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Lulização.

por FJV, em 11.06.10

É tão grande a quantidade de contradições, mentiras, deturpações, interpretações duvidosas e silêncios — que vai ser difícil batalhar por conclusões limpas e claras. Estamos a caminho da lulização da política portuguesa: todas as CPI demonstram que há ilegalidades, mentiras e atropelos à decência, mas quem dá o passo decisivo? É a banalização da manigância.

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O hooligan em Danger Point. Vuvuzelas.

por FJV, em 11.06.10

aaÁfrica do Sul, 1 ss México, 1 ff hNão é estranha é a quantidade de comentadores que vai falar das dificuldades «da transição ofensiva» e do alto valor teórico da selecção mexicana, diante do baixo valor teórico da sul-africana. Sobre o primeiro dos axiomas, registe-se que nunca houve problema com as transições ofensivas; quanto ao valor teórico das selecções, é uma escala que não tem aplicação numa fase final. Pareceu que Parreira tinha uma ideia fixa — aguentar quarenta e cinco minutos e não se maçar durante o intervalo. Conseguiu. O México marcou com dificuldade depois de ter desperdiçado quatro lances nos primeiros vinte minutos do jogo, por absoluta cerimónia. Giovanni dos Santos pode vir a ser um bom jogador naquele grupo de mariachis que andaram no campo ao ritmo de um grupo de bebedores de mezcal de Oaxaca — ora cheios de pressa, ora de cabeça perdida.

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O hooligan em Danger Point. Televisão.

por FJV, em 11.06.10

A única forma de justificar a paciência que ainda tenho para o Mundial é o facto de não ter visto televisão (tirando duas gravações de Nigella Lawson, um episódio do House e um frente-a-frente com Mário Crespo) nas últimas duas semanas. Não vi as reportagens sobre o que comem os jogadores, como são os quartos de hotel, a qualidade do relvado durante os treinos, que música ouvem e que jogos de computador usam. Não tenho visto as mesas-redondas (mas devem ter sido criticáveis, e hoje participo numa) nem as imagens do autocarro lusitano e do hotel da rapaziada. Limitei-me a preparar comida com antecedência, para poder ver os jogos todos deste fim-de-semana, antes de ser amparado e levado para recuperação.

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O hooligan em Danger Point. Cabelo.

por FJV, em 11.06.10

O editor de desporto do Times queixava-se outro dia da forma como a BBC escolheu os comentadores do Mundial: eram todos profissionais ou ex-profissionais do futebol e tinham doutoramentos em jogo corrido pelas alas ou em passes longos e defesa concentrada à maneira do Tottenham dos anos setenta. Ex-futebolistas, ex-técnicos e ex-pessoas, no fundo. Para isso (explicar por que razão Simão não pode entrar sempre pelo mesmo ponto da área, por exemplo), bastavam dois deles (o outro mencionaria coisas como «transposição defesa-ataque», «a bola escapa-se pelo eixo da defesa» ou «basicamente ainda não marcámos porque Deus é da Costa do Marfim») e desocupavam-se os estúdios. Por exemplo, alguém que abordasse assuntos praticamente metafísicos como o penteado dos jogadores – o de Liedson, que exige «pente 3», e as cristas no tecto da cabeça de 70% da selecção nacional. Não compreendo como, observando com alguma minúcia o cabelo de Djaló (que não está lá), não se atiraram a eles com um barbeiro à antiga portuguesa, capaz de em cinco minutos resolver o problema. Eu, que passei um ano a pedir a cabeça de Belluschi para a entregar ao barbeiro, e que teria impedido a entrada em campo de Hulk por vários motivos mas um deles seria o seu corte de cabelo nos últimos jogos (a imitar Belluschi), não compreendo como Queiroz não se preocupa com isto, em vez de andar a pensar como há-de meter a selecção a jogar à maneira do Sporting que perdeu com o Benfica (o 6-3, lembram-se, certamente).

