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Acúrcio.

por FJV, em 10.01.10

Conheci-o há uns anos e conversámos longamente durante uma viagem (a Moçambique) em que tirei as minhas dúvidas sobre como se pode ser guarda-redes de futebol (e dos melhores) e avançado de hóquei em patins (dos melhores), além de reconstituir o mais famoso dos seus jogos, quando partiu um braço depois de um choque com Matateu (do Belenenses) e, logo a seguir, marcou um golo de baliza a baliza. Vicente, irmão de Matateu, explicou-me que não foi por sorte; ele viu o trajecto da bola a dirigir-se para a baliza. Um atleta. Alto, largo, elegante, humilde. Acúrcio morreu este fim-de-semana.

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A orientação.

por FJV, em 10.01.10

Alguns jornais publicaram  uma notícia sobre o livro Mudar, de Pedro Passos Coelho, acrescentando que estava a ser escrito “sob minha orientação”. É falso. O livro será publicado pela Quetzal, do grupo Bertrand, onde sou editor – uma condição profissional que me leva a “orientar” a publicação de muitas dezenas de livros por ano. Foi Passos Coelho que escreveu – rigorosamente – a última versão que me foi entregue para publicação, e que li como qualquer editor que quer publicar um bom livro.

Sou, de facto, editor do livro. É, digamos, o meu negócio. Quer dizer, o meu trabalho, aquilo de que vivo e que me ajuda a pagar as contas.

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Lá está.

por FJV, em 09.01.10

Manuel Alegre, que durante a campanha eleitoral para as presidenciais várias vezes ameaçou entrar na esfera de competências do governo, diz (no Expresso de hoje) que Cavaco «não resiste à tentação de governar».

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Se é a falar, falemos.

por FJV, em 09.01.10

Paulo Rangel fala — e bem — de uma revolução conservadora no ensino. Uma revolução «que substitua o facilitismo pela exigência». Anos de atraso nesta conversa. Duas décadas, pelo menos. Nesta matéria, é preciso ter alguma memória para não cair no espectáculo. Lembram-se quando um ministro (do PSD) tratou de substituir a designação «alunos» pela de «aprendentes»? Lembram-se como, que me lembre, todos os ministros que tentaram reformas curriculares e chamaram a atenção para o problema dos programas de ensino (como David Justino e Marçal Grilo, por exemplo) foram trucidados pelas máquinas partidárias?

O conceito (revolução conservadora) tinha graça há uma ou duas décadas. Nessa altura, muito antes de aparecerem «os números da Finlândia» (descansem, que não foi só com computadores na sala de aula que apareceram os bons resultados), já se falava de outros modelos, como os da Coreia do Sul (descansem, que não foi só com computadores na sala de aula que apareceram os bons resultados), «que não tinham a ver com a nossa cultura, pá». Pobre gente que nunca tinha lido David Landes. Agora, o próprio Paulo Rangel levanta a ponta do véu: associado ao lema «revolução conservadora» adianta logo o «estatuto do aluno». Já se vê. Uma piscadela de olho que não é nada conservadora, mas que apenas transporta o seu tique disciplinador e de «cada coisa no seu lugar». Infelizmente, o «estatuto do aluno» é o menor dos males — vai ser coisa para a fedelhagem tratar da «participação na escola», do «modelo de gestão», do «poder da escola» e dos vícios congéneres.

Não. O que é preciso discutir, realmente, é o que se vai ensinar na escola. E para isso é preciso questionar seriamente uma geração de burocratas das ciências pedagógicas que, durante os últimos trinta anos, torturaram professores e alunos com as suas ideias de «engenharia escolar e social», os seus manuais deficientes, as ideias feitas, as vulgaridades e erros nos manuais de Português, História ou — ah, sim — até Matemática. Não se trata, apenas de mudança de mentalidade; isso, como o país está, ligeirinho e moderno, é o menos. Portugal muda de mentalidade todos os anos, conforme as conveniências, as oportunidades, o «Prós e Contras», as «fracturas» e os «psis» chamados ao estrado do Ministério da Educação.

A «revolução conservadora» tinha graça há duas décadas quando valia a pena construir o edifício. Hoje, ele está deficiente. Em primeiro lugar, chamem os professores. Os professores-professores — não os técnicos em Ciências da Educação que não dão aulas há vinte anos. Chamem os professores que contactam com os alunos, que dão aulas, que passam pelos corredores e sabem do que se fala quando se fala de educação. A tentação da reforma a todo o custo cria vítima insuspeitas; para legislar sobre o «modelo de avaliação dos professores» a primeira coisa que fizeram foi afastar os professores. Não queiram fazer a reforma curricular afastando-os de novo. Basta ouvir, tomar notas, recolher histórias reais. Isto não são os cientistas da pedagogia que o podem fazer; eles não têm histórias reais para contar — aliás, lendo o que eles escrevem nas introduções aos programas escolares e nos materiais ideológicos produzidos pelo Ministério da Educação, até é legítimo supor que não falam Português.

