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Sociedade da informação.

por FJV, em 19.05.10

A «sociedade de informação» tomou conta da Assembleia da República e transforma-a num espectáculo de novo riquismo autorizado. Sendo certo que uma boa parte daquelas pessoas não sabe escrever, a verdade é que não se podem deslocar de um lado para o outro sem um computador onde entram no Facebook, no Twiter, na leitura de jornais online, no correio electrónico, no Messenger, no Googletalk, onde for. Eu dava tudo para vê-los pegar numa caneta e escrever uma frase em vez de — e a culpa não é minha, está nas imagens da AR-TV — passarem a imagem de uns cavalheiros e senhoras sonolentos, diante de um monitor, trocando e multiplicando informação, sem saber o que fazer com ela. Ali ou em outro lado.

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Os heróis de Canudos.

por FJV, em 19.05.10

Apesar do mau gosto da comparação (entre o anúncio da «promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo» e «o fim da pena de morte», enunciado pelo ministro Jorge Lacão — uma coisa em forma de assim, saída daquele enorme talento?), a verdade é que a lei não vai provocar alarme social nem escândalo público. Nada do que é humano nos é estranho. Nada do que é imperfeito. Nada do que é errado. Nada do que está correcto. Cavaco fez o que tinha a fazer, com as cartas que tinha na mão, notando que não está de acordo mas que as coisas são como são. Não vale a pena nem é justo, a propósito do assunto em epígrafe, falar de covardia histórica e de capitulação. Um presidente está lá para garantir a liberdade e o jogo democrático. Se queriam outro presidente, tivessem eleito Basílio Horta na altura (lembram-se?) ou el-rei D. Sancho. Ou barriquem-se nas montanhas, como os heróis de Canudos entre os coqueiros.

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Ronnie James Dio.

por FJV, em 19.05.10

Morreu Ronnie James Dio, um dos (se me é permitido a palavra) cantores mais barulhentos da história do rock. A sua banda mais recente era Heaven & Hell, mas não é aí que fez história – e sim a solo ou nos Black Sabbath (antes, nos Rainbow), onde entrou para substituir Ozzy Osbourne, outro barulhento. Era a época: Led Zeppelin, Deep Purple, Uriah Heep, enfim. Dio marcou a história dos Black Sabbath (que nasceram em 1968) nos anos 80 com canções que poucos recordam, como “Die Young” ou “The Mob Rules”. Um teatro de violência, ocultismo, misoginia – esta era a encenação do ‘metal’, que andava a par do cocktail de álcool e drogas de que quase todos padeceram. Depois dos AC/DC ou Judas Priest, Ronnie James Dio continuava em palco. Agora, aos 67 anos, deve estranhar o silêncio.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Para compreender a derrocada.

por FJV, em 19.05.10

Sim, leiam. Está lá o essencial. Pode dizer-se tudo isso de um político que, um dia, esclareceu que strategy is about winning.

(Via Mar Salgado)

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O cantinho do hooligan em dia de Taça de Portugal. Uma equipa de bigodes.

por FJV, em 16.05.10

Grupo Desportivo de Chaves, época de 1985-86.

De pé: Paulo Rocha (ele já teve bigode), Pio (um bigode), Vivas (outro bigode), Carvalhal (um traidor ao bigode), Raul Sousa (bigode, naturalmente) e Fonseca (um dos grandes bigodes do futebol português); em baixo: César (um bigode — e vários golos de cabeça), Jorge Plácido (bigodinho), Kiki (falta-lhe o bigode), António Borges (o verdadeiro bigode, um grande bigode, uma referência para os bigodes) e Ferreira da Costa (lamentavelmente, não tem bigode).

De notar que o FC Porto de 1985-86 apenas contava com três bigodes no plantel principal: Mlynarczyc, Eduardo Luís e Elói.

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Determinismo, livre-arbítrio, liberdade e assim.

por FJV, em 15.05.10

De acordo com o Filipe, mais uma vez. A ideia de que os portugueses foram enganados é útil para transformar o eleitorado em Jardim Escola João de Deus, mas não pega. Os eleitores escolheram isto.

