Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Fins do ano.

por FJV, em 31.12.21

Não é para vos assustar, leitores, mas o Ano Novo islâmico terá início a partir de 30 de julho – o de 1444. Um pouco mais tarde, a 25 de setembro, teremos Rosh Hashanah, que iniciará as celebrações do Ano Novo judaico (o de 5783). Mais perto de nós no tempo, o Ano Novo chinês começa no dia 3 de fevereiro (é o do Tigre, boa notícia para mim) e entraremos em 4720. O Ano Novo Tibetano será o de 2149 e é assinalado um pouco depois, a 12 de fevereiro de 2022, seguindo-se o Ano Novo Bahá’í (ou Naw-Rúz), a 21 de março, com a chegada da primavera ao nosso hemisfério, enquanto a maior parte dos hindus terão as suas festas de Ano Novo a 2 de abril (o Gudi-Padwa), mas só a 14 de abril entraremos no Ano Novo tamil (Sri Lanka, Singapura, Malásia, etc.). As celebrações não param. Teremos o Dia Mundial da Poesia a 21 de março, também Dia da Árvore; o Dia da Língua Portuguesa, ai de nós, a 5 de maio; o Dia Mundial do Livro a 23 de abril (com os patronos Shakespeare e Cervantes), o do Teatro a 27; o Dia Mundial do Cinema a 5 de novembro – e, felizmente, o Dia Internacional do Fetiche a 21 de janeiro.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cenários para janeiro.

por FJV, em 30.12.21

As eleições que se realizam daqui a um mês serão as mais imprevisíveis dos últimos vinte anos – janeiro será, não o mês de todos os perigos, mas o de todas as encenações. Não saberemos onde está a virtude, não saberemos onde está a manipulação e, mais caricato ainda, não saberemos onde ela não está. Pelo meio, “a pandemia” (designa-se por “pandemia” um conjunto muito disperso de ocorrências que têm e não têm a ver com a Covid-19) servirá como desculpa, arma de arremesso e tábua de salvação. Depois de a “pandemia” ter sido várias vezes “vencida”, já não servirá para apanhar incautos. Ao contrário do meu amigo Manuel S. Fonseca, que na sua coluna da última página do CM apela ao entendimento de contrários, vejo que o principal resultado destes anos de geringonça é a radicalização das trincheiras até ao absurdo. Veja-se o caso do primeiro-ministro que recusa ser primeiro-ministro e aponta às hostes outro primeiro-ministro. Todos desenham cenários – como se fossem o resultado de eleições realizadas ontem. Parece que só nós sabemos que vai ser daqui a um longo mês. Ainda não votámos.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

João Pedro Grabato Dias.

por FJV, em 29.12.21

Falemos agora do que é sério e terminemos o ano em grande: a poesia de João Pedro Grabato Dias, aliás António Quadros (1933-1994) de seu nome civil, mas também Frey Ioannes Garabatus (o de As Quybyrycas), bem como Mutimati Barnabé João (o de Nós, o Povo) – nomes através dos quais foi autor de uma das mais importantes obras da nossa língua atual, escrita entre Portugal e Moçambique, lugares onde viveu. “Colosso” lhe chama Pedro Mexia numa das badanas de Odes Didácticas (a antologia agora publicada pela Tinta-da-China); “enorme poeta”, é como António Cabrita termina um valente posfácio de 40 páginas ao livro, onde também relembra o sempre esquecido Rui Knopfli, companheiro de geração, ou o grande António Barahona. António Cabrita diz quase tudo o que há a dizer sobre o poeta. Enorme ou um colosso, será como quiserem, desde que leiam os magníficos poemas de A Arca ou o longo “Nunca me libertei da infância” – e todos, todos. São versos que devoram e queimam, e voltam a queimar: “Meditar é viver atentamente/ cada miúdo peixe de atenção.” Cada verso tentando “atribuir um nome próprio ao vento”.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

João Paulo Cotrim.