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Fractura.

por FJV, em 09.01.10

[act.]

Rigorosamente nada a dizer sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já tudo foi dito, e em todas as direcções, desde a «hecatombe nos costumes» até ao «avanço civilizacional». A lei foi aprovada na Assembleia, segue-se um périplo que incluirá a verificação da constitucionalidade (duvidosa) e o regresso à normalidade. Daqui a um ano, estatísticas nos jornais.

Simplesmente, estas coisas não são estatísticas e têm a ver com a vida real, onde as leis fazem sombra.

Politicamente, a direita perdeu porque não soube — desde o princípio — lidar com o problema nem falar com clareza sobre o assunto. A conversa sobre «a finalidade do casamento» não era coisa para campanha eleitoral; e foi a única vez que o assunto foi tratado. A triste (tristonha) invocação de valores ancestrais não basta para enfrentar questões de hoje; e é uma pena que a legislação sobre uniões de facto não tivesse sido aproveitada para iniciar essa discussão. A direita teve vergonha, os homossexuais conservadores tiveram vergonha. Nos livros de Andrew Sullivan rasgam as partes inapropriadas.

Foi também a direita a culpada desta radicalização ligeiramente folclórica, permitindo que o discurso político pudesse ser apopriado por um discurso de género. Fazer política não é reagir; é antecipar. A invenção da união civil registada, à pressa, às portas da votação e em plena discussão, é a prova desta incompetência (que ameaça ser genética) do PSD para tratar questões que ultrapassem as minudências das comissões parlamentares.

A fractura foi feita, o Estado mete-se em nossas casas como gosta. Sigamos em frente.

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Arrumar a questão.

por FJV, em 09.01.10

Muito bem. O assunto sindical dos professores está arrumado. Agora, vamos tratar da escola, da revisão curricular, da reforma das matérias a ensinar, das questões pedagógicas essenciais, da gramática e da matemática. Não são questões para tratar na rua — mas na escola. Aquilo que, manifestamente, Maria de Lurdes Rodrigues não conseguiu tratar nem tinha apetência para tratar. Agora vamos discutir a escola.

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Magalhães.

por FJV, em 09.01.10

Um estudo da Anacom mostra que mais de 90% dos portugueses que aderiram aos programas do Plano Tecnológico ou ao fornecimento de Magalhães à mistura – já tinham computadores em casa (tal como banda larga). Não custa a acreditar. Além disso, as muitas escolas que tenho visitado têm computadores nas bibliotecas e nas salas de TIC. A superabundância de computadores no ensino é um bom negócio para as empresas fornecedoras de material mas não sei se está a favorecer grandiosamente o estudo e a aplicação nas escolas. Embora tenha dúvidas, deixo esse assunto aos professores – eles deviam ter sido consultados antes desta trapalhada. Mas não. As luminárias do costume acham que os professores não devem ter palavra sobre o ensino. Talvez tivessem alguma coisa a aprender com eles.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Novos descobrimentos.

por FJV, em 09.01.10

À descoberta do Ponto G – nos anos cinquenta, pelo alemão Ernst Gräfenberg – correspondeu diretamente a década de 70 e a “emancipação sexual” das mulheres. Com a existência do Ponto G tudo era possível. Ainda bem. Foi bom. A procura desse lugar invisível era, além disso, uma promessa de encontro, de devassidão e de prazer, tudo coisas positivas. Um grupo de investigadores do King’s College garante agora, no entanto, que o Ponto G não existe ou que a sua existência é “subjetiva”. Ora bolas. Há novidades científicas que não deviam divulgar-se sem cautelas suplementares, para não correr o risco de convulsões desnecessárias. É como se alguém nos tentasse convencer de que, afinal, as sereias ou os unicórnios não existem. Para todos os efeitos, continuaremos à procura.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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E-book.

por FJV, em 09.01.10

Quando os entusiastas do e-book festejam o lançamento de mais um novo leitor de livros eletrónicos, tenho dúvidas. Tenho dúvidas porque sou conservador – e tenho dúvidas porque tenho receio da pirataria informática que afetará os direitos de autor e a indústria do livro. Ontem, o CM noticiou: o título mais pirateado das bibliotecas digitais foi o ‘Kamasutra’, com cem mil a 250 mil cópias falsas. Neste caso não há problema com os direitos de autor, evidentemente – mas o top das falsificações revela o perfil do pirata de livros: ‘softporno’, informática, bricolage (não estou a brincar) e em oitavo lugar vampiros e Stephenie Meyer. Ainda são piratas de pacotilha. A ‘The Economist’ diz que até 2011 se vão vender 18 milhões de leitores de e-books. É fazer contas, piratas.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Nenhum ensaio sobre a cegueira.

