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Violências.

por FJV, em 31.01.19

Os problemas “de violência” gerados na última semana merecem alguma reflexão para além da condenação. Em primeiro lugar, pelo seu aproveitamento político, porque convém muito à extrema-direita e à extrema-esquerda terem o “voto das ruas” expressos por bandos de adolescentes que queimam eco-pontos e atiram pedras à polícia ou aos carros de bombeiros – cada um quer os seus “coletes amarelos” a ocupar os média. Em segundo lugar, porque expõem a ferida aberta num país que gerou semi-favelas onde fervem a pobreza, a falta de Estado e a formação de guetos onde se alojam portugueses de origem africana. O racismo é uma reação desprezível e devemos condená-lo; infelizmente, ele floresce tanto com a pobreza como com a falta de educação e de humanidade (e não nas elites urbanas que evocam o seu ‘tom de pele’). É importante que a negritude (um conceito a revisitar) seja também uma das marcas da identidade portuguesa. Pretos ou brancos – são portugueses. E amarelos. Só dessa forma o Estado pode exigir o cumprimento da lei. Colorir Portugal é uma obrigação moral e política. 

Da coluna diária do CM.

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Humor

por FJV, em 30.01.19

Num dos seus livros dedicados à história dos intelectuais, o historiador Paul Johnson – conhecido tanto pela sua erudição como pela sua verve – faz um elogio aos humoristas: que, sem eles, a vida seria muito mais desagradável e desinteressante; e que o humor é também um espelho de inteligência (e, muitas vezes, de sabedoria). Ora, a verdade é que o mundo está cheio de chatos. Vemos na televisão, por exemplo, gente que passa uma noite a discutir futebol sem um pingo de humor; comentadores incapazes de uma curva flexível no seu ar professoral; exaltados a quem faria bem uma gargalhada – e que, quando riem, arrastam uma casquinada metálica onde o sarcasmo se funde com um certo “desejo de mal”. Gente que não ri é incapaz de humanidade; geralmente são pessoas pouco inteligentes que mascaram o défice neuronal com um ar de pregador amargurado. Levantam o dedinho, praticam uma sobranceria desajeitada ou, pior ainda, simulam a “necessidade de respeitar” (o tal respeitinho) instituições. O humor é uma bênção da inteligência – e uma espécie de atestado que prova a existência da vida.

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Portugal tem de pertencer à mesma gente e geração de sempre?

por FJV, em 29.01.19

Houve grande burburinho por causa da nomeação do portalegrense João Miguel Tavares como presidente da comissão organizadora do próximo 10 de Junho; a indignação foi pífia e resume-se a uma espécie de “ele não pertence ao nosso grupo”, acrescido de “só os nossos podem comandar o 10 de Junho”. Por princípio (a data tem uma carga simbólica importante, mas não me comove ao ponte de assistir aos desfiles), não tenho nada contra os anteriores nomeados; mas esta reação contra JMT revela mais do que água no bico: um segregacionismo classista muito típico da política, da academia e do incesto social a que o país se entrega. A ideia de que as comemorações pertencem à mesma gente e geração de sempre (tal como o regime tem os seus proprietários e capatazes comanditados, formados na mesma universidade e frequentando as mesmas amizades) é reveladora do quanto a nomeação de JMT chocou aquelas almas. Pode o país dos priminhos suportar isto? Pode, claro – mas com um nó na garganta inflamada de tanto despeito. A nomeação de JMT foi, por isso, importante para todos. Oxalá faça bom trabalho.

Da coluna diária do CM.

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O tom de pele.

por FJV, em 28.01.19

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O tom de pele do primeiro-ministro (PM), que o próprio invocou no parlamento, não me incomoda; pelo contrário, enobrece-me como português. Porque, ao contrário de sociedades onde o racismo foi lei escrita e onde o debate sobre “a raça” é hoje uma obsessão justicialista, nunca se levantou “o problema” da origem índica do PM. Os meus ancestrais, por exemplo, não vêm dos Ibn Egas do sul, mas com toda a probabilidade do leste iraniano ou indiano, nomeadamente; eram gente que atravessou meio continente em caravanas mantendo o tom da pele, de que me orgulho. O problema não é o do tom da pele, aliás – há “castas sociais elevadíssimas” com o tom de pele do PM, tão racistas, supremacistas ou plebeias (na verdade, são as mais racistas e segregacionistas, como sabemos) como a dos eslavos, dos khazares ou dos chineses. Inventar um problema de tom de pele é inteligente, mas para idiotas. É como se disséssemos que o PM respondeu daquela forma exaltada à líder da oposição no parlamento porque ela era mulher e porque, ao seu lado, na bancada, tinha um deputado negro. Mas não vamos dizer isso.

