Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



2007. Um ano como os outros. Parte 3

por FJV, em 27.12.07

 

Proposta de alteração à Lei da Tutela Administrativa – Era uma proposta do PSD mas o PS aceitou-a e avançou com ela, com a oposição do PSD. Tratava-se de os autarcas verem os mandatos suspensos sempre que o Ministério Público deduzir acusação contra eles em processo-crime. Justiça nas ruas, nas páginas dos jornais e nas repartições dos partidos. A partir de agora, para eliminar um autarca, por exemplo, não seria preciso ele ser considerado culpado de nada, ou ser condenado. Bastaria ter um nome nos tribunais. Portugal livre de mácula, como deve ser, imaculada e quimicamente puro. Quem não quer viver num país destes onde cada lei se faz para cada caso?

 

PSD – O PSD está cheio de senadores, valha a verdade, e de especialistas em ter «ideias para o partido». Alguns deles desertaram; ou se passaram para «o inimigo» ou lhe fazem «favores. O poder deixou de lhes interessar pela devastadora razão de que já não o têm. Eles aparecem, a espaços; mas nunca têm disponibilidade, ou nunca estão reunidas «as condições» ideais. No PSD, o papel dos «senadores» é esperar. Sejamos velhacos: esperar, para entrar; e esperar, para sair. Para muitos deles, o PSD é uma sala-de-espera. José Pacheco Pereira dedicou ao assunto uma série de posts em rongorongo, a nativa língua de Hanga Roa, na Ilha de Páscoa. Os moai de Rano Raraku não conhecem o PSD, mas a sua língua já foi decifrada.

 


Q

Quaresma – Valdano, há tempos, escrevia sobre essa arte de fazer coisas estranhas, próximas do talento puro, situando Quaresma entre os grandes artistas. Mas Quaresma é solista de outra música. É outro caso de talento e de objecto de inveja, quando não de racismo, por ser cigano. Trivela é coisa dele.

 

R

RCTV – Na Venezuela, Hugo Chávez mandou fechar a RCTV porque lhe era adversa. Não lhe renovou a licença. Mário Soares concordou: trata-se de não lhe renovar a licença e não de mandar fechar. Confiram e não esqueçam.

 

Referendo – Claro que não se faz. Referendo a quê? Ao Tratado? Mas se ninguém percebe... Há o argumento de que, em democracia, mesmo as coisas complexas devem ser discutidas – mas parece que não pega. Não vai haver referendo, mesmo depois das promessas de Sócrates, que o exigia em todas as circunstâncias. Não vai haver.

 

Religião – «Uma professora primária britânica que trabalhava no Sudão foi presa na capital do país, Cartum, e está sujeita a uma pena de 40 chibatadas pela acusação de blasfémia, por ter permitido aos seus alunos baptizarem um ursinho de pelúcia de Maomé.»

 


Rugby – Heróis do mar, etc. Os Lobos, a selecção nacional de ruby, foi pela primeira vez a um fase final do Mundial. Foi brilhante: perderam todos os jogos, mas não trouxeram humilhações para casa.

 

S

Santana Lopes – A revista Lux publicou uma carta do líder parlamentar do PSD em que este desmente que, durante o espectáculo de Rod Stewart no Casino Estoril, tenha «trocado mensagens telefónicas e envios, pelo ar, de pedaços de palitos à la reine [sic] com Cinha Jardim». A «notícia é completamente falsa». A revista, por seu lado, acha que a insinuação é «grave e descabida» (a directora da Lux, esclarece, esteve de facto nesse evento, «mas numa das primeiras cadeiras da referida mesa, ao passo que PSL estava quase ao fundo da sala») e, para o que nos interessa, «reafirma que voaram palitos la reine na referida mesa». Ficámos cientes.

 

Sarkozy – Os franceses elegeram Sarkozy. É um homem que vai agitar as águas. Como vingança, apareceu em público com Carla Bruni. A esquerda tratou de desvalorizar a sua vitória; foi Ségolène que não soube «passar a mensagem» e Sarkozy que «ludibriou» os franceses. Eles nunca aprendem.

 

Scolari – «E eu é que sou burro?», pergunta o homem. Em coro, a uma só voz, respondamos: és. Vai trabalhar.

 

Sete Maravilhas – A eleição das sete maravilhas do mundo pode ter sido um espectáculo manipulado, mas chamou a atenção para a necessidade de conhecer o mundo. Na lista, não se sabe o que faz lá o Cristo Redentor do Rio de Janeiro, mas enfim, é o televoto.

 

Shaaria – 40% dos jovens muçulmanos a viver no Reino Unido querem que o país adopte a shaaria. A notícia não surpreende; um muçulmano deve querer ser muçulmano e, julgo eu, deve querer aplicar a lei. Mas porquê aqui?

 

Socialismo do Século XXI – Boaventura de Sousa Santos festejou (na edição de 24 de Maio da revista Visão) o socialismo do século XXI do comandante Hugo Chávez: «(…) em 2005, o Presidente da Venezuela colocou na agenda política o objectivo de construir ‘o socialismo do século XXI’.» Os «socialismos do séc. XXI» , entre os quais o venezuelano, «terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim». Agradecemos penhoradamente essa profissão de fé tão devastadora. Cá estaremos.

