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São Salvador da Bahia de Todos os Santos, 470 anos.

por FJV, em 29.03.19

Passam hoje 470 anos sobre a fundação de São Salvador da Bahia de Todos os Santos – ou seja, a cidade de Salvador. A nossa história está ligada à da primeira capital do Brasil, estabelecida por Tomé de Sousa, o governador-geral da colónia, em 1549. Porque a conheço bem, não partilho a ideia festiva de uma “cidade alegre” e “desejável”. E, ainda hoje, mais do que a barulheira insuportável da cidade, procuro os sinais que me agradam e comovem: a passagem do Padre António Vieira, talvez certos versos de Castro Alves, e os melhores romances de Jorge Amado – além da música, naturalmente (está lá o génio miraculoso de Dorival Caymmi), e da chamada “arquitetura colonial”, um colosso. Cidade negra e misturada, Salvador é um gigantesco romance de Amado – mesmo que o não seja de verdade. Dona Flor e os Seus Dois Maridos é sublime, prodigioso; Tenda dos Milagres, um tratado de antropologia, tal como Os Pastores da Noite é um registo histórico a não perder. Pobre, sensual, histriónica, diabólica, violenta, e também divertida, a beleza impura de Salvador às vezes ainda comove perdidamente.

Da coluna diária do CM.

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Retrato da desgraça.

por FJV, em 29.03.19

Cerca de 33% dos americanos que terminam o ensino secundário nunca mais leu um livro até ao fim da vida. O número é avançado num estudo do Pew Research Center publicado recentemente. Por ele ficamos a saber que 42% dos licenciados jamais leram um livro depois da faculdade e que 70% dos adultos norte-americanos não entraram numa livraria nos últimos cinco anos. Num estudo similar regista-se que 80% das famílias norte-americanas não compraram nem leram um livro em 2018. Em resumo, nos últimos dez anos houve uma queda de 37% da venda de livros nos EUA. A situação em Portugal é, digamos, parecida. Ao contrário do que algumas boas almas apregoam, os números descem diante da passividade das chamadas instituições públicas – convencidas de que as más notícias trazem maus factos e de que o otimismo deve ser bombeado como oxigénio para incautos. Não me admira que assim seja. Ontem, a página digital e propagandística de um ministério trocava “concelho” por “conselho” e não é certamente por falta de analfabetos à solta, que andam um pouco por todo o lado. Deve ser confiança política.

Da coluna diária do CM.

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Família & famiglia.

por FJV, em 27.03.19

Admito, com sinceridade, que a maior parte dos membros do governo que nomeou familiares, amigos ou familiares de amigos e correligionários para funções no Estado não o tenha feito com base no desejo de criar uma rede de influência, poder ou puro nepotismo. Admito até que o tivessem feito por motivos de confiança política, um argumento aceitável. Simplesmente, é uma confiança que se manifesta através de redes familiares ou de amizade cúmplice. São duas gerações que ali se atravessam com as suas cumplicidades, justamente. Gente que se conhece bem, que  frequentou as mesmas escolas, os mesmos bailes, as mesmas praias, as mesmas festas de casamento, os mesmos padrinhos – e, também, os mesmos bancos de escola, os mesmos picadeiros, universidades, restaurantes da moda, ou os mesmos grupos nostálgicos de extrema-esquerda. O que pensam acerca da vida, das férias, dos amigos, das pessoas que admiram, dos sotaques e do dicionário que usam? Coisas parecidas. São as suas referências. Foi assim antes do 25 de Abril, é assim agora – os poderosos multiplicam-se uns aos outros desde cedo. 

Da coluna diária do CM.