por FJV, em 28.12.21

Morreu o editor e escritor João Paulo Cotrim

Na ordem das coisas não se devia morrer aos 56 anos, mas João Paulo Cotrim (1965-2021), criador da Abysmo, editora que fundou como um combate pelos livros que amava, morreu anteontem em Lisboa. Estava doente há tempos, internado num hospital – o que não me impede de o recordar como aquele amigo carregado de alegria, ironia ruidosa, vontade de viver, sempre disponível para encontrar um caminho no meio das ruínas em que isto tudo se transforma de vez em quando. Quando comecei a fazer programas de televisão, em 1995, a sua ajuda foi preciosa, porque era inteligente, franco e visionário. Foi o criador da Bedeteca de Lisboa, um sonho em que foi acompanhado por João Soares – e de muitos projetos ligados à BD, à ilustração e ao design. A minha recordação é pessoal (muitas conversas sobre a natureza da fé), mas passa também pelas suas crónicas, pelas suas qualidades como notável entrevistador (devem-se-lhe algumas das melhores entrevistas da revista ‘Ler’), como organizador de seja o que for a que quisesse dar vida e emprestar beleza e humor. Às vezes, os que partem levam quase tudo de nós.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

De Plymouth a Cabo Verde e depois ao resto do mundo.

por FJV, em 27.12.21

Na terceira semana de Janeiro de 1832, Charles Darwin (1809-1882) teve uma visão do paraíso por detrás de um cenário de origem vulcânica – chamou-lhe mesmo “um dia glorioso” e referia-se à descoberta de uma bolsa de densa vegetação tropical da ilha de Santiago, em Cabo Verde (é mesmo aí que começa o seu Diário). A passagem na cidade da Praia seria determinante para toda a sua viagem a bordo do Beagle, o navio em que daria a volta ao mundo ao longo de cinco anos, e cujo capitão o contratara como geólogo. Cerca de 20 dias antes, a 27 de dezembro de 1831 (passam hoje 190 anos), a expedição saíra de Plymouth, passara de raspão na Madeira e fora impedida de desembarcar nas Canárias (havia uma epidemia de cólera em Inglaterra). Cabo Verde foi a primeira experiência do cientista, antes de rumar para o Brasil, a Argentina, o Chile, Galápagos, Nova Zelândia, Austrália, etc. – e tomar o caminho de volta. A nossa visão do mundo seria diferente sem Darwin e sem essa viagem iniciada há 190 anos, que lhe proporcionou as bases para a teoria da evolução e para escrever A Origem das Espécies.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As coisas que se recomendam.

por FJV, em 24.12.21

Mesmo quando havia "normalidade”, até 2019, já não era o Natal de antanho. Já não se comemorava o nascimento de Jesus a não ser um número residual de cristãos, a maior parte deles considerados seres de outro planeta. Mesmo entre estes tornou-se mais corrente a designação de “festa da família” ou “do encontro” numa sociedade essencialmente laica, gentia ou ateia. “Festa da família” já não é mau e foi, aliás, um recurso dos católicos para não afrontar o ateísmo crescente e tentar que a celebração não desaparecesse. Ao cristianismo ocidental, em crise profunda, sucedeu uma espécie de “paganismo da felicidade”, irrisório, comercial e de sininhos; mesmo para quem não era cristão, tratava-se de um pretexto para nos vermos. Com a pandemia, verificou-se que o Natal era importante e que aquele jantar de família era um indício de que se podia sobreviver à solidão ou combatê-la. Talvez este regresso a casa, “por motivos sanitários”, salve mesmo o Natal. Não a festa religiosa, que não regressa, mas a ideia de nos encontrarmos em casa, a salvo do mundo, que não está coisa que se recomende.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

É Latim!

por FJV, em 23.12.21

Vejo que Lewis Hamilton, o piloto de Fórmula 1, veste uma t-shirt onde está escrito “Sine amore nihil". Festejo. É latim, que traduzo pelo mais simples: “Sem amor, nada.” Nada feito. Não é a primeira vez que o mundo dos automóveis está ligado ao latim. Se é o feliz proprietário de um Audi, saiba que a origem está no fundador da marca alemã, August Horch – ‘horch’, em alemão, significa ‘ouve’; em latim, ‘audi’. Da próxima vez que se sentar ao volante, já sabe: oiça. O mundo do desporto está cheio de latim, como o lema olímpico, “Citius, Altius, Fortius”, que significa “mais rápido, mais alto, mais forte”. Talvez por isso a tatuagem que David Beckham leva no braço esquerdo seja “Ut amem et foveam”, ou seja, “para que eu ame e cuide”. Fique a saber. O grego, esse, invadiu a nossa vida: a empresa Facebook transformou-se em “Meta”, que vale por ‘para além de’. “Omicron”, literalmente “pequeno o” do nosso alfabeto; “Delta” e “Beta” já entraram na lista das variantes do “coronavírus”, que, já agora, é um composto do latim, ‘coroa’ e ‘veneno’. Portanto, ‘carpe diem’, isto é, aproveitem o dia. É latim.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coroas de glória.