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O relâmpago.

por FJV, em 15.05.10

«Como se Deus existisse» é a condição que marca tanto Dostoievski como o rabi Hillel, tanto Espinosa como Freud. Como se viesse um relâmpago. Como se houvesse esferas no centro da terra. A culpa não nos larga.

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O mistério da ressurreição minhota.

por FJV, em 15.05.10

Fazia tanta falta, não fazia?

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J. L. Saldanha Sanches, 1944-2010.

por FJV, em 14.05.10

Um homem.

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Responsabilidade política.

por FJV, em 13.05.10

Estas declarações são simples e dizem tudo. Não só em relação aos que têm de pagar os custos do descontrole — e que votaram, ou não, em José Sócrates. Mas, sobretudo, sobre a responsabilidade política que deve ser apurada. Ao validar tecnicamente as opções do governo, Passos Coelho está a criar a ideia de que a Europa «é que nos está a criar estas dificuldades» e que o combate ao «inimigo externo» deve ser uma «tarefa nacional» (e, portanto, «vamos todos ajudar o nosso governo a enfrentar os estrangeiros» que nos impõem a subida dos impostos). Salvo erro, o limite já foi atingido esta semana. A partir de agora, cada um corre por sua conta e risco; esse sim, deve ser o discurso.

 

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Explicações.

por FJV, em 13.05.10

Não basta suspeitarmos que a coisa está tão feia que José Sócrates teve de pedir apoio a Pedro Passos Coelho. É preciso que ambos expliquem que está mesmo feia. Por motivos óbvios, o primeiro-ministro não contará toda a verdade; mas espera-se que Passos Coelho diga aos seus eleitores o que o leva a rubricar os documentos de São Bento — e até quando; esse até quando, salvo erro, já passou.

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Pedro Irmão.

por FJV, em 13.05.10

Pedro Vieira, o Irmão Lúcia, mudou de casa. Fez bem. Em tempos de Feira do Livro sempre há mais tempo para obras, pinturas, etc.

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Uma beleza desconhecida.

por FJV, em 13.05.10

O discurso de Bento XVI no CCB, ontem de manhã, é um curioso roteiro das relações entre a religião, a cultura, a racionalidade e a história. O seu apelo final (“Fazei coisas belas, tornai as vossas vidas lugares de beleza.”) recupera um ideal iluminista que a modernidade destruiu no meio do ressentimento e do desejo de morte. A humanidade educada no meio do transitório (ou dedicada ao tempo que passa) não compreende o que há de radical nesse incitamento. Porque se trata de um desafio terrível, que só a arte pode traduzir. O resto é obra interior, silenciosa, espantada, individual – e não admite multidões. Bento XVI sabe como é um confronto terrível: “Não tenhais medo de vos confrontar com a primeira e última fonte da beleza”, disse ele. Deus é um relâmpago desconhecido.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Asfixia.

por FJV, em 13.05.10

As acusações do ex-director do Diário de Notícias da Madeira são suficientemente graves para que se passe por elas e se encolham os ombros. Uma coisa é a inimputabilidade de Jardim; outra, a nossa responsabilidade política diante de Jardim.

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Coitadinhos.

por FJV, em 11.05.10

«A administração do banco norte-americano Goldman Sachs revelou ontem ao mercado que antecipa ser confrontada com acções judiciais que irão afectar ”a forma como faz negócios” e os lucros da instituição.» Tenham pena, tenham.

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Inevitabilidade.

por FJV, em 11.05.10

Inevitabilidade. As coisas inevitáveis (aumento do IVA, redução de 1/4 sobre o subsídio de Natal, etc.) não pode ser confundidas com medidas normais tomadas por um governo — são medidas excepcionais a que ele é forçado. Apoiamos? Não; são, simplesmente, inevitáveis — o governo é obrigado a isso porque foi empurrado por várias circunstâncias. Seria mais fácil, para o governo (mas também significaria bater no fundo), ser obrigado a tomá-las por uma entidade externa, como o FMI («Nós não quisemos, são eles, os malandros dos estrangeiros, o capital financeiro...»), como aconteceu antes. O problema é saber o que vai fazer-se dos 3 mil milhões de euros que resultam destas medidas; destinadas «a abater no défice»?, ao «programa de investimentos públicos»? à Grécia? aos juros da dívida? Sim, ao défice. Nenhum primeiro-ministro tinha feito tanto para o combater.

