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Amoz Oz, uma vida inteira.

por FJV, em 31.12.18

Amos Oz (que morreu na passada sexta-feira, aos 79 anos) era um homem tranquilo, amável, luminoso. Mas era também israelita – o que fez dele um marginal e um pecador aos olhos dos patetas. No entanto, há poucos romances autobiográficos com a complexidade e a beleza de Uma História de Amor e Trevas; e livros como Judas (o pano de fundo é a visão de Cristo aos olhos dos judeus, e o aparecimento da figura maldita de Judas Escariotes), A Caixa Negra, Cenas da Vida da Aldeia ou A Terceira Condição, publicados em Portugal pela D. Quixote, são romances admiráveis sobre a intranquilidade, a memória e a perturbação humanas. Nos ensaios Contra o Fanatismo e Caros Fanáticos, Amos Oz combate os fantasmas que assolam o Médio Oriente, mas também a sociedade ocidental, que não aprende grande coisa com os fanatismos políticos, que venera – e são testemunhos de um observador atento e humanista maravilhoso. Alguma imprensa tratou a morte de Oz como se ele fosse apenas um “ativista” pela paz, deixando em segundo lugar as suas qualidades como grande e notável escritor. É uma pena.

Da coluna diária do CM.

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Olavo Bilac (1865-1918).

por FJV, em 28.12.18

Não sei se os lisboetas conhecem o Jardim Olavo Bilac – mas os diplomatas deviam conhecê-lo: fica defronte do Palácio das Necessidades (e do ministério dos Estrangeiros) e a designação homenageia o carioca Olavo Bilac (1865-1918), falecido há exatamente 100 anos. Imagem do poeta parnasiano, obsessivo com a própria poesia, jornalista e autor de livros escolares, interrompeu os seus estudos de medicina e de direito para se dedicar por inteiro à boémia literária e jornalística. Parecia um andor de versos, admitamos. Mas o que todos devemos a Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é sobretudo um soneto, intitulado “A Língua Portuguesa”, um elogio brutal da nossa língua e da sua história: “Última flor do Lácio, inculta e bela,/ És, a um tempo, esplendor e sepultura:/ Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela...” Não há, na nossa poesia, tirando talvez uma referência de Pessoa e um poema de Vasco Graça Moura, tratamento tão emotivo do tema, em torno da língua “em que Camões chorou, no exílio amargo,/ O génio sem ventura e o amor sem brilho”. Abençoado Bilac.

Da coluna diária do CM.

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Marcelo lançou um aviso curioso.

por FJV, em 27.12.18

Houve, ao longo dos anos, vários especialistas em mensagens presidenciais. O problema é que as mensagens eram, quase todas, acompanhadas de outros códigos não escritos. Todos tiveram contra si as manobras de Mário Soares, que controlava os bastidores e influenciava a imprensa (é certo que todos o faziam, mas a agenda de Soares era a mais poderosa); as meteorologias instáveis com que Jorge Sampaio tentava esconder os seus verdadeiros obejtivos políticos; e os aparentes silêncios e tabus de Cavaco, o mais institucional dos três. Com Marcelo, há uma certa euforia permanente, que estraga as contas a todos os conspiradores. É uma responsabilidade acrescida e há quem, à esquerda, não esqueça que se trata de uma co-habitação que não atingirá os picos de tensão de Soares-Cavaco. Na terça-feira, Marcelo lançou um aviso curioso: o de que o clima pré-eleitoral começou muito cedo – ninguém melhor do que o antigo analista político para o perceber. Por detrás da aparente bonomia e dos sorrisos do Presidente, há um sismólogo que não procura desculpar-se das más notícias que pode vir a dar.

Da coluna diária do CM.

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Bolo-rei, sempre.

por FJV, em 26.12.18

Se há instituição cuja vida merece ser prolongada nesta quadra, além da do bacalhau — é a do bolo-rei. Nos últimos anos, bandos de pessoas vagamente ilustradas, cheias de boas intenções nutricionais e com pouca noção das coisas, têm vindo a promover o “bolo-rainha”, uma espécie de bolo-rei sem aquilo que constitui a excentricidade, a falta de regras nutricionais e a explosão de euforias do propriamente dito: os açúcares, as frutas cristalizadas e as pinceladas de glúten. Sim, o bolo-rei não é tão “saudável” como um bolo de milho sem açúcar. Ora, o bolo-rainha é um bolo de frutos secos, que até podia ser de quinoa ou farinha de espelta, e nada obsta a que seja servido em secções de dietética; pelo contrário, o bolo-rei é a apoteose dos sentidos doces, com artifícios, cores e tradição. Há duas casas (a Garrett, no Estoril, e a Petúlia, no Porto) que me abastecem de bolo-rei ao longo de todo o ano. Conservador como sou, assusta-me que as “boas práticas alimentares” sacrifiquem um dos nossos emblemas mais tradicionais. É assim que as nações começam a perder-se. Depois queixem-se.

