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2007. Um ano como os outros. Parte 2.

por FJV, em 27.12.07

 

McCann - O caso McCann comove, mesmo à distância. A multidão ulula, querendo justiça e sangue. O rosto de Kate McCann, aparentemente impassível convida as multidões ululantes à gritaria; coisa de «cultura», como me explicam, porque as «multidões do sul» sofrem ruidosamente como todos os coros de carpideiras. Numa peça de televisão revejo aqueles rostos irados, pedindo justiça e sangue; e, ao mesmo tempo, vaiando Kate McCann. Por isso, a frase mais exemplar de todo este processo é a de Bruno Sena Martins, que escreveu isto: «Quase desejo que aqueles pais sejam culpados para não estarem inocentes a sofrer tudo isto.» É uma frase igualmente cruel; mas, banalizada a crueldade da rua, a criança desaparecida já desapareceu. Agora, as multidões querem culpados; a criança desapareceu. Porque, se estes pais (se Kate McCann) estão inocentes e ouvem toda esta gritaria, qualquer coisa terrível terá de acontecer.

 

Menezes – Luís Filipe Menezes conquista o PSD anos depois de ter sido expulso de um congresso, entre lágrimas (suas) e apupos (dos seus pares). Nem mais uma palavra, porque o seu ano ainda não começou verdadeiramente. As elites ficaram despeitadas; mas merecem a humilhação. O país é que não se sabe se merece Menezes. Ou merece, nunca se sabe.

 


Mensalão – O tribunal supremo brasileiro admitiu que todos eles eram culpados. «Eles»: a elite de Lula. Culpados de corrupção, de desvio de dinheiro, de viciação do jogo político, de crimes contra o país. É o lulismo.

 

Michelangelo Antonioni – Outra morte, outro silêncio. Antonioni e o cinema deixaram a sua marca nos nossos olhos.

 

Miguel Real – Um fôlego único, capítulo a capítulo, pela voz de uma mulher que não perde a voz. Tal é o programa do romance de Miguel Real, O Último Minuto de S. (edição Quid Novi), uma encenação romanesca que tem como personagem central Snu Abecassis e, inevitavelmente, a sua relação com Francisco Sá Carneiro. Comovidíssima incursão de Miguel Real no discurso de uma mulher e, em tão poucas páginas, um enorme lamento por Portugal.

 

Mônica Veloso – A ex-amante do presidente do Senado brasileiro esteve na base de um dos grandes inquéritos políticos do lulismo. Acabou a posar, nua, para a Playboy. Renan Calheiros não merecia aquilo, que era bom demais. Mas a abjecção não tem limites.

 

Mulheres – Depois de os socialistas aprovarem as leis das quotas femininas, verificou-se que o governo de Sócrates tinha 2 mulheres ministras em dezasseis ministérios. Em França, com Sarkozy, há sete em quinze. Na Finlândia, há 12 em 20. Somos um país de machos. Socialistas, mas machos.

 

N

Natalidade – Todos andam preocupados com a baixa natalidade portuguesa. O governo ataca com benefícios fiscais e subsídios. O presidente pergunta se nós ainda sabemos reproduzir-nos. A questão não é de fiscalidade nem de sexo. É a vida, que é assim. Mas ainda ninguém convenceu essas almas de que ninguém aceita reproduzir-se em nome do Estado.

 

Norman Mailer – Mailer morreu em Novembro passado. Ele era o modelo do escritor profissional, comprometido, cheio de vida e de opiniões. Os duros, como ele, não dançam; não voltarão a dançar.

 

O

Obrigação de declaração das doações realizadas entre pais e filhos e entre marido e mulher – O Estado está em todo o lado e quer estar em mais lugares ainda. Dentro de casa, opondo pais e filhos, mulheres e maridos, tudo em nome do Estado. Ah, mas atenção: não se julgue que isto é obra dos socialistas. Eles limitaram-se a dar seguimento. Quem tinha preparado o diploma? O PSD.

 

Ortografia – «Valeu tudo: tratar um sujeito como predicado, usar um “ç” em vez de dois “s”, inventar palavras. O Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação deu ordens para que nas primeiras partes das provas de aferição de Língua Portuguesa do 4.º e 6.º anos, os erros de construção gráfica, grafia ou de uso de convenções gráficas não fossem considerados. E valeu tudo menos saber escrever em português. Isso não deu pontos.» Esta é uma notícia do DN e está lá o essencial. Mas o ministério da Educação esclareceu. Segundo o director do Gabinete de Avaliação Educacional, «não faz sentido penalizar a incorrecção ortográfica na primeira parte, quando o que se pretende perceber é se o aluno compreendeu ou não o texto. Se uma dessas perguntas tiver zero porque tem um erro não conseguimos avaliar se o aluno percebeu o texto». Perceberam? Não entendo como os alunos podem mostrar «que compreenderam» um texto, explicando-o através de uma amostra de erros ortográficos. Sempre pensei que escrever mal era pensar mal, interpretar mal, explicar mal. Portanto, abreviando e simplificando, um aluno pode dar erros ortográficos desde que tenha percebido o essencial do texto que comenta. Numa fase posterior, pede-se-lhe: «Então, criancinha, agora escreve aí um texto sem erros ortográficos.» E ela escreve, escreve.

