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João Ferrão, que é geógrafo de formação — um bem inestimável, embora fora de moda — introduziu uma nota de bom-senso na questão da Quinta da Fonte. Em boa hora, para acabar com as procissões de velas e outras actividades de floricultura. Finalmente, alguém do governo diz a coisa certa: «A solução tem de sair do bairro. Eu acredito pouco que elementos externos ao bairro, que não são reconhecidos por ninguém, nem têm contactos no bairro, sejam vistos como sendo parte da solução.»
Se há coisa que me irrita a propósito de Tropa de Elite é a colecção de disparates que se dizem a propósito da «marca fascista» do filme e de merdas como o «escape autoritário» que o filme defende e de outras filhas da putice que os meninos aprenderam a escrever contando os dedos dos pés. Eu gosto do filme; não é o meu género mas dentro do género é muito bom e recomendo a todos que o vejam e que o mostrem.
Outra das manias é porem-se a comparar Cidade de Deus e Tropa de Elite como se os dois filmes competissem no mesmo plano ou se limitassem a dar as suas versões do problema. Ou é de gente que não viu Cidade de Deus ou de gente que não conhece o Brasil.
Falamos das coisas e elas acontecem
por isso ciciamos o que nos pede o corpo
não são as coisas só aquilo que dizemos
nossas pobres palavras não as dizem inteiras?
As palavras são coisas, extremas, luminosas,
quando tu dizes porta, há uma porta que se abre
quando tu dizes sexo, há um amor que se cumpre
não sabemos sequer o poder das palavras
nem o poder das coisas nem o poder dos rostos.
As coisas são palavras feridas pela morte
são agulhas finíssimas que trespassam a noite
os teus lábios dizem coisas os teus lábios cintilam
por eles fala o mundo, por eles se faz o oiro
pois o mundo acontece sempre que o pronuncias.
Apesar de ter sido arquivado, o caso Maddie não terminou. Há aquela dúvida. Aquela – saber o que aconteceu com Maddie. A dúvida permanecerá por anos, inspirará várias ficções e será um caso estudado pelas polícias. Numa sociedade cheia de crispação e ressentimento, como a nossa, o caso acrescenta mais combustível aos sinais de revolta evidente contra as instituições (o Estado, as polícias, a justiça, a família, o jornalismo, por exemplo), que se acusam mutuamente mas em surdina. Poucos casos como este evidenciaram ódios e desleixos tão profundos e o perigo de misturar convicções e evidências no mesmo saco. O que mais sobram, agora, são dúvidas – e custa a crer como o poder político, manhoso, se distancia do assunto como se não fosse nada com ele. O caso não terminou.
[Da coluna do Correio da Manhã.]
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