por FJV, em 19.02.08
Antes que comecem os elogios, naturais depois da morte, vamos ao essencial: quase tudo o que Alain Robbe-Grillet escreveu era muito aborrecido. Vamos aos factos: era chato. O mais chato de tudo, aliás, era um princípio geral chamado ‘nouveau roman’, que encostou a literatura francesa (em especial o romance) ao beco sem saída onde adormeceu durante os últimos trinta anos. Robbe-Grillet era um homem simpático e engenheiro agrónomo, mas a literatura que produziu e, pior, a literatura que ‘autorizou’, eram exemplos de como se podem afastar milhões de pessoas da leitura e da escrita. Há quem pense, com toda a legitimidade, que o ‘nouveau roman’, essa enormidade sem personagens, sem vozes, sem paixão, é que é a ‘grande literatura’. Felizmente, aos poucos, a literatura francesa vai abandonando aquele torpor em que os mandarins dos anos sessenta a deixaram. A morte de Robbe-Grillet, ontem, deixa um travo de melancolia e de cinza. É um mundo que desaparece. É o destino.
[Na coluna do Correio da Manhã.]
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8 comentários
Gostos não se discutem, certo?
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Gostos não se discutem, certo? <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ entreasbrumasdamemoria.blogspot.com /2008/02 alain-robbe-grillet.html <BR><BR>Também sem ressentimento ... mas nunca me aborreci a ler RG .
não era Vergílio Ferreira que tinha Robbe-Grillet como um exemplo de boa literatura? como exemplo da literetura que deixa alguma coisa no estomâgo? não era Vergílio Ferreira que não se interessava com contar histórias? mas Vergílio Ferreira não é chato (pelo menos aquilo que li). quanto a Robbe-Grillet não sei. nunca li nada dele. mas, verdade seja dita, também nunca tive vontade...
Ressabiado!? Nunca te li. Onde vivem vocês, Miguéis!?
De pol a 19.02.2008 às 23:44
Nunca li Robbe-Grillet. "sem personagens, sem vozes, sem paixão" - também é isso a vida, uma certa vida. E que prococa uma certa inquietação. Nunca encontrei maior desafio do que esvaziar um texto ou uma história da emoção - conseguí-lo é um feito.
De Pepe a 20.02.2008 às 01:27
Pol,
Há-de encontrar desafio maior, espero, para seu regozijo e efusão.
Parece-me difícil retirar a emoção até ao texto da Constituição da República Portuguesa!
Permita-me, discordo, não acredito que seja possível extraí-la e deixar apenas a história. Seria um esqueleto muito frágil e desinteressante. Uma colecção de factos em sequência com um interesse informativo?
Um romance mais amputado do que um anúncio de emprego num jornal?
Para que lhe serve o romance?, pergunto com genuíno interesse em saber da sua resposta.
Será isso reacção alérgica ao exagero da emotividade em todos os meios de comunicação?
Por muito que dispa a linguagem para lhe encontrar uma função original e impoluta, sem artifícios, toda a articulação teve origem na necessidade de comunicar emoções. Até os pequeninos artigos definidos...!
Percebo que se ache o nouveau roman essencialmente chato, apesar disso, também acho chato pretender arrumar com ele num post
E o que permanecerá do «nouveau roman» erguido nesse Paris dos anos sessenta - convivendo com expressões como o desconstrutivismo ou o situacionismo - sobre as ruínas do romance tradicional? Talvez, e isso já é bastante, essa ideia de «remise en question permanente», de «perpétuelle renaissance» da literatura, mesmo que os seus livros tenham sido inconsequentes e, diga-se, aborrecidos. Uma «impostura», como seriam(serão?), hoje, vistos os seus livros como ele próprio disse uma vez. Quem não achou isso, na época, foi Roland Barthes que deles disse que escapariam às marcas do tempo através da «tessitura somptuosa da sua escrita». Como evocação, hoje, não vou ler Robbe-Grillet que deixei nos bancos da Faculdade, mas passarei pelas páginas de «Paris nunca se acaba», de vila-Matas para reler um episódio entre ele e Duras.
De Anónimo a 26.02.2008 às 20:48
E os filmes que esse senhor fez, não se comentam? Alguém os viu? São obras primas e raras, dizem os entendidos. A mulher desse senhor é que é uma grande escritora: Catherine Robbe-Grillet (referenciada no famoso ensaio de Susan Sontag, “The Pornographic Imagination”, como uma das raras obras eróticas possuidoras de um elevado estatuto literário). Mas se calhar para muitos a Sontag também era aborrecida. Gostos não se discutem? Discutem pois!