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O balanço do ano com ópera bufa e comédia familiar.

por FJV, em 30.12.22

O balanço do ano devia incluir uma árvore genealógica cujas ramificações dariam conta de como somos poucos em Portugal, e de como “toda a gente” se conhece do colégio ou do bar da faculdade, do picadeiro ou do Algarve, do cabeleireiro ou do baile de debutantes. Eça tentou isso em Os Maias e A Capital, mas o desenho de hoje seria mais cómico, ao nível de Eusébio Macário, de Camilo, que nos legou um retrato jocoso do lamaçal. Alexandre Herculano, que era um homem grave e entufado, parece ter resumido um dos pontos de vista: “Isto dá vontade de a gente morrer.” Discordo. O ambiente é de ópera bufa e comédia familiar onde, como nos livros de Balzac, o dinheiro circula com ligeireza e o poder se negoceia entre vizinhos e conhecidos, porque é esse “o mundo que conta”. Nestes casos, o moralismo é a pior das respostas – melhor o riso para fazer o retrato. O país é pobre e as suas “elites” tratam-no com condescendência e impaciência. Têm o tempo a seu favor. Lembro que, em 2009, com o país pendurado por fios, o povo entregou o poder a Sócrates; não lhe deu a maioria absoluta por um triz.

Da coluna diária do CM.

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Linda.

por FJV, em 29.12.22

Como todos os portugueses, a princípio estranhei – mas depois trauteei “Un portugais”, “o português emigrante”, “A Mala de Cartão”, a canção de Linda de Suza. Tudo estava lá, em música ou em surdina, visível ou escondido atrás de palavras banais, até a referência afrancesada “ao Portugal”, que fazia sorrir os tugas sobre o analfabetismo emigrante, as casas tipo-maisons, o linguajar de romaria – até que a “valise de carton” se tornou emblema, não apenas da sua voz, mas das vozes dos portugueses de França, como uma vingança sobre a pobreza e a maldição. A sua biografia é de filme (que existe, tal como livros biográficos e autobiográficos); a sua morte é triste como o final do ano e uma das suas canções, "La fille qui pleurait" (‘A rapariga que chorava’); a sua voz, estranhamente, ainda me arrepia às escondidas quando a lembro a cantar em dueto com Enrico Macias, o franco-argelino, ou admirada por Charles Aznavour, o arménio. A França amou-a e tornou-a um emblema pop (Jacques Chirac apadrinhou-a), em Portugal era tão emigrante como do outro lado da fronteira, uma extravagância que nunca adotou como sua.

Da coluna diária do CM.

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Esclarecimentos.

por FJV, em 28.12.22

Se o leitor pensar que há no “caso Alexandra Reis” moscambilha e irregularidade, bem pode tirar o cavalinho da chuva: não há. O Presidente da República avisou: não há ilegalidade, a gestora só recebeu uma parte daquilo a que tinha direito. Alguém lhe perguntou? Não, mas ficou dito. Vem agora a segunda fase: a do escândalo e dos cabelos arrepanhados de horror. A agora secretária de Estado foi mandada embora da TAP ou “foi abraçar novos desafios”, como diz a TAP? Para resolver a questão e ficar tudo em paz, o PR diz que Alexandra Reis poderia ter o gesto bonito de devolver a quantia recebida. Errado. Porquê, se foram cumpridos “todos os preceitos legais”? Acontece que tudo parece estritamente legal, com ou sem a cobertura risonha ou preocupada das autoridades. E a terceira parte: os ministros que contrataram a gestora, para a NAV e para o governo, pedem “esclarecimento”. O primeiro-ministro, declarando surpresa, pede “esclarecimento”. O PR pede “esclarecimento” porque não se pode estar todos com notícias diferentes sobre os mesmos factos. Se isto não é Portugal, não sei o que pode ser.

Da coluna diária do CM.

