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Queimar livros em nome de um pais mais inclusivo.

por FJV, em 10.09.21

A província do Ontário, no Canadá, é a terra de Alice Munro, Prémio Nobel da Literatura, ou de Margaret Atwood, que podia ter sido. Mas também é a terra onde em 2019 – só se soube agora – foram retirados das bibliotecas cerca de 5000 obras “que perpetuam estereótipos” e são hoje consideradas moral ou politicamente incorretas, incluindo álbuns de Tintin, Astérix ou Lucky Luke, além de muita ficção indiscriminada e enciclopédias. Para assinalar a bela ideia, o Conselho Escolar Católico Providence, que agrupa 30 escolas, organizou mesmo uma “cerimónia de purificação pelas chamas”, queimando alguns livros “que têm imagens negativas de povos indígenas”. O que se obteve em troca? Enterrar “as cinzas do racismo, da discriminação e dos estereótipos” a fim de caminhar “para um país mais inclusivo”. A responsável pelo festim acrescentou, otimista: “As pessoas entram em pânico e ficam chocadas com a queima de livros, mas estamos a falar de milhões de livros que são realmente condenáveis e perigosos.” É uma ideia e tanto. Mas, infelizmente, já não caem picaretas do céu quando precisamos delas.

Da coluna diária do CM.

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Pagamentos.

por FJV, em 09.09.21

Por contrato, o futebolista Neymar vai receber cerca de meio milhão de euros mensais para não ser antipático com os adeptos do PSG, a quem deve mostrar “cortesia, pontualidade, amizade e disponibilidade”. Em resumo, Neymar recebe 6 milhões anuais só para não ser antipático nem discordar – em público, pelo menos – da direção do clube. Outro negócio bem menos vistoso está a ser feito em São Francisco, na Califórnia: o município vai passar a pagar 300 dólares por mês a potenciais delinquentes (que se devem inscrever e ser entrevistados) para não cometerem crimes com armas de fogo. John Smith, imaginemos, abster-se-á de atingir a tiro um concidadão, recebendo em troca 300 dólares através de um cartão de compras. Ideias novas e arriscadas são sempre absurdas à primeira vista, mas não parece haver muitos californianos pacíficos a quererem fazer-se passar por pistoleiros só para receberem uns dólares. Já no caso de Neymar, que é um rapaz simpático, ele fingiu ser antipático para que o clube lhe pague seis milhões para fingir ser simpático. Por 300 dólares nem uma perna levanta.

Da coluna diária do CM.

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Deixar “que o lamento cesse”.

por FJV, em 08.09.21

Acredito que dor maior talvez não exista – que a de perder um filho. Revivi, de longe, o luto e a perda de outros pais, mas nunca conseguiria falar do que isso significa. Fazer “literatura” sobre o assunto seria uma tentação poderosa porque pensamos resolver tudo com as palavras – esquecendo que elas perdem o sentido em determinadas circunstâncias. Foi por isso que assinei a petição da Associação Acreditar (e convido todos os leitores a fazê-lo em https://www.peticaolutoparental.com/) para aumentar o período de luto pela morte de um filho para 20 dias consecutivos (em vez dos cinco atuais) e concordei com as palavras do João Bragança, que a promove: “Em cinco dias faz-se o imediato, o urgente, tantas vezes o burocraticamente inadiável.” O resto é impossível de contabilizar e de colocar num calendário. Tanto sofrimento, tanta falta de sentido, tantas coisas que não se fizeram. Quando Séneca escreve a sua Consolação pede a Políbio que um dia deixe “que o lamento cesse”. Mas isso demora; quando se perde um filho perde-se quase tudo. Ou mais que tudo. Por isso assinei esta petição.

Da coluna diária do CM.

