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Os nossos.

por FJV, em 01.11.19

Hoje é, na tradição católica, Dia de Todos os Santos; amanhã, Dia de Finados. Noutras religiões ou cosmogonias e tradições, o dia 1 de Novembro está ligado ao fim, ao começo (do ciclo do inverno) ou à recordação dos mortos. É importante que exista pelo menos um dia para que os que partiram antes de nós sejam recordados. Só assim se prolonga o sentido das coisas e o ciclo interminável da memória dos nossos ancestrais, dos que amámos ou foram nossa companhia. Dizer isto todos os anos não basta – é necessário viver essa experiência de recordação ritual. Na minha aldeia, nas dos meus pais, e nas dos leitores, visitam-se os cemitérios não apenas para relembrar o sofrimento da ausência, mas para assinalar o respeito pelo tempo que passou; quem não pode fazê-lo, há de ter um momento para que os antigos sejam lembrados, para termos uma história humana que preenche os vazios e as partidas. Neste dia especialmente, recordo os meus avós, os meus tios que partiram, os amigos que não regressam das sombras, e basta um minuto para isso: voltamos a ser um mundo perfeito. Incompleto, mas perfeito. 

Da coluna diária do CM.

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O nosso jogo.

por FJV, em 31.10.19

Entrevistado pela revista Sábado, o antigo espião português Frederico Carvalhão Gil (que foi acusado de trabalhar para o SVR, informações russas) diz que assistiu a muitas ilegalidades no SIS, os serviços secretos. Não admira. Esse é, aliás, o tema de grande parte da literatura de espionagem nos tempos presentes; em ‘Um Legado de Espiões’, John le Carré mostra como as novas gerações pretendem “transparência” e “legalidade” nos serviços secretos, abertura às comissões parlamentares, verificação de legalidade, etc. – o que é um desejo impossível de satisfazer. E Carvalhão Gil sabe isso perfeitamente, ou não teria sido espião, ou seja, não teria “entrado no jogo”. E “o jogo” tem regras muito precisas. Primeira: a legalidade é um desiderato a longo termo. Segunda: a transparência é a inimiga número um dos serviços de informação. Terceira: Quem não quiser entrar, não entra – todas as queixinhas posteriores são irrelevantes. Poderia acrescentar uma terceira: quem for apanhado está por sua conta. É um jogo de sombras de que apenas conhecemos uma pequena e insignificante parte. É a vida.

Da coluna diária do CM.

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Tao Yuanming.

por FJV, em 30.10.19

 

A minha tetralogia da poesia chinesa é sobretudo clássica, ou antiga: Qu Yuan (séc. IV aC.), Li Bai, Wang Wei e Bai Juyi (séculos VIII e IX). Não conhecia senão uns versos de Tao Yuanming (viveu de 365 a 427), também conhecido como Tao Qian. Ignorância de aprendiz. Graças ao poeta Manuel Afonso Costa (autor de Seria Sempre Tarde, belo livro que sucede ao relâmpago de Memórias da Casa da China), a Assírio & Alvim publica uma versão portuguesa de Poesia e Prosa: são cem páginas de puro deleite, como se dizia antes. No século IV, quando na Europa apenas dedilhávamos, e mal, Tao Yuanming escrevia versos destes: “Desde há milhares de anos/ que a virtude/ dá lugar à ruína/ a miséria ocupou o coração/ tão ocupados que estão com a fama.” Os poemas são observações acerca do céu e da terra, dos rios e da reclusão (o seu tema central), ou sobre a humildade e a harmonia das coisas (“É preciso gozar o momento que passa.”), mas ter atravessado os tempos até aqui é um milagre a que temos de ficar rendidos: “Quando céu e terra são eternos,/ a vida de um homem/ parece tão curta.” Rendam-se. 

Da coluna diária do CM.

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Reler Camilo.

por FJV, em 29.10.19

 

A Imprensa Nacional tem vindo a publicar a edição crítica das obras de Camilo Castelo Branco, de que acaba de sair Coração, Cabeça e Estômago, uma joia dos seus romances (com edição de Cristina Sobral e Ariadne Nunes). A primeira versão saiu em 1862; dois anos depois sai a “segunda edição melhorada” pelo próprio autor. No título, Coração, Cabeça e Estômago dizem respeito a fases diferentes da vida do protagonista, o Sr. Silvestre da Silva, e o livro é uma espécie de telenovela da época a partir dos manuscritos do próprio Silvestre, que, diz Camilo, “careciam de serem adulterados para merecerem a qualificação de romance”. É de génio. 160 anos depois, uma pessoa lê e fica convencida: Camilo é um talento raro, a história é de um humor que nos perde a cada página, as personagens repetem quadros da história da pátria e do sentimentalismo pacóvio que tanto nos caracteriza, bem como do gosto atrevido pela tragédia, pela honra desfeita e pelos amores improváveis (o de Silvestre por Tomásia, muito tontinha). Se puderem, leiam – é tempo bem empregue, folhear o nosso maior romancista. 

