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O Salazar.

por FJV, em 13.09.19

Por lapso meu não prestei atenção ao último dia dos trabalhos na Assembleia da República. No entanto, parece que nesse interessante dia o parlamento condenou “a criação de um museu dedicado a Salazar”, instituição que tem como principal característica o facto de ainda não existir. Metade do parlamento, no entanto, pôs-se de pé, cheio de indignação, diante da hipótese de passar a existir um Centro Interpretativo do Estado Novo na localidade onde o ditador nasceu, Vimieiro, Santa Comba Dão. A ideia deste voto de protesto é a de que a sua existência é uma afronta às numerosas vítimas do regime salazarista; fui ver o projeto; nada o indica – pelo contrário, parece-me que a intenção é a de disponibilizar material museográfico, iconográfico, sobre o regime e o seu intérprete mítico, e não o de fazer o elogio do personagem. Não há paciência nenhuma para que estalinistas e seus novos mimosos acompanhantes venham dar lições sobre o culto da personalidade a ditadores. Não admira: habituados que estão a falsificar a história e a apagar fotografias, custa-lhes vê-las sem o seu filtro.

Da coluna diária do CM.

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Bonanza, uma recordação.

por FJV, em 12.09.19

Adam era um chato com têmpera de herói, Hoss um bonzinho bonacheirão e poderoso, Joe um nadinha para o parvo – quanto ao pai, Ben, eu gostava dele, tal como de Hop Sing, cozinheiro chinês, do lugar em que viviam, o rancho Ponderosa, e também dos pequenos-almoços que pareciam colossais banquetes. Falo-vos de Bonanza – a série western mais popular e duradoura da história da televisão (de 1959 a 1973), e que em Portugal passava aos sábados ou domingos à tarde. As histórias de Bonanza eram triviais ou emocionantes, mas sabíamos que a família Cartwright resolvia as coisas a contento e com cavalheirismo. Aliás, por falar em família, escusam de vir com modernices: o pai, Ben, era viúvo, e Adam, Hoss e Joe eram filhos de mães diferentes – mas todos eles galanteadores, justos e educados (bom, Joe, interpretado por Michael Landon, talvez não), a que se juntou o sobrinho Will, para não falar de Candy Canaday, que também vivia nas proximidades do lago, ou do xerife Coffee com o ajudante Clem Foster. Agora fixem bem: o primeiro episódio foi emitido há exatamente 60 anos, feitos hoje.

Da coluna diária do CM.

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A malandragem.

por FJV, em 11.09.19

Com o tempo, a memória esvazia-se, desculpa este e aquele pequeno escândalo, encolhe os ombros. Vem isto a propósito de um amigo que, arrancando parte substancial dos cabelos e da paciência, se lamentava da falta de qualidade dos guiões do cinema português. Sem querer desiludi-lo, regressei a um tema grato, o do livro As Conversas Secretas do Clã Espírito Santo, de Sílvia Caneco (Esfera dos Livros). Volto a essas páginas gloriosas e à minha impressão da época, 2015: a certa altura, à mesa da reunião, um cavalheiro confessa que esteve toda a noite a estudar os acordos de extradição do Panamá com Portugal: “Só para verem, nem dormi.” Depois, outro deles diz que estavam lá (no Panamá) 300 milhões; alguém o desmente – são 400. Não, é mais: 920 milhões naquele país com “a arquitectura de Miami e a desorganização da América Latina”. E para lá ele não ia, tinha medo. Não é como no Brasil, onde há “tipos que me fazem segurança à noite.” “Estamos a mandar dinheiro para fora outra vez. Estou para ver como é que a gente paga isso.” Se isto não é cinema puro não conhecem a malandragem.

Da coluna diária do CM.

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Henry Purcell (1659-1695).

por FJV, em 10.09.19

Assinalam-se hoje os 360 anos do nascimento do britânico Henry Purcell (1659-1695). A data não diz muito aos meus leitores e temo perder alguns desde a primeira frase desta crónica – mas Purcell é um dos meus compositores preferidos; a sua música é um eco de grande pompa ou larga melancolia e obras como Fairy Queen (que se baseia em Shakespeare), The Indian Queen ou Dido e Eneias (para não falar de uma das suas grandes canções, More Love or More Disdain) merecem ser ouvidas uma vez na vida. Mas não é sobre isso que gostava de falar. Num país que cultivasse o gosto pela música, saberíamos quem foi Purcell – mas conheceríamos também os nomes de Fr. Manuel Cardoso, Carlos Seixas, João de Sousa Carvalho, Domingos Bontempo, Vianna da Motta, Marcos Portugal, Francisco de Lacerda e tantos outros, incluindo contemporâneos. Mas isso exigia ouvir música nas escolas, educação para a sensibilidade e para a cultura, e não pequenos cérebros de serviço à mediocridade a tomar conta dos destinos da educação. É uma pena, mas o empobrecimento parece generalizado. Embora muito contentinho.

