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Dias com árvores.

por FJV, em 18.04.10

A propósito do post sobre o blog Dias Com Árvores, o José David Lopes enviou-me esta extraordinária passagem de Baudelaire:

«Dis-moi, mon âme, pauvre âme refroidie, que penserais-tu d'habiter Lisbonne? Il doit y faire chaud, et tu t'y ragaillardirais comme un lézard. Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle est bâtie en marbre, et que le peuple y a une telle haine du végétal, qu'il arrache tous les arbres. Voilà un paysage selon ton goût; un paysage fait avec la lumière et le minéral, et le liquide pour les réfléchir!»

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Literatura em viagem, 2. Cinzas.

por FJV, em 18.04.10

José Medeiros Ferreira citou as viagens a Marte, onde os aparelhos enfrentam nuvens de magma, e comparou-as ao receio pela nuvem de cinza islandesa — quem sabe se não será um argumento para ligar toda a Europa de TGV? Seja como for, o tunisino Hubert Haddad (Palestina) e o marroquino Mohamed Berrada (Como um Verão que Não Voltará), além de Tim Butcher (Rio de Sangue) foram impedidos de chegar a Matosinhos porque Londres e Paris não tinham voos.

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Literatura em viagem, 2. Duelos.

por FJV, em 18.04.10

A poucas horas do jogo com a Académica, ao almoço, um benfiquista (Carlos Vaz Marques) explica a um sportinguista (José Mário Silva) como se desenrolará o resto do campeonato.

Em pose de banda de rock dos anos 90, Athur Dapieve (Black Music e De Cada Amor Só Guardarás o Cinismo) e Lourenço Mutarelli (A Arte de Produzir Efeito sem Causa).

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Literatura em viagem, 1.

por FJV, em 18.04.10

Absolutamente notável a conferência inaugural de José Medeiros Ferreira nos encontros Literatura em Viagem, em Matosinhos. Infelizmente, não está ainda escrita; de memória, com a ajuda de umas pequenas notas, J. M. F. falou da actualidade, da viagem, do «fim do pensamento», da literatura e da tolerância, sempre em redor da literatura. Um dos pontos essenciais foi a descrição das viagens de Natália Correia e de Nina Berberova à costa Leste dos EUA em 1950; ambas as escritoras estiveram em Harvard, Boston, Rhode Island e passearam em Cape Cod e Newport — mas com olhares tão diferentes sobre os mesmos factos, e com disponibilidades inteiramente diversas. Uma sessão para manter na memória.

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Vejamos.

por FJV, em 18.04.10

José Sócrates e membros do governo no Solar dos Presuntos.

 

Meu caro Eduardo: incluir-me numa série de cronistas ou colunistas que tem «como traço distintivo o ataque cerrado, em maior ou menor grau de corrosão, às políticas do PS e à pessoa de José Sócrates» não me parece correcto. A «pessoa de José Sócrates» é-me indiferente. Quanto ao «ataque cerrado», supõe que «as políticas do PS e a pessoa de José Sócrates» ocupam todo o tempo e atenção; não é verdade — há coisas muito mais importantes.

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As pessoas.

por FJV, em 16.04.10

Sinceramente, acho bem. Se as relações entre Sócrates e Louçã o permitem, por que não um «manso é a tua tia»? As pessoas lá sabem.

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Islândia.

por FJV, em 16.04.10

(A ilha de Vestmannæyjar e o Vatnajökull)

