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Ilha de Moçambique

por FJV, em 28.02.18

Mandam os calendários dizer que amanhã, 1 de março, se cumprem 520 anos sobre a chegada de Vasco da Gama à Ilha de Moçambique – um pequeno território de 3 quilómetros de comprimento, a cerca de 2500 quilómetros da capital, ligada a terra por uma frágil ponte que sobrevive ao sal e à erosão. Antes de ser primeira capital da colónia portuguesa, Muhipíti (o nome macua) era já um grande entreposto comercial que ligava o Índico às carreiras para a Pérsia, o mar vermelho e o resto da Ásia – e continuaria a sê-lo até finais do século XIX, nomeadamente devido à escravatura. Conheci ainda o velho xeique Abdurrazaque Djamú, que partilhava com o Padre Lopes o pastoreio das almas nos momentos difíceis: muçulmana, cristã e brâmane, “a Ilha”, Património Mundial da Unesco (uma arquitetura notável), recebeu Camões e Tomás Gonzaga, Rui Knopfli (que lhe dedicou um livro, A Ilha de Próspero), Jorge de Sena ou Alberto de Lacerda. Mia Couto escreveu partes dos seus livros com este cenário, onde hoje vive J.E. Agualusa. 520 anos depois, com a sua beleza recuperada, é finalmente “a ilha de todos”.

[Da coluna no CM]

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Neve.

por FJV, em 28.02.18

Telefonaram-me a avisar: “Lembras-te daquele caminho que subíamos na serra e que se enchia de neve quando éramos miúdos? Está outra vez coberto de neve.” Não nevava ali há dez, onze anos. Peço desculpa aos lisboetas para quem a neve é um episódio de “férias de inverno”, chique e vagamente nos Alpes, mas a aldeia onde eu vivi parte da infância ficava isolada pela neve durante semana e meia, todos os anos. Sem correio, sem autocarro, sem aulas durante um ou dois dias. E havia frio porque era inverno. Há três semanas, a Proteção Civil e a imprensa coligaram-se para decretar que Portugal era uma espécie de icebergue; o alarme irritou-me: havia sol e, como estava de viagem, verifiquei que os picos da Serra da Estrela estavam escuros como num dia de verão. Ontem, ao fim da tarde, o tom de tragédia regressou, mas foi acompanhado do telefonema familiar: onde há trinta, quarenta anos, nevava todos os anos, voltou a nevar. Eu sei que é mau para o lifestyle lusitano, que promulgou uma meteorologia eternamente estival e de manga curta. Bem vinda sejas, neve. É inverno. Como deve ser.

[Da coluna no CM]

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Síria: foi preciso chegarmos aqui para ver o tamanho da nossa desistência.

por FJV, em 27.02.18

Os telejornais abrem, finalmente, com imagens da guerra na Síria – e com o resultado devastador da política de terror do tirano de Damasco contra o seu próprio povo e as bolsas de resistência sunita. Acontece que estas imagens não são novas; repetem-se, são fotogramas sobre fotogramas de um jogo deplorável em que assenta a estratégia de Assad em estreita ligação com a Rússia e o Irão: à força de se repetirem, e à força de se lançarem dúvidas sobre a sua veracidade (especialidade russa), deixam de ter eficácia. O Médio Oriente está cheio dessas imagens (que não comovem o PCP, por exemplo), e parte delas são manipuladas, porque o horror da guerra e a morte de crianças são moeda de troca e bandeiras de propaganda. É lamentável, mas o fervor humanitário (o nosso, diante da televisão; o da ONU que coleciona incidentes) não conseguirá grandes resultados numa região desenhada e redesenhada a régua e esquadro pelas potências, sobretudo depois de Obama ter deixado aquela parte do mapa sem proteção nem defesa. Foi preciso chegarmos aqui para ver o tamanho da nossa desistência.

[Da coluna no CM]

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A mão e o espírito.

por FJV, em 26.02.18

O que é um losango? Como se desenha um trapézio isósceles? E um hexágono? E um heptadecágono? Creio que todos são capazes de desenhar estas formas geométricas. Há uns anos, um primeiro-ministro português foi a uma escola anunciar que, graças às “novas tecnologias”, não seria doravante necessário sujar as mãos com giz ou tinta na salas de aula uma vez que estas seriam equipadas com um milagroso software que desenharia essas figuras. Na altura comentei aqui o que me parecia óbvio: que era um erro grave; que nada substitui, na infância e na adolescência, a prática do desenho à mão, a caligrafia e a experiência das formas geométricas; que a mão está ligada à memória, como se aprende em antropologia. Parece que os pediatras do serviço nacional de saúde britânico me dão razão, embora por outras vias: a falta de trabalho caligráfico e de desenho à mão está de tal modo a prejudicar os músculos das mãos das crianças e a diminuir a sua destreza física – e mental – que existe já um programa de fisioterapia adequado a esses casos. De modo que lápis e papel deviam regressar à nossa vida.

