Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



...

por FJV, em 23.09.05
||| Coisas inconcebíveis, 2.
A virgindade absoluta reivindicada pela generalidade dos editorialistas e comentadores em relação ao «caso Felgueiras» não é totalmente inconcebível, mas era esperada. Como se sabe, e pelo menos isso acontece nos países e sociedades em que as coisas (em si mesmas) não se resolvem, a palavra substitui sempre os actos. A indignação absoluta substitui quase tudo. É uma questão de adjectivos mesmo quando se indignam contra a «justiça da rua», praticando-a depois nas páginas dos jornais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 23.09.05
||| Coisas inconcebíveis, 1.
A ser verdade o que o Público escreveu ontem e reafirma hoje acerca do «caso Felgueiras», conviria saber quem sabe o quê e quem foi avisado e de quê. Isto pode não ter importância, mas trata-se da confusão deliberada entre partido, Estado e Justiça. Escrevo estas coisas com inicial maiúscula, mas nem sei bem porquê.

Ainda no Público, ver o «Dossier Eurominas».

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 23.09.05
||| Comparações (o regresso).
Passou-me despercebida aquela tentativa de comparar a «aversão de Salazar» pelos partidos políticos (o que são os eufemismos!) à opinião de Cavaco Silva sobre o sistema partidário, feita por Almeida Santos. É uma iniciativa brilhante e tentadora. Está aberto o caminho para a asneira de fino recorte literário. Tenham medo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 23.09.05
||| A noite, o que é?, 54.
Havia um pátio, gente em redor, um colorido, tudo o que se perdeu ficou lá. Mesmo a felicidade, como um doença de que nunca me livrei. Mesmo aquele cheiro de que até hoje não me libertei. Aquele cheiro indefinido em volta de tudo. As pessoas liam e perguntavam. Procuravam sinais. O maior erro é o de procurar sinais no que se escreve. A infelicidade, às vezes, provoca grandes momentos de alegria. A alegria é uma fenda, uma noite no meio da folhagem. Escreve-se: «Folhagem, aroma, mão, braço, rosto, janela, noite.» E as pessoas não suspeitam que o sofrimento deixou de ser apenas uma espécie de metáfora mas que nunca se esquece essa imagem, as folhas das árvores vistas da janela. O grande mal que a literatura faz. Escrever é ser o contrário. Escreve-se contra a recordação, contra os sinais, contra as marcas; é a única honestidade, a única saída.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 23.09.05
||| A idade & André Gide.
