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Coisas verdadeiramente importantes.

por FJV, em 30.04.10

 

As sanduíches club. Ou do género, servidas em hotel e vagões de comboio. Não compreendo como alguém julga que é cómodo comer uma sanduíche com três fatias de pão. Se fossem duas fatias, ok. Se fossem quatro, sempre se podiam dividir em duas. A modalidade de três fatias implica que o comensal deva abrir a boca de modo a conseguir um túnel de 5 centímetros, o que não é nada elegante. Por outro lado, quando se vai deglutir uma sanduíche de três fatias apresentam-nos uma faca e um garfo, e a tentação é a de produzir fatias certinhas, coisa que geralmente não é possível, dada a sobreposição de camadas tectónicas (de tomate, alface, milho, ovo, presunto, queijo, frango, grãos de romã, fatias de kiwi, rodelinhas de azeitona sem caroço, alcaparras espanholas, maionese, melão, espinafre, beldroega, e até picanha argentina e duas medidas de gin) que parecem o fundo do mar diante da Califórnia. Uma sanduíche de três fatias de pão é um desafio às leis da gravidade e à herança do sr. John Montagu, 4° Conde de Sandwich, que num dia de whist um pediu uma porção de carne entre duas fatias de pão, coisa que o nosso el-Rei D. Afonso, o Gordo, já devia ter tentado antes, se não me engano.

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Rios.

por FJV, em 30.04.10

A questão, aqui, nesta reportagem, não é o ruivaco-do-oeste — é mesmo a destruição permanente da água e do leito dos rios, da flora ribeirinha, da fauna aquática. Neste caso, o Sizandro e o Alcabrichel. É uma excelente reportagem, que devia multiplicar-se por histórias sobre todos os nossos rios.

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Excel.

por FJV, em 30.04.10

Fazem-se coisas tremendas com o Excel. Uma delas é a descoberta de que a auto-estrada do Pinhal Interior dará um lucro de aproximadamente €189m. Quem trabalha numa empresa sabe que se podem manejar as contas, inflacionar as receitas, mascarar ou esconder uma parte das despesas, diminuir artificalmente os custos, apresentar um plano aceitável, limpinho, decente, apetitoso. Mas, de facto, não o faz — porque será responsabilizado por isso. Já para calcular a relação custo-benefício de obras públicas, a imaginação é a de um romancista sul-americano. Mas dos descarados.

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Mar Salgado afinado em Georgetown.

por FJV, em 30.04.10

Apesar de não ser versado em mandarim, o Nuno M. P., no outro lado do Atlântico, resolveu os problemas que afectavam o Mar Salgado durante o dia de ontem. Já pode ler-se. Sem querer insinuar que Washington é o centro nevrálgico de Coimbra, bem entendido – já que o FNV e o VLX não se atreveriam a mudar de template, quanto mais de endereço do blog. Foste, portanto, tu, ó homem de Georgetown.

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Mar Salgado: alerta laranja.

por FJV, em 29.04.10

O Mar Salgado está com problemas de acesso. Devem ter entregue a gestão do blog ao Filipe, que mudou o endereço — e agora é isto: não se consegue entrar no Mar Salgado.

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O que é bom é bom.

por FJV, em 29.04.10

 

A Viúva Grávida, de Martin Amis, em segunda edição.

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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

por FJV, em 29.04.10

Que o primeiro-ministro e Passos Coelho se reunam, é uma evidência — era necessário, dado o tamanho da crise e o desnorte das finanças. Passos esteve bem, respondendo à letra — mas com actos — a Teixeira dos Santos, que se preparava para foguetório; Sócrates não tinha margem de manobra para recusar a visita. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Está bem que a fotografia dos dois, unidos para encarar o mal feito, fica bem para mostrar na imprensa estrangeira; mas os resultados internos ficam aquém do desejável. Não só os propagandistas do governo continuam a festejar o TGV, as obras públicas e as grandes realizações da legislatura (onde ficou dinheiro mal aplicado), como o anúncio da diminuição do subsídio de desemprego ou do corte do 13° mês a funcionários públicos não encontra a outra face — a diminuição clara das despesas do Estado. O optimismo é indecoroso: na semana passada, cortar mil milhões da despesa do Estado eram minudências, diziam os porta-vozes; esta semana, além de ter sido finalmente adjudicada uma nova auto-estrada de 1,5 mil milhões, o Estado continua sem abater um cêntimo à sua despesa. O argumento é bom: 75% da despesa pública serve para pagar ordenados. O ministro Teixeira dos Santos lançou o alerta laranja contra o ataque dos mercados; o eurodeputado Vital Moreira quer que os mercados partam os dentes, há quem pense que o Estado está empobrecido por causa dos mercados — mas dá a ideia de que, se não fossem os mercados, o optimismo histérico & propagandístico ia continuar e Teixeira dos Santos continuaria a vestir a farda de Mohammed Saeed al-Sahhaf. Portanto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: não chegámos onde chegámos só por culpa do «ataque dos mercados» ou da «conjuntura». Não tirem o cavalinho da chuva.

