Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Economia pública, 3.

por FJV, em 12.10.08

Os portugueses de outros tempos dividiam as sardinhas e sabiam que tanta comida devia servir para tantas refeições. Pelas minhas contas, depois de uma pesquisa bibliográfica, o último livro sobre cozinhar com «aproveitamento de restos» é dos anos setenta, e compra-se (vi lá dois exemplares) em Lisboa na Livraria Barateira. António Barreto falava de uma «década prodigiosa» em que os portugueses mudaram a sua vida e compraram electrodomésticos, foram a restaurantes e mandaram os seus filhos à universidade: estavam no seu direito, num mundo que tinha tudo e em que «o tudo era todo nosso». Sou desse tempo, anterior ao paraíso. Havia o assado ao domingo, sabíamos o que era um farnel e não protestávamos muito diante da comida da cantina da escola. Também visitávamos asilos, lares e hospitais. Durante a guerra, a minha avó recriou dezenas de receitas de sopa – são um prodígio gastronómico – e a primeira pasta fresca que comi não foi num restaurante italiano mas na varanda da casa, no Douro, feita por ela (aprendera a prepará-la durante a Guerra). A economia doméstica, desde então, mudou muito e assemelhou-se à «economia pública», com os seus níveis de desperdício, gasto e transfusões bancárias. O princípio a abater era, necessariamente, o da contabilidade salazarista – «não gastar mais do que se ganha», essa moral pequenina. E havia sempre o futuro, essa espécie de ameaça, de incógnita: uma doença inesperada, um filho na universidade, um azar. Antes do paraíso terreno, a vida era muito pequena e modesta. Que me lembre, ao ler os últimos vinte anos da literatura portuguesa (cada um tem as suas fontes), há muito glamour e dívidas aos bancos, viagens ao Índico e a Nova Iorque, casas copiadas das melhores revistas de arquitectura e um linguajar que nos não pertence. Mas não há portugueses modestos, pequeno-burgueses, daqueles que vão à pesca e sonham em passar uma tarde na Ericeira ou em Mira. Todos sonham com iPhone e, segundo me diz o meu merceeiro, já houve quem fizesse reserva de Beluga para o próximo Natal, porque não está para «os problemas do ano passado». Razão tinham os pessimistas de serviço quando Guterres repousava sobre aquele retrato de portugueses a passar fins-de-semana no Algarve e a encher as lojas de telemóveis. Estava escrito.

Autoria e outros dados (tags, etc)


12 comentários

Sem imagem de perfil

De maria a 12.10.2008 às 19:08

Tem toda a razão. Faço os possíveis , cada vez mais , para cultivar o antidesperdício , por várias razões , além da económica , uma delas é o lixo inútil , o número espatafurdio de coisas com que sufocamos o mundo .
E mais , sempre me fez imensa confusão o orgulho com que muitos exibem os cartões de crédito , para mim significa apenas que ficam a dever e não vejo motivo algum para peneiras , pelo contrário.

Comentar post




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.