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Vinte e oito anos depois da primeira surpresa, releio O Delfim e tenho pena que «a literatura» não tenha aprendido essa lição de ironia, observação, sentido da proporção.
Hoje à tarde, José Eduardo Agualusa e José Luís Peixoto, na Brown University, em Providence, depois da passagem pelo Brooklyn Book Festival.
Bons reparos do Rui Bebiano sobre os guias de viagem — e a malandrice dos Lonely Planet. Apenas li os da Guatemala, Central America e Argentina, e todos eles me pareceram escritos à secretária, sobretudo porque os li quando preparava viagens até esses lugares. Não é por acaso que a editora Actes Sud, nos anos oitenta, apenas seleccionou romances para a sua colecção de livros & guias de viagem
Hoje à tarde (hora de NY, 16h00), José Eduardo Agualusa e José Luís Peixoto vão estar juntos, com moderação de Andy Tepper, para discutir o tema The New Wave of Portuguese Literature from Luanda to Lisbon, no Brooklyn Book Festival.
[Nas fotos, JEA e JLP no Fórum das Letras de Ouro Preto em 2007.]
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As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa, em edição inglesa (My Father's Wives, Arcadia): «Agualusa handles this with a lightness of touch that adds hallucinatory beauty to a story that gracefully encompasses extraordinary characters, wild anecdotes and the pressing issues of modern African identity.»
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My Father's Wives is a novel about women, music and magic.
Cuidado, holandeses. É já no próximo mês de Outubro que sai Gods toorn over Nederland, ou A Ira de Deus sobre a Holanda, de José Rentes de Carvalho.
O desaparecimento de Alexandre Soljenitsine não significa hoje grande coisa para a maior parte das pessoas, mas a verdade é que o escritor que denunciou tão abertamente os campos de morte soviéticos poderia ter outro destino se não fosse o Gulag. Soljenitsine foi odiado pela esquerda que continuou a proteger, mesmo depois da ‘perestroika’, o direito de o socialismo matar e condenar milhões à fome e ao terror. Tal como Tolstoi, foi um moralista e um homem religioso; como muitos outros, nunca conseguiu sobreviver longe da ‘mãe Rússia’, ocupada pelo comunismo primeiro e pelos gangsters do capitalismo depois. A velha Rússia de Tolstoi, de Gogol, de Akhmatova ou de Brodsky, foi para si uma lenda amável e dolorosa. Mas os que o condenaram ao Gulag e ao silêncio não lhe sobreviveram.
[Da coluna do Correio da Manhã.]

O presidente do júri do Prémio Camões disse que o grupo de jurados que distinguiu João Ubaldo Ribeiro “decidiu que centraria a sua discussão em escritores brasileiros”. Salvo erro, isto é sacanagem. Em primeiro lugar, contra João Ubaldo, que não merecia ser escolhido só entre 50% dos candidatos; em segundo lugar, contra o Prémio Camões, que mostra a rotatividade luso-brasileira (com migalhas para África) decidida nos gabinetes políticos. Entre nós, já se sabia que um ano tocava a uns, no ano seguinte a outros. Mas admiti-lo assim, se não é hipócrita, constitui uma idiotice que não devia ser permitida. Um prémio como o Camões deveria ser defendido de oscilações temperamentais e ser poupado a jogadas que não o enobrecem. Ou então que passe a ser escolhido nas chancelarias.
[Da coluna do Correio da Manhã.]
Ilustração de Pedro Vieira. O João Ubaldo não tem culpa nenhuma desta trapalhada.

A insónia regular voltou. O livro é Os Livros que Não Escrevi, de George Steiner (edição Gradiva).
Há livros que só poderiam ser vendidos nas farmácias e com necessidade de receita médica: é o caso de Só Resta o Amor, de Agustín Fernández Paz (Edições Nelson de Matos) – uma história infiel, como acontece com as que valem a pena.
