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Montaigne, 490 anos.

por FJV, em 28.02.23

Michel de Montaigne (1533-1592) mudou a maneira de escrever. Os seus Ensaios são um dos textos mais recorrentes da minha vida. Os dois volumes, em letra miúda, estão sublinhados; nunca imaginei que alguém, no século XVI, pudesse ter escrito sobre tudo o que Montaigne (que tinha origem sefardita, marrana) escreveu: o canibalismo, a amizade, o vinho, a perda, os cães, a ruína do divertimento, o cheiro, o silêncio ou o repouso, a urbanidade nas relações com os outros, a velhice e o envelhecimento, a ira e o comedimento, Plutarco e Horácio, a ociosidade, a ilusão da virtude, a passagem do tempo (sobretudo a ideia de que nada existe que o tempo não venha acertar, corrigir, decidir com sensatez) e, lá está, o “sentido da vida” – para corrigir pessoas ansiosas: “Qualquer que seja a duração da nossa vida, ela é completa.” Passando hoje 490 anos sobre o nascimento deste homem tolerante, curioso, observador e conformado, só me resta lembrá-lo. E aceitar que a vida não é uma trincheira nem uma girândola.

Da coluna diária do CM.

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A edição parvinha e censurada.

por FJV, em 27.02.23

Na semana passada, um dos meus temas preferidos foi a limpeza dos livros de Roald Dahl (Contos do Imprevisto ou Charlie e a Fábrica de Chocolate), ordenada pelo editor e pelos herdeiros. A ideia era tirar a linguagem considerada ofensiva (como ‘gordo’, ‘feia’, eu depois faço-vos a lista). Coisas idiotas acontecem sempre, mas quando ultrapassam certo limite levam a protestos de gente sensata; era como se limpássemos Eça, Camilo, Pessoa, Gil Vicente – ou esperassem que um autor morresse para lhe mudar o texto e o pôr de acordo com a moda ideológica. O ruído foi tanto (e incluiu corrida aos alfarrabistas para comprar edições anteriores) que o editor inglês, a Penguin, voltou atrás. Mas nem tanto: mantém a edição normal, a de Roald Dahl, e vai ter a edição parvinha e censurada pela empresa de “leitores sensíveis” que se especializou neste género de mutilação e aconselhamento, a Inclusive Minds. Bom marketing, vá lá – mas, com esta gente, nenhum autor está livre da censura e destruição dos textos.

Da coluna diária do CM.

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Um milhão de inaptos.

por FJV, em 24.02.23

Claro que já se esqueceram. Mas não convinha. Em janeiro de 2021, a identidade de vários cidadãos (portugueses e russos, principalmente) reunidos numa manifestação contra o regime de Moscovo foi partilhada pela Câmara de Lisboa (CML) com a embaixada russa. A prática não foi exclusiva desse executivo municipal mas mereceu finalmente ser divulgada e com toda a razão. Não havia motivo que justificasse essa atitude por parte da CML. Passados dois anos, em que pé estão as coisas? Neste: a Rússia invadiu a Ucrânia, a CML mudou de mãos e foi condenada a pagar um milhão de euros à Comissão Nacional de Proteção de Dados, que os arrecada com satisfação, entregando-os ao bolo do Tesouro (ou talvez disponha da maquia para despesas da casa). Ora, o que fez a CNPD para merecer um milhão de euros do município faltoso? Atuou passado um ano e depois de o caso ter vindo na imprensa. Os visados pela espionagem municipal não foram indemnizados nem protegidos; os seus dados já estão nas mãos da polícia russa.

Da coluna diária do CM.

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Samuel Pepys.

por FJV, em 23.02.23

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/Samuel_Pepys.jpg

Ninguém conhece hoje o nome de William Ambrose Cowley, pirata britânico que deu a volta ao mundo no século XVII e que em 1684 publicou o primeiro mapa de pormenor das Galápagos. A sua vida tem outra data, a do ano anterior, quando mencionou e registou uma ilha no Atlântico Sul, a que deu o nome de Pepys. Ninguém mais a viu e ficou incluída na lista das “ilhas-fantasma”, ou seja, uma ilha que figura nos mapas mas que não foi vista pelos marinheiros. O nome, Pepys, deve-se a Samuel Pepys (1633-1703), uma espécie de ministro da marinha de Inglaterra. O que o distinguiu foi um minucioso e extraordinário diário (são 11 volumes) que abrange os anos de 1660 a 1669 – uma autêntica história do período que inclui a coroação de Carlos II, o Grande Incêndio de Londres e a peste de 1665. Discreto, viúvo, rico, bom funcionário, Pepys nunca deixou que o diário fosse publicado (só o foi em 1893). Passando hoje 390 anos sobre o seu nascimento, vão à net em busca desse diário. Todos temos um dia no passado.