Em 1984 estive diante de Vestmannæyjar, a pequena ilha do sul da Islândia; há poucos anos toda a população tinha sido transferida para a ilha-mãe, para os arredores de Vík e numa zona não muito distante de Eyjafjallajokull, o glaciar onde agora se deu a erupção. A estrada segue, depois, para Kirkjubaeklaustur, que eu relembro especialmente por causa das árvores, as poucas que havia na Islândia, tirando um pequeno bosque desirmanado que há para os lado de Husavík. Espantou-me a naturalidade com que os habitantes de Vestmannæyjar encaravam a retirada a que tinham sido obrigados, de uma hora para a outra, deixando uma parte da sua vida atrás. Mesmo os passeios que os islandeses faziam em redor do lago Myvatn (uma concentração absurda de pseudo-crateras) me pareciam também corajosos — com isso defrontavam o Vatna, o maior dos glaciares, mas sobretudo o Krafla, em «erupção controlada», e onde se podia subir de bicicleta. Depois, li O Sino da Islândia, de Halldór Laxness, provavelmente a saga europeia que mais me impressionou, a história de um bibliotecário islandês, «clandestino» na Dinamarca — que era a proprietária da ilha — e que parte pela Islândia para encontrar os fragmentos desaparecidos da Edda em verso, os poemas fixados no século XIII. Depois de ter traduzido (com Ana Cristina Lourenço) o Hávamál, uma espécie de «poemas ou quadros da sabedoria islandesa» (que fazem parte da Edda poética) compreendi também o tom daquela tranquilidade diante do perigo, um certo gosto pela mediocridade aprendido depois das derrotas dos heróis antigos. O conformismo diante dos acidentes da natureza, se quiserem; a contemplação da grandeza, a visão da luz.

 

(Kirkjubaeklaustur, a costa de Höfn e a estrada em redor do lago Myvatn)

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Esplendor, esplendor.

por FJV, em 16.04.10

O João Caetano Dias ficou estupefacto com isto. Não precisas. As tiradas do italiano e do argentino são notáveis. Ditosa pátria que tais inteligências abriga.

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Falsificações.

por FJV, em 16.04.10

O meu primeiro trabalho no estrangeiro, como jornalista, foi na Alemanha, em 1983 – para acompanhar o julgamento de Konrad Kujau, acusado de forjar uns falsos diários de Hitler. Esforço notável: mesmo condenado em tribunal, é preciso dizer que os 61 cadernos volumosos e totalmente escritos por Kujau reconstituíam a história do nazismo e a biografia do facínora, um monumento historiográfico. A National Gallery de Londres vai agora organizar uma exposição dedicada às grandes falsificações na pintura europeia; há verdadeiras obras-primas no catálogo, e algumas sem dúvida mereciam melhor sorte. O estudo da falsificação é útil para percebermos a política. Por exemplo: o futebol de Figo era verdadeiro e genial. Já o seu apoio a Sócrates deve ser avaliado por um especialista.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Douro, faina fluvial. Literatura em Viagem.

por FJV, em 16.04.10

Entre as horas de trabalho, eis um preâmbulo ao Literatura em Viagem, que decorre de hoje a terça-feira — um passeio de almoço. Estarão cá autores como Hubert Haddad (Palestina), J. Rentes de Carvalho (Ernestina e Com os Holandeses) Mohamed Berrada, Lourenço Mutarelli (A Arte de Produzir Efeito sem Causa) Arthur Dapieve (De Cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo e Black MusicMónica Marques (Transa Atlântica), Élmer Mendoza (Balas de Prata), Mempo Girardinelli (Final de Romance na Patagónia), Javier Reverte (Deus, o Diabo e a Aventura) e outros.

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Mecanismos.

por FJV, em 14.04.10

Figo foi ilibado do «caso Taguspark». É natural e tem lógica. Há coisas que não se escrevem em lado nenhum, nem num contrato.

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Dias com árvores.

por FJV, em 14.04.10

O blogue chama-se Dias com Árvores e constitui sempre uma visita apaixonante. Num país que despreza árvores (basta ver como as cidades se desfazem dos seus parques, das suas pracetas e alamedas, ou como são poucos os visitantes dos jardins públicos e os caminhantes dos parques nacionais), o blogue fala diariamente de uma espécie botânica, de uma árvore ou de um jardim. O Livro da Natureza é pouco lido pelos portugueses que, pelas estatísticas, passam 30% do seu “tempo livre” participando “nas redes sociais”. Uma árvore é um testemunho de grandeza e de eternidade e o blogue Dias com Árvores contraria o espírito dos tempos, inventariando árvores, a nossa geografia sentimental ou a forma como a paisagem se constrói. Por mim, condecorava esta gente.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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O cantinho do hooligan. Voltar à infância.

