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Leituras em dia.

por FJV, em 19.06.18

Tive uma experiência extraordinária um destes dias: confrontar alunos universitários com o pedido de elaborarem uma lista dos dez livros de que mais gostavam. Não a dos dez bares do Cais do Sodré ou a das dez marcas de roupa, ou a dos dez youtubers mais patetas, ou a dos dez rockers deste verão. Como se tratava de alunas e alunos do último ano de humanidades, esperava uma lista condizente e à altura, mas 80% deles foi incapaz de chegar lá. Pensei tratar-se de um problema de memória; mas não: era mesmo falta de conhecimento. Não tinham lido dez livros, não se recordavam de dez títulos (mesmo que os não tivessem lido, romances ou ensaios) nem manifestavam qualquer sentimento de culpa. Eu nem queria clássicos, da Odisseia ao Amor de Perdição ou Cem Anos de Solidão. Queria dez. Ernestine, a professora do romance A Mancha Humana, de Philip Roth, diz a certa altura: “É muito difícil ler os clássicos; logo a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Deixou de haver critérios, para só haver opiniões.” Fiquei velho de repente.

[Da coluna no CM] 

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Entre o “afeto” e o “excesso de proximidade”.

por FJV, em 19.06.18

O miúdo cumprimentou o Presidente francês; chamou ‘Manu’ a Emmanuel Macron: “Tudo bem, Manu?” O Presidente lembrou: “Deves chamar-me senhor presidente ou senhor, está bem?” Esta lição de simplicidade e autoridade não comoveu muita gente, que acha que Macron foi (como é que se diz agora?) “arrogante”. Não foi tal. Foi o Presidente francês. E um Presidente representa-nos, mesmo que não acreditemos em nenhuma virtude da República e das suas hierarquias. Às vezes fico incomodado ao ver a forma como os jogadores de futebol, por exemplo, não são informados pelo seu clube sobre a forma como, na tribuna, devem cumprimentar o Presidente da República quando recebem uma taça e festejam um título – um “passou bem” respeitoso e um gesto com a cabeça não custam nada. Na relação entre as pessoas a informalidade não é tudo – é um quase nada que pode ser disparatado, mesmo quando se multiplicam as ‘selfies’ ao lado do nosso Presidente, frequentemente confundido com “o Marcelo”. Na verdade, não são a mesma pessoa – e nenhum “afeto” pode ser confundido com um “excesso de proximidade”.

[Da coluna no CM] 

 



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