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Espinosa: a legitimidade do conflito em democracia.
A questão não é a falta de liberdade de expressão; nessa matéria, Portugal não pode voltar atrás, independentemente de alguns saltos nos índices internacionais de liberdade de imprensa (nos quais estamos atualmente na 33.ª posição, o que significa uma descida da 19.ª, que ocupávamos em 2008, ou da 10.ª, onde estávamos em 2007). A questão é a tentação de a limitar sob pretextos comuns ou absurdos. Isto tanto é válido para a falta de jeito de Gomes da Silva no governo de Santana (e da sua central de informação), como para o discurso chavista de José Sócrates no congresso do PS de há um ano.
Conheci vários políticos que encaravam a imprensa com largueza e bonomia (até reconhecendo que a bonomia era uma forma de seduzi-la). Confesso, até, que isto era mais comum à esquerda do que à direita. Vi várias vezes João Soares, por exemplo, encarar jornalistas desafetos ou bastante críticos — com piadas e diálogos frontais. Marcelo Rebelo de Sousa, à direita, era outro dos exemplos. Isto explica-se, facilmente, pelo facto de muitos políticos terem vindo do jornalismo ou por terem passado, de alguma forma, pelas redações dos jornais. Mas não me recordo de um confronto tão desajustado entre os políticos e a imprensa como nos tempos de Santana e de Sócrates. Para os que correm a mencionar o período de Cavaco, relembro que não há queixas sobre pressões de Cavaco Silva sobre a imprensa; O Independente fazia o seu trabalho, Belém fazia o seu (que mereceu uma interessante tese de Estrela Serrano que muita gente devia ler), e S. Bento cumpria as suas obrigações. Cada um sabia qual era o seu território.
Uma nova geração de políticos já não entendia que governar era apenas governar, cumprir o seu papel institucional, fazer escolhas que também podiam ser criticadas, exercer o seu poder no quadro dos vários poderes — era muito mais. Era ser ungido. Essa geração entende que governar é mais do que isso: interpretam uma missão. São «modernos» num país atrasado; «cosmopolitas» num país que vai aos saldos da Zara; visitaram as cortes europeias e ficaram impressionados. Não querem saber de pormenores. O país tem de andar para a frente e o pequeno «mundo» que as suas funções políticas lhes permitiu conhecer entre aeroportos, salões de hotel e reuniões com gente que tem sempre o nome nos jornais, era o retrato que gostariam de trazer para a Pátria. Não, não são apenas governantes. São mais do que isso — são reformadores de costumes, que querem mudar por decreto; são modernizadores da economia, que apreciam no contacto com os grandes empresários a quem facilitam negócios. O resto é um empecilho.
Por isso, qualquer crítica a um simples decreto-lei constitui parte de um ataque mais geral à sua missão, às grandes ideias (que talvez não tenham, mas que alguém serve de bandeja e em resumo), ao papel de modernizador da sociedade, ao lugar que hão-de ocupar na História. Isto tem consequências mentais trágicas. Porque um ataque, um insulto, uma injustiça, um rumor, uma catilinária ocasional, uma crítica, um reparo — não são apenas ao seu governo. Porque as suas ideias (as tais), a sua missão, o seu cosmopolitismo, a sua fúria patriótica estão também relacionadas com a sua roupa, o design da casa, o penteado, o tom de voz (pedagógico, superior, explicativo), os restaurantes que se frequentam. E o que era um ataque à sua política passa, pelo protagonismo que desempenham e que os há-de fixar numa página da História, a ser um ataque pessoal, uma amostra de maledicência, uma prova de má-fé. E, acima de tudo, ou mais profundamente, a prova de que não compreendem o indiscutível talento, uma clarividência histórica, uma generosidade a toda a prova. A imprensa está cheia dessa gente que não manifesta nenhuma compreensão; os blogues (que até o sr. Procurador-geral diz que são uma vergonha) estão cheios de invejosos que não reconhecem a sua altíssima presciência. O que isto significa? Sinceramente, falta de mundo. Mário Soares resistia a todas as críticas (mesmo que se diga que nunca as esquece); porque lhe sobrava mundo; tinha uma vida própria — e biblioteca, e apetites, e vícios amáveis, e amigos — que ultrapassava a vida pública. Cavaco compensava a falta de mundo com a disciplina pessoal e familiar. Mas os políticos para quem toda a vida pessoal foi ocupada em transformar a vida própria em vida pública não têm largueza de sensibilidade, nem escape, nem compensações. O seu rosto é o verdadeiro espelho da alma; não aprenderam a dissimular mais do que lhes ensinam os técnicos de comunicação e a intuição que vem dos combates dentro do aparelho. Qualquer obstáculo — ou crítica, injustiça, reparo — é uma tragédia. Eles, os outros, os pobres de espírito e maledicentes que não compreendem, servem-se da liberdade para a maledicência e o ataque sem fronteiras.