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O hooligan em Danger Point. Comecemos pelo melhor.

por FJV, em 10.06.10

O pior deste Mundial, até agora. As vuvuzelas, os jornalistas portugueses histéricos com os assaltos e a insegurança, o medo do jogo contra a Costa do Marfim, os noticiários da rádio,a ameaça de explicadores de futebol na tv portuguesa, os cromos da Panini esgotados, Maradona.

 

O melhor deste Mundial, até agora. As lesões democraticamente distribuídas por várias equipas, Vanessa Carreira, as colunas de opinião do Daily Telegraph, a memória de An Yong Hak.

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Revista de blogs.

por FJV, em 10.06.10

«Portugal não é uma pátria. Portugal é um pretexto para o ódio que, não sei porquê, habita no peito dos portugueses. Vivemos consumidos por este ódio selectivo que apenas selecciona como alvo outros portugueses. O português é o lobo do português.»

Henrique Raposo

 

«É público e já chegou às revistas que abomino qualquer tipo de expressão desse desporto colectivo que é o futebol. Não suporto os clubes, os adeptos nem a selecção.»

Tiago Moreira Ramalho

 

«Frases (longa) da semana (so far): “Uma escola descentrada da sala de aula”. Como se não bastasse toda a doutrina implícita nestas breves oito palavras, a frase explica-se em crescendo “em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca”, acabando neste climax intelectual que promete novos mundos e novas visões: “e discutindo projectos”. E nós tão sossegados e desatentos sem nos darmos conta destes sonhos e destas visões geniais. Discutindo projectos, quem diria, hein?»

Joana Carvalho Dias

 

«Guardiola, por exemplo: amou o seu Barcelona e foi sempre um senhor a defender aquela camisola; Mancini: um símbolo da grande Samp de Vialli e Lombardo, vice-campeã da Europa, mas um senhor a defender todas as camisolas que vestiu (talvez por isso quando regressou ao Luigi Ferraris com a camisola da Lázio, tenha sido ovacionado de pé); Schuster: só me lembro dele no Atlético de Futre, mas a memória é de guerreiro; Maradona: o maior de todos e de sempre; Rijkaard: ídolo da minha infância pelo golo que marcou ao Benfica no Pratter e o melhor jogador que alguma vez passou pela sala de imprensa de Alvalade; ou ainda Zico, Van Basten, Mikhailichenko, Fernandez, entre outros. O que é que transportam: histórias, glórias, memórias, sucessos. Sem isto o futebol não presta.»

Bernardo Pires de Lima

 

«O problema de Portugal é ter os jogadores errados não só para os jogadores certos que tem, como também para os outros jogadores errados, e ter o treinador errado tanto para os jogadores certos como para os errados, mas ainda assim o suicídio seria nesta altura precipitado. Os três jogos de preparação efectuados contra sucessivos fardos do homem branco mostraram, mais do que circunstanciais dificuldades físicas (tirando o Miguel, que está um trambolho, o resto parece-me tudo dentro das normas vigentes) uma assustadora ausência daquela dinâmica telepática que qualquer equipa a jogar só com 3 pessoas no meio-campo precisa para disfarçar o facto de só jogar com 3 pessoas no meio-campo.»

Rogério Casanova

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Danger Point, lesões & contrapontos. 1

por FJV, em 10.06.10


 

Discutirei todos os jogos, incluindo aqueles que não vou poder ver (sobretudo esses). Em Danger Point a bola parece mais próxima de nós. Cada jogo será um degrau no parnaso futebolístico. Estou em estágio; amanhã serei latino-americano, acompanhando o Uruguai (naturalmente) e o México (aí está). Para me apoiar, a colecção de cromos quase completa, a sessenta cêntimos a carteirinha. Não haverá lesões suficientes para fazer um contraponto ao patriotismo. Amor e dedinhos dos pés.