Da coluna diária do CM.

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Violência nas escolas.

por FJV, em 28.10.19

Ao declarar – a propósito dos casos de violência que têm sido noticiados –que as escolas não são universos fechados “à sociedade”, mas, pelo contrário, representações da própria “sociedade” (e têm razão), o presidente das Associações de Pais (Confap) e o da Associação de Diretores de Escola acabam por admitir que falhámos em alguma coisa. Parece evidente que esses “casos de violência” não aumentaram muito, ao contrário da paciência e da disponibilidade dos professores para lidar com ela – e dos níveis de indisciplina dos alunos que circulam nas escolas. A par, evidentemente, da indiferença do Ministério da Educação, que não quer incómodos nem está disponível para apoiar os professores ou para ouvir uma palavra de crítica. A impunidade com que se pode agredir (por alunos e seus familiares) um professor ou um auxiliar educativo devia fazer-nos pensar um pouco. Nos países que produzem grandes talentos e bons resultados, os professores são valorizados, mas também avaliados e bem formados; e a escola não é um recreio para “encarregados de educação” ou para experiências políticas.

Da coluna diária do CM.

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Feijoada fora da lei.

por FJV, em 25.10.19

 

 

Há mais de um ano que não comia a tradicional feijoada das quintas-feiras. Comi ontem, com amigos perfeitos – foi o meu almoço e rejubilei, cheio de gratidão. Aquela conjugação confortável de alimentos reunidos no prato, ao lado de “uma forminha de arroz” (sou do Norte, não dispenso), acompanhou-me durante o resto do dia como uma recordação de um certo tipo de felicidade: a da comida e da reunião de gargalhadas. Também o fiz por alguma embirração com o Instagram, que – soube pelo CM – censurou as imagens de um cozido galego com grão por “violar as normas” daquela “rede social”, associando-as à “violência gráfica” e retirando-as da net, como faria com pornografia, violência sexual ou “incitamento ao ódio”. Acontece que o caso não me surpreende – é o resultado do puritanismo totalitário em que vivemos, onde os tontos parecem inteligentes e a gente de bem é tratada como suspeita. Esse policiamento feroz persegue hoje o cozido à galega ou a feijoada que comi ontem; amanhã denunciará o hábito de respirar ou o uso de vida inteligente que não repita as suas ladainhas. Estamos servidos.

Da coluna diária do CM.

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As elites.

por FJV, em 24.10.19

Duas ou três coisas sobre o que disse Durão Barroso ontem no congresso da CIP. Uma: tem razão ao referir-se ao confronto entre os EUA e a China na arena das economias globais. São as duas grandes “economias produtivas” e cada uma delas parece devidamente apetrechada. Pelo meio, duas zonas ténues: a Rússia (combativa mas sem criatividade) e a Europa, cada vez menos influente – e incapaz de fazer escolhas. O problema é de perspetiva, e estão a faltar-nos distância, conhecimento e memória para compreender o “caso chinês”, que não é apenas económico nem geo-político – é um compromisso difícil de compreender aos olhos ocidentais. Duas: diz Durão Barroso que “as elites não têm estado à altura” mas que o povo tem demonstrado uma “resiliência” notável; é verdadeiro e falso: as elites, às quais o próprio pertence Durão Barroso, têm tratado da vidinha e estabelecido os pilares de um regime de não serão expulsas. Três: a resistência dos portugueses não é invulgar; é a mesma desde o século XVI; tratam da vidinha porque sabem que as elites não os salvam em caso de aperto. Só isto é um programa.

Da coluna diária do CM.

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Doris Lessing, 100 anos.

por FJV, em 23.10.19

Nascida há 100 anos – assinalados hoje – Nobel da Literatura em 2007, a vida de Doris Lessing (1919-2013) daria pano para mangas. Nasceu na Pérsia que ainda não era Irão, viveu na Rodésia que ainda não era Zimbabué, mas era um produto tipicamente britânico, daquele que vem nos livros: rebelde, insubmissa, autodidata, militante pacifista, esquerdista que casou com um homem que depois seria embaixador da RDA (e de quem retirou o apelido Lessing), tratou de galinhas, foi agricultora, ama de crianças, professora de primeiras letras – e escreveu O Caderno Dourado (1962), um livro fundamental que ganharia muito em ser lido pelas mulheres de hoje. Tirando os seus livros de “ficção científica”, uma seca monumental, há referências obrigatórias, como A Boa Terrorista (1985), na sombra das suas nostalgias radicais, o perturbador O Quinto Filho (1988) sondando a loucura e os problemas mentais, e o derradeiro A Fenda uma história sobre um mundo apenas de mulheres. Mas eu recordo muito a belíssima epifania de Amor, de Novo (1996), sobre o envelhecimento, a solidão e o fim das coisas.

