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Ainda não era isto — a história do comunismo.

por FJV, em 17.09.18

Não sei se reconhecem esta argumentação, mas ela assenta em duas frases acopladas: “Ainda não era isto. É outra coisa, mesmo ao lado – mas muito melhor.” Com o fim da URSS ouviram-se muitas vozes defendendo que não se tratara – ainda – do verdadeiro socialismo; por isso é que tinha falhado; por isso e por falta de tempo. Escuso de falar do Camboja (que em poucos anos eliminou milhões de cambojanos nos campos de reeducação), da China, do “modelo albanês”, da pobre Roménia ou da caricata Coreia do Norte. Com o caso da Venezuela era importante reler hoje as grandes declarações de apoio ao “socialismo do século XXI”. Houve entre nós epígonos ilustres que chegaram ao cúmulo de defender Hugo Chávez quando encerrou televisões e fechou jornais. Parte deles repete a lengalenga do “ainda não era isto”. Assisti na Venezuela ao nascimento desta ditadura anunciada e ominosa enquanto, na academia e na imprensa, europeus fartos (quase sempre confortados com dinheiros públicos) defendiam a catástrofe e os “bons revolucionários” que faziam a revolução onde ela não podia incomodá-los.

 

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Plágio.

por FJV, em 13.09.18

Em Portugal tivemos (e temos) os nossos casos, mas agora comovem-me estas revelações sobre o currículo de políticos espanhóis: primeiro-ministro (um habilidoso), ministros, líder da oposição, mais uma série de políticos de pequeno e médio porte – todos apareceram manchados por acusações de plágio descarado nas suas teses universitárias, e há mesmo casos de mestrados inexistentes ou de teses que não valem um chavo, sem falar de menções a cargos anteriores que depois se percebe que não foram exercidos. A primeira reação é a mais óbvia e compreensível: trata-se de uma geração de aldrabões notórios que quer parecer o que não é, tratando de embelezar com dignidade académica o ‘lerolero’ e o ‘parlapié’ moderninho com que traulitam na vida política, com o apoio e a cumplicidade de universidades da treta. Na circunspecta Alemanha, ministros (um deles, a da educação) e deputados caíram por plágio de tese, a provar que o vírus é universal – mas que deve ser castigado. Já agora, a informação: há dois anos, a Universidade de Coimbra anunciou 60 casos de plágio entre teses dos seus alunos.

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David Foster Wallace (1962-2008).

por FJV, em 12.09.18

Passam hoje dez anos sobre a morte – trágica – de David Foster Wallace (1962-2008). O seu romance A Piada Infinita é um emblema da literatura americana dos anos da mudança de século (foi publicado em 1996, só em 2012 saiu a edição portuguesa) e, até agora, sem sucessor à altura. Pelo movimento da prosa, pela ironia, pelo pessimismo radical, pela forma como leu o espírito do tempo, A Piada Infinita era o livro ideal para ser esquecido – mas não foi. Wallace ainda começou a escrever um novo romance (O Rei Pálido), uma obra incompleta que arrebatou o Pulitzer postumamente. O livro Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, onde mistura ensaios e reportagens delirantes (um congresso de necrologistas, um cruzeiro nas Caraíbas, a indústria da pornografia, a ficção televisiva, um festival da lagosta, o ténis de Federer, etc.) é o grande guia para a sua obra e a sua dispersão. Wallace suicidou-se aos 46 anos, mergulhado numa profunda depressão que o atormentava sem cessar. Olhando para trás – não há ainda um sucessor desta obra nem da sua energia maníaca.

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Já ouviram — mesmo — os professores?

por FJV, em 12.09.18

Para lá do debate sobre o caráter facultativo da leitura de Os Maias no ensino secundário há outras questões que deviam colocar-se acerca dos currículos propostos. Em primeiro lugar, a linguagem usada para justificar os programas – uma trapalhada que, em certos casos, não resiste sequer à primeira leitura. Custa a crer que no Ministério da Educação não exista gente que escreva com clareza, elegância e sem atropelos. Provavelmente não há (duvido), mas o problema não é ‘deste’ ME, mas de qualquer um dos anteriores ‘ME’, onde por vezes parece que um bando de cripto-pedagogos anda à solta com os complicómetros ligados. E, depois, se me permitem, gostava de saber se os professores têm sido ouvidos sobre as alterações curriculares. Se alguém – lá, no céu ministerial onde os cripto-pedagogos congeminam – andou pelas escolas, ouvindo professores que estão todos os dias em contacto com os alunos (não falo daqueles que não dão aulas) e que acumulam anos e anos de experiência. E se esses professores, muito deles o orgulho da profissão, são mesmo ouvidos. Porque merecem ser ouvidos.