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Relato.

por FJV, em 10.06.10

Pela estrada fora, ontem, de carro, ouvi os relatos dramáticos e atormentados dos jornalistas portugueses de rádio enviados à África do Sul e que, ai de nós!, ai deles!, foram assaltados, ou testemunhas de um assalto, ou estão a menos de cem metros de um assaltado. Que frisson, ser assaltado na África do Sul. No entanto, eles estavam zangados. O mundo é injusto. Que assaltem e assassinem emigrantes portugueses na África do Sul, é uma estatística; mas, caramba, um jornalista destacado para o Mundial, esse evento que devia fazer parar o universo, obrigar os assaltantes a umas férias, interromper a violência, morigerar os larápios? É uma falta absoluta de senso. Ainda por cima, a polícia demorou a chegar. Ainda por cima, a polícia adiou por diversas vezes a conferência de imprensa em que devia prostrar-se (espero que tenham ouvido um jornalista em histeria, contando estas peripécias, ai dele, ai de nós – tanto, que foi interrompido pelo pivot, em Lisboa) em homenagem à classe. Que falta de senso, a da polícia, que não largou os trinta e dois assaltos e vários homicídios que houve nas redondezas para se dedicar em exclusivo a falar para os microfones das estrelas – um assalto, caramba, um assalto, que frisson. Ainda por cima, vejam bem, a polícia recuperou 90% do material roubado e enviou um destacamento para proteger os jornalistas que, de imediato, eu ouvi bem!, passaram a protestar contra a vigilância policial porque se sentiam inseguros. Parece que um comandante disse, entretanto, que a violência crime «já cá estava antes do Mundial e estará no Mundial», que despautério, que abuso, que falta de noção – então vai a rapaziada comentar as glórias da bola, e este homem chama-os, assim, à bruta, à realidade? Sinceramente, isso não se faz. Quando muito, interrompia-se a África, propriamente dita, até que os jornalistas acabassem de transmitir os relatos e depois, só depois disso, os assaltos e os homicídios que fossem paulatinamente retomados, com a bonomia habitual, para que – de Lisboa, nas almofadas das redacções, entre graçolas – se riscasse o assunto da agenda com o argumento de que ninguém quer saber de outro tipo assassinado ou de um portuga baleado à porta de casa, além do mais são emigras, quem é que se vai importar? Assaltar um jornalista? Que falta de senso.

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Coisa fresca.

por FJV, em 08.06.10

A 26 de Junho de 2005 Eduardo Prado Coelho recordava — na sua coluna de então, «O Fio do Horizonte», no Público — uma afirmação de Sócrates depois da demissão de Guterres. O actual primeiro-ministro dizia, então, que os «eleitores querem é uma hipótese mais fresca».

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Acasos, 31.

por FJV, em 08.06.10

 

Great Lake Swimmers, «To Leave It Behind»

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Acasos, 30.

por FJV, em 08.06.10

 

The Cardigans, «For what it's worth»

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Taxar o pecado.

por FJV, em 08.06.10

Os sin taxes fascinam qualquer administração em busca de fundos. Cigarros, refrigerantes, automóveis, bebidas com açúcar, café, pão, sal, tudo deve e pode ser taxado à vontade do Grande Educador; não só se penalizam os pecadores que insistem e pecar como, além disso, se dão lições sobre como é uma vida saudável e frugalíssima. Um artigo de N. Gregory Mankiw no The New York Times:

 

«If this is indeed the best argument for “sin” taxes, as I believe it is, we are led to vexing questions of political philosophy: To what extent should we use the power of the state to protect us from ourselves? If we go down that route, where do we stop?

Taxing soda may encourage better nutrition and benefit our future selves. But so could taxing candy, ice cream and fried foods. Subsidizing broccoli, gym memberships and dental floss comes next. Taxing mindless television shows and subsidizing serious literature cannot be far behind.

Even as adults, we sometimes wish for parents to be looking over our shoulders and guiding us to the right decisions. The question is, do you trust the government enough to appoint it your guardian?»