por FJV, em 22.12.21

Já é muito grave que o Presidente da República envie aos seus concidadãos mensagens contraditórias, oscilando entre o “comigo isto não volta atrás” e o “lá vamos voltar atrás”. O Presidente sabe que a pandemia não depende da sua boa vontade e que não ficamos mais tranquilos quando é necessário voltar com a palavra atrás. Já a senhora diretora-geral da Saúde é outro caso. Se não se lhe questiona a competência científica, é muito crítica a sua incessante falta de pontaria e sensibilidade, além da forma como, de forma deliberada, envia mensagens contraditórias – numa semana, “temos de ser felizes” e de “socializar”; na semana seguinte, estamos em emergência e em combate feroz. Sim, o vírus é imprevisível; mas os cidadãos que se vacinam e se comportam à altura merecem que a luta à pandemia não se guie pela propaganda, pela prosápia, pela vulgarização e infantilização de todos nós. Ninguém pede a estas almas que sejam heróis de um combate difícil. Pede-se-lhes que sejam sensatos e comedidos. Ninguém pode estar sempre a vencer a pandemia, recolhendo coroas de glória mês sim, mês não.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Inverno.

por FJV, em 21.12.21

O inverno começa pela música, por exemplo. O amor entre Rodolfo e Mimi, na ópera La Bohème, de Puccini (1858-1924), termina coberto de neve, mas talvez não seja a melhor forma de evocar a estação fria. Veja-se Tchaikovsky (18490-1893), que queria que a sua primeira sinfonia levasse o título de Sonhos de Inverno, e o primeiro andamento tem mesmo o subtítulo Sonhos de uma Viagem de Inverno, o que nos leva a uma das mais deliciosas peças de Franz Schubert (1797-1828), Viagem de Inverno, um conjunto de canções que evocam um amor perdido – mas a solidão de inverno aparece como nunca em Claude Debussy (1862-1918), num dos seus prelúdios de piano, Pegadas sobre a Neve. Claro que é necessário falar de Vivaldi (1678-1741), que compôs as Quatro Estações, onde o inverno encerra o ciclo. Música abundante para falar destes tempos, que podem ainda contar com canções do nosso tempo: Fifteen Feet of Pure White Snow, de Nick Cave, maravilhosa; Cold Weather Blues, do grande Muddy Waters; mas nada como a belíssima Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen (1971), um hino de melancolia.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eurico A. Cebolo.

por FJV, em 20.12.21

Do outro lado do rio (o Douro), em frente à Quinta do Vesúvio, rente à linha de água, fica Coleja – a aldeia desolada onde, em 1938, nasceu Eurico Augusto Cebolo. O seu nome evoca, para músicos amadores, autodidactas e curiosos, os livrinhos que ensinavam solfejo, bem como guitarra, acordeão, piano, flauta, bateria, bandolim ou concertina. Quem não conhece os livros de música de Eurico A. Cebolo não teve adolescência libertina ou vontade de aprender música. A sua vida teve dramas sem fim – e alegrias maiores. Do Porto a Moçambique (foi estrela da rádio) e volta, animou bailaricos, concertos e marchas populares. E a imaginação perversa de quem lia as suas histórias. Vejam os títulos, maravilhosos: Casei com a Minha Irmã, Matavam as Freiras Grávidas, Incesto sem Pecado, A Prostituta Virgem, O Violador das Mortas, A Filha do Padre ou A Santa Assassina – mais do que rom ances de cordel, uma escola de terror e sexualidade. Mestre Eurico A. Cebolo morreu na sexta-feira passada e a Câmara do Porto devia homenagear esta grande figura da cidade. Com guitarra e acordeão de honra.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ai, as estrelas.