Da coluna diária do CM.

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“The Death of Ferdinand de Saussure”.

por FJV, em 22.02.23

O Legado de Saussure – Linguística Geral

Como bom aluno que fui, se recuasse quarenta anos na minha vida ia parar às páginas do Curso de Linguística Geral que Ferdinand de Saussure (1856-1913) nunca escreveu (dois alunos coligiram o material das aulas) nem publicou (o livro saiu em 1916, três anos depois da sua morte) – mas que é seu. O Curso mudou a ideia que tínhamos da linguagem, do seu uso e do valor de cada palavra (um princípio retirado da Economia). Provavelmente, foi o livro que mais sublinhei em toda a vida de estudante; não estou sozinho. Defendíamos que, graças àquele discreto e erudito professor suíço, especialista em vogais indo-europeias e em morfologia do sânscrito, a linguística tinha passado a ser uma ciência, coisa de que não tirámos grande vantagem. Mais: que era a mãe de todas as “ciências sociais”. Ah, ilusões. Em 1999, a banda americana Magnetic Fields tinha uma bela canção intitulada “The Death of Ferdinand de Saussure”. Passam hoje 110 anos sobre a morte do linguista. A canção, acabo de ouvi-la; é maravilhosa.

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Nina Simone, 90 anos.

por FJV, em 21.02.23

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Completaria hoje 90 anos, Nina Simone (1933-2003). Todos conhecemos “My Baby Just Cares for Me” mas a história dessa canção é um pouco a história de Nina Simone: em 1959, fazia parte do álbum ‘Little Girl Blue’ (juntamente com a bela versão de “I Loves You, Porgy”, de Gershwin) e a cantora aceitou receber 3 mil dólares como direitos de autor definitivos – ou seja, nunca mais ganhou um dólar com a canção, até ela ser recuperada na Europa em meados da década de oitenta. A história dos seus sofrimentos (cancro, síndrome bipolar, violência no casamento – quase todos os seus relacionamentos tiveram essa marca –, problemas financeiros, solidão extrema apesar de admirada e protegida por amigos, perseguição do Estado) fizeram de Nina Simone uma personagem mítica na história da música popular, das lutas anti-raciais e pelos direitos das mulheres. Mas o mais importante é mesmo isso: pianista invulgar, uma voz que vem sempre do canto de um bar, a cantar “I Put a Spell on You” ou “To Be Young, Gifted and Black”.

Da coluna diária do CM.

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Gente absurda e normal.

por FJV, em 20.02.23

Roald Dahl é o autor de Charlie e a Fábrica de Chocolate, Charlie e o Grande Elevador de Vidro, As Bruxas, Mathilda ou as maravilhosas Histórias em Verso para Meninos Perversos (publicados pela Oficina do Livro). Morreu em 1990 mas os seus livros permaneceram – até que o editor inglês, a Puffin, e os herdeiros, decidiram que precisavam de ser “atualizados para os novos tempos”. Uma empresa de “leitores sensíveis”, Inclusive Minds, woke como convém, fez a limpeza: há personagens sem género, deixa de haver gordos e magros, feios e bonitos (ninguém pode ser ofendido), centenas de mudanças retiraram graça aos textos de Dahl, e houve mesmo passagens acrescentadas para tudo ficar mais “inclusivo”. Este é o mundo maravilhoso proporcionado por um editor palerma, por uma família tola e por um grupo de fascistóides moderninhos: mudar um autor depois da sua morte para o adaptar às tolices de hoje. Salman Rushdie chamou-lhe “censura absurda”. Mas já não é absurda; com esta gente, é normal.

Da coluna diária do CM.