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Do papel da literatura.

por FJV, em 12.09.18

Não volto a Os Maias para vos atazanar com literatura, mas por causa da memória. Em 1991, quando Dublin foi capital europeia da cultura, um dos programas turísticos mais populares era o percurso de Ulisses, de Joyce, na capital irlandesa: começava às 8 da manhã, terminava depois da meia-noite e pagavam-se 10 libras da altura (o programa estava sempre esgotado). Dublin está cheia de Joyce – tal como Portugal está cheio de Eça (ou de Camilo, ou de Aquilino, façam a lista). Claro que é possível fazer o percurso de Tormes (e reconstituir o jantar de A Cidade e as Serras), visitar o Solar dos Condes de Resende em Gaia (onde Eça se enamorou de Emília e onde é hoje a sede da Confraria Queirosiana), passar no casarão abandonado de Verdemilho, venerar a estátua de Eça na Póvoa, imaginar a Oliveira de Azeméis de A Capital e a Leiria do Crime, observar o lugar onde foi demolida a casa da Granja. Ao ocupar o Palácio do Ramalhete, Madonna também evoca a nossa memória (mesmo falsa) de Os Maias. É essa a importância dos nossos clássicos. Fingirem, connosco, que estão vivos.

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A senhora condessa de Gouvarinho está à porta em trajes menores.

por FJV, em 11.09.18

Não sei se vale a pena criar um drama por causa de Os Maias, que passará a ser opcional no Secundário. Que os alunos leiam um romance de Eça é bom, desde que o façam mesmo. Grave é, no programa do 11.º, serem obrigados a ler o penoso Frei Luís de Sousa mas só opcionalmente um romance de Camilo (ou Garrett), ou estarem ausentes poetas do renascimento exceto Camões, do barroco ou do romantismo. O problema é que Os Maias, tal como Amor de Perdição, a lírica de Camões, o Bocage romântico, Cesário, Aparição, entre outros, são elementos comuns a um conhecimento intergeracional da nossa cultura – o cânone, que hoje é odiado por uma multidão de ressentidos modernos. O romance de Eça está ao nível do monumento; dispensá-lo é como deixar de lado a complexidade dos Jerónimos ou da charola de Tomar. O ensino da literatura não pode estar desligado da passagem do tempo e do conhecimento da nossa história – e não pode ser usado apenas para estudar gramática e interpretar textos. Mas, como de costume, desde que haja um bom professor, um aluno está salvo. É a nossa esperança.

 

Atualização: as auctoridades voltaram atrás; vá lá.

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Rui Rio e a imprensa.

por FJV, em 09.09.18

Algumas almas cândidas, que apreciam muito escandalizar-se, declararam-se chocadas com a ideia de Rui Rio abrir fogo (no meio de um discurso às juventudes do PSD) sobre a imprensa e o Ministério Público. Sobre o Ministério Público e a Justiça, trata-se de um combate antigo de Rui Rio; já a carga de cavalaria sobre a imprensa, é mais do que combate – é obsessão. Rui Rio não entende o funcionamento da imprensa nem aprecia que uma entidade livre (ainda por cima, não eleita nem dominada por eleitos) ande à solta. É certo que isto diz mais dele do que da imprensa, mas devemos ser tolerantes. A certa altura do seu discurso, Rio diz que a imprensa apenas se preocupa em vender e em fazer manchetes, como se isso fosse um pecado e Rio preferisse que a imprensa fosse propriedade do Estado para que os eleitos a manietassem a seu gosto. Ai de nós. Poderíamos brincar e sugerir que, para Rio, o jornal ideal seria um boletim elaborado pelos eleitos da sua Junta de Freguesia, com informações autorizadas pelos órgãos competentes, mas seria brincar com o fogo; e com Rio não se brinca.

