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É «absolutamente maravilhoso» que as crianças usem o computador.

por FJV, em 10.03.09

Desta vez não posso concordar com o Tomás Vasques a propósito da frase de António Barreto na LER de Março. Barreto refere-se ao Magalhães como corolário de um sistema de ensino anti-livresco (eu sou pelo ensino com uma boa componente livresca), o que não põe em causa a educação tecnológica (que, aliás, já existia antes do Magalhães). A culpa não é do Magalhães; simplesmente, o Magalhães faz parte do sistema ideológico e da campanha de propaganda de uma nova escola que não existe. Não se trata de denegrir a «iniciação à informática, às tecnologias, ao quotidiano», que é fundamental. Ninguém (e olha quem, o António Barreto) quer continuar a escrever em «imaculadas folhas A/4»; ninguém quer desqualificar os portugueses. O problema não é a distribuição do Magalhães às criancinhas, mas o computador ser apresentado como a grande solução para o atraso endémico e visceral do sistema de ensino. O problema do sistema de ensino é (além da vergonha de falar claramente sobre o que se ensina e sobre os disparates das reformas educativas) é a demissão quase absoluta do governo em matéria educacional propriamente dita. Pode pensar-se que é «absolutamente maravilhoso» que as crianças usem o computador para fazer pesquisa (como?, em que sites?) ou para se iniciarem «na vida interactiva», ou até para escreverem seja lá o que for. O problema, caro Tomás, é que as pessoas que debatem este assunto têm medo de assumir que é preciso reintroduzir na vida da escola palavras certamente antigas, mas valiosas, como leitura ou estudo. A desvalorização que se está a fazer da leitura (depois da perseguição à filosofia) nas nossas escolas é assombrosa e será catastrófica daqui a uns anos. E o Magalhães, pobre Magalhães, não salva a face do monstro.

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5 comentários

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De henedina a 10.03.2009 às 00:41

O meu pai não me dava prenda por ter boas notas considerava que essa era a minha obrigação.
O pedido era sempre o mesmo aliás, quero um cão. Nunca tive o cão.
Mais tarde quando voltei aos 20 costumava dizer tu nunca mais aprendes, se tiraste 19 e podias ter passado com 9,5 não acertaste. Olha o desperdício!
Dosea o esforço. :)

Palavras antigas e valiosas.
Estudo e esforço, também concordo.
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De MBC a 10.03.2009 às 00:52

Em relação ao Magalhães, esse mais recente desígnio da nação, sobre o qual, qualquer tipo de crítica é vista como uma tremenda heresia, foi apresentado como o computador 100% nacional. A imprensa mainstream, seguindo o enquadramento do governo apresentou-o como tal, e só aos poucos, através essencialmente dos blogs, se foi percebendo que o Magalhães afinal não tinha quase nada de nacional, mas a história já estava contada, e com contradições ou não, hoje na mente da maior parte dos portugueses, o Magalhães é o nosso computador.

Mas independentemente, do computador ser ou não português, questão já extensivamente discutida em vários blogs, outras questões igualmente importantes devem ser objecto de discussão. E se o deviam ter sido a priori, antes do projecto ter sido levado avante, que o sejam pelo menos a posteriori objecto de escrutínio. O Pacheco Pereira levantou no último programa da Quadratura do Círculo uma das questões que me parecem ser mais relevantes e que tenho visto ser muito pouco debatida. A questão da pedagogia. No meio de toda esta euforia com as novas tecnologias, que o Primeiro-Ministro se encarregou de apresentar, como o grande salto em frente da sociedade portuguesa, parece que toda gente se esqueceu de perguntar o óbvio. Será aconselhável que crianças no primeiro ciclo do ensino básico tenham acesso a computadores na sala de aula?

Em Agosto, na Atlantic, Nicholas Carr, escreveu um artigo que tem causado grande controvérsia, chamado “Is Google Making Us Stupid?”. O mesmo artigo vem mencionado num artigo do Expresso, de 30 de Agosto. Defende o autor que a internet pode estar a afectar o nosso cérebro e a forma como raciocinamos. Da sociedade da informação nasceu um novo tipo de leitores: mais contemplativos e menos interpretativos. Um dos problemas que vários especialistas apontam ao uso intensivo da internet é a cada vez maior dificuldade de concentração que as pessoas expostas ao seu uso adquirem. Esta questão tornam-se ainda mais pertinente quando a questão é a exposição intensiva de crianças à internet.

Para mim, que nasci na década de 80, este ponto é especialmente importante. Na minha geração são já muito poucas as pessoas com verdadeiros hábitos de leitura, e isso também se traduz numa linguagem, e numa escrita cada vez mais pobre, que frequentemente os professores, em especial no ensino universitário se queixam. Faço parte da geração que começou a usar a calculadora muito precocemente, porque os pedagogos das ciências da educação achavam que só trazia vantagens. Hoje, no entanto, são cada vez mais os que clamam pelo regresso aos "velhinhos" métodos da matemática. Quanto a mim, hoje, à semelhança da maior parte dos jovens da minha geração, com muita vergonha minha, não faço uma conta de dividir sem recurso a uma calculadora.