Da coluna diária do CM.

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Ninguém se acusa.

por FJV, em 09.09.19

Catarina Martins diz que o programa do Bloco é social-democrata (na verdade, o Partido Operário Social-Democrata Russo foi criado em 1899; Lenine aderiu em 1903) e que as barragens são um perigo porque a água evapora. O primeiro-ministro anuncia querer um Erasmus lusitano para que os estudantes conheçam o país (o turismo é a nossa grande obsessão), contactando com “outros territórios, saberes e espaços” e não se fiquem pela “onda do surf”, como se a Ericeira estivesse à compita com Paredes de Coura. O dr. Rio, logo a seguir, depois de mencionar que esse Erasmus do interior é uma “oportunidade para os jovens portugueses conhecerem o seu próprio país”, informa, na qualidade de candidato ao parlamento, que a condição de deputado “não o entusiasma completamente”, mas que lá estará. Como Jerónimo de Sousa mantém que nunca apoiou o governo que agora vitupera, e que nem o conhece, só nos faltava André Silva, do PAN, a garantir a obrigatoriedade da existência de sombra para animais nos pastos, e de animais adoptados nas escolas. Apesar de ainda estarmos em setembro, ficamos conversados.

Da coluna diária do CM.

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O anticlericalismo militante.

por FJV, em 06.09.19

Mais cómico do que um padre católico a tentar justificar a Inquisição (um dia destes trago-vos um deles, lusitano e tudo), só mesmo os arrepios de anticlericais militantes – veja-se o burburinho quando se soube que, a 5 de outubro, o Presidente da República ia a Roma assistir à cerimónia da elevação a cardeal de Tolentino de Mendonça. Ai que não pode ser – e então a República, os vivas ao dr. Afonso Costa, a banda na Praça do Município e a chapelada da ordem? Sendo óbvio que o PR pode bem assistir às cerimónias e voar para Roma – ou vir de Roma a tempo de assistir o desfile da GNR e ao fecho das urnas –, é preciso explicar que a escolha do poeta e sacerdote Tolentino de Mendonça pelo Papa Francisco não é apenas matéria eclesial vaticana: reconhece o seu lugar (e o seu futuro) nas novas orientações da sua igreja. No contexto atual, significa bastante mais (trata-se da mais meteórica ascensão na moderna hierarquia católica), mesmo para almas anticlericais que se excitam com facilidade. E sim, nestas condições, o PR deve assistir à cerimónia de Roma. E marchar para casa, em podendo.

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Ecologia prática na cozinha.

por FJV, em 05.09.19

O discurso sobre não comer carne ou peixe porque isso esgota os recursos do planeta já ultrapassou a imbecilidade – é pura ignorância e demência. Há 50 anos, antes da massificação alimentar e do desperdício dos programas do Masterchef (onde destroem um peixe inteiro para lhe retirar um filete lindinho), comíamos com moderação e penúria. Comer carne não era comer bife e comer peixe não era comer lombo de garoupa ou salmão. Aliás, depois do prato de carne, havia massa tenra, rissóis, tortas, empadão e o que fosse. O pudim, os rissóis e os pastéis de peixe reaproveitavam tudo. E não havia prato que não tivesse vegetais. As “novas gerações” habituaram-se à abundância e desdenham desses hábitos que tanto eram de economia doméstica como de ecologia prática – e daqui a umas décadas estarão de novo a “esgotar os recursos do planeta” depois de se fartarem de beringelas, seitan, abacate e quinoa. Era bom que nós, portugueses, pudéssemos explicar à ONU que a nossa culinária já era “sustentável” antes desta palermice. Mas, infelizmente, os palermas locais já tomaram conta da ocorrência.

