Trata-se, naturalmente, de resultado do cansaço e da pressão extrema vivida no último ano, e só assim pode ser desculpada. Não encontro outra explicação porque uma acusação como essa é, sempre o foi, o último refúgio de um canalha. Em termos políticos é a expressão de um autoritarismo provinciano; no resto, é uma pulhice disfarçada. No momento em que diariamente morrem os nossos, anonimamente e sem qualquer outra proteção diante do silêncio, a acusação é vergonhosa. 

Da coluna diária do CM.

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Limpar todo o passado.

por FJV, em 26.01.21

Estamos salvos. A Disney americana acaba de retirar do seu catálogo filmes infantis como Dumbo, Peter Pan ou Os Aristogatos – e onde os colocou? No catálogo para adultos, porque os filmes “incluem estereótipos e conteúdos racistas”. Mas, como se não bastasse esta imbecilidade, a Disney – que se transformou numa fábrica de patetas – também inclui na projeção dos vídeos um aviso informando os adultos de que “este filmes podem conter representações culturais obsoletas”. Basta uma referência (há um gato siamês em Os Aristogatos que pode ofender pessoas asiáticas) para estragar tudo. Não vale a pena invocar a razão, a necessidade de alguma correção sensata, um módico de serenidade e ponderação – a revolução tem de ser feita depressa e com violência. É um princípio leninista e maoista que as plataformas e a indústria americana do entretenimento adotam, tomadas de assalto por uma nova elite ignorante e quadrada, formada por “ativistas do bem”, desejosos de limpar todo o passado e toda a memória. No fundo, são pornógrafos disfarçados de puritanos.

Da coluna diária do CM.

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Estranho.

por FJV, em 25.01.21

Duas coisas boas do fim de semana: por um lado, eleições, que correram bem; por outro, uma razoável quantidade de professores que decidiu, por sua conta e risco, preparar materiais para enviar aos seus alunos durante este período de “férias” forçadas que terão consequências mais brutais na saúde mental, na aquisição de conhecimentos e no equilíbrio de adolescentes “confinados”, do que o recurso ao ensino à distância mesmo nestas condições. Isso não conta para os que decidiram, pura e simplesmente, encerrar as escolas depois de terem menosprezado com ligeireza as ameaças da pandemia, de terem faltado às suas promessas populistas (as de fornecer milhares de computadores e de prepararem aulas online até ao início do ano) e de falharem na proteção ao trabalho dos estudantes. Nisto, o mais irritante é quantidade de oportunidades perdidas pelo caminho bem como o enviesamento político e partidário que pesa sobre decisões desta natureza. Pela primeira vez aconteceu no meu país que, no cumprimento da lei, a polícia interveio para fechar escolas; é estranho, mas a culpa não é só da pandemia.

Da coluna diária do CM.

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Factos.

por FJV, em 21.01.21

Ontem de manhã o secretário de Estado da Saúde informou-nos que existia um largo “consenso político” sobre a abertura das escolas. De facto, bastaram quatro horas para o Presidente da República – depois de falar com o primeiro-ministro – nos informar da necessidade de até hoje, quinta, se tomar a decisão de encerrá-las. O primeiro-ministro, que tinha fechado os ATL na sexta-feira, e que os tinha reaberto na segunda, informou-nos entretanto que mandaria fechar as escolas se descobrisse que havia infeções com a variante inglesa (que atingirá os 60% em fevereiro), como se não bastasse que o número de casos no escalão 10-19 anos tivesse ultrapassado o dos 60-69. Entretanto, houve um momento de grande enlevo filosófico: interrogada por um jornalista sobre o número de exceções do confinamento, a senhora Ministra da Saúde diz que é falso; o jornalista prova, com factos, que é verdade; a ministra diz que “as exceções não se contam pelo número mas pela forma com as interpretamos”. Houve um tempo em que se dizia “os factos são errados”; agora, basta dizer “os factos são inúteis”. Bem vindos.

Da coluna diária do CM.