por FJV, em 14.04.10

O GD Chaves está no fundo da tabela. Mesmo assim. A vitória de ontem foi um regresso à minha infância, quando o velho estádio, junto do Forte de S. Neutel, era um campo de saibro que empastelava com as chuvas e onde vi os primeiros jogos de futebol a sério. Jogos contra o SC Vila Real (naturalmente, estes perdiam sempre), o Mirandela, o Bragança, o Régua (com as camisolas em losangos), o Vizela, Limiano, Riopele (um dos mais belos equipamentos que já circularam pelos nossos estádios) — e com aquele trio defensivo fatal, Lisboa, Rocha e Malano, além de Albino, Rendeiro, Adão, Tony ou Soares dos Reis (um guarda-redes que se excedia contra o Vila Real, como de costume). Assisti a duas invasões de campo, uma delas na sequência de um canto mal marcado (agredia-se um árbitro por razões sérias) e outra depois da expulsão de um jogador do Chaves que se limitara a pontapear um extremo do Vila Real (um dever de qualquer jogador da casa). Depois, ainda assisti a jogos onde havia os nomes de Raul Águas (na altura falava pouco, o que era suportável; foi jogador-treinador na sequência da saída de Álvaro Carolino), Fonseca (o guarda-redes com o bigode mais volumoso do futebol português), Noureddine (um marroquino excêntrico), António Borges (uma cabeleira inesquecível, mesmo quando andou pelo Sp. de Braga e pelo Sp. da Covilhã), Carlos Areias, Jorge Plácido, Padrão, Kiki, Vivas, Jorginho, Ferreira da Costa, Radi Zrdavkov ou Rudi (estes, ligados à primeira passagem pela I Divisão – e a um afastamento da Taça Uefa pelo Honved, depois de ter eliminado o Universitat Craiova), Carvalhal (esse mesmo) ou Bastón (o guarda-redes que sofreu o golo mais caricato da história do clube, contra o Sporting, depois de ter tentado fintar Iordanov). Seja como for, o melhor é parar.

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O congresso do PSD.

por FJV, em 10.04.10

 

 

O congresso do PSD, 1.

Há três anos que não faço uma viagem no eixo Porto-Lisboa pela A1. Utilizo sempre a A8 e a A17. Fico sempre muito contente com a ideia de terem construído a A17 só para mim. Em Alhandra, há um carro com congressistas que passa em sentido contrário. Ao contrário do pessoal que vai ao estádio, não levam cachecóis nem bandeiras, mas estão compenetrados.

 

O congresso do PSD, 2.

O prof. Marcelo diz na TSF que está agradavelmente surpreendido com Pedro Passos Coelho. Há uma ligeira diferença em relação ao tempo em que era preciso fazer tudo para impedir Passos de chegar à presidência do partido.

 

O congresso do PSD, 3.

Quero parar numa área de serviço mas a sexta-feira à tarde é um impedimento. Ainda não se pôs o sol e estou na serra de Candeeiros. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 4.

O Eduardo Pitta vai no banco de trás e está pálido. Estamos a 185km/h 120 km/h. Na rádio, dividimo-nos entre o Contraditório e o Governo Sombra. Apesar da Ana Sá Lopes ficamos no Governo Sombra.

 

O congresso do PSD, 5.

No congresso de Mafra havia uns banquinhos de jardim, na alameda que levava ao pavilhão. Vi duas vezes Castanheira Barros lá sentado. Há um treino no campo do Carcavelos, onde o meu filho é guarda-redes. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 6.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o Afonso A.N.. Tenho um recado para ele por causa do Giovanni Guareschi.

 

O congresso do PSD, 7.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o Rodrigo M.D.. Tenho um recado para ele mas não posso dizer qual (por causa das agências de comunicação).

 

O congresso do PSD, 8.

O congresso está a começar e ainda não encontrei o João Villalobos. Espero que esteja a escrever o romance. Dizem-me que tenciona ocupar a varanda do 31 da Armada e hastear a bandeira do segundo pelotão dos lanceiros de Braga durante a Patuleia.