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Joaquim Vital.

por FJV, em 11.05.10

Conheci Joaquim Vital (1948-2010) em Casablanca, longe de Paris e de Lisboa. Não se tratava apenas de um editor português em França, onde vivia desde 1973, depois de sete anos de exílio em Bruxelas; era o editor de La Différence – o que significa que publicou excelentes livros (de ensaio, ficção e arte) e bons autores (com ele aprendi a gostar de literatura marroquina). Surpreendeu-me a sua afabilidade (que contrastava com a fama de ser irascível) e, ao mesmo tempo, a ironia delicada e excêntrica com que falava de Portugal e de literatura. A sua morte na passada sexta-feira, em Lisboa, deixou-nos sem um interlocutor. Mais do que isso, para não sermos egoístas: deixou a Europa sem um editor à moda antiga, que publicava livros de que gostava. O que é cada vez mais raro.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Patagónia.

por FJV, em 11.05.10

É a terceira edição de O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux — uma aventura de comboio, de Boston à Patagónia, e que termina com um encontro com Jorge Luis Borges em Buenos Aires. Para quem gosta de comboios, para quem gostava de atravessar toda a América (EUA, México, Guatemala, Panamá, etc, etc), para quem gosta de viajar.

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LER de Maio.

por FJV, em 08.05.10

Já está nas bancas. E com muitas novidades.

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Surripiar, locupletar-se.

por FJV, em 06.05.10

O deputado Ricardo Rodrigues, muito popular ultimamente (até pelo tom de voz), não quis responder às perguntas dos jornalistas da Sábado; estava no seu direito. Já aqui defendi o direito ao silêncio e a não ser entrevistado. A novidade é que, à socapa, surripiou (nas suas palavras, "tomou posse") ou locupletou-se com os gravadores dos jornalistas, que apresentaram queixa por roubo. O deputado justifica-se com a "violência psicológica insuportável" que teria sido exercida sobre ele (umas perguntas). Argumento sério. Deve ter sido por isso que apareceu a invocá-lo numa conferência, acompanhado de dois dirigentes do partido. Pelo sim, pelo não, desta vez os jornalistas agarraram bem nos gravadores. Pudera.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Vermelho Estaline

por FJV, em 06.05.10

Pelo blogue de José Milhazes fiquei a saber que as tintas Robbialac propõem no seu catálogo o ‘vermelho Estaline’. Fui ver e lá está, ao lado do ‘vermelho baton’, do ‘vermelho paixão’ e do ‘vermelho fogo’ – o ‘vermelho Estaline’, ao lado do ‘vermelho Rússia’, que está muito próximo do ‘púrpura Vaticano’. É mais do que uma inovação: é alta poesia destinada a famílias esquerdistas, um mercado ideológico que merece atenção. Não sei se a marca de tintas criará o ‘verde Pinochet’, o ‘vermelho Khmer’, o ‘verdete Mao’ ou o ‘castanho Mussolini’ ao lado do ‘vermelho Guevara’, mas a coisa pode pegar. Um dia alguém vai pedir a cor preferida de Hitler, que deve ser o cinzento, a mesma de Kim Il-Sung ou dos generais romenos. Não diremos que vamos pintar uma casa; estaremos a manchá-la.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

 

De Lisete Mata, responsável do departamento de Marketing da Robbialac, recebi o seguinte email:

«No seguimento do seu artigo de opinião sobre a Robbialac, publicado hoje no Correio da Manhã, a Robbialac vem esclarecer que nunca foi sua intenção ofender as vítimas do Estalinismo.

Nessa medida e para que não restem quaisquer dúvidas, a Robbialac decidiu eliminar a designação "vermelho Estaline" e "vermelho Rússia" dos catálogos em que as mesmas vêm mencionadas.

