||| Uma interrupção.O caso
das alunas da Escola António Sérgio (duas jovens de 17 e 19 anos beijaram-se numa escola e parece que namoram) está a ser uma fonte de preocupações para meio mundo. Compreendo. É que
há versões. Como se dizia,
há versões e versões. Neste caso há também
aversões. Aquilo que me parece, à primeira vista, é que duas alunas, de 17 e de 19 anos, estão a despertar interesse graças à reacção pouco cuidadosa da própria escola e ao espírito filhadaputa da pequena moral. Se é verdade o que se escreveu na imprensa, se se confirma a
denúncia de alguém da escola às famílias das alunas, se isso configura uma perseguição às alunas, trata-se de um problema sério. Não é grave; basta ler romances e puxar pela memória para descobrir casos semelhantes. Só que não estamos num romance de costumes nem a nossa memória tem de lidar com a justiça feita tarde demais; não há reparação que valha. Pessoalmente, incomoda-me que a moralzinha e a maldade das
auxiliares educativas se sobreponha à serenidade e à dignidade com que a escola devia lidar com os factos (porque são
factos; não são um
problema). O pequeno mundo da província de Gaia pode ser tenebroso. À distância, aquele beijo parece uma intromissão de luz na pequena miséria da maledicência e do desastre, uma interrupção qualquer. Falo à distância. Mas é à distância que devemos falar; garantindo que não pode haver nenhum tipo de perseguição da escola e que a escola tem de garantir que as alunas não podem ser prejudicadas na sua condição de alunas (ou seja: passar de ano, se tiverem aproveitamento, chumbar se isso não acontecer), salvo se a situação configurar o que chamamos de «alteração da ordem pública», o que parece que, manifestamente, não acontece. A tenebrosa moral do povoléu precisa de um choque: transforma um beijo roubado num acto de exibicionismo, exibe aquilo que estava escondido, esconde a pequena miséria quando encontra vítimas a propósito. A pequena moralzinha, além do mais, é imbecil: como não conhece a tolerância, nem as palavras certas, nem a suavidade, trata de excitar os pobres de espírito com a rudeza e o erotismo dos valores morais. Erro sobre erro.
Gore Vidal dizia que sexo é política; eu acho que não. Não é uma luta minha, se me entendem. Mas se se trata de rir de cavernícolas e de defender as duas alunas, contem comigo. Como um liberal à moda antiga.