[Da coluna no CM]

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Reler Aron.

por FJV, em 23.02.18

A Guerra e Paz acaba de reeditar o enorme volume das Memórias de Raymond Aron (1905-1983), um dos grandes génios europeus dos século XX e, juntamente com Sartre e Camus (sem a soberba e a palermice de Sartre, e sem o sentido trágico de Camus), um dos grandes inteletuais franceses desse tempo, com a vantagem de não ser um vencedor do Maio de 68. Falo “desse tempo” e não do “nosso tempo” porque vejo, ao reler essas 760 páginas, como o mundo de Aron já não é o nosso, ao qual faltam cavalheiros das letras, políticos com sentido da história e da comunidade, académicos que aceitem o debate e não a exclusão. Atravessando as guerras do seu século, lutando na imprensa e ensinando na universidade, Aron era um maravilhoso pessimista. No entanto, o seu testamento ideológico antecipa muitos dos problemas de hoje, desde a crise da natalidade europeia ao suicídio da classe política americana e ao triste comportamento dos inteletuais. Aron sabia que o sentido da política, como dos combates públicos, está no desejo de realização e na obrigação de fugir da infelicidade. Tão simples.

[Da coluna no CM]

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Zola condenado.

por FJV, em 22.02.18

Não havia provas de que Alfred Dreyfus fosse esse espião que tinha vendido segredos militares à Alemanha. Mesmo assim, o antissemitismo francês estava em alta e Dreyfus era judeu. Foi condenado no meio de várias irregularidades por um tribunal militar e enviado para a Ilha do Diabo, na Guiana francesa. Estávamos em 1894. O resto da história é conhecido, sobretudo o artigo de Émile Zona escreveu no L’Aurore, a 13 de janeiro de 1898, o célebre “J’Accuse!” (“Acuso!”), o culminar de uma campanha pela revisão do processo do capitão Dreyfus e pela sua libertação. Isso só foi possível pelo poder crescente da imprensa livre e de cidadãos livres que desafiaram o Estado, o poder militar e os preconceitos da sociedade francesa. O texto de Zola, um escritor influente e respeitado, foi o momento determinante desse processo. Mesmo assim, um tribunal de Paris condenou-o a um ano de prisão e a uma multa, retirando-lhe a Legião de Honra, a mais alta condecoração nacional. Zola fugiria de França antes de a polícia o deter. Mas a 23 de fevereiro, passam amanhã 120 anos, Zola era um condenado.

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Georges Bernanos.

por FJV, em 20.02.18

 

Falar hoje de Georges Bernanos, nascido há 130 anos (1888-1948), cumpridos hoje, é falar de uma velharia. Li Bernanos por influência de um admirável professor de liceu que, além de me ter corrigido a pronúncia para recitar Verlaine, era um católico amável e sem amargura. Comecei por Sob o Sol de Satã (Sous le soleil de Satan), mais tarde adaptado ao cinema com Depardieu e uma bela Sandrine Bonnaire quase adolescente; o tema, a vida de um padre numa pequena paróquia cheia de gente impiedosa, no cenário da I Guerra, repete-se em Diário de um Pároco de Aldeia (reeditado recentemente pela Paulinas), publicado dez anos depois, em 1936, numa história sobre a dúvida, a fé, a pobreza e a solidão. Bernanos era um autor católico que divergiu lentamente para o campo da incerteza e, também, do pessimismo. Da guerra civil de Espanha resultou um livro emblemático, Os Grandes Cemitérios sob a Lua (que Camus considerava “o livro de um profeta”): Bernanos começou como franquista e terminou do lado oposto. É um homem daquele tempo mas lê-lo ajuda a perceber muitos combates e dúvidas atuais.