Da coluna diária do CM.

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Venezuela, os dias do fim.

por FJV, em 25.01.19

O regime caudilhista e populista de Hugo Chavez (“socialismo do século XXI”, como teorizou o alemão Heinz Dieterich Stefan, o seu inspirador e assessor até 2007) entrou em ruína há muito tempo, depois de ter transformado a Venezuela num salão de festas onde tocava uma orquestra de doidos que roubava o que podia e desafinava com obstinação (o segundo maestro dessa orquestra, Nicolás Maduro, era o doido mais aplicado e parlapatão) e à vista de todos. Não apenas transformou a Venezuela num país pobre e humilhado como instituiu a censura, a perseguição política, a pobreza, o militarismo e o roubo, com apoios ideológicos patetas de europeus que gostam de brincar ao socialismo. Aquilo a que estamos a assistir no país não é motivo para festejos, a menos que Maduro saia pelo próprio pé – para ser recolhido num reformatório cubano ou russo, cheio de ex-leninistas, ex-trotsquistas e um fantasma sonâmbulo de Bolívar. Até lá, com os EUA de um lado e a Rússia do outro, além de um país empobrecido e um povo cansado (que precisa de apoio humanitário), tem tudo para correr mal. Oxalá me engane.

Da coluna diária do CM.

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O caso do Bairro da Jamaica.

por FJV, em 24.01.19

Volto ao tema de ontem – o caso do Bairro da Jamaica – mas não para comentar as declarações trapalhonas (apressadas e imbecis) de Joana Mortágua e de Mamadou Ba, às quais voltarei. O que é assustador é que os oficiais do regime continuam a debater a questão do racismo quando o problema é sobretudo o da pobreza e da degradação. Percebe-se muito bem que o PCP tenha dito que não quer “alimentar a intranquilidade” porque o seu município-bandeira, o Seixal (44 anos na câmara), mantém a vergonha de Vale de Chícharos, ou Jamaica. A história do bairro é lastimável. A sua origem é criminosa. Tem pelo meio as palavras ‘abandono’, ‘gueto’, ‘miséria’ e ‘marginalização’. Foi para lá que enviaram e se refugiaram os negros – e, na penumbra (porque o Estado ali não entra a não ser de capacete), toda a espécie de criminalidade. Entretanto, o bairro vive naquelas condições, o que nos deveria envergonhar a todos, mas sobretudo a autarquia; com tanto lerolero, já devia ter sido demolido e encontrada uma solução para os seus moradores. Não é preciso pensar muito para ver que é a única hipótese.

Da coluna diária do CM.

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O Bairro da Jamaica.

por FJV, em 22.01.19

Os ‘acontecimentos’ no Bairro da Jamaica, no Seixal, reduzem-se hoje aos confrontos entre a polícia e alguns dos seus moradores – mas não deviam. Quando Bruno Vieira Amaral publicou o romance As Primeiras Coisas (2013), centrando a ação no ‘Bairro Amélia’ (no Vale da Amoreira, Moita), o “país literário” descobriu – maravilhado – o mundo cercado dos subúrbios de Lisboa na Margem Sul que não era a futura chique Lisbon South Bay. Também podiam ter ido aos bairros da Bela Vista, em Setúbal, ao Pinheiro Torres, no Porto, ou ao 6 de Maio, na Amadora. Estes bairros, entre outros, são identificados como “problemáticos”, o que é uma designação cretina – como se os seus habitantes estivessem destinados a “causar problemas”, quando o problema mais sério é o de um país em que o Estado se ausenta dos lugares onde deve estar, para providenciar segurança para todos. Mas também para impedir que a pobreza e a discriminação cresçam de mãos dadas, uma na sombra da outra. A ninguém ocorreu, nestes dois dias, que o verdadeiro problema é o da necessidade de acabar com esses bairros e a sua degradação?

Da coluna diária do CM.