 

[Via Tiago Moreira Ramalho.]

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São Gens de Calvos, ou de como se espera o falso D. Miguel e se começa a brandir o látego da moral.

por FJV, em 08.06.10

 

A Brasileira de Prazins é, com toda a certeza, um dos grandes romances da nossa língua. Camilo não faz apenas romance & folhetim: como conhecia Sterne, o Mestre, dá aulas de história, de botânica, de deontologia jornalística, esclarece-nos sobre teologia positiva, sobre exorcismo, psicologia & psiquiatria — e sobre gastronomia, evidentemente. Sobretudo quando aparece em São Gens de Calvos, e logo em casa do abade, um falso D. Miguel que se refastela em almoços de quatro e cinco pratos à beira da cama. O falso D. Miguel aparece porque as milícias de remexidos locais acreditam que podem vencer o senhor governador civil de Braga e porque o pedreiro Zeferino das Lamelas anda cheio de ressentimento por ter perdido a noiva para um estudante de teologia. Camilo, um dos nossos melhores miguelistas, ri-se e conta a história do falso D. Miguel, afinal o Trocatles que há-de ser mandado preso para Braga, depois de se ter escondido numas pipas de verde tinto. Quem quiser saber pormenores, está aí o livro — que vale cada cêntimo e é um dos nossos melhores.

Seja como for, o falso D. Miguel é que é. O Minho fervilhava, entusiasmava-se, e os antigos capitães de milícias e saudosos de um McDonnell de boa saúde limpavam as escopetas, bebericavam genebra e imaginavam que, mal a banda tocasse uma modinha à beira do Cávado ou do Ave (do género «Água leva o regadinho») a multidão descia de Fafe, dos Arcos ou de Lanhoso para fazer uma nova Vilafrancada. Camilo, maroto, gozava o prato. Em primeiro lugar, porque ele conhecia o Minho (escreveu sobre Casimiro José Vieira e sabia distinguir um frade de um lorpa); em segundo lugar, porque D. Miguel já tinha sido bastante insultado pela populaça a caminho de Sines e de Génova, e não estava para vir às romarias de barões e de torna-viagem. Gozemos, pois, o prato, que os tempos estão de feição: esta gente está à espera do falso D. Miguel e está disposta a aclamá-lo, mesmo sabendo que ele é falso. Os miguelistas de lei, gente séria, sabem que já houve a concessão de Évora Monte e não estão para brindar ao primeiro cónego que lhes apareça — mas, caramba, esteve aí o papa, houve procissões e acenderam-se velas. E, diante disto, Cavaco promulga a lei dos casamentos gay? Não pode ser. Que daqui a um tempo andem misturados nas festas matrimoniais de primos ou de actores que entram em consórcio carnal com um dos da família, que vá — são os tempos e é preciso estar de acordo com eles («Filosofemos», como dizia o Eusébio Macário, antes de ser feito barão). Mas que Cavaco tivesse feito as contas e chegado à conclusão de que era inútil entrar em guerra aberta por causa de mil, vá lá, cinco mil casamentos entre pessoas do mesmo sexo, isso não se lhe perdoa. No fim de contas, ele estaria ao serviço da causa — e não passa de um homem de Boliqueime, filho do sr. Teodoro.

Com esta agravante: veio o papa e encheram-se as ruas. Entusiasmados como os regedores à beira do Ave, de Camilo, eles também julgam que agora vai de arrastão. Entusiasmados ainda, pedem uma candidatura presidencial à direita, firme, honrada e perfumada de incenso, com a D. Aura Miguel a comentar em directo. Uma coisa que expulse os libidinosos e castigue os excessos, que devolva a moral às famílias e seja anunciada no meio de uma novena. Os tempos, pensam eles, estão de feição, ergamo-nos em nome da moral, tomemos Belém, persignemo-nos.

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Admirável mundo novo.

por FJV, em 07.06.10

«Uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos — é esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal.» A Parque Escolar transformada em ideóloga e leitora de More, Calvino, Bacon, Ignacio de Loyola ou Campanella.