[Da coluna no CM]

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10 meios rápidos de analisar racismo e sexismo em livros de crianças

por FJV, em 19.02.18

Screen Shot 2018-02-18 at 22.53.01.png O departamento de educação do estado da Califórnia (uma espécie de Ministério da Educação local) exarou três páginas compactas, que são um resumo de uma brochura mais vasta, intitulada 10 meios rápidos de analisar racismo e sexismo em livros de crianças. É um dos documentos mais estapafúrdios que já vi – mas alerto para a sua próxima aplicação em Portugal. O folheto recomenda que os pais tenham em atenção a cor do cabelo dos bonecos, a forma como vestem, se utilizam sotaques locais, se os rapazes estão a brincar com carros, se as meninas estão vestidas de cores “suaves”, se as personagens identificadas com “minorias” desempenham papéis secundários, se eventuais diferenças de classe social são ou não apresentadas como injustiças, se a opinião subjetiva do autor parece ser racista ou sexista, etc., etc., etc. A ideia é que os pais, os editores, os jornalistas, os professores, passem todos os livros a pente fino e, provavelmente, queimem os maus exemplos. Eis os exemplos que vêm de uma sociedade praticamente analfabeta e infantilizada como a americana. Em breve isto chegará aqui, como os donuts.

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O cantinho do hooligan. Saúde mental.

por FJV, em 18.02.18

Depois de ver o presidente do Benfica a gritar palavrões numa assembleia do clube, não esperava que o ainda presidente do Sporting conseguisse fazer tão mal ao clube do meu pai e de um dos meus filhos — e de muitos amigos meus. E, sim, Pinto da Costa faz o papel de cavalheiro ao pé desta gente.

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Coisas que se detestam.

por FJV, em 18.02.18

Sim, as pessoas que publicam fotos de gatinhos e de crianças. Pessoas que nos corrigem quando dizemos inconveniências no meio de uma piada. Pessoas que odeiam a chuva. Pessoas que entregam a declaração de impostos sempre um mês antes do prazo. E que sabem tudo sobre os novos motores dos carros de que tu não sabes sequer a marca. Pessoas que sabem que a cerveja fermenta no estômago. Pessoas que sabem que o glúten e tal. Coisas que te acontecem com pessoas que prezam muito os direitos dos animais e sabem a quantidade de gás metano produzida pelas vacas do concelho de Montalegre. Gatinhos e crianças, especialmente. Eu não gosto especialmente de crianças, limito-me a esperar que elas cresçam. E gosto muito de gatos quando vêm, devagar, e se encostam à perna. Não faço nada, espero que subam pelas pernas e então toco-lhes no lombo, devagar. Eles fazem-nos o favor de deixarem que gostemos deles. Ao contrário das pessoas que são espertas e inteligentes e se alimentam de bulgur com iogurte magro e arandos, seja lá o que isso for. O mundo deixou de ser simples.

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O país é deles e eles são 323 milhões.

por FJV, em 16.02.18

Este um texto de que poderei arrepender-me, escrito na sequência do tiroteio na Florida, no qual foram mortas 17 pessoas e feridas 15. Acontece que nós – europeus, gente que pega em armas para caçar ou na recruta – não podemos entrar nos EUA e, embora nos apeteça, dar lições de moral sobre o porte de armas. O país é deles e eles são 323 milhões. Mas o Washington Post calcula que nos últimos anos tenham morrido 1100 pessoas em tiroteios desta natureza, o que é uma estatística baixa, mas revela a quantidade de armas que anda à solta e entregue a pessoas que não sabem manejar uma colher de sobremesa – e que têm atacado sobretudo em escolas e lugares de culto religioso. No ano passado, em Las Vegas, durante um concerto de música country foram mortas 59 pessoas e feridas 420, além das 27 numa igreja Batista do Texas. Os EUA deviam pagar uma taxa moral sobre a exportação destas imagens degradantes. Na verdade, à distância, não é um país apetecível. Hoje passam 180 anos sobre o nascimento de Henry Adams, um dos grandes desenhadores, arquitectos e pensadores da América. Ele não tem nada a ver com esta desgraça.

[Da coluna no CM]

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Richard Feynmann (1918-1988). Trinta anos.