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Quem pôs a mão na Caixa?

por FJV, em 22.01.19

Joana Amaral Dias revelou, no domingo à noite (na CMTV), o relatório preliminar da auditoria à Caixa Geral de Depósitos. Não sei se assistiram. Vale a pena. Com a leitura suplementar do livro de Helena Garrido, Quem Pôs a Mão na Caixa? A História que Envergonha o País (Contraponto), são dois documentos importantes para compreender o Portugal contemporâneo e a forma como 1200 milhões de euros (além de outras centenas de milhões de permeio) se evaporaram entre favores, violação das regras de concessão de crédito, jogos de risco e outras irregularidades. Confirma-se que parte do empresariado lusitano vive não só à sombra do Estado mas de conluio obsceno com os incumbentes de ocasião. Trocam favores, claro; mas também casamentos, conveniências e perdas de juízo – uma endogamia perfeita, protegida por vários segredos cujo conhecimento envergonharia toda a gente. A história do banco público é parte dessa vergonha milionária. No entanto, se o leitor tem mais de 50 mil euros num banco, o fisco considera-o um ricaço tremendo e coloca-o na sua lista de vigilância. Brava gente. Bravíssima.

Da coluna diária do CM.

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Magalhães português e Magallanes espanhol.

por FJV, em 21.01.19

Lá para o fim do ano, quando se assinalarem os 500 da viagem de Fernão de Magalhães (um português ao serviço de Espanha) à volta do mundo, há de ouvir-se o ribombar de canhões ao longo da fronteira. A coisa agrada-me. Em setembro passado, Portugal e Espanha anunciaram que cada país teria uma exposição para assinalar o feito – e que, depois, muito amigos, se reuniriam numa só, de braço dado, mostrando que a amizade ibérica é coisa de antanho. Não é. A figura de Magalhães – como a de Colombo – já deu azo a muita asneira e a vários tomos de conspiração sobre os descobrimentos e a primazia de um e outro país nas conquistas de além-mar. Os espanhóis, que anunciaram a “dupla exposição” com serenidade e displicência, acham agora que Portugal (que tem uma “estrutura de missão” para comemorar o feito) ignorou Espanha nos seus papéis enviados à Unesco, de onde não sairão; têm razão, até porque D. Manuel I perseguiu Magalhães até onde pôde (é uma das vítimas da pátria). Mas, caramba, somos os melhores do mundo e ele era portuga; este provincianismo há de queimar-nos, como de costume.

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Mau tempo no canal.

por FJV, em 18.01.19

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Vitorino Nemésio começou a escrever o romance Mau Tempo no Canal em Bruxelas, a 17 de janeiro de 1838, passaram ontem 81 anos (terminou-o em 1944, ano que foi publicado). É o último dos grandes romances portugueses – mesmo se, depois dele, houve títulos como A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, O Delfim, de José Cardoso Pires, Os Meninos de Oiro, de Agustina Bessa-Luís, Para Sempre, de Vergílio Ferreira, ou Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes. A galeria de personagens de Mau Tempo no Canal é grandiosa; as paisagens e os momentos dramáticos são irrepetíveis; Margarida Clark Dulmo, a personagem principal, entra na eternidade da nossa literatura pela porta maior, como uma meteorologia resgatada para nosso deleite e melancolia. Nunca mais houve, até agora, romance como este – uma ventania de beleza que vem dos Açores e nos arrebata até ao fim, com os seus momentos de tragédia e perfeição. Devia ser lido e estudado nas escolas. Ter-se-iam evitado muitos maus escritores. E criado mais leitores.

Da coluna diária do CM.

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As ameaças do Maligno.

por FJV, em 17.01.19

Devemos defender-nos das ameaças do Maligno. Ontem, enquanto lia as reações disparatadas a um anúncio da Gilette (no qual a marca de lâminas de barbear insiste que se pode ser homem sem se ser idiota ou alarve), deparei com as regras de uma empresa do “ramo cinematográfico” para o comportamento dos seus funcionários, a Netflix – uma delas dizia respeito ao ‘namorico e era simples: não namoriques. Não me parece mal; uma empresa é uma empresa. Outra, porém, é decisiva para falarmos dos tempos que correm: não olhes para ninguém mais do que cinco segundos e não dês abraços. Devemos defender-nos dos abraços e dos embaraços do Maligno – evidentemente –, mas já me parece um abuso decretar que olhar nos olhos outra pessoa do sexo oposto (sou pessoa antiga, ainda escrevo “sexo oposto” em vez de “género diferente”) pode levar a abuso e a assédio. Olhemos para o chão. Olhemos para as unhas. Do outro lado há uma ameaça latente e nós (todos nós) somos seres despertos para a inconveniência, incapazes de resistir à brutalidade e à devassidão. Mais ou menos isto; um mundo de doidos.

Da coluna diária do CM.