A Robbialac está presente no mercado nacional há 79 anos, tendo sempre mantido uma postura de escrupuloso respeito pelos seus consumidores e colaboradores.»

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A vingança.

por FJV, em 06.05.10

A realidade ultrapassa a ficção, como conta o CM na sua edição de ontem: uma jovem mulher saiu nua, para a via pública, em perseguição de um amigo que se recusara a “praticar sexo” com ela. Ele garantiu à PSP que “eram só amigos” e que “já lhe tinha frisado isso”, mas as coisas são como são. Martin Amis fala do assunto no seu novo romance A Viúva Grávida, mas também Tom Wolfe já o abordara e, em farsa, os livros de Tom Sharpe têm sempre uma dama devoradora que persegue um homem atemorizado. Os antigos caçadores tornaram-se presas – o que é apenas um capítulo da revolução cultural em curso. A ordem do mundo altera-se e não é caso para escândalo nem lamento. Muitos anos de romances, cinema e ícones pop libertaram o sexo e transformaram-no numa compulsão. É a vingança.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Cunha Leal.

por FJV, em 06.05.10

Há personagens de romance que entram pela política e a marcam em definitivo. O tempo escolhe as melhores personagens, e uma delas é Francisco da Cunha Leal (1888-1970), este sábado homenageado no Fundão. Figura de destaque da oposição ao salazarismo, o seu trajeto político vem da I República, que viveu intensamente, com entusiasmo, coragem e contradições – como a época exigia, aliás. A meio do século XX, viu antes dos outros a necessidade de antecipar mudanças que, depois foram trágicas (a economia e as colónias, por exemplo). A imprensa vibrava quando se anunciava um discurso de Cunha Leal; como político, distinguir-se-ia dos de hoje – pela voz. E por não ter medo de provocar escândalo entre os dogmas bem comportados da esquerda ou da direita. Coisa rara. Ave rara, ele.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Diplomacia e graciosidade.

por FJV, em 05.05.10

 

Claro que há este caso cómico entre os jornalistas da Sábado e o deputado Ricardo Rodrigues, mas nos média de hoje há também uma entrevista a um antigo operacional das FP-25 de Abril, transmitida hoje pela Antena 1, e realizada pelo jornalista José Manuel Rosendo. Vamos a factos: «António», o codinome, hoje «sensato», diz que as FP-25 não queriam copiar os modelos do «bloco de Leste» nem os países do «bloco dito imperialista», mas pensavam numa «via diferente baseada no poder popular»; não «estávamos de acordo com aquilo que chamávamos democracia burguesa, queríamos uma democracia virada para as organizações de base, como as comissões de trabalhadores, comissões de moradores», ou seja «uma coisa diferente daquilo que se tinha passado nas outras revoluções». «António», que se considera «um político operacional» qque participou «em algumas dezenas de operações», acha que as FP-25 foram «a continuidade dos Baader-Meinhof, do Sinn Féin» e «lá do Maio francês», e acha que tudo isso era, na verdade, impossível; foram «os últimos da Europa a apanhar esse comboio», uma velharia que, a 30 anos de distância, «não tem sentido». Os assaltos a bancos eram acções de «recuperação de fundos»; no meio desses «assaltos a bancos ou recuperação de fundos» a «forma de estar» das FP «era de forma a não utilizar a violência», «com total sentido de diplomacia»; «tínhamos alguma graciosidade, entre aspas, quando entrávamos nalgum banco para recuperar fundos». Também vale a pena ouvir a partir do minuto 27'.

 

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O beijo no asfalto.

por FJV, em 05.05.10

Azedas e cravinas-bravas (Dianthus lusitanus), na Serra do Reboredo,

uma paisagem prodigiosa. Fotografia de A. Gonçalves no Torre de Moncorvo.