Da coluna diária do CM.

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Sobrevivamos à solidão.

por FJV, em 24.12.18
No ocidente, a festa do Natal deixou de ser a do nascimento de Jesus, excepto para um número residual de cristãos, a maior parte deles ostracizados ou sitiados. Mesmo entre estes é mais corrente a designação de “festa da família” ou “do encontro” numa sociedade essencialmente laica, gentia ou ateia. O andamento das coisas é o andamento das coisas e não parece que se volte à Missa do Galo, ao presépio, ou à celebração ritual de um Jesus de Nazaré tão histórico como simbólico — uma espécie de paragem no círculo do tempo (como a Páscoa). A velha e tradicional consoada, familiar e doméstica, está a passar para o ramo alimentar, florescendo no negócio dos restaurantes, na sequência, aliás, da institucionalização da “época das compras”. Ao cristianismo ocidental sucede uma espécie de “paganismo da felicidade”, turbulento, comercial e irrisório, como o sinal do início do inverno — mesmo assim, alguma coisa existe que não conseguimos esquecer. Mesmo para quem não é cristão, a “quadra natalícia” é um pretexto para nos vermos. Sobrevivamos à solidão; isso será o bastante.

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Beethoven no inverno de 1808.

por FJV, em 24.12.18

Hoje, o dia terá apenas uma duração de 9h27 e os astrónomos estabelecem que o inverno chegará às 22h23 – é o dia mais curto do ano. Amanhã, sábado, teremos mais um segundo de luz solar (o pôr do sol ocorre às 17h18m38) – todos os anos há ligeiras mudanças. Haverá coisas importantes a dizer sobre o inverno (os poetas são banais nessa matéria, repetindo-se muito), mas eu prefiro falar sobre o primeiro dia do inverno de 1808, há 210 anos, em Viena: um concerto memorável que havia de ser a despedida de Ludwig van Beethoven (1770-1827) como solista ao piano, e no qual foram tocadas oito grandes peças, incluindo as estreias da Fantasia Coral, uma ária (a notável Ah, Perfido), três dos andamentos da Missa em Dó Maior e ainda duas das suas grandes sinfonias, a 5.ª e a 6.ª (Pastoral). Das seis e meia da tarde até às dez e meia, durante quatro horas – com um pequeno intervalo – a música inaugurou aquele inverno num teatro gelado e cheio de gente, não só celebrando o génio de Beethoven mas também a grandeza interminável da música. Pode ser uma boa maneira de começar este inverno.

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A água do capote.

por FJV, em 20.12.18

As declarações do Presidente da República, anteontem, são das mais importantes do seu mandato. A chamada classe política incumbente não se incomodou por aí além, e compreende-se, porque o PR fala com uma frequência exagerada, comentando quase todos os assuntos e aparecendo em todos os lugares, o que é um mimo para os alvos das críticas. Seja como for, o Presidente disse o essencial: que o Estado (para o qual todos contribuímos e que nos suga o que puder), falhou em Pedrógão, em Tancos, nos hospitais (veja-se o escândalo da ala pediátrica do S. João), em Borba e em Baltar – e que isso gera uma sensação de desconfiança, de desconforto e de incerteza. Veja-se Tancos: ao fim de um ano e meio, ainda não há conclusões definitivas. Veja-se Pedrógão: só diante da lista trágica de mortos o Estado assumiu algumas responsabilidades (a capa do CM de ontem é uma imagem dolorosa). As pessoas sabem que o governo não é responsável pelas calamidades; mas (ironia!) o Estado, que se julga senhor de tudo, sacode a água do capote antes de perceber que não foi em cima dele que choveu. Foi de nós. É sempre.

