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90 anos de Updike, vivo nos livros.

por FJV, em 18.03.22

O conselho de John Updike para os jovens escritores

É de 1964 um dos mais belos poemas de John Updike  (1932-2009, faria hoje 90 anos), “Azores”. Muitos leitores ignoram que o grande ficcionista da América — ao lado de Norman Mailer, Gore Vidal ou Tom Wolfe — tenha sido também um poeta notável. O seu mundo mais conhecido é o dos romances da série Rabbit, “Coelho”, um retrato tão profundo como harmonioso e irónico da sociedade americana e da sua classe média. Por isso, os seus temas circulam à volta da religião, do dinheiro, do adultério e da sexualidade. Aquilo em que a América se transformou está nos seus livros, e nos de Tom Wolfe; mas Updike compreende os movimentos subterrâneos, não teme as ironias (como em As Bruxas de Eastwick, um romance genial) e, ao contrário de Philip Roth, não se transformou em personagem de si mesmo. Corre Coelho, S. ou Casais Trocados são cómicos, porque Updike sabe que Deus fala através dos ironistas e ele foi um homem tocado tanto pela sua luz como pelas suas dúvidas e desilusões. Para compreender porque é a América este lugar de vaidade, ressentimento e atribulação, nada como ler Updike.

Da coluna diária do CM.

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Jorge Silva Melo (1948-2022).

por FJV, em 17.03.22

Jorge Silva Melo morreu aos 73 anos em Lisboa - MUNICÍPIO de LISBOA

Quando queremos falar de alguém que não se limitou a olhar numa só direção – digamos, só o teatro, ou só o cinema, ou só a literatura, mas também se interessou pela beleza em geral, pela navegação, pela astronomia, pela música ou pela agricultura – dizemos que se trata de uma “figura do Renascimento”. Talvez por isso ontem fui folhear um livro que guardei na parte das estantes em que não há tema, género ou catálogo possível: Deixar a Vida, de Jorge Silva Melo (Cotovia, 2002) é o livro de um ator e encenador que sabia que não se podia olhar apenas numa direção e que nunca o fez; senta-se a contemplar-nos e fala sobre os materiais do seu trabalho e as interrogações que a vida deixa; parece a elegância de alguém que conversa, sentado num banco de jardim, ou à mesa de uma esplanada. Século Passado, que publicou depois, tem um registo diferente mas com o mesmo tom: tão bem escrito. Tal como A Mesa Está Posta (de 2019), uma revisitação da memória. Ou, que os clássicos me perdoem, na versão que compôs para o Rei Édipo a partir da reescrita de Sófocles (2010). Fica a sua marca.

Da coluna diária do CM.

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O futebol arrependido.

por FJV, em 16.03.22

De repente, gritos de horror. Na política, na cultura, na moda, na diplomacia em geral e no chamado “desporto” em particular – quem não quer distanciar-se de “oligarcas” russos? Veja-se o caso de Roman Abramovich, ai dele, que a UEFA e a FIFA (além do governo britânico) agora perseguem com denodo e entusiasmo. Onde estava o génio, o investidor e o filantropo da bola, o amante de arte contemporânea (tinha uma galeria londrina e tudo, um paraíso para lavagem de dinheiro), está agora o cruel e hediondo oligarca a quem se confisca o Chelsea, porque a indústria do futebol quer mãos limpas. Tão limpinhas que o dono do igualmente inglês Newcastle é saudita, ou seja, vem daquele país que, no passado fim de semana, decapitou pelo menos 80 hereges, tudo passado pela lâmina da espada. Isto sem falar de quem ficou mesmo sem mãos. O “mundo do futebol” é tão delicodoce com criminosos e gente ligada a ditaduras ou a dinheiros muito duvidosos, que a UEFA e a FIFA, se querem limpar-se, bem podem começar por decapitar-se a si mesmas antes de se fingirem ofendidas com o que têm feito ultimamente.

Da coluna diária do CM.