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Proíbam, proíbam (2)

por FJV, em 08.09.18

Recebi seis emails de leitores indignados por ter aqui defendido o direito, da Universidade do Porto, a não proibir uma conferência – creio que sobre alterações climáticas. Na perspetiva dos meus ilustres correspondentes, o facto de achar que não se devia proibir uma conferência (um ajuntamento, uma discussão, um sinédrio, seja o que for), parece que me coloca do lado dos que “deviam ser proibidos”. Ora, haver manifestos contra a conferência, e resposta dos organizadores, e troca de argumentos – contribui para o esclarecimento, o debate e o restabelecimento dos níveis de tensão arterial. Hoje em dia está muito na moda proibir; elites vagamente cultas, letradas, certinhas, educadas em liberdade, costuma apelar à proibição disto e daquilo com argumentos morais, políticos e, pasme-se, éticos. No velho Speakers Corner de Londres, antes da internet, a polícia velava não para impor o respeito pela ordem estabelecida – mas para que ninguém interrompesse os oradores, que normalmente diziam coisas estapafúrdias sobre os políticos, a Rainha, a ciência e a moral. Civilização.

 

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Proíbam, proíbam.

por FJV, em 07.09.18

A Universidade do Porto (UP) abriu as suas portas a uma conferência de céticos sobre a natureza e a origem das alterações climáticas – aquilo que a imprensa designa, erradamente, de “negacionistas”. Ao fazê-lo, a UP arriscou o pescoço, mas é isso que se espera de uma instituição séria – que permita o debate. Houve quem pedisse que a conferência fosse cancelada, e houve quem criticasse a realização da conferência sem pedir o seu cancelamento. É o que se espera de gente saudável: que entre no debate (que não se comporte como os cobardolas da Web Summit, portanto) e que nunca permita que ele seja proibido mesmo (ou sobretudo) quando isso se faz em nome de ideias nobres. Infelizmente, ao contrário do que aconteceu com a decisão da UP, as associações de estudantes e as corporações de inteletuais, entre outras, fazem hoje gala em pedir proibições – sobretudo de debates. É uma prova da infantilização e crescente perda de influência dos meios universitários e dos inteletuais que, convencidos de que possuem a verdade, pedem proibições a torto e a direito. Há vícios que não se perdem.

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Desvios.

por FJV, em 06.09.18

Parece que o fundo de solidariedade de Bruxelas destinou às vítimas de Pedrógão cerca de 50 milhões de euros, dos quais o apenas pouco mais de metade seguiu para o seu destino – o Estado avocou o restante. É uma manobra contabilística interessante e com justificação: entregamos isto; reservamos o resto para aplicar em instituições ligadas à vigilância e combate a incêndios. Não parece (e não é) canónico de acordo com as regras europeias. Simplesmente, dadas as trapalhadas envolvidas no que diz respeito a Pedrógão – além da tragédia do ano passado, do sofrimento dos sobreviventes, da dor das famílias, dos traumas que ainda perduram –, tudo deveria ter sido tratado com sensibilidade e com pinças. O que parte das autoridades devem ter pensado é isto, e é desumano: o sofrimento dos que sofreram é coisa do passado – pensemos no futuro. Daí que, no meio da tragédia e das suas sequelas, tenham ocorrido casos de vandalismo moral e de roubo puro e duro. Só assim se explica que existam 21 “casos” comunicados ao Ministério Público. Estes deslizes mostram uma enorme falta de vergonha.

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Campanella.

por FJV, em 05.09.18

Tommaso Campanella (1568-1639) nasceu há 450 anos na Calábria, perto de Nápoles. Frade dominicano, interessava-se por gramática, alquimia, magia e “filosofia natural”. Viajou por toda a península italiana, e em 1591 foi preso pela primeira vez, sob a acusação de heresia e bruxaria; mais tarde, o Santo Ofício deteve-o em Roma, de onde fugiu para regressar a Nápoles, onde conspirou contra o ocupante espanhol (Aragão) – esteve 27 anos preso, no Castel Nuovo napolitano, onde escreveu quase toda a sua obra e sobretudo A Cidade do Sol, o seu livro mais famoso. Campanella era um livre pensador, amigo de Galileu e outros filósofos do seu tempo (ao sair da prisão, fugiu para França, onde foi festejado e havia de morrer) – mas, como acontece sempre, a sua utopia só seria “benigna” no papel; a “cidade do Sol” fica na ilha da Taprobana, no Oriente, e é um regime teocrático, totalitário e comunitário, onde tudo pertence a todos, o centro das preocupações é a educação, não há ricos, nem família, nem propriedade – e os desejos individuais são desprezados. As utopias são tremendas.