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Emily Brontë, um relâmpago.

por FJV, em 19.12.18

 

As irmãs Brontë são um tema literário permanente. Charlotte escreveu o fascinante Jane Eyre, que hoje passa também por ser um romance feminista; Anne deixou Agnes Grey; Emily (nascida há 200 anos, a 30 de julho), compôs O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights) – todos escritos e publicados entre 1846 e 1847 –, que não pode ser reduzido à relação entre Heathcliff e Catherine (e Edgar) ou à rede de violência, humilhação, decadência e vingança que persegue a família Earnshaw. É um romance poderoso e sombrio num mundo em que os livros de Jane Austen abriam um clarão de airoso otimismo. Na literatura inglesa, O Monte dos Vendavais é uma explosão de todas as penumbras e confrontos da sociedade vitoriana (visível no filme de William Wyler, interpretado por Lawrence Olivier e Merle Oberon); no romance não há vida eterna para os territórios do amor; a invenção de Catherine Earnshaw e a descrição do sofrimento feminino, ardente e intenso, são momentos únicos. Passam hoje 170 anos sobre a morte de Emily Brontë – que sobreviveu apenas um ano à publicação do livro. 

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O pai dos povos.

por FJV, em 18.12.18

Iossif Vissarionovitch Djugashvili nasceu há 140 anos, a 18 de dezembro de 1878, em Gori, na Geórgia – um aniversário cumprido hoje. De 1922 a 1953, período em que ocupou o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, o destino do mundo dependeu, em parte, deste homem corajoso, violento, inteligente, calculista, frio, um provocador e arrivista antes de chegar ao poder, um ditador implacável depois de o conquistar – e responsável, tanto pela vitória sobre os nazis na frente Leste, como por um regime cruel e desumano que transformou um continente inteiro num campo de concentração e num cemitério de dezenas de milhões de vítimas. José Estaline, para abreviar (adotou esse nome por volta de 1918; usara o de ‘Koba’ nos anos de juventude), ainda faz parte da galeria dos ditadores a quem os seguidores desculpam as purgas, as deportações e perseguições, o gulag, os julgamentos sumários, as várias “limpezas” e condenações à morte e à fome. O “pai dos Povos” deixou atrás de si um rasto de crueldade, heroísmo e traição. É uma figura tão fascinante como absurda.

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O princípio está certo, toda a máquina está errada.

por FJV, em 17.12.18

A senhora ministra da Saúde tem um curioso entendimento dos códigos e da Constituição. Por exemplo: não negoceia com os enfermeiros em greve porque isso seria “beneficiar o criminoso, o infrator”, como disse numa entrevista à TSF. É a primeira vez, em democracia, que se estabelece – em direto – uma nova categoria de criminosos no Código Penal. Espero que a UGT e a CGTP comentem. Ao mesmo tempo, teorizou sobre os deveres dos jovens médicos: se o Estado providencia a sua formação, então o Estado deve “retê-los” (a expressão é sua, usada como castigo) algum tempo, para que alguma coisa devolvam, de retorno, como penalização. Para minorar os efeitos dessa retenção, a senhora ministra anuncia que está a estudar carreiras aliciantes. E os que se formam em filologia, arqueologia, química, direito, história dos descobrimentos, ciência política ou, vá lá, meteorologia – irá o Estado proceder “à sua retenção”? Não me parece. Tivesse eles escolhido medicina. A senhora ministra parece-me estar a confundir o país com um protetorado cubano, venezuelano ou salazarista. Salvo seja.

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Crónicas.

por FJV, em 14.12.18

Estes textos são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã.

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Sidónio.

por FJV, em 14.12.18

Nada indicava que um homem formado em matemáticas (foi professor catedrático em Coimbra), ainda que tendo feito o curso da Escola do Exército, saltasse para a política desta forma – mas era uma das estrelas do republicanismo e foi também presidente da câmara de Coimbra antes de ingressar na Assembleia que redigiu a constituição de 1911. Tudo era muito rápido. No mesmo ano, Sidónio Pais é ministro do Fomento e segue-se-lhe a das Finanças até ser enviado para Berlim como embaixador – até 1916, quando Portugal entra na guerra, uma decisão trágica e triste, à qual se opôs. Em dezembro de 1917 depõe Afonso Costa e Bernardino Machado – e inicia a República Nova, tentando “o apaziguamento nacional” mas fora do sistema político em vigor, inaugurando um breve presidencialismo e anulando algumas das leis mais radicais da República. O sidonismo pereceu com ele, exatamente há cem anos, num país paralisado pela pobreza e agitado pela violência: Sidónio Pais, o Presidente-Rei de Fernando Pessoa, um dos nossos mitos mais controversos, foi assassinado a 14 de dezembro de 1918. 