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A desculpa para proibir a venda de livros.

por FJV, em 20.01.21

Nunca imaginei que um governo mandaria retirar livros das prateleiras dos supermercados, nem em nome da concorrência. As perdas no mercado editorial, em 2020, foram da ordem dos 17%. Talvez seja bom lembrar que a indústria da edição (que junta autores, editores, impressores, tradutores, livreiros, designers, distribuidores) é o maior contribuinte das chamadas “indústrias culturais”, quer em valor, quer em emprego, quer em exportação além de desempenhar um papel central nas nossas vidas, na nossa cultura e na nossa língua e identidade. Nem que fosse por motivos simbólicos, a proibição de venda de livros nos supermercados, nas lojas dos correios, seja onde for, seria um gesto importante para a edição, uma área da cultura que não recebe apoios do Estado e que, apesar de tudo, sobrevive e cumpre um papel essencial nas nossas vidas. A batalha pelo livro não pode ser apenas vista como um “problema do comércio retalhista”. Que o Ministério da Cultura não entre em campo a defender o livro, não me surpreende, infelizmente. Que o governo o faça desta forma brutal, é um sinal perigoso para todos. 

Da coluna diária do CM.

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Patricia Highsmith.

por FJV, em 19.01.21

 

A primeira versão do guião de O Desconhecido do Norte-Expresso (1951) é de Raymond Chandler, mas ele achava que a história, que adaptava o livro de Patricia Highsmith (1921-1995), era fraca. Não tinha razão e o filme, de Hitchock, fez-se sem ele; quatro anos depois, nasceria Tom Ripley, a personagem de Highsmith que mais nos marcou e que vive em cinco livros (adaptados ao cinema), o primeiro dos quais O Talentoso Mr. Ripley. A vida faustosa de Ripley começa quando mata Dickie Greenleaf, inicia a carreira de falsificador de arte e é obrigado a cometer ocasionais homicídios – mas o talento verdadeiro é de Patricia Highsmith, que nos obriga a ficar do lado do criminoso. É uma saga de suspense e de uma psique negra e nervosa, que aliás marca todos os livros da autora, como O Grito do Mocho, O Diário de Edith, Gente Que nos Batem à Porta, para citar alguns. Patricia Highsmith é mais do que uma escritora; cria ambientes, personagens sempre em queda pelo abismo, explora o nosso sentido do estranho e o nosso medo da verdade. Um génio. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento.

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O desconhecido Christopher Little.

por FJV, em 18.01.21

Hoje, que passam 140 anos sobre o nascimento de um dos grandes editores franceses, Gaston Gallimard, gostava de vos recordar que, em 1995, o agente literário Christopher Little tinha enviado para o lixo o manuscrito de um livro intitulado Harry Potter e a Pedra Filosofal. A autora, Joanne Rowling, vivia em Edimburgo, tinha atravessado um mau período em Portugal e enviara-lho cheia de esperança. Uma assistente de Little, Bryony, gostou da encadernação e recuperou-o do lixo. Little leu-o e levou-o a 12 editores, que o recusaram. Até que uma pequena editora, a Bloomsbury, decidiu publicá-lo, com um adiantamento de 3000 euros e uma tiragem de 500 exemplares. Saiu em 1997, os americanos pagaram 110 mil dólares para poder publicá-lo e a Warner deu quase 2 milhões pelos direitos para cinema. Joanne, que mudou o nome para JK Rowling, tem uma fortuna de 850 milhões de euros, graças ao trabalho de Little, cuja vida dava um filme. Morreu em Londres, aos 79 anos, foi vendedor de madeira, têxteis e papel no Oriente (onde viveu grande parte da vida), trabalhou na banca e gostava de râguebi. 

Da coluna diária do CM.

