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Eu, abaixo assinado, aceito as escolhas do júri. Mas os dados são estes.

por FJV, em 10.11.10

Alguns leitores acham que me espalhei por ter escrito sobre o absurdo funcionamento do Prémio Jabuti — tão absurdo que foi parar às mãos de Chico Buarque, classificado em segundo lugar na categoria «Romance». Acontece que Chico foi distinguido, menos de uma semana depois, com o Prémio Portugal Telecom, que a PT local atribui a livros de língua portuguesa publicados no Brasil (em Portugal, a PT é muito menos literária). Ora, vamos a contas: é, ou não é absurdo que Chico Buarque receba o Prémio Jabuti «de ficção», atribuído pela Câmara Brasileira do Livro (que sempre preza muito as suas orientações comerciais e os favores políticos), depois de ter ficado em segundo lugar em «romance», de não ter figurado nas categorias de crónica, conto ou biografia? Que superlativa categoria é essa que repesca os segundos lugares das «categorias de ficção» (o romance, a crónica, o conto, a novela) para os eleger como grandes vencedores ao som de «Dilma! Dilma! Dilma!», como aconteceu na semana passada em São Paulo? Garantam-me a sua existência e eu dou-me por vencido. Como é possível que, em 2004, o terceiro lugar (uma menção honrosa) na categoria «romance» tenha sido declarado vencedor absoluto do Prémio Jabuti, ultrapassando escritores como Bernardo Carvalho (primeiro prémio na categoria «romance»), Luiz Antônio Assis Brasil (segundo lugar na categoria «romance») e Sérgio Sant‘Anna (primeiro lugar na categoria «conto e novela») ou jornalistas como Caco Barcellos (vencedor na categoria «reportagem»), senão para humilhar a lógica, festejar Chico Buarque, e criar um feliz matrimónio político-comercial? Não me fodam.

Que Chico Buarque, uma semana depois dessa ignomínia, e seis anos depois de outra, pior, tenha sido premiado pela Portugal Telecom, é-me completamente indiferente. Custa-me a acreditar que Leite Derramado seja considerado melhor do que os livros de Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzemberg, Luiz Ruffatto, José Eduardo Agualusa, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Dalton Trevisan ou o fantástico romance de Reinaldo Moraes. Mas aceito os critérios do júri. Eu, abaixo assinado, aceito os critérios e as decisões do júri. Não acho aceitáveis os critérios do Jabuti nem o desenho de circunstâncias que rodearam a sua atribuição a Chico Buarque, um excelente compositor até certo momento.

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