Esses políticos não sabem, simplesmente, que o lugar na História não é decidido agora. Não aprenderam, também, que o poder tem um preço — e que esse preço não é apenas pessoal (porque se sacrifica muito desse espaço pessoal, privado, inviolável); é também público. Exige grandeza para suportar críticas e injustiças. Até injustiças. O poder tem os seus meios institucionais de comunicar, defender, explicar; a imprensa é, justamente, o outro lado. Não se pode estar nos dois lados ao mesmo tempo. E isto é tão válido para um governante como para um jornalista. O poder oferece um mundo de possibilidades, a começar pela direção editorial do Diário da República; se essas não chegam, aí já é um problema mais grave. Há terapias para isso.

Não sei hei-de concordar ou discordar com Joana Vasconcelos, que diz que o busto da República está desatualizado. Ela acha que devia ser o busto de «uma mulher mais jovem, de outra época, uma mulher contemporânea». Não sei. O busto não me parece mal; é igual ao de quase todas as repúblicas, uma marianne com mármores de Vila Viçosa — já a bandeira e o hino, enfim.
Contradições, eu posso, ó minha senhora, mais contradições, eu tenho autoridade, água do capote bem sacudida. Aqui.

Afonso Costa consegue “tombar” os jornais oposicionistas
Há coisas que sabemos como começam — e outras que imaginamos como terminam. Está aí uma ventania à porta.
Directo ao assunto, Joaquim Vieira.
«Todos os governos tentam, de alguma forma, condicionar jornais e jornalistas. Nessa matéria, todos os partidos portugueses têm telhados de vidro e um historial que não abona a seu favor. Em primeiro lugar, essa tentação empobrece a democracia e o debate livre; depois, destrói a confiança dos cidadãos. O poder tem custos que convém ter em conta; um deles é suportar a crítica da imprensa e a sua vigilância permanente e até injusta. Manda a decência que entre os dois mundos exista uma separação clara. O poder torna-se absoluto quando reconhece que não lhe basta o direito a comunicar através dos canais institucionais e pretende garantir um lugar ao sol na imprensa. O jogo da democracia torna-se desigual, mesmo se as intenções são generosas. E quase nunca são.
[Na coluna do Correio da Manhã]
Hoje no I:
Luís M. Jorge:
«É muito importante acabar com um efeito que está a ser produzido pelo governo Sócrates que é a indiferença.»
Adolfo Mesquita Nunes:
«A actuação dos tribunais também pode ser ela própria sindicada publicamente. As decisões judiciais podem estar erradas.»
«Porque evidentemente, como todos já percebemos para lá dos formalismos, há razões bem fundadas para concluir que Sócrates criou maus hábitos na relação com a imprensa. […] A imprensa é a fraqueza de Sócrates, uma fraqueza de tonalidade nixonianas que pode acabar por o perder. Foi repetidamente avisado e não emendou caminho. O seu descontrole emocional em relação à imprensa impôs-se a qualquer sensatez política e pôs em causa a sacralidade da imprensa — para um governo a imprensa deveria ser isso mesmo: sagrada — revelando-se em coisas que vão do alegadamente patético (exteriorizações coléricas sobre um jornalista) ao alegadamente gravíssimo (ter aliados políticos interessados em mudar a propriedade de canais de media). E agora o problema é de todos nós, porque é verdade que se criou um ambiente de degradação cívica a que a esquerda não pode deixar de dar resposta. Eu sei perfeitamente que se fosse um primeiro-ministro da direita eu estaria furioso, e comigo estariam todos os meus amigos do PS.
Eu compreendo que não se queira chafurdar na porcaria, e que se queira evitar quem apenas se interessa pelas vantagens táticas imediatas desta situação. Mas isso só é aceitável em quem tiver um discurso autónomo e vigoroso sobre isto, exigindo que tudo seja esclarecido até ao fim e — caso não o seja — levantar a voz para dizer que é inaceitável que a fraqueza de um primeiro-minisro faça resvalar um país inteiro.»
(via Luís M. Jorge)
Na altura em que convinha criticar, duvidar, denegrir ou desvalorizar Cunha Rodrigues e Souto Moura — não era escândalo nenhum. Nessa altura, a PGR era criticável. Podia duvidar-se inteiramente das suas conclusões, das suas estratégias e do seu trabalho, ou exigir o «conhecimento integral» de processos em segredo de justiça. Agora, não. Vamos esperar pela próxima semana. Quem sabe na outra.
Em A Gente de Smiley, de John Le Carré, George Smiley passeia com o seu chefe num jardim; chove; era o golpe fatal contra Karla, o «arqui-rival», e tinham combinado que — a partir daquele momento — cada um estava por sua conta. Smiley comenta, para si próprio, que o outro é um cavalheiro. Um gentleman. Por isso, a chuva não caía sobre ele.
O filme Atividade Paranormal tem provocado desacatos em Itália, segundo parece. A história é a de um “fantasma demoníaco” que aterroriza uma casa e os seus dois ocupantes – nada de novo. Apenas isto: há pessoas que caem redondas, vomitam ou ficam em estado de choque e são hospitalizadas. A culpa é do filme? Vejamos: esses casos ocorrem com menores de idade, sensíveis e impressionáveis. O terror é um segmento da cinefilia que só devia poder ver-se com atestado médico. Nem todos os filmes são para todas as idades, nem todos os livros têm o mesmo efeito em idades diferentes. O filme, de facto, é fancaria, bom para impressionar – mas apelar à censura é o mais fácil. Só vai ver quem quer, ou quem gosta de testar os nervos. Não se queixem: é a receita mais velha do mundo.