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Votar no partido dos animais, tão simpático.

por FJV, em 04.09.19

Votar no partido dos animais, tão simpático, é uma boa alternativa para muitos eleitores que estão cansados dos partidos maioritários ou gostam de publicar imagens de gatinhos no facebook. Gatinhos e comida vegan parece um dueto inocente – mas, atrás deste tango, vem uma orquestra de metais. O PAN quer tribunais especiais (para a corrupção, por exemplo), comida vegetariana como menu oficial do Estado, aumento do IVA da hotelaria e restaurantes para investir na cultura, uma secretaria de estado para os animais (que passariam a ter um SNS próprio), praias para cães, mais miminhos nas escolas para estudantes e professores (que incluem redução dos programas escolares e sua adaptação à ideologia emocional do PAN, além de ioga, mindfulness e relaxamento), penalização da maquilhagem e do uso de produtos de beleza ou pensos higiénicos, “estatuto especial” para nutricionistas e psicólogos, e um belo etcetera que vos convido a ler. Que mal vem daqui ao mundo? Aparentemente nenhum, se o PAN não chegar ao governo, como pode vir a acontecer. Deus nos livre dos que querem mandar na vida dos outros.

Da coluna diária do CM.

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Georges Simenon.

por FJV, em 03.09.19

Jules Maigret nasceu em 1887 perto de Lyon (onde fez estudos de medicina) – mas em 1907 fixa-se em Paris, onde subirá ao cargo de inspetor-chefe dos homicídios da polícia judiciária. É aí que se tornará famoso como “comissário Maigret”, trabalhando no famoso edifício do Quai des Orfèvres e vivendo no Boulevard Richard-Lenoir com “madame Maigret”. O primeiro livro em que figura é Pietr o Letão, de 1931, a que se seguem cerca de outras cem histórias escritas pelo belga Georges Simenon, o mais prolífico dos escritores de língua francesa. Viajante incansável, apaixonado, insubmisso, mulherengo, com uma energia infinita e uma capacidade de trabalho desafiadora, Simenon é uma figura trágica das letras: escreveu mais de 170 romances, sem mencionar contos, novelas e uma monumental autobiografia (Memórias Íntimas), e várias histórias suas foram adaptadas ao cinema por Renoir, Melville, Tavernier ou Chabrol. Dizer isto é pouco, porque Simenon (1903-1989) e as suas criações fazem parte da nossa memória sentimental. Passam amanhã 30 anos sobre a sua morte. Vale a pena relê-lo sempre.

Da coluna diária do CM.

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As casas de banho e a questão do género.

por FJV, em 02.09.19

A “questão das casas de banho nas escolas” ocupou durante alguns dias a tela das “redes sociais” e da guerra política. Compreende-se: as lutas pela identidade (de sexo, “género”, raça, classe, a lista vai por aí fora) são hoje decisivas para a política, que deixou de ser um combate pela melhoria da sociedade e passou a ser ou um modo de esmagar “os que não são como nós”, ou o resultado de agendas ocultas para que os interesses particulares triunfem sempre. Acontece que a “questão das casas de banho nas escolas” é apenas uma dessas bandeiras identitárias (a direita, muito tonta, não entendeu o caso); o seu resultado será benéfico para uma minoria (adolescentes transgénero), mas as minorias merecem o nosso respeito; porque se tornaram tão relevantes é outra história. Numa outra discussão paralela chegámos ao ponto em que a existência de “casas de banho mistas” é uma forma de decretar o “avanço civilizacional”, pondo em causa a proteção da intimidade e do pudor, por exemplo – que são hoje valores desprezados e em queda. Uma década em que os maluquinhos andam à solta, é o que é.

Da coluna diária do CM.

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Verão.

por FJV, em 16.08.19

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Não sei se vem aí o verão – mas merecíamos um pouco de calor (acalmem, há previsão de chuva, não desanimem). Como piada, diz-se que Portugal está tão na moda que o inverno veio passar o verão entre nós; o fato é que ainda não houve ondas de calor, nem de pânico, nem de aviso laranja da proteção civil para insolações anunciadas. Na literatura, lembro-me de romances em que o verão era abrasador, intenso, canicular, cheio de vagas ardentes – tal como no cinema, em que se transpira, há ventoinhas ligadas ou ar condicionado que não funciona. Este ano é atípico, mas a meteorologia é uma das poucas coisas que me interessam, a par da literatura, da música, do cinema, da culinária doméstica ou das pessoas que conjugam palavras amáveis, enquanto a política vai sendo cada vez mais vencida pela mediocridade e encenação. Quando as eleições se aproximam (falta mês e meio), o país divide-se entre a manipulação e o desinteresse, o que não é bom augúrio – mas é bem feito para quem não merece mais.

Da coluna diária do CM.

