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A piada do dia foi dita pelo meu amigo João Gabriel.

O norte da Patagónia, entre a Argentina e o Chile.
Ou entrou em roda livre ou a pontaria está realmente afinada. Ontem, Manuel Alegre (que acha que apelar a «a exercer o direito cívico» é «eleitoralismo do século passado») «incomodou-se» com os jornalistas que lhe faziam perguntas, e teve de «ser acalmado»; hoje, acusa Cavaco de ser «arrogante com os media».
A estratégia de Manuel Alegre segue a mancha do papel químico. Tenham medo — uma estratégia que deu frutos.
Manuel Alegre anunciou ao país, com discutível sinceridade, que a reeleição de Cavaco «pode abrir caminho não apenas para uma mudança de Governo ou da maioria, mas também para uma mudança da democracia»: Ou seja, «a democracia deixará de ser a mesma». Esta ameaça (tenham medo, tenham muito medo) foi repetida até à exaustão durante a última campanha presidencial, agitada sobretudo no campo soarista, com o resultado que se conhece. Algumas almas entediadas com a coisa chegaram a falar no «regresso ao fascismo» e Augusto Santos Silva, num acesso de astenia cerebral, mencionou que essa eleição configuraria «um golpe de estado constitucional», «uma tragédia». A cantilena repete-se, mas nunca se esperava que o intérprete desse guião medíocre e entediante fosse Manuel Alegre.
Cumpriram-se ontem 50 anos sobre a morte de Dashiell Hammett. Para quem leu O Falcão de Malta (adaptado ao cinema por John Huston, Relíquia Macabra, com Humphrey Bogart e Mary Astor), A Chave de Vidro ou Estranha Maldição, todos publicados na histórica coleção Vampiro, é evidente que Hammett está no pódio da «literatura policial». Sam Spade, o seu herói, é um personagem que não nos larga daí em diante; as suas descrições secas, melancólicas, revelam o coração de um grande escritor e de um temperamento solitário. Depois de Hammett, como depois de Chandler, o policial nunca mais foi inocente ou «divertido». Wim Wenders realizou um Hammett inspirado na sua vida (a partir de um romance de Joe Gores), belíssimo. Reler Dashiell Hammett é uma homenagem inspirada.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Em Espanha há uma ministra imbecil que pretende, à semelhança do boneco de plástico que chefia o governo, “mudar o país”. Leire Pajín, a jovem ministra da Saúde, Política Social e Igualdade, acha que o Estado pode e deve meter-se em todos os domínios da vida civil – proibindo as pessoas da fumar, mas também punindo-as se elas ‘insultam’ (chamar ‘feio’ a outra pessoa pode valer uma multa de 500 mil euros), ou se ‘discriminam’ alguém – por exemplo, perguntar a uma rapariga ‘se tem namorado’ é punível; deve perguntar-se-lhe se tem ‘uma pessoa’. Para isso, vigiará escolas (para que as crianças não tenham brincadeiras ‘sexualmente discriminatórias’), imprensa, ruas e instituições, de látego na mão, mostrando às pessoas como se devem comportar. Os palermas estão no poder.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Aqui, ali, respirando, vendo árvores, fazendo balanços;
resistindo, olhando para lá da janela, arrumando gavetas;
felizmente há médicos que ajudam com poesia.
Parece que, “nesta quadra”, os portugueses gastaram tanto dinheiro como no ano passado. A récita desses números (os do consumo natalício) faz parte do retrato de uma família de novos-ricos que não sabem que são novos-pobres. O consumo estapafúrdio é um hábito incivilizado, pouco inteligente, alimentado pelo desejo de ostentação ou – então – pela fuga à penúria. Não é muito contraditório. O novo-riquismo imoderado revela as sombras de uma sociedade em crise, insatisfeita, perdulária e injusta, que desconhece coisas essenciais: contentar-se com pouco, poupar para viagens futuras, contemplar o crepúsculo ou o amanhecer, ler um livro, jantar em casa com amigos, colecionar plantas. Hábitos. Monotonias. Simplicidade. Talvez um dia os portugueses possam ser felizes de novo.