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Mega.

por FJV, em 27.12.22

Um vendaval. Quando me lembro de como era trabalhar com António Mega Ferreira, lembro-me também dessa palavra: vendaval. E de outras: golpe de asa, génio, originalidade – e capacidade de relacionar as coisas que o apaixonaram: a literatura, a música, a pintura, o cinema, os livros, a curiosidade. Do jornalismo à edição, à escrita e à chamada “gestão cultural” (Expo, CCB, Metropolitana), Mega foi um erudito cheio de ironia e felicidade, que sabia entusiasmar e motivar os outros. E na literatura também (tem dois amáveis livros de contos, O Heliventilador de Resende e As Caixas Chinesas). Os seus derradeiros livros são testemunho de outras paixões: pela Itália e por Roma, pela pintura, pela literatura (e por Dante) e pelas palavras da nossa língua. Pessoalmente, devo-lhe o início da minha vida profissional e o gosto pelas pessoas cuja erudição não existe sem ironia e sem humor. António Mega Ferreira era um homem brilhante, um dos melhores da sua geração, que teve todo o poder em Portugal; é uma coisa cada vez mais rara hoje em dia, essa capacidade de imaginar e fazer mudar a realidade.

Da coluna diária do CM.

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Os políticos e os eleitores.

por FJV, em 26.12.22

Política – Wikipédia, a enciclopédia livre

O diário Público pediu aos líderes políticos que indicassem os livros que gostariam de “receber no sapatinho”. É um inquérito tradicional, tal como o dos livros que levam para férias – e vale mais pelo que revelam (a banalidade geral, a dissimulação e a ideia de que os livros sugeridos dizem o que eles gostariam de dizer) do que pelas sugestões propriamente ditas. De qualquer modo, e como de costume, as melhores escolhas foram as do líder da Iniciativa Liberal e do Livre; os comandantes do PS, do PSD e do Chega nem sequer responderam. Quando jornalista, fiz muitos destes inquéritos; nos anos 80, 90 e 2000 as suas respostas eram importantes e decididas “ao mais alto nível” (ainda me recordo das negociações de um candidato presidencial que queria substituir um Aquilino pela Bíblia). O facto de os líderes dos três principais partidos portugueses nem sequer terem respondido diz muito sobre a mensagem que desejam passar ao eleitorado e sobre o que julgam relevante, ou não, na sua imagem pública. Uma cultura do espetáculo disputada por iletrados e indiferentes – é um belo resumo.

Da coluna diária do CM.

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Um legado.

por FJV, em 23.12.22

Todos os anos nos interrogamos acerca do significado destes dois dias de celebração, mesmo sem motivos religiosos (as melhores canções de Natal, aliás, foram escritas por judeus). A história mais ortodoxa do Natal manda dizer que se trata do nascimento de Cristo e que ele tanto é o enviado de um Deus antigo e temperamental, como um radical judeu que constestava a ordem estabelecida e quis mudar o mundo numa época em que tudo pedia mudança. Falando por parábolas, Cristo é um ironista que não tem a ver com os impérios da fé nem com as suas prerrogativas mais suspeitas. A verdade é que tanto os Evangelhos canónicos como os Apócrifos não compõem uma narrativa uniforme do nascimento de Jesus (já para não falar da sua idade adulta), assinalado por Lucas e Mateus. Todos os textos, escritos há perto de dois mil anos, narram uma tradição muito anterior – é essa tradição que agora se assinala. Por isso, já devíamos ter aprendido que o Natal de hoje é sobretudo um legado, uma paragem no tempo, um encontro de próximos, uma tradição feliz num mundo espalhafatoso e absurdo. Isso já não é pouco.

Da coluna diária do CM.

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Viver habitualmente.