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Placido Domingo.

por FJV, em 16.08.19

Li os relatos das acusações a Placido Domingo e fiquei com a impressão de que se tratava de literatura de terceira classe: pelas descrições, pelos adjetivos das denúncias, pelas circunstâncias, pela natureza do assédio e da insistência. Trinta, quarenta anos depois, essas acusações caem na maravilhosa carreira de Domingo como uma nódoa abominável – algumas delas são explicáveis, mas o “espírito da época” ou o desatino hormonal não serve de almofada para justificações. A única coisa que me causa impressão (ainda assim, sem surpresa) é o lapso de tempo. Trinta anos de silêncio esperavam o momento da vingança ou um “sentido de oportunidade” favorável. O tenor espanhol (um homem adorável e simpático que conheci de passagem e com quem falei de futebol e da sua paixão pelo Real Madrid – fui incapaz de dizer como gostava da sua voz) tem agora a honra a prazo trinta anos depois de ter cometido erros. Não é um bom final, embora levante dúvidas. O passado é sempre uma avalanche de perdas e erros.

Da coluna diária do CM.

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50 anos de Woodstock.

por FJV, em 15.08.19

O que une Richie Heavens a Melanie, Janis Joplin a Jimi Hendrix, Joe Cocker aos Santana, Joan Baez aos Credence? Terem participado no festival de Woodstock, há exatamente 50 anos. Bob Dylan, que vivia lá, em Woodstock, não participou, diz-se que irritado pela quantidade de hippies que invadiu a cidade, ou porque tinha um contrato para outro concerto. Seja como for, tratou-se do maior ajuntamento de rock de sempre, pela sua intensidade, pelo momento histórico e pelas consequências – não pelo número. Vi o filme quase dez anos depois, que valeu pelas atuações de Crosby, Stills & Nash, Joe Cocker e Janis Joplin. A América nunca mais recuperou desse fim de semana, nem das suas imagens. Grande parte da “geração de Woodstock” sobreviveu-lhe, felizmente, mas, como costuma acontecer, o mito é maior do que a sua circunstância. Havia demasiados hippies e o “amor livre”, misturado com o combate à guerra do Vietname, tem um belo efeito cénico para nostálgicos que depois, ou não recuperaram (ficaram sempre crianças) ou se transformaram em famílias com histórias para ocultar. Cinquenta anos.

Da coluna diária do CM.

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Foi uma semana exemplar e uma lição para todos.

por FJV, em 14.08.19

Portugal volta a ser Portugal. António Costa percebeu essa saudade tremenda e deu um passo decisivo para a maioria absoluta. Durante uma semana, com o suporte de boa parte da imprensa, o governo dramatizou quanto pôde: militares e polícias na rua, emergência energética, telefonemas aos generais, direito ao abastecimento de gasolina para portugueses em férias, ordem nas ruas e requisição civil, malandros sob controle. Quando a semana começou não havia português previdente que não tivesse o carro atestado, vontade de rever a lei da greve e desejo de espatifar gasolina. Depois de anos de greves na Transtejo e na Soflusa, na CP, STCP e no Metro (lembram-se?), nas escolas e nos hospitais, a grande massa de eleitores agradece o gesto, ainda por cima com o silêncio abnegado dos grevistas de antanho, reunidos à esquerda. Ainda por cima no verão. Como dizia o antigo sociólogo Boaventura Sousa Santos, a greve “joga o jogo da extrema-direita” e os grevistas são “idiotas úteis” quando o governo é de esquerda, como no Chile de Allende. Foi uma semana exemplar e uma lição para todos. Bem feito.

Da coluna diária do CM.

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Hitchcock.

por FJV, em 14.08.19

Lembram-se de Rebecca (1940)? De Spellbound, A Casa Encantada (1945)? De O Desconhecido do Norte-Expresso (1951)? De Janela Indiscreta (1954)? De Vertigo, A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958)? De Psico (1960)? De Os Pássaros (1963)? A lista é muito longa – são cerca de cinquenta títulos mas há pelo menos dez filmes de Alfred Hitchcock (nascido britânico, cavalheiro inglês nos EUA a partir de 1940) que podem entrar na galeria da história do cinema como nós o conhecemos e recordamos hoje. Movimentos de câmara, iluminação, ângulos inusitados, fragmentos de um olhar, silêncios que esperam uma banda sonora, um sentido de humor raríssimo – tudo serve para criar suspense, medo, estranheza. Os seus filmes trazem tudo isso como um jogo de peças que parecem nunca encaixar senão na cumplicidade com a nossa surpresa. James Stewart, Grace Kelly, Cary Grant, Kim Novak, Anthony Perkins, James Mason, Gregory Peck, Ingrid Bergman, e muita literatura, compuseram o retrato da sua genialidade. Passam hoje 120 anos (1899-1980) sobre o nascimento de Hitchcock. Ainda não morreu.

Da coluna diária do CM.

