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Estatísticas.

por FJV, em 21.08.08

Em Portugal as estatísticas não são números e sim pretextos. Talvez por isso não tenhamos estatísticas fiáveis; as da criminalidade, então, não existem – porque Portugal é terra de paz e melros nas oliveiras. O responsável de um observatório resolveu o assunto dizendo que a criminalidade não aumentou; o que aumentou, sim, foi a ‘cultura da violência’. Ora, alguns dos ‘bairros sociais’ são zonas abandonadas à criminalidade que está acima da lei e já controla as ruas. Os desprotegidos não podem recorrer à violência e não têm para onde ir; enquanto os sociólogos discutem se existe ou não criminalidade, famílias condenadas ao subúrbio vêem os filhos serem assaltados. Ou assaltarem. Eles sabem que não há ‘pequena criminalidade’ e que cada ‘pequeno crime’ é uma afronta à sua honra.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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5 comentários

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De Rui Curado da Silva a 23.08.2008 às 23:01

Caro Francisco,

compreendo e partilho as suas preocupações sobre as pessoas que vivem em bairros onde o estado de direito não é respeitado, sei bem o que isso é. Tal como o Francisco, conheço uma realidade terrível s das cités francesas. Entre 98 e 2002 estive a fazer o meu doutoramento em Estrasburgo. O meu laboratório do CNRS ficava no meu de uma cité, chamavam-lhe a cité nucléaire por causa do laboratório. Não foram quatro anos descontraídos. Andei à porrada (pontapé, chapada e murro a sério) por três vezes, na passagem de ano deixava o carro a um colega de Moulhouse, porque eram queimados dezenas de carros na noite de passagem de ano no meu bairro. Vi Le Pen a ir à segunda volta com os votos da maioria dos meus vizinhos. É justamente por conhecer essa realidade que acho que tanto em Portugal como em Itália existe um clima de histeria injustificado. O crime está a mudar, como já aconteceu no resto da Europa, é mais violento, mais tecnológico, mas não está a aumentar como o demonstram as estatísticas, tanto em Portugal e ainda mais evidente em Itália. Quando estudei em Pádua em 93/94, explodiam bombas regularmente e as máfias controlavam como nunca a política. A Itália de hoje persegue os ciganos, coloca militares de metralhadora nas ruas de Roma (nunca tiveram tomates para o fazer em Palermo ou em Nápoles) e dá uma imagem miserável a toda a Europa. Nós temos dois ou três bairros problemáticos, temos que tratar deles e aí concordamos, em França vi bem o que acontecia quando se ignorava o crime, mas estamos a anos-luz da França ou do Brasil. O que me irrita mais é que temos criminalidade bem mais específica do nosso país e ninguém se importa muito (não dá audiência na TVI): 39 mulheres assassinadas em casa pelos maridos/namorados desde o início do ano e uma gigantesca fraude de depósitos em paraísos fiscais, que provocam indirectamente desemprego e miséria, coisas que não são fotogénicas...

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