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Belmondo.

por FJV, em 07.09.21

Uma pessoa diz: um dos meus rostos preferidos, o de Belmondo – cómico, sério, patife, vagabundo, melancólico, triste, divertido. Que cara ele tinha. E que filmes (isso explica que estivesse sempre na lista de realizadores como Renoir, Truffaut, Vittorio de Sicca, Resnais, Melville, Godard, Lelouch). Volto ao rosto de O Acossado (À bout de souffle, 1960), de Jean-Luc Godard, onde tem a companhia de Jean Seberg num filme que funciona como um emblema do novo cinema francês dessa grande década; ou a Pierrot, Le Fou (1965, do mesmo Godard). No meio do chamado “cinema comercial” (uma designação muitas vezes injusta), não é possível esquecer Borsalino, onde faz dupla com Alain Delon. Há belezas estranhas e duradouras no cinema, e Jean-Paul Belmondo é por certo uma delas, mas inesperada e contraditória, tanto quanto o seu rosto e tanto quanto a sua voz. Talvez por isso, em Duas Mulheres. La Ciociara (1960), que é um filme amargo, de Vittorio de Sicca, Belmondo quase se escondia atrás de Sophia Loren, que encarna aquela imperdível beleza impura. A sua morte é também o adeus a uma era.

Da coluna diária do CM.

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O ‘ativismo’ vigilante.

por FJV, em 06.09.21

Há coisas que, talvez por causa da idade e da falta de paciência para coisas estapafúrdias, já não discuto – e sobre as quais não tenho opinião senão a de que há no livro da vida um capítulo designado “escolhas individuais”. Entre elas estão as opções sobre religião ou sexo. Tudo o resto é vida em sociedade. Portanto, é-me indiferente, para efeitos práticos, que Paulo Rangel seja gay ou heterossexual. Tão indiferente que nunca necessitaria de explicações – mas as que Rangel entendeu dar são de uma tal elegância e civilidade que podem bem acrescentar ao perfil do homem político uma dimensão humana e inteletual apreciável, exemplar e a respeitar. Não o acham assim os ativistas de esquerda para quem não há nenhuma “opção individual” que não suponha uma “opção política”. Assim, só poderá ser gay quem é de esquerda e alinha na agenda política do ativismo LGBTQI. Este ‘ativismo’ vigilante anda de braço dado com o reacionarismo mais extremo: exercem chantagem, detestam a liberdade e a autonomia individuais, odeiam os espíritos livres. É por isso que Paulo Rangel deu uma lição importante.

Da coluna diária do CM.

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Prestar contas.

por FJV, em 03.09.21

Já estou, digamos, a terminar a leitura do livro de memórias de Francisco Pinto Balsemão (Porto Editora). São mil páginas de interesse muito desigual. Teria de ser. De vez em quando, percebe-se a sua sensibilidade para o ínfimo detalhe (sobretudo quando quer dar uma alfinetada, recorda-se de um pequeno pormenor que nos faz sorrir); de vez em quando, abusa desses pormenores; de outras vezes, sobrevoa os acontecimentos e não se detém em momentos cruciais – mas esta é a sua memória do seu tempo, a forma como leu a passagem dos anos e das mudanças, como se recorda dos outros (e quem recorda ou quem esquece), como ajusta contas (porque há sempre contas a ajustar), como corrige um episódio ou como pretende ser recordado por nós, seus leitores. Mas isso é outro tema. Precisamos de mais livros de memórias portuguesas; pessoas que desempenharam papéis de destaque na vida pública devem-nos esse testemunho; não é sinal de vaidade ou egocentrismo; pelo contrário, é uma espécie de “prestação de contas”, um legado para a nossa memória comum – ou, até, a continuação do debate por outros meios.

Da coluna diária do CM.

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O Museu Romântico do Porto.

por FJV, em 02.09.21

A alteração do interior do Museu Romântico do Porto, instalado na Quinta da Macieirinha, foi anunciada como um dia de glória: “O espaço despiu-se dos adereços de casa burguesa oitocentista e vestiu-se de contemporaneidade.” Esta é uma tendência geral de alguma da nova museologia – ou centrar-se na “contemporaneidade”, ou associar-lha como uma espécie de “relação indispensável”. Basicamente, é como se não pudéssemos ver Rembrandt sem lhe estabelecer uma relação com o nosso tempo, como se não pudéssemos ver Soares dos Reis sem o confrontar com a escultura de hoje, ou como se não pudéssemos visitar um Museu Romântico oitocentista sem o povoar de arte contemporânea. Este horror à História e à contemplação do passado é uma marca das “burguesias cosmopolitas”, muito dadas às artes “decorativas” e “contemporâneas”. Julgando-se o centro do mundo, despovoam-no da passagem do tempo. Justamente, o que caracteriza o tão “fora de moda” Museu Romântico é ser uma “casa burguesa oitocentista”, longe da contemporaneidade e da sua lógica. Os protestos contra esta mudança têm toda a razão de ser.