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Os palerminhas do 'Libération', lembram-se?

por FJV, em 13.08.19

Não estranhem, mas a história dos maluquinhos já vem de há muito, e sempre em nome de excelentes causas. Ninguém se recorda hoje mas, em março de 1983, o jornal francês ‘Libération’ (um porta-voz dessa espécie) propôs que a ministra dos Direitos da Mulher (no 3.º governo socialista de Mitterrand-Mauroy, e na sequência da sua lei anti-sexista), colocasse no índex o Pantagruel, de Rabelais, As Neves de Kilimanjaro, de Hemingway, Judas, o Obscuro, de Thomas Hardy, toda a obra de Kafka, a poesia de Baudelaire e, claro, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Porquê? “Provocação pública e ódio sexista.” Toda a obra de Kafka e Baudelaire? Flaubert? Convém lembrar, de vez em quando, que a sanha persecutória que hoje é praticada pelas boas consciências progressistas em nome da “harmonia social” tem raízes profundas na história dos seus desejos. A ministra não acedeu (diz-se que Mitterrand não deixou); mas é importante saber que certas almas defendiam um mundo que não podia ler Kafka, nem Baudelaire, nem Flaubert, nem Hardy ou Hemingway, entre outros. Ontem – no século XIX – como hoje.

Da coluna diária do CM.

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Urbano.

por FJV, em 09.08.19

Foi uma das pessoas mais generosas e cordiais que me acolheu “no mundo da literatura” – livros como A Noite Roxa, Despedidas de Verão, Imitação da Felicidade ou As Aves da Madrugada foram leitura de adolescência, onde surpreendi uma tentativa de equilíbrio (que foi sempre difícil) entre a busca da felicidade individual, um certo hedonismo, e os compromissos políticos que assumiu ao longo da vida (foi militante comunista); daí resultava uma tolerância amável e a disponibilidade para ouvir os outros, de onde nasceram também livros como Deriva e A Vaga de Calor, por exemplo, já nos anos 80 e 90. Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) era um excelente ensaísta, um magnífico leitor; recordo uma viagem comum a Paris, onde esteve exilado, e a evocação de Albert Camus, que me surpreendeu, bem como os seus livros sobre Teixeira Gomes, o neo-realismo, o existencialismo e as lições de literatura francesa. Passam hoje seis anos sobre a sua morte e recordo-o com a mesma amabilidade que teve sempre em vida. Urbano era um cavalheiro raro nestes tempos e eu devo-lhe muito. Aliás, devemos.

Da coluna diária do CM.

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Merkel, a chanceler.

por FJV, em 08.08.19

O The Guardian apanhou Angela Merkel nas férias: numa varanda, sentada a ler um livro de Stephen Greenblatt. Explico rapidamente: Greenblatt é um importante professor americano e autor de diversas obras sobre Shakespeare, nomeadamente de Tyrant: Shakespeare on Power (Tirano: Shakespeare sobre o Poder), de 2018. É um livro académico, difícil – mas importante para quem acha que a literatura antecipa vários cenários da vida real. Em Tirano, Greenblatt deixa a pergunta: como pode uma sociedade forte e sólida acabar por ser governada por um sociopata? Shakespeare antecipou a resposta, desenhando personagens como Ricardo III, Macbeth ou o Rei Lear, onde estão todos os sinais de corrupção, paranóia, e também incompetência ou narcisismo e mentira permanente. Os tempos de hoje estão bons para eles. As multidões, manipuladas pela propaganda, elegem tiranos como geralmente apreciam e malandros que sabem manobrar e mentir. A minha admiração por Merkel subiu uns pontos. Um livro é apenas um livro, mas mostra que a chanceler quer entender a patetice em que vivemos.

Da coluna diária do CM.

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EUA: desumanidade, lugares-comuns e intolerância.

por FJV, em 07.08.19

Como ontem lembrava Fernanda Cachão aqui no CM, o uso de armas é um direito histórico e constitucional nos EUA. Mas todos os “direitos históricos” têm uma história e um termo. Precisamente porque há História. Ora, a história da violência nos EUA está diretamente ligada ao uso e abuso de armas de fogo e à ilusão de que o país é mandatado por Deus para ser o paraíso democrático na terra (Tocqueville já o temia em 1835), ideia que tem proporcionado todo o género de messianismos palermas, perseguições religiosas e políticas, picos de ódio racial, variações do politicamente correto, lei seca, policiamento da linguagem, entre outros fundamentalismos – o que faz do país uma explosão de contradições em que a liberdade e o direito têm prevalecido, apesar de tudo. Não é um lugar onde me apeteça viver. Não apenas pelos 30 mortos no fim de semana passado ou pela forma como a indústria das armas depõe ou elege presidentes em nome da lei e dos “direitos históricos”. Mas pela forma como tem transformado os seus grandes sonhos americanos em barreiras de desumanidade, lugares-comuns e intolerância.