 

O congresso do PSD, 9.

O congresso está a começar e ainda não vi aquelas máquinas com água fria. O Filipe N.V. não atende o telefone.

 

O congresso do PSD, 10.

O congresso está a começar e já me disseram que o Villalobos tinha engordado um pouco; espero que seja por causa do romance. Vamos a caminho de Coimbra para a apresentação de Aula de Poesia, o livro de Eduardo Pitta. Apresentação de Osvaldo Silvestre. É uma das capas mais bonitas da Quetzal. O lançamento é na Bertrand Coimbra Estádio Dolce Vita.

 

O congresso do PSD, 11.

O Vasco C. já chegou das Ardenas. O meu filho não está a surfar em Carcavelos.

 

O congresso do PSD, 12.

O Filipe N.V. não atende o telefone pela décima quarta vez e estou só a vinte quilómetros de Coimbra Sul. O Osvaldo também não. Rangel diz que quer Passos Coelho a primeiro-ministro; dizem-me que Maria João Marques teve uma síncope.

 

O congresso do PSD, 13.

Saída de Coimbra Sul, Taveiro, uma terra chamada Bencanta. O largo da Portagem. Tudo muito rápido, mas não vamos a 185km/h 120 km/h. Rua da Sofia, Rua Sá da Bandeira, o TAGV, a rapaziada a beber cerveja, o costume. Como estará o congresso do PSD? O João Villalobos toma notas para o romance.

 

O congresso do PSD, 14.

O Zé Carioca está fechado. Em Carcavelos andam de um lado para o outro à procura de restaurantes. Como o Zé Carioca está fechado, vamos ao Vox, que abriu há uma semana, o que nos deixa apreensivos, mas o Pedro Passos Coelho só é presidente do PSD há duas semanas e o Miguel Relvas secretário-geral há seis anos ou sete. Pedimos água (eu), cerveja (o Osvaldo e a Margarida) e gin (o Eduardo). Em dez minutos traçamos um diagnóstico terrível do país: estamos com fome. Estamos no lounge bar do Vox (os lounge são a coisa que mais melhorou nos índices de crescimento da hotelaria lusitana nos últimos cinco anos) ao ar livre. Temperatura excelente, tépida, o ideal para falar dos últimos catorze escândalos literários, da três piores recensões dos últimos seis meses e das cervejas japonesas, que continuam razoáveis. O Osvaldo Silvestre não atende telefonemas, é um sinal de extremo cavalheirismo.

 

O congresso do PSD, 15.

O congresso do PSD no Blackberry é mobile. Enquanto a temperatura de Coimbra continua boa, somos chamados para a mesa por causa de uns tira-gostos. Amuse bouche, small bites, hors’dœuvre, appetizers. Cosmopolitismo durante o congresso do PSD. Há um telefonema absurdo a dizer que a Assunção Esteves está a mudar ligeiramente o sotaque de Valpaços. É preciso tomar nota disto para os anais de fonologia do Museu Abade de Baçal.

 

O congresso do PSD, 16.

O vinho que o Eduardo escolhe é Post Scriptum. Todos achamos graça. É o congresso do PSD e ele escolhe um vinho PS. Ora essa. Todos compreendemos a graça. O João Villalobos telefona a perguntar se pode parar porque já escreveu trezentas e doze páginas. Ó João, estamos a jantar, pá; o Castanheira Barros já apareceu?; o discurso do Pedro Passos Coelho é este que vem na Lusa?; foram ao chinês dos Lombos ou sempre estão a comer a paella do Saisa?; se vires o Afonso Azevedo Neves, diz-lhe que o assunto do Giovanni Guareschi está a ser tratado; se o Paulo Pinto Mascarenhas estiver por aí, diz-lhe que o vídeo do Arsenal-Porto está desactualizado, lembra-me muito o do Celta-Benfica, mas com menos golos.

 

O congresso do PSD, 17.

O congresso já vai a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria.

 

O congresso do PSD, 18.

