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O crooner.

por FJV, em 16.12.21

Imagino-o como um crooner, um intérprete de grandes canções de amor e sedução. Uma figura no palco, vestido como um herói das orquestras dos anos cinquenta; uma elegância como já não se usa e ninguém quer repetir por vergonha e falta de jeito. Rogério Samora tinha jeito para tudo. A grande interpretação deve-a talvez a Fernando Lopes, que o escolheu (e bem) para interpretar o papel do engenheiro Palma Bravo em O Delfim, de José Cardoso Pires, um retrato da decadência portuguesa do final do salazarismo; Rogério Samora fê lo tão bem que teria afastado todos os preconceitos sobre a sua grande arte. Fernando Lopes filma Samora como um intérprete da harmonia e da desarmonia, da excitação e da depressão, do amor e da dúvida, da violência e da pacificação, da valentia e da selvajaria, sempre ao lado de Alexandra Lencastre. E, naquele papel, eu via-o como crooner, de que tinha tudo: a voz profunda e perfeita, o talento, o enigma, o carácter. António-Pedro Vasconcelos disse dele o que sempre me pareceu: um dos três grandes atores portugueses. Tenho pena, muita pena, que tivesse partido.

Da coluna diária do CM.

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Leonor.

por FJV, em 15.12.21

Já não me lembro de como conheci Leonor Xavier (1943-2021), mas lembro-me da impressão que me ficou daquela alegria. Eu tinha lido o seu livro sobre os portugueses no Brasil e O Ano da Travessia (1994) impressionou-me muito; na altura, eu não sabia que era essa uma das grandes virtudes da Leonor: estar sempre disponível para juntar pessoas, estender pontes, abrir portas. Não só entre Portugal e o Brasil, mas entre desavindos e desconhecidos. Em Portugal, Tempo de Paixão (2000) reuniu cem depoimentos de pessoas de trincheiras diferentes que viveram o PREC, antes de se dedicar a falar com Portugueses do Brasil & Brasileiros de Portugal (2016). Biógrafa, entrevistadora, ouvinte atenta, Leonor era alguém de fé que falava com quem não tinha fé e deixava uma marca para sempre, e a sua autobiografia, Casas Contadas, é de uma leveza consoladora e desarmante. Ontem, na missa fúnebre com que nos despedimos da Leonor, José Tolentino Mendonça falou dela como uma especialista em vida; nada tão acertado. Agora, que enfrentou o enigma e já conhece a sua face, resta-nos honrá-la com alegria.

Da coluna diária do CM.

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São João da Cruz

por FJV, em 14.12.21

Tive de ir procurar ao fundo das estantes as Poesias Completas de S. João da Cruz, traduzidas pelo grande José Bento (Assírio & Alvim). A figura de S. João da Cruz (1542-1591), que nasceu numa família de judeus conversos, é das figuras mais luminosas e obscuras do século XVI espanhol e, junto com Santa Teresa de Ávila, de quem foi amigo e cúmplice, compõem uma espécie de terramoto místico e contemplativo no catolicismo oficial da época – ambos fundaram (Santa Teresa primeiro) as suas ordens, feminina e masculina, dos Carmelitas Descalços. Perseguido, preso e novamente perseguido pelos seus pares, S. João da Cruz é mais do que um arrebatado; a sua via para a perfeição passou pela poesia em dois títulos maiores, Noite Escura e Cântico Espiritual, este último uma reinterpretação do texto bíblico (Cântico dos Cânticos), que está presente em todos os seus versos, bem como uma releitura da poesia culta do renascimento italiano, raríssima de beleza. Passando hoje 430 anos sobre a sua morte, contemplemos como ele o que nos resta de escuridão, esse caminho que é necessário atravessar.

Da coluna diária do CM.