 

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O museu do Rio ou o Brasil tem o que merece.

por FJV, em 03.09.18

O orçamento do Museu Nacional do Rio de Janeiro (que ontem ardeu, reduzido a escombros) era de 125 mil euros, de só recebia 60%, pela Universidade Federal. Visitei-o três vezes (está lá parte da memória do país) e passeei no arvoredo, quase romântico, mesmo no centro do Rio. Foi lá, na Quinta da Boa Vista, que viveu a família real portuguesa, e depois o imperador D. Pedro – e ali se redigiu a primeira constituição brasileira. É pouco, 125 mil euros (600 mil reais)? Muito pouco, mesmo para um museu de história natural e antropologia. Logo se ouviram, lá e cá, protestos sobre o pouco que os políticos destinam “à cultura”. O Brasil dá grandes quantidades de dinheiro aos seus depósitos de arte contemporânea, mas tende a desprezar o passado, de que o velho Museu Nacional era exemplo. A dotação recolhida para projetos culturais com a sua lei do mecenato (a Rouanet) serviu para servir milhões de euros a espetáculos pop e “museus” como o dedicado a Lula (8 milhões), documentários partidários e outra tralha. Mas não ao velho museu. O Brasil não se liberta do seu horror ao passado.

 

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A menopausa do feminismo.

por FJV, em 30.08.18

O ‘The New York Times’ publica todas as semanas uma entrevista intitulada ‘By the Book’ em que escritores falam dos livros que estão a ler e quais recomendam, com que autores gostavam de jantar, que livros leram na adolescência, quais são os livros da sua vida, etc. É uma coisa de bom gosto, até pelos nomes dos entrevistados. Na edição deste fim de semana, uma revista para mulheres ‘millenials’ desmontou a coisa: teve o cuidado de ir fazer arqueologia e de comprovar que os autores homens recomendam mais livros de homens do que de mulheres – o que é, pelo que li, um aspeto a corrigir com a introdução de quotas, 50-50, ou então há denúncia na praça pública – independentemente do gosto e da qualidade literária, coisa de somenos, porque o machismo está onde menos se espera. Veja-se Cynthia Nixon (a Miranda da série ‘O Sexo e a Cidade’), candidata a governadora de NY, que promete uma medida importante para a igualdade de género: regular e aumentar a temperatura do ar condicionado, que é machista e prejudica as mulheres, por vestirem menos roupa – e passam frio durante o verão. 

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Hora de verão.

por FJV, em 30.08.18

Gosto do meridiano de Greenwich, que determina o nosso fuso horário. Gosto de ter esta hora equilibrada – com o sol a nascer de acordo com as estações ao longo do ano e a luz do dia a desaparecer de forma gradual, sem alterações abruptas. E não, não gosto dos domingos em que muda a hora, atrasando ou adiantando a hora de acordar, recolher a casa ou escurecer de repente, de um dia para o outro – o que ocorre em março e outubro. A Comissão Europeia, pressionada por muitas vozes, decidiu finalmente ouvir os cidadãos sobre o que lhes andam a fazer aos relógios biológicos, depois de se ter verificado que a alteração de horário “de verão” e “de inverno” não traz grandes benefícios para a economia – e, segundo a imprensa alemã, parece que 80% dos europeus inquiridos (cerca de 4,6 milhões) é contra a mudança de hora. Também parece que essas alterações de hora, repentinas e artificiais, têm mais impacto do que se supunha sobre o nosso comportamento. A decisão ainda não foi tomada, mas é um dever impedir que a escuridão desça sobre as nossas cabeças, de repente, em outubro.

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Daqui a 10 anos estaremos uma desgraça, salvo seja.

por FJV, em 30.08.18

Sou o pessimista de serviço – estou aqui para vos dar as boas notícias: chegou a altura de dizer a verdade. De 2008 até hoje encerraram muito mais livrarias do que aquelas que abriram, ou seja, suspeita-se que mais de um quinto fecharam as portas. Ao contrário das medidas “gerais” preconizadas por um grupo de generosos livreiros que recentemente tornou públicas as suas apreensões sobre o tema, eu penso que são necessárias medidas “globais”. Um pacto de regime. Em primeiro lugar, que o Presidente da República e os governantes não continuem, por exemplo, a repetir da lengalenga de que tudo vai bem no mundo do livro; que os partidos sejam chamados à atenção; que as associações do sector olhem mais longe – para o futuro. E não me venham com números sobre o crescente número de leitores (comparativamente, no Eurostat, estamos mal, muito mal). Trata-se de um pacto de regime sobre a leitura. Se, ao contrário de França ou de Inglaterra, as autoridades não estão despertas para o assunto, envolvendo (à cabeça) o Ministério da Educação – daqui a 10 anos estaremos uma desgraça, salvo seja.