Da coluna diária do CM.

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As coisas são como são.

por FJV, em 01.09.21

Muito mais do que “alhear-se da realidade”, “indiferença” é ter a nítida impressão de que tudo vai ser igual. Recomendo que se leiam três dos números que sobressaem dos barómetros CM/Intercampus da semana. Há cerca de 60% de portugueses que, independentemente da inclinação do seu voto, acham que as eleições deste mês têm um vencedor antecipado. Serão os mesmos 64,5% de portugueses que duvidam da eficácia transformadora da “bazuca europeia” (uma designação desprezível)? Ou os mesmos 60% que consideram que o dinheiro dos novíssimos fundos europeus vai beneficiar sobretudo quem tem boas ligações ao poder político? Poderíamos pensar que esta maioria absoluta da opinião pública mostra a enorme resignação a que se chegou, bem como a natureza da própria indiferença nacional, que diz até que ponto se pode capitular por falta de fé nos homens e nas instituições. Mas convém apreciar o cinismo da amostra: recapitulando a história do último século, os portugueses mantêm-se na sua – não se deixam levar facilmente e acham que as coisas são como são, duvidando da bondade humana e das suas promessas.

Da coluna diária do CM.

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Uma crónica é um escritor sentado sobre o tempo.

por FJV, em 31.08.21

Uma crónica precisa de espaço. Tem princípio, meio – e de vez em quando terá final. Releio, saltitando, as crónicas de António Lobo Antunes (As Crónicas, Dom Quixote) e vejo como aqueles textos precisam de respiração. Ainda bem que estas foram escolhidas e reunidas em novo livro, retiradas de cinco livros anteriores. Há, em quase todas, um vagar que comove; poucas devem ter sido escritas com isto de estar preso à realidade – algumas, as menos pessoais, podem ser parte de um romance, um esboço de personagem, o desenho a lápis de uma casa, o eco de uma conversa, a recordação de um miúdo doente, da filha que acaba o namoro ou de um velho que não aprendeu a calar-se. Lobo Antunes escreve as crónicas e manda-as respirar, “que respirem agora”, e elas respiram. São retratos. São disputas sobre o espaço em redor; às vezes pequenas lições de arquitetura, de outras vezes pautas onde uma música começa a ouvir-se, ou apenas as primeiras gotas de uma chuva de verão. Para lê-las precisamos também de respirar. Nada de pressas, nada de sofreguidão. Uma crónica é um escritor sentado sobre o tempo.

Da coluna diária do CM.

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O passado é uma ameaça.

por FJV, em 30.08.21

Não sei se conhecem Ryan Tedder; eu também não conhecia. Trata-se do autor de vários hits dos últimos 20 anos, interpretados por Paul McCartney, Beyoncé, Adele, Ed Sheeran ou Taylor Swift e escuso de explicar mais. Ele queixa-se (veio na imprensa britânica) de que todos os dias há cerca de 60 mil novos temas a serem incorporados no Spotify e que isso é uma ameaça aos novos músicos e autores de pop. Este é um mundo que me ultrapassa, mas parece que na lista dos discos mais vendidos em 2021 apenas quatro álbuns são novos e quem ganha são Queen, Abba, Oasis, Elton John ou Fleetwood Mac. A tendência não é de agora: há três anos, os álbuns mais vendidos eram dos Queen e dos Beatles. Isto preocupa muito os produtores musicais, que foram ouvidos no parlamento e se queixaram amargamente de os novos músicos terem de competir nas plataformas de streaming com Frank Sinatra ou Bob Dylan, uns empatas que não saem do ouvido. É um pouco como se nos queixássemos da abundância de livros nas bibliotecas por impedirem o aparecimento de mais autores. Quem diria que Eça e Cervantes ainda se lêem. 

Da coluna diária do CM.