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Mr. Chandler e Mr. Marlowe.

por FJV, em 26.03.19

Philip Marlowe, que no cinema foi interpretado por Humphrey Bogard, Robert Mitchum, James Garner, Eliot Gould ou Dick Powell, entre outros, é o detetive criado por Raymond Chandler (1888-1959) para livros como À Beira do Abismo, O Imenso Adeus ou A Dama do Lago. São obras que mudaram o rumo do chamado romance policial (até aí confinado a edições vulgares e desprestigiadas) mas, também, da literatura em geral. Chandler inventou o detetive melancólico, perdedor, cujo heroísmo não é físico, nem arenga como um fanfarrão: é uma espécie de homem perdido entre homens perdidos, capaz de amar mas sabendo que teria de atravessar um deserto cheio de tempestades. O seu génio foi ter compreendido a grande solidão dos anos 40 e 50 da América – e o fim da inocência do pós-guerra. Cineastas como Howard Hawks ou Robert Altman perceberam bem o modo como Raymond Chandler desenhava um mundo em dissolução, dando voz à tristeza e ao humor sem doçura de personagens destinados a nunca perecer. Chandler morreu há exatamente 60 anos, em San Diego, na Califórnia. Como ele há poucos.

Da coluna diária do CM.

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Lawrence Ferlinghetti fez ontem 100 anos.

por FJV, em 25.03.19

Lawrence Ferlinghetti fez ontem 100 anos. Falar deste novaiorquino que se estabeleceu em São Francisco (onde fundou a livraria e editora City Lights e foi cabeça de cartaz da geração Beat) é mais do que percorrer um século de literatura. Em Portugal há duas traduções de Ferlinghetti: um ensaio (A Poesia como Arte Insurgente) e uma antologia maravilhosa de cem páginas, Como Eu Costumava Dizer, traduzida em 1972 por José Palla e Carmo. Ferlinghetti é um caso à parte. O seu Coney Island of the Mind (de 1958) vendeu mais de um milhão de exemplares nos EUA, onde é uma espécie de grande decano da poesia, o herdeiro de Walt Whitman. Ferlinghetti é o lado tranquilo desses tempos. Os seus poemas são litanias onde ironia e melancolia nos chamam para cada passagem: “O mundo é um lugar maravilhoso/ para se nascer/ se as pessoas não se preocuparem demasiadamente/ com o facto de a felicidade nem/ sempre ser/ muito divertida.” Ou este começo, inesquecível: “Como eu costumava dizer/ o amor é mais difícil de nascer nos mais velhos/ porque já percorreram/ os mesmos caminhos muitas vezes.” 

Da coluna diária do CM.

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O tuga bacteriologicamente puro, segundo Rui Santos, conhecido antropólogo.

por FJV, em 22.03.19

O jogador Dyego Sousa nasceu no Brasil e vive em Portugal há 12 anos. Tem, por isso, a nacionalidade portuguesa. Uma pessoa que tem a nacionalidade portuguesa é português, obedece às nossas leis e aprendeu o hino. Ponto. Para mim, Deco era ribatejano e Pepe minhoto de lei. Acontece que Dyego Sousa, que é português, não troca os pés e é bom de bola; por isso, foi chamado à seleção de futebol. O jornalista Rui Santos acha (vi-o num comentário na SIC) que essa opção é errada, preferindo que a federação da bola forme o chamado “jogador português bacteriologicamente puro”. A ideia, que tem partidários ilustres, é muito supimpa. Eu, há coisas bacteriologicamente puras que me deixam estafado – e uma delas é o portuguesismo, precisamente porque uma das nossas características mais amáveis, e que fez de nós gente do mundo, é o gosto pela misturança. Já em tempos tivemos um seleccionador trapalhão que queria “portugueses legítimos”; agora temos o Rui Santos, que é bom de gramática, a querê-los “bacteriologicamente puros”. Baixotes, sisudos, branquinhos, de bigode e tal, suponho eu.

Da coluna diária do CM.