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O comendador não perdoa, 2.

por FJV, em 29.04.10

A imprensa delirou e admitiu que a ministra da Cultura esteve à altura de Joe Berardo, desdramatizando e sanando aquilo que podia ser um sério conflito entre o Estado e o proprietário do acervo do Museu Berardo — o próprio Berardo. Assim vista a coisa, cada qual podia regressar ao seu remanso e a vida continuava; o ministério da Cultura lá andava e Berardo seguia em frente. Mas não. Berardo acusa a ministra de mentir ou, como agora se escreve e usa, de «dizer inverdades». Das duas, uma: ou é um conflito entre personalidades das ilhas ou Berardo quer esticar a corda e pedir à ministra que faça sangue. Um xeque-mate.

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Barca d'Alva.

por FJV, em 29.04.10

Ontem, à tarde, 38°C.

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Alerta laranja.

por FJV, em 29.04.10

Aldous Huxley dizia que “os factos não deixam de existir só porque são ignorados”; a frase aplica-se ao sempre inesperado ministro das Finanças que, diante das más notícias de ontem, lá bradou que o país tem de responder aos ataques dos mercados – esquecendo que foi ele que, ao longo de quatro anos, mais se equivocou nos números da desgraça, enganando as estatísticas como um otimista a caminho do abismo. Entretanto, o tempo mudou de repente e a Direção-Geral de Saúde, achando que a meteorologia não deu tempo para uma adaptação lenta ao calor, receia complicações no sistema cardiovascular dos portugueses – e, dramática como de costume, não vá o diabo tecê-las, lançou um alerta. A solução podia ser aplicada à medida do governo: que a DGS e as Finanças troquem de estratégia.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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O comendador não perdoa, 1.

por FJV, em 29.04.10

O acordo entre o Estado e Joe Berardo para a criação do seu museu no CCB esteve sempre rodeado de polémica. O investidor acha que presta um serviço ao país ao mostrar em público o acervo de arte contemporânea que reuniu ao longo dos anos; o Estado não quis ser acusado de deixar seguir as obras para o estrangeiro e negociou um acordo para que o museu se instalasse no CCB, o que permitiu que Berardo aparecesse como um mecenas, defendendo a gratuitidade dos museus e da cultura em geral. A cada dúvida ou inquietação, Berardo ameaça largar a Pátria, acrescentando agora a novidade de que, por este caminho, o país também está difícil. Moral da história: Berardo sabe o que faz e o que tem em casa – e sabe que quem assinou o acordo vai ter de aturá-lo. Ou de fazer de mau da fita.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Abril.

por FJV, em 29.04.10

Trinta e seis anos depois, “defender Abril” é um anacronismo. Algumas boas almas consideram que o “espírito de Abril” não foi cumprido. Foi: vivemos em liberdade, há eleições, terminou a guerra e somos parte da Europa. O resto depende dos portugueses e não do “espírito de Abril”. Claro que a descolonização podia ter sido bem feita (não foi) e podíamos ter sido poupados ao PREC, ao “socialismo militar”; julgar isso é tarefa dos historiadores. Mas o essencial é que tudo depende dos portugueses. A constituição americana, de forma inteligente e avisada, não garante o direito à felicidade, mas sim o direito à busca da felicidade. Se o “espírito de Abril” garantia o paraíso na Terra, era uma impostura. Basta sermos pessoas normais, com direitos, liberdades, deveres e garantias.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Uma barulheira por causa do silêncio.