por FJV, em 05.01.10

Não sabemos se Jorge Luis Borges escreveria de maneira diferente caso não tivesse cegado. O que ele teria lido. Como ele teria amado Buenos Aires, onde nasceu e viveu. Como ele teria amado Genebra, onde morreu. A cegueira, que é um dos nossos grandes pavores, foi total em Borges aos cinquenta anos. Em Louis Braille, cujo centenário se assinalou ontem, foi aos três anos – a criação de um alfabeto ou código para cegos constituiu uma das grande aventuras da humanidade e merece ser relembrado como um avanço indiscutível na nossa sensibilidade ao sofrimento dos outros. Braille imaginou o seu código associando-o à linguagem musical, o que já diz muito da beleza desconhecida que ele transporta. Com a obra de Braille ficámos, todos, mais humanos. Mais sensíveis. Visíveis.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Alcoolismo.

por FJV, em 05.01.10

O CM de anteontem dava conta de uma preocupação aparentemente nova acerca do “comportamento alcoólico” das novas gerações – muito mais de acordo com os excessos do norte da Europa do que com os velhos padrões mediterrânicos. Só por distração. Há justamente um ano, nesta coluna, chamei a atenção para o moralismo das autoridades, que perseguiam fumo e colesterol nos restaurantes evitando a fiscalização de bares onde adolescentes e crianças, de 12 anos, por exemplo, entravam em coma alcoólico com vigilância policial à porta. É o que sabemos: beber, um ato convivial e civilizado, transformou-se na pedrada que sabemos. O meu pai, um cavalheiro, detestava (com a mesma intensidade) gente que se embebedava e gente que não bebia. As nossas autoridades, por seu lado, só gostam de coisas trágicas.

[Na coluna do Correio da Manhã]

 

 

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Contabilidade.

por FJV, em 05.01.10

As contas portuguesas dão sempre resultado incerto. No papel, os resultados são positivos e apaixonantes; durante a realização dos projetos, há um desacerto total – os proventos não chegam, os gastos disparam e todos nós empobrecemos mais um pouco. Foi assim sempre, mas sobretudo na época da embaixada de D. Manuel ao Papa, um dos episódios mais pífios da nossa sede de gastos. Vejam-se os estádios de futebol (sobras do Euro 2004): neste momento, há pelo menos três autarquias que gostariam de deitá-los abaixo porque estão a ficar caros demais. Gostamos de ser otimistas por obrigação. Por isso, no último dia do ano, limitemo-nos a não fazer contas mas a pensar no assunto: nos EUA há mais bibliotecas do que McDonalds; em Portugal há mais estádios do que bibliotecas.

[Na coluna do Correio da Manhã]

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Manutenção.

por FJV, em 04.01.10

Volto ao blog com o ano novo já estreado pelas canções anteriores. Ainda a tempo de festejos e lamentos.
Festejo: os cinco anos do Da Literatura, agora de Eduardo Pitta a solo. Cinco anos é uma eternidade na blogosfera, e merece um abraço.
Festejo ainda: o nascimento do Córtex Frontal, com José Medeiros Ferreira e Joana Amaral Dias — lugar de visita diária.
Festejo, finalmente: os «dissidentes» do Corta-Fitas (que tem vindo a renovar-se, sim senhor, muito bem) abrem a loja no Albergue Espanhol já dia 6, depois de amanhã.
Lamento: o Luís M. Jorge anuncia que vai abrandar o ritmo do Vida Breve, o que é um golpe à má-fila, desnecessário nestes tempos de invernia. Uma pessoa habitua-se e, daí a nada, tiram-lhe o blog. Assim não.

 

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.7.

por FJV, em 03.01.10

 

Yo La Tengo, esse mar.

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.6.

por FJV, em 03.01.10

 

Um cenário especial, a velha Jerusalém. E Silver Jews, uma banda de sempre.

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.5.

por FJV, em 03.01.10

 

De há muito tempo.

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.4.

por FJV, em 03.01.10

 

Radiohead. O título diz tudo.

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.3.

por FJV, em 03.01.10

 

Urge Overkill, uma canção de Neil Diamond. Pulp Fiction

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.2.

por FJV, em 03.01.10

 

The Clash.

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Canções que começaram o ano por qualquer razão desconhecida.1.

por FJV, em 03.01.10

 

The Smiths.

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