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O chuchu.

por FJV, em 21.03.19

Segundo percebi, o chuchu, simpático legume das Américas que tanto pode fazer pela nossa saúde, foi entronizado na categoria dos “superalimentos” e há uma corrida por ele nas prateleiras dos supermercados. Já comprava chuchu para a sopa, vou agora aprender a cozinhá-lo de todas as maneiras. Há tempos, o abacate, outro “superalimento”, causou uma séria tempestade nos mercados financeiros – chegou a 5 dólares a unidade – e, inclusive, assaltos a supermercados (depois de a China ter aproveitado uma crise no abacate mexicano e ter comprado 4 mil toneladas do fruto). Antes do abacate, houve a febre da batata doce (que continua), a da beringela e a dos brócolos (irrita-me que os cozam por mais de três minutos) – e uma caixa de couve galega custava em Londres cerca de 40 libras porque, lá está, era um dos “superalimentos” recomendado pelos nutricionistas. Aguardo ansiosamente pelo momento em que a abóbora-manteiga entre na lista, juntamente com os grelos, o robalo da costa de Sesimbra, e a alheira de Vinhais. O arroz de tomate também me dava jeito, pelo sim, pelo não.

Da coluna diária do CM.

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A Beira, onde estivemos e devemos estar.

por FJV, em 20.03.19

Visitei a Beira pela primeira vez nos anos de repouso a seguir à guerra civil moçambicana, nos anos noventa. Cheguei do Norte, de Nampula e da Ilha de Moçambique, e reconheci na velha cidade um “ar do tempo” e uma extraordinária capacidade de resistência às atrocidades que marcaram esses anos. Construída por gente rebelde que não acatou a ordem da natureza e a enfrentara, erguida contra as areias e os pântanos, a Beira foi sempre uma cidade nobre, altiva e corajosa. E uma bela cidade. As imagens que chegam de Moçambique mostram um rasto de destruição e de vazio: casas que desapareceram, edifícios históricos (incluindo igrejas) que ruíram, ruas que foram engolidas e devastadas, pessoas sem abrigo e sem defesa. Pior do que desolação, trata-se de horror verdadeiro. A princípio, as televisões tentaram passar sobre o desastre – que é imenso, arrasador, medonho. Para quem conheceu a Beira, e o seu litoral, não há palavras que possam mostrar a grande tristeza ou o sentimento de impotência diante daquele sofrimento. É um dever ajudar Moçambique, onde também fomos gente da terra.

Da coluna diária do CM.

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Os norte-coreanos gostam muito de levar no toutiço.

por FJV, em 19.03.19

Jerónimo de Sousa filosofando sobre a democracia.

 

Em entrevista ao jornal Polígrafo, perguntado sobre se a Coreia do Norte é ou não uma democracia, o líder do PCP achou preferível discutir “o que é uma democracia”. É uma boa solução, tanto mais que Jerónimo de Sousa não diz nada sobre a sua ideia de democracia, mantendo assim uma nuvem sobre o delicado apoio ao regime de Kim Jong-un no contexto da guerra ao imperialismo ianque. Ora, interessa sabermos o que pensa Jerónimo de Sousa sobre a natureza da democracia norte-coreana? Sim, e muito. O PCP pode argumentar (com toda a legitimidade) que não morre de amores pela democracia como nós a conhecemos (eleições, liberdade de imprensa e de expressão, escrutínio popular) e que prefere, como se suspeita, um regime autoritário, disciplinado e militarizado. Só isso explica o acrisolado amor do PCP por Estaline, manifestado em cada efeméride ligada ao ditador. Claro que Jerónimo de Sousa diz que o seu modelo seria diferente do coreano “tendo em conta a nossa cultura, a nossa história, o nosso povo”. Ora aí está. É que ao contrário de nós, os norte-coreanos gostam muito de levar no toutiço.

Da coluna diária do CM.

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Os teens pelo clima.

