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De facto, todos falamos de educação, 3.

por FJV, em 21.03.08
Pergunta o Eduardo Pitta, a propósito do caso Carolina Michäelis: «Onde é que está a novidade?» Precisamente aí, Eduardo. Ao contrário de Laranja Mecânica, pelo menos, este não é «o resultado de um sistema que exclui largas franjas da sociedade». Nada a ver. É o caso de um sistema que absorveu todos os vícios de todas as franjas da sociedade. Não, não é na Cova da Moura, para onde «o sistema» enviaria polícias com medo de alterações na ordem pública; é no Carolina Michäelis, se me posso explicar assim, onde em Dezembro passado uma aluna agrediu uma professora por esta lhe ter dado negativa, para não falarmos de outros casos. Pode não se ser sociólogo para compreender estatísticas, mas a ideia é simples e o Manuel Jorge Marmelo escreve-a de forma clara neste post. Pode não haver novidade em relação ao fenómeno, à violência, ao bullying entre estudantes e contra professores; mas não creio que baste considerar que é inevitável a nossa entrada no cosmopolita mundo das agressões dentro das escolas.
Compreendo a ideia: não vale a pena fazer escândalo, só porque isto acontece a cada passo. Se é assim, de acordo.

Por outro lado, não vejo como o governo deva ser ouvido no parlamento a propósito disto. Levar a ministra ao parlamento por este caso é, naturalmente, um exagero; tudo devia ser resolvido na própria escola, com recurso a um processo disciplinar simples. Tirar conclusões sobre o sistema de ensino a propósito de uma aluna que agride uma professora e de um grupo de vândalos que lhe chama velha é, manifestamente, exorbitar. Mas trata-se de um retrato que não vale a pena desvalorizar.

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13 comentários

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De Ana Mota a 21.03.2008 às 23:18

Exactamente. Para quem não conhece é mais um episódio mas para quem é da cidade é o "Carolina" e não uma escola de zonas marginais. Como muito bem refre o FJV, tentando não cair em exageros, é "um retrato a não desvalorizar".
Sou professora desde 1982 e conheci já diversas escolas e dentro destas diferentes turmas. Curiosamente (ou talvez não) os problemas mais complicados com os quais tive de lidar em termos de falta de respeito e até insolência tiveram lugar numa "escola de elite" e com uma turma de excelente aproveitamento. E, apesar de ser a minha profissão e portanto a minha especialidade, concordo que todos devem falar de educação porque a todos afecta. Talvez o problema seja mesmo que não se tenha ainda falado o suficiente para verificar que, pelo menos em alguns pontos essenciais, estaremos provavelmente razoavelmente de acordo. Pessoalmente entendo, e nessa conformidade tenho sempre agido, que não devemos assistir passivamente ao que o Manuel Marmelo refre como "O esterco do mundo" que se instalou nas salas de aula. Uma escola ainda é para mim um local que se deve associar a cultura, conhecimento e elevação de espírito daí que entenda que coisas já tão banais para alguns como linguagem imprópria, mesmo nos recreios, devem ser claramente proibidas e sancionadas. Curiosamente os "miúdos" compreendem bastante bem que existe uma diferença entre uma bancada de um estádio e um local dentro da escola. Tambem penso que ainda não houve coragem mas algum dia teremos de começar a deixar claro que não é aceitável algum tipo de vestuário com que alguns alunos se apresentam na escola. Acredito que com um conjunto de regras simples mas observadas com rigor muito poderia ser melhorado. E não resisto a acrencentar que não confundo nenhum destes aspectos para mim ligados às regras de concivência em sociedade e a uma saúdavel preparação dos jovens para o mundo dos adultos, com metodologias de ensino que procuram aumentar a motivação, o interesse e o empenho dos alunos. Para mim nada disto tem a ver com laxismo ou indisciplina, daí eu não concordar totalmente com o meu colega G. Mithá na obra dele que li (a 1ª). Os jovens precisam (e até apreciam) que se estabeleçam limites para a sua conduta. Muitos pais referem que esta definição também os auxilia na difícil tarefa de educar. E, finalmente, nada disto é incompatível com um bom clima de trabalho em aula, materiais interessantes e aulas motivantes e desafiantes. Nunca percebi porque se misturaram os 2 aspectos.
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De ViriatoFCastro a 21.03.2008 às 23:22

A lançar mais achas para a fogueira, li hoje no Correio da Manhã as declarações da mais jovem vedeta do Youtube, que em jeito de arrependimento lá vai dizendo que o que se passou também é mau para os pais dela, mas que a professora sempre embirrou com o seu estilo e que agora de certeza as suas notas irão baixar. Eu penso que é mesmo um problema de subdesenvolvimento cognitivo subsidiado por um certo facilitismo o que dá direito a esta petiza de ainda poder dizer o que diz depois do que se viu. Fique sabendo a jovem que, caso os poderes actuem como deve ser e caso a Professora a isso se dê ao trabalho, sempre a mesma poderá vir a responder no Tribunal próprio, com direito a um processo de acompanhamento e medidas tutelares educativas em conformidade, porque mais que menor em risco, quer-me parecer, o que ali está é um menor de risco. E repetir que as ofensas à integridade física são um crime previsto e punido pelo Código Penal é apenas um exercício de retórica.
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De Katia a 23.03.2008 às 12:44

Responder em Tribunal? Ofensas à integridade física?
Código Penal? O mediatismo dá nisto.