Caro José: obrigado pela citação de Gide. É muito boa. Eu gosto de velhos. Tenho medo da sua imensa sabedoria — porque é imensa, provocadora — e aprecio-a. Acho que é um bem indiscutível. As sociedades ocidentais esquecem os seus velhos, endeusam «a juventude», que é um estado ligeiramente flutuante e representa um mercado fabuloso, fácil e vulnerável. Mas a verdade é que este Ocidente despreza os velhos, abandona-os. Mesmo quando querem elogiar um velho salientam, antes de mais, a sua «juventude». Nelson Rodrigues dizia que a juventude não era propriamente uma idade — mas, antes, uma questão de «falta de idade». Em primeiro lugar, a juventude tem apenas uma vantagem: a idade. O que é, também, a sua grande desvantagem, e por isso deve ser «posta no lugar». A falta de idade permite, aos jovens, dar pulos, erros ortográficos e passar noites em branco. Mas impede-os de apreciar outras coisas. (A categoria mais próxima da «juventude» é a dos velhos gaiteiros: esses, não farão nem uma coisa nem outra. Morrerão de stress.)
Dito isto, deixe-me repetir que (como insisti desde o início) colocar adversativas à candidatura de Mário Soares a partir do dogma da idade é um argumento fraco e, certamente, injusto. Lembro-me sempre de uma entrevista de Álvaro Cunhal na RTP, por volta de 1982 ou 1983; alguém lhe faz uma pergunta sobre «as recentes críticas de António José Saraiva» ao Partido Comunista e Cunhal, com aquela crueldade fria mascarada de aura romântica, diz apenas: «Esse está é velho.» Não acredito que o José M. F. concorde com tudo o que Mário Soares pensa ou afirma, repetidamente, pensar (nem isso é importante) -- mas ambos sabemos que, em nenhuma circunstância diríamos essa frase. Mário Soares é uma referência indiscutível da democracia, evidentemente, e falar da sua idade é condená-lo a bonzo desta República. Precisamente porque, tal como o argumento da «juventude» é escasso, também o da «maturidade» (com a carga excessiva de nulidades que arrasta: «magistério de influência», «experiência», «animal político», «figura incontornável», etc.) parece de pouca utilidade. Eu quero que discutam com Mário Soares ou que apoiem Mário Soares sem veneração pela sua idade ou sem lhe desaprovarem a audácia e o atrevimento da idade. Porque, naturalmente, quem vai à guerra, dá e leva. Não há cerimónia; nem venham, depois, pedir respeitinho.
O que exactamente estava em causa na nossa discussão (e na qual entravam também o Paulo Gorjão e o João Gonçalves) era Soares como venerável figura, ligeiramente acima de todas as críticas. O que o José escreveu foi o seguinte: o centro (no caso, o João e o Paulo, por exemplo) não deve criticar Soares porque a figura de Soares é de tal forma avassaladora que não é Soares que perde o centro mas, sim, o centro a perder Mário Soares. Ou seja: se o centro criticar Soares vai ficar sozinho, coitado, enquanto Soares faz a sua inevitável marcha triunfal (o seu passeio pela avenida). Foi a isso que eu chamei optimismo político e, portanto, fé em excesso. Mas, enfim, é uma ideia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
||| Revista de blogs: Conselhos.
«Dá-te com gente séria. Gente da tua faculdade. Gente que fode por dinheiro, e que casa para arranjar emprego.»