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Praias fluviais.

por FJV, em 27.08.18

Há quem goze com a figura do Presidente em fato de banho, toalha e chinelos, mergulhando em praias fluviais, lagoas, açudes e rios. Eu também gozo – faz parte do nosso mistério lusitano, encontrar motivo para desconfiar de tudo. Mas, porque é que Marcelo Rebelo de Sousa tem razão na sua campanha de chamar a atenção para o interior do país? Porque ninguém o fez antes de forma tão categórica. Fizeram-se discursos, claro – e medidas tão avulsas como anedóticas em torno de benefícios fiscais irrisórios. Mas ir lá (lá mesmo, onde fica o interior, em Côja ou em Figueiró, seja onde for), só Marcelo foi – e a sua campanha tem mostrado um país que as televisões só conhecem quando há tragédias, dramas, agências dos CTT ou da Caixa a encerrar. Esse país faz parte da paisagem em torno de Lisboa e do Porto, num raio de 500 quilómetros, mas só conta como paisagem. E mesmo o escândalo dos atrasos nos comboios só foi escândalo porque a certa altura afetou o Lisboa-Porto. Nesse país que Marcelo visita para que o vejamos, os comboios estiveram sempre atrasados. É por isso que ele tem razão.

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Jobs, e tal.

por FJV, em 26.08.18

Lisa Brennan-Jobs é a filha de Steve Jobs (1955-2011), o fundador da Apple, um dos cérebros mais criativos da era de Silicon Valley e do digital – e, claro, o refrão para mais de uma dezena de livros sobre como era genial: Jobs, o inovador, o visionário, o imperador, o mágico, o líder, o criador do mundo. Passados sete anos sobre a sua morte, Lisa Brennan-Jobs (que o pai rejeitou e abandonou durante anos, antes de realizar um teste de DNA) conta num livro a publicar esta semana nos EUA, Small-Fry, a natureza da sua relação e a forma como sobreviveu a ela. O livro é apaziguador para Lisa (que lhe perdoa tudo), mas é chocante para o leitor: Jobs aparece à luz desses anos 80 da Califórnia, onde os hippies se associavam aos maníacos de ficção científica para criar computadores e engendrar fortunas, como um homem frio, cruel, insensível – mas a quem Lisa perdoa tudo. Já agora, mesmo com a fortuna de Jobs, tiveram que ser os vizinhos a reunir dinheiro para pagar os estudos de Lisa (a quem o pai não instalou aquecimento no quarto para lhe ensinar “um sistema de valores”). 

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O carácter.

por FJV, em 26.08.18

Os casos acumulados contra Trump (soube-se de mais um, extraconjugal) revelam – como se sabia há muito – um caráter ignóbil. Há quem defenda que as questões de caráter não para chamadas para a área da política. São, quando interferem com a capacidade de julgamento ou a confiança dos cidadãos. A morte de John McCain, o senador do Arizona, vem reacender a discussão sobre o destino do partido Republicano, entregue agora a uma vaga de populistas dos quais Donald Trump é a excrescência que chegou ao topo. McCain foi a última tentativa de seriedade na liderança dos republicanos, herdeiro da tradição anti-esclavagista, abolicionista (como Lincoln), conservadora, reformista, e teria dado um bom presidente dos EUA. O populismo, infelizmente, é uma sereia trágica para as lideranças políticas de hoje – e repete, como num guião mal ensaiado, os momentos de torpor e mediocridade de outros momentos da nossa história, quando os eleitorados prescindem de verificar a qualidade dos eleitos ou as mentiras dos seus discursos. À esquerda ou à direita, em doses idênticas, a tentação é grande.

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Ao Panteão, rapazes!

por FJV, em 25.08.18

José Afonso (1929-1987) foi um notável autor, poeta e cantor que mudou a história da música popular portuguesa; a par disso, que já não é pouco, é um dos símbolos do 25 de Abril e ‘a voz’ essencial na luta contra a ditadura. Seja como for, não é a proposta de trasladação de José Afonso para o Panteão que está em causa. Em relação ao assunto, e serenamente, a família do músico impôs bom senso, fez prevalecer o respeito pela vontade de José Afonso e evitou uma discussão frívola em terreno minado. A existência do Panteão implica, também, um conjunto de regras que sirvam para unir os portugueses em torno da decisão de incluir, com gratidão, mais um nome naquela galeria de notáveis – não para os submeter a um exame ideológico ou para fazer vingar uma dada leitura do passado. Vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos: é um período curto para que o juízo da História assente como uma poeira definitiva. Alterar as leis – como se tem feito, levianamente, ao sabor da ocasião e das euforias – para substituir o tempo pela “comoção popular” é um péssimo serviço à nossa memória. 