Houve apenas um contacto físico em que a miuda agarrou os braço da professora mas apenas com vista a que a professora largasse ot elemóvel. Não houve agressão física propriamente dita.
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De alexandre a 25.03.2008 às 21:29

És uma anedota.
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De António P. a 21.03.2008 às 23:43

Boa noi^te,
A questão ( ou uma delas ) é como o FJV diz querem levar logo o caso para o parlamento quando o mesmo devia ser resolvido dentro da própria escola com os regulamentos existentes. Mas será que existem ? E se existirem será que são aplicados ?
Quanto ao isto ser novidade que me desculpe o FJV ( que é um bocado mais novo do que eu , já vou a caminho dos 55 ) mas nos anos 60, no Liceu de Oeiras uma turma cantou os parbéns a você na 1ª aula de uma professora que tinha acabado de enviuvar. Bastante mais violento e pesado do que a luta pelo telemóvel. A puniçãp foram três dias de suspensão colectiva.
E se passarmos a contar todos os casos de indisciplina mais grave que se passem em todas as escolas do país de certeza que tinhamos notícias todos os dias. Esta visão tremendista e de que tudo é o fim do mundo também me parece excessiva.
Bom fim de semana
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De António a 22.03.2008 às 00:14

E. Pita vem agora dizer-nos (esclarecer-nos) que não há novidade!
É uma opinião.
Bullying?! O que é isso?
Processo na escola? É pouco. A justiça básica impõe, neste caso paradigmático, que a sansão se origine no nível hierárquico superior.
Cumpts
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De ViriatoFCastro a 22.03.2008 às 00:14

Eu, mesmo assim, ainda tenho de dar algum contributo da minha experiência pessoal, talvez para lançar alguma reflexão. Que pensar de certos professores que eu tive, que me diziam para me calar sempre que queria, uma vez por outra, responder a alguma questão colocada, com a justificação de que eu não poderia rebaixar quem sabia menos? O culto à mediocridade deu nisto. Se calhar é mesmo uma coisa perfeitamente normal.
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De laura a 22.03.2008 às 05:05

Pois, novidade não é, não! É mais uma constatação com som e imagens.
Não sou professora, mas o que as últimas décadas fizeram à escola em Portugal é a devastação pura das condições mínimas para haver ensino sério. Sim, sim, aquela coisa bilateral mas organizada, interactiva mas não igualitarista que é a transmissão de conhecimentos! O estímulo, a provocação, a informação e a 'ordenação do caos', o acompanhamento, os laboratórios de ideias e experiências, as relações humanas más e boas, algumas destas para sempre na memória.
Sim, sim, aquela coisa que se constrói sobre a natural dicotomia docente/discente. Fundada, pois com certeza na autoridade; pois com certeza nas regras; pois com certeza na NÃO PARIDADE
(ai, o complexo com as palavras...)

As justificações sociológicas não me comovem minimamente e convertem demasiado as causas em consequências e vice-versa. Estou um bocadinho farta...

Houvesse regras diferentes na escola e eu queria ver se o assunto não mudava bastante de figura!Tudo no maior rigor democrático, mas desta vez assim numa modalidade responsável, 'topam'?...
Tipo diz-que-é-uma-espécie-de-escola-a-sério? Profs a sério, alunos a sério, pais a sério e legislação a sério...?

Numa perspectiva histórica e política é no mínimo irónico ver o quanto os tradicionais inimigos da ideia de elite (ai, outra palavra proibida), autores e legisladores das reformas que puseram tudo como está, vêm agora pregar moralidade e dever-ser; accountability e outras práticas respeitabilíssimas mas assaz bizarras para quem fez este "fim da picada" que por aí reina!!!

Não digo que os professores sejam (todos) óptimos. Não são, claro. Mas o que sei é que são todos a obra do sistema e não foram responsáveis pelo perfil de escola que lhes entregaram. São vítimas, sim senhor. Metade porque lhes foram retiradas as ferramentas fundamentais para exercer o seu papel em plenitude (entre as quais a autoridade, a estabilidade, etc). Metade porque são eles próprios filhos do novo figurino de escola, a mesma que encontraram como alunos e como professores, sem jamais terem conhecido outra.