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Voto secreto.

por FJV, em 16.01.19

Os ‘conselheiros’ do PSD estão divididos sobre a marcação do Conselho Nacional, CN, do partido para amanhã, às 17h00. Ora bem, não têm razão; as 17h00 estão bem para acabar o dia (parte delas não têm emprego propriamente dito): as pessoas reúnem-se, confraternizam, levantam o braço, tomam um mazagrã – e vão para casa calmamente, calçar as pantufas, e ver que imagens foram colhidas pelas televisões nos restaurantes da Mealhada ou na Cufra (onde costumam parar, de viagem), de que forma Luís Montenegro foi trucidado, como os motojornalistas acompanharam a ida de Rui Rio até ao CN, que lances polémicos merecem contestação depois de melhor vistas as repetições, o normal, enquanto não chega a sopa. Claro que, a mim, o que me espanta é ver certas pessoas a defender votações de braço no ar – porque já os vi, compungidos e anti-soviéticos, contestar votações de braço no ar noutros partidos. Este é o pormenor (“nominalmente, com uma chamada individual de cada um dos conselheiros”) que me faz espécie, mas compreendo-o: quando é para fuzilamentos, que seja um de cada vez.

Da coluna diária do CM.

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Estruturalmente.

por FJV, em 15.01.19

A palavra usada por Rui Rio para desafiar os seus críticos e pedir-lhes que saiam do pobre partido a que preside é “estruturalmente”: “Aqueles que discordam estruturalmente devem sair do PSD.” Rio não sabe o que isso quer dizer. A prova é que, em poucos meses, transformou um partido num saco de gatos, obediente, dividido e incapaz de qualquer coisa notável ou digna de nobreza – e, sobretudo, impreparado para sair do pequeno albergue de gente mediana em que ele talvez gostasse de transformar o país. Acontece que, “estruturalmente”, o PSD – mesmo com os seus pecados, a sua gula, a sua cupidez – sempre teve gestos de grandeza para com os seus críticos internos. E, quando não os teve, perdeu o país (como está a acontecer-lhe). “Estruturalmente”, essa é a verdade, Rio conduz o PSD para o “velho PSD” – espertinho e cauteloso, mostrando que irá aproveitar oportunidades mas que é incapaz de deixar de ser “o outro partido do Estado”, que há-de acabar por querer gerir, ou vigiar (para isso tem lá gente), como uma Junta de Freguesia. “Estruturalmente” é assim que as coisas se estão a passar.

Da coluna diária do CM.

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A censura que esbarra na beleza.

por FJV, em 14.01.19

Por vários motivos veio parar-me às mãos um parecer dos serviços da PIDE, datado de 4 de outubro de 1966 (é o relatório n.º 7.882), relativo a Dona Flor e os seus Dois Maridos, sem dúvida um dos melhores, senão o melhor romance de Jorge Amado. O ‘leitor’ (é assim que ele assina, como um crítico literário encartado pela polícia política) Estêvão Martins aparece rendido ao livro, que é picante: “Romance cem por cento brasileiro de índole muito maliciosa em que são descritas algumas cenas pouco edificantes, senão imorais.” Bastaria isto para proibir o livro? Sim. Mas o colaborador da PIDE leu as cenas entre D. Flor e Vadinho, o defunto licencioso que regressa do Além para importunar os desejos da esposa – e não resiste: “Porém, a beleza da prosa e a delicadeza com que são apresentadas as brejeirices forçam-nos a uma certa condescendência favorável na nossa apreciação.” O texto é curto mas uma peça maravilhosa de “juízo literário”. A esta distância, Estêvão Martins, ai dele, merece a nossa simpatia: em nome da beleza e da “categoria literária do autor” salvou um livro das masmorras.

Da coluna diária do CM.

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Para já, multemos.

por FJV, em 11.01.19

Em Singapura a multa para quem deitar uma ponta de cigarro na rua é bastante alta; também está banida a venda livre de pastilha elástica para que não acabe no chão, pisada e eternizada (andar nu em casa também é punido, mas isso é outro assunto). É Singapura. Em Lisboa, de acordo com as regras anunciadas ontem pela Câmara, as multas também são pesadas para quem deite beatas e pastilhas para o chão (e para os estabelecimentos comerciais que não disponham de cinzeiros públicos, por exemplo) – estas medidas são acompanhadas de muitas outras sobre a utilização de plástico ou recolha de lixo, por exemplo. É uma boa lista. Lisboa merece ser mais limpa. Há anos, Vasco Pulido Valente perguntava-se: Lisboa é suja porque é suja ou porque os lisboetas a sujam? A pergunta tem razão de ser. Tenho tendência para fazer piadas sobre multas desta natureza (não sei se são inconstitucionais, aliás), porque geralmente é o Estado que não cumpre os regulamentos. Ontem, fiz piadas com isto, sim: é a câmara de uma cidade suja que lança multas sobre quem faz lixo. Mas guardei a beata numa caixinha.