{No Sem Wonderbra.}

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
Crise passional.
Sem sentimentalismos (meus), sem muita pena ou comiseração pelo «velho PT» brasileiro, há pontos muito razoáveis nesta crónica de Villas-Boas Correia, «Crônica de uma crise passional».

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
||| Literatura, wisdom.













Já em edição brasileira -- eu recomendo muito este livro de Hardold Bloom, Onde Encontrar a Sabedoria (tradução de Where Shall Wisdom Be Found?), publicado pela Objetiva.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
||| Sim, foi uma pena.
O Prémio Jabuti atribuído, no Brasil, a Nelida Piñon -- por Vozes do Deserto (na Record). Chato, hein?

Bom, mas atribuir um jabutizinho (segundo lugar) na categoria de contos & crónicas ao Frei Betto, só por muito, mas mesmo muito descaramento. Hein?

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
||| Notícias do front.
Severino Cavalcanti segue os passos de Lula: ameaça ao ver a hora da saída. Lula não saiu, mas Severino já está fora.

Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity, lá menciona a Portugal Telecom. E tem a história deliciosa do filho de Lula, cujo preço até a Brasil Telecom achou demasiado alto -- a Telemar aceitou.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 22.09.05
||| Optimismo histórico.
Meu caro José M. F.: esse optimismo parece-me, sem ironia, pertencer ao domínio da fé. O José já tinha dito que as críticas dos moderados a Soares eram prejudiciais para os moderados (porque assim o centro perdia Mário Soares, e nunca o contrário), mas esta ideia de que o destino da humanidade passa, na sua fase derradeira, pelo triunfo da virtude soarista contra a perversão cavaquista, serve, vamos e venhamos, para discutir daqui a seis meses.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 21.09.05
||| A noite, o que é?, 53.
Há um código conhecido: acordar de madrugada. Cheiros. Uma janela aberta perto do mar, das árvores. Escrever para catalogar o mundo, diante de muros entreabertos. Acordar de madrugada para cozinhar, beber água, passear pela casa. Quando se acorda de madrugada há um código impresso nos dedos, no coração, na vida dos outros. Deixamos uma marca, ouvimos uma música. Deixamos um rasto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 21.09.05
||| A noite, o que é?, 52.
Uma casa onde os amigos chegavam e havia comida na mesa, nos armários; cerveja, água, café, o aroma do café, árvores, gente que passa na rua, um baralho de cartas, ruído dos aviões, poemaas de Cecília Meireles. Nunca estamos preparados para as grandes recordações. Aquelas que mudaram a nossa vida, ou apenas aquelas que a nossa vida foi capaz de mudar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 21.09.05
||| Religião aberta.
Depois de ter lançado a colecção Ciência Aberta há muitos anos, a Gradiva lança a Religião Aberta. O segundo volume é uma pequena preciosidade, de Danièle Hervieu-Léger, O Peregrino e o Convertido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 21.09.05
||| Arquivos.
A partir de amanhã os arquivos do Aviz estarão fora do ar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 20.09.05
||| A noite, o que é?, 51.









Quando voltar a escrever sobre a noite é porque alguma coisa mudou em mim, ou alguma coisa regressou, ou alguma coisa aconteceu. Geralmente, isso não tem explicação. As pessoas liam o que eu escrevia e procuravam um sinal. Eu dizia: «As coisas não têm sentido, não têm explicação. O que se escreve não tem sentido, ou só tem sentido muito depois, organizados os restos, o que sobrou, o que ficou para lembrar.» Voltar a escrever sobre a noite. Sobre os ruídos, as formas, a folhagem que se via pela janela, os livros acumulados na mesa, os diálogos curtos. Uma forma qualquer de dedicação, de heroísmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 20.09.05
||| A noite, o que é?, 50.
É de noite que as coisas vêm. As recordações, a folhagem rente aos muros, as obsessões, o ruído dos bichos, animais nocturnos. As coisas vêm. Nem é fácil nem é difícil. Apenas o que são: aromas, frutos, coisas perdidas e sem nome, despedaçadas, intensas, formidáveis, versos em prosa, diálogos, palavras cruzadas. Eu digo que as coisas vêm, mas não é verdade; são apenas marcas na pele, hábitos, nomes, enumerações. Não são memórias, sequer. São feridas, rumores, mais enumerações ainda, como resumos da vida inteira e que, com o passar do tempo, se podem transformar num pesadelo. Estou numa varanda, sentado, olho em frente: é um exercício de ficção rudimentar; o que vem à memória às vezes são coisas que não devia recordar, vindas do fundo da noite, quando a noite não tinha esta ordem, nem outra, nem nenhuma. E era só noite. Amável. Amável noite, amável sotaque, amável língua desconhecida, incerteza. Livros de palavras cruzadas comprados em papelarias de aeroporto, em quiosques de bairro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 20.09.05
||| Adeus.




A Simon Wiesenthal, consciência da shoah. Obrigado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 17.09.05
||| Vida moderna.










Pessoas que choram muito. Pessoas que se comovem demasiado. Pessoas que vivem vidas de outras pessoas. Pessoas que cometem sempre o mesmo erro. Pessoas que deram a volta à sua vida, até que ela não tem volta. Pessoas que.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por FJV, em 17.09.05
||| Era bem feito.
Se, depois das várias recusas que protagonizou (candidato, ministro, etc., etc.), António Vitorino aceitasse funções na candidatura de Soares (e depois do que Soares sugeriu sobre Vitorino), seria o fim de uma época (e de uma tradição). Mas Vitorino foi fiel a si próprio: não aceitou. Qualquer um via que eram ligações a mais. Quer dizer: até Vitorino percebeu. Para Soares não era demais.
(Actualizado)

Autoria e outros dados (tags, etc)




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.