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Só para vos irritar.

por FJV, em 02.07.10

De repente, o público encontrou um bode expiatório que ultrapassa a própria tentação de sacrificar Carlos Queiroz depois da derrota – aparentemente normal – da selecção nacional na África do Sul. Essa catarse portuguesa encontrou o seu alvo: Cristiano Ronaldo. A televisão explora até ao mínimo frame a possibilidade de interpretar cada palavra sua. Quando é que ele disse que assim não íamos ganhar? Quando é que ele mencionou que deviam perguntar a Queiroz o motivo da derrota? E, de repente, nos fantásticos fóruns das rádios – onde se encontra o denominador comum de todas as banalidades – aí está o culpado. Não o professor Queiroz. Não. Ronaldo. Ronaldo, o miúdo arrogante, o miúdo que ganha dinheiro, o miúdo que tem acidentes com automóveis caros e se expõe a cada centímetro da nossa curiosidade.

De repente, múmias arrancadas ao Além aparecem a exigir temperança ao capitão da selecção – mais do que futebol. E a acusação do costume («Ronaldo não joga para a equipa») como se Ronaldo não tivesse feito um passe, não tentasse um golo, um remate fatal (e isso é jogar para que equipa?), uma jogada, uma queda fingida a nosso favor. E o costume: inveja. Inveja de Ronaldo, da modelo russa com quem se passeia, do talento extraordinário que funciona em todas as equipas (funcionou no Sporting, funcionou no Manchester, funcionou em Madrid) – menos na selecção. E por que não funciona na selecção? Porque «Ronaldo não joga para a equipa».

Este axioma imbecil repete-se até à exaustão sem que uma única voz apareça a defender o mais evidente de tudo: que há equipas que também jogam para Ronaldo (o Manchester, o Madrid) e que há equipas que não jogam para Ronaldo (como a selecção). E que desprezar um talento e um génio absolutamente fatais – como o de Ronaldo – é um atentado contra o futebol e contra a arte que nos faz gostar da bola. O que o Portugalinho queria era o talento de Ronaldo mas sem lhe servir uma bola e exigindo que se submetesse à mediocridade, para não parecer aquilo que ele é: o objecto da inveja nacional.

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