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por FJV, em 24.09.07
||| Bicicletas em Lisboa.











Tiago Mesquita Carvalho respondeu ao meu post sobre as bicicletas. Se o meu post tem já algum tempo e a resposta de Tiago duas semanas, a tardia publicação do seu texto deve-se à gripe e aos anti-ciclones em que andei. Mas um diálogo nunca se recusa. Escreve Tiago Carvalho:
«Escrevo-lhe, já com algum atraso, em resposta ao seguinte conjunto de linhas, por si redigido no seu blog A Origem das Espécies. Perdoe-me o atraso da encomenda, mas se consideramos que este mês de Setembro é dedicado à mobilidade europeia e ao dia europeu sem carros, veremos que a abordagem do assunto é até bastante acertada. Adiante.

Uma das coisas que sempre me surpreendeu foi a mania dos jornalistas portugueses falarem dos mais variados assuntos com uma familiaridade alarmante. Nisso, parecem estar bastante próximos dessa arte sofista do falar sem dizer nada: falam de cultura, debicam autores, peroram ideias, conjugam gostos, apontam opiniões, e com uma segurança tal que o leitor mais ingénuo julgará estar perante um arauto da sapiência. Claro que há uma hipótese que o poderia ilibar da minha suposição: como qualquer pessoa tem direito à opinião, o FJV que escreve no blog é rapidamente transmutado, e logo de seguida, no FJV jornalista, no FJV escritor ou no FJV director da Casa Fernando Pessoa e não necessariamente por esta ordem. [...]

E perdoe-me a eventual diatribe; parece-me ser um homem bastante razoável e o seu trabalho na Casa Fernando Pessoa foi uma lufada de ar fresco na vida cultural da capital, mas… Mas, o que afirma sobre as bicicletas em Lisboa é ridículo: não sei o que é um astronauta pedalante mas sei que FJV nunca verá jamais nenhum jornal ou pessoa que lhe explique a razão pela qual usar a bicicleta é um absurdo; pela simples razão de haverem pessoas que o fazem e pela simples razão de tal ser insofismável. A sua parca análise considera a Lisboa ciclável como o somatório de trajectos entre as sete colinas. E nos vales? E nas próprias colinas? E a passagem da colina do Castelo, via margens do Tejo, para a colina da Madragoa, só para indicar um exemplo
? E a restante Lisboa que não é o centro e onde não existem colinas? E os transportes públicos entre colinas adequado ao transporte de bicicletas? Bastante falacioso, o que escreveu, não concorda?

A bicicleta, fora de qualquer enquadramento político, é benéfica e deve ser vista como um meio de transporte. Os benefícios que proporciona são inegáveis, quer a nível individual, quer a nível colectivo, porque constitui uma alternativa ao automóvel que assalta e sufoca, diariamente, as ruas da nossa capital e dos espaços que deveriam ser nossos, das pessoas. O automóvel, símbolo da liberdade individual, no princípio do século XX, está hoje reduzido ao protagonismo supérfluo, incómodo e desconfortável, que estraga a cidade. Não sou contra o automóvel, mas continuar defender o seu uso nesta cidade é um disparate. Há que reequilibrar a balança da mobilidade, favorecendo os modos suaves e os transportes públicos.

Queria portanto convidá-lo para, no próximo dia 28 às 18h no Marquês de Pombal, vir descobrir por si próprio a facilidade de andar em Lisboa de bicicleta e as condições actuais que desfavorecem os utilizadores de bicicleta em Lisboa. Num ambiente descontraído, circularemos por Lisboa e apelaremos a uma maior adesão a este meio de transporte. Por Lisboa.

Mando-lhe em baixo algumas fotos de ciclistas em Lisboa [estão publicadas no início deste post], nos tempos dos nossos avós, disponíveis no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
Caro Tiago: uma conversa nunca se agradece. O que eu escrevi no meu post foi o seguinte: os candidatos à CML aparecem «de bicicleta, pedalando, certamente para incentivar os lisboetas a usar o velocípede colina acima, colina abaixo». O incentivo é meritório. Mas, repito, parece-me que a orografia não ajuda. Já andei de bicicleta nos meus tempos de Finlândia, e diariamente; a cidade era perfeita, com pistas (aquilo que agora se chama ciclovias) e parques. Tenho ali uma bicicleta para passear no Guincho. Andei de bicicleta em Amesterdão, só por falar em cidades. Mas não me estou a ver a subir até à Graça a partir do Terreiro do Paço. Pergunta-me o Tiago: por que não? Respondo logo: porque apanho um táxi ou um autocarro (podia referir a minha condição física mas o meu médico lê este blog). Quando ando em Lisboa, de um lado para o outro, ando de metro e de táxi. Parece-me desagradável subir até ao Príncipe Real vindo do Cais do Sodré, se bem que achasse graça ir do Campo Pequeno à Praça de Espanha (mas a fazer o quê?). Passear à beira do Tejo? Perfeitamente. Fá-lo-ia a pé, se não preferisse o paredão do Estoril. Tem toda a razão quando diz que a bicicleta «é benéfica»; do que eu não gosto é das fatiotas dos ciclistas que andam na marginal, em lycra, com os capacetes de astronauta. Não sei o que lhe diga.
[FJV]

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