Da coluna diária do CM.

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O país merece o que lhe vai acontecer.

por FJV, em 06.08.19

Geralmente, o país merece o que lhe vai acontecer. Para o bem e para o mal, mas sobretudo para o mal. Se acreditássemos nas sondagens (evidentemente que acreditamos), pensaríamos que tudo tem corrido bem demais, e que nada justificava uma certa apreensão em torno do resultado final, em Outubro – quando a meteorologia promete calor, e vamos apreciar o vencimento de prazos em certos inquéritos da Procuradoria, futebol a arder, famílias ocupadas com o início das aulas e mais disparates do dr. Rio. O caso de Tancos, o episódio das ‘golas’, as reações diante dos incêndios florestais, as operações de propaganda e ocultação, o caso da greve manipulada dos camionistas (preparem-se para um belo desfecho vitorioso do governo, que tem dramatizado porque já sabe o resultado), a rede de negócios e cumplicidades perigosas entre famílias & amizades de longa data – nada disto promete, ao contrário do que pensam certas almas tranquilas, afetar a caminhada do contentamento português. Até o verão tem ajudado: manso, gélido à noite, chega finalmente para acomodar mais contentamento.

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José Afonso. Não Zeca, já agora.

por FJV, em 05.08.19

José Afonso teria completado 90 anos na passada sexta-feira. É um dos autores mais geniais e completos da música portuguesa, e reduzi-lo à sua dimensão puramente ideológica é um mau serviço prestado à sua obra e à sua imensa criatividade. Inclusive, há discos de Zeca Afonso que, mesmo marcados ideologicamente de forma tão intensa – resultando do fervor político dos anos de 1974 a 1979 – devem, a esta distância, ser objeto de uma releitura estética (casos de Com as minhas tamanquinhas ou Fura fura). Essa redução ideológica é empobrecedora e muito querida dos medíocres cujo nome se salva na nossa memória apenas pelos favores da política – mas José Afonso é uma grande, enorme, formidável exceção. Quase todas as suas canções sobreviveram ao tempo e algumas são um relâmpago genuíno da melhor música. Em 1987, na sua morte, houve quem não o homenageasse devido a essa marca ideológica. Foi um erro. Era preciso libertar José Afonso dessa sobrecarga. Hoje, isso é possível – porque ele é grande, enorme – apesar dos que o querem ouvir ou dar a ouvir sob grilhetas tão estreitas.

Da coluna diária do CM.

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As golas.

por FJV, em 02.08.19

A magna questão “das golas” e da promiscuidade familiar mostra a forma como, num país pequeno e cheio de oportunidades de negócio, onde todos se conhecem e grande parte dos “conhecidos” tem interesses comuns, é difícil escapar a qualquer teia que não tenha sido tecida pelo Estado. E, além disso, as leis são ou feitas à medida desses “interesses comuns” ou, como por outras palavras mais complicadas disse o ministro A. Santos Silva, não se podem levar à letra (no sentido em que “seria absurda” uma interpretação “literal” da lei). Que a lei não se possa ser cumprida pode decorrer de ela ser controversa – mas mais absurdo ainda é que o Parlamento produza leis que não podem ser interpretadas literalmente, e que o Presidente da República promulgue diplomas (como a lei das incompatibilidades) que ou não vão ser aplicados ou que o próprio vê salpicados de erros que critica abertamente. Mas o mais complexo disto tudo é o seguinte: quando uma lei não vai ser cumprida, o Parlamento trata de, previamente, fazer uma lei que não pode ser cumprida. É um brilhante acordo entre os partidos, não é?

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Melville.

por FJV, em 01.08.19

Moby Dick, de Herman Melville, é uma das obras-primas mais notáveis da nossa literatura; fala de superação, busca, confronto, domínio, ascensão e queda, risco, sonho e do mundo tenebroso e maravilhoso do mar. A luta (narrada pelo marinheiro Ishmael) entre o capitão Ahab e Moby Dick, a baleia branca, é uma prodigiosa metáfora sobre a natureza humana e deu lugar a um livro que tem de tudo, como se deve dizer dos grandes romances: desde conhecimentos da vida do mar (Melville conheceu-a verdadeiramente e elegeu-a como sua obsessão e ganha-pão) até ao domínio da linguagem bíblica, da forma como desenha Ahab até ao desejo de luta e de confronto que toma conta de todo o romance. Com o tempo, Melville transformou-se numa das figuras do pódio da literatura americana, mas terminou a sua vida praticamente na miséria – e Benito Cereno, Billy Budd ou o influente e maravilhoso conto Bartleby, o Escrivão só tarde de mais o levaram ao paraíso da literatura. Melville, que nasceu há 200 anos (assinalados hoje, para nossa felicidade de leitores), nunca imaginaria ser tão grande como é. 