por FJV, em 23.04.10

Há uma mania portuguesa que é a de repente, muito direitinhas, em bicos de pés, soturnas e de narinas indignadas, aparecerem umas figuras a fazerem figura de guardiãs da decência. Por exemplo: mandar calar alguém – «o senhor presidente não pode comentar nem pronunciar-se, bla bla», «o senhor deputado não pode bla bla», «o senhor jornalista não deve bla bla». Há exemplos de figuras assim. Desta vez, a indignação chocada diante do silêncio de Rui Pedro Soares é comovente. A um grupo de deputados pareceu-lhe até que a República estava em perigo, e houve quem pensasse em mudar não sei que disposições legais, ou leis – para obrigar Rui Pedro Soares a falar. É preciso dizer que não conheço Rui Pedro Soares nem tenho simpatia pelo que parece que eram as suas funções e pelo que é quase certo que fez – mas se quiser manter-se em silêncio, está no seu direito. Não quer prestar declarações? Não preste. Não quer falar sobre as escutas? Não fale. A imprensa protesta? Que proteste. Os deputados indignam-se? Faz-lhes bem. Há imposições legais? Que se apliquem. Mas determinar, assim de repente, o fim do direito ao silêncio, é de uma indignidade só admitida num país de pequenos regedores.

 

PS - É claro que Rui Pedro Soares falou. Naquelas pequenas e curtas frases, escorregou. Nem precisa de falar, foi claríssimo como a água.

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O massacre.

por FJV, em 23.04.10

O Dia Mundial do Livro não é uma efeméride — é, antes, uma convenção. É por isso interessante que o governo tenha discutido este problema — o da isenção de IVA para ofertas de livros em stock, que de outro modo estariam condenados ao massacre. A idenção de IVA por ofertas de livros ao Estado é, por outro lado, ligeiramente estapafúrdia; não como princípio, mas porque não se entende que o Estado cobre IVA sobre as transações normais e depois possa ainda beneficiar de ofertas dos editores. Teoria da conspiração: o Estado deixa de comprar livros para as bibliotecas públicas e escolares, mas fica a aguardar as doações. No meio de tanto dinheiro gasto no «combate à iliteracia» (pelo menos, no papel), seria bom que as contrapartidas fossem mais significativas.

É muito comovente e justo que o Estado fale de massacre em relação à destruição de livros em armazém; convinha, no entanto, criar algum incentivo para a oferta de livros nessas condições (a desoneração fiscal é uma delas), coisa que o Estado, está quieto.

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Pãozinho.

por FJV, em 22.04.10

Uma coisa é certa: depois de ler esta notícia fiquei sem perceber se devo continuar a comer pão integral de centeio por causa da ocratoxina A, ou se só deixo de comer broa de milho (a saborosa, a única, a fundamental, a luminosa e imprescindível, de Avintes), ou se o consumo de cerveja está vedado, ou se é apenas uma curiosidade protocientífica, uma vez que (como consumimos, em média, entre 15 a 60 nanogramas de ocratoxina A) os 120 nanogramas (por quilo do consumidor) semanais são uma meta muito distante. Não sei se estão a ver o problema, mas parece-me que tudo se reduz a tentar meter-nos medo do pão. Depois (como já temos medo de uma infindável lista de venenos) vem o medo de nos pormos à janela, o de comer vegetais, o de olhar para o expositor do peixe (com os ecologistas a pedirem-nos, por todas as almas, para não comermos peixe...), o de sairmos à rua. Dá gosto.

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Realidade e ficção.

por FJV, em 22.04.10

Uma notícia sem importância aparente, que me lembra uma hipótese formulada pelo sr. inspector Jaime Ramos, numa investigação de 2001.

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Ah, a falência.

por FJV, em 22.04.10

Só países educados no «escrupuloso cumprimento» dos seus deveres podem, como a Islândia, declarar falência. Não porque a Islândia tenha cumprido os seus deveres, mas porque compreendeu que tinha que declarar falência. Contra isto, não há PEC que valha. Poucos acreditam no «escrupuloso cumprimento» do PEC, das «metas limpas», dos planos & orçamentos, porque isso providenciará a imagem de uma espécie de país crescido, organizado, capaz daquilo que se promete em momentos de euforia — enquanto um coro de boas e más almas suspira pela falência, ah!, a falência, como Eça suspirava pela Batalha do Caia que pusesse termo à «choldra» como hoje se suspira romanticamente contra a «mediocridade». Há uma diferença entre a Grécia e a Islândia e não é apenas de «natureza económica» — é, além do modo de viver (uma ninharia, supõem os leitores de Excel), pelo que permitirá que a Islândia faça e pelo que impedirá a Grécia de fazer. Há uma certa lógica na demanda da falência, ah!, a falência: retirará ao Estado a responsabilidade pelas coisas difíceis que aí vêm; apontará «o FMI», «o BCE», os outros, como mandantes de uma disciplina que ninguém quer impor; desmantelará o Estado como ele é, com as suas doenças congénitas, famílias de protegidos, varizes, excessos alimentares, vaidades, frotas automóveis, luxos e desperdícios. Poder e oposição vão resmonear diante do atrevimento inevitável. Melhor que fiquemos em pré-falência, portanto: à beira do precipício, verdadeiramente. Encarando os custos.