 

Parece obsessão, mas não é. Na semana passada fui a Barca d'Alva. Em vez de sair da A25 na Guarda e seguir por Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo (beleza pura, este trajecto, que recomendo muito), saí em Celorico da Beira porque passaria na minha terra, indo por Trancoso, Marialva, Vila Nova de Foz Côa, Pocinho e, depois, ou por Moncorvo atravessando a Serra de Roboredo (uma das paisagens mais intensas e bonitas do meu país) na direcção de Ligares, descendo até ao Douro e Espanha por aí; ou por uma estrada da minha adolescência, pelo Peredo e até Ligares, acompanhando o rio ao longe, e atravessando ums das colinas mais povoadas de carqueja e de urze. Faltou-me a companhia do Dias com Árvores, basicamente.

Ora, entre Celorico da Beira e Marialva e a baixa de Muxagata, cruzei-me com cinco carros e ultrapassei (contei) dezasseis — destes dezasseis, apenas quatro eram «veículos ligeiros» (a linguagem da Brigada de Trânsito fascina-me); os restantes doze eram camiões que se movimentam nas obras da auto-estrada que acompanha a EN202 — um monstro de viadutos, pontes, planos inclinados, planaltos de asfalto que em breve aparecerá por ali, e por onde não passarão os 12,000 «veículos» diários que justificam, segundo os estudos oficiais, a construção de uma nova auto-estrada. Considerando  (excepto um troço de paisagem amável mas de circulação lenta, entre Celorico e o cruzamento para Vila Franca das Naves) o planalto de Marialva, a baixa de Muxagata, a estrada ribeirinha do Douro (entre o Pocinho, a Foz do Sabor e o Vale da Vilariça), o Vale da Vilariça propriamente dito (na zona da Terrincha) e as estradas nada congestionadas que seguem para Alfândega, Macedo, etc. — imagino que daqui a uns anos Bragança estará servida de bastantes vias de comunicação com o deserto. As auto-estradas farão a navegação entre Bragança, numa ponta (Chaves na outra, com a A24, mas há sempre a esperança de Miranda do Douro, porque pressinto o meu país sedento de progresso rodoviário), e Lisboa noutra. O país beija o asfalto com paixão.

 

Aconselho vivamente os leitores a um passeio ao Douro; subam a um miradouro em Armamar, por exemplo, na margem direita — e observem como o Marão, o vale do Douro e «o país vinhateiro» da Unesco já não existem: é um traçado miraculoso de rios de asfalto, que atravessam montanhas, antigos bosques aqui e ali, declives e hortas que já desapareceram. É um beijo no asfalto.

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Management (e neo-frugalismo, claro).

por FJV, em 05.05.10

Management. Detesto a palavra, mas existe na «linguagem das empresas» — não está apenas relacionada com gestão corrente, com objectivos económicos imediatos, com produção corrente. Tem a ver, também, com o futuro e a prospecção a longo prazo. Estratégia.

Vejamos isto: o PCP propõe-se apoiar o TGV no Parlamento se estiverem reunidas três condições: que garanta a «defesa e modernização da nossa linha ferroviária nacional, que o investimento seja público e que haja incorporação da produção nacional nesse projecto». Sobre o terceiro ponto, há estudos (flutuantes e pouco credíveis, em meu entender) que apontam para 80%; o investimento público é evidente; que o investimento no TGV seja a garantia de um mapa ferroviário decente (é o que pede o Bloco, por exemplo), já tenho muito mais dúvidas — basta ver como a ferrovia tem sido continuamente delapidada em Portugal, e não apenas nos ramais históricos. Delapidar a ferrovia significa não modernizar nem fazer manutenção da existente, aumentar a prestação de maus serviços da CP para afastar público (coisa garantida, basta ver como as estações são miseráveis, feias e sujas — a começar pela Gare do Oriente e a acabar no abandono de Santa Apolónia, estação que devia ser uma jóia da coroa e nunca colocada em questão a sua utilização, como faz a Câmara de Lisboa; aliás, as estações principais deviam, mesmo, ser a do Rossio em Lisboa e a de São Bento no Porto). Evidentemente que a promoção da ferrovia é um factor de desenvolvimento, de correcção ambiental e de sensatez.

