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Relato.

por FJV, em 10.06.10

Pela estrada fora, ontem, de carro, ouvi os relatos dramáticos e atormentados dos jornalistas portugueses de rádio enviados à África do Sul e que, ai de nós!, ai deles!, foram assaltados, ou testemunhas de um assalto, ou estão a menos de cem metros de um assaltado. Que frisson, ser assaltado na África do Sul. No entanto, eles estavam zangados. O mundo é injusto. Que assaltem e assassinem emigrantes portugueses na África do Sul, é uma estatística; mas, caramba, um jornalista destacado para o Mundial, esse evento que devia fazer parar o universo, obrigar os assaltantes a umas férias, interromper a violência, morigerar os larápios? É uma falta absoluta de senso. Ainda por cima, a polícia demorou a chegar. Ainda por cima, a polícia adiou por diversas vezes a conferência de imprensa em que devia prostrar-se (espero que tenham ouvido um jornalista em histeria, contando estas peripécias, ai dele, ai de nós – tanto, que foi interrompido pelo pivot, em Lisboa) em homenagem à classe. Que falta de senso, a da polícia, que não largou os trinta e dois assaltos e vários homicídios que houve nas redondezas para se dedicar em exclusivo a falar para os microfones das estrelas – um assalto, caramba, um assalto, que frisson. Ainda por cima, vejam bem, a polícia recuperou 90% do material roubado e enviou um destacamento para proteger os jornalistas que, de imediato, eu ouvi bem!, passaram a protestar contra a vigilância policial porque se sentiam inseguros. Parece que um comandante disse, entretanto, que a violência crime «já cá estava antes do Mundial e estará no Mundial», que despautério, que abuso, que falta de noção – então vai a rapaziada comentar as glórias da bola, e este homem chama-os, assim, à bruta, à realidade? Sinceramente, isso não se faz. Quando muito, interrompia-se a África, propriamente dita, até que os jornalistas acabassem de transmitir os relatos e depois, só depois disso, os assaltos e os homicídios que fossem paulatinamente retomados, com a bonomia habitual, para que – de Lisboa, nas almofadas das redacções, entre graçolas – se riscasse o assunto da agenda com o argumento de que ninguém quer saber de outro tipo assassinado ou de um portuga baleado à porta de casa, além do mais são emigras, quem é que se vai importar? Assaltar um jornalista? Que falta de senso.

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