por FJV, em 16.12.21

Vai uma grande animação com as estrelas Michelin. Por mim, não mudei de opinião sobre a natureza da medalha: ter as estrelas é bom para qualquer cozinheiro (há 26 dignos estabelecimentos portugueses que ostentam uma e 7 com duas), mas, sinceramente, uma parte das casas estreladas é uma grande, enorme e sorumbática chatice. Há dois anos, o chef Henrique Leis decidiu devolver a estrela que manteve durante 20 anos no Algarve; Marco Pierre White, aos 33 anos, devolveu as três estrelas Michelin do seu restaurante londrino – e não acredito, a avaliar pela opinião do excelente Luís M. Jorge, que Eugénie Brazier, que foi a primeira chef a ter três estrelas por duas vezes (antes do mítico Ducasse), aprovasse a ementa atual do seu mítico restaurante lionês. Durante anos instrumento da diplomacia cultural francesa, as distinções Michelin são uma excelente divulgação. Hoje, há mesmo estrelas verdes para a “cozinha sustentável”, um horror da moda, porque toda a boa cozinha é “bio”. Festejem-se as estrelas – mas mostre-se que há um belo caminho de paixão e prazer para lá da sua vigilância.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O crooner.

por FJV, em 16.12.21

Imagino-o como um crooner, um intérprete de grandes canções de amor e sedução. Uma figura no palco, vestido como um herói das orquestras dos anos cinquenta; uma elegância como já não se usa e ninguém quer repetir por vergonha e falta de jeito. Rogério Samora tinha jeito para tudo. A grande interpretação deve-a talvez a Fernando Lopes, que o escolheu (e bem) para interpretar o papel do engenheiro Palma Bravo em O Delfim, de José Cardoso Pires, um retrato da decadência portuguesa do final do salazarismo; Rogério Samora fê lo tão bem que teria afastado todos os preconceitos sobre a sua grande arte. Fernando Lopes filma Samora como um intérprete da harmonia e da desarmonia, da excitação e da depressão, do amor e da dúvida, da violência e da pacificação, da valentia e da selvajaria, sempre ao lado de Alexandra Lencastre. E, naquele papel, eu via-o como crooner, de que tinha tudo: a voz profunda e perfeita, o talento, o enigma, o carácter. António-Pedro Vasconcelos disse dele o que sempre me pareceu: um dos três grandes atores portugueses. Tenho pena, muita pena, que tivesse partido.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leonor.

por FJV, em 15.12.21

Já não me lembro de como conheci Leonor Xavier (1943-2021), mas lembro-me da impressão que me ficou daquela alegria. Eu tinha lido o seu livro sobre os portugueses no Brasil e O Ano da Travessia (1994) impressionou-me muito; na altura, eu não sabia que era essa uma das grandes virtudes da Leonor: estar sempre disponível para juntar pessoas, estender pontes, abrir portas. Não só entre Portugal e o Brasil, mas entre desavindos e desconhecidos. Em Portugal, Tempo de Paixão (2000) reuniu cem depoimentos de pessoas de trincheiras diferentes que viveram o PREC, antes de se dedicar a falar com Portugueses do Brasil & Brasileiros de Portugal (2016). Biógrafa, entrevistadora, ouvinte atenta, Leonor era alguém de fé que falava com quem não tinha fé e deixava uma marca para sempre, e a sua autobiografia, Casas Contadas, é de uma leveza consoladora e desarmante. Ontem, na missa fúnebre com que nos despedimos da Leonor, José Tolentino Mendonça falou dela como uma especialista em vida; nada tão acertado. Agora, que enfrentou o enigma e já conhece a sua face, resta-nos honrá-la com alegria.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