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Asia Argento.

por FJV, em 25.08.18

David Friend, que foi editor da Vanity Fair (e na Life) escreveu um belo livro, The Naughty Nineties (havia um filme de Abbott & Costello com esse título, mas de 1945): os picantes, marotos, pecaminosos anos 90 – ou seja, como viveu a América dos anos Clinton no meio de sexo, alcovas alheias, escândalos, trocas de casais e de fluidos. Norman Mailer já tinha identificado a “energia sexual” dos anos Kennedy no romance O Fantasma de Harlot, de primeira ordem. Os tempos que correm não têm essa energia, nem esse tom alcoviteiro – um presidente ignóbil não dá tesão, e as histórias de sexo são sombras do passado que regressam para vinganças ocasionais. Asia Argento, que fez a agit-prop do movimento #MeToo, acusou Harvey Weinstein de abusos sexuais há 20 anos. Agora, é ela a acusada de ter abusado sexualmente de um jovem ator de 17, há cinco anos. A lei considera crime manter relações sexuais com menores, mas aos 17 um rapaz já tem ereções e Asia não lhe pediu identificação. Comecei a simpatizar com ela: no meio dos sevandijas gerais, abusar de um rapaz de 17 é um gesto romântico.

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Roger Martin du Gard.

por FJV, em 22.08.18

Evocar hoje o francês Roger Martin du Gard é mencionar uma velharia – na minha adolescência, era quase obrigatório ler ‘O Drama de João de Barois’ (1913), o romance-discussão sobre a emancipação do catolicismo, sobre o medo da religião e o aproveitamento político das questões de fé. Não só: também sobre o drama íntimo e intransmissível de um homem que deixa, por escrito, o pedido para que o não deixem regressar à sua fé religiosa. Mas a sua obra mais famosa foi ‘Os Thibault’, oito volumes intermináveis, publicados de 1922 a 1940 – um fresco monumental de análise à vida burguesa e familiar da França nas primeiras décadas do século XX e durante a I Guerra (a obsessão da sua vida era o ‘Guerra e Paz’, de Tolstoi). Pelo meio, em 1937, Martin du Gard recebeu o Prémio Nobel. Recordo-o porque passam hoje 60 anos sobre a sua morte, em 1958 (nasceu em 1881) e porque é um daqueles escritores (amigo de Albert Camus e de André Gide de quem, em breve, também ninguém se lembrará) que já quase nada significam, e cuja humanidade está tão fora de moda como os seus livros. 

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Muito depressa se descobre um Trump no Campo Alegre

por FJV, em 21.08.18

Ninguém, ai de nós, está contente com a imprensa. Tanto ela publica notícias desagradáveis (publica), como tem ‘alinhamentos’ (tem) ou o hábito de desdizer o palavreado dos poderosos ou dos incensados. Fradique Mendes, o personagem heterónimo de Eça, afiançava que o senhor arcebispo de Paris detestava “essas folhas impressas que aparecem todas as manhãs”; os primeiros-ministros que telefonam aos jornalistas concordam com o arcebispo. Claro que quem se afeiçoa ao poder que detém na imprensa acha que tudo o que se publica de negativo “é uma conspiração” (veja-se o BE, que ainda hoje não percebeu o “caso Robles”); e quem a desejava como pau mandado fica frequentemente desiludido. A verdade é que quem vai à guerra não pode esperar que lhe respeitem as trincheiras. Ontem, por exemplo, o PSD reagiu no Twitter a um texto que lhe não agradou, aproveitando para identificar o nome da jornalista, ironizar sobre a notícia e, depois de uma temporada no mausoléu, despertar com uma tuitada – como se sabe, muito depressa se descobre um Trump no Campo Alegre, como diz um provérbio anónimo. 

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Aretha.

por FJV, em 17.08.18

Há dois duetos de Aretha Franklin que acho inesquecíveis e nenhum deles é com George Michael – uma versão de “What Now My Love”, com Frank Sinatra, e “Don’t Waste Your Time”, com Mary J. Blige (também há um com Luther Vandross). Explico: há duetos em que uma das vozes explica à outra como se canta; acontece com Bob Dylan vencido por  Johnny Cash, ou de Bono destroçado pela Mary J. Blige. Aretha venceu todos os seus duelos, como se cantasse “Respect” a plenos pulmões, mesmo em temas românticos e suaves. Toda a sua música é um dueto. Há canções, como “Without the One You Love” ou a versão de “What a Difference a Day Made”, que não têm a ver com as suas três ou quatro mais conhecidas, “Respect” à cabeça, logo seguida de “I Never Loved A Man”, ambas um prodígio de voz, harmonia, ironia, inflexões que tanto lembram o jazz como abrem caminho pelos palcos de qualquer género. Essas são as duas faces de Aretha Franklin: doce (em “I Wish I Didn’t Love You So”) e impagável e imponente, como em ‘Respect’, que ela – filha de pregador – não deixou de cantar ao apresentar-se às portas do céu.