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Cesária.

por FJV, em 27.08.21

Um funeral cabo-verdiano é coisa de nota. E o de Cesária, há dez anos, não podia ser diferente, no meio daquele calor fatal do Mindelo, ilha de São Vicente. Depois de sair da igreja, o desfile teve vários quilómetros, parando aqui e ali, ao longo das ruas, para ouvir alguém cantar – amigos de sempre, cantores de agora, recordações que ficavam. Mas, além de cantar e de tocar, havia quem bebesse (muito), quem chorasse, quem trauteasse apenas, em surdina, uma das suas canções. Não fiquei para a noite, que foi longa, celebrando a memória de Cesária. A “rainha da morna” (com perdão dos outros géneros que Cesária Évora cantou) merecia todas as homenagens – e hoje, que passam 80 anos sobre o seu nascimento, a recordação da sua despedida é agora amável e tranquila. Ao lado de vozes como Bana ou Ildo Lobo compõe uma espécie de trio amoroso de Cabo Verde. Se B. Leza tivesse vivido mais tempo, decerto teria escrito para ela, tal como o próprio Eugénio Tavares – mas a forma como Cesária cantou os poetas e o mar azul de Cabo Verde faz supor que cantou por todas as vozes do arquipélago. 

Da coluna diária do CM.

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A feira do livro.

por FJV, em 26.08.21

Abre hoje a Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Durante três semanas será uma espécie de grande livraria a céu aberto, onde podemos ir comprar o que nos escapou ao longo de um ano atribulado – e deixar a nossa homenagem ao livro em si mesmo, ou seja, aos valores que fazem de nós pessoas com uma civilização, um alfabeto, uma língua e uma memória. Podemos pensar nos chineses que inventaram os caracteres móveis, bem como a tinta e o papel (coisas que têm, portanto, mais de mil anos); nos romanos que alimentavam a sua ambição política fundando bibliotecas (imagine-se a diferença em relação a hoje!); nos papiros que foram destruídos em Alexandria; nos antigos livreiros que conheciam cada título que vendiam nas suas lojas; em Cervantes, Eça ou Shakespeare; no velho cheiro de chumbo e tinta que pairava sobre as páginas de um livro acabado de imprimir. Essas imagens, esses nomes e essas memórias fazem-nos humanos. Emprestam-nos o dom da palavra, que é flutuante como a vida. Em certos recantos da Feira, esse dom estará presente durante estas semanas. Flutuando como poeira.

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São Paulo revisto e modernizado é que era.

por FJV, em 24.08.21

 Portanto, segundo creio, levantou-se um sururu. A ideia de que um texto escrito em meados do século I (S. Paulo escreveu na década de 50 ou 60) atravessou 2000 anos transportando uma “verdade literal” é absurda – sobretudo porque Paulo escreveu para o seu tempo e não para o mundo que havia de vir. São seus os primeiros textos do cristianismo, em grego, anteriores aos próprios Evangelhos que narram a vida de Cristo. Nesta matéria há sempre duas decisões absurdas: a de seguir literalmente as “propostas de vida” ou “leis” dos livros da Bíblia, como se a História tivesse sido suspensa até hoje – e a de criticar essas propostas à luz do nosso tempo, como se o passado existisse em função de nós. Pior ainda é quando, no afã de alargar a mensagem cristã, se treslê o texto bíblico (“Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio.”) para colocar autores de há vinte séculos como “precursores da igualdade de género” – conceito que não existia, porque é uma criação da humanidade que procura melhorar, tal como ao cristianismo coube também fazer, mesmo em relação às mulheres. Este confronto entre dois absurdos não produz um debate mas um combate de surdos, como convém à berraria. Acontece que S. Paulo, que teve uma vida extraordinária, é um autor maravilhoso, apocalíptico, profético, radical, vivendo sobre perguntas tão complexas como o seu tempo. Não pensava como nós; nós não pensamos como ele.