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Molière de novo.

por FJV, em 17.02.23

Passam hoje 340 anos sobre a sua morte. Tirando Shakespeare, nenhum autor me dá tanto prazer no palco como Molière (1622-1673), sobretudo as maravilhosas Escola de Mulheres, O Misantropo, O Avarento ou O Doente Imaginário, durante cuja interpretação viria a morrer. Uma das originalidades de Molière (Jean-Baptiste Poquelin, o seu nome verdadeiro) foi ter contrariado a solenidade da dramaturgia do seu tempo (Racine, La Fontaine ou Corneille), transportando a sátira mais diabólica para o palco. A sua linguagem era um prodígio de invenção, como uma torrente pronta para o riso e para enumerar os vícios humanos (tal como os tiques, medos, horrores, traumas e hipocrisias da época) e a mesquinhez, mais do que os mitos dourados e históricos. Tudo tão bem desenhado que ficávamos a amar as personagens mais ridículas (Don Juan, Tartufo, O Burguês Fidalgo, Cornudo Imaginário), que acabavam por enternecer-nos. Molière teve esse mérito, o de nos mostrar que não somos nem podemos ser virtuosos.

Da coluna diária do CM.

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Passagem do corpo.

por FJV, em 15.02.23

3 Perguntas a… – Página 2 – Novos Livros

Talvez o sofrimento seja o grande motor invisível de toda a grande poesia: um amor perdido ou desfeito, a proximidade ou a ideia do fim, a doença, o envelhecimento, uma amizade impossível, a morte dos que nos são próximos e têm um nome colado ao nosso, um mundo em desacordo com o nosso. E, com a idade, sobrevivemos pelo corpo enquanto sobrevivermos – cada parte dele é um nó corredio, entorse, dor, prazer, ouro da criação, anestesia, sombra de uma figueira. Talvez por isso seja um dos livros que mais me acompanhou no último ano e me obrigou a imaginar uma aula de anatomia que foi também uma espécie de evangelho acerca da vida impossível. O Meu Corpo Humano, de Maria do Rosário Pedreira, ontem anunciado vencedor do Prémio Correntes d’Escrita, não pode ser lido apenas como essa passagem do corpo e pelo corpo: o corpo de que Maria do Rosário fala é uma linha que nos atravessa e nos leva tudo. Como um vento, o melhor da poesia nunca fica dito; é um sopro que só as palavras pregam em cada parte do corpo.

Da coluna diária do CM.

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As revelações.

por FJV, em 14.02.23

Tentações de Santo Antão | Museu Nacional de Arte Antiga

Desde ontem que vejo As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (que está no nosso Museu de Arte Antiga), como uma espécie de metáfora dos horrores que devem constar no relatório sobre os abusos sexuais por membros do clero ou a ele ligados. Em primeiro lugar, é preciso distinguir a coragem dos que, no seio da hierarquia, lutaram pela existência desta Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica – e assinalar o trabalho feito pela comissão. E, depois, relembrar o lado negro: os que, aqui e ali, desvalorizaram e relativizaram o eventual resultado dos trabalhos, nomeadamente bispos. Talvez venha a existir um momento antes e depois destas revelações – que não são as mencionadas nos textos de fé, mas as escondidas nas catacumbas do mal. Ontem já se disse bastante sobre o assunto – mas não o suficiente. O abuso de crianças é uma das proporções do mal. Pedir desculpa não basta; é preciso atravessar o deserto. Quanto mais cedo melhor.

Da coluna diária do CM.

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Natureza.

por FJV, em 13.02.23

Imágenes de Bosque - Descarga gratuita en Freepik Perder o Paraíso - Lucy Jones

A RTP3 emitiu um documentário sobre alergias – “Um Mundo de Alérgicos”; cientistas e médicos são unânimes em atribuir a crescente vaga de alergias à falta de contacto com a natureza (as plantas, os animais, a terra, o ar). As “alterações climáticas” são também mencionadas como uma espécie de guarda-chuva fácil de encontrar e culpar, mas fiquemos por aí, pela Natureza; com maiúscula. Isto lembrou-me Carl Jung (1875-1961) que, no termo de uma vida consagrada à psicologia e à psicoterapia, recomendava que as pessoas se dedicassem a cultivar plantas e a caminhar pelas florestas. É esse o tema de um dos livros mais cativantes da temporada, Perder o Paraíso, de Lucy Jones (Temas & Debates), que relembra os benefícios de conhecer melhor a Natureza, as árvores, as rochas, as marés, os bichos, o musgo dos bosques, as plantas – e que eles podem medir-se na avaliação da saúde mental. É óbvio. São coisas óbvias e boas que esquecemos. A maior parte dos choramingas não sabe distinguir uma alface de um eucalipto.

Da coluna diária do CM.