[Na coluna do Correio da Manhã]

Por exemplo, John Terry. Por exemplo Tiger Woods. Exemplos distantes de como não se pode estar simultaneamente em dois lugares. Pessoalmente, a história dos adultérios de cada um não me diz respeito e defendo o direito de Terry e de Woods ao bom nome e à reputação. Eu estaria, aliás, na primeira linha, a defender o seu (de cada um deles) direito ao adultério. Mas um cavalheiro não pode apresentar-se nas páginas de family & gardening do Usa Today ou do Telegraph, como exemplos, respectivamente, de excelente marido e de excelente pai («o pai do ano», salvo seja) e, ao mesmo tempo, como herói das capas da Adultery and Polygamy ou da Sex Under Water. O resto é aquela história de o Homem, ai dele, ser naturalmente bom, coitadinho. Se as pessoas aceitam a glória de serem capas da Happy Family & Childcare e vestem a farda de exemplos para a boa sociedade de Chelsea ou Hamptons, creio que sabem que não lhes convém aparecer na Sex Stallions of the Western World. Independentemente do que eu acho acerca do seu direito ao adultério ou do seu direito à privacidade. Lembra-me, aliás, a história das pessoas que abrem as suas casas à visita da Caras ou da Lux, a quem mostram as crianças e contam o que lhes apetece e lhes convém, e com quem passam um fim-de-semana nas areias de Búzios ou num château de fancaria, cheio de arrebiques — e depois se queixam da invasão da privacidade.
O meu caro Pedro Marques Lopes invoca, neste post, a necessidade de fazer a defesa de direitos pessoais consagrados no art.° 26 da Constituição. Estou de acordo. Uma coisa não impede a outra. Ou é necessário estarmos sempre com defesas adversativas? [Do género: sim, eu peço isto, mas não posso esquecer o seu contrário...]
É evidente que isso tem um preço, como se sabe. Por exemplo, um ministro que no seu tempo telefonava para a RTP a pedir o alinhamento do Telejornal, pode estar agora na primeira (vá lá, na terceira ou quarta) linha a pedir que o governo não interfira «na comunicação social»? Não pode.
Na Alemanha, reservas ao GoogleStreetView.
Durante uns dias, e que dias, o Origem das Espécies esteve ausente. Muito trabalho, saltitando entre Lisboa e outras cidades, trabalhando de madrugada e alimentando insónias. Regressa a meio gás. Irá recuperando devagar, mas sem fôlego para muito mais.
Lançamento nacional: dia 25, na Póvoa de Varzim, durante as Correntes de Escrita.
Primeira tradução mundial, uma semana depois da edição espanhola.
Tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.
Lançamento em Lisboa: no MusicBox (Cais do Sodré) com rock afinado pela literatura de Roberto Bolaño, com o DJ irmaolucia, na semana seguinte, na noite de 5 para 6 de Março (a partir da 1h30).
Estão aí Claudio Magris (Danúbio, o grande romance europeu), Susan Sontag (lá mais para o Verão, sairá o primeiro volume do seu diário, Reborn), Lourenço Mutarelli (A Arte de Produzir Efeito sem Causa, uma história non-stop, vinda do Brasil) e Mempo Giardinelli (Fim de Romance na Patagónia, a história de uma viagem literária entre a desolação do Chaco e os grandes lagos do sul, a bordo de um Ford Fiesta...). Só saem no fim do mês, mas podem guardar espaço nas estantes.
(*) - Expressão de Fernando Assis Pacheco, no seu saudoso «Bookcionário», no semanário O Jornal.
Os “alunos do básico e do secundário” tiveram um dia destes a sua jornada nacional de luta e alguns deles manifestaram-se em frente ao Ministério da Educação para pedir aulas de educação sexual, o fim dos exames nacionais, das aulas de substituição e das provas de recuperação. Bonito. Também querem um novo estatuto do aluno, porque devem considerar o atual muito restritivo. Além disso, estão infelizes porque os bares e refeitórios estão a ser explorados por privados. Este género de “reivindicações” nem merece ser discutido, mas os governos anteriores contaram com os meninos como “parte da comunidade educativa” em vez de lhes distribuir deveres para casa e obrigações a que não podiam faltar. Agora aturem-nos e aceitem de volta os chavões e os disparates. Aprenderam todos.
[Na coluna do Correio da Manhã]
O pior, Tomás, é que essas declarações foram feitas. O deputado Strecht Ribeiro reafirma que vai apresentar o citado projecto mirabolante para fazer frente a Assis, que faz frente a Sócrates — tu sabes o resto. Gente de corredor, de gabinete, de projecto-de-lei, entretida a mudar o mundo antes de chegar sequer ao corredor, quanto mais à janela.
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