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Língua.

por FJV, em 13.12.18

Foi uma grande barulheira por causa da “iniciativa” do PAN de mudar os provérbios portugueses que têm a ver com animais. A ideia é muito generosa e, como todas as ideias demasiado generosas, completamente estapafúrdia (além de que é uma cópia da proposta palerma do grupo PETA, uma agremiação americana dedicada aos direitos dos animais). Acresce dizer que os provérbios e expressões populares como “agarrar o boi pelos cornos” ou semelhantes, têm mais de um século de vida – e que não conheço ninguém que tenha atirado um pau ao gato depois de cantar a respetiva melodia infantil. O que aqui está em causa é, antes de mais, uma apropriação indevida dos usos de linguagem – mudar a língua, para mudar os donos da coisa. E assim se cria uma polícia que passará o tempo a vigiar qualquer deslize pecaminoso na imprensa, nos livros e na vida de todos os dias. Esta gente, inspirada pelo seu desígnio divino, é capaz das piores perseguições, por puro prazer – e a medida mais delicada é pôr-nos a comer quinoa com beringela (um desastre). Onde virdes um puritano, encontrareis um inquisidor terrível.

 

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Europa: impostos sobre a riqueza dos outros

por FJV, em 12.12.18

Salvar a Europa. Era esse o plano de Emmanuel Macron – tal como, agora, o do economista, também francês, Thomas Piketty. Macron foi aplicando taxas à classe média mas mantendo a “glória da França”: um Estado poderoso e com uma clientela entrincheirada. Pikétty propõe taxar as grandes empresas e as grandes fortunas – acontece que as grandes fortunas dão o salto para outro continente e as grandes empresas são estrangeiras. Um e outro, mais à direita e mais à esquerda, limitam-se a pensar em nome do desespero, para conservar uma “Europa da solidariedade” que tem os dias contados. Lamento. Que a Europa taxe mais a Huawei, como a Google e a Apple, pode ser justo – mas o centro do mundo mudou-se mesmo. No seu livro O Despertar da Eurásia (Temas e Debates), Bruno Maçães, que acaba de publicar em Inglaterra o novo Belt and Road, chama a atenção não para “o despertar da China” mas para uma nova ordem mundial a partir da China e das economias orientais. Infelizmente, a Europa (a de Macron ou a de Pikétty) não sobreviverá a inventar impostos sobre a riqueza dos outros.

 

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Soljenítsin, cem anos.

por FJV, em 11.12.18

Aleksandr Soljenítsin morreu em agosto de 2008, na Rússia. Expulso da URSS em 1974, provavelmente pensou que nunca voltaria ao seu país – o que aconteceu 20 anos depois, em 1994. Teve sorte; foi expulso depois de ter sobrevivido a combates da II Guerra (duas condecorações), perseguições, prisões (foi declarado ‘inimigo do povo’ em 1945), um cancro e tentativas de assassínio. Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de 1962, em parte autobiográfico, é uma das primeiras denúncias abertas acerca do Gulag e do horror soviético – a que se seguem, depois da prisão, O Primeiro Círculo e O Pavilhão dos Cancerosos, escritos em exílio interno no Cazaquistão e publicados fora da URSS. O Arquipélago de Gulag, a mais violenta descrição dos campos de concentração soviéticos, foi escrito durante dez anos, até 1967, e publicado no Ocidente em 1973 (em Portugal, em 1975), três anos depois de lhe ter sido atribuído o Nobel. Soljenitsín é um grande escritor, com uma prosa de primeira, mas também um historiador daqueles anos de chumbo e opressão. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento.

 

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Avanço civilizacional.

por FJV, em 07.12.18

Sou um confesso admirador do Sr. Ratelband, o súbdito holandês que quis alterar a sua idade, de 69 para 49 anos. O argumento que usou é pífio, mas confere: se as pessoas podem mudar de sexo ou de género (coisas diferentes), porque não pode ele mudar de idade, ainda por cima quando os médicos garantem que a sua “idade biológica” é de 45? A resposta dos juízes é interessante: autorizá-lo criaria uma espécie de “buraco negro” no registo civil, complicando contas de nascimentos, mortes e casamentos e “os limites legais de idade tornar-se-iam insignificantes”. O tribunal acha que há apenas um nó burocrático, que pode emaranhar-se – não um problema básico de identidade ou de bom senso. Não estou a invocar “as leis da Natureza”, que estão fora de moda e já não são obstáculo hoje em dia. Temos assistido a tantas “vitórias civilizacionais” que não deixaremos que o Sr. Ratelband envelheça ou se sinta traumatizado pela obrigação de aceitar a sua data de nascimento. Isso nunca. Mais uns anos e a coisa resolve-se com uma lei no parlamento. Em nome do “avanço civilizacional” estamos por tudo. 