por FJV, em 22.12.22

Há dez anos a fotografar gente de nenhures, que não existe

O país está a meio gás. São as vésperas de Natal, e o Natal é a véspera do Ano Novo, e o Ano Novo é a véspera do desconhecido que vem nas previsões. Parte dos que “ficaram em casa” durante a pandemia estão nessa condição agora – vivem as vésperas, tiraram férias, funcionam a meio gás, deitam um olho à televisão, sobrevivem, sobrou ainda dinheiro para presentes de Natal. Ontem começou o inverno no calendário e as “alterações climáticas” (um dia haverá uma pasta dentífrica para lavar a boca de lugares comuns) prometem temperaturas amenas durante a semana, e houve mesmo algum sol. Para esta “maioria sociológica”, mudar de vida é um incómodo. E é. A nossa pequena mediocridade favorece “o bom estado de coisas” e a concórdia nas “instituições” e entre “os órgãos de soberania” (de onde sairá o próximo candidato a Belém). Foi assim em 2008-2009 (a desgraça à frente do nariz, e Sócrates quase ganha com maioria), foi assim em 1945. É o mundo ideal, este de “viver habitualmente”, como dizia o dr. Salazar, que também ironizava sobre “a bolha mediática”. Ontem começou o inverno, tomemos nota.

Da coluna diária do CM.

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A vida dos autores. Não se queixem.

por FJV, em 21.12.22

Old Lovely Book 1915 Maple Leaves on Green Cover Art Deco - Etsy

Chelsea Banning, uma jovem autora do Ohio, começou, aos 15 anos, a escrever histórias de “fantasia”, como agora se diz, sagas de magia e lendas. Nas “redes”, um sucesso; finalmente, o livro, ‘Of Crowns and Legends’, primeiro volume de uma trilogia sobre Camelot, a corte do Rei Artur. Pobre dela, no Twitter, queixou-se de que só tinham aparecido duas pessoas numa sessão de autógrafos. Problemas de juventude. A multipremiada Margaret Atwood, autora de História de uma Serva respondeu-lhe: num dos seus lançamentos tinha aparecido uma única pessoa, que aliás ia comprar fita adesiva e pensou que ela era a vendedora. Stephen King não resistiu e contou que na apresentação de A Hora do Vampiro, o livro que publicou logo depois de Carrie e antes de Shinning, também apareceu apenas uma pessoa, que aliás estava era interessado em livros nazis. E Neil Gaiman também confessou que teve uma sessão sem ninguém em Manhattan. Escrever, trabalhar, imaginar, ter leitores – é um jogo de paciência e de desilusão. Quantas vezes falamos para as sombras? Até elas despertarem. Até ser outro dia. É a vida.

Da coluna diária do CM.

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Nélida Piñon (1937-2022).

por FJV, em 20.12.22

Nélida Piñon deixou um romance póstumo', diz amigo da escritora | Cultura |  O Globo

A carioca de origem galega Nélida Piñon (1937-2022) morreu no sábado em Lisboa. A sua origem galega está transcrita no romance A República dos Sonhos (1984), o seu livro mais conhecido – mas a sua ligação a Portugal estava impressa no corpo, em Lisboa, cidade que amou, e no país que amou (veja-se o seu original Um Dia Chegarei a Sagres, 2020) e de que podia ser uma voz. O que havia a dizer sobre Nélida, que era uma mulher poderosa, belíssima, inteligente e bem humorada, foi dita pela sua editora Guilhermina Gomes: “Com humildade, disse-se brasileirinha, mas levou-nos numa viagem homérica, contando-nos os seus pensamentos sobre a leitura, a sua paixão pela escrita, a sua relação vital com a literatura, a sua visão não apenas da mulher brasileira, mas de todas as mulheres desde tempos remotos, e sobretudo a importância que assume a memória.” Nélida Piñon (primeira mulher a presidir à histórica Academia Brasileira de Letras) era uma pessoa livre e uma escritora que tentou sempre ultrapassar géneros, ortodoxias e modelos. Foi um enorme privilégio ter ouvido o seu riso amoroso.

Da coluna diária do CM.

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O autoritarismo português.

por FJV, em 19.12.22

Há uma curiosa característica de boa parte do autoritarismo português – é extremamente popular. Os políticos nessa condição interpretam o papel para as multidões de que dependem; ou como uma forma de marialvismo político e gramatical, sempre de gosto duvidoso (“os queques que guincham”, usado pelo primeiro-ministro acerca da IL) – ou como uma distração em que são traídos por uma frase reveladora ou por uma falta de paciência obstinada. Qualquer das hipóteses não é boa para o primeiro-ministro. Não é normal que um político reaja de forma tão disparatada e diga coisas tão despropositadas. Siza Vieira e Sérgio Sousa Pinto mencionaram a ‘hubris’ grega, um misto de desprezo pelos outros e de arrogância que, mais cedo ou mais tarde, serão punidos pelo destino. Seja como for, não é uma forma de comportamento aceitável entre pessoas de bem; pode ter resultados imediatos, porque a multidão tende a festejar quem se comporta à sua medida e à sua imagem. Mas os indivíduos dessa multidão, cada um por si, no seu íntimo, sabem que houve ali uma falha humana perigosa. E talvez não esqueçam.

