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Memórias de 2007. (3) Salman Rushdie.

por FJV, em 13.12.07


Salman Rushdie foi feito cavaleiro pela rainha de Inglaterra em Junho de 2007. É um facto importante, não pela ordem atribuída mas porque Rushdie é uma das primeiras vítimas do
terrorismo. Salman Rushdie podia ter-nos explicado, com antecedência, como as coisas se passam nesta matéria da liberdade. Uma boa faixa de intelectuais e de gente da política, apesar de tudo, encontra sempre motivos para compreender essas razões, ou pelo menos as razões que levaram à fatwa que condenava Salman Rushdie à morte -- e, por arrastamento, os seus editores e tradutores. Vamos e venhamos, trata-se de uma coisa selvagem condenar alguém à morte por blasfémia. Um ou outro escritor inglês, na altura da fatwa lançada por Khomeini contra Rushdie, apareceu a dizer que o autor dos Versículos Satânicos merecia a ordem para matar decretada em Teerão; ele não teria nada que se meter com o profeta, com o Alcorão ou com os imãs, e, portanto, devia ser punido por isso. Havia uma certa inveja literária, certamente, mas de vez em quando o monstro acorda entre nós, cheio de medo, invocando valores culturais e heranças espirituais: em nome desses valores desculpabiliza-se a tortura, a humilhação de mulheres ou de adúlteros, a excisão feminina, o apedrejamento de homossexuais ou a mutilação de adolescentes que praticaram sexo à margem da lei.
Rushdie deixou de ser o «escritor perseguido» para passar a vestir a pele de autor culpado pela morte de alguns tradutores do seu livro, de atentados contra editores do livro e pessoal da edição e livrarias em todo o mundo. Por que não culpar os comandos islâmicos que, efectivamente, tinham sido os autores desses atentados? Por duas razões: em primeiro lugar, o «carácter» de Rushdie (a sua antipatia, a sua vaidade, o facto de escrever bem); em segundo lugar, aí está, porque Rushdie «não tinha nada que se meter com o Islão».
Um dos escritores cujos livros mais admiro, John Le Carré, foi, então, muito claro na sua condenação de Rushdie. Mas pouco ou nada claro na identificação dos seus próprios argumentos: em primeiro lugar, misturando no libelo as tradicionais acusações de «colonialismo» dirigidas a um inglês de ascendência oriental que tratou mal os muçulmanos (porque se rendera, supõe-se, aos encantos do Ocidente, da liberdade de expressão e do sistema de direitos de autor); em segundo lugar, porque Rushdie era um tremendo egoísta que punha em risco, por causa do seu livro, a vida de editores, tradutores, livreiros, funcionários dos correios e leitores anónimos que não se manifestaram em Londres — em 1988, e aproveitando os direitos à liberdade de expressão e de manifestação — defendendo a eliminação sumária de um escritor (aqui, a palavra «escritor» pode ser substituída por qualquer outra, evidentemente); finalmente, assinalaria Le Carré, porque ninguém teria o direito de insultar uma grande religião.
O caso de Rushdie e das respostas de Le Carré e de outros autores ocidentais, criados em liberdade política e religiosa, mas que não resistiram aos encantos do servilismo e à «questão colonial e religiosa», é sintomático do caminho que podem levar as perversões no campo intelectual. É «correcto» defender a liberdade de um escritor (e, quem fala de Rushdie, fala também de Soyinka, ou dos censurados nas escolas e bibliotecas puritanas da América)? Ou é «correcto» defender os que, em nome de um direito de resposta à agressão secular do colonialismo e da agressão económica e religiosa, acabam por ver com bons olhos a legitimidade da «fatwa», só porque o Ocidente é malvado e ainda mais perverso?
Na altura da distinção atribuída a Rushdie, uns cavalheiros do Paquistão não gostaram e acham que se trata de mais uma forma de incentivar o terrorismo; a solução seria retirar a distinção ao escritor para não ofender o Islão. No Irão, um conselho qualquer dizia que isto não ficava assim e que Rushdie só terá paz quando for assassinado. Como se recordam, já tivemos um ministro que compreendia estas cousas, que não passam de reacções contra a licenciosidade.

Memórias de 2007.(1) O rugby. (2) A miséria estudantil.

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3 comentários

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De isabel prata a 14.12.2007 às 11:10

Mas tudo isso é um absurdo e mais absurdo é que eu ainda não consegui descobrir onde é que o livro insulta o islão.
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De nuno granja a 15.12.2007 às 00:43

Não posso deixar de dar os parabéns pelo post pois reflecte ao milímetro a minha posição sobre o assunto de denota da parte de quem o escreveu um visão que partilho sobre a liberdade de expressão, os que a combatem e os que se aninham .
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De Tiago Galvão a 16.12.2007 às 21:54

Excelente.

Um abraço,
Tiago.

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