Da coluna diária do CM.

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O que é normal.

por FJV, em 22.10.19

Pressinto a preocupação e o sentido de responsabilidade do diretor do Agrupamento de Escolas de Póvoa de Santa Iria ao reconhecer, por escrito, preto no branco, que “não estão reunidas as condições mínimas” para o funcionamento de oito escolas (eu recuso-me a escrever “estabelecimentos de ensino”, sou da velha geração) e, em conformidade, reconhecer que elas terão de encerrar, rotativamente. O comunicado tem a data de dia 17 e várias pessoas dizem-me que não é caso único, que há outras escolas a encerrar pelo país fora por falta de “assistentes operacionais” que ou estão “de baixa” ou são vencidos “pela exaustão” – mas é o documento que eu tenho, e este basta-me como estatística. Admito que coro de vergonha. Trata-se do meu país. E trata-se de oito escolas básicas (e um jardim de infância) que, rotativamente, encerram as suas portas; nesses dias, as crianças não têm escola, os pais não podem viver normalmente, e não há explicações que me convençam a aceitar que isto é normal. Se as leitoras e os leitores, mães e pais, aceitarem que isto é “normal”, façam o favor de levantar a mão. 

Da coluna diária do CM.

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Pessoas no Canadá.

por FJV, em 21.10.19

Há coisas que me afligem, coisas que me divertem e coisas que deixo passar – mas são todas ridículas. Como os leitores decerto se recordam, existe um país chamado Canadá, terra com que simpatizo muito, bastante mesmo (sobretudo com certa região), mas que tem no governo uma substancial percentagem de tolinhos, começando no seu líder. Seja como for, a Air Canada, embebedada (ia a dizer embebida, mas retrocedi) pelo espírito da modernidade que o país atravessa e que há-de enlouquecê-lo, decidiu que deixará de dirigir-se aos seus passageiros insultando-os de “senhoras” e “senhores”. Em vez disso irá tratá-los como “pessoas”, para não ferir suscetibilidades de género. Em português, o caso seria o seguinte. Em vez “senhoras e senhores passageiros, acabámos de aterrar em Marte”, passaria a dizer-se “caras pessoas, acabámos de aterrar em Marte”. A esta hora, as estimadas leitoras e os caros leitores estarão a sorrir da leviandade, uma vez que não se põe a hipótese de a TAP voar até Marte. Em verdade vos digo que é mais fácil isso acontecer do que os maluquinhos ganharem algum juízo.

Da coluna diária do CM.

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Bloom.

por FJV, em 17.10.19

Harold Bloom (1930-2019), que morreu na passada segunda-feira, foi um dos últimos grandes críticos. Mais do que isso, um académico, um leitor, um scholar e um profeta – e autor de livros tão importantes como O Cânone Ocidental, Poesia e Repressão, Génio, A Angústia da Influência, Shakespeare (que ele via como o génio dos génios), Onde Encontrar a Sabedoria ou Como ler e Porquê? – entre muitos. Bloom sabia que era um dos derrotados da História e que atravessaríamos uma época, a que estamos a viver (que designou como “a era do ressentimento”), em que os critérios de valorização de um autor ou de um livro não seriam “literários”, mas políticos, identitários, raciais ou sexuais. Por isso, era um homem livre e escrevia o que entendia, sabendo que, de qualquer modo, nunca iria ser “popular”. Mas os seus livros, sobretudo O Cânone Ocidental e Génio, são guias especiais sobre o que de melhor a literatura e o génio de pessoas com talento (entre os quais nomeia Eça, Camões, Machado de Assis, Pessoa e Saramago) produziu desde que se escreve no chamado Ocidente. 

Da coluna diária do CM.