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Lisboa e a política de imigração.

por FJV, em 10.02.23

Algumas boas almas (e outras com defeitos graves) descobriram que Lisboa não é apenas alojamento local, projetos imobiliários, “unicórnios”, Web Summit, rooftops, turistas no Chiado, brunchs e “turismo de eventos”. Por detrás da Lisboa animada por uma preciosa fauna etérea, moderna e sem pátria, estão “as ruínas do interior”. O cenário da Mouraria não é o do feliz otimismo que anima as burguesias urbanas: é o cosmopolitismo dos pobres e dos deserdados. Muitos daqueles imigrantes entraram em Portugal e deixaram de ser controlados, ou seja: sem documentos, sem apoios, sem alojamento, entregues às ruínas escondidas de uma cidade maquilhada mas suja, atraente para ricos e malvada para os outros. Sim, a política de imigração é uma treta no país do espetáculo e da aparência: primeiro, discursa, cheia de princípios e boas intenções; depois, maltrata, sem dinheiro, paciência ou memória. Quanto à cidade, não muda há muitos anos: continua suja, desagradável e há de ficar pior. Mas trata bem da imagem.

Da coluna diária do CM.

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Cada Vermeer é uma vida de beleza.

por FJV, em 09.02.23

The Art and Life of Johannes Vermeer | Europeana

Senti um arrepio quando vi o pequeno filme que o Rijksmuseum de Amesterdão publicou no Twitter sobre os derradeiros preparativos da sua exposição de Johannes Vermeer (1632-1675) – nunca antes estiveram reunidas tantas obras do grande mestre, cuja pintura mais conhecida é provavelmente Rapariga com Brinco de Pérola. A exposição abre amanhã, 10, e prolonga-se até 4 de junho – é ainda possível marcar bilhetes para o último mês. Vermeer nasceu e morreu em Delft, uma pequena cidade holandesa de onde nunca saiu; no entanto, o esplendor da sua obra transcreve o mundo daquele século XVII cheio de grandes descobertas e de grandes viagens, de novas indústrias e de novos costumes do seu tempo. Nada lhe escapou: o amor, o dinheiro, o casamento, as casas, a ciência, a história ou a degradação. Traduziu tudo isso em luz, cor, reflexos, sombras, transparências – além de juventude, riso, velhice e melancolia. No total restam-nos 35 quadros de que esta exposição apresenta 23. Cada um deles é uma vida de beleza.

Da coluna diária do CM.

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Pois tu foste estrangeiro, 2.

por FJV, em 08.02.23

A 25 de janeiro, um indefeso e solitário imigrante nepalês foi agredido à paulada, socado, pontapeado e roubado por um grupo de saudáveis, bebidos e rijos adolescentes de Olhão. Não parece ter sido o primeiro caso. O nosso PR representou-nos a todos; foi pedir desculpa em nosso nome e pedir um emprego para a vítima; foi um belo gesto, que só Marcelo sabe representar. Por seu lado, o edil olhanense (justiça lhe seja feita, reagiu na hora) teme que o concelho seja visto como um resíduo xenófobo e jura que está tudo bem, que é terra de paz e que há aqui “um problema de saúde mental” que teria levado “os jovens” (ainda não identificados) a agredir à paulada, pontapear, socar e roubar o estrangeiro indefeso como “um misto de diversão e de exaltação das suas raivas”. Compreendo que o autarca também queira ser um bom terapeuta familiar junto do seu eleitorado, mas convém reconhecer que aquela noite de 25 de janeiro teve também maldade, violência, egoísmo, brutalidade e indiferença. Foi há 14 dias.

Da coluna diária do CM.

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Pois tu foste estrangeiro.

por FJV, em 07.02.23

Talvez não fosse necessário citar a Bíblia, mas há aquele fragmento que lembra o dever de não maltratar nem oprimir os estrangeiros na nossa terra; “pois tu foste estrangeiro” é uma das mais lembranças pertinentes depois do incêndio na Mouraria, que obriga a maior parte dos portugueses (e dos lisboetas em particular) a saber em que condições desumanas são abrigados estrangeiros nas suas cidades, depois de, para foguetório político, as autoridades lhes declararem a solidariedade e o apoio que nunca vieram. Mas aflige-me bastante o caso de Olhão, em que um estrangeiro, isolado, é barbaramente agredido por um bando de rapazes – e estes, apesar de identificados, a acreditar no ministro da Administração Interna, ainda não foram detidos. É um mistério policial na bela cidade algarvia. Parece que não é caso único, mas o autarca de Olhão menciona este pormenor: parece que os adolescentes já estão conscientes da “grande asneirada” que fizeram. O uso da palavra “asneirada” parece, no mínimo, uma asneira.

Da coluna diária do CM.