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A Wikipedia.

por FJV, em 15.01.21

Não sei se se lembram dos primeiros tempos, mas o mundo mudou depois da Wikipedia, criada há exatamente vinte anos (a 15 de janeiro de 2001) por Jimmy Wales e Larry Sanger. Hoje em dia, a cada dúvida e em cada início de pesquisa sobre qualquer tema – sentados no sofá da sala ou à mesa do café –, puxamos do smartphone e procuramos na Wikipedia. Só por isso (a frase é absurda) já valia a pena a internet. Claro que ao longo destes vinte anos foram semeados erros, imprecisões e enviesamentos, sobretudo no domínio da história e das chamadas “ciências humanas”, onde a apropriação da Wikipedia é parte do combate ideológico e político; além de muito ter favorecido a preguiça nas escolas secundárias, por exemplo, e até certos trabalhos universitários de baixo nível. Mas é um bem inestimável se soubermos que aquelas páginas são um recurso de circunstância e não a palavra definitiva, um primeiro passo e não uma cábula para a posteridade, uma referência móvel e não um monumento. De todos os defeitos da internet, de que cuja qualidade nos queixaremos sempre, não faz parte o acesso à informação.

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Depois de Trump, há outro monstro a tomar o poder.

por FJV, em 14.01.21

Toda a gente ficou muito satisfeita porque o Twitter bloqueou a conta de Donald Trump e, assim, o ainda presidente americano deixou de exibir o estado permanente da sua tolice. O problema é que a decisão não foi tomada pelo Congresso, nem pelo Senado, nem pela Casa Branca – foi uma empresa tecnológica que faz parte do poderoso universo onde entram a Google ou a Facebook, e que têm no comércio, controle e vigilância de dados (ou seja, de nós) uma parte essencial do seu negócio. Há aqui, portanto, um perigo imediato: o de um conglomerado tão poderoso, suspeito e fora de escrutínio poder calar quem quiser, incluindo um presidente eleito. Mais: trata-se de empresas que alimentam um credo e um saco de gatos ideológico no qual dão guarida às coisas mais absurdas das modas e dos ativismos ‘progressistas’ de hoje. O seu poder é maior do que se imagina e a suas manias ideológicas são subtilmente impostas ao universo online a partir de uma bolha na Califórnia. Trump é um sujeito que não se convida para jantar; mas tenham cautela com as festividades, porque um há outro monstro a tomar o poder.

Da coluna diária do CM.

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Contas injustas e maldosas.

por FJV, em 13.01.21

Tinha prometido não comentar mais o tema ‘pandemia’ – mas é impossível ver deslizar os números catastróficos dos últimos dias. Um raide diário de mais de 100 mortos desenha essa catástrofe com crueza bastante e, na minha idade, já não tenho paciência nem para “negacionistas” da gravidade do vírus, nem para propagandistas das virtudes da Dra. Graça e do Dr. Costa. Posso compreender ambos – mas com dificuldade. O país ultrapassou ontem a barreira dos 150 mortos: não é uma barreira, é uma crueldade que não admite desculpas daqui em diante. 155 mortos em Portugal correspondem aritmeticamente a 3226 no Brasil e, para simplificar, a 5003 nos EUA (números que as televisões exibiram como uma vergonha universal em dois países dirigidos por que se sabe). As contas, feitas assim, são injustas e maldosas, certamente – mas dão uma ideia de como as coisas foram efetivamente mal geridas. Tão maldoso e injustificado como dizer que a culpa pela desgraça é “dos portugueses”. Nós, cidadãos, não somos epidemiologistas nem decisores políticos. Mas sabemos reconhecer um desastre quando está à nossa frente.

Da coluna diária do CM.

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O preço que nunca compensa, 2.

por FJV, em 12.01.21

Saul Bellow, um dos grandes mestres do século XX, escreveu na altura o prefácio a The Closing of the American Mind, de Allan Bloom (A Cultura Inculta na tradução portuguesa). No fundo, Bloom alertava para as consequências do fomento da ignorância, da superficialidade e da incultura promovidas pelo sistema escolar – uma sociedade sem regras, sem ponderação, sem sensatez. No fundo, previu um Trump na Casa Branca – um entre muitos. Inculto, nababo, obsessivo, mimado, sem leituras nem conhecimentos de História, nem de Ciência, nem de urbanidade, modelado pelo poder do dinheiro e dos desejos individuais. Não estou a fazer discurso moralista. As reformas escolares das décadas de 70 e 80 (muito modernas, destinadas a facilitar a vida aos meninos) produziram, em larga escala, camadas deploráveis de gente assim. Ao contrário do que pensavam esses reformadores – que torpedearam a cultura geral, o estudo e a exigência –, o género humano, sempre que pode, desce de nível, fomenta a preguiça inteletual, promove o que há de pior em cada momento. Lá como cá, não sei se me entendem.