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A geopolítica dos tolos.

por FJV, em 15.03.22

Tem vindo a escapar aqui e ali a ideia fanfarrona de que um bom analista de geopolítica é quem valoriza os “interesses” em detrimento dos “valores”. A doutrina é óbvia – mas a forma como certo grupo de comentadores sorri a cada vitória ou indignidade das tropas de Putin aproxima-se do grotesco e do abjeto: preferem naturalmente o ditador e culpam a Ucrânia por não se ter rendido como devia perante a bravura máscula do ditador russo. Pode haver nisso uma fixação sexual, claro – mas não são irresponsáveis, porque eles sabem o que fazem. Uma coisa é analisar evidências (que são tristes); outra, diferente, é sofrer de desarranjo pós-estalinista ou pré-fascista e, a pretexto da sua inteligência lorpa, terem altar para desculparem a agressão russa porque a Ucrânia estava a pedi-las e Putin é um génio. Isso terá, naturalmente, repercussão na chamada “política interna”: o PCP, habituado a justificar massacres, não terá desculpa – em definitivo; do Bloco, titubeante, ninguém poderá esquecer as primeiras posições; do Chega, o retrato é claro: putinista e anti-ocidental, é um albergue de tolos.

Da coluna diária do CM.

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Os Lusíadas em Jacarta.

por FJV, em 14.03.22

Uma das razões por que gosto de Os Lusíadas tem a ver com o halo de doidice que percorre o poema épico. O que ali está é um grupo de estouvados que vai pelo mundo fora a desafiar os deuses, os Elementos e a ordem das coisas – o que irrita muito as pessoas que deve irritar. Como poema, é uma construção quase perfeita; como leitura do mundo, é de um atrevimento notável. No sábado passado assinalámos os 450 anos sobre aquele momento em que o impressor António Gonçalves, a 12 de março 1572, em Lisboa, deve ter folheado o primeiro exemplar. Não abriu nenhum telejornal, claro, mas hoje gostava de vos falar de Danny Susanto (professor na Universitas Indonesia, em Jacarta) que falou de Camões e de Os Lusíadas num congresso sobre o tema; tudo online, organizado na Ásia, mas virtualmente em Ternate, no arquipélago das Molucas, lugar essencial dos roteiros camonianos – onde Camões teria começado (ninguém garante) o poema. Foi um belo dia para Danny Susanto: cumpriu um dos objectivos da sua vida – traduzir Os Lusíadas para indonésio. Saiu agora e está disponível. Um abraço para Jacarta.

Da coluna diária do CM.

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Anfiteatro Anatómico ¶ A teoria dos banhos.

por FJV, em 13.03.22

Ser de esquerda e de direita – como se distinguem as pessoas de cada campo? Provavelmente, pelas suas ideias, pelas suas companhias e comportamento em sociedade – ou (é preciso relativizar as nossas dioptrias) pela forma como nos posicionamos uns diante dos outros. Para investigadores ouvidos há tempos pelo diário inglês ‘The Guardian’, há outros factores: as pessoas que têm maior tendência a detestar o cheiro de urina, suor e outros odores corporais são mais propensas a frequentar a ala direita. O título do artigo era muito simples: “Não gosta de odor corporal? É mais provável que tenha ideias de direita.” A base da coisa é esta: o sentimento de repulsa pelo mau cheiro dos outros pode significar que se alimenta algum género de discriminação social e sensorial, logo, de “direitista”, “eleitor de Trump” (não estou a brincar) e “autoritarismo”. Acho a ideia muito adequada a piadas sobre quem, de um lado, toma banho e, do outro, se apresenta “lavado, barbeado e talqueado”. Basicamente, para estes filósofos da modernidade, quem falha nos seus propósitos de higiene e anda com uma t-shirt com duas nódoas à altura do umbigo é muito esquerdalhufo, tolerante, amigo dos animais e da natureza – e, seja lá o que isso for, uma pessoa mais igualitária.