Da coluna diária do CM.

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As novas rotas da seda.

por FJV, em 10.01.19

O novo livro de Bruno Maçães, Belt and Road, A Chinese World Order, acabado de publicar em Inglaterra, é um prodígio de informação e de inteligência. Mostra como a China tenciona refazer a economia mundial e as relações culturais através de uma rede de comunicações, influências e ocupação do espaço. A ideia de “transporte” é múltipla, reconstruindo as rotas que há séculos fizeram da seda e da porcelana instrumentos do poderio económico chinês. É esse também o tema do recente livro do historiador Peter Frankopan, The New Silk Roads (já tinha escrito As Rotas da Seda, Relógio d’Água) – onde os caminhos de antigamente levavam a Roma, levam agora a Pequim, que tenta fazer amigos em todo o lado, ao contrário dos EUA (um país cada vez mais isolado). Para Frankopan, este será um “século asiático” (tese de Maçães, em ‘O Despertar da Eurásia’, já publicado pela Temas e Debates) – e cético em relação às virtudes da democracia. Entre nós, o pobre racismo anti-chinês impede-nos de apreciar o nascimento de um mundo novo, perigoso e desconhecido.

Da coluna diária do CM.

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Um país que quer ser civilizado pondo-se nos bicos dos pés.

por FJV, em 09.01.19

A manchete de ontem do CM faz-nos pensar num país condenado; três anos de espera por uma consulta de cardiologia no SNS é tempo suficiente para se morrer. Não é preciso ser doente cardíaco para perceber a enormidade – três anos, para qualquer coisa (para qualquer consulta médica), é tempo a mais. Na aldeia da minha mãe, em Trás-os-Montes, perto de Vinhais, morria-se sem perceber de quê, porque não havia médicos nem hospital à mão, e quem queria uma consulta andava a pé cerca de dez quilómetros. Mas esse não era – nem poderia ser, nunca – o país da Web Summit ou das trotinetas. A afirmação é, como se diz agora, populista – porque a Web Summit e as trotinetas podem coexistir com um país em que os seus cidadãos e contribuintes podem ter consultas de cardiologia em menos de três anos e os habitantes de Pedrógão ver as suas casas reconstruídas em menos tempo do que aquele que sabemos. Eu sei que uma das soluções é deixar morrer as pessoas que esperam três anos por uma consulta de cardiologia, mas talvez isso não seja bom num país que quer ser civilizado pondo-se nos bicos dos pés.

Da coluna diária do CM.

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Andra no fio da navalha.

por FJV, em 08.01.19

Em fevereiro de 2017, o Presidente da República ligou para a Rádio Comercial para dar os parabéns ao aniversariante Pedro Ribeiro – em direto. Dois anos depois liga para a emissão de Cristina Ferreira, que estreava na SIC. Vá lá: quem não quer que o Presidente ligue? Daqui a uns tempos, tenho certas dúvidas: cuidado, “o Marcelo” pode aparecer, fechem a porta, desliguem o telefone! Estou a exagerar, naturalmente. Quem não quer que o Presidente vá lá a casa beber uma ginjinha em direto? Uma selfie? Um cozido à portuguesa? Um mergulho no açude? Um fino? Estou a exagerar de novo, peço desculpa. Esqueço-me de que se trata do Presidente da República, não “do Marcelo” – e que devemos, em todas as circunstâncias, respeitar o papel e o estatuto do Presidente da República. Mesmo “o Marcelo” merece alguma travagem nos ímpetos mais populares. Afinal de contas, “o Marcelo” é o Presidente da República – mesmo que sejam, aparentemente, duas pessoas diferentes. O problema é que andar no fio da navalha é uma atividade demasiado perigosa para ser praticada pelo Presidente, de quem todos dependemos.

Da coluna diária do CM.