A SIC Notícias desta vez não entrevista Marcelo Rebelo de Sousa à mesma hora do A Torto e a Direito, o que é bom sinal para nós. Mas o Osvaldo lembra-me que o A Torto e a Direito agora é às terças à noite. Ligo ao João Pereira Coutinho a perguntar-lhe se está no congresso do PSD. Responde-me que está a ler Jane Austen. Será que o João Villalobos guardou o romance na pen antes de ocupar o 31 da Armada?

 

O congresso do PSD, 19.

Come-se desenfreadamente a esta mesa. Miguinhas de couve com feijão, cabrito grelhado, filetes de polvo, batatas salteadas, tarte de coco, pudim, vinho PS. Toda a gente sabe que estou de dieta e que emagreci seis quilos. Bebo água e resisto às azeitonas. Em contrapartida, o Villalobos sofre mais porque tem de ouvir o discurso de Marco António Costa. Quando acabo de publicar isto, telefonam-me a dizer que o Marco António Costa não fala. Afinal, o Vasco não regressou das Ardenas mas fala no congresso por volta das onze da noite.

 

O congresso do PSD, 20.

O Filipe N.V. não atende o telefone e nós saímos a toda a velocidade para o Dolce Vita Estádio Coimbra, à procura da Livraria Bertrand. Pelo caminho, faço um resumo mental do que aconteceu até agora no congresso do PSD. Passos Coelho lembrou o apoio a dar à recandidatura de Cavaco; o Público online diz que dois terços da sala aplaudiu com entusiasmo; o outro terço é de rangelistas?

 

O congresso do PSD, 21.

Chegámos com um ligeiro atraso à Bertrand Dolce Vita Coimbra Estádio. O Osvaldo fala de T.S. Eliot, o Eduardo está sentado ao centro da mesa. A Margarida tira fotografias para o blogue. [Há muito tempo que ninguém é tão claro sobre poesia, crítica e Eliot, mesmo a passagem em que Osvaldo insiste, quando Eliot fala sobre vinhos.] Eugénio de Andrade acaba de ser executado. Na primeira apresentação do livro, na Fnac Chiado, a execução de Eugénio tinha sido menos perfeita.

 

O congresso do PSD, 22.

Hora e meia depois termina a discussão no Dolce Vita Bertrand Coimbra Estádio. Falou-se, felizmente, de Rui Knopfli. Ficámos meia-hora a deambular entre as prateleiras da Bertrand, dizendo mal de todos os livros que não são publicados ou pela Angelus Novus ou pela Quetzal. Mentirinha.

 

O congresso do PSD, 23.

Regressamos ao carro, saindo do Estádio Dolce Vita Coimbra Bertrand e atravessamos a «ponte nova» que demorou quase um milénio para ser construída e dirigimo-nos a Condeixa. A EN1/IC2 parece um estaleiro. Pela rádio, ouço um resumo do congresso. A TSF quase anuncia que João Villalobos já terminou o romance. Estou à espera dele há dois anos e paguei uma perdiz no Galito. Mas estou de dieta. Quando se está de dieta só se pensa em comida. Churrasquinho. Massa fresca. Cabrito. Um quilo e meio de sashimi. Duas doses de pataniscas de bacalhau com arroz de feijão encarnado. Está bem, está. O Pedro ML avisa por telefone que vai cumprir a promessa de continuar a dele. Foi um momento de loucura, mesmo antes do terceiro golo do Liverpool, mas ele que se aguente. Afinal, a lei da rolha não salta durante este congresso e o Nacional empatou com o Paços de Ferreira. Tenho uma mensagem de Barcelona no telefone. Está em catalão. Fala do Real e de Messi e de Ronaldo e Barça més que mai; vencerem. On és Madrid? Deixei a caixa das cigarrilhas no Dolce Coimbra Bertrand Estádio Vita.

 

O congresso do PSD, 24.

O congresso já vai a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria.

 

O congresso do PSD, 25.

