Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A Cinemateca e o cortejo de amigos.

por FJV, em 10.01.09

Há uma coisa interessante no adeus de João Bénard da Costa na Cinemateca: dois coros de assobios. Um deles, habitual em todas as actividades, é o coro de ressentimentos contra quem ocupou um lugar só porque esteve na Cinemateca depois de Luís de Pina, um dos nossos outros «apaixonados pelo cinema» (sem ironia nenhum); o outro, mais estranho, é o das «conjunções adversativas» – Bénard era muito bom «mas» dirigiu a coisa como se estivesse em casa. Verdade que ele estava em casa. Graças a ele e às suas equipas a Cinemateca foi o que foi: um lugar para ver cinema, para ir protegendo os clássicos (coisa fundamental, como se esquecem com alguma frequência) e para se falar de cinema. Bénard da Costa esteve lá muito tempo? Sim. Conhecendo o saco de gatos que é cada «área da cultura», melhor que fosse Bénard, respeitado e com história, do que um «moderno» que estivesse na disposição de tanto modernizar a Cinemateca que ela deixaria de fazer sentido e estaria a concorrer com as salas comerciais ou com os ciclos de vídeo. A Cinemateca, desculpem lá, deve ser um museu e, já agora, um museu do cinema; o destaque essencial e quase absoluto deve ir para os clássicos e para o património do cinema – apesar de muita gente ignorar o trabalho subterrâneo da Cinemateca em matéria de preservação e restauro, por exemplo. Pessoalmente, e das pessoas que conheço (uma delas é minha amiga), só vejo duas ou três com perfil para dirigi-la neste sentido. Bénard imprimiu um gosto pessoal à programação da Cinemateca? Sim. E estranhava-se o contrário.
Mas agora há outra coisa perigosa. Chama-se Pedro Mexia. O João Gonçalves acha que o ciclo vicioso vai continuar. Eu escrevi «Pedro Mexia é um nome capaz de renovar a casa», coisa que me pareceu inocente, e o João atribui a esta afirmação a suspeita de Mexia se estar a transformar em «outro sério candidato à eternidade e a novo cortejo de amigos» (do qual eu faço parte, portanto, o que é estranho porque não tenho nada a ver com o assunto nem frequento os «interesses do cinema»). Percebo isso noutras pessoas, mas aborrece-me que o despeito cresça e que a suspeita se multiplique, sobretudo a partir de pessoas que prezo muito, como o João. Acontece que o Pedro Mexia (que, quando apareceu nos blogs e nos jornais, era tratado como um vagabundo «de extrema-direita», «jovem turco», «jovem velho», etc.) é uma das pessoas mais talentosas quer para escrever sobre cinema, quer para falar sobre literatura, quer para fazer o que lhe apetecer, excepto, salvo erro, ser um burocrata da política e da cultura ou lidar com ele próprio (o que faz dele uma pessoa ainda mais séria). Tenho uma grande admiração pelo Pedro Mexia, que não deriva, apenas, de ser amigo dele – num mundo de ignorantes e de meias leituras, de nababos experimentais e de gente sem humor, o Pedro Mexia nem precisava de muito esforço para se distinguir. Mas, como é uma pessoa séria (mesmo que não se concorde com ele nisto ou naquilo), ele trabalha muito, não diz as coisas por dizer e não precisa de um partido político para ser quem é. Num mundo de pequenos sevandijas incultos, isto não faz apenas uma pequena diferença; faz toda a diferença. Portanto, caro João, eu não faço parte de um «novo cortejo de amigos» de Pedro Mexia; eu faço parte do «velho cortejo de amigos» do Pedro Mexia; e isso aplica-se a outros amigos, em cujos «velhos cortejos» me incluo e dos quais só sairei muito dificilmente. Sei distinguir o que é pura amizade da admiração intelectual, e suponho que sei distinguir aquilo que é o «valor intelectual» da «capacidade para exercer um cargo» (sendo que há pessoas com grande «capacidade para exercer o cargo» que não têm «valor intelectual» substantivo). Acontece que o Pedro Mexia tem ambas as coisas, embora ele suponha que não tem a segunda delas e nunca se pôs em bicos de pés para chamar a atenção para a primeira.
Suponho, também, que de entre as pessoas capazes de gerir a Cinemateca (e entre as quais estão essas «duas ou três com perfil») é preciso procurar alguém capaz de manter um «perfil clássico» para a instituição. Porque é esse o seu papel. Num país onde tudo tem de ser «novo», «moderno», «atrevido», «divertido», «inovador», «fracturante» e, até, pasme-se, «jovem», tem de haver instituições que mantêm o seu perfil clássico, conservador, de museu, tranquilo, e até regular. A Cinemateca, até porque o cinema está sempre a fazer-se, é uma delas.

 

PS - Disto isto, há ainda o seguinte: não conheço pessoalmente Bénard da Costa. Li os seus livros e acompanhei, como toda a gente, a programação da Cinemateca. A única vez que falámos, num festival de cinema algures, ele cravou-me um cigarro e eu ouvi-o, deliciado, a falar sobre, repito, as mamas de Jane Russell, que nesse dia tinha chegado a Lisboa e matéria sobre a qual tinha escrito um artigo no O Independente.

Autoria e outros dados (tags, etc)


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Contra-ataque a 10.01.2009 às 14:42

Ó Xico, o João pico-o a sério.... Portugal dos Pequeninos 1- Origem das Espécies 0 (apesar deste seu contra-ataque cheio trapalhão e cheio de fúria)
Sem imagem de perfil

De BM a 10.01.2009 às 14:51

Voltando ao estafado, mas sempre acertado Wilde, "anybody can sympathise with the sufferings of a friend, but it requires a very fine nature to sympathise with a friend's success."

Parabéns pela sua natureza "requintada" e por a mostrar em público.
Sem imagem de perfil

De Draguinho a 10.01.2009 às 18:56

Há coisas que têm que ser ditas, FJV disse-as, fez bem.
Sem imagem de perfil

De Sem palavras a 10.01.2009 às 23:44

UAU.
Sem imagem de perfil

De nuno ferreira a 11.01.2009 às 00:55

Parabéns pela coragem da resposta embora ache que é bom respirar fora do círculo de amigos de vez em quando mas cada um é como cada um.
Keep goin your way
Sem imagem de perfil

De Mónica a 11.01.2009 às 14:05

gostei da sua defesa que subscrevo totalmente. não sou nada cinéfila mas sempre gostei de ler o JBC - de quem guardo recortes antigos - e o PM sobre filmes . e sinto, à distância , o cheirete mesquinho desse tipo de críticas que se situam num plano muito abaixo do da discussão de ideias diferentes.
Sem imagem de perfil

De Sofia Castelo a 12.01.2009 às 12:43

Muito bem.
Sem imagem de perfil

De ente lectual a 12.01.2009 às 18:32

belíssimo texto (e com toda a razão do mundo, claro)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.01.2009 às 10:51

pois o FJV não achava que chegaria a sua vez de apanhar com o ressentimento do JG!!?
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.01.2009 às 16:55

FJV, mal ficaria se não defendesse com unhas e dentes o seu amigo. Velho amigo, ainda por cima. Esteve bem... ok, pronto.
Pedro

Comentar post




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.