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O Estado que falha.

por FJV, em 07.01.19

Porque é que o Estado falha? Porque dedica parte do seu esforço a lidar com coisas que não têm a ver com as suas funções – e esquece uma das essenciais: estar presente onde é mais necessário. Veja-se a questão do frio. Todos os anos as tvs alertam, com a Proteção Civil, para as ‘vagas de frio’. Para quem já viveu em países moderadamente frios, a questão tem graça. As temperaturas em Portugal não ultrapassam os cinco ou seis negativos, tirando casos excecionais. O problema não está na ‘vagas de frio’ mas na forma como julgamos ser um país de ‘clima temperado’; em segundo lugar, como o Estado deixou que “a construção” enriquecesse vendendo casas mal preparadas para as oscilações de temperatura, húmidas, com maus acabamentos, sem aquecimento, escoamento de lixo, sem jardins ou qualidade de acessos. Desde os anos setenta até hoje, os mais pobres de nós têm mais acesso a casa – mas grande percentagem dessas casas é má ou degrada-se facilmente. É mais fácil ‘protestar’ contra a vaga de frio (porque não depende de nós) do que contra casas mal construídas. Sim, o Estado falhou.

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Évora Monte.

por FJV, em 04.01.19

Esta semana, aproveitando a luz do sol, fui até Évora Monte; a paisagem é deslumbrante, vista do castelo – a Serra d’Ossa, as colinas que separam Estremoz de Borba ou o pico de luz que se estende até Évora; e, quanto à história, propriamente dita, não preciso de dizer muito – desde as muralhas construídas durante o reinado de D. Dinis até à Concessão de Évora Monte em maio de 1834, encerrando a guerra civil, há sinais que nunca se perderam. E, de facto, lá está a placa, na modesta casa de Joaquim António Saramago, assinalando o restabelecimento da paz. A meio das “férias de final de ano” as muralhas de Évora Monte guardavam um silêncio melancólico (havia mais dois visitantes a caminhar pelas ruas de empedrado) – mas pouco justo para o lugar, que é o da sede inaugural do regime que moldou o Portugal moderno. Sem Évora Monte e o seu acordo honroso, a tragédia da guerra talvez consumisse mais tempo e mais vidas. Por isso, é estranho que tão pouca gente visite estas muralhas, estas ruas e as suas penumbras abandonadas num dos lugares mais simbólicos (e mais belos) da nossa história. 

Da coluna diária do CM.

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Bolsonaro.

por FJV, em 03.01.19
A deputada Joana Mortágua assinalou anteontem no Twitter dois eventos paralelos: o início do ano e o fim do Brasil. Determinar que um país com a história — épica e rocambolesca — do Brasil pode “terminar” desta forma abrupta depois da eleição democrática de um presidente da República, é um manifesto exagero literário. Não vale a pena debater as razões que levaram à eleição de Bolsonaro, um fanfarrão que, mesmo assim, foi escolhido como um mal menor depois de a corrupção e a degradação da vida quotidiana tomarem proporções quase trágicas. Daqui a cinco anos, ou Bolsonaro estará em vias de ser corrido (como espero), ou — para Joana Mortágua — alguma coisa falhou de novo. Ora, “o fim do Brasil” pode bem ser o título de uma comédia com vários anos de palco, e uma das explicações pode ter a ver com a ausência de um sector moderado forte, esclarecido e pouco permeável ao populismo, representado pelo bolsonarismo (que, no meio de algumas propostas patetas, ainda não sabemos como se sairá) ou pelo lulismo (que conduziu o Brasil a um crescimento negativo em tudo exceto na corrupção).

Da coluna diária do CM.

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Marcha das mulheres.

por FJV, em 02.01.19

Não tenho, ao contrário das pessoas em geral, previsões para o ano (além dos três fins-de-semana prolongados e da bela ideia de negociar cinco pontes em doze meses) – nem tomei grandes decisões. Um ano novo continuará a ser uma extensão dos pecados do anterior, como acontece nas trapalhadas das “guerras culturais”, que (é uma das minhas previsões grátis) nos farão aguentar a gritaria de maluquinhos por mais uma década, até todos se cansarem. Veja-se o que aconteceu na Califórnia, onde essa espécie folclórica (a dos maluquinhos) é muito abundante: a Marcha das Mulheres, que se realiza tradicionalmente a 19 de janeiro, foi cancelada pela organização. Porquê? Porque se temia que a maior parte dos participantes nesse evento pelos direitos das mulheres fosse “esmagadoramente branca” e que uma das minorias mais representadas fosse a judaica, o que iria contra os propósitos “inclusivos” da coisa. Haveria sempre a hipótese de alugar esquimós (diz-se agora “inuítes”) ou índios maori, mas parece que ninguém estava pelos ajustes. Sendo assim, cancelou-se. Se são brancas não servem.

Da coluna diária do CM.

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