Da coluna diária do CM.

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João Luís B. G.

por FJV, em 16.12.22

Ao meio dia de ontem foi anunciado o Prémio Pessoa. Às duas e meia da tarde, João Luís Barreto Guimarães estava a entrar no bloco operatório do Hospital de Gaia porque ia começar a trabalhar. Não há melhor forma de falar da poesia de JLBG, o mais recente Prémio Pessoa: de um lado, a poesia; do outro, a medicina. Como se dissesse: de um lado, a melancolia; do outro, a ironia – como os grandes poetas da tradição europeia, de Cesário Verde a Philip Larkin, por exemplo, sem ficar preso às fronteiras de uma lírica contaminada apenas de si mesma e do seu confessionalismo. Poucas coisas me dão tanta alegria como festejar um amigo; ainda por cima, um amigo que tenho o prazer de publicar, como seu editor na Quetzal. João Luís Barreto Guimarães é um autor notável, meticuloso e tolerante, apaixonado e crítico (leiam os seus poemas sobre o Sr. Lopes, cheios de humor). Mas não só: também tenta aproximar mundos aparentemente distantes, o que o leva, por exemplo, a dar aulas de Poesia a alunos do curso de Medicina, no Porto. Quando lemos os seus versos ficamos prisioneiros do seu talento extraordinário.

Da coluna diária do CM.

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Mais tristes e mais infelizes.

por FJV, em 15.12.22

Que os adolescentes portugueses achem aborrecidas as matérias escolares não me surpreende – foram adultos aborrecidos por uma mentalidade burocrática que elaboraram, metodicamente e com muito sofrimento, programas escolares que muitas vezes nem eles entendem e que, para cúmulo, são depois sintetizados em “aprendizagens essenciais” ainda mais estéreis. Só de ver a abordagem da literatura e da história dá vontade de chorar. Mas as conclusões do estudo patrocinado pela Organização Mundial de Saúde dizem-nos também que os nossos adolescentes estão mais tristes e se sentem mais infelizes, que perderam “capacidades socioemocionais” com a pandemia e que gostam pouco da escola. As estatísticas são poderosas e vingativas; não querem dizer que os adolescentes “têm razão”; quer dizer que têm queixas, e algumas delas justificadas. A resposta vulgar a estas queixas e inquietações é ser demasiado “compreensivo” e tratá-los como crianças em défice cognitivo. Pelo contrário, devemos ser mais exigentes e tratá-los como mais adultos, o que significa criar hábitos de trabalho e responsabilidade.

Da coluna diária do CM.

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Borodino e o imperialismo.

por FJV, em 14.12.22

Battle of Borodino 1812.png

A descrição da batalha de Borodino (que ocorreu a 7 de setembro de 1812), o maior dos confrontos entre o exército russo e os invasores franceses comandados por Napoleão Bonaparte, teve direito a uma das grandes passagens de Guerra e Paz, o romance de Lev Tolstoi. No livro, o nosso olhar é o de Pierre Bezukhov, que primeiro observa a batalha e depois acaba a participar nela, em pleno combate. Borodino (um dos momentos mais sangrentos da campanha, eternizado na música de Tchaikovsky) foi a prova de que o exército de Bonaparte não era invencível. Três meses depois, apesar de terem tomado Moscovo, os franceses abandonam a Rússia a 14 de dezembro, derrotados e humilhados – passam hoje 210 anos sobre a data. O ambiente e os dramas de Guerra e Paz não se repetem por mais que forcemos a realidade (apesar da história de Pierre e Natasha), mas a efeméride recorda a invasão da Ucrânia por um exército considerado invencível na região. Ou talvez o “nacionalismo romântico russo” tenha mudado de lugar e sido ocupado pelo velho imperialismo decadente de um Putin tão vencido como Napoleão.