Na impossibilidade de estar presente ontem, na sessão de lançamento do seu livro (na Pó dos Livros, em Lisboa), o Dr. António Sousa Homem enviou a seguinte carta:
«Não é todos os dias que um Homem abandona a sua província para se aventurar nos caminhos da Pátria. Desde 1985, quando me fixei naquilo que viria a ser conhecido, em família – e depois entre os meus leitores –, como “o Eremitério de Moledo”, que raras vezes tenho abandonado o perímetro do meu Minho. Ao contrário do meu Tio Alberto, que se enamorou várias e repetidas vezes de senhoras estrangeiras, e que por isso conhecia os melhores hotéis de Madrid, a cor do lago de Genebra, os sabores de Paris ou o odor do Mar Cáspio, eu segui o destino dos velhos Homem de antanho, que só conheciam ou o caminho para casa ou o mapa das deambulações do senhor Dom Miguel. O velho Doutor Homem, meu pai, foi outra excepção, só possível porque o meu avô acreditava que em Inglaterra existia tudo o que valia a pena existir, tirando as quintas do Douro – e, mesmo essas, eram propriedade de súbditos ingleses. Não falo das viagens da adolescência ou da primeira juventude, claro – que me levaram a conhecer o mundo e a saber manejar mapas, talheres e línguas estrangeiras. Falo da idade adulta – ou seja, da idade em que as ilusões não sobram e em que as desilusões já não pesam.
Quis o destino que este Matusalém minhoto tivesse de esperar pelos oitenta anos para revelar a baixeza da vaidade e da pequena luxúria. Refiro-me à escrita. As outras são mais antigas. Os culpados desses desvarios são pessoas generosas que supuseram, por uns instantes, que eu acrescentaria alguma coisa às suas revistas ou aos seus jornais. Um dia, a minha sobrinha Maria Luísa levou uns amigos para um fim-de-semana a Moledo e, entre eles, estava a Dra. Mónica Bello, que trabalhava no jornal O Independente. Ela tinha lido uns arremedos anestésicos de crónicas que eu tinha escrito uns anos antes – na sua generosidade, que atribuí à idade e ao pavor de que o passado não tenha existido, ela lembrava-se. Eu viria do passado para provar que ele existiu. A Dra. Mónica Bello expôs-me o essencial da minha tarefa e resumiu-me o programa: eu seria um cronista que daria voz à Direita portuguesa. Corei de vergonha porque sempre supus que já não havia Direita e que eu estava irremediavelmente sozinho, com a memória da Tia Benedita – a ultramontana da família –, e o retrato do senhor Dom Miguel pendurado na parede do velho casarão de Ponte de Lima. Ainda hoje tenho dúvidas.
Eu disse que sim, mas esqueci o compromisso; era um sábado de depois da Páscoa e havia mimosas no Minho. Uma semana depois, à terça-feira, telefonavam do jornal acusando-me de estar atrasado no envio. Aprendi que “estar atrasado no envio”, “recibo verde”, “fecho” e “esta semana fechamos mais cedo” eram o essencial do jornalismo. Pessoas como o Dr. Henrique Burnay e o Dr. Francisco Camacho, no O Independente, trataram de mim como se trata um avô – e o ilustrador Fernando Mateus mais de uma vez me telefonou a perguntar se o retrato estava conforme. Nunca lhe disse, mas aproveito esta oportunidade, para lhe dizer que o retrato saía sempre melhor do que o original. Mais tarde, no Diário de Notícias e no Jornal de Notícias, o Dr. Francisco Camacho ou o Dr. Pombeiro telefonavam à segunda-feira a perguntar pela saúde, o que queria dizer que eu estava atrasado no envio e a D. Vera tremia à ideia de decifrar a minha caligrafia. Ainda hoje, a Dra. Fernanda Cachão, no jornal onde escrevo, espera receber a minha crónica acompanhada de um atestado médico. Um dia, tive o prazer de conhecer Dr. Manuel Alberto Valente, que me convidou a reunir em livro as primeiras crónicas. Achei o cúmulo da vaidade e a demonstração de que a degradação da alma humana não tem limites, razão por que o livro se publicou. Deixei, enfim, de ter vergonha. Sou de uma família que vive noutro século, tirando os meus sobrinhos e as minhas irmãs. É um pecado como qualquer outro, mas não se pode fazer nada contra o pormenor.
Quando em Janeiro passado o Dr. Octávio Ribeiro me convidou a escrever no seu jornal, levou-me a jantar num restaurante onde tomei a última refeição – um jantar – antes de embarcar para o Brasil há mais de cinquenta anos, para onde minha mãe, Dona Ester, me enviara a fim de esquecer um amor não correspondido e um casamento desfeito. Na mesma sala, nessa noite, o velho Doutor Homem, meu pai, recomendou-me que me divertisse e não esquecesse a gramática. Tenho tentado, rodeado de livros, plantas e um país que já não conheço.
Com este livro, os velhos Homem de outros tempos coraram nos seus jazigos – mais uns tempos e seríamos democratas e acompanharíamos, com o pé, o ritmo do Hino da Carta.