por FJV, em 15.02.18

Em agosto de 2009, na Pshysics World, 130 cientistas de todo o mundo escolheram os dez físicos mais importantes da história. Estavam lá Isaac Newton e Albert Einstein, naturalmente, mas também Niels Bohr, Heisenberg ou Galileo Galilei – e Richard Feynmann (1918-1988), novaiorquino, pioneiro da eletrodinâmica quântica e dos estudos sobre a superfluidez do hélio, criador do conceito de nanotecnologia, maníaco do cálculo matemático, exímio tocador de bateria, aprendiz de samba (desfilou e tudo), frequentador de bares de strip-tease, o célebre investigador que determinou as causas do acidente do Challenger (1986), utilizador de marijuana e cetamina, prémio Nobel da Física em 1965, Prémio Einstein em 1954, e autor de livros que despertam o interesse pela ciência em qualquer alma: Deve estar a brincar, Sr. Feynman!, QED, Uma Tarde com o Sr. Feynmann, O Significado de Tudo ou O Prazer da Descoberta, todos publicados pela Gradiva. Morreu há exatamente 30 anos. Era um génio maravilhoso e divertido: “Não gostaria de morrer duas vezes. É tão aborrecido.” Leiam os seus livros – ele morreu há 30 anos.

[Da coluna no CM]

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O cantinho do hooligan. Da natureza da goleada.

por FJV, em 15.02.18

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Há uma coisa pior do que o Carnaval.

por FJV, em 14.02.18

O meu amigo Mário Sabino (autor do belo romance O Vício do Amor e do  mais famoso O Dia Que Matei Meu Pai), paulista de sempre mas de costeleta carioca, usa uma boa frase para esta ocasião: “Tem coisa mais insuportável do que o carnaval? Tem. O próximo.” Vivesse Mário Sabino em Portugal, e riria do assunto, longe do batuque e das ruas suadas do Rio, Salvador ou Recife: não há coisa mais absurda do que o carnaval lusitano – ele traduz uma incompatibilidade genérica dos portugueses com o país: gostam de foliar, mas na verdade preferiam outro país. Não há inadequação mais profunda do que os desfiles lusitanos: biquínis em pleno inverno, carnes branquinhas – promissoras, vá lá – resistindo ao vento gelado da segunda semana de fevereiro, sambistas de empréstimo rodopiando. E gente feliz, é preciso dizer, esperando os desfiles e suportando o frio. Todos os anos acho absurdo, feio e despropositado o carnaval lusitano; e, no entanto, há nele uma réstia de admirável resistência, militando contra o inverno, fingindo aromas do trópico ou gingando sem arte nem talento. Até ao próximo.

[Da coluna no CM]

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A lógica da Amazon.

por FJV, em 13.02.18

A Amazon passa por ser uma livraria online que nunca deu lucros como livraria — mas enquanto algoritmo. Jeff Bezzos, o fundador, construiu uma base de dados de consumidores (um algoritmo), não para vender livros, mas para lhes vender tudo, de roupa a perfumes, carros a computadores, biscoitos ou panelas de cozinha. Mas os livros foram o aferidor do status de cada cliente, o fornecedor de dados sobre o comprador. Ter essa base de dados e negociar com ela é o verdadeiro negócio – os livros não lhe dão lucro. Tudo o resto já conhecemos: as condições de trabalho escravo, a construção de algoritmos de consumo, o cruzamento de dados com outras tecnológicas, as negociatas de bolsa. Ontem, depois de ter sabido que ia sair um novo livro sobre as condições de trabalho escravo nas tecnológicas, com especial relevo para a Amazon, fui procurar informações sobre ele. Sai a 1 de março. Qual o site onde há mais informações? No da Amazon, claro – que ganhará dinheiro a vender um livro contra a Amazon, tal como o Facebook o ganha de cada vez que há aumento de tráfego e de publicidade ou com campanhas contra o capitalismo global e o Facebook. Tudo lógico.

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Duas vitórias no alfarrabista.

por FJV, em 11.02.18

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Língua e raça.

por FJV, em 10.02.18

O povo não anda bom. Em Espanha, a pátria da maior meia dúzia de coisas mais estapafúrdias que conheço, uma deputada do Podemos (está nessa meia dúzia) declarou-se “porta-voza” do partido, em vez de “porta-voz”. Vai passar a haver “porta-vozes” e “porta-vozas”. Logo, a vice-secretária geral socialista correu a apoiá-la, porque “a linguagem evolui”, lembrando o caso de uma carinhosa ministra que se dirigiu à assistência de uma charla dividindo-a entre “membros e membras”, se bem que outra dirigente do partido (os exemplos são como as cerejas) já tivesse usado a expressão “jovens e jovenas”, distinguindo os “altos cargos” ocupados por homens e as “altas cargas” desempenhados por mulheres. Adoro Espanha, faz-me rir. Já os EUA deixam-me imobilizado de choque e pavor: Ali Michael, uma loiríssima professora da Universidade da Pensilvânia declarou que jamais terá filhos só para não gerar mais gente branca: “Não gosto da minha ‘brancura’ (‘whiteness’), mas gosto ainda menos da dos outros. Não quero ter filhos biológicos para não propagar biologicamente os meus privilégios.” Bom fim de semana.