 

T

Televisão - A estupidez reproduz-se a si própria, e com bastante facilidade. Vejo-a na televisão, mas não digo isto como moralista. Tanto me faz que «os telespectadores» vejam «A Bela e o Mestre» como o «Só Visto», ou as telenovelas portuguesas ou o que for. É a vida das pessoas. Não quero defendê-las contra a barbárie; não são piores por isso; não quero que se salvem aos olhos dos que «pensam bem» e lhes têm horror. A televisão da canalha é a televisão da democracia, não há volta a dar-lhe. Meninas imbecis transformadas em «apresentadoras» que fazem trejeitos e ironizam sobre os outros; meninos com graça transformados em «comunicadores»; reportagens sobre «as festas» onde as pessoas fazem ainda mais trejeitos e não deviam ser filmadas naquelas figuras (ou: porque é que são filmadas essas pessoas?). A falta de sentido das coisas não tem a ver com o absurdo desta falta de sentido. É a estupidez a reproduzir-se a si própria.

 


Terminal 2 – Os passageiros da TAP para as ilhas, para o Porto e Faro sabem do que se trata: o Terminal 2 é um barracão mal construído, desconfortável, onde nada funciona correctamente, onde quase tudo é feio e desastroso, e para onde a ANA e a TAP e a Groundforce e o Estado resolvem enviar os passageiros de voos domésticos. Ou seja, relegá-los para pessoal de terceira categoria, metidos num saguão onde não há lugares sentados, onde não há beleza nem conforto, onde tudo é desajeitado e de segunda e terceira ordem. Esta é a forma tratam os seus passageiros, os seus clientes e os seus contribuintes.

 

TLEBS – Uma trapalhada. O Ministério da Educação não teve coragem de pôr fim à TLEBS. Ficou em meias-tintas. A TLEBS foi suspensa mas regressa, não se sabe se depois de revista pelos senhores de uma comissão onde se ouvem uns aos outros e chamam ignorantes aos que têm dúvidas legítimas (a expressão ficou), ou se depois de passada a tempestade. Nessa altura voltaremos à carga. Porque o problema da TLEBS não é «um conjunto de pormenores»; é a sua substância, o seu sentido e a sua quase inutilidade. [Ver, aqui, alguns textos sobre o assunto.]

 

Transgénicos – Não há debate científico público sobre os transgénicos. Mas faz parte do espectáculo. Mas trata-se de um espectáculo com custos para cidadãos indefesos, como o proprietário da exploração agrícola algarvia vandalizada este Verão. Uma coisa é discutir a questão dos transgénicos; outra, inteiramente diferente, é actuar à margem da lei e sob a sua protecção, uma vez que as autoridades se abstêm de intervir contra os meninos – que, às vezes, no caso de certos grupos, recebem subvenções públicas.

 

Tratado de Lisboa – Foi conseguido graças à diplomacia portuguesa e aos esforços anteriores de Angela Merkel. Todos gostaríamos de fazer piada com o assunto, mas é preciso reconhecer que foi conseguido. Agora, referendo ou não? Não vai haver, mas porreiro, pá, já foi assinado.

 


Túmulo de D. Afonso Henriques – Sinceramente, não se percebe por que razão não se abre o túmulo do nosso primeiro rei. Receio de danificar o que está lá dentro? Mas como? Medo de verificar que as ossadas não são ossadas? O secretismo nunca ganhou combates. Abram o túmulo.

 

TVI – Pina Moura disse que a sua aceitação do convite para administrar a TVI «tem um pressuposto ideológico» e que «não há nenhum projecto empresarial que não tenha objectivos políticos, nomeadamente na comunicação social». Nada como a clareza.


U
Universidade - Fica reduzida a Bolonha.

V

Verdade – O essencial é isto: os jornalistas do Público deram notícia de um facto que, ficou provado, era verdadeiro. Mas foram condenados. Porquê? Porque a divulgação da verdade (uma dívida ao Estado de 460 mil contos) é «susceptível de afectar o seu crédito ou a reputação do visado». Ena.

 


Vinte e Sete de Maio – Passaram, este ano, trinta anos sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola. Um purga, uma vaga de assassínios, um período de terror. Ferreira Fernandes explicou o assunto no DN. Dalila Mateus escreveu um livro: «Por estranho que pareça, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet, se comparadas com o que se passou, de 1977 a 1979, no país de Agostinho de Neto, assumem modestas proporções. E o mais chocante é que, no caso de Angola, nem sequer atingiram inimigos, mas sim membros da própria família política.» Outros links: Sobreviventes dos acontecimentos de 27 de Maio de 77 ainda procuram explicações. || O silêncio que grita. ||O dia mais negro. || Associação 27 de Maio. || Carta de Carlos Pacheco a Pepetela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


3 comentários

Sem imagem de perfil

De João André a 27.12.2007 às 19:17

Posso perguntar porquê a selecção de rugby mas não a de basquetebol? Será que ver homens de barba a chorar enquanto cantam o hino faz assim tanta diferença?
Sem imagem de perfil

De Raposa Velha a 28.12.2007 às 04:52

Excelente resenha e oportunos comentários.
Sem imagem de perfil

De pechisbeque a 30.12.2007 às 23:11

Tenho uma questão relacionada com a notícia do Público sobre a dívida do Sporting.

Se a notícia não violou o segredo de justiça, então todos os devedores ao Fisco cujos nomes são divulgados na internet também poderão processar o Estado pela possibilidade de "afectar o seu crédito ou a reputação do visado"?

Comentar post




Blog anterior

Aviz 2003>2005


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.