A ideia de publicar um novo livro foi proposta pela editora Bertrand, a quem agradeço o convite, o risco e o facto de amparar a vaidade de um velho anterior aos romances modernos, à máquina de escrever e à sociologia. Apenas impus a condição de o livro ser prefaciado pela Professora Maria Filomena Mónica porque já tenho poucas oportunidades de partilhar a companhia de senhoras que gostaria de ter conhecido em algum tempo ou em algum lugar da minha vida. No seu livro Bilhete de Identidade, a Doutora Filomena Mónica recorda, a certa altura – eu lembro esta passagem porque a comentei com as minhas irmãs, que são ciumentas – as tardes que passou, em Inglaterra, bebericando brandy e lendo apaixonadamente os clássicos. É uma cena, como se vê, digna de O Monte dos Vendavais. No fundo, se o meu médico de Viana do Castelo, um benemérito local, não me tivesse imposto a interdição do brandy, era isso que eu faria, exactamente. Beber brandy e ler apaixonadamente os clássicos. Não é o resumo de uma vida, mas, para um conservador minhoto, é como se Dom Miguel não tivesse embarcado em Sines para o exílio.
A minha sobrinha Maria Luísa viria de Braga recolher-me e transportar-me para Lisboa. Ela faz isso com uma frequência semestral, só que o destino é São Miguel de Seide, e não Lisboa. Infelizmente, o Verão é como é. Além do iodo, que é o meu suplemento de vida colhido nos pinhais de Moledo, à beira do mar, ele traz problemas às coronárias. O médico receitou-me morigeração e repouso – e eu poupo-me para as ostras de Ribadeo, que hão-de chegar este fim-de-semana. Dona Elaine, a governanta de Moledo, aguarda que conclua esta nota para enviá-la antes do jantar.
Agradeço-vos a todos. Se o livro tivesse de ser dedicado a alguém, escolheria duas pessoas (além do velho Doutor Homem, meu pai, da Tia Benedita, que ao longo de oitenta anos nos protegeu do bolchevismo, da devassidão moral e do fantasma de Afonso Costa, ou do Tio Alberto, o bibliógrafo e gastrónomo de São Pedro dos Arcos). Falo da minha sobrinha Maria Luísa, leitora fiel e hóspede quase permanente de Moledo, a única esquerdista que sente alguma ternura pelo miguelismo da família. E falo de Torcato Sepúlveda, um jornalista que tive o prazer de conhecer durante um almoço nas margens do Minho. Descobrimos, ao mesmo tempo, que éramos leitores de Camilo e, provavelmente, os últimos portugueses a ter lido o Minho Pittoresco ou o Tristram Shandy. Infelizmente, a morte sabe onde nos vir buscar, mesmo que não estejamos preparados.
No resto, para além da vaidade de um pobre velho do Minho, resta-me esperar que a leitura do livro sirva de consolação a alguém que o leia. Tal como o iodo de Moledo.»
Hoje, quarta-feira, 25 de Junho, pelas 18h30, na Livraria Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, 89-A), lançamento de Os Males da Existência, com Maria Filomena Mónica e Francisco José Viegas, que falarão sobre as Crónicas de um Reaccionário Minhoto. Estará presente o autor, Dr. António Sousa Homem.
«O meu mundo desapareceu nestas três últimas décadas. Era um mundo onde a pasta dentífrica se espremia pelo fundo do tubo e onde os jornais não tinham erros nas secções de palavras cruzadas. O resto, a política, a bondade ou a crueldade dos homens, a vaidade ou a riqueza, o prazer ou o sofrimento são menos do que acontecimentos; a única coisa que aprendemos é que precisamos de alguma inteligência para não nos zangarmos com o mundo.»
«O velho Doutor Homem, meu pai, era um madrugador impenitente e dormia seis a sete horas por dia, raramente cabeceando a meio de uma partida de brídge, nas noites de sexta e de sábado, ou durante o obrigatório serão doméstico. O segredo, explicou várias vezes, residia na quantidade de livros aborrecidos que se esforçava por ler e na disciplina que essa leitura requeria.»
«Mas a verdade é que o país gosta de malandros. Gosta de pantomineiros e desculpa-lhes tudo. O país gosta de apreciar, nos outros, as mesmas faltas de carácter que o distinguem. Tal como as mulheres dos romances libertinos, que preferiam os canalhas, porque eram mais sedutores embora lhes ensinassem apenas o caminho da desgraça, o país também prefere os pantomineiros.»