Da coluna diária do CM.

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Irão.

por FJV, em 12.12.22

Nenhum dos bons militantes se colou ao chão de uma avenida, ou apedrejou uma embaixada da República Islâmica do Irão, ou atirou legumes a uma imagem de Ali Hosseini Khamenei, ou ocupou sequer um jardinzinho diante de qualquer representação diplomática iraniana, ou queimou uma bandeira do Irão – a execução de Mohsen Shekari, 23 anos, empregado de café em Teerão, foi a 8 de dezembro, na passada quinta-feira, dois meses e meio depois de ter sido preso. Foram já condenados à morte outros jovens detidos depois do começo dos protestos no Irão, e a mão pesada da ditadura teocrática não esconde que cumprirá essas condenações, todas elas obtusas e ao arrepio das normas internacionais. O leitor encontrará informação sobre isto em qualquer lugar; depois de passado o ruído do campeonato do Qatar, a vida e a morte continuam nas ruas de Teerão. Fui à procura de indignação sobre os processos e as condenações, mas está tudo a aguardar a próxima manifestação contra Israel, as alterações climáticas, os fósseis e, por assim dizer, pela linguagem inclusiva e pelo respeito por Cristiano Ronaldo.

Da coluna diária do CM.

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Uma coisa em forma de gente.

por FJV, em 09.12.22

As coisas estão bem feitas e há uma ordem no universo. No início do mês, uma sondagem CM/Negócios mostrava que 45,9% dos portugueses prefere mais “investimento público” e que apenas 25,5% acha que se devem baixar os impostos pagos pelas famílias. Há quem interprete de forma maneirinha este apetite libidinoso dos portugueses por tudo o que leve a designação “público”, mesmo que depois sejam maltratados pelo Estado. Veja-se, por exemplo, o caso da gratuitidade dos manuais escolares. O governo e a esquerda acham que é preferível não distribuir manuais a quem os necessite (bastaria uma declaração de IRS) – mas apenas aos alunos da escola pública, mesmo aos filhos dos ricos. Claro que os filhos dos ricos também são gente, mas não é isso que conta: o importante é saber se alguém anda na escola do Estado, alinhado e a engrossar o número, ou se anda na escola privada ou cooperativa. Se for este segundo caso, a esquerda e o governo, cegos pela ideologia, aplicam o castigo respetivo por estas famílias não terem optado pelo “ensino público”. Até que aprendam e saiam todos pela mesma bitola.

Da coluna diária do CM.

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Do novo CR7, que aborrecido.

por FJV, em 08.12.22

A história de Cristiano Ronaldo não é apenas a de Cristiano Ronaldo – mas a de um país. Se alguma vez existir um biógrafo corajoso capaz de escrever a história do fenómeno (como Ruy Castro o fez com Estrela Solitária. Um brasileiro chamado Garrincha, um livro maravilhoso) há de defrontar-se com um problema grave, além dos esperados processos em tribunal: o de transformar um semideus numa espécie de ser humano, capaz de erros como um de nós, arrependido em segredo, virtuoso às escondidas, narcisista, esforçado e temerário, teimoso e maquiavélico, generoso e egocêntrico, avesso à verdade e à mentira (consoante as ocasiões), misantropo e camarada, infantil e ponderado. As críticas a CR7 geram tumultos e antipatias porque não aceitamos que existam portugueses humanos e defeituosos. Não é o único. Fazem-nos falta biógrafos de gente que normalmente não tem biografias mas panegíricos que parecem elogios fúnebres em véspera de entrada no Panteão. No caso de CR7, foi construído como absolutamente virtuoso e eternamente campeão. Estranhamente, quando os anjos caem, fazem-no sem leveza.

Da coluna diária do CM.

