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Portugal tem de pertencer à mesma gente e geração de sempre?

por FJV, em 29.01.19

Houve grande burburinho por causa da nomeação do portalegrense João Miguel Tavares como presidente da comissão organizadora do próximo 10 de Junho; a indignação foi pífia e resume-se a uma espécie de “ele não pertence ao nosso grupo”, acrescido de “só os nossos podem comandar o 10 de Junho”. Por princípio (a data tem uma carga simbólica importante, mas não me comove ao ponte de assistir aos desfiles), não tenho nada contra os anteriores nomeados; mas esta reação contra JMT revela mais do que água no bico: um segregacionismo classista muito típico da política, da academia e do incesto social a que o país se entrega. A ideia de que as comemorações pertencem à mesma gente e geração de sempre (tal como o regime tem os seus proprietários e capatazes comanditados, formados na mesma universidade e frequentando as mesmas amizades) é reveladora do quanto a nomeação de JMT chocou aquelas almas. Pode o país dos priminhos suportar isto? Pode, claro – mas com um nó na garganta inflamada de tanto despeito. A nomeação de JMT foi, por isso, importante para todos. Oxalá faça bom trabalho.

Da coluna diária do CM.

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O tom de pele.

por FJV, em 28.01.19

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O tom de pele do primeiro-ministro (PM), que o próprio invocou no parlamento, não me incomoda; pelo contrário, enobrece-me como português. Porque, ao contrário de sociedades onde o racismo foi lei escrita e onde o debate sobre “a raça” é hoje uma obsessão justicialista, nunca se levantou “o problema” da origem índica do PM. Os meus ancestrais, por exemplo, não vêm dos Ibn Egas do sul, mas com toda a probabilidade do leste iraniano ou indiano, nomeadamente; eram gente que atravessou meio continente em caravanas mantendo o tom da pele, de que me orgulho. O problema não é o do tom da pele, aliás – há “castas sociais elevadíssimas” com o tom de pele do PM, tão racistas, supremacistas ou plebeias (na verdade, são as mais racistas e segregacionistas, como sabemos) como a dos eslavos, dos khazares ou dos chineses. Inventar um problema de tom de pele é inteligente, mas para idiotas. É como se disséssemos que o PM respondeu daquela forma exaltada à líder da oposição no parlamento porque ela era mulher e porque, ao seu lado, na bancada, tinha um deputado negro. Mas não vamos dizer isso.

Da coluna diária do CM.

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Venezuela, os dias do fim.

por FJV, em 25.01.19

O regime caudilhista e populista de Hugo Chavez (“socialismo do século XXI”, como teorizou o alemão Heinz Dieterich Stefan, o seu inspirador e assessor até 2007) entrou em ruína há muito tempo, depois de ter transformado a Venezuela num salão de festas onde tocava uma orquestra de doidos que roubava o que podia e desafinava com obstinação (o segundo maestro dessa orquestra, Nicolás Maduro, era o doido mais aplicado e parlapatão) e à vista de todos. Não apenas transformou a Venezuela num país pobre e humilhado como instituiu a censura, a perseguição política, a pobreza, o militarismo e o roubo, com apoios ideológicos patetas de europeus que gostam de brincar ao socialismo. Aquilo a que estamos a assistir no país não é motivo para festejos, a menos que Maduro saia pelo próprio pé – para ser recolhido num reformatório cubano ou russo, cheio de ex-leninistas, ex-trotsquistas e um fantasma sonâmbulo de Bolívar. Até lá, com os EUA de um lado e a Rússia do outro, além de um país empobrecido e um povo cansado (que precisa de apoio humanitário), tem tudo para correr mal. Oxalá me engane.

Da coluna diária do CM.

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O caso do Bairro da Jamaica.

por FJV, em 24.01.19

Volto ao tema de ontem – o caso do Bairro da Jamaica – mas não para comentar as declarações trapalhonas (apressadas e imbecis) de Joana Mortágua e de Mamadou Ba, às quais voltarei. O que é assustador é que os oficiais do regime continuam a debater a questão do racismo quando o problema é sobretudo o da pobreza e da degradação. Percebe-se muito bem que o PCP tenha dito que não quer “alimentar a intranquilidade” porque o seu município-bandeira, o Seixal (44 anos na câmara), mantém a vergonha de Vale de Chícharos, ou Jamaica. A história do bairro é lastimável. A sua origem é criminosa. Tem pelo meio as palavras ‘abandono’, ‘gueto’, ‘miséria’ e ‘marginalização’. Foi para lá que enviaram e se refugiaram os negros – e, na penumbra (porque o Estado ali não entra a não ser de capacete), toda a espécie de criminalidade. Entretanto, o bairro vive naquelas condições, o que nos deveria envergonhar a todos, mas sobretudo a autarquia; com tanto lerolero, já devia ter sido demolido e encontrada uma solução para os seus moradores. Não é preciso pensar muito para ver que é a única hipótese.

Da coluna diária do CM.

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O Bairro da Jamaica.

por FJV, em 22.01.19

Os ‘acontecimentos’ no Bairro da Jamaica, no Seixal, reduzem-se hoje aos confrontos entre a polícia e alguns dos seus moradores – mas não deviam. Quando Bruno Vieira Amaral publicou o romance As Primeiras Coisas (2013), centrando a ação no ‘Bairro Amélia’ (no Vale da Amoreira, Moita), o “país literário” descobriu – maravilhado – o mundo cercado dos subúrbios de Lisboa