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Falemos então de populismo.

por FJV, em 13.12.21

GNR identifica indivíduo em Óbidos por furto de pinhas de pinheiro-manso –  Região de Leiria

Falemos então de populismo. Por exemplo, dos facínoras que foram apanhados em Alcácer do Sal a roubar pinhas – é um roubo que não pode ficar sem castigo; o comando territorial de Setúbal da GNR emitiu um comunicado onde nos esclarecia que se tratava mesmo de pinhas de ‘Pinus pinea’, pinheiro manso, recheadas de pinhões. Ao preço a que andam, a usurpação podia chegar às duas ou três centenas de euros – e a justiça quere-se célere e universal. A notícia não me comoveu tanto como a da detenção do ex-banqueiro e ex-colecionador de arte João Rendeiro, que acompanhei nos resumos televisivos ao fim da noite de sexta-feira. Não tive paciência para o fazer antes porque, em Portugal, milhões de euros, investidores de arte e ex-banqueiros são assunto corrente na televisão, que os entrevista com regularidade – mas ladrões de pinhas têm um certo tom de heroísmo mafarrico; ainda bem que a justiça impôs termo de identidade e residência a estes meliantes de Alcácer, que se preparavam para quebrar a casca do pinhão, trabalho certamente louvável mas muito enfadonho. Que aprendam. A justiça é para todos.

Da coluna diária do CM.

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A pobreza intelectual, a pobreza dos intelectuais.

por FJV, em 10.12.21

A pobreza da vida intelectual portuguesa vê-se também nisto: nenhuma ideia nova – uma que seja, desde a reforma da segurança social à necessidade de discutir os currículos do ensino secundário ou o plano nacional de barragens – transpira dos debates que antecedem as eleições que vão ocorrer daqui a mês e meio. O que significa que os “intelectuais”, ensimesmados, não estiveram muito interessados em discutir a vida e a sociedade portuguesas e, em consequência, não conseguiram influenciar nenhum dos líderes políticos incumbentes. Nem ideias novas – nem ideias, em absoluto. De uma extrema-direita muito mais abaixo do que pateta e lorpa, até à extrema-esquerda populista e moralista, passando pela “disputa pelo centro” (que corrói todo o sistema político e entrega o poder a sardanápalos cumpridores), há um vento de deterioração: questões partidárias, partilha de poder, vaidades pessoais, cartilhas debitadas para a televisão, alheamento em relação aos temas do futuro. Cabe ao Presidente falar menos sobre o dia-a-dia e fazer da sua presidência um reduto contra a banalização. Urgentemente.

Da coluna diária do CM.

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Luís Cardoso, Oceanos.

por FJV, em 09.12.21

Mantendo sempre uma discrição e humildade notáveis, Luís Cardoso é autor de alguns dos melhores romances da nossa língua publicados neste século. Entre eles, o grande Requiem para o Navegador Solitário (2007), que li e reli tantas vezes, bem como O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-navegação (2013). Os livros de Luís Cardoso não são apenas histórias que colocaram Timor no mapa – são monumentos de grande beleza ficcional, sem sentimentalismo nem falsa sensibilidade ou malabarismos de estilo e de língua. Ele escreve maravilhosamente bem. Algumas das suas passagens são uma bênção para o leitor. Inventou um pós-colonialismo que não rejeita a palavra “ultramarino”, um universo em que as personagens não se atraiçoam em nome da ideologia, uma literatura sem vergonha mas com pudor, uma voz única e lírica. Em O Plantador de Abóboras (publicado pela Abysmo), que acaba de ganhar o Prémio Oceanos, Luís Cardoso reúne várias histórias que atravessam os seus mitos sobre Timor, como animais perdidos sobre a terra. É um romance belíssimo. E é uma sorte a nossa língua poder contar com ele.

Da coluna diária do CM.

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José Carlos Barros, um premiado improvável.

por FJV, em 08.12.21

A atribuição de um prémio literário para textos inéditos (portanto, ainda não lemos o livro vencedor) deixa-nos sempre suspensos: e se é para fulano ou beltrano? Ou, pior ainda, e se é para um autor totalmente desconhecido, um estreante? No caso de José Carlos Barros, que ontem venceu o Prémio Leya, o nome não diz muito aos leitores portugueses. Conheci-o como poeta; com o tempo, os seus textos ganharam densidade, vida, maturidade e um gosto singular pelas suas memórias pessoais. Os livros mais recentes, Educação das Crianças e Penélope Escreve a Ulisses são obras notáveis que o confirmam como grande autor infelizmente ignorado. Como romancista, é autor de O Prazer e o Tédio e de Um Amigo Para o Inverno, duas narrativas de uma bravíssima melancolia — uma melancolia e um lirismo de que nunca se arrepende, o que revela uma grande coragem. O que eu aprecio bastante na prosa de José Carlos Barros é o conhecimento profundo das raízes, das montanhas, árvores, animais — bem como das penumbras que habitam o coração. O prémio Leya ganhou bastante em ser atribuído a este autor. 

