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O beijo no asfalto.

por FJV, em 05.05.10

Azedas e cravinas-bravas (Dianthus lusitanus), na Serra do Reboredo,

uma paisagem prodigiosa. Fotografia de A. Gonçalves no Torre de Moncorvo.

 

Parece obsessão, mas não é. Na semana passada fui a Barca d'Alva. Em vez de sair da A25 na Guarda e seguir por Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo (beleza pura, este trajecto, que recomendo muito), saí em Celorico da Beira porque passaria na minha terra, indo por Trancoso, Marialva, Vila Nova de Foz Côa, Pocinho e, depois, ou por Moncorvo atravessando a Serra de Roboredo (uma das paisagens mais intensas e bonitas do meu país) na direcção de Ligares, descendo até ao Douro e Espanha por aí; ou por uma estrada da minha adolescência, pelo Peredo e até Ligares, acompanhando o rio ao longe, e atravessando ums das colinas mais povoadas de carqueja e de urze. Faltou-me a companhia do Dias com Árvores, basicamente.

Ora, entre Celorico da Beira e Marialva e a baixa de Muxagata, cruzei-me com cinco carros e ultrapassei (contei) dezasseis — destes dezasseis, apenas quatro eram «veículos ligeiros» (a linguagem da Brigada de Trânsito fascina-me); os restantes doze eram camiões que se movimentam nas obras da auto-estrada que acompanha a EN202 — um monstro de viadutos, pontes, planos inclinados, planaltos de asfalto que em breve aparecerá por ali, e por onde não passarão os 12,000 «veículos» diários que justificam, segundo os estudos oficiais, a construção de uma nova auto-estrada. Considerando  (excepto um troço de paisagem amável mas de circulação lenta, entre Celorico e o cruzamento para Vila Franca das Naves) o planalto de Marialva, a baixa de Muxagata, a estrada ribeirinha do Douro (entre o Pocinho, a Foz do Sabor e o Vale da Vilariça), o Vale da Vilariça propriamente dito (na zona da Terrincha) e as estradas nada congestionadas que seguem para Alfândega, Macedo, etc. — imagino que daqui a uns anos Bragança estará servida de bastantes vias de comunicação com o deserto. As auto-estradas farão a navegação entre Bragança, numa ponta (Chaves na outra, com a A24, mas há sempre a esperança de Miranda do Douro, porque pressinto o meu país sedento de progresso rodoviário), e Lisboa noutra. O país beija o asfalto com paixão.

 

Aconselho vivamente os leitores a um passeio ao Douro; subam a um miradouro em Armamar, por exemplo, na margem direita — e observem como o Marão, o vale do Douro e «o país vinhateiro» da Unesco já não existem: é um traçado miraculoso de rios de asfalto, que atravessam montanhas, antigos bosques aqui e ali, declives e hortas que já desapareceram. É um beijo no asfalto.

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