O congresso já vai noite avançada, entramos na A1 de novo, e o carro segue a 185km/h 120 km/h. O Eduardo continua pálido mas já está no banco da frente. Para distrair, quando paramos numa área de serviço, conto-lhe o argumento completo de Love Actually não sei porquê, mas acho que por causa de Colin Firth. Quero dizer-lhe o nome de Bill Nighy mas não consigo. Quando entramos em Lisboa ainda falamos de W.H. Auden por outro motivo qualquer.

 

O congresso do PSD, 26.

Lisboa não colabora, ao contrário da Dolce Bertrand Vita Estádio Coimbra. Vou depositar os companheiros de viagem em casas que ficam em bairros opostos de Lisboa e ouço pela rádio mais um resumo do congresso do PSD. O Villalobos tem o telefone desligado e o Rodrigo informa que estão numa esplanada. Depois de ir da EUA à Paiva Couceiro e de descer da Penha de França, há uma fila interminável de carros a dirigir-se para o centro da cidade. São duas da manhã e a esta hora os congressistas estão nos seus quartos, a fazer as últimas leituras do dia. São duas e tal, quase três, e Santana Lopes ainda não falou. Pedro, pá.

 

O congresso do PSD, 27.

Não vou para casa pela Marginal, nem pensar. Os bares de Carcavelos ainda estão cheios. Discute-se Keynes, alguém invoca Andrew Sullivan, citam-se máximas de Sun Tzu, recordam-se passagens de Richelieu e há alguém que atravessa a estrada, diante do restaurante mexicano, com um exemplar de Pratical Homicide Investigation. Tactics, procedures and forensic techniques. Julgava que só eu tinha o livro, além da biblioteca da PJ, onde copiei passagens cómicas de Grafoscopia y Perícia Caligráfica Forense. Há uma grande concentração de BMW e de Audi junto do bar Carruagem. Sigo pela A5.

 

O congresso do PSD, 28.

Durante dois anos e meio vivi numa casa ao lado do Bar da Tina. Digo isto porque pode ser que algum congressista esteja a angariar votos para as listas.

 

O congresso do PSD, 29.

Quando acordo, já tarde, tenho duas mensagens a perguntar se li o Público. Manuela Ferreira Leite aparecerá no Congresso? O próximo romance de Mónica Marques, a publicar em Julho, fala ou não de Carcavelos?

 

O congresso do PSD, 30.

O congresso já vai mesmo a meio e ainda não vi aquelas máquinas com água fria. O Messi dançará tango? O António Nogueira Leite vai ou não tomar café com o Villalobos? (Afonso, o Guareschi está resolvido, não precisas de te preocupar.) O Rodrigo já conseguiu que o tipo do Volvo cinzento desbloqueasse a entrada para a tenda VIP? Vai dar Barça ou Madrid?

 

O congresso do PSD, 31.

Telefono ao Villalobos. Está a almoçar. Só pode mandar o romance depois das três da tarde. Há-de ser apresentado no Estádio Dolce Vita Bertrand Coimbra.

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Martin Amis amanhã nas livrarias. Primeira tradução mundial.

por FJV, em 08.04.10

 

 

«Esta é a história de um trauma sexual. Ele não era de tenra idade quando isso lhe sucedeu. Era, por qualquer definição, um adulto; e consentiu — deu o seu expresso consentimento. Será então trauma a palavra que pretendemos (do grego «ferida»)? Porque a ferida dele, quando chegou — não lhe doeu nem um pouco. Era o oposto sensorial da tortura. Ela elevou-se sobre ele sem roupas nem armas, com as suas tenazes de felicidade — os lábios dela, os dedos dela. Tortura: do latim torquere, «torcer». Era o oposto da tortura, e porém torcia. Arruinou-o durante vinte e cinco anos.