[Da coluna no CM]

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Um país adolescente.

por FJV, em 09.02.18

Coisas impopulares. Parece haver uma disputa no Parlamento acerca de uma proposta de lei do CDS para a criminalização do abandono voluntário de idosos, à qual a esquerda atribui propósitos perigosos, desde “uma profunda desumanidade” (a lei, não o abandono) até “hipocrisia”, passando por outros ditirambos da ordem. Basicamente, não se pode criminalizar quem abandona os idosos (as pessoas que antes conhecíamos por velhos) em hospitais, nas ruas ou em lares ilegais porque essa atitude, certamente malvada, se deve ao facto de as famílias não terem condições para albergá-los em suas casas. É compreensível e muito atendível. No entanto, dada a facilidade com que o mesmo parlamento aprovou idêntica lei acerca do abandono de animais, causa estranheza o tom da resposta dos partidos de esquerda. Se a lei proposta pelo CDS é iníqua e castigadora, o que propõem então as madamas e os cavalheiros, agora que estão na flor da idade? Que haja políticas sociais. Muito bem. Portanto, tudo certo que se abandonem os nossos velhos desde que haja políticas sociais num país cada vez mais adolescente.

[Da coluna no CM]

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Um lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

por FJV, em 09.02.18

O que se passa na interessante (sem ironia) cabeça da hierarquia da igreja que, vivendo uma grande crise – relacionada com sexo –, vem recomendar abstinência sexual aos casais católicos recasados? A frase é comprida, mas está correta. E evoca o papa João Paulo II, o inspirador da diretiva. É certo que ela diz respeito apenas aos católicos e não aos que vivem fora desse círculo de giz que se apaga com bastante frequência – mas, num pontificado gerido por um cardeal “moderno”, “progressista” e “sorridente” (três tentações juntas), é interessante ver como a igreja aceita a missão de ser uma fábrica de pecados e contravenções que não têm a ver com a sua dimensão religiosa. Esta é a igreja moderna que também quer gerir a vida sexual dos seus crentes. Mais: a que aceita o infeliz jugo de apreciar o modo como os fieis vivem a sua vida íntima, em vez de iluminar a forma como interpretam a perpetuam a fé. Bento XVI, um homem mal querido, continua a escrever sobre essa lâmina poderosa que é a sua fé: fala da Casa onde se entra. Esse lugar de onde não se excluem os que vivem com os outros.

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Obras notáveis de voluntariado.

por FJV, em 08.02.18

Tomada de assalto pela geração do ‘lifestyle’, a imprensa bem educada não gosta das “imagens negativas do mundo” – e recusa-se a contar as suas histórias com medo do “neo-realismo”, que não acha compatível com a sua ideia de conforto. Infelizmente, o mundo não é um lugar perfeito e, de entre as suas várias iniciativas, há uma que precisamos de elogiar repetidamente ao Presidente da República: a atenção que ele presta e exige que prestemos aos sem-abrigo. Não se trata de apenas de compaixão (mas não viria mal ao mundo se também fosse), apenas de caridade ou solidariedade – por isso há obras notáveis de voluntariado como o Banco Alimentar, a Casa, a Crescer, a Sopa dos Pobres, a AMI, e outras que se dedicam a diminuir o sofrimento dos que nem sequer cabem nas estatísticas. Devido à “vaga de frio”, o Presidente lançou uma nova ofensiva, lembrando-nos os sem-abrigo e transportando-os para os ecrãs das televisões, bem como àqueles que dão parte do seu tempo a esse apoio anónimo. Num mundo que anda à caça do Euromilhões, é bom haver quem se lembre – e ajude com o que pode.

[Da coluna no CM]

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O país estaria, supostamente, transformado num icebergue.

por FJV, em 06.02.18

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 Ontem, de madrugada, arranquei a caminho do Norte. Durante uma, duas horas, fui bombardeado por quase todas as rádios, que previam uma espécie de catástrofe, ou seja, o congelamento coletivo acima do Tejo e a leste de Santarém, mais coisa, menos coisa. A viagem fez-se bem, não houve nevões nem vagas de frio; os termómetros, mesmo de madrugada, mantiveram-se numa zona confortável. À hora de almoço, depois de uma manhã de trabalho, observei várias reportagens televisivas pintalgadas de vermelho-escândalo: o país estaria, supostamente, transformado num icebergue. Não estava, para desespero de repórteres habituadas aos termómetros lisboetas, para quem o hemisfério devia encerrar de outubro a maio. Para elas e eles, a minha explicação sucinta e pedagógica: estamos a atravessar o inverno; no inverno há frio e é costume as pessoas agasalharem-se; a “natureza” (uma coisa que existe cá fora, e que não é apenas boazinha) resiste bem ao frio e precisa dele; chuva não quer dizer “mau tempo”; além de Lisboa, do Bairro Alto e do Chiado, há outras terras no mapa de Portugal – podem visitá-las.