Começar de novo. Começar desde o princípio, começar como se não houvesse nada antes e houvesse tudo depois. A fantasia de um “ano totalmente novo” ameaça-nos todos os anos mas faz pouco por nós. Como será o ano de 2011? A ameaça da economia pode ser dilacerante, mas merecemo-la; é um ano de grandes escolhas, mas também na cultura, na política, na vida das pessoas reais. São dores de crescimento. As grandes mudanças que a Europa fez durante décadas, no pós-guerra, foram aceleradas em Portugal – sem treino nem recuo. A fatura é cruel mas pode ser decisiva, porque nos obrigará a confrontar as nossas possibilidades com os nossos desejos. Irá obrigar-nos a voltar para dentro, para uma vida mais modesta, onde o preço das ilusões terá de ser pago. É cruel? É. Mas é a vida.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Bruno Vieira do Amaral, no A Douta Ignorância: «É tudo tão simples: a culpa é sempre dos maricas e das putas.»
Henrique Raposo, no Clube das Repúblicas Mortas: «Brandos costumes my ass.»
Luís Menezes Leitão escreveu um importante post sobre direitos civis:
«É perfeitamente constitucional confiscar sem indemnização os rendimentos das pessoas. É igualmente constitucional o Estado decretar unilateralmente a extinção das suas obrigações apenas em relação a alguns dos seus credores, escolhendo naturalmente os mais frágeis. E finalmente é constitucional que as necessidades financeiras do Estado sejam cobertas aumentando os encargos apenas sobre uma categoria de cidadãos. Tudo isto é de uma constitucionalidade cristalina.»
Os portugueses habituaram-se a aceitar princípios discutíveis «em nome da Nação»: as leis servem o Estado, a retroactividade das leis é aceitável desde que sirva os interesses do Estado, o Estado pode decretar regimes de excepção a seu favor quando lhe for mais conveniente (inclusive, furtar-se a leis da UE), o cidadão deve fazer prova de tudo o que o Estado entender. A lista é infindável e pode ser acrescentada de tudo o que uns seres estratosféricos, incluídos entre os «constitucionalistas», descortinarem a favor do Estado nas possibilidades do texto da Constituição. A paixão doentia pelo Estado e pela Constituição como seu instrumento privilegiado é um caso patológico da politologia portuguesa, para quem os direitos civis são um óbice, um obstáculo e – crescentemente – uma ninharia que põe em causa os interesses absolutos e intocáveis do Estado. Uma sociedade civil fraca, sem opinião, invejosa, ressentida, pateta, rendida ao argumento de «quem não deve não teme», aceita tudo – o poder discricionário do Estado, a inversão do ónus da prova, a violação da privacidade, sucessivos e injustificados agravamentos fiscais, a má gestão da coisa pública, o assalto aos rendimentos em nome dos interesses de um Estado mal gerido e gastador, investimentos mal estudados e mal realizados, tudo. E vota em conformidade, vota por simpatia, porque é mais facil, porque é mais facilmente convencida e ludibriada – e porque quer ser convencida e ludibriada. Para esta sociedade civil delapidada e privada de si mesma, ressentida e silenciosa, é normal que os constitucionalistas forneçam pareceres à medida do Estado. Nada a prende à Constituição, que é uma espécie de disco voador.
Dois anos de Delito de Opinião, e é bem feito.
Queres tu ver que vão aparecer na CGD?

Hoje, às 18h30, na Bertrand do Chiado, em Lisboa: Ricardo Araújo Pereira.
Durante dois anos, os contribuintes pagaram o BPN e as patifarias feitas no BPN, ilibando-se o BdP de qualquer responsabilidade. Durante dois anos, ou grande parte deles, a CGD capta do BPN os bons activos, os bons clientes e as boas contas, deixando em seu lugar o que querem impingir aos «bancos compradores». Durante dois anos, nacionaliza-se a patifaria do BPN e prepara-se a sua reprivatização. Nos próximos tempos, os contribuintes pagarão a reprivatização, depois de ter sido retirado do BPN o que ainda valia a pena no BPN. Esta é a história.