Não sei se foi por isso, mas conheceram-se na semana passada os contornos do igualitarismo feminista espanhol: as autoridades do país basco e da comunidade andaluza decidiram que as novas construções de apartamentos não podem incluir suite com casa de banho (porque cria uma divisão de classes) e os quartos terão de ser todos do mesmo tamanho, e a igual distância da casa de banho. Houve quem me explicasse que se tratava de acabar com os “quartos principais”, que favorecem o heteropatriarcado tradicional e os machos da casa — mas ninguém me tira da cabeça que a nova lei espanhola visa impedir as pessoas de terem livre acesso às casas de banho e aos duches, que são fábricas de direitistas encartados.

Da coluna semanal do CM.

 

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Os liliputinianos.

por FJV, em 13.03.22

Ler o artigo de António Araújo — uma carga de cavalaria nos pobres militares putinianos. Aliás, liliputinianos.

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O hábito do cancelamento.

por FJV, em 11.03.22

Foi cancelado em Itália um concerto com música de Sergei Prokofiev, que nasceu em 1891 em Donetsk, na atual Ucrânia (curiosamente, viria a morrer no mesmo dia de Estaline). Também foram canceladas apresentações de obras de Tchaikovsky, Borodin, Mussorgsky ou do celestial Dmitri Shostakovich. Ao mesmo tempo, li apelos para que se cancelassem eventos ou cursos em redor de obras de Dostoiévski, Tolstoi ou Gogol, pobre Gogol. O ocidente, coitadinho (ai de nós, que o aturamos) habituou-se a queimar livros que, por motivos quase sempre estúpidos, não lhe agradam mas, com a criminosa invasão russa da Ucrânia, várias cabecinhas histéricas, ardentes de paixão, desataram a proibir música russa, literatura russa ou pintura russa. Estão desejosos de fazer o bem (castigar o facínora Putin) – mas praticando o mal. O que essa atitude traduz não é apenas o ardor ou a comoção diante da barbaridade das tropas de Putin – mas também o orgulho em usar uma das paranoias do nosso tempo (o “cancelamento”, a proibição) em favor do bem ou da virtude, coisa que não existe. Só existem ignorância e horror.

Da coluna diária do CM.

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Bulgakov em Moscovo – hoje.

por FJV, em 10.03.22

Não é uma data redonda mas, passando hoje 82 anos sobre a morte de Mikhail Afanasyevich Bulgakov (1891-1940), voltemos à Rússia. O romance que o estalinismo perseguiu durante anos, O Mestre e Margarita, começou a ser escrito em 1928 mas só foi publicado em 1966 (e ainda assim uma versão censurada), ou seja, vinte e seis anos depois da morte de Bulgakov – que queimou um primeiro manuscrito em 1930 e viu muitos dos seus textos proibidos pelo regime. A primeira versão integral saiu na Alemanha, em 1973. Bulgakov nasceu em Kiev mas é em Moscovo, para onde foi viver e trabalhar, que ele imagina o Diabo em 1929, visitando o país dos sovietes, da traição e da literatura medíocre da época. Humor negro e diálogo permanente com o bem, o mal, o amor e a obscuridade, o livro de Bulgakov trata dos misticismos da época, tão perigosos como o nacionalismo de Putin ou do patriarca da igreja ortodoxa russa que, descubro-o agora, diz que a culpa de tudo isto é do Ocidente e das paradas gay, razão por que esta guerra é necessária. Isto é tema para o riso de Bulgakov, mas temo que volte a estar proibido.

Da coluna diária do CM.