 

OPA – Berardo anunciou uma Opa sobre o Benfica. Não resultou mas alguém ganhou com a especulação. Depois, «alguns chineses, não sei bem quem», foi em Julho, era o Verão, iriam fazer uma Opa sobre o Benfica. Não se fez, mas as acções melhoraram a vida de alguém. A CMVM estava onde? Ou ninguém quer, verdadeiramente, o Benfica?

 

Ota – Era uma miragem dos socialistas, que achavam que, lá, ficava bem um aeroporto. Como quase tudo o que exige respostas racionais entre nós, a questão da OTA foi tratada como problema de fé.

 

 

P

Paulo Rangel – Que me lembre, foi o melhor dos discursos do 25 de Abril.

 

Pela Boca Morre o Peixe – O livro de João Pombeiro mostrava como se comportaram, pela língua, os políticos portugueses. Vêm lá frases espantosas, que convém recordar.

 «Ele disse a Guterres para ir arranjadinho, porque as empregadas domésticas gostam disso. É isso que faço, limito-me a aparecer arranjadinho.» José Sócrates
«Não sou Maria-vai-com-as-outras, mas gosto imenso que elas venham comigo.» Santana Lopes

 

Perguntas: Porque no te callas? – O rei de Espanha colocou uma pergunta simples a Hugo Chávez. A ideia de que temos de desculpar o coitadinho do venezuelano a quem o rei de Espanha perguntou se não podia calar-se um instante, enquanto Zapatero falava, é tão absurda que até faz rir; Chávez foi autorizado a falar mais do que qualquer outro dos presentes, faz acusações imbecis onde e quando quer, ameaça usar o petróleo para punir quem se lhe atravessa (faz bem, que é seu), sai da cimeira e vai perorar contra a cimeira, e toda a gente acha bem. Quer dizer: os amigos de Chávez passam-lhe, amistosamente, um atestado de insanidade e de inimputabilidade (como se dissessem «deixem lá, é o nosso palhaço de serviço, até o dr. Soares gosta dele»), e depois esperam que seja respeitado. É só o palhaço de serviço. Mas, afinal, o que queria dizer Zapatero?

 

Pizzas e livros em Espinho - Isabel de Sousa, directora da Biblioteca Municipal de Espinho e uma campeã das bibliotecas públicas, lançou esta iniciativa na sua cidade: uma parceria entre a Biblioteca Municipal e a Pizza Hut. Quem encomendar uma pizza para comer em casa pode, ao mesmo tempo, encomendar um livro, DVD ou CD que receberá em simultâneo com a pizza. As encomendas serão feitas pela Internet (pizza.livro@cm-espinho.pt) e obedecerão a algumas normas fixadas pela Biblioteca Municipal de Espinho. Este programa de promoção do livro e da leitura destina-se a todos os que tenham o Cartão Único da Biblioteca Municipal de Espinho (15 mil utentes no presente) e o serviço funciona até às 23 horas. O requerente não terá qualquer custo referente ao livro, DVD ou CD. Os livros, DVD ou CD serão transportados pelo estafeta que leva a pizza e não terá qualquer custo o empréstimo é gratuito.

 

Pluralismo – O sistema de avaliação do pluripartidarismo proposto pela ERC é um exemplo para todos. A partir de agora, a independência do jornalismo mede-se por critérios retirados dos resultados eleitorais.

 

Privacidade - Este debate é oportuno e os sinais que ele fornece são positivos, mesmo que – num caso ou noutro – possam ser injustos para alguns sectores da administração. Há anos ele seria impossível porque as pessoas davam pouco valor à sua liberdade e à sua «reserva individual»; encantados com a «modernização», os portugueses desinteressavam por todo o tipo de quebras de privacidade, da videovigilância nas auto-estradas à monitorização da vida familiar. O argumento mais imbecil de todos: quem não deve, não teme – e a «reserva individual» é um assunto menor diante da necessidade de «reforçar o colectivo» ou de «melhorar o Estado». Num longínquo texto dos anos oitenta, António Barreto chamava a atenção para o ambiente de liberdade em que vivíamos – liberdade de imprensa, de reunião, de associação, mobilidade, etc. Mas lamentava o facto de não existirem «liberais» (esqueçam a denominação, que a mim me parece justa), no sentido em que a liberdade não existe sem pessoas que se interessem por ela. Hoje, só a existência desse debate já é útil e mostra que as pessoas estão atentas, que começam a prezar a sua liberdade e que – em relação ao Estado e aos seus poderes – já sabem desconfiar. Questionam a utilização que se pode fazer do cartão único, do acesso ao correio electrónico por parte das empresas fornecedoras de acesso à net ou por parte do Esatdo, da facturação detalhada de telemóveis, da videovigilância da Brisa, do manuseamento do cartão de contribuinte por grandes empresas que ainda estão associadas ao Estado ou que podem agir em bloco com ele, do cruzamento de dados de saúde na banca privada ou nos serviços públicos, da monitorização da nossa vida pelas grandes corporações, etc. Isso é estar um degrau acima. Um upgrade, se quiserem. Desconfiar não é crime; pelo contrário, a história dos direitos individuais e a história da liberdade ensinam que desconfiar é, mesmo, um dever.

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1 comentário

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De AMCD a 30.12.2007 às 14:37

Sobre a letra "O" e a Obrigação de declaração das doações realizadas entre pais e filhos e entre marido e mulher:

Não é o Estado. É o Mercado!

Pretende-se é dissuadir a concessão de empréstimos entre familiares. Caso contrário, quem fica a perder são os bancos.

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