São João da Cruz

por FJV, em 14.12.21

Tive de ir procurar ao fundo das estantes as Poesias Completas de S. João da Cruz, traduzidas pelo grande José Bento (Assírio & Alvim). A figura de S. João da Cruz (1542-1591), que nasceu numa família de judeus conversos, é das figuras mais luminosas e obscuras do século XVI espanhol e, junto com Santa Teresa de Ávila, de quem foi amigo e cúmplice, compõem uma espécie de terramoto místico e contemplativo no catolicismo oficial da época – ambos fundaram (Santa Teresa primeiro) as suas ordens, feminina e masculina, dos Carmelitas Descalços. Perseguido, preso e novamente perseguido pelos seus pares, S. João da Cruz é mais do que um arrebatado; a sua via para a perfeição passou pela poesia em dois títulos maiores, Noite Escura e Cântico Espiritual, este último uma reinterpretação do texto bíblico (Cântico dos Cânticos), que está presente em todos os seus versos, bem como uma releitura da poesia culta do renascimento italiano, raríssima de beleza. Passando hoje 430 anos sobre a sua morte, contemplemos como ele o que nos resta de escuridão, esse caminho que é necessário atravessar.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falemos então de populismo.

por FJV, em 13.12.21

GNR identifica indivíduo em Óbidos por furto de pinhas de pinheiro-manso –  Região de Leiria

Falemos então de populismo. Por exemplo, dos facínoras que foram apanhados em Alcácer do Sal a roubar pinhas – é um roubo que não pode ficar sem castigo; o comando territorial de Setúbal da GNR emitiu um comunicado onde nos esclarecia que se tratava mesmo de pinhas de ‘Pinus pinea’, pinheiro manso, recheadas de pinhões. Ao preço a que andam, a usurpação podia chegar às duas ou três centenas de euros – e a justiça quere-se célere e universal. A notícia não me comoveu tanto como a da detenção do ex-banqueiro e ex-colecionador de arte João Rendeiro, que acompanhei nos resumos televisivos ao fim da noite de sexta-feira. Não tive paciência para o fazer antes porque, em Portugal, milhões de euros, investidores de arte e ex-banqueiros são assunto corrente na televisão, que os entrevista com regularidade – mas ladrões de pinhas têm um certo tom de heroísmo mafarrico; ainda bem que a justiça impôs termo de identidade e residência a estes meliantes de Alcácer, que se preparavam para quebrar a casca do pinhão, trabalho certamente louvável mas muito enfadonho. Que aprendam. A justiça é para todos.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A pobreza intelectual, a pobreza dos intelectuais.

por FJV, em 10.12.21

A pobreza da vida intelectual portuguesa vê-se também nisto: nenhuma ideia nova – uma que seja, desde a reforma da segurança social à necessidade de discutir os currículos do ensino secundário ou o plano nacional de barragens – transpira dos debates que antecedem as eleições que vão ocorrer daqui a mês e meio. O que significa que os “intelectuais”, ensimesmados, não estiveram muito interessados em discutir a vida e a sociedade portuguesas e, em consequência, não conseguiram influenciar nenhum dos líderes políticos incumbentes. Nem ideias novas – nem ideias, em absoluto. De uma extrema-direita muito mais abaixo do que pateta e lorpa, até à extrema-esquerda populista e moralista, passando pela “disputa pelo centro” (que corrói todo o sistema político e entrega o poder a sardanápalos cumpridores), há um vento de deterioração: questões partidárias, partilha de poder, vaidades pessoais, cartilhas debitadas para a televisão, alheamento em relação aos temas do futuro. Cabe ao Presidente falar menos sobre o dia-a-dia e fazer da sua presidência um reduto contra a banalização. Urgentemente.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Luís Cardoso, Oceanos.

por FJV, em 09.12.21

Mantendo sempre uma discrição e humildade notáveis, Luís Cardoso é autor de alguns dos melhores romances da nossa língua publicados neste século. Entre eles, o grande Requiem para o Navegador Solitário (2007), que li e reli tantas vezes, bem como O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-navegação (2013). Os livros de Luís Cardoso não são apenas histórias que colocaram Timor no mapa – são monumentos de grande beleza ficcional, sem sentimentalismo nem falsa sensibilidade ou malabarismos de estilo e de língua. Ele escreve maravilhosamente bem. Algumas das suas passagens são uma bênção para o leitor. Inventou um pós-colonialismo que não rejeita a palavra “ultramarino”, um universo em que as personagens não se atraiçoam em nome da ideologia, uma literatura sem vergonha mas com pudor, uma voz única e lírica. Em O Plantador de Abóboras (publicado pela Abysmo), que acaba de ganhar o Prémio Oceanos, Luís Cardoso reúne várias histórias que atravessam os seus mitos sobre Timor, como animais perdidos sobre a terra. É um romance belíssimo. E é uma sorte a nossa língua poder contar com ele.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