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A paz perpétua e a História.

por FJV, em 09.03.22

Veremos se a ideia da “paz perpétua europeia”, uma herança de Kant, não morreu nas ruínas da Ucrânia, que falam por si: um país invadido por um déspota sem escrúpulos, respeito pela humanidade mais básica e capacidade de gerar empatia. Este é o resumo. O resto são variações que poderão obrigar a Europa a mudar de rumo e a discutir a forma de expiar as suas culpas, a sua ineficácia e a sua ingenuidade. Estamos em desvantagem, porque acreditamos no diálogo para resolver conflitos e na capacidade de corrigir o passado (e de melhorar os dias que vêm), o que é visto como uma fragilidade pelos inimigos da ordem liberal e democrática. Putin é apenas um deles; os outros estão cá dentro: uma sociedade amolecida pelo conforto e voltada para dentro, mimada e ingénua, incapaz de esforço e desinteressada pelos seus próprios valores, devorando-se a si própria, ignorando a sua história e o poder dos inimigos mais letais. A resistência da Ucrânia está a ser uma dolorosa maldição para os ucranianos – mas talvez nos ensine a mudar o conformismo e a sermos mais razoáveis e melhores leitores de História.

Da coluna diária do CM.

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Quantas divisões tem a Europa?

por FJV, em 08.03.22

Para encontrar um meio de se defender de Hitler, a França quis, em maio de 1935, assinar um pacto de não-agressão com a URSS. Quando o ministro dos estrangeiros francês informou puerilmente que o pacto colocaria Moscovo nas boas graças do papa (Pio XII), Estaline teria formulado uma interessante pergunta: “Ah, o papa! E quantas divisões tem o papa?” Quatro anos depois, em agosto de 1939, Estaline assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha (Hitler entrou em Paris em junho do ano seguinte). Putin perguntou o mesmo diante da corajosa tomada de posição europeia na semana passada: “E quantas divisões tem a UE?” Sabendo que as negociações e a diplomacia fazem sentido sobretudo quando existe um exército na retaguarda, Putin espalha o terror sobre a Ucrânia, por fases, autista e isolado, até ter adquirido uma vantagem tão poderosa como abjeta, construída sobre as ruínas e o número de vítimas. As lições da História são cruéis e amargas: a Europa e os EUA continuam a assistir à destruição da Ucrânia, como assistiram à invasão e ocupação da Crimeia e à violação de todos os pactos por Putin.

Da coluna diária do CM.

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João Filipe Sousa, aliás.

por FJV, em 07.03.22

JOHN PHILIP SOUSA, UM INSIGNE LUSO-AMERICANO - BLOGUE DO MINHO

É provavelmente uma das marchas mais tocadas e escutadas no mundo, “Stars and Stripes Forever”, marcha nacional americana desde 1987 – composta ou imaginada pelo seu autor no Natal de 1896, cerca de 10 anos depois de ter escrito “Semper Fidelis”, que foi adoptada como marcha dos Marines americanos (em que se alistou aos 13 anos). A lista de composições de John Philip Sousa (1854-1932) é enormíssima, e dele pode dizer-se que é uma espécie de compositor nacional e patriótico americano, “o rei das marchas”. O pai, João António de Sousa, era português de origem açoriana, nascido em Sevilha em 1824 – casou com uma senhora alemã – e John Philip, que poderia ter sido João Filipe, nasceu já em Washington, onde viveu boa parte da sua vida (e foi sepultado com todas as honras), antes de se dividir entre Nova Iorque e a Pensilvânia. Não tem grande importância que os acordes, recuos, solos, euforias e coros de “Stars and Stripes” tenham ressonância portuguesa, a não ser pela nossa melancolia, que hoje assinala a passagem de 90 anos sobre a sua morte. Tinha uns belos bigodes maçónicos e lusitanos.

Da coluna diária do CM.