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Lembram-se? Transparência na política, na administração.

por FJV, em 06.06.10

Do editorial de ontem do The Daily Telegraph:

 

«Yesterday, the Coalition published online millions of items of public expenditure for the past two years. The figures show in detail what departments were authorised to spend, what they actually spent and what they are forecast to spend in future. This is just a start. Later this year, all items of government spending in excess of £25,000 will be posted on the internet. For the first time, some of the most closely kept secrets in Whitehall will be subject to direct public scrutiny, the most powerful check and balance of all.»

 

Havia de ser bonito num país onde estas coisas acontecem e onde até os documentos publicados no Diário da República desaparecem.

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Jogos de estratégia.

por FJV, em 04.06.10

Marques Mendes vê bem os disparates da direita a propósito da crítica a Cavaco pela promulgação do diploma do casamento gay. Os heróis de Canudos à portuguesa esperaram que Cavaco abrisse o caminho das causas morais – depois de eles se terem limitado a campanhas envergonhadas e de argumentário reduzido. Mas, ao contrário dos heróis de Canudos, os verdadeiros, os de Antônio Conselheiro, que foram viver para os palmares, os nossos limitaram-se a esperar por Cavaco, que deveria redimi-los e pagar a conta pelos votos cedidos pela direita que nunca suportou o homem de Boliqueime. Dada a impossibilidade de entrar na guerra, Cavaco que a fizesse (é, aliás, curioso que o Cardeal Patriarca se sinta mais à vontade a criticar Cavaco do que José Sócrates). Bem pensado. Ainda por cima logo depois da visita do Papa e das multidões que foram à rua; como se esperava, os teocratas ganharam coragem – e é curioso que foi uma papista, justamente, a jornalista Aura Miguel, a primeira a criticar o Presidente.

 

Por outro lado, é aflitivo ver como Santana Lopes revela a figura que nunca deixou de ser: demasiado ocupado a ter pena de si próprio para poder dedicar um instante a pensar no assunto.

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Os guardiães.

por FJV, em 04.06.10

O debate político está tão vivo e cativante que o tema mais abordado é o dos double standards. A vigilância, claro; é um dos sinais da decadência acelerada.

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João Resina, 1930-2010.

por FJV, em 03.06.10

Um talento enorme para surpreender, cativar e descrever a física da nossa matéria. O Padre João Resina Rodrigues está mais perto dos mistérios que descrevia.

[Foto do Publico, Enric Vives-Rubio]

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Então, para que serve a Constituição?

por FJV, em 03.06.10

«Quando um ministro declara abertamente, numa comissão parlamentar, que o seu governo vai desrespeitar a Constituição de forma consciente e intencional, só a loucura geral permite complacências. Controlar o poder do governo é o principal motivo para a existência de uma Constituição. Permitir ao governo fazer interpretações livres do texto é o mesmo que recuar trezentos anos na História.»

Tiago Moreira Ramalho, no A Douta Ignorância.

 

«Já não se viola apenas o pacote de promessas eleitorais sufragado em Setembro e o programa do Governo: agora viola-se abertamente a Constituição da República

Pedro Correia, no Delito de Opinião.

 

«Se até os princípios que garantem um mínimo de segurança e de liberdade aos cidadãos cedem, de forma ligeira , àquilo que são as conveniências (obviamente, sempre qualificadas de superior ”interesse público”!) do Governo, então, quem nos garante que a seguir e pelas mesmas pseudo-razões difusas, não meteremos na gaveta a ”liberdade de expressão” ou não aparece outro qualquer governante a defender que o “interesse público” da celeridade processual deve eclipsar o princípio de que “não há crime, sem lei” ou ainda, de que a lei penal também se deve aplicar retroactivamente para condenar cidadãos e que todos seremos beneficiados com a instauração da “censura prévia“, etc., etc., etc?»