Da coluna diária do CM.

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O antivacinismo como infantilização tardia.

por FJV, em 07.12.21

Quando era miúdo, apanhámos pela frente a campanha anti-tuberculose. Fomos vacinados e não podíamos matricular-nos na escola sem levar o carimbo do SLAT (Serviço de Luta Antituberculosa), o que levou a que a doença esteja hoje praticamente erradicada. Outras vacinas eram obrigatórias – para benefício creio que de todos. Fazer depender de um vago conceito de liberdade individual a opção sobre tomar ou não tomar vacinas contra a Covid-19, ser ou não ser vacinado contra o sarampo, parece-me um absurdo aceitável para os dias de hoje, em que a terra é plana, o 5G não passa de uma artimanha para tornar estéril a população masculina ou há uma conspiração sionista para tomar conta do universo. Sobre os “negacionistas” portugueses, não sei se acreditam que a terra é plana – são esganiçados demais para dizerem alguma coisa com sentido. Mas ao ver pela televisão os belgas, holandeses e austríacos, tenho sentimentos controversos; o apelo em defesa da liberdade contra as vacinas ou as medidas de proteção e cautela, representam uma espécie de infantilização tardia do nosso pequeno mundo.

Da coluna diária do CM.

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Mozart, tantos anos depois.

por FJV, em 06.12.21

Wolfgang Amadeus Mozart - Wikiwand

Ontem foi dia de música no CCB, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa – um dos Concertos de Brandenburgo de Bach, e a 5.ª Sinfonia de Schubert, respetivamente (pelo meio, duas peças Luís de Freitas Branco). Curiosamente, na história da música, entre as harmonias de Bach (1685-1750) e a monumental peça de Schubert (1797-1828), de uma delicadeza rara, fica o génio de Mozart (1756-1791), de quem ontem, justamente, passavam 230 anos sobre a sua morte, aos 35 anos. Não seria preciso um “ensino artístico” formal para que, uma vez por outra, as nossas escolas se preocupassem com a música, por exemplo – e levassem os alunos a ouvir W. A. Mozart, com ou sem solenidade. Acredito que alguns professores o façam; tive essa sorte, no meu velho liceu, onde o professor não se limitava a exercícios de “canto coral”, e nos surpreendia com discos a meio da aula. As “condições” eram piores do que hoje, mas ouvimos Bach, uma sinfonia de Beethoven, um pouco de Schubert. E Mozart, claro. Que pena as nossas escolas serem surdas – a Mozart e ao transcendente que ele nos obriga a respirar, 230 anos depois.

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Os forcados de garganta, contra as vacinas.

por FJV, em 03.12.21

Não sou como as pessoas intrépidas, cheias de nervo e prosápia, que continuam a proclamar a sua valentia e indiferença, encolhendo os ombros às cautelas diante da Covid. Lamento muito, mas tenho tanta coragem como medo. Perdi pessoas queridas devido à Covid-19; são minhas as dores, e não uma ocorrência estatística a enfrentar com a galhardia dos que dizem que 20, 30, 50, 100 mortos diários são uma ninharia. Não tenho esse heroísmo bravo, tomatudo e frio de fuzileiro à civil. É verdade que me acomodo; não evito fazer seja o que for, mas não exulto de alegria natalícia comparecendo aos jantares de amigos e de comemoração, às festas de rua ou aos ajuntamentos exagerados. Tenho tanta coragem como medo, e penso que a maior parte dos meus leitores também sofre do mesmo. Poupamo-nos para os dias que hão de vir? É verdade. Evito os outros, de quem sou próximo? Não, nunca o fiz. Agimos com cautela? É verdade. Como diz um amigo que, ao contrário de mim, gosta de provérbios: “Quando o fogo chegar ao rabo não culpem a palha.” Mas o pior de tudo, nisto como na vida, são os forcados de garganta.