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Anfiteatro Anatómico ¶ As pessoas bondosas

por FJV, em 06.03.22

Pessoas que sabem que a cerveja acaba por fermentar uma segunda vez no estômago e quantas calorias tem um copo de vinho. Pessoas que sabem que o glúten e tal. Coisas que te acontecem com pessoas que prezam muito os direitos dos animais e sabem a prodigiosa quantidade de gás metano produzida pelas vacas do concelho de Montalegre. Na internet, publicam fotos de gatinhos e de crianças. Eu não gosto especialmente de crianças, limito-me a esperar que elas cresçam para que possamos falar com elas e levá-las à praia. E gosto muito de gatos quando vêm, devagar, e se encostam à perna. Não faço nada: espero que subam pelas pernas e então toco-lhes no lombo, devagar. Eles fazem-nos o favor de deixarem que gostemos deles. Ao contrário das pessoas que são espertas e inteligentes e se alimentam de bulgur com iogurte magro e arandos, seja lá o que isso for – e que exigem que gostemos delas.
Há pessoas que são boas porque publicam na internet fotos de gatinhos e de crianças. De praias ao pôr do sol e de sobremesas com physalis e yangmei. Pessoas que nos corrigem quando dizemos inconveniências no meio de uma piada. Pessoas que odeiam a chuva. Pessoas que entregam a declaração de impostos sempre um mês antes do prazo e que vigiam os vizinhos. E que sabem tudo sobre os novos motores dos carros de que tu não sabes sequer a marca. Pessoas maravilhosas que são amigas do ambiente e que são aguerridas – enumeram proibições “se fossem elas a mandar”, além de fazerem lóbi pela batata doce, pela quinoa, pelo gergelim e pela farinha de espelta branca e biológica. Pessoas suspicazes que mencionam sempre problemas de “colonialismo” e “identidade de género”. Pessoas que são contra o lítio e têm filhos vegan que hão-de ser pela diversidade sexual e que escolhem um regime alimentar que faz bem ao planeta. Pessoas que vestem roupa que combate as alterações climáticas. Estamos conversados, ó pessoas bondosas – estou pronto a testemunhar pelo mal. Mesmo ao domingo.

Da coluna semanal do CM.

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Como resistirá Kiev?

por FJV, em 03.03.22

Descubra o que visitar e o que fazer em Kiev: atrações, tours e atividades  | musement

Todas as noites nos deitamos com uma amarga sensação de perda: será hoje? Como resistirá Kiev? Ao acordar e, com o primeiro café, ainda de madrugada, vem a leitura das notícias. Às seis e meia da manhã são já oito e meia na Ucrânia. O que foi bombardeado à primeira luz do dia? Ontem, a meio do dia, na rádio, ouvi um estroina arrapazado a ler a cartilha para avisar que a Europa e a Ucrânia (e creio que a Nato, mais os cossacos e os portugueses que se manifestaram em solidariedade com a Ucrânia) tinham “acordado o urso” e, portanto, teriam de sofrer “as consequências”. Não se pode “acordar o urso”; Putin é “o urso”. Desde o século XVI que o urso simboliza o império, o que é injusto para a nobre alma russa, tanto quanto para os ursos. De qualquer modo, convém não despertar “o urso” – a ideia é que ele reage com brutalidade – para não sofrer as consequências. A chantagem do sono do urso é a última vergonha da mediocridade que se baba diante dos psicopatas, cuja crueldade é respeitada como uma virtude anormal. Kiev não chegou a adormecer, desamparada. Todas as manhãs acordamos assim.

Da coluna diária do CM.

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O falso pacifismo.

por FJV, em 02.03.22

Uma coisa é um tolinho declarar-se pacifista, ter um simbolozinho hippie na mochila e um cartaz contra a guerra; outra é fingir que um estado tem o direito de invadir outro se não lhe agradam os incumbentes ou as fronteiras. Mas há que ter atenção à ideia que puseram a circular os pós-comunistas, os apócrifos betinhos de esquerda e meia-dúzia de chamborgas da extrema-direita – é a de que a Ucrânia não tinha nada que se “aproximar da Europa”, como se vivessem nos antípodas e a Rússia pós-estalinista fosse um parceiro fiável. Portanto, que a terra onde os nazis perpetraram Babi Yar e os soviéticos o Holodomor, farta de ameaças e invasões já consumadas, tenha optado por associar-se ao espaço europeu a que pertence, respeitando a lei e a liberdade, parece absurdo a estas almas mortas. O falso pacifismo, que exige a rendição da Ucrânia para satisfazer o fantasma russo, equipara a nação invadida ao estado invasor. É uma equidistância imoral, que comprova que o mal continua a ter muita saída. A opção europeia é nobre e inesperada – e vai sair-nos cara. Mas é um aviso solene contra os gangsters.