«A Tia Benedita, o génio ultramontano da família, comparava os Cabrais à sanha demagoga do dr. Afonso Costa. Ela conhecia, à sua maneira, o elemento humano que se encaminhava para a corrupção e para a impostura.Os Cabrais estão em todo o lado, afinal: esclarecidos, cultos, abrindo estradas e dirigindo o progresso – mas temendo muito a liberdade e as ideias contrárias. Não porque, realmente, tenham medo de ambas; mas porque a liberdade e as ideias contrárias são correntemente um empecilho que desvaloriza a sua vontade de mandar.»
«A minha sobrinha Maria Luísa manifesta, cada vez mais esporadicamente, algumas perplexidades sobre a relação entre toda a bibliografia acumulada em Moledo e “o histórico” da família. Ela achava, em tempos, que a dimensão da biblioteca deveria afastar-nos da tradição conservadora do clã, até que ela própria (que votava no Bloco de Esquerda) foi escolhida para levar o retrato do senhor Dom Miguel a um artista de Braga, para que o cuidasse e reparasse. Expliquei, sem argumentos de peso, que não era preciso ser de esquerda para apreciar os grandes autores e que nem todos os bons escritores defenderam o comunismo, “o massacre das classes médias” (uma expressão histórica de Eça) ou o encerramento das igrejas. A questão era inteiramente diferente – ou até a inversa: como é que uma pessoa com tamanha biblioteca poderia ser “de esquerda”?»
«A mim, pelo contrário, uma casa sem duas prateleiras de bons livros parece-me uma parte do deserto de Moçâmedes (onde tivemos um tio agrimensor). É vaidade de velho e arrogância de um minhoto de antes da guerra civil (a de oitocentos, porque não houve outra). A minha sobrinha acha absurdo que, tendo eu lido alguns livros essenciais, e mantendo uma biblioteca razoável, me não importe de ser um conservador dos de primeira. Sobre isso não sei, mas respondo que acho estranho ela ter lido alguns desses livros, ter guardado o prazer de os escolher e de os guardar, e continuar a votar à esquerda.»
«No meu tempo havia toda uma mitologia em redor das ostras, um alimento do Inferno destinado a instantes de devassidão. O meu Tio Alberto, que se apaixonou por uma antiga princesa do Cáspio, achava as ostras um bom ornamento para o litoral galego mas não um dos pecados enumerados pelos Concílios – quanto ao caviar, sim, era chave da antecâmara da perdição. Ele considerava que, sendo o esturjão do Cáspio um sobrevivente entre as espécies condenadas pelo Dilúvio, algum motivo haveria para ser tão prezado. A sua princesa persa era uma senhora delicada e culta que nascera já fora da Rússia, de onde a família saíra nos anos vinte. Quando soube do romance, que durou muito tempo, a Tia Benedita temeu tratar-se de uma bolchevista (elas sabia de História apenas o essencial dos almanaques). O meu tio, bibliómano de São Pedro dos Arcos, não se deu ao trabalho de a desmentir. Remeteu-se ao silêncio, como um amante invejado, e limitou-se a suspirar pelo caviar.»
«Diante do vastíssimo número de escritores de hoje em dia, o velho Doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de chamar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica.»
«O velho Doutor Homem, meu pai, comportava-se como um poeta satírico cujo propósito era rir dos românticos. Ele costumava dizer que a choraminguice portuguesa tinha sido transformada em lei pelo constitucionalismo e pelos liberais que tanto assinavam decretos como nos puniam com sonetos. A minha sobrinha sofre bastante quando ouve estas perversidades; ela acha que se deve premiar a “sensibilidade” e valorizar o lado “emocional” da vida. Nunca conseguimos chegar a acordo sobre o assunto. Acontece que a “sensibilidade” e o lado “emocional” da vida são coisas para consumo moderado, como os medicamentos, e que a sua prescrição deve ser consagrada para uso íntimo e estritamente pessoal.»
«A minha sobrinha acha que a bondade geral, a sensibilidade e a generosidade nasceram na margem esquerda dos caminhos, ficando a direita reservada para os espíritos tortuosos, para a maldade e para a insensibilidade. Por exemplo, a biblioteca. Com esta biblioteca, extensível em temas e autores como um planisfério elástico, eu não poderia levar a sério nem “o conservadorismo da família”, nem a existência do retrato do senhor Dom Miguel (guardado e protegido no casarão de Ponte de Lima), nem a ideia de que o mundo está razoavelmente bem feito. Eu devia, com algum exagero, evidentemente, esconder-me nas penumbras a lançar bombas contra a família, as classes médias e o senhor arcebispo de Braga.»