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Festividades.

por FJV, em 02.12.21

A maltesa Helena Dalli é, caso não saibam, a comissária europeia para a Igualdade – cabe-lhe zelar para que os europeus se tratem de igual para igual, que mulheres e homens vivam em igualdade e, finalmente, que haja igualdade de oportunidades para todos. Seja como for, num documento oficial, Helena Dalli propôs que os europeus mudassem as suas línguas como se todas fossem iguais (tal como a oposição “ele/ela”, “hu/hi”, em maltês) – e, como se tivesse acabado de fumar substâncias duvidosas, acabar com o uso da palavra “Natal”, substituindo-a por “Festividades”. A ideia de que o uso de “Natal” é ofensivo não tem a ver com multiculturalismo; Natal é Natal. Um judeu não gostaria que o Hanukkah fosse substituído por Festividades, e o muçulmano não usaria esta palavra para Ramadão. Ou seja, estamos a pagar os delírios delinquentes de uma Comissão Europeia que, em vez de resolver questões como a vacinação ou os graves problemas colocados pela bandidagem bielorrussa, se dedica a exterminar o Natal. Parece que, entretanto, na ressaca, a comissária achou que era melhor retirar a proposta.

Da coluna diária do CM.

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O investimento na “arte contemporânea”.

por FJV, em 01.12.21

O que é a Arte Contemporânea? História, principais artistas e obras -  Cultura Genial

Talvez o grande momento de rebelião da arte seja aquele instante – como no caso de Banksy – em que a peça se autodestrói ao ser vendida num leilão. Mas o dinheiro está lá, poderosíssimo, e as peças de Banksy são um negócio brutal – essa peça auto-destruída foi vendida por 22 milhões de euros. Há quinze dias, a venda da coleção de um casal recém-divorciado rendeu cerca de 700 milhões em Nova Iorque – a maioria das peças eram posteriores a 1980, o que significa que o seu valor foi determinado pelo que escreveram certos “críticos”, “curadores”, “comissários” e investidores – um belo negócio para intelectuais com visão. Uma das companhias que negoceia em arte contemporânea, a Masterworks, abriu um fundo para investidores com mais de 100 mil euros, garantindo um lucro de 14% (a um ano), na compra de obras produzidas entre 1995 a 2020. Dinheiro gera ainda mais dinheiro, mesmo que seja sujo, como sempre, mas agora através de “obras de arte” que celebram o protesto contra o capitalismo e se transformam em objetos decorativos na sala de um oligarca ou de um banqueiro. Não há patife encartado que não entre no negócio.

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Ofender crianças adultas.

por FJV, em 30.11.21

A Universidade de Aberdeen, na Escócia, publicou, destinado aos seus estudantes, um guia com recomendações acerca de leitura de obras literárias. Vendo-os em ajuntamentos, nunca pensei que os pós-adolescentes precisassem de ser avisados de que, frequentemente, a literatura lida com raptos, traição e assassinato – mas é sobre isso que fala a direção da universidade, avisando os jovens incautos. Por exemplo, determinado romance de Robert Louis Stevenson (autor da ‘Ilha do Tesouro’) lida com temas como assassinato, morte, traição familiar e sequestro. Já sobre Júlio César, de Shakespeare, os jovenzinhos são avisados de que a história central é de assassinato mas que há cenas sexistas lá para diante. Em relação a Um Conto de Duas Cidades, de Dickens, a universidade alerta para cenas de violência. O resto do documento assinala outros tópicos que podem ofender os alunos, como parto, aborto e aborto espontâneo, representações de pobreza e classe, blasfémia, adultério ou abuso de álcool e drogas. Uma pessoa já não sabe o que há de dizer para não ofender as crianças adultas.