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Toma lá, Shakespeare.

por FJV, em 23.08.21

Como o nome indica, o teatro Globe, em Londres, dedica-se a representar a obra de William Shakespeare. A nova produção de Romeu e Julieta não quer não ferir a sensibilidade dos espectadores. Assim, no programa há vários avisos (cito do folheto): “No final, quando Romeu bebe veneno, e o ator vomita e entra em convulsões. Isso não é real – e não, o ator não está ferido.” Ou: “Há uma luta no palco. A violência, no entanto, não é real e não deve ser imitada. Há sangue no palco – mas não é real.” Os responsáveis dizem que as pessoas são facilmente impressionáveis e, como “ativistas” de “saúde mental”, querem acautelar os espectadores mais impressionáveis. Ou seja, dizer-lhes que as tragédias de Shakespeare têm, por exemplo, tragédias – e que há histórias de amor que terminam mal. O mundo está infantilizado com esta gente. Provavelmente, quando representarem Júlio César dirão não querer ofender pessoas que se traumatizem com assassinatos e, com Hamlet, avisarão que a aparição, em sonhos, de um velho rei morto não é real e não deve ofender pessoas com pesadelos. Pobre Shakespeare.

Da coluna diária do CM.

 
 

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Lorca.

por FJV, em 19.08.21

Parece seguro que o poeta Federico Garcia Lorca terá sido fuzilado nas colinas da serra de Alfaguara, Granada, na madrugada de 18 de agosto de 1936 – passam hoje 85 anos – por um bando franquista, ou seja, logo no início da sublevação contra a República. Acusações: homossexualidade, espionagem para a URSS e, naturalmente, estar do outro lado da barricada. Foi uma das primeiras e numerosas vítimas da guerra civil espanhola, e a sua morte mancha para sempre a história do país. Poeta maior do século XX, recordaremos de Lorca (1898-1936) a beleza da sua poesia, sempre em busca de raízes na natureza, de amor e de uma espécie de concordância com a música (está traduzida em português, nomeadamente por José Bento, mas também Eugénio de Andrade e Vasco Graça Moura). Dramaturgo, é autor das Bodas de Sangue, de A Casa de Bernarda Alba, Yerma ou Dona Rosita, a Solteira, ou a Linguagem das Flores, todas de primeira linha. Toda a sua obra é um pilar da sensibilidade e da harmonia espanhola – e a sua morte é um acontecimento trágico de que provavelmente Espanha ainda não recuperou.

Da coluna diária do CM.

 
 

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A borboleta afegã.

por FJV, em 19.08.21

A história do Afeganistão repete-se com uma regularidade assustadora. Depois da ocupação britânica (descrita por Eça de Queirós), da soviética (que marcou o fim do império mal os tanques regressaram a casa) ou da americana (que mostra os EUA consagrados aos seus interesses mais próximos), o Afeganistão volta ao ponto de partida: um enorme território controlado pelo fanatismo local e namoriscado pelos inimigos do “Ocidente” (a Rússia e China à cabeça). Como em política externa não há valores, mas interesses – como ensina a História –, o Afeganistão nas mãos dos talibãs é uma espécie de ‘caso perdido'. O problema é que, para a “consciência ocidental”, que julgava arrumadas essas questões depois de encerrados os capítulos do Estado Islâmico e dos atentados terroristas na Europa (a imprensa fecha os olhos ao que acontece em África), e de limitada a pandemia, o mundo vai agora passar por uma nova e inesperada desorganização. Como geralmente não sabemos como vai ser o futuro e somos ignorantes em relação ao passado, o bater de asas de uma borboleta em Cabul vai sentir-se por todo o lado.

Da coluna diária do CM.

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Walter Scott, ainda alguém se lembra?

por FJV, em 15.08.21

Hoje, já ninguém lê Walter Scott (1771-1832) – e, provavelmente, poucos se lembram do seu nome. Talvez se recordem de alguns filmes que povoaram o preto e branco da televisão (Ivanhoe deu para tudo), ou da ópera de Donizetti, Lucia di ​​Lammermoor, inspirada por um dos seus livros. Mas, ao longo do século XIX, foi um dos autores mais populares pela Europa fora. Marx apreciava-o bastante (apesar de Scott ser conservador – mas Balzac também o era) e influenciou obras, personagens e estilos de autores tão diferentes como Júlio Verne, Emilio Salgari ou o nosso Alexandre Herculano. Como uma sombra, é referido por todos – mesmo pelos que nasceram com as suas leituras e depois o desprezaram. Beethoven, Schubert ou Berlioz adaptaram poemas seus – mas Ivanhoe, Rob Roy ou O Espelho da Tia Margarida tiveram uma longa vida nas edições portuguesas. Reavivou o interesse pela história medieval escocesa e pela própria Escócia. Scott foi o emblema do chamado romance histórico. Passando hoje 250 anos sobre o seu nascimento, recordemos o pai do interesse iluminista pelo passado.