por FJV, em 18.03.19

Uma amiga garantiu que quatro linhas que escrevi no Twitter foram mais populares do que aquilo que ele referia. Exagero. Mas mereci. O que tinha eu escrito? Que esperava que os teens que na sexta-feira passada se manifestaram “pelo clima” e pela “salvação do planeta” também desligassem a luz e os aparelhos elétricos quando não precisassem deles, tomassem duche de cinco minutos para poupar água e espremessem a pasta de dentes como deve ser. Coisas reacionárias. Durante dois dias fui tratado de velho rezingão que usa “argumentos bafientos”, de desrespeitar os jovens, e aconselhado a preparar o jazigo porque ‘os jovens’ não iam pagar a minha reforma (um leitor anunciou que ia ‘reciclar’ um livro meu). Tentei dizer que não tinha nada contra a greve “pelo clima”, mas esperava apenas que os teen fizessem coisas simples, pequenas, que salvam a nossa vida: poupar água; poupar energia; ser simples; talvez amar a natureza; gastar menos; resistir ao consumismo. Não valia a pena; quem não é da companhia – como dizia Álvaro de Campos – e não usa a linguagem da maquineta, é um trapalhão.

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100 anos de Nat King Cole.

por FJV, em 15.03.19

De hoje até domingo há muito material para reunir a fim de celebrar os 100 anos de Nat King Cole, que nasceu em a 17 de março de 1919, no Alabama – um território onde nunca mais cantaria depois de, em 1956, um grupo racista o ter atacado em pleno palco (aliás, Cole nunca mais atuou nos estados sulistas americanos). Foi o primeiro negro americano a ter esta popularidade nacional. Hoje, recordamos mais as suas grandes canções da década de 50 (como ‘Unforgettable’, ‘Mona Lisa’, ‘Stardust’ ) e menos os discos do início da carreira, como The King Cole Trio, onde há tanto a versão de ‘Embraceable You’, o clássico de Ghershwin como temas de Cole Porter ou do próprio Nat Cole – mas vale a pena escutar essas gravações mais antigas, que estão à venda por bons preços. Pianista de eleição (estudou música com aplicação), é a sua voz que o distingue: melodiosa, lasciva, brincalhona, frequentemente cheia de modulações que a nós nos parecem sempre estivais e onde parecia não haver sofrimento nem perda. No domingo, os 100 anos de Nat King Cole merecem ser comemorados com um concerto pessoal.

Da coluna diária do CM.

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Falar de Glauber Rocha é como estar fora do mundo.

por FJV, em 14.03.19

Hoje, no dia seguinte ao massacre numa escola de São Paulo, falar de Glauber Rocha é como estar fora do mundo – mas vale a pena recordar o nome e os filmes deste realizador brasileiro nascido há 80 anos (1939-1981), assinalados hoje. Durante muito tempo, Glauber foi sinónimo de ‘cinema brasileiro’ e, também, de oposição ao regime militar. Saiu em 1971 do Brasil, até ficar doente em Sintra, onde estava exilado, em 1971; basicamente, regressou ao Brasil para morrer. Antes disso, realizou em 1967 Terra em Transe (de 1967), o seu filme mais emblemático, com atores de primeira ordem (Paulo Autran, Paulo Gracindo, Mário Lago, Danuza, José Lewgoy, Carvana), um modo de filmar inovador e um argumento político estapafúrdio e surreal, o que lhe valeu ser premiado em Cannes e em Locarno. Negro e branco, enevoado, em planos deslocados, o seu cinema (Antonioni adorava-o, sobretudo a A Idade da Terra, de 1980) é hoje uma velharia técnica e ideológica, que revejo com um misto de prazer e de nostalgia. Morrendo aos 42 anos, Glauber é uma lenda viva e tremenda, uma das referências do Brasil.

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Porque é que me custa dizer “o Marcelo”.

por FJV, em 12.03.19

A unanimidade que se abateu (uso de propósito a palavra “abateu”) sobre o Presidente da República deixa uma impressão tripla: a de que estamos diante de um caso único de popularidade entre nós, que somos rápidos a criticar seja quem for; a de que a viagem do Presidente veio no momento certo, depois de uma ligeira erosão da sua boa imagem nas sondagens; a de que “Marcelo” salvou as nossas relações com Angola. As três ilações são verdadeiras. Mas resta uma quarta: a irritação que causa, em gente normal, esta unanimidade cheia de elogios banais, de ditirambos vazios sobre a sensibilidade, o afeto, a “ligação às massas”, a empatia que “Marcelo” gera nas multidões, o desprezo pela solenidade. A verdade é que “Marcelo” entendeu perfeitamente como se gere um povo ciclotímico, oscilante e sedento de gestos de “afeto” (uma palavra que se tornou detestável). Da elite lisboeta, que “Marcelo” desdenha com graça e oportunismo, ele é dos poucos que compreendeu o caráter frágil, desprotegido e abandonado dos portugueses. O que é uma virtude – e pode ser um perigo tremendo, se lhe dá para o mal.