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Natalie Wood

por FJV, em 29.11.21

O mistério da morte continua. A última noite de Natalie Wood na HBO

A minha total inaptidão para apreciar musicais americanos leva-me a nunca ter visto West Side Story (1961), um clássico. Mas vi imagens do filme por causa de Natalie Wood (1938-1981) que nos deixou há quarenta anos, assinalados hoje. Temos, portanto, além das imagens, a sua aparição em Rebel With a Cause (Fúria de Viver, 1955), de Nicholas Ray, ao lado de James Dean; temo-la no gigantesco A Desaparecida, de John Ford (1956), partilhando a luz e a penumbra com um grande John Wayne; temo-la, finalmente, no seu deslumbrante papel de Deanie Loomis em Esplendor na Relva (1961), de Elia Kazan, ao lado de Warren Beaty – isto seria suficiente, acrescentando-lhe talvez A Flor à Beira do Pântano, de Sidney Pollack (1966). Retenho sobretudo Esplendor na Relva, onde Natalie Wood aparece plena maturidade e de brilho, o que se deve à constante perversidade de Elia Kazan e à personagem que Natalie interpreta. A sua beleza delicada e triste é como uma lembrança rara, para não falar dos versos de William Wordsworth que fecham Esplendor na Relva: uma beleza que ficou no passado.

Da coluna diária do CM.

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Stefan Zweig.

por FJV, em 26.11.21

Legionário, 1° de maròo de 1942, Comentando... Stefan Zweig

Subi duas vezes do Rio de Janeiro para a serra de Petrópolis, a fim de visitar a discreta casa onde viveu durante alguns anos, e acabou por morrer, o austríaco Stefan Zweig (1881-1942). Foi nessa casa que Zweig escreveu a Novela de Xadrez bem como as históricas páginas de O Mundo de Ontem, a autobiografia e recordações de um europeu. De origens judaicas, Zweig atravessou o início da I Guerra como um patriota germânico, mas foi como pacifista e – precisamente – europeu, compreendendo bem a natureza e o alcance do nazismo, que atravessou o Atlântico em 1940, primeiro para os EUA e depois para o Brasil, onde se suicidaria dois anos mais tarde, consumido pelo desespero e pela visão de um mundo submetido à vertigem autoritária. Biógrafo notável, romancista tenso e classicista, intelectual culto e pessimista, Zweig interpreta o ideal do escritor absolutamente comprometido com os seus livros (uma lista vastíssima), um misto de romancista, historiador, psicólogo, viajante, repórter e cronista cheio de intuição. No próximo domingo passam 140 anos sobre o seu nascimento em Viena.

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A propagandista.

por FJV, em 25.11.21

A severidade da pandemia e dos acontecimentos, a agressividade de um vírus desconhecido: nada disso alterou o discurso da ministra da Saúde, que teve um dos trabalhos mais ingratos nestes dois anos. Temos de lhe dar um desconto; não foi fácil. Naquele posto, tanto poderia reunir os cidadãos à sua volta como cair na tentação da propaganda e da colheita de benefícios políticos. São dois extremos; a ministra preferiu inclinar-se para a segunda das escolhas. Não lhe podemos atribuir responsabilidade pelos 20 mil mortos e pela tormenta que atravessamos – mas devemos exigir-lhe contenção depois de sucessivas decisões erradas (algumas, dramáticas) e da estratégia desorganizada que comandou. Teve a seu favor conferências de imprensa dóceis onde jornalistas deslumbrados pelo seu acento a deixaram brilhar como um objeto de culto. Ontem, com 4 mil novos infectados e mais 17 mortos, a ministra ocupou-se da situação calamitosa dos hospitais, e decidiu comunicar-nos que era melhor vacinar e contratar médicos “mais resilientes”. Foi triste e arrogante. É uma simples propagandista. Tudo lhe correrá bem.

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O Dr. Rendeiro ou porque está o país transformado num manicómio.

por FJV, em 24.11.21

Ao contrário do que se disse, o país não ensandeceu. O facto de uma parte dele ter paralisado – até de riso – ao assistir à entrevista em que João Rendeiro pediu um indulto, não significa que o país tivesse “perdido o juízo”, porque isso já aconteceu há muito. A pobre e abjeta endogamia lusitana dá nisto. O primeiro-ministro disse-o de forma elegante numa entrevista recente: “Ninguém está livre de ter um criminoso ao seu lado.” A frase tem sentido, porque Portugal é um país onde a classe dirigente se reproduz em rede, e onde há sempre um primo cruzado com um diretor-geral, e com um presidente de qualquer coisa, que por sua vez se cruzou com um banqueiro que se transformou num colecionador de arte ou num trampolineiro – é o desenho da nossa promiscuidade. Tanto melhor se tiver “a cultura” para limpar o currículo, porque a aura das artes cresce nos toutiços desta gente. Não há coisa que me meta mais impressão. Que o Dr. Rendeiro seja substituído, no coração de alguém, por três singelas cadelinhas – é coisa que me maravilha ao ponto de me pôr a chorar. Pelo país, naturalmente.