Da coluna diária do CM.

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Regresso aos quartéis.

por FJV, em 01.03.22

É provável que a guerra – que entregamos aos militares, com carreira própria – seja a continuação da política por outros meios, mas manda a prudência que duvidemos. Calhou ontem, num zap televisivo, ouvir um militar defender que a Ucrânia devia pura e simplesmente entregar à Rússia (“O Sr. Putin não é um bandido, é um jogador de xadrez.”) o mapa do leste do país e uma boa faixa de território do sul – e que isto seria uma negociação sensata para a UE, que devia abster-se de enviar armamento e de impor sanções, a fim de conseguir “a paz”. Reconheço que há nisto uma sensatez meridiana e assustadora. Ouvi-a nos últimos dias a outros militares que, entretanto libertos dos deveres da caserna e do exercício físico, ministram – aos magotes – lições de estratégia e diplomacia, assinalando que “a vida é como é”. Como creio que já não se lhes aplica nenhum regulamento de sensatez, pedem-na para nós. Este último cavalheiro explicou, cheio de sedução pelo inimigo, que há na posição europeia uma hipocrisia cavalar. De facto, antes é que era bom. Pelo menos certos militares estavam nos quartéis.

Da coluna diária do CM.

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De Dostoiévski a Turgéniev, a Rússia.

por FJV, em 28.02.22

O exorbitante delírio de Putin acerca da Ucrânia não é apenas obra daquela cabeça autoritária e estalinista. Era bom reler Dostoiévski contra a autonomia ucraniana e o niilismo ou “utilitarismo”, sinónimos de ocidentalismo. É um debate que percorre toda a cultura russa, com momentos mais ruidosos e extremos em que o imperialismo russo toma uma forma agressiva (como agora). Há cinco anos, o Kremlin protestou contra a publicação, pela Penguin inglesa, dos escritos de Ivan Turgéniev (1818-1883), que foi o criador do termo niilista, emprestado a uma das suas personagens, Bazárov, um homem que detestava “ambos os lados da contenda” (ou seja, os “modernizadores da Rússia”, tanto como os representantes da “velha Rússia”). Esta perspetiva marcou obras decisivas como as de Soljienitsine, Pasternak ou Bulgakov. “Aristocracia, liberalismo, progresso, princípios... palavras sem utilidade. A Rússia não precisa delas”, dizia Turgéniev, que acabou por abandonar a Rússia e ir viver para a França cosmopolita e liberal, onde morreu – a Rússia de 2022 nunca deixou de ser a de 1860 (o romance Pais e Filhos, deTurgéniev, é de 1862). Pelos motivos errados.

Da coluna diária do CM.

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Anfiteatro Anatómico ¶ Um cozinheiro russo.

por FJV, em 27.02.22

Fanni Kaplan estivera em Simferopol, na Crimeia, antes de rumar a Moscovo para assassinar Lenine – e, por ter falhado, ser executada na madrugada seguinte numa garagem das traseiras do Kremlin. Há um pormenor lírico no meio disto: a polícia ordenou ao poeta Damian Bedni que estivesse presente durante a execução a fim de traduzir em verso a eliminação de uma inimiga do povo. Era mau poeta e nunca versejou sobre o assunto. Mais tarde, Lenine chamar-lhe-ia “vulgar” e até “pornográfico”, o que era um juízo inesperado acerca de um “poeta do campesinato” que seria depois suspeito e silenciado até à invasão nazi da URSS. Uma das acusações sobre Bedni era a de não exaltar suficientemente Estaline e de criticar a existência de “galinhas coletivas”. 