Da coluna diária do CM.

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Tomate coração-de-boi.

por FJV, em 13.08.21

Se esta crónica tivesse título, a de hoje seria “elogio do tomate coração-de-boi”, com hífens à antiga portuguesa. Normalmente, há um festival do tomate coração-de-boi na Folgosa, à beira do Douro (foi adiado para 2022) – a última edição foi ganha por uma quinta de Jerusalém do Romeu, na Terra Quente transmontana – os concelhos de Moncorvo, Foz Côa, Armamar, Vila Flor, Mirandela, Macedo, Carrazeda ou São João da Pesqueira têm as melhores prestações. O tomate coração-de-boi não deve ser comprado em supermercados, onde se parece com uma bolsa pastosa e farinhenta produzida em estufa: precisa de calor do sol, de espaço e de água, e tem de ser procurado nos mercados e nas feiras de rua, ou nos produtores sérios. Suculento, ligeiramente sumarento, é uma espécie de “carne da horta”, um dos produtos mais nobres do verão português. Ontem, na minha terra (no Pocinho, na Taberna da Julinha), comi um, magnífico: apenas com azeite e grãos sal, cortado aos gomos, sem mais nenhum tempero, e com bom pão por companhia, é um festival inteiro. É o meu elogio para esta sexta-feira.

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Cantinflas.

por FJV, em 12.08.21

O primeiro filme que vi numa sala de cinema (antes, na minha aldeia, os filmes eram projetados numa parede branca do adro da igreja) foi A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, para seguir as façanhas heroicas de William Holden e Alec Guinness. O segundo foi Cantinflas, o Professor, com Mario Moreno. Minto; era com Cantinflas, propriamente dito – recordo que era a história de um professor desastrado e apaixonado, que metia dó ouvir dizer barbaridades de que todos ríamos na plateia. Cantinflas foi sempre assim: desastrado, apaixonado, a dizer coisas que faziam rir; uma personagem única do cinema, vinda do México desses anos 40 e 50, representando aqueles a quem o próprio Cantinflas roubou os tiques: os pobres, os que tinham de enganar a fome e de ludibriar os poderosos, os bem falantes (por isso ele é tão trapalhão, rindo-se deles e obrigando-nos a rir). Ganhou um Globo de Ouro com A Volta ao Mundo em 80 Dias, ao lado de David Niven, a incursão de  Mario Moreno (1911-1993) em Hollywood. Passam hoje 110 anos sobre o seu nascimento. Ficam aquele bigode, o riso e o ar trapalhão.

Da coluna diária do CM.

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O Brasil cansa.

por FJV, em 12.08.21

O Brasil cansa. Mas devia ser uma lição – é o retrato de um país que, para escolher uma expressão local, podia “dar certo”. Mas, tirando períodos muito raros e especiais (como o da recuperação económica e modernização do Estado, protagonizado por Fernando Henrique Cardoso, 1995-2003), não deu. Produziu um grupo de ricos e poderosos e uma multidão assustadora de pobres, políticos corruptos e imprestáveis, juízes de asilo, regionalistas reacionários e tribais, populistas abjetos – o último deles, Bolsonaro, transformou-se rapidamente numa espécie de asno encartado, obtuso e absurdo (como tudo prometia). O mesmo país onde vivem ou viveram Chico Buarque ou Amado, Érico Veríssimo ou Tarsila do Amaral, Niemeyer e Portinari ou João Gilberto e Jobim, tanto como heróis loucos e trágicos à medida de Getúlio Vargas ou o seu imperador triste, assistiu ontem à ameaça de um desfile militar em Brasília, uma coisa estranha e desusada em democracia. Mas o Brasil conseguiu reunir, sem espanto, uma esquerda anquilosada e uma canalha reacionária e populista. A beleza do país não merece este destino desafinado.

Da coluna diária do CM.

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