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Primo Levi.

por FJV, em 31.07.19

Já tinham secado as lágrimas da primeira adolescência, com o Diário de Anne Frank, quando li Se Isto É um Homem, de Primo Levi. O choque não podia ter sido mais forte. Levi, por quem tive uma admiração fortíssima ao ler O Sistema Periódico (de 1975, que só li em 1999), mostrava o horror na primeira pessoa: judeu italiano, sofreu na pele a segregação do fascismo italiano que, em 1938, proibiu judeus de estudar em instituições públicas (frequentava química) – e foi, depois da dolorosa caravana da morte nazi, parar a Auschwitz em 1944, num grupo de 1000 prisioneiros de que apenas 20 sobreviveram. Quando Levi morreu, em 1987, Elie Wiesel disse o essencial: que o autor de Se Isto É um Homem já tinha morrido no campo de concentração nazi há quarenta anos – e, depois, quando publicou o seu tremendo livro, onde mostra como se destrói a dignidade humana. Com Se Não Agora, Quando?, cujo título invoca uma frase do rabino Hillel (séc. I aC), é um dos livros mais dolorosos sobre a “memória da morte”. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento – é um nome incandescente.

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De Anne Brontë ao Vale do Ave.

por FJV, em 30.07.19

O romance Agnes Grey, de Anne Brontë (que agora foi publicado pela Relógio d’Água), tal como Jane Eyre, da sua irmã Charlotte, é uma história romântica sobre o poder das mulheres e a sua experiência de vida, em meados do século XIX. Nenhum deles tem a densidade dramática de O Monte dos Vendavais, de Emily, mas o assunto é outro: a sua releitura ocorreu ao mesmo tempo que soube que 57% das mulheres portuguesas que chegam à universidade escolhem carreiras científicas – e têm um aproveitamento académico muito superior ao dos homens (nos laboratórios de ciência do Vale do Ave, a percentagem de mulheres chega aos 80%). Os números enchem-me de orgulho porque traduzem um crescimento notável não só do poder real das mulheres mas, sobretudo, do papel que ocuparão no futuro – numa sociedade onde (vê-se pela política portuguesa, cada vez mais manhosa) a qualidade dos homens anda pelas ruas da amargura. Esta é a verdadeira revolução tranquila. Sem lugares comuns, quotas e gritaria que esconde debilidades menos visíveis a olho nu. Pode ser que cheguemos a algum lado e que leiam Agnes Grey.

Da coluna diária do CM.

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Chester Himes.

por FJV, em 29.07.19

Nos anos 60, os nomes de Raymond Chandler, Hammett ou Mickey Spillane (além de Simenon) foram grandes influências na história do policial português. Chandler e Hammett eram pais melancólicos; Spillane era um guia para a violência, mas Chester Himes estava no código genético de autores como Diniz Machado, Ross Pynn (Roussado Pinto), Frank Gold (Luís Campos) e até Cardoso Pires, que o referiu aqui e ali. Himes (1909-1984), de origem negra, com um historial de pequeno crime e passagem pela prisão, apesar de vir de uma “classe média equilibrada”, escreveu sobre o racismo na polícia e nas ruas do Harlem. Cidade Escaldante é o seu título mais famoso, e em livros como Razia Total, Assassinos a Frio, Tumulto no Harlem ou A Maldição do Dinheiro crescem os detetives Coffin Ed Johnson ou Gravedigger Jones. Como James Baldwin, outro negro, veio escrever para Paris; a distância da América deu-lhe uma perspetiva mais literária sobre o policial, de que é um mestre. Acabou a viver em Alicante, na Espanha, onde morreu em 1984. Passam hoje 110 anos sobre o seu nascimento. É uma grande leitura.

Da coluna diária do CM.