«Acontece que um dos desacertos com que o mundo tem lutado nasce da ideia de que “o bem” está à esquerda, a quem o futuro assenta como uma luva. Ao apropriar-se do “bem”, fica reservado o “mal” para todos os que não ponderam votar no dr. Louçã – desde velhos ultramontanos (que já não existem) a cépticos que manuseiam almanaques de história pátria dos últimos duzentos anos ou que duvidam das boas intenções da sociedade em geral. E, estando o “bem” em algum lugar, ele não pode praticar-se se não se transportar a bandeira das esquerdas. É, digamos, uma lógica insofismável.»
No o Los Angeles Times:
«Agualusa weaves a gorgeous and intricate story about a man who trades in memories, selling people pasts to help reinvent their futures. Set in Angola, the tale darts to and fro with the swiftness of a step over by soccer player Cristiano Ronaldo. [...] He's a young master.»

Aqui está a crítica ao The Book of Chameleons, de José Eduardo Agualusa (trata-se da tradução de O Vendedor de Passados), na Time Out de Nova Iorque, desta semana.
Na próxima semana o Dr. António Sousa Homem deixará Moledo e estará em Lisboa para, na quarta-feira, 25, às 18h30, na Livraria Pó dos Livros, lançar o seu livro Os Males da Existência. Crónicas de um Reaccionário Minhoto. A apresentação estará a cargo de Maria Filomena Mónica. Oportunidade para uma conversa.
«Sou um conservador, um botânico e um velho. Até como botânico sou conservador, reservando sempre o mesmo espaço para as begónias – que me lembram Júlio Diniz e Uma Família Inglesa – e o mesmo enlevo para os hibiscos. A velha casa de Moledo, onde a família passa os domingos e, episodicamente, os finais de semana, não acolhe memórias de um século; alberga apenas a poeira de oitenta e quatro anos assinalados, religiosamente, em Dezembro de cada ano e anunciados à família como um avanço na conservação da espécie.»
Periodicamente, quando há falta de assunto, revistas e jornais perguntam a escritores «escreve porquê?» (há aquela edição histórica do Liberation). Tenho as minhas razões. Mas, hoje, a melhor das razões só poderia invocar aquela senhora que veio ter comigo à banca de autógrafos, na Feira, e sorriu: «Vou muitas vezes ao seu blog ver se há um novo livro com aventuras do inspector Jaime Ramos.» Na verdade, é a mais séria das razões. O resto é vaidade.
Osvaldo Silvestre, no Os Livros Ardem Mal, propõe leituras para a equipa de todos nós «constatando que nem a APEL nem a UEP aproveitam o evento para uma operação promocional junto dos craques (uma feirinha do livro, por exemplo, no átrio do hotel em Viseu ou em Neuchâtel…)». Por isso, «para contribuir para o enriquecimento do tempo de lazer dos nossos heróis», o Osvaldo entrega a lista de «sugestões de leitura, de Scolari ao suplente mais irredutível». A não perder.

Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira.
«Tal como a personagem de O Leopardo, de Lampedusa, o velho doutor Homem, meu pai, assistiu à ruína do seu mundo sem ruir com ele. Simplesmente, enquanto a maioria dos leitores de O Leopardo critica a hipocrisia do príncipe, eu vejo nela alguma virtude.
Tentei explicar esta ideia tortuosa à minha sobrinha Maria Luísa. Com a idade, as «novas gerações» vão ficando mais interessantes, livrando-se das enfermidades da juventude. O Leopardo foi uma das suas leituras e, para ela, o príncipe – representando «o velho mundo» – assemelhava-se um tanto aos heróis da máfia que apareceram no cinema como figuras românticas que afrontam o trono, o altar e os seus exércitos, como se fossem herdeiros do Robin dos Bosques. Educada pela história oficial, que trata os derrotados com dureza e obstinação, a minha sobrinha resiste ainda à ideia de que o mundo não está dividido em heróis e facínoras. O século XIX é para ela uma incógnita maior do que a revolução de 1974. O velho doutor Homem, meu pai, é para ela uma lembrança vaga a que o tempo e a idade emprestam agora mais graça e fascínio. Entrando na biblioteca, observando as lombadas dos livros, imagino que se interrogue como pôde aquele homem culto, irónico, céptico e mordaz (de que ela conheceu vagamente a figura) ser um herdeiro da velha ordem e não um revolucionário que combatesse as classes médias, a família e as instituições.
Primeiro, respondo que as coisas são como são, o que não a satisfaz. Depois, lembro-lhe de que Rousseau, que é considerado um grande pedagogo e um pensador revolucionário, abandonou os seus filhos e maltratava a sua pobre mulher. É um argumento descabido, mas diz muito sobre como as coisas são como são.»
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