Simplesmente, ao mesmo tempo, programam-se investimentos fortes nas auto-estradas. Basicamente, em  2008 o governo planeava que a rede nacional de auto-estradas crescesse 50% até ao ano 2012. Em Setembro de 2009 passaram a existir duas auto-estradas Lisboa-Porto-Lisboa e o ministro Mário Lino chegou a anunciar uma terceira, independentemente das concessões que continuam em aberto e que nem a crise económica ajudou a cortar nem a crise demográfica ajuda a repensar. Alguém de bom-senso acha que os argumentos (correctos, vale a pena dizer) do PCP e do Bloco sobre a ferrovia nacional são para respeitar, quando se prevê este crescimento do asfalto — que não é apenas do asfalto, mas da indústria automóvel, da camionagem, e da desertificação? Isto, ao mesmo tempo que se continua a planear o novo aeroporto de Lisboa em tempos de diminuição drástica do tráfego aéreo (situação que se prevê contínua até para lá do final da década).

Management. O que as empresas fazem, devia ser feito para o país que corre para a frente sem pensar.

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O neo-frugalismo, 2.

por FJV, em 05.05.10

Por exemplo, tomar o pequeno-almoço em casa. Uma velharia sensata, amável e boa para a saúde.

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O neo-frugalismo.

por FJV, em 05.05.10

«Os portugueses estão rendidos ao neofrugalismo», diz o Público. O que é o neofrugalismo? Uma nova tendência musical, uma vanguarda literária, um sistema ocidental de feng-shui? Não: uma coisa sensata, «a tendência mundial de consumo que foi prevista em finais de 2008 num relatório do falido banco de investimento Merril Lynch». Há males que vêm por bem.

Mas há coisas que convém situar no tempo. O «neofrugalismo» é, realmente, o modo como vivem os povos do Norte da Europa, muito longe dos padrões de consumo norte-americano — e, convenhamos, português nas últimas décadas. Ir ao restaurante uma vez por semana, ou menos; pensar bem antes de entrar numa loja de electrodomésticos, fazer contas antes de imaginar o novo computador, não acumular objectos desnecessários, jantar em casa — aquilo que o «neofrugalismo» propõe é, antes de mais, um modo de vida de país desenvolvido. Quantos dos meus amigos suecos ou noruegueses vão jantar fora por mês? Muito, muito menos do que os portugueses. Quantas vezes trocam de carro ao longo da vida? Muito menos do que tem sido o padrão de consumo português e infinitamente menos do que é a norma norte-americana. Ao ler as estatísticas queixosas da indústria automóvel, por exemplo, não é possível evitar um encolher de ombros quando se lê que «este ano se venderam menos xxx carros do que no ano passado»; a doutrina do crescimento infinito, boa para excel e para gestores saídos da Procter & Gamble, tinha de ser posta em causa algum dia. Não só por causa da crise demográfica e porque os recursos do planeta são moderadamente finitos —mas porque não é sensato imaginar um mundo em que o destino de todas as economias é a delapidação contínua do património familiar em bens de consumo insensatos. A chamada mediocridade nórdica (que não é apenas assunto de poesia — mas, já agora, está lá, desde o Havámal) tem a ver com isto: consumir menos, sujar pouco, contentar-se com a modéstia, produzir melhor. É um modo de vida que não pode ser confundido apenas com o «neofrugalismo», ou seja, como uma tendência irremediável de consumo. Menos iPods por ano, menos carros, menos desperdício, saber cozinhar, aproveitar o tempo para ler, menos idas ao cinema, etc.; ou seja, estar menos dependente, viver de acordo com as possibilidades.

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O cantinho do hooligan. Grinaldas e avisos para o JT.