Mas a memória deve usar-se. A maior parte dos que falam da falência, ah!, a falência, com aquele secretíssimo prazer de enterrar este Estado gastador, cheio de parceiros e de frivolidades, não se lembram da falência real que outros viveram longe das folhas de Excel: salários baixos, pobreza real, falta real (do arroz ao tabaco, da roupa ao pão). Esses não são os salários nem a pobreza real dos decisores da falência, ah!, a falência. A falência real, essa, será sentida pelos que nunca viram os seus salários comparados com os islandeses ou irlandeses (ah, não mencionemos os outros). Por isso, a leviandade é compreensível mas não deixa de ser leviandade.

É certo que o país merece, não haja dúvida — tem os números engatados, as estatísticas são pouco confiáveis, os ministros enganam-se oito vezes seguidas a prever o défice, consome como se não houvesse amanhã, o Estado rouba o pequeno aforro (o escândalo dos certificados de aforro é um exemplo que não atinge «os decisores» nem «os investidores» do BPN ou do BPP) e continua a escolher o que escolhe. Escolhe isto.

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Lenine.

por FJV, em 22.04.10

A biografia de Lenine, da autoria de Robert Service (publicada pela Europa-América) é um documento impressionante: ela ensina como se constrói um ditador. Mais do que isso: um homem obsessivo, servido por uma corte de legionários fiéis e temerosos, um homem de estômago delicado e frugal, disciplinado e inflexível, sempre preocupado com a sua saúde e com a existência de traidores nas suas fileiras – de qualquer modo, o criador dos ‘gulags’ e do estado policial que moldou à medida dos seus medos e obsessões. Vladimir Ilyitch Ulianov nasceu há 140 anos, cumpridos hoje; também graças a ele, o mundo foi como foi – e o debate sobre o comunismo, a esquerda clássica, o império soviético, não poderá fazer-se sem uma análise da sua fundação, ou seja, da existência de Lenine.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Tempo atrás de tempo.

por FJV, em 22.04.10

Como vivíamos há alguns anos, sem internet, Facebook, Twiter, Hi5, telemóvel? Curiosamente, marcávamos encontros e encontrávamo-nos a horas. Falávamos com as pessoas. De que viviam os noticiários? De notícias de ontem e de anteontem. De repente, a informação tomou conta de nós tal como a nuvem de cinza vulcânica, que alastrou mais rapidamente na internet do que nos jornais. A Europa excedeu-se em dramatismo, e todos ‘viram’ a face negra da catástrofe a encobrir o continente. Figuras vetustas e ignorantes falaram do aquecimento global. De repente a nuvem afasta-se de Portugal, onde mal tocou (ingrata!), como as andorinhas e os insetos. Retomamos a normalidade. Sobra o vulcão, na Islândia. E uns ‘fait-divers’ sobre como foi cómico não haver aviões. E é isto, afinal.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Brasília.

por FJV, em 21.04.10

Cumprem-se hoje 50 anos sobre a inauguração oficial de Brasília. Geralmente, as cidades nascem ao longo do tempo; é um processo lento e trabalhoso. Brasília nasceu por conveniência, necessidade, sonho e orgulho nacional. Dez anos antes, Juscelino Kubitscheck prometera inaugurá-la: é hoje um pássaro ferido no coração do Brasil, ainda hoje dominada pelas linhas do esquisso de Óscar Niemeyer – grande, porque o Brasil não sofre de falta de espaço; mas também aberta ao céu, crepuscular, e vigiada (porque tem demasiados políticos corruptos a habitá-la). Monumento de arquitetura, de urbanismo e de solidão, Brasília é um dos grandes mistérios do poder e da vontade: é uma cidade puramente simbólica, representativa, emblemática. A sua história nunca passou de uma página isolada.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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