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Oscar Wilde.

por FJV, em 14.10.19

É o ano em que Tolstoi anda a combater na Crimeia, em que Dickens publica ‘Tempos Difíceis’ – e em que nasce Oscar Wilde, há 165 anos, em Dublin. Wilde tem uma boa educação universitária, mas ser um especialista em latim e grego não bastava para um rapaz saído da Irlanda e desejoso de ganhar mundo; foi como dramaturgo que se distinguiu: Um Marido Ideal, A Importância de ser Amável (ou Prudente), O Leque de Lady Windermere – e com um romance, O Retrato de Dorian Gray, uma pérola que vale a pena ler, sobretudo se ainda têm ilusões sobre a vaidade das letras. Ficam dele centenas de frases geniais, que hoje arrancariam naturais protestos sobre a sua misoginia: “Posso resistir a tudo, menos à tentação.” “Quando era jovem, pensava que o dinheiro era o mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza.” “O homem que prega moral é um hipócrita, a mulher moralizadora é invariavelmente feia.” “Um pouco de sinceridade pode ser perigoso, muita sinceridade é fatal.” “A história da mulher é a história da pior tirania que o mundo conheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte.”

Da coluna diária do CM.

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O Nobel, enfim, quase nada.

por FJV, em 11.10.19

Olga Tokarczuk e Peter Handke foram os escolhidos para os Nobel de 2018 e 2019, respetivamente. Depois de muitos anúncios sobre o fim da era “eurocêntrica” na escolha dos Nobel, aí estão uma polaca e um austríaco – nada mais eurocêntrico; aliás, totalmente Europa central. Disto não vem grande mal, sobretudo no caso de Olga Tokarczuk, cujo romance Viagens (Cavalo de Ferro) é uma pérola, um grande livro em qualquer parte do mundo, em qualquer hemisfério. Trata-se de uma história que convoca personagens muito díspares, todos eles com biografias, passados e sofrimentos ligadas à deslocação, à travessia do tempo e à viagem. A escrita de Tokarczuk tem quase sempre uma marca poética muito original, de uma grande beleza – e que não tem a ver com o universo da atual ficção em língua inglesa, a dominante. A questão está, nestes casos, na “justiça” do atribuição do prémio e da “densidade” do autor. Esse conceito é sempre duvidoso – até porque a academia sueca, mesmo mudando de regras, não lê chinês, vietnamita, espanhol, português ou persa, e nunca se sabe o que está a perder. 

Da coluna diária do CM.

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Exemplo para mais.

por FJV, em 10.10.19

Tirando a versão expressionista do “feminismo radical” e do “anti-racismo” identitário da deputada Joacine Moreira, é mais do que positiva a sua eleição, juntamente com Romualda Fernandes ou Beatriz Gomes Dias – as três de origem guineense. Portugal tem falta de cor nas televisões, no parlamento, nos partidos e em outros lugares de visibilidade pública. No parlamento estiveram pessoas de origens não-europeias (goesas, moçambicanas, timorenses ou angolanas), mas a verdade é que nos faz falta essa presença e representação, que eu gostava que fosse maior – não como voz enclausurada de minorias, mas como lugares plenos que também servissem de estímulo e motivação a outros. Devíamos ter mais visibilidade para pessoas de origem chinesa ou timorense, caboverdiana ou russa, angolana ou indiana, brasileira ou ucraniana. Sei que vou ser acusado à esquerda de neocolonialista ou à direita de traidor, mas Portugal deve incorporar culturas de quem nos procura ou de quem encontrou aqui a sua casa – além de melhorar a nossa lei da nacionalidade. Para já, espero que sejam exemplo para mais.

Da coluna diária do CM.

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O Nobel, enfim, quase tudo.

por FJV, em 10.10.19

Hoje é atribuído o Nobel da Literatura. Aliás, dois Nobel da Literatura, uma vez que o prémio não foi anunciado em 2018 depois de uma série de trapalhadas relacionadas com assédio sexual na Academia Sueca (mais propriamente, pelo marido de uma académica). Para a nova época do Nobel, moderna, conforme aos ditames da época, depois do #metoo e da descoberta de que existia mundo para lá de Estocolmo, a Academia Sueca resolveu rejuvenescer, tornar-se os seus critérios mais “femininos” e menos “eurocêntricos”. Se alguém quiser discutir o assunto, eu faço um desenho depois – mas o essencial é isto, independentemente das escolhas de hoje: se o Nobel já não tinha grande prestígio, a partir de agora tem ainda menos. Fui um dos que passou parte da vida a dizer que o Nobel era muito fechado na cultura europeia e americana e que desconhecia outros mundos e outras línguas – mas que escolhessem pela qualidade, não pelos critérios da moda. Posso enganar-me, naturalmente, mas, depois de ver a nova moral em vigor, era melhor entregarem o Nobel da Treta em vez do Nobel da Literatura.

Da coluna diária do CM.