Seja como for, Fanni Kaplan falhou o seu objetivo, mas Lenine (que, de qualquer modo, se habituara a ser alvo de atentados falhados) nunca recuperou totalmente e passava pequenas temporadas em Gorki, não longe de Moscovo, numa dacha que em tempos tinha pertencido aos Morozov, uma das mais ricas família do império, ligada aos texteis. Para quem, como Lenine, praticava uma espécie de ascetismo gastronómico (Vladimir Ilitch tivera sempre um estômago delicado, atreito a maleitas e habituado a dieta) que se satisfazia com refeições de chá, sopa, pão escuro e queijo, Gorki tinha uma novidade: além dos guarda-costas e de Nadejda Krupskaia, a mulher, havia um cozinheiro, Spiridon Ivanovich Putin. Não se lhe conhece nenhuma especialidade, nenhuma criação no fogão – apenas uma lealdade silenciosa junto do líder do Sovnarkom, o Conselho do Comissariado do Povo da União Soviética, o “maior ser humano da nossa nova era”, como lhe chamou Trotsky, que teve o destino que teve.

Cem anos depois, o neto de Spiridon Putin, Vladimir Vladimirovitch – é o que sabemos. Mas se eu tivesse de eleger um personagem seria ele. Sopa de beterraba, repolho com maçã, talvez golubtsi (couve recheada com carne) e a leitura do Pravda. Nada que Vladimir aprecie.

Da coluna semanal do CM.

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Putin e a interpretação da história.

por FJV, em 25.02.22

O que leva uma pessoa sensata e agradável como João Oliveira a defender as posições e a narrativa do imperialismo fascista de Vladimir Putin, como o fez ontem no parlamento? Que pessoas como Jerónimo de Sousa não tenham aprendido praticamente nada com as lições da Guerra Fria, compreende-se; mas uma coisa é, apesar de tudo, seguir a estratégia dos que criaram o Gulag, gostavam do humor negro de Estaline e acreditavam que a pobreza criada pelo comunismo era uma coisa digna – outra, é acreditar que o imperialismo russo, expansionista, nacionalista e herdeiro do czarismo, merece ser defendido, ainda que tenha causado vagas deploráveis de miséria, fome e escravidão a um povo nobre e explorado. Para o PCP, para a gerontocracia comunista e, pelos vistos, lamentavelmente, para João Oliveira, merece (o que o deixa ao nível de Trump e da extrema-direita, as bestas negras). Que a então deputada comunista Rita Rato tenha dito que não sabia o que era o Gulag, com aquela desculpa esfarrapada (a de que não tinha estudado o assunto na universidade), até admito – era a desculpa de uma pobre de espírito. Mas que João Oliveira acredite que o fascista Putin faz justiça à sua interpretação da história, isso é muito preocupante.

Da coluna diária do CM.

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A Whiter Shade of Pale.

por FJV, em 24.02.22

Por causa daquele baile de 1978 – dez anos depois de a canção ter sido gravada pela primeira vez –, no ginásio do liceu, em que obrigámos o disc jockey a repeti-la três vezes, ainda que muitos de nós não gostassem da banda. Por causa da quantidade de vezes em que rolámos as cassetes Mawell e BASF com uma esferográfica até conseguirmos alinhar o som pelos primeiros acordes de “A Whiter Shade of Pale”, e as reproduzimos num aparelho a pilhas no pátio das traseiras de casa. Por causa da voz de Gary Brooker ao cantá-la e por causa das inúmeras vezes em que não conseguimos dobrar aquele verso na exata sílaba em que descobríamos que já tínhamos sido ultrapassados. Por causa de todas as namoradas da época, que suportaram as tentativas de rapazes desajeitados e desafinados para cantar “A Whiter Shade of Pale“, quando o que queríamos mesmo era tocar a primeira frase da guitarra de “Smoke in the Water“. Por causa de Gary Brooker (1945-2022), que morreu no sábado passado e há de ser sempre a voz dos Procol Harum, que nunca há de ser uma banda pirosa, pelo menos na nossa memória. É a memória.

Da coluna diária do CM.

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