Felizmente para mim, no que diz respeito às ciências humanas, ainda houve muito boa gente a mostrar-me que nada podia substituir o contacto directo e por vezes até doloroso com os livros. Mas quantos professores universitários, mesmo na área das ciências humanas, não encontram diariamente na minha geração, inúmeros alunos aos quais se lhes pedissem uma mera lista dos dez livros que mais gostaram de ler, estes não eram capazes de a preencher, e não por falta de memória, mas porque nem dez livros dignos de registo leram. E como é óbvio citar a "Floresta", "Ulisses", ou a "Mensagem", lidos no básico, não é motivo para menor embaraço.

Ernestine, uma professora das “antigas”, personagem do romance de Philip Roth, a “Mancha Humana”, num dos seus diálogos dizia: “No tempo dos meus pais, e até em boa parte no seu e no meu, costumava ser a pessoa que ficava aquém. Agora é a disciplina. É muito difícil ler os clássicos; logo a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender com isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr. Zuckerman, para só haver opiniões.”

http://ordemespontanea.blogspot.com/2008/09/os-enquadramentos-noticiosos-e-o_28.html
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De Luís Bonifácio a 10.03.2009 às 18:14

E como explica você o fenómeno global "Harry Potter", que resultou em milhões de crianças agarradas a calhamaços maiores que a guerra e paz?

Nos meus 15 anos o único calhamaço gigante para jovens era o Senhor dos aneis e como não gosto de ambiente lúgrubes nem de monstros equisitos, chutei-o para o canto da estante onde ainda hoje se encontra. Felizmente que da estante caiu o "Arranca-Corações" de Vian.
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De JL a 11.03.2009 às 13:29

"Technology without purpose is useless"

Dito pelo Terry Russell , um dos grandes inovadores na arte da utilização das TIC no ensino, muito antes de Magalhãezices...
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De Martins a 14.03.2009 às 19:27

Tenho por António Barreto o respeito que nos deve merecer quem se dedica a pensar Portugal – e o faz com devoção e rigor. Enquanto editor da revista K, privei com ele e publiquei algumas das excelentes matérias que produziu para a revista.

Desse tempo ficou-me a ideia de uma incompatibilidade primária entre o sociólogo e as novas tecnologias. Recusou o telemóvel durante anos, e fazia questão de tornar público esse ódio de estimação…

Não surpreende, portanto, que chegado a 2009, António Barreto proclame nas páginas da Ler: «Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, com a leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal». Diz mais: o Magalhães «foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura».

Ora, que António Barreto mantenha essa má relação com a tecnologia parece-me divertido e compõe a personagem. Mais grave é vê-lo falar do que não sabe. Desta vez, o sábio demitiu-se.

A introdução no sistema de ensino, com maiores ou menores problemas de produção e distribuição, do computador Magalhães, é talvez a mais relevante medida social deste Governo no que à educação diz respeito. Equipara as famílias pobres às médias – aquelas onde o computador e a internet estão já ao nível do televisor ou do DVD. Ou seja: coloca potencialmente todos os alunos num patamar semelhante de acesso à informação. Misturar este facto com a cultura do livro nas escolas é mais ou menos o mesmo que relacionar a nossa atávica iliteracia com o advento da televisão ou da rádio…

Do Magalhães ao livro vai a distância da terra à lua – porque não será a ausência de computadores que aproximará os estudantes dos livros, mas também não será a sua existência que os afastará. Pelo menos, convenhamos, dará acesso à informação - logo, à possibilidade da escolha.

A Internet, as novas tecnologias, estão a mudar a forma como vivemos, como consumimos informação, como nos relacionamos uns com os outros. Podemos criticar, estranhar ou mesmo rejeitar o “processo revolucionário em curso”, mas ele é não apenas imparável como irreversível. Não ver isto é como não ver. Ponto. Neste quadro, o “processo Magalhães” só é comparável, do meu ponto de vista, à electrificação dos caminhos, das aldeias, do país. É a abertura de uma óbvia e inteligente porta para o futuro.

O resto, como desde sempre, é tarefa dos pais e dos educadores. Não lê quem tem ou não tem Magalhães – lê quem quer, quem pode, e quem foi estimulado para a leitura. Assim foi, assim será.

PS – De passagem: não foi por ter um telemóvel aos 7 anos, um computador e internet aos 8, e uma playstation aos 9, que o meu filho deixou de ser, como é, um compulsivo leitor de livros (como eu nunca fui…). E não é por ter acesso permanente à net na sua escola, aos 13 anos, que ele deixa de andar sempre com um livro debaixo do braço.

Pedro Rolo Duarte

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