José Carlos Barros, um premiado improvável.

por FJV, em 08.12.21

A atribuição de um prémio literário para textos inéditos (portanto, ainda não lemos o livro vencedor) deixa-nos sempre suspensos: e se é para fulano ou beltrano? Ou, pior ainda, e se é para um autor totalmente desconhecido, um estreante? No caso de José Carlos Barros, que ontem venceu o Prémio Leya, o nome não diz muito aos leitores portugueses. Conheci-o como poeta; com o tempo, os seus textos ganharam densidade, vida, maturidade e um gosto singular pelas suas memórias pessoais. Os livros mais recentes, Educação das Crianças e Penélope Escreve a Ulisses são obras notáveis que o confirmam como grande autor infelizmente ignorado. Como romancista, é autor de O Prazer e o Tédio e de Um Amigo Para o Inverno, duas narrativas de uma bravíssima melancolia — uma melancolia e um lirismo de que nunca se arrepende, o que revela uma grande coragem. O que eu aprecio bastante na prosa de José Carlos Barros é o conhecimento profundo das raízes, das montanhas, árvores, animais — bem como das penumbras que habitam o coração. O prémio Leya ganhou bastante em ser atribuído a este autor. 

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O antivacinismo como infantilização tardia.

por FJV, em 07.12.21

Quando era miúdo, apanhámos pela frente a campanha anti-tuberculose. Fomos vacinados e não podíamos matricular-nos na escola sem levar o carimbo do SLAT (Serviço de Luta Antituberculosa), o que levou a que a doença esteja hoje praticamente erradicada. Outras vacinas eram obrigatórias – para benefício creio que de todos. Fazer depender de um vago conceito de liberdade individual a opção sobre tomar ou não tomar vacinas contra a Covid-19, ser ou não ser vacinado contra o sarampo, parece-me um absurdo aceitável para os dias de hoje, em que a terra é plana, o 5G não passa de uma artimanha para tornar estéril a população masculina ou há uma conspiração sionista para tomar conta do universo. Sobre os “negacionistas” portugueses, não sei se acreditam que a terra é plana – são esganiçados demais para dizerem alguma coisa com sentido. Mas ao ver pela televisão os belgas, holandeses e austríacos, tenho sentimentos controversos; o apelo em defesa da liberdade contra as vacinas ou as medidas de proteção e cautela, representam uma espécie de infantilização tardia do nosso pequeno mundo.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mozart, tantos anos depois.

por FJV, em 06.12.21

Wolfgang Amadeus Mozart - Wikiwand

Ontem foi dia de música no CCB, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa – um dos Concertos de Brandenburgo de Bach, e a 5.ª Sinfonia de Schubert, respetivamente (pelo meio, duas peças Luís de Freitas Branco). Curiosamente, na história da música, entre as harmonias de Bach (1685-1750) e a monumental peça de Schubert (1797-1828), de uma delicadeza rara, fica o génio de Mozart (1756-1791), de quem ontem, justamente, passavam 230 anos sobre a sua morte, aos 35 anos. Não seria preciso um “ensino artístico” formal para que, uma vez por outra, as nossas escolas se preocupassem com a música, por exemplo – e levassem os alunos a ouvir W. A. Mozart, com ou sem solenidade. Acredito que alguns professores o façam; tive essa sorte, no meu velho liceu, onde o professor não se limitava a exercícios de “canto coral”, e nos surpreendia com discos a meio da aula. As “condições” eram piores do que hoje, mas ouvimos Bach, uma sinfonia de Beethoven, um pouco de Schubert. E Mozart, claro. Que pena as nossas escolas serem surdas – a Mozart e ao transcendente que ele nos obriga a respirar, 230 anos depois.

Da coluna diária do CM.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/2



Ligações diretas

Os livros
No Twitter
Quetzal Editores
Crónicas impressas
Blog O Mar em Casablanca


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.