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A opinião pública europeia.

por FJV, em 06.02.23

Ditadores e governantes sem escrúpulos julgam sempre ter o tempo a seu favor. Na maior parte dos casos é isso que acontece. Putin sabe que a opinião pública europeia é muito flutuante, acomodada e habituada a soluções fáceis: ao fim de um ano de guerra – um período invulgarmente longo para um continente que não conhecia conflitos militares há oitenta anos – os apelos “à paz”, “à negociação” e mesmo à entrega de territórios à Rússia são mais sonoros e fazem outro sentido. São uma das coisas que Putin esperava, sobretudo com essa ideia já escutada aqui e ali (veja-se a “proposta” de Lula), a de criar um grupo de países que negoceiem a paz e em que a Ucrânia não entra. Quase tudo lhe corre de feição. Se for esse o desenlace, a doutrina política e estratégica que sai desta guerra é a que protege os mais fortes, os agressores, os governantes sem escrúpulos e os ditadores; duvido que seja esse o desenho de um mundo ideal no futuro, mas os “pacifistas” são imprevisíveis nas suas tendências.

Da coluna diária do CM.

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A parte mais fraca do sistema educativo.

por FJV, em 03.02.23

Evidentemente que os alunos são a parte mais fraca do sistema educativo – ou seja, neste caso, do fecho das escolas devido às greves de professores. E, com eles, os pais que, nos últimos quinze dias, encontram as escolas fechadas. É natural que o governo jogue nesse tabuleiro: dentro de dias, “os professores terão contra si uma boa parte do país”. Azares e injustiças do combate político e sindical, com que os professores terão de lidar. E, no entanto, o seu combate devia preocupar-nos porque, além das questões de salariais e de carreira (que são o único motor da Fenprof), há cada vez mais a noção de que a “escola pública” – minada por anos de poder dos burocratas e experimentalistas – corre perigos fatais. Em primeiro lugar, o da qualidade de ensino; em segundo, o da catástrofe dos sistemas de avaliação que está a colocar Portugal na cauda da Europa; em terceiro lugar, no sistema de concurso e preenchimento de vagas em todo o país. Tudo isso faliu ou está a caminho de se tornar insuportável.

Da coluna diária do CM.

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Lula, velhas amizades, tolices de sempre.

por FJV, em 02.02.23

O Brasil é um país tão grande que as rebeliões internas (as mais graves as de Farrapos e Canudos) lhe deram água pela barba e chegam para alimentar as tropas; as suas aventuras imperialistas tiveram sempre sucesso, sobretudo no mapa do humilhado Paraguai e nos campos do Uruguai; já o território brasileiro não regista invasões – tirando um episódio cómico francês (da Guiana) no Amapá. Por isso, não espanta que, na sua petulância ignorante, Lula tenha dito vários dislates sobre a agressão russa na Ucrânia – que já tinha prometido resolver à base de cerveja. A questão não está em pedir a Lula que se informe antes de dizer que “só há guerra quando as duas partes querem combater”, como quis ensinar ao chanceler alemão, equiparando agressor e agredido; isso seria impossível. No fundo, Lula foi sincero: não é do interesse do Brasil “ceder munições à Ucrânia” e quer protagonismo num grupo “pacifista” que negoceie a aceitação, por Kiev, dos factos consumados pela Rússia. Velhas amizades, tolices de sempre.

Da coluna diária do CM.

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Linguajar.

por FJV, em 01.02.23

Quando era deputado às Cortes, Calisto Elói, personagem de A Queda dum Anjo, queixava-se amargamente do linguajar dos seus contemporâneos. Calisto, que era bom homem (por pouco tempo), falava como um Demóstenes de Miranda do Douro – mas, ao contrário de mim, tinha a ilusão de poder corrigir os seus pares. A Academia das Ciências (já que no Ministério da Educação se fala sofrivelmente) devia subsidiar o estudo do linguajar penoso, rebarbativo e abobalhado dos nossos políticos e deputados (porque são coisas diferentes), publicitários, diretores-gerais, provedores, magistrados, jornalistas de coisas benévolas e “sustentáveis”, presidentes de fundações, professores de ciência política e administradores-delegados. E é um começo. Depois vêm os adolescentes das juventudes partidárias, bons de açoitar, e os “ativistas” que proliferam como antes acontecia com os frades. Deve existir um algoritmo mandrião e maneta que os convenceu de que, para serem boas pessoas, precisam de falar mal português.

Da coluna diária do CM.

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