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O preconceito de classe.

por FJV, em 21.08.10

Quando não havia mais nada à mão para atacar Cavaco — não era do grupo de herdeiros da República nem dos seus conglomerados — surgia Boliqueime, a bomba de gasolina, o Sr. Teodoro, os fatos fora de moda, o bolo-rei. Diante das câmaras de televisão, Soares comia o palmier de Campo de Ourique com a mesma desfaçatez com que Cavaco comia o bolo-rei à porta do apartamento, mas a Soares tudo se desculparia. Eu próprio lhe desculpo uma parte, em nome do gosto de viver e da disponibilidade para a malandrice. Cavaco não tinha, para evocar, uma nome de família ligado a um grande escritório de advogados nem aos resistentes ao salazarismo; era o homem de Boliqueime, o professor que bebia TriNaranjus, que comprou um Renault Dauphine com um empréstimo do Montepio, o pai de família tradicional, o contabilista, o homem que envergonharia os proprietários da República caso fosse eleito. Nisto, a direita e a esquerda alimentam os mesmos preconceitos. Tal como alimentam contra Passos Coelho, ou porque o pai era um médico de província (assistia os dispensários em Trás-os-Montes) ou porque vive em Massamá ou Odivelas, tanto me faz. O medo do subúrbio não é apenas classista, com os suplementos de despeito e de horror que os filhos dos antigos tiranos ou terratenentes guardavam para os momentos da verdade; hoje, é o retrato do medo, embora não deixe de ser o mesmo preconceito de classe, de família e de canalha.

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