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Escrever em quartos de hotel.

por FJV, em 20.08.08

O Rui Bebiano publicou um post sobre quartos de hotel – ou melhor, sobre o que está em desuso nos quartos de hotel. O Rui fala de «papel e envelopes timbrados para escrevermos cartas, e até, como me aconteceu há dias numa cidade do norte, folhas de papel mata-borrão». Acontece que escrevo cada vez menos ao computador e cada vez mais em cadernos e blocos (ou em folhas soltas); e, ao contrário do que o Rui sugere («à excepção de certos dirigentes do CDS, ninguém se sirva já em viagem de canetas de tinta permanente») eu escrevo com canetas de tinta permanente, as três cada vez mais inseparáveis clássicas (Waterman, Pelikan e Parker, nada de Montblanc).

 

 

 

É raro encontrar pessoas que escrevam com tinta permanente (mesmo não sendo «certos dirigentes do CDS...») e que não tenham sucumbido (ou, vá lá, não se tenham adaptado) à regra de escrever tudo no computador. Eu escrevia, sim – mas voltei atrás. Há um prazer raríssimo na caligrafia, no desenho da letra, na própria escolha da cor da tinta permanente (preto, azul ultramarino, azul escuro, sépia), na preparação do acto propriamente dito: o estojo com as canetas, os blocos ou cadernos, o cinzeiro e as recargas ou tinteiro. Curiosamente, foi num desses quartos de hotel que reaprendi a escrever à mão, com maiúsculas e minúsculas, sublinhando, desenhando setas, reenvios.

Um dia dirão que é anti-planeta gastar papel nestas coisas.

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17 comentários

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De Rui Bebiano a 20.08.2008 às 02:09

Está visto, Francisco, que devo alargar urgentemente o meu «quadro social de referência».
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De Anónimo a 20.08.2008 às 02:34

Concordo plenamente. Parece-me que as palavras ganham outra alma, mesmo saindo da minha humilde e velha Bic. Não fora a tendinite surgida talvez à custa do desusado gosto de muito “escrever à mão “ e diria que há um não sei quê de diferente e de superior nesta escrita.
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De francisco c a 20.08.2008 às 09:45

Em viagem escreve-se no cadernito moleskine com as inseparáveis parker e waterman (não sou dirigente do cds, não tenho dinheiro para uma montblanc).
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De Escrevinhador a 20.08.2008 às 09:49

Além disso, escrevendo à mão sempre teremos, daqui a muitos anos, a possibilidade de apreciar o processo criativo do autor. Quais as suas angústias, incertezas, imprecisões durante a escrita. Não há "copy-paste", é tudo manual e tudo fica registado. Até o número de telefone daquela nova amiga.
A propósito, existe uma marca italiana de canetas de tinta permanente com belos exemplares e uma escrita sublime: Aurora.
É a que utilizo.
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De João Dias a 20.08.2008 às 10:05

Já agora, e só por curiosidade, Montblanc não porquê?
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De Margarida Pereira a 20.08.2008 às 10:34

Apologia nostálgica ou resistência fera à velocidade dos tempos? A rapidez e ‘limpeza’ que se nos exige hoje, requer digitação, auto-corrector, teclas eliminadoras, avisos e inflexões gramaticais velozes.
Até a poesia chega a ser contrariada pelo alerta de que aquilo é ilógico.
A máquina, imbuída de nobre propósito que seja, a encaminhar firmemente o homem na senda do futuro asséptico, prático, formal.
Resistir é retornar. Recuperar. Marginalizar o presente aos limites passados. Respirar antes do pulo. Da fuga. Do, eventual, nada.
Aprender novamente os rituais, dominar a ânsia, desenhar a emoção. Redescobrir a letra perdida, despistada, incoerente, hieroglífica, já. Treinar o esquisso, abrir portadas para novas paisagens interiores. Sorrir ante descobertas inesperadas. Ouvir outras vozes, dentro da nossa.
Correr atrás dos sentimentos escondidos. Fascinarmo-nos com o novo-velho.
Ouvir o risco da cana no papiro.
Inovar tradicionalmente.
Renascer.
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De João Paulo Brito a 20.08.2008 às 12:06

Eu sou mais adepto da lapiseira. Desde o liceu que escrevo sempre com lapiseira e na faculdade, os meus colegas ficavam escandalizados com o facto de não usar esferográfica. Sempre gostei muito de ver os meus livros apontados a lapiseira. Recomendo a Rotring com minas da mesma marca. A escrita sai macia, mas segura e fluida
Quanto ao facto de ser anti-planeta , há uma coisa que se pode fazer que é comprar cadernos de papel reciclado. Pelo menos sempre aliviamos um bocado a pegada ecológica. Mas de qualquer modo, é bom que escrevamos à mão. Parece que fica tudo mais intemporal.
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De Saint Petersburg a 20.08.2008 às 12:56

Por outro lado, há também a volúpia das teclas de plástico, umas mais mudas, que se premem com menos esforço, ou as mais sonoras que se afundam longe debaixo dos dedos.
Este teclado que agora mesmo percorro, tem também a sua específica capacidade de dar prazer, também ela com o tempo será recordada com nostalgia, isto porque somos uns sentimentalões...
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De Saint Petersburg a 20.08.2008 às 13:15

Por outro lado, há também a volúpia das teclas de plástico, umas mais mudas, que se premem com menos esforço, ou as mais sonoras que se afundam longe debaixo dos dedos.
Este teclado que agora mesmo percorro, tem também a sua específica capacidade de dar prazer, também ela com o tempo será recordada com nostalgia, isto porque somos uns sentimentalões...
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De Anónimo a 20.08.2008 às 16:59

Ui, que chique? E o menino também tem um moleskine, tem?
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De Menino Chique, moleque chique a 20.08.2008 às 18:17

É isso mesmo: chique.
O grande conseguimento dos objectos de culto é cobrar às pessoas um valor desproporcionado (palavra da moda), em conceito da exclusividade, estilo, status, aquilo que as pessoas querem mostrar que são (ou queriam ser) sem ter de o fazer por muitas palavras.
Adoro a vida moderna e gostava de fazer amor com a população mundial, com o moleskine a espreitar-vos do bolso

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