Tenho saudades de Espanha. Alguém deve ter demolido aquele país monumental e livre, de alcoóis supinos, de fumos elegantes e brutais, de cronistas hirsutos como hierofantes, capazes de se insultarem com método e disciplina, de capa e escopeta, e substituí-lo por esta merdice de vigilantes de refeitório, desenhados a esquadro e flor de iorgurte — que tanto perseguem fumadores reunidos numa barra como corrigem a língua nobre e orgulhosa que foi de Cervantes, Ortega, Pedrayo, Cela e Ballester, para a transformar num zapaterismo de plástico e alforreca. Tenho saudades de Espanha.
Há aí uns fedelhos e fedelhas na imprensa (rádio, tv e jornal) que, de repente, descobriram ser «o BPN» (em vozinha histérica, laparosa, maltrapilha) «o grande tema das presidenciais». Não lhes bastasse andarem a responder de ouvido aos sopros que lhes chegam como um bordão, há agora, aqui, o descaramento de quem andou mais de um ano a tergiversar em roda do mistério do banco perdido; investigar, reunir provas, coligir documentos — só se alguém as fizer chegar, servidas e oleadas. Escusam de se eriçar e corar de desapontamento. Não passam de altifalantes. Durante meses pedem política, ideias, honra e seriedade; em dois dias, seguem a lebre como se fossem alferes de coutada.
Caro Eduardo: a questão não é olhar a coisa BPN ou a coisa CEF (Caixa Económica Faialense) à luz do cavaquismo ou do socratismo. O problema é o estrito cumprimento da lei, coisa que assusta muita gente porque, segundo parece, a lei verga-se bastante consoante o filet mignon do colunismo, que é o alvo das tuas ironias. Que a falência fraudulenta seja fácil de explicar, eu concedo: foi um assalto às poupanças dos clientes, depositantes anónimos e emigrantes que passaram uma vida inteira a trabalhar no Canadá e nos EUA para enviar «para casa» os dólares da sua vida. Em Português, as leis encontram sempre vírgulas para que alguém contrate não um advogado – mas um gramático que analise os parágrafos à lupa. Sou de opinião que os escritórios de advogados têm escondido, nas caves, parte dos meus antigos colegas de linguística e filologia, amarrados a frases impenetráveis perpetradas pelos legisladores, juízes do Supremo e outros avatares. Já no caso da coisa BPN, não havia – ai de nós – , essa pobre gente que lava a honra das suas economias com disparos sobre gerentes de contas em Toronto ou Montreal, como aconteceu com a CEF: em seu lugar, havia coleccionadores de acções, especuladores «da alta», financeiros, industriais e antigos «cavalheiros da indústria» (uma classe em desaparecimento, infelizmente), aforradores «de nível», negociantes de fundos nebulosos e – claro, lá teriam de aparecer estes empecilhos – pessoas que investiram o que tinham para investir porque queriam valorizar o seu dinheiro como os outros o valorizavam. Que até agora não tenha havido uma solução é, pois, regularmente estranho. O Estado (nós, eu, tu) já pagou uma parte da factura e do buraco. Vamos continuar a pagá-lo, por mais absurdo que isso seja. Culpar os anos do cavaquismo é uma hipótese muito produtiva para efeitos de pregação moral e de reavivamento da memória, para quem não toma Fosgluten; mas as Sras. Auctoridades que deixaram o BPN chegar a este buraco suspeito estão livres de investigação; o Banco de Portugal fica com o currículo limpo; a CGD vai receber doses injectáveis até diluir o veneno; e os tribunais hão-de recorrer a linguistas e filólogos como de costume. Tirando a celeridade da justiça, os dislates do Banco de Portugal (que se limita a ficar surpreendido com a idoneidade das administrações, como se o dinheiro tornasse honráveis os seus donos), a injecção de dinheiro (que não se sabe para onde foi, para onde vai e para onde irá), não percebo por que não se limpou a coisa BPN. Nacionalizou-se o buraco; ficámos a pagá-lo. Um dia desnacionaliza-se o buraco e é preciso que alguém o pague de novo. Estás ver, não estás? O país é que está cheio de gente que gosta de arriscar desde que isso não signifique correr um risco. Dinheiro fácil, baratinho e privado.
Adenda: ver post de António Pinho Cardão.
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