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A exploração do “corpo feminino”, ai de nós.

por FJV, em 05.02.18

 Rose McGowan na red carpet da Fórmula Um do cinema.

 

Peço desculpa por voltar ao tema, mas ele chama-nos. O facto de uma pintura de J.H. Waterhouse ter sido retirada de uma galeria de Manchester (porque era preciso “discutir a forma como a arte vê o corpo da mulher”) veio que nem de propósito acompanhar a decisão de a Fórmula 1 ter decidido acabar com a presença de jovens raparigas junto das boxes por se tratar de uma exploração do “corpo feminino”, ai de nós. Como vejo duas ou três corridas de F1 por ano, o assunto não me entristece nem alegra, limitando-me a observar como o “corpo feminino” continua a ser exposto nas boxes de Cannes, dos Globos de Ouro, dos Grammys e creio que dos Óscares e de outras presenças “da grande arte”, além das revistas de moda e páginas parvas do Instagram. O atual fascismo libidinal que persegue obras de Balthus, pode também vir a censurar quadros de Velázquez (Vénus ao Espelho) ou Goya (La Maja Desnuda) e a coisa promete seguir adiante. Enquanto isso não acontece, espero agora que eliminem atrizes decotadas das passadeiras vermelhas de Hollywood, onde são transformadas em puros objetos.

[Da coluna no CM]

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Seios com folhas de nenúfar.

por FJV, em 02.02.18

John William Waterhouse (1849-1917) nasceu em Roma em 1849 – um pintor clássico, interessado em temas literários, históricos e religiosos. Quando morreu, em 1917, era um dos expoentes da estética pré-rafaelita (é autor do A Dama de Shalott), a meio caminho do impressionismo. A Academia Real britânica tem-no como um dos seus mestres, e isso é dizer tudo. Pois não é. Um museu de Manchester possui o original de Hilas e as Ninfas (Hilas, é um argonautas da mitologia grega), e decidiu retirá-lo das suas paredes considerando que vivemos num “mundo cheio de questões interligadas de género, raça, sexualidade e classe” e que precisamos de discutir a forma como vemos o corpo da mulher. De facto, no quadro mostram-se os seios de duas das ninfas; outras, pudibundas, escondem-nos com folhas de nenúfar. Isto é altamente ofensivo e o museu acha que precisa de ser discutido. Em breve discutirão a Vénus ao Espelho de Velazquez, e poderão retirá-lo. Em Birmingham, uma doutrinária de género obrigou um museu a tapar partes de um quadro de Modigliani. Cuidado Picasso! Cuidado Matisse!

[Da coluna no CM]

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Na adversidade é que vale a pena escrever.

por FJV, em 01.02.18

Escritores corporativos irritam-me cada vez mais, sobretudo em matéria de queixinhas políticas. Nos EUA, que é a pátria atual das vítimas, multiplicam-se os artigos que falam de uma “crise da ficção” atribuída a Trump, aos tempos de Trump, às mentiras de Trump e à cabeleira de Trump. Autores de renome, premiados e festejados, falam do mal que os “anos Trump” andam a fazer à literatura – sem ninguém se rir. Bons tempos em que a literatura americana não tinha “causas” e era excelente. Havia Steinbeck. Nabokov, e Hemingway, que se desprezavam mas escreviam supimpa. Norman Mailer descreveu mundo, investigando, mesmo acusado de pulha. Gore Vidal escreveu os melhores volumes de ficção sobre a América sem as queixinhas das corporações de escritores escandalizados. Hoje, queixam-se da América machista, racista e imbecil – mas escrevem como pregadores calvinistas: cheios de fé, mas com pouca qualidade, apaparicados como membros de uma sociedade de caniches (há exceções, como Ellroy, Donald Ray Pollock e um bom punhado de emigrantes). Na adversidade é que vale a pena escrever.

[Da coluna no CM]

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