Mas quanto a mim são vítimas por outra carência bem mais difícil de sublimar: a falta de controlo social.
Isso mesmo, dos papás, dos colegas, da obra feita.
Para aplaudir o mérito, a exigência, a entrega, a razoabilidade, os resultados. Ou denunciar a impreparação, a negligência, a vista grossa, o faz de conta que são todos bons alunos e eu sou um 'ganda' professor.
Disto é que os pobres professores se sentem abandonados: - o benefício de uma sociedade atenta... que nos dispensava agora de ter de gramar o teatrão hipócrita da sra. ministra e o infeliz papelão a que obriga as suas cobaias.
Quem dá espaço a este governo para esta banha da cobra que nos impinge somos rigorosamente nós todos, de entre os cidadãos parvenus 'o-meu- filhinho-é-que-é o-maior', aos que esperam sentados em apatia e até os que esperam de pé, em bicos, a ver se lhes calha um lugarzito ao sol desta balbúrdia. Não excluindo os que votam e acham que já fizeram o que podiam. Nem ainda, obviamente, os cronistas.
Participação pública, precisa-se.
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De Anónimo a 22.03.2008 às 16:54

Como é que pode haver participação pública se há sempre uma forma qualquer de desculpabilização dos professores ? cada caso é um caso. O sistema é mau no seu conjunto, não apenas em parcelas. Será que não há professores que são ruins para os alunos apenas por razões pessoais ou meramente de perseguição ? tudo deve ser questionado no ensino, não apenas telemóveis (não passa de um fair-diver, quando se diz que os professores são sempre as vítimas).
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De Anónimo a 23.03.2008 às 18:09

Quem fez este comentário não percebe nada do que se passa no ensino. O que este caso vem mostrar é o elevado grau de provabilidade deste tipo de situação ocorrer com frequência numa sala de aula. O que este acaso vem mostrar é em que medida uma dada forma de organização de um sistema potencia este tipo de casos. Não está em causa saber quem é culpado. A questão é identificar responsabildiades num sistema altmente mediatizado e artificialemnte regulado. O que está em causa é perceber em que medida o sistema pode ou não responder com eficácia a este tipo de situação. O que está em causa é a incapacidade do sistema se auto-regular porque não possui mecanismos de auto-regulação. O que está em causa é a incapacidade de um sistema.
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De Anónimo a 23.03.2008 às 18:11

É claro que onde se diz provabilidade se quer dizer probabilidade.
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De maremoto a 23.03.2008 às 09:41

O espelho refletiu e o que se sabia ficou à mostra.
Não há aqui novidade. Só para os que andam distraidos.
Não é caso para Parlamento, nem para atacar a Ministra. Tudo isso é exagero. É um mero caso de "policia escolar" de processo e de trabalho administrativo.
Mas pode a aluna aproveitar para contar - nos jornais - porque é que gosta tanto de telemóveis. Poque é que é mal educada. Que notas é que tem na escola. Que quer ser "quando for grande". E porque é que os colegas - futuros realizadores de cinema e artistas de variedades e de piadas ao estilo Hermam José - ~fizeram dela uma actriz.
Tudo vale a pena.
Até perceber porque é que a professora anda de casaco na aula. Será porque está frio? Será que não há condições para se trabalhar?
Como alguém diz, ainda se fosse na Cova da Moura? Mas que chatice, não é. É na Carolina Micaela.
E depois o que é que eu tenho a ver com isso.?
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De lili a 27.03.2008 às 02:52

Não é só de agora, que a violência nas escolas existe, o que é de agora é haver um maior destaque mediático a estes casos, por várias razões: ainda há pouco, na Quadratura do Círculo, o senhor Jorge Coelho deu como exemplo uma sua amiga, professora, que foi agredida e lhe conta episódios incríveis que se passam nas escolas e dentro das salas de aula, diariamente . Lembro-me bem de já na década de 80 haver imensos casos de indisciplina violenta nas escolas, um dos casos de que me lembro melhor, foi o da professora agredida com uma cadeira, do que resultou ter ficado com a clavícula partida. Vivo numa cidade pacata e a escola onde a minha filha anda é das melhores do concelho, no entanto, em Fevereiro , roubaram-lhe um Ipod e há 15 dias dois telemóveis, é para mim uma vergonha dizer isto, mas várias vezes a avisei para que não levasse esses objectos para a escola, mas é muito difícil conseguir que ela me obedeça nestes casos.
Li num jornal que desde Janeiro deram entrada mas de 7000 queixas d roubos efectuados em escolas, é preciso que se faça qualquer coisa, os jovens que roubam não podem ficar impunes, como será o futuro, deles e o nosso?!

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