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Rembrandt.

por FJV, em 04.10.19

 

Quando era estudante ia de vez em quando (a faculdade era perto e havia uma tarde livre) ver os dois Rembrandt no Museu Gulbenkian (“Palas Atena” e “Retrato de Velho”). Sempre me comoveram – não tanto como a “Ronda da Noite”,  ou a “Aula de Anatomia do Dr. Tulp”, entre tantos outros, que só vi mais tarde. Passei vários anos sem regressar a essa paixão de adolescência, até que li as palavras de Damien Hirst, um parolo que passa por génio da “arte contemporânea”, criticando Rembrandt. Revisitar a obra de Rembrandt van Rijn (1606-1669), de quem passam hoje 350 anos sobre a sua morte foi uma espécie de reencontro com a luz e com uma certa aprendizagem da arte de envelhecer. Os seus auto-retratos são o resultado de uma aceitação do tempo, tal como as cenas familiares, quase sempre tristes – mas Rembrandt, tal como quase toda a pintura holandesa, aliás, dedicava especial atenção aos pormenores em trânsito: um fragmento de luz aparecia sempre para iluminar a tela e contar uma história, evocar uma mitologia ou uma derrota. A sua melancolia é-nos tão próxima que não damos por ela.

Da coluna diária do CM.

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Educação política e de cidadania.

por FJV, em 04.10.19

Não sei se é o desejo de um elevado grau de “educação política e de cidadania” que leva a que um manual de Português do Secundário promova um texto do inefável Yannis Varoufakis (uma luminária, como se sabe) sobre democracia – mas dá uma ideia de como, aos poucos, as pessoas inteligentes desistiram de lutar pelo bom senso e pelo equilíbrio, e foram dizimadas pelo cilindro ideológico que tomou conta de boa parte do ensino no nosso país – que às vezes parece uma escola de propaganda. Mesmo assim, depois de tanta “educação política e de cidadania”, matraqueada diariamente, 21% dos jovens entre os 18 e os 24 anos (segundo a recente sondagem da Católica) declaram que não vão votar no próximo domingo. Não é um resultado brilhante, mas compreende-se: têm péssimos exemplos entre colegas – ao ponto de uma líder da JS ter permitido a publicação de um currículo académico com irregularidades e de declarar que apenas ganhou dinheiro em cargos de confiança partidária (como prémio, teve elogios mimosos e vai ser deputada). Mais uns textos de Varoufakis e a coisa compõe-se. Oremos.

Da coluna diária do CM.

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Heinz Konsalik (1921-1999).

por FJV, em 02.10.19

Passam hoje 20 anos sobre a morte de Heinz Konsalik (1921-1999) um autor alemão que teve um sucesso extraordinário em Portugal e no Brasil nos anos 70 e 80 – à custa da nossa língua vendeu milhões de livros (o que não aconteceu em inglês), divididos por cerca de 70 romances só em Portugal. Hoje, quase ninguém se lembra de Konsalik, o que é capaz de se justificar – os seus livros eram histórias avassaladoras de amor, guerra (combateu na frente russa na II Guerra) e casos de medicina: Amar à Sombra das Palmeiras, Amor Cossaco, Amor em São Petersburgo, Férias nas Termas, Luar sobre as Estepes, O Médico de Estalinegrado, Duas Horas para se Amarem ou A Herdeira são alguns dos seus títulos (quase todos publicados pelo Círculo de Leitores). Soldados, médicos, mulheres solitárias, casais que esquecem o infortúnio e recomeçam a vida – a gramática de Konsalik era repetitiva mas honesta; não vinha enganar ninguém. Nomes como o seu (e os de Max du Veuzit, Pitigrilli ou Vázquez-Figueroa, por exemplo) criaram leitores que hoje desapareceram em frente dos ecrãs da televisão.

Da coluna diária do CM.

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Rir em Tancos.

por FJV, em 01.10.19

Sobre Tancos escrevi aqui na altura (e um ano depois, para comemorar): é uma história que vai da tragédia à comédia e depois à ópera bufa. Mas, ao contrário do que disse o presidente da AR, segunda figura do Estado, não se revestiu de “momentos altamente cómicos”, mesmo tendo como intérprete um ministro da Defesa que tanto nos queria tranquilizar informando-nos de que “não foi o maior roubo do século”, como nos alarmava sugerindo que “no limite, pode não ter havido furto nenhum”. Qualquer uma das frases merece entrar numa antologia. Esses são os únicos momentos cómicos. O que é estranho é ver que alguns jornalistas defendem que não se deve falar do assunto “por estarmos em campanha”. Que os políticos se refugiem nesse argumento, vá lá – mas por que não pode a imprensa referir-se a um acontecimento vergonhoso que desonra não só “as instituições militares”, tão “promovidas” ultimamente, (teríamos muito a falar sobre isso) como os corredores e subterrâneos do poder? O episódio pode envergonhar-nos e talvez queiramos esquecê-lo. Mas ele continua a falar bem alto. E a rir.