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Beijinhos para a senhora Le Pen.

por FJV, em 15.08.18

Se bem que pelo menos um quarto dos oradores convidados sejam mais do que dispensáveis, não se sabe o que passou pelo cerebelo dos organizadores para convidar Marine Le Pen a vir à sessão da WebSummit de Lisboa. Talvez ouvi-la, mas nunca se sabe. O absurdo seria idêntico se se convidassem Trotsky, Estaline, Franco ou o antigo diretor dos Serviços de Censura a ir a um debate sobre liberdade de imprensa; eu sei que a analogia parece imprópria (não é), mas a cosmogonia da globalização e da internet não têm nada a ver com Marine Le Pen. Um absurdo. Mas esta é a cacofonia da própria WebSummit: um evento pop em que certas pessoas se conhecem e talvez façam negócios (10%, no máximo, ao que se sabe), e onde a generalidade dos discursos festeja o próprio acontecimento de tablet na mão. Nada contra; somos um país de turismo e a WebSummit é um instrumento interessante e útil. Quanto à questão política: não se tratava de proibir Le Pen de vir ao acampamento – mas, simplesmente, de não convidar a senhora; melhor do que desconvidá-la e dar-lhe palco. Para populistas, já cá temos.

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Ver o mundo.

por FJV, em 15.08.18

Não sei se recordam a passagem de ‘Os Maias’ em que João da Ega se manifesta contra o perigo de levar a civilização até às mais recônditas paragens do globo. Segundo o Ega, isso seria péssimo para o turista que, depois de muitos sacrifícios para chegar a Tumbuctu, encontrava lá, afinal, cavalheiros africanos de cartola, civilizados, a ler o ‘Jornal dos Debates’. Nessa altura já se conhecia o nome do Sr. Thomas Cook (1808-1892), que não só criou as viagens de grupo em comboio, como inventou os ‘vouchers’ de hotel e a indústria moderna do turismo. A agência de viagens que leva hoje o seu nome decidiu indemnizar uma cliente, Freda Jackson, súbdita britânica que foi para Benidorm, uma conhecida selva de Espanha – onde contava fazer férias (conta o CM). Não pôde: no hotel havia, queixa-se ela, “demasiados espanhóis”, rudes e barulhentos. Além disso, a “animação local” era dirigida a espanhóis, coisa que não se entende sobretudo porque Benidorm fica, aparentemente, em Espanha. Ms. Jackson tem toda a razão: que ideia absurda, a de haver espanhóis em Espanha. Toma lá, João da Ega.



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Banir o passado.

por FJV, em 15.08.18

Para sermos justos, o poema “Se”, de Rudyard Kipling (o autor de ‘O Livro da Selva’), só se aprecia verdadeiramente no original, “If”. Mas todos o conhecem: “Se fores capaz de sonhar sem deixar que os sonhos te escravizem...” Foi escrito para o filho, em 1895 – e é considerado um dos mais representativos da língua inglesa. Na universidade de Manchester, onde estava afixado numa parede, foi tapado pela associação de estudantes – que não tem nada contra este poema de Kipling, mas contra o “colonialismo do autor” – e substituído pelo belo poema da poetisa negra americana Maya Angelou “Stil I Rise” (“Podes inscrever-me na história/ com as mentiras amargas que contares./ Podes arrastar-me no pó/ Ainda assim, como pó, vou levantar-me...”). A razão terá a ver com o alegado “racismo” e o “imperialismo” de Kipling (apesar do belo poema) e com a necessidade de “descolonizar a universidade”. Contaminar o passado a partir do presente tem a sua razão de ser, mas é idiota. Por aquelas cabecinhas não correu a ideia de colocar os dois poemas lado a lado; precisam de banir o que não cabe lá dentro.