por FJV, em 04.05.10

João: ah, nem a distância te afasta. Ao contrário das tuas três perguntas («na peida?»), a verdade é assim, tal e qual; se lesses melhor o que escrevi sobre cada um dos jogos que, orgulhosamente, me relembras, até Manhattan te pareceria engalanada de águias. No jogo com o Benfica, esse que foi no Algarve, notei que o melhor remate à baliza lampiã foi o atraso de Kardec que rasou a trave do Quim; no jogo com o Sporting, até me envergonho. Eu ia lá esquecer isso? Portanto, chegados aqui, o futebol é como eu escrevi; fosse outro o resultado e tu concordarias — podemos falar da leveza das alas, da elevação dos centrais, da esperteza dos extremos, da solidez dos trincos, do talento (ah, do talento) do Di María ou do Belluschi, mas no fim o resultado é esse. Ganhámos. Perdemos. Não perceber isso é tramado. Claro que, uns anos anos depois, sobretudo se estamos a ler Nick Hornby, Filipe Nunes Vicente, o Maradona ou Valdano, somos capazes de nos comover com uma derrota e de apreciar aqueles jogadores que na altura queríamos, metódica e liminarmente, assassinar (tenho uma lista; dá para a troca, se quiseres). Eu, dor de cotovelo? Não. Lê bem, lê bem. Dor de cotovelo deve ter o Luisão. Um mísero terceiro lugar (até me arrepio com a tua pontada de amnésia: «um mísero 3º lugar»)? Ó João: contabiliza lá quantos terceiros, quartos e sextos lugares o Benfica coleccionou nas últimas duas décadas. É descer muito baixo, eu sei, lembrar-te o sorriso de Manuel José quando, a treinar a União de Leiria, ficou à vossa frente depois de ter sido corrido da Luz. Terceiros lugares, uma baixeza? Repara bem: quem ficou em terceiro lugar em 1994-95?; em 1996-97; em 1998-99; em 1999-2000; em 2005-06?; em 2006-07?; em 2008-9? Quem ficou em quarto lugar em 2001-02 e em 2007-08? Achas isso tão desonroso? Se é assim, ragsa o cartãozinho e muda para o Futebol Benfica, o glorioso Fofó, onde pelo menos tem um restaurante com peixe fresco.

Quanto à saída iminente de Jesualdo, «que eu tantas vezes crucifiquei», como lembras (ah, se não fosses tu) – olha, já não estou tão certo de que seja bom ele sair. Não porque não gostemos de coleccionar treinadores (não tanto como o teu clube, que já tem a caderneta cheia de cromos), mas talvez seja o fim de um ciclo (e já não estou tão certo de que seja) em que Jesualdo foi fundamental. Sobre os túneis (que miséria, um clube com tantos bons cineastas e a única coisa que arranjaram foi aquela imagem esbornada e mal filmada...), a «justiça do Costa», o «comportamento vergonhoso», etc., etc., etc., sim – é vergonhoso quantas vezes quiseres lembrar. Agora, com «a última jornada a cumprir calendário» com a rapaziada de Vila do Conde, porque têm um título para conquistar, que não te aconteça morrer (eh lá!) pela boca. Se forem campeões, como já escrevi, que gozem o momento mas que não buzinem muito. Um ano não são anos. Bom regresso; quando voltares, continuamos a conversa.

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O cantinho do hooligan. Grinaldas e pedradas.

por FJV, em 02.05.10

 

1. Futebol pode ser muita coisa; mas o resumo, delicado e circunstancial é isto: na peida. Isto sim, foi uma pedrada nos lampiões. Eu bem disse que era preciso era mandar-lhes grinaldas.

2. Um dia, Jesualdo Ferreira explicou como as cousas se passavam: que nuns dias o modelo funciona, que noutros não funciona. Hoje, funcionou. Hoje houve concentração e Belluschi pôde jogar mais solto, Bruno Alves manteve a cabeça no lugar (na bola, como se viu, já que com os pés não pode funcionar uma vez que joga com chuteiras com uma faixa aproximadamente cor-de-rosa), Fernando esteve geralmente bem apesar de Rolando ter sido como de costume e Hulk lá andou, sim senhor, mas demorou a perceber que o jogo tinha começado. Quanto à forma como o epicôndilo [*] de Luisão foi desculpado por Olegário Benquerença, o predestinado, isso são outras conversas.

3. Dedico a vitória de hoje ao Arthur Dapieve, um grande fogão alvinegro.

4. Há uma razão para irmos à Liga Europa e não à Champions: a Champions já ganhámos (bem como a Taça UEFA, a Taça dos Campeões, a Intercontinental, etc.); a Liga Europa, ainda não.

5. A primeira parte já está; falta concluir.

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