Da coluna diária do CM.

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Setembro, adeus.

por FJV, em 30.09.19

O poeta T.S. Eliot dizia que abril era “o mês mais cruel”, mas, quanto a setembro as referências não têm fim. Tradicionalmente, a poesia fixou-o como o mês da melancolia, com as primeiras chuvas, o primeiro céu nublado, o final do verão – mas a meteorologia destemperada de hoje obriga-nos a mudar de orientação. Mesmo assim, só para celebrar o dia de hoje, deixo-vos sugestões: para temperamentos rockers, os Green Day têm uma boa canção, “Wake me Up When September Ends”; há o clássico “September Song” cantado por Frank Sinatra (que também interpreta “September of My Years”), que sabe sempre bem ouvir antes de passar a Barry White, com “Sptember When I Meet you”, além de (lembram-se?) “September Morn”, de Neil Diamond, “When September Comes”, de Johnny e Rosanna Cash, “Flaiming September”, de Marianne Faithfull, “September”, dos Earth, Wind & Fire, e de “Maybe September”, de Tony Bennett. Para ouvidos mais treinados também tenho a solução: a segunda das “Quatro Últimas Canções”, de Richard Strauss (1864-1949), interpretada por Elisabeth Schwarzkopf. Setembro não tem fim.

Da coluna diária do CM.

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Em busca dos pecadores.

por FJV, em 27.09.19

Volto às “questões ambientais” por instantes. Uma das coisas que mais me impressiona é o facto uma boa maioria dos fanáticos que exerce militância no campo das “alterações climáticas” achar que tudo isto é novo, e que as gerações anteriores tudo fizeram para “destruir o planeta”. Por isso a sua mensagem é tão infantilóide – e a ideia de que a sua missão está “para além da ideologia” é tão perigosa. O resultado não é uma discussão ou uma negociação sobre como vamos alterar os nossos hábitos (em meu entender, regressar a certos hábitos), mas uma sanha persecutória contra os pecadores. Não contra as empresas poluidoras, os governos que desrespeitam os acordos, a falta de vigilância e de cuidado – mas contra quem come carne, usa champô, não se comove com o discurso de Greta Thunberg e, sobretudo, contra quem não usa palavras mágicas e já gastas como “sustentável” ou “pegada de carbono”. Um dia vão descobrir que certos hábitos, que detestavam nos seus avós, eram realmente os mais corretos. O mundo não nasceu hoje com esta geração justiceira – é uma soma de passados.

Da coluna diária do CM.

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Monstros saídos das páginas.

por FJV, em 26.09.19

Se há pessoa que eu inveje é o argentino (e canadiano) Alberto Manguel. Não só por, durante 4 anos, ter lido em voz alta para Jorge Luis Borges, que era cego – mas por ter escrito livros como o Dicionário de Lugares Imaginários ou Uma História da Curiosidade, cuja leitura repeti várias vezes. A editora Tinta da China acaba de publicar Monstros Fabulosos, que leva o subtítulo Drácula, Alice, Super-Homem e outros Amigos Literários, onde Manguel nos apresenta cerca de quarenta grandes personagens da literatura, de Fausto ao Mandarim (de Eça), passando pelo fascinante Edward Casaubon (de Middlemarch, de George Eliot), por Alice (de Lewis Carroll), e gente imaginária, criada por Shakespeare, Flaubert, Salinger, Júlio Verne, Rousseau ou Cervantes – nem sempre são as personagens principais, porque às vezes as “secundárias” são muito mais marcantes e atrevidas. Este livro é um prodígio de beleza (desde o grafismo à tradução) e devia ser lido por toda a gente que, alguma vez na vida, se apaixonou por um livro e imaginou perder-se no meio de algum. Leiam, leiam. 

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A novidade.

por FJV, em 25.09.19

 

Nos anos quentes da revolução, final de 1976, a editora Afrontamento, do Porto, publicou uma coleção intitulada Viver É Preciso (Cadernos de Ecologia e Sociedade), dirigida por J. Carlos Marques. Foram pioneiros entre nós. E relembro a paixão com que o jornalista Afonso Cautela (1933-2008) promovia os debates sobre ambiente. O discurso dos ecologistas da época, no entanto, era bem diferente do de hoje – as circunstâncias eram diferentes e em 40 anos a vida do planeta tornou-se mais trágica, como todos sabemos. Mesmo assim, na época acreditava-se no “renascimento rural”, ser ecologista não significava ser vegan nem participar em caçadas (salvo seja!) morais aos prevaricadores, e escutávamos as palavras sábias de pessoas como Gonçalo Ribeiro Telles, patriarca do ruralismo e da ecologia entre nós. Coisa bem diferente dos hipsters urbanos que não sabem distinguir uma alface de um eucalipto, nem conhecem a diferença entre semear e plantar, mas se contentam com o seu radicalismo evangélico e o animalismo filosófico, anti-humanista, cheio de desprezo pelos seus semelhantes. 