Da coluna diária do CM.

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A luta pelo Sr. Magalhães.

por FJV, em 11.03.19

A Real Academia de História do país vizinho determinou que a viagem de Magalhães à volta do mundo é totalmente espanhola: “É incontestável a plena e exclusiva espanholidade do empreendimento”, assim termina a declaração, pedida pelo jornal ABC, que reagia à “ilegítima apropriação por parte das autoridades portuguesas da paternidade da expedição”. Há aqui uma parte de verdade: os espanhóis pagaram a viagem, os portugueses tentaram impedi-la; em vida, os espanhóis honraram Magalhães, Portugal chamarou-lhe “renegado” e “traidor”. Episódios da guerra dos oceanos. Outra verdade: toda esta confusão nasceu do orgulho da terra natal de Magalhães em publicitar as origens do seu filho, e do atavismo rudimentar das autoridades ibéricas, que não prepararam as coisas com juízo. E outra ainda, estapafúrdia: como Magalhães era português de origem, logo é o melhor do mundo – e é nosso, caneco; toca a nacionalizá-lo em definitivo. É como marcar um golo com a mão, no último minuto, em fora de jogo e precedido de falta sobre o guarda-redes. O que, sendo ilegal, tem a sua graça – tratando-se de Espanha.

Da coluna diária do CM.

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A paixão pela educação finlandesa, outra lenda.

por FJV, em 08.03.19

O tempo, esse grande escultor. Evoquemos esse título de Marguerite Yourcenar para falar da entrevista que Tim Oates, especialista de Cambridge em avaliação educativa, deu ao Observador. Um dos temas foi o do ‘milagre finlandês’, uma espécie de paraíso de todos os pedagogos de hoje. Oates disse mais ou menos isto: que duvidava. E que a Finlândia esteve no topo dos inquéritos internacionais de literacia pelo trabalho que realizou durante anos e anis (com avaliação, trabalho, qualidade dos manuais escolares, rigor), e não por causa do que se diz que a Finlândia faz hoje em dia, a começar pelo abandono dos exames e da superficialização do trabalho na sala de aula. Além disso, deu como exemplos o trabalho que se faz em algumas regiões da Ásia. O tempo trabalha devagar. São necessárias décadas para colher os frutos de muito trabalho no sistema de aprendizagem – que não tem nada a ver com os ciclos eleitorais. Provavelmente, o que se diz “que a Finlândia está a fazer” já não é o que tornou a Finlândia um exemplo. Esse é o risco de quem quer mudar o mundo demasiado depressa.

Da coluna diária do CM.

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Tagarelas.

por FJV, em 06.03.19

Presidentes que usam o Twitter para comunicar, insultar, responder, altercar ou bambolear-se. Ministros que anunciam medidas falsas ou incorretas no Facebook. Líderes europeus que parecem baratas tontas a falar do paraíso em 200 caracteres no Twitter e em fotos disparatadas “nas redes”. Nisto estamos. É certo que a leitora e o leitor veem em mim um cavernícola que não usa Facebook nem publica fotos de família no Instagram, e isso fará de mim um espécime caturra e fora de moda – mas aviso-os de que chegará o dia em que haverá gente a correr para “as redes” a fim de apagar o rasto: uma palavra que deixa eco, uma indiscrição que foi (mal) cometida, uma armadilha que faz efeito dias depois. Quem não se divertiu já a vigiar o passado das ‘figuras públicas’? Uns, porque desprezam a privacidade, o recato e o anonimato; outros porque, apesar de presidentes e líderes políticos, se desequilibram com facilidade, incapazes de guardar recato ou de ter juízo (ou porque não conseguem escrever mais do que um tweet) – o festim nu do nosso tempo está aí, à vista de todos. Não é um grande espetáculo.