 

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O Senhor Lubbock.

por FJV, em 06.12.18

Talvez saber quem foi John Lubbock seja o menos importante para o leitor de Miscelânea de Factos Essenciais e Curiosidades Inúteis do Senhor Lubbock (Objectiva), de Paulo Ferreira. O mais importante é o prazer do conhecimento, o delírio das relações que se estabelecem entre factos aparentemente distantes, o acumular de dados sobre o funcionamento do universo (da criação do mundo às cotações na bolsa ou à astrologia), história de Portugal, o papel do acaso e das contrariedades na criatividade humana (do post-it à penicilina) – e, também, a insuspeita alegria de colecionar explicações sobre banalidades. O hoje ignorado John Lubbock (1834-1913), político, banqueiro, contemporâneo e amigo de Darwin, biólogo, arqueólogo, etnólogo (escreveu cerca de trinta livros, de política a entomologia, economia ou religião), também acreditava que não bastava a uma pessoa contentar-se com uma única vida; assim funciona o livro de Paulo Ferreira: é uma coleção maravilhosa de descobertas que faz os nossos dias mais felizes e a nossa condição muito menos solitária. É um dos meus livros deste ano.

 

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Uma máquina de fazer fascistas.

por FJV, em 05.12.18

Existe na Europa, como se sabe, uma máquina de fazer fascistas. Os “coletes amarelos” em França e o Vox em Espanha, além de outras partículas, fazem parte dessa cada vez maior “mancha humana” que – em eleições livres – entra nos parlamentos e dá voz e ruído às ruas. Ontem, no Twitter, um amigo espanhol zurzia a sua imprensa indígena por ter dado espaço ao Vox, permitindo a este partido entrar no parlamento andaluz; é uma opinião grave. Segundo depreendo, o ideal é que se estabeleça uma censura que impeça “essa gente” de divulgar a sua opinião nos jornais. Foi assim que os ‘rednecks’ (‘pacóvios’) se esforçaram por eleger Trump; atirados para fora do sistema, votam contra ele. Claro que em França a questão é diferente: os ‘coletes amarelos’ representam o país médio, habituado a salários exigentes e direitos sociais de primeira (a receita que alimentou a classe política urbana durante décadas); forçados a pagar a conta, as multidões respondem, copiando as piores estratégias da esquerda que gosta muito de revoluções. Chamar-lhes fascistas é capaz de não ser o melhor remédio.

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Grilhetas amáveis.

por FJV, em 04.12.18

Já vi editores caírem na pobreza depois de uma vida consagrada a publicar livros notáveis (coisa que não lamentam, honrados como são). Nunca vi grandes conglomerados da imprensa apoiá-los com vigor em nome da diversidade cultural, do pluralismo e da liberdade. Pelo contrário, vi-os fazerem acordos políticos para estenderem o seu poder para além da fronteira da decência – muitas dessas jogadas resultaram em prejuízo do jornalismo e dos jornalistas e, por extensão, da liberdade de imprensa, do pluralismo e da independência, mas em benefício de estratégias pessoais e dos políticos amigos. Alguns, agora, festejam a ideia de apoios do Estado (e do contribuinte que já pagou a fatura dos despautérios da banca pública e privada que se misturou com os seus interesses) para salvar empresas que conheceram o apogeu, a ostentação, a soberba e a ideia de elegerem presidentes da República ou de andarem de braço dado com o Estado, do qual todos querem depender ou receber comendas. A imprensa precisa de apoio dos seus leitores – mas não de absolvição política, nem de grilhetas amáveis.

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Crónicas.

por FJV, em 04.12.18

Estes textos são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã.

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Olha que bom, vêm aí apoios.

por FJV, em 03.12.18

Deve o Estado, que já detém a RTP (onde devia investir em qualidade), apoiar financeiramente a imprensa e a comunicação social em geral? A ideia foi sugerida pelo Presidente – e logo apareceram órgãos de comunicação a apoiá-la e a confirmar que sim, precisam de apoios. Uma coisa é a existência de benefícios pontuais (para todos) – diferente é o apoio a empresas que ruíram depois de gestores e proprietários loucos terem perpetrado, com o apoio da banca, pública e privada, jogadas suicidas e estratégias de grande monopólio. Quase sempre em conluio com interesses particulares que no momento ocupam “o Estado”. Eu trabalho num negócio periclitante, o da edição de livros (líder de criação de emprego e de valor nas chamadas “indústrias culturais”), onde lutamos diariamente contra a indiferença “da imprensa”, o despautério do sistema educativo e os “perigos do mercado” – aguardo apoios, então. Para todos e aos magotes. Sem reservas. Em nome “da cultura” e da pluralidade. Tenho uma grande lista de livros a publicar e não me interessa se vendem ou não – é isso? Venham apoios. Que riqueza.

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