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Greta Thunberg.

por FJV, em 24.09.19

Posso enganar-me muito mas, em breve, o estrelato da jovem Greta Thunberg vai parecer demasiado triste. E isso deixa-me incomodado porque, depois de a sua imagem ser devorada e explorada sem pudor no meio do espetáculo das lágrimas de ontem e daquele “ativismo” de dizer coisas banais (como ocorre com qualquer criança), ela vai sofrer demoradamente – tal como o combate pelo equilíbrio do planeta, que corre o risco de ser confundido com pessoas vegan em delírio evangelizador. Não me incomodam os discursos da menina (conheço-os desde a minha própria infância), mas sim a infantilização crescente desse combate e dos interlocutores apatetados de Greta Thunberg (viram a foto de Guterres ao seu lado?), que a aceitam como bandeira já não sabem de quê. Todos queremos “um mundo melhor” no qual a infância de crianças como Greta não seja roubada em qualquer parte do mundo, sobretudo nos países pobres que ela ainda não conhece. Ou então estou enganado e vai ser ainda pior – para todos e para o sofrimento pessoal de Greta Thunberg, que devia ser protegida deste horror.

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Dr. Freud.

por FJV, em 23.09.19

Parte da grande desconfiança que sempre tive em relação à psicanálise desapareceu quando li os textos do próprio Sigmund Freud (1856-1939), o seu fundador. Nunca me interessou o “mecanismo explicativo” engendrado por boa parte dos psicanalistas, nem as derivas esotéricas e francesas que, por culpa minha, tive de ler na faculdade. Mas a descoberta dos textos de Freud mostrou-me um escritor notável, impossível de ler sem acompanhar as suas referências à história da cultura e das religiões. Freud, que morreu há 80 anos, assinalados hoje, é um dos pais do nosso tempo – mostrou-nos que não somos nós o centro da nossa existência, mas que devemos fazer dela uma coisa mais perfeita. Alguns dos seus livros (Moisés e o Monoteísmo, Mal Estar na Civilização ou Para Além do Princípio do Prazer) são o resultado de uma busca genuína do humano e do seu lugar para viver. Os nazis queimaram os seus livros mal chegaram ao poder; Freud (que fugiu para Londres) foi tão irónico que magoa: “É um grande progresso; na Idade Média ter-me-iam queimado a mim.” Os nazis também, mas Freud morreu antes.

Da coluna diária do CM.

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Irving Berlin.

por FJV, em 20.09.19

Canções. Canções e canções geniais de que ninguém se esquece, numa lista interminável – é o mínimo que se pode dizer da obra de Irving Berlin, ou seja, Israel Isidore Beilin, o nome com que – aos cinco anos – chegou aos EUA vindo da Rússia, com a família que escapava ao anti-semitismo no império russo da época). Ele, que compôs ‘There’s no Business Like Show Business’ escreveu a eterna ‘White Christmas’, a canção de Natal mais cantada do século XX – um judeu. Essa lista interminável de canções inclui ‘Cheek to Cheek’, ‘Change Partners’, ‘Let’s Face the Music and Dance’, ‘Always’, ou ‘How Deep Is the Ocean’, mas apetece incluir mais dez pelos menos, e sempre em vozes admiráveis, de Frank Sinatra a Ella Fitzgerald e Billie Holiday, de Nat King Cole a Bing Crosby ou Leonard Cohen. Cada um acrescentou um pouco ao talento genial de Irving Berlin, é certo, mas a raiz estava lá, em cada canção, em cada harmonia todos nós trauteamos. No próximo domingo passam 30 anos sobre a sua morte (1888-1989), aos 101 anos. Estou só a dizer que é um belo dia para ouvir canções de Berlin. 

Da coluna diária do CM.