Da coluna diária do CM.

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O preço que nunca compensa.

por FJV, em 11.01.21

O “fenómeno Trump” não me intriga – é suficientemente repulsivo. O seu comportamento pueril, histriónico, de ditador cómico, estava previsto. Não que, como aqui escrevi, não fosse preciso compreendê-lo nas suas raízes, como uma tentativa de se apoderar dos “americanos esquecidos” pela elite de Washington, que responderam dando-lhe o seu voto. Mas um demagogo é um demagogo, se me faço entender – lá e aqui. Encarar um demagogo como um antídoto contra a decadência ou a corrupção, é deitar tudo a perder a médio prazo, porque depois de instalado exibirá os piores instintos pessoais e as piores companhias que lhe deram acesso ao poder. A direita como a esquerda têm as suas tentações periódicas, tal como o “homem comum”, desprotegido e sitiado pela penúria, pela indiferença e pela injustiça. Mas o preço a pagar pelo apoio a demagogos deste género é sempre alto. Os republicanos, na América, pagarão caro pela sua desistência e por terem aberto as portas a um ser tão infantil como Trump. Em Portugal, é bom que a direita aprenda a lição e a desventura dessa permissividade. Nunca compensa.

Da coluna diária do CM.

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Hammett

por FJV, em 08.01.21

Passam no próximo domingo 60 anos sobre a morte de Dashiell Hammett (1894-1961), autor de O Falcão de Malta e criador da figura do detetive Sam Spade. Esse livro é o seu grande legado – foi adaptado ao cinema por John Huston (o título em português foi Relíquia Macabra), e merecia essas três brilhantes interpretações: as de Humphrey Bogart (como Sam Spade), Mary Astor e Peter Lorre. Em português, estão publicados A Chave de Cristal, Colheita Sangrenta ou A Maldição dos Dain; nestes dois o detetive é Continental Op, um operacional privado que conta as histórias na primeira pessoa, mas de que nunca saberemos o nome – e que influenciou a construção dos detetives de escritores como Raymond Chandler (Marlowe) ou Mickey Spillane (Mike Hammer), duros, com nervos de aço, determinados e solitários. Dashiell Hammett foi casado com a escritora comunista Lillian Hellman e autor de uma centena de histórias. Preso, condenado por actividades anti-americanas, não teve uma vida feliz. Este fim de semana poderíamos ler um dos seus livros, ou rever Relíquia Macabra. É uma bela homenagem.

Da coluna diária do CM.

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A natureza do voto.

por FJV, em 07.01.21

Parece que, entretanto, vão realizar-se as eleições presidenciais. O acontecimento está a ser reduzido, por todos (e por mim também) a uma espécie de plebiscito a Marcelo Rebelo de Sousa; a questão essencial, portanto, é a de saber-se por quanto irá o Presidente ganhar as eleições, e se se aproxima de uma percentagem recorde – e quem vai ficar em segundo lugar. Ora, acontece que este passeio triunfal não é uma coisa saudável para a democracia; não só impõe uma boa dose de indiferença nos debates e nos eleitores, como, ainda por cima, decorre no inverno em pleno agravamento da pandemia, o que irá contribuir para abstenção. Não percebo duas coisas. A primeira: por que não foi possível retirar do boletim de voto a cara do candidato que não vai ser candidato? Nenhuma explicação me convence, a não ser as de preguiça e atavismo – e o gosto pelos votos nulos. A segunda: não percebo por que motivo não se investiu, atempadamente, no voto por correio a fim de evitar mais aglomerações e risco de contágio. Nenhuma explicação me convence, a não ser as de atavismo e preguiça – e o gosto pela abstenção.

Da coluna diária do CM.

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