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Naipaul, um bravo.

por FJV, em 13.08.18

V.S. Naipaul (Vidiadhar Surajprasad Naipaul, Trinidad e Tobago, 1932), que morreu anteontem em Londres, esteve há dois anos em Portugal – é o autor de alguns dos livros que mais amo, como A Curva do Rio, Num Estado Livre, Uma Casa para Mr. Biswas ou O Enigma da Chegada. Antes do pós-colonialismo, do ressentimento e da hipocrisia política, V.S. Naipaul escrevia sobre o desenraizamento, as sociedades que se tinham libertado da dominação colonial e sido submetidas por regimes despóticos – os seus personagens solitários, valentes, nostálgicos e discretos são miniaturas magníficas, preciosas. Em Metade da Vida passa por Moçambique quando os portugueses estão prestes a abandonar aquele país: “Nunca admirei tanto os portugueses como naquele momento.” Naipaul foi, como escritor, um repórter minucioso – e um autor desassombrado, sem medo das críticas ‘politicamente corretas’ que desprezavam a literatura que não fosse escrita em nome de “valores superiores.” Essa forma de tirania e de submissão, Naipaul nunca a aceitou. Esta é a despedida a um enorme autor.

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Um país de sucesso.

por FJV, em 10.08.18

Independentemente das causas dos incêndios – eles existem. Diante das tragédias naturais e humanas, a única coisa que se pode fazer é estarmos preparados para elas, lutarmos contra a força devastadora das chamas, evitar perdas, programar-se o futuro. Diante disto, ninguém exige aos políticos que apaguem os incêndios por decreto ou magia – mas que sejam usados com competência todos os meios ao seu dispor. E que sejam verdadeiros. E que escolham os melhores para o combate de hoje e os melhores para pensar nos combates do futuro. No ano passado não foram nem competentes nem verdadeiros; nem tocados pela nobreza da humildade e da generosidade, pedindo desculpa pelos erros e pela descoordenação (que voltaram este ano). Pelo contrário, um ano depois ainda se discute o drama de Pedrógão e ninguém fica realmente convencido com a escolha do eucalipto como inimigo da espécie humana e como causa de todo o mal. O problema é achar que a política é o campo permanente da propaganda, e que com promessas de “sucesso” e frases de campanha a serra de Monchique ficava a salvo. É uma pena.

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Um buraco no sapato.

por FJV, em 09.08.18

Vestir com simplicidade e ser discreto na roupa – e, além disso, prestar-lhe (ou parecer mostrar) pouca atenção. Essa é a grande virtude da verdadeira sofisticação. Longe de mim querer associar-me aos “polícias do estilo” ou competir com os comentadores e comentadoras de moda, muito atentos ao mister da sua profissão, mas há coisas em que se tropeça com humor e certa alegria. E uma delas é o estado dos sapatos do príncipe Harry, que compareceu no casamento de um amigo de infância exibindo um nobre e britânico buraco na sola (do pé esquerdo, notou a imprensa). Risota no mundo dos parvos. Há uma passagem de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, em que Miss Bennet olha, muito curiosa, para os sapatos de Mr. Darcy – podem imaginar isso na adaptação cinematográfica com Keira Knightley e Mathew Macfadyen, mas não na de Lawrence Olivier com Greer Garson. Ora, Mr. Darcy, tal como o príncipe Harry, era pessoa para se apresentar com um buraco no sapato e manter todo o seu charme antes de requisitar umas meias solas no sapateiro, como faziam os cavalheiros de antigamente. 

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Os títulos: “Grande coisa, ter um curso!

por FJV, em 08.08.18

Não sei se isto acontece com regularidade mas valia a pena fazer um estudo comparativo sobre gente com responsabilidade política, pública e até governativa, que tem “suscitado dúvidas” sobre o seu currículo. Espanha, Itália, Alemanha, naturalmente Portugal – há algures um mestrado que não se frequentou, um cargo que não existiu, um artigo que não se escreveu, uma universidade onde não se esteve. Por um lado, infantilidade pura: com os meios de hoje, é fácil verificar um currículo e transformar uma dúvida numa nódoa persistente e à vista de todos. Por outro, mais infantilidade ainda: falsificar, embelezar ou engordar um currículo é coisa de flibusteiro, ou de um pavão que não resiste à vaidade da mentira. E uma deslealdade de todo o tamanho. Será coisa geracional? Também; há sempre quem queira um mestrado para pendão da genealogia. Antes da net era mais difícil encontrar as falhas; depois, é menos difícil mentir – e fácil ser descoberto. “Grande coisa, ter um curso!”, dizia o nobre Vilaça, de Os Maias, na festa de formatura de Carlos Eduardo em Coimbra. Outros tempos. 

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