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Violência sobre as mulheres.

por FJV, em 19.09.19

Ouvidas pelo jornal Público, várias responsáveis de movimentos feministas manifestaram repúdio pelo assassinato da freira Antónia Pinho – violada e morta em S. João da Madeira. Isso acontece uma semana depois de o bispo do Porto ter acusado os movimentos de direitos humanos, feministas e organismos públicos de ignorarem o crime. O bispo tem razão no geral. O assassinato de Antónia Pinho não mereceu a comoção de nenhum grupo ou autoridade habitualmente atentos a crimes ou atos de violência sexual. Porquê? Porque era freira, católica e mulher. Um desses movimentos diz, justificando-se (além de invocar questões de género para criar um campo ideológico), que a notícia “não entrou nas redes”. É falso: foi capa do CM e esteve em destaque no JN. Acontece que “as redes” têm os seus (naturais) preconceitos e “a igreja” só tardiamente reagiu à tragédia da violência sobre as mulheres. Quanto ao Estado, tenho as minhas apreensões: ou segue os preconceitos “das redes” ou não consegue garantir a segurança das pessoas, deixando-as à mercê de criminosos de risco que multiplicam as vítimas.

Da coluna diária do CM.

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A carne em Coimbra.

por FJV, em 18.09.19

O consumo de carne deve ser moderado, todos o sabemos, por razões económicas, de saúde e ambientais. E há formas de o conseguir com moderação, sensatez e civilidade – e sem dar origem a galhofa, que estraga tudo. Mas os radicais da treta, como os nossos, começam pelas proibições; se forem pomposas, melhor para a fotografia. Veja-se o simpático reitor (digo isto porque o é, além de cientista de excelência) da vetusta universidade de Coimbra, por exemplo, que anunciou a proibição do consumo de carne de vaca nas suas cantinas, a fim de reduzir a pegada de carbono. Como suplemento, para mostrar que é um cavalheiro atualizado, na linha da frente, usou a expressão “emergência climática”, copiando o slogan do Bloco de Esquerda – o que é de uma inteligência supimpa mas o deixa ao nível da matraca de comício. Proibir por razões piedosas vai ser a grande moda nos próximos anos, permitindo todo o género de moralismos e autorizando pequenos ditadores de bairro, até se descobrir que o excesso é sempre bacoco. Senão, vamos lá, corajoso, corajoso – era proibir o consumo de carne. 

Da coluna diária do CM.

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Museu de Arte Antiga

por FJV, em 17.09.19

Em podendo, e como a proximidade da beleza nos comove, é recomendável ir uma vez por ano ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa. Até ao final do mês, além de visitar o museu propriamente dito (a sua coleção é admirável) há uma exposição intitulada “Museu das Descobertas” – a designação, atrevida, diz respeito aos segredos de cada peça guardada num museu, à forma como evoluiu (e mudou) o nosso conhecimento sobre certas obras, ao modo como os meios tecnológicos permitem, hoje, perceber que Hieronymus Bosch hesitou muito ao longo da pintura das “Tentações”, como determinados traços ou personagens foram “rasuradas” de telas que julgávamos definitivas – ou como a extinção das ordens religiosas pôs em perigo a preservação de tantas peças. Ir ao MNAA deixa-me sempre em suspenso daquela beleza que atravessa os séculos, desde o assombroso quinhentista “Ecce Homo” aos painéis de Nuno Gonçalves, passando pelo Martírio de S. Sebastão de Gregório Lopes, obras de Bosch e Dürer, ou a coleção “oriental”; é uma lista muito grande. Uma ou duas vezes na vida – ao menos isso –, vão lá.

Da coluna diária do CM.

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Roberto Leal nas montanhas.

por FJV, em 16.09.19

A grande surpresa para muitos inteletuais portugueses, quando chegavam ao Brasil (nessa altura, anos 80, o Brasil era muito impopular entre eles), consistia em ouvir falar de Roberto Leal e escutar elogios vindos de pessoas insuspeitas. “Ele não nos representa”, diziam (e juravam ser ele “piroso, excêntrico, popularucho, pimba”, o que quiserem, até porque Roberto Leal nunca quis enganar ninguém, nem fazer-se passar por ilustre). Era mentira: representou, sim. Representou todos os que, como ele, partiram com a família para qualquer lado do mundo para escapar à pobreza de uma aldeia de Trás-os-Montes; representou porque era amado e porque encontrou o seu lugar, junto de milhões de pessoas, a partir do nada e do esforço pessoal. Se o sucesso no Brasil estava garantido, em Portugal Roberto pregou-nos a partida quando, naquele programa “O Útimo a Sair” (RTP), foi capaz de ironizar sobre si mesmo, brincando com a sua pirosice, as suas gafes e as suas manias. Fê-lo como um génio talentoso e sensível. Só um génio podia ter escolhido As Minhas Montanhas para título da sua autobiografia.

Da coluna diária do CM.

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