Quando ele era novo, as pessoas que eram estúpidas, ou doidas, eram chamadas de estúpidas, ou doidas. Mas agora (agora ele era velho) os estúpidos e os doidos tinham nomes especiais para o que os afligia. E Keith queria um. Ele também era estúpido e doido, e queria um — um nome especial para o que o afligia.
Reparara que até as coisas dos miúdos tinham nomes especiais. E lera acerca das supostas neuroses e ilusórias desvantagens destes com o olhar enviezado de um paciente experiente e hoje em dia bastante cínico. Reconheço essa, dizia ele para si mesmo: também é conhecida por Síndrome do Merdoso. E até reconheço aquela: também é conhecida como Desordem do Sacana Preguiçoso. Tais desordens e síndromes, ele estava certo disso, eram meras desculpas para que as mães e os pais drogassem os seus filhos. Na América, que era o futuro, de uma maneira geral, a maior parte dos animais domésticos (cerca de sessenta por cento) tomavam drogas para o temperamento.

[…]
Era o Verão de 1970, e o tempo ainda não os tinha espezinhado, a estes versos:
As relações sexuais começaram
Em 1963
(O que foi bastante tarde para mim) —
Entre o fim da proibição de Chatterley
E o primeiro LP dos Beatles.
Philip Larkin, «Annus Mirabilis», revista Cover, Fevereiro de 1968.

Mas agora era o Verão de 1970, e as relações sexuais já iam bastante adiantadas. As relações sexuais tinham conquistado bastante terreno, e andavam muito no espírito de toda a gente.
As relações sexuais, devo sublinhá-lo, possuem duas características únicas. São indescritíveis. E povoam o mundo. Não deveria surpreender-nos, portanto, que andem muito no espírito de toda a gente.»
[Edição Quetzal. Tradução de Jorge P. Pires]

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Noções de estilística geral.

por FJV, em 08.04.10

«Leio um romance português e encontro isto: "será que as pombas sentem saudades?". Não tenho resposta para esta questão, mas, sintam ou não, gostava muito que não me voltassem a encher o algeroz com merda.»

Bruno Vieira do Amaral, no Douta Ignorância.

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Shearit Israel.

por FJV, em 08.04.10

 

A sinagoga Shearith Israel foi fundada há exatamente 280 anos, no dia 8 de Abril de 1730 – trata-se da primeira sinagoga de Nova Iorque, cuja existência se deve a judeus portugueses saídos da Holanda (para onde tinham fugido de Portugal – como a família de Espinosa, o filósofo – e onde criaram a principal sinagoga de Amesterdão, também conhecida como Biblioteca Portuguesa, a Esnoga) e do Brasil (para onde também tinham fugido e fundado, no Recife, a sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira de todo o continente americano). Conhecer estes factos não é hoje importante, mas lembrá-los permite dar uma ideia de como, ao longo dos séculos, Portugal perdeu a ideia de tolerância e expulsou alguns dos seus melhores. Agora, que terminou a Páscoa judaica (Pessach), convém recordá-lo.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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África do Sul.

por FJV, em 08.04.10

Eduardo Pitta lapidar sobre a situação da África do Sul. Para os meninos do internacional, nas redacções, pensarem duas vezes antes de dizerem as asneiras do costume.

 

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Isto resolvia-se com novo eleitorado.

por FJV, em 06.04.10

O Gabriel Silva chama a atenção para o artigo de Vital Moreira acerca da proposta de lei eleitoral do PSD. Não conheço a lei e, pelo que li avulso, pode ser mais uma boa lei inexequível; o problema é o tipo de adversativas usadas por Vital Moreira. Não se podia referendar o Tratado de Lisboa porque os eleitores não poderiam aceder às minudências do seu texto (acho que foi de propósito). Não se pode adoptar esta proposta de lei porque os eleitores não conhecem os deputados da lista. Lá está. A democracia funciona bem, desde que os eleitores sejam afastados das decisões. Um novo eleitorado, formado nos bancos da vetusta, daria jeito.

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Catolicismo.

por FJV, em 06.04.10

O assunto da pedofilia não se resume à passagem de padres pedófilos a igreja da pedofilia. Esse é o argumento dos ressentidos da temporada; em breve escolherão outro alvo, e há uma série deles que se colocam a jeito. O problema essencial é muito bem visto pelo Filipe: uma dificuldade de falar sem ser em círculo, entre os claustros. A vaidade da fé é pecado, para retomar essa linguagem.

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