Da coluna diária do CM.

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O Carnaval e o Entrudo e a Quaresma.

por FJV, em 05.03.19

Parece, portanto, que Saturno expulsou Júpiter e chegou ao Lácio para trazer consigo a prosperidade e a liberdade; as festas comemorativas desse momento, as Saturnais, tal como as Dionisíacas, que celebravam o novo vinho do ano, o final do inverno e a inversão das hierarquias sociais, estão na base – longinquamente – do Carnaval de hoje, antes da chegada do samba gelado destes dias. Peço desculpa aos “foliões”, mas não há coisa mais ridícula do que participar em desfiles plagiados do carnaval do verão carioca (que nunca chegou aos pés das festas de junho no Amazonas, o Boi Bumbá) em pleno vendaval chuvoso da Lusitânia. Eu sei: para sermos tradicionalistas devíamos celebrar o Entrudo, mas estamos sedentos de verão ou, pelo menos, dos primeiros ardores da primavera (ainda vem aí o cieiro gelado da Páscoa). A ideia básica é mesmo essa: divirtam-se, sejam indecorosos, vem aí a Quaresma e – para sermos totalmente pagãos – um longo período até às férias do Verão. Uma coisa é certa: mesmo mudando a data do Carnaval, eu sei com meses de antecedência que vai fazer mau tempo. Como se vê.

Da coluna diária do CM.

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O senhor juiz, 2.

por FJV, em 04.03.19

A violência, o assédio e o abuso sexuais, bem como a pedofilia, são crimes hediondos. O problema é que o juiz Neto de Moura – que vai processar uma série de gente que o criticou asperamente – não é deste mundo. Não compreendeu o óbvio: as suas decisões teriam efeitos secundários perniciosos e um agravamento da violência sobre as vítimas (mulheres alvo de energúmenos); os homens que saíram beneficiados das suas sentenças e acórdãos cometeram faltas graves aos olhos da sociedade – e da lei; a violência de um homem sobre uma mulher é sempre indesculpável e um crime agravado, ao qual é necessário pôr termo com urgência. Podia continuar a enumerar razões pelas quais o juiz Neto de Moura devia ser afastado de processos desta natureza – mas os leitores já o perceberam há muito, e não compreendem como pode a justiça (por mais engenharia jurídica que encontre) proteger bárbaros que perseguem, ameaçam, violentam e aniquilam. Ora, um juiz – por muito que cohabite com os seus códigos – deve também ser contemporâneo dos seus contemporâneos e merecer-lhes a confiança. Não é o caso.

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A revolução que devorou os seus filhos mais depressa do que as outras.

por FJV, em 02.03.19

Para uma nova época revolucionária destinada a criar o “socialismo proletário” – o grande desafio – era necessária uma organização poderosa construída “sob o rugido das metralhadoras, o derrube das catedrais e o discurso patriótico dos lacaios do capital”. Em 1915, era assim que Trotsky definia os objetivos do que viria a ser a Internacional Comunista (para entendidos, a Terceira Internacional ou Comintern), cuja primeiro congresso decorreu em Moscovo, a 2 de março de 2019 – passam amanhã cem anos (a ‘secção portuguesa’ seria anunciada dois anos depois). A presidir aos trabalhos, Lenine, acompanhado de uma equipa onde estavam os nomes de Trotsky, Zinoviev, Rakovsky ou Victor Serge. Curioso destino: Trotsky, deportado e rebaixado a “inimigo do povo” por Estaline, foi assassinado em 1940, no exílio; Zinoviev foi executado em 1936 (no processo conjunto com Kamenev); Serge morreu exilado no México, em 1947; e Rakovsky foi fuzilado em 1941, depois de condenado a 20 anos (com Bukharine, Yagoda ou Rykov). Com método e afinco, a revolução devoraria os seus filhos. E os dos outros.

Da coluna diária do CM.

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