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Dexter.

por FJV, em 23.11.21

Por que é que a série Dexter era tão saborosa de ver? Porque jogava com todos os interditos: em primeiro lugar, o sangue (na polícia de Miami, Dexter era especialista em analisar salpicos de sangue em cenas de crime); depois o desejo de fazer justiça onde a justiça não podia atuar (e sempre com um compromisso ético, ou seja, Dexter precisava de provas, só mata quando é absolutamente seguro que a vítima é um homicida); depois, ainda, o risco de ser descoberto pelos próprios colegas ou pela família (é um jogo no fio da navalha, o da heteronímia); finalmente, a voz off de Dexter, uma corrente contínua de tensão e consciência, elementos fundamental da série. A nova temporada (na HBO, ainda só estão disponíveis três episódios) não é, afinal, uma nova temporada – é uma nova série, New Blood, novo sangue. O cenário já não é Miami mas uma pequena cidade no interior do estado de Nova Iorque, onde Dexter mudou de nome (é Jim Lindsay) e namora com a chefe de polícia local. Há donuts, como antes, mas os mistérios da paternidade visitam-no de novo. Estou pendurado no crime, semana a semana.

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António Osório.

por FJV, em 22.11.21

Tudo o que se disser sobre a poesia de António Osório (1933-2021), que morreu na passada quinta-feira, há de repetir o refrão essencial: o de que a sua obra é uma espécie de regresso ao desejo de pureza, à tranquilidade das suas imagens e a uma ecologia básica que Osório transformou numa pesquisa sobre a beleza. Advogado, ensaísta, sociólogo (recomendo o seu inesquecível e sempre atual livro sobre a mitologia fadista, de 1974), um cavalheiro como já não há e já não havia, António Osório foi um poeta raríssimo que escreveu na contracorrente, avesso aos modernismos e ruídos que aborreceram a poesia. Uma simplicidade comovente, era isso que ele desejava para a sua poesia: “Meus versos, desejo-vos nas bibliotecas/ itinerantes, gostaríeis de viajar/ por aldeias, praias, escolas primárias,/ despertar o rápido olhar das crianças,/ estar nas suas mãos/ completamente indefeso/ e, sobretudo, que não vos compreendam./ Oxalá escrevam, risquem, atirem no recreio/ umas às outras como pélas os livros/ e sonhem, se possível, com algum verso/ que súbito se esgueire pela sua alma.” Leiam, por favor.

Da coluna diária do CM.

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Philip Roth e um ser humano.

por FJV, em 18.11.21

Pedi o livro mal foi publicado nos EUA, o que foi uma saga: Blake Bailey, o autor da monumental biografia do monumental Philip Roth (1933-2018) foi brutalmente espancado pela imprensa e meios universitários depois de terem aparecido acusações de má conduta sexual – até a sua editora ter decidido retirar o livro das prateleiras. Felizmente apareceu outra; e, felizmente, o livro está já traduzido em português, o que é uma boa oportunidade para, lendo-o, conhecer “o outro lado” de Philip Roth: as suas paixonetas e paixões, as embirrações secretas, as manobras para limpar a biografia, as rivalidades, a capacidade de trabalho, a família, os deslizes e, claro, lá está, “o problema do Nobel” que nunca veio (a academia sueca é uma enxerga de gente aborrecida e inútil), e que se transformou numa obsessão tão ausente como presente. Roth era um escritor notável (por livro percebe-se que às vezes se julgava o melhor de todos, o que se lhe desculpa). Só uma biografia igualmente notável podia fazer-lhe justiça e ler-se do princípio ao fim como se estivéssemos ao corrente de tudo. Que maravilha.

Da coluna diária do CM.

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