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Os corifeus do pacifismo.

por FJV, em 06.12.22

Emmanuel Macron, sempre ele – além de uma série de gente distraída e responsável –, “simpatiza” com a ideia de que a Rússia precisa de “garantias de segurança” a fim de voltar à mesa de negociações. Ora, Vladimir Putin já deu essas garantias a Macron durante aquela reunião humilhante em Moscovo: assegurou-lhe que não iria invadir a Ucrânia e que todas as informações publicadas na imprensa eram “histeria ocidental”. Quase um ano depois, e preparando-se para repetir aquilo que os seus batalhões perpetraram na Síria, insistindo em mentir descaradamente, ameaçando sem cessar, cometendo toda a espécie de horrores documentados, espalhando propaganda desonesta e mentirosa dentro e fora de fronteiras, estando na disposição de esmagar a Ucrânia de qualquer forma, a Rússia não precisa de garantias e Putin muito menos. Os corifeus do pacifismo (nem precisam de ter uma fixação sexual em Putin, o que acontece muito amiúde), muito preocupados com a “humilhação da Rússia”, já perceberam que qualquer coisa menos do que a retirada dos exércitos de Moscovo é uma derrota do ocidente. E já salivam.

Da coluna diária do CM.

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Dave Brubeck (1920-2012).

por FJV, em 05.12.22

The Dave Brubeck Quartet: álbuns, músicas, playlists | Ouvir no Deezer

Dave Brubeck (1920-2012) morreu há dez anos, a um dia de completar os 92. Ao contrário da tradição de músicos da sua geração, que caíram nas malhas do álcool ou das drogas (Miles Davis, Chet Baker, Charlie Parker, por exemplo), Brubeck era “o homem tranquilo do jazz” – não era apenas a sua música que era cool; a vida também. Para cúmulo, era católico, de formação clássica, influenciado pelas formas de composição europeia, eclético (os discos Jazz Impressions of Japan ou Jazz Impressions of Eurasia são o exemplo), meticuloso, e com uma vida familiar banal. O seu grande tema é de 1959 (no disco ‘Time Out’) e é uma daquelas peças que nunca me canso de ouvir: “Take Five” é uma alegoria do jazz, da música, da delicadeza, da invenção pura, com aqueles dois acordes variáveis, o piano, o baixo, o saxofone límpido a cruzar com o solo de bateria, às vezes cada um tocando para seu lado e em diferentes avenidas sentimentais. Hoje, dez anos depois da morte de Brubeck, uma coisa simples: ouvir “Take Five” do princípio ao fim, pelo menos uma vez. Há momentos em que a beleza tem esse ritmo.

Da coluna diária do CM.

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O 1.º de Dezembro de pantufas.

por FJV, em 01.12.22

Restauração da Independência – Wikipédia, a enciclopédia livre

«Aclamação de D. João IV como rei de Portugal», de Veloso Salgado. Um pintor espanhol, naturalmente.

Vamos lá. O 1.º de Dezembro é um feriado ligeiramente estapafúrdio que se celebra desde 1823, quando o senhor D. João VI mandou fazer um baile comemorativo. A única coisa que me diverte é recuar à infância, quando o 1.º de Dezembro era o dia de celebrar a morte de Miguel de Vasconcelos, a conspiração “dos conjurados” e a prisão da senhora Duquesa de Mântua – e, portanto, de dizer mal dos espanhóis, que era a parte gaiteira, digamos. Ora, eu cresci praticamente bilingue, com gosto pela velha Espanha e com uma admiração tão circunspecta como vadia por Filipe II e IV (os nossos I e III) que, por cá, mantiveram as coisas como puderam. Hoje, ninguém no seu perfeito juízo fala de ocupação espanhola entre 1580 e 1640, período em que tivemos reis estrangeiros, mas sem grandes problemas de legitimidade. Não tenho vergonha nenhuma: quando vou a Madrid e faço a visita obrigatória ao Museu do Prado, olho com certa melancolia para os quadros de Velázquez, Goya, El Greco ou Sánchez Coello. Limito-me a não querer nenhuma união ibérica, mas a querer Espanha bem perto, para poder sonhar com o passado.

Da coluna diária do CM.

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