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Lowry.

por FJV, em 26.07.19

Não sei se se recordam do filme Debaixo do Vulcão, de John Huston (com Albert Finney e Jacqueline Bisset) – mas eu recordo. Há anos, fui a Cuernavaca, a cem quilómetros da Cidade do México, para ver o cenário do livro homónimo de Malcolm Lowry e ver o sítio exato (um jardim) onde se encontraria a frase que encerra o romance: ‘Este jardim é seu, não deixe que os seus filhos o destruam.” Sem saber, Lowry tinha visitado o lugar exatos 60 anos antes, a fim de – naquela paisagem perdida e solitária – salvar o seu casamento. Não conseguiu. Voltou cinco anos depois, com outra mulher – e, apesar do álcool em excesso, reuniu a memória que lhe permitiu escrever ‘Debaixo do Vulcão’, um romance que é inseparável da nossa visão do México e da imagem do próprio escritor. Lowry não é apenas um dos grandes mitos da literatura do século XX: é um proscrito da felicidade e deve ser lido com cuidado, porque ninguém fica imune à sua melancolia e à sua dor. Viajante, nómada, sem pátria (era inglês e morreu em Inglaterra aos 47 anos – assinalam-se no próximo domingo os 110 anos do seu nascimento.

Da coluna diária do CM.

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Fora de Circunstância.

por FJV, em 25.07.19

Na próxima semana (na Dom Quixote) sairá o livro Fora de Circunstância, de Maria de Fátima Bonifácio, nome que esteve no centro de uma polémica devido a um artigo onde se manifestava contra a “discriminação positiva” de negros e ciganos na entrada nas universidades. À indignação em massa, nas chamadas “redes sociais”, sucedeu o apelo aos tribunais e respetiva condenação. Acontece que a indignação é uma coisa que nos sai muito barata hoje em dia, e portanto não espanta, ainda mais tendo em conta a substância do artigo de Fátima Bonifácio; ao contrário de muita gente, acho essa indignação muito saudável – à esquerda a è direita. Já a criminalização da opinião (mesmo que a ache abjeta, ou conspícua, ou apelando ao pior do género humano), acho errado. Sou pelo combate. Não se está de acordo? Combate-se. Insulta-se, se for necessário e se a causa valer a pena – daí resultaram grande textos da nossa literatura. Se for preciso, humilha-se o adversário, expõe-se a sua roupa interior em público, contam-se horrores. Mas criminalizar opiniões não é abrir a porta à intolerância: é festejá-la.

Da coluna diária do CM.

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Estrelas de verdade.

por FJV, em 24.07.19

O chefe Henrique Leis, proprietário do restaurante com o mesmo nome em Almancil, no Algarve, decidiu devolver a estrela Michelin que ganhou há quase 20 anos. Ah, que vergonha, murmura-se. Pelo contrário: tomates. Não foi o único caso. Marco Pierre White, por exemplo, que durante algum tempo foi o mais jovem chefe a obter três estrelas do guia francês (aos 31 anos), devolveu-as por estar cansado, querer ser mais livre na cozinha e, sobretudo, não estar disponível para ser avaliado pelos juízes do Guia Michelin, um interessante instrumento diplomático e culinário francês, cujos critérios são tão estreitos quanto flutuantes e desconhecidos. Há mais restaurantes nessa lista de indisponíveis a que, agora, se junta o de Henrique Leis – que também prefere cozinhar em liberdade e sem a ameaça de ficar sem a estrela por causa de uma má inclinação do palato dos ‘michelins’. Ter as estrelas é bom para qualquer cozinheiro (há 26 dignos estabelecimentos portugueses que as ostentam), mas, sinceramente, parte substancial dos estrelados é uma grande, enorme e sorumbática chatice. 

Da coluna diária do CM.

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Racismo lusitano.

por FJV, em 23.07.19

Pergunta inútil: se há racismo em Portugal. Claro que há. É como perguntar se há maçãs podres num pomar. Nada na nossa Constituição ou nas nossas leis, ou nas instituições, ou até no costume, nos permite falar de racismo, ou de discriminação por sexo. O racismo – como outras formas de discriminação, se bem que o racismo seja ainda mais abjeto, porque tem uma base biológica – existe como um vírus: nas relações entre colegas, nos grupos de trabalhadores que de madrugada vão para as obras, no atendimento aos balcões de bancos ou de lojas, às portas dos bares, nas cozinhas dos restaurantes, nos quadros de uma empresa. Estamos a meio de um longo processo de redenção de uma sociedade que já descobriu existir esse vírus e se liberta dele. Não pode é mencionar-se a raça como marca de identidade política. É como dizer que Hélder Amaral, deputado do CDS, é um polaco loiro disfarçado de africano só porque não comunga da mesma tralha ideológica e do mesmo desejo de ressentimento que os meninos da academia regurgitam como maus alunos de História e revolucionários de anedota. 

Da coluna diária do CM.

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