P. M. F., no Blasfémias.

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João Aguiar, 1943-2010.

por FJV, em 03.06.10

Na última viagem que fizemos, para o Brasil, contou que não sabia se iria poder escrever o livro que sempre quis escrever depois de A Voz dos Deuses e Os Comedores de Pérolas. Não pôde. O Bando dos Quatro e A Voz dos Deuses tornaram-no (justamente) conhecido do grande público. Monárquico, conservador, irónico; nasceu em Lisboa mas os anos Moçambique foram decisivos e nunca esqueceu o Índico. Até logo.

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Encruzilhadas.

por FJV, em 03.06.10

O futuro começa quando menos se espera. Há uma semana, uma dúzia de editoras de livros lançou em Espanha uma ‘plataforma de distribuição de conteúdos digitais’, depois de em Outubro do ano passado o mesmo ter acontecido em França. Ou seja: estão preparados para publicar, gerir e distribuir e-books. As redes de distribuição e comercialização portuguesas encolheram os ombros porque ‘é longe’, claro. Ontem, as editoras brasileiras mais importantes anunciaram a mesma opção. É do outro lado do Atlântico, mas é mais perto do que Espanha. Seria bom relembrar as infelizes e improváveis declarações do ministro da Ciência sobre a pirataria na net, e mencionar a ausência de legislação e iniciativas do governo sobre o mesmo assunto. Vai começar a guerra. E os ‘maus’ vão ser punidos.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Ferreira Gullar.

por FJV, em 03.06.10

O nome de Ferreira Gullar, um poeta superior da nossa Língua, é Prémio Camões deste ano. É conhecido em Portugal por uma minoria de leitores de poesia. Este fato, explicável e compreensível, leva ao despeito de uma série de inteletuais que acha que só existe o que vem nos seus dicionários. Foi assim com Antônio Cândido, um dos grandes mestres da cultura de Língua Portuguesa; foi assim com Arménio Vieira ou Autran Dourado; mas, em relação ao Brasil, foi o que também aconteceu com Eduardo Lourenço ou Velho da Costa, pouco conhecidos do lado de lá do mar – o que prova a ignorância mútua no mundo da Língua Portuguesa. Mas o Prémio Camões também tem culpa; é atribuído em silêncio, sem burburinho nem apelo público, como se fosse um segredo da Academia, embrulhado em celofane.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Rock in Rio.

por FJV, em 03.06.10

Assisti, no Rio de Janeiro, em 1985, ao primeiro Rock In Rio. A romaria que hoje em dia toma o nome daquele festival tem poucas semelhanças com o entusiasmo e o sentido originais. O rock é uma coisa séria – o Rock In Rio lisboeta é uma provação delicodoce para famílias, onde até o som dos Motorhead é quase falso. Nada contra; mas é bom distinguir esta ocupação da Bela Vista do som original de uma guitarra manejada por um bom rocker. Shakira e Miley Cyrus estão bem num pátio de adolescentes ou de famílias que transportam os filhos, mas temos o direito de temer pelo uso da palavra “rock”. Salvas as devidas proporções, é como convidar Elton John para um ajuntamento de fanáticos de canto alentejano ou ter Tony Carreira a oficiar um concerto de Deep Purple, há vinte anos.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Hopper, Dennis.

por FJV, em 03.06.10

No dia em que Clint Eastwood festeja 80 anos – despedimo-nos de Dennis Hopper, que morreu no sábado. Easy Rider (1969) não é um dos filmes da minha vida, mas Dennis Hopper era um ator raro, de culto, perseguido por um halo de admiradores que também se comoveram ao ver um dos grandes filmes da década de oitenta, Blue Velvet (1986) e prezaram muito o seu papel em Apocalipse Now (1979). Hopper tinha uma habilidade natural para incarnar o olhar do mal. É isso que ele fazia como ninguém. Realizou Easy Rider depois de Kerouac e de J.D. Salinger terem escrito os seus livros decisivos, mas a perdição estava lá, tal como em Fúria de Viver, onde tinha entrado muito atrás de James Dean. Hopper sobreviveu sempre como um olhar fatal, perdido e ameaçador. Mesmo hoje.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Arraiais.

por FJV, em 03.06.10

Parece que o cantor Quim Barreiros, conhecido pelo seu tom jocoso (com largas tradições no nosso cancioneiro popular) compôs e gravou, no seu estilo, uma canção intitulada ‘O Casamento Gay’, onde usa o dicionário do costume e o tradicional jogo de palavras relacionadas com sexo. As organizações do setor protestaram — fizeram bem; uma delas pretende mesmo averiguar, com juristas, se a canção “configura algum crime”. Pode até acontecer que um tribunal decida ‘proibir’ a canção, o que cairia bem para Quim Barreiros – porque o disco se tornaria num êxito estrondoso, com a canção repetida pela net, cantada nos arraiais de Verão e discutida em público. Cada um sabe de si, mas, sendo as coisas como são, não sei se o melhor processo será mandar a polícia falar com Barreiros.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Magalhães e livros.

por FJV, em 03.06.10

Ben Kingsley quer adaptar ao cinema O Primo Basílio, de Eça de Queirós. É uma notícia que interessa, não por ‘patriotismo’. É por causa da literatura, cujo espaço nas escolas tem sido cada vez mais reduzido – sobretudo o dos clássicos, desalojados para dar lugar a livros moderninhos que ainda não enfrentaram o tempo nem a sua poeira. Eça é um génio (como Camilo, como Machado de Assis) da literatura da nossa Língua. Que venha um ator de Hollywood relembrar-nos que as escolas portuguesas leem cada vez menos clássicos e se entretenham com gramática e “comunicação”, é uma coisa que deveria fazer pensar os responsáveis. Mas está lá alguém disponível? Não. Em vez de livros, distribuem computadores Magalhães – que, aliás, não funcionam e vão parar à sucata. É o destino.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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LER. Mais um.

por FJV, em 03.06.10

Está nas bancas a LER de Junho. Ajudem-nos, que nós merecemos.

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Constitucionalistas de todas as províncias, uni-vos!

por FJV, em 03.06.10

Aliás, acho absolutamente inacreditável que não se oiçam já os protestos de tantos constitucionalistas que nunca faltam em circunstâncias de desrespeito dissimulado pela Constituição. Desta vez trata-se de uma violação assumida do texto constitucional. O descaramento com que se fala do assunto sem que o governo, inteiro, core de vergonha, leva a pensar que ou o país não tem vergonha ou esta gente está em roda livre. Parece-me que são ambas as coisas. Ide para a praia, ide.

 

A ideia de que o princípio «da defesa da economia, do emprego e do futuro do país» se sobrepõe ao princípio constitucional da não-retroactividade dos impostos é outra abóbora; o princípio da não-retroactividade dos impostos é um princípio objectivo; a defesa da economia, do emprego e — sobretudo — do futuro do país, com esta gente, é uma nebulosa muito mais subjectiva.

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O cantinho do hooligan. Interlúdio.

por FJV, em 03.06.10

A vida não é fácil.

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Discutir o quê?

por FJV, em 02.06.10

O exercício de limpeza hoje efectuado pela Antena Um, durante o seu «fórum» da manhã foi um momento de altíssima cultura política. Bastaria, como tenho insistido, fazer um levantamento — nem por isso precisa de ser exaustivo — de adjectivos, entoações, falsidades, erros históricos, sem falar de notícias «avançadas» por fontes que mais tarde se sabe que não passam de centrais de propaganda, para perceber que a ERC tinha uma palavra a dizer. Compreende-se. Israel caiu na armadilha e as redacções das rádios e das televisões já tinham saudades de um bom pretexto para as inanidades do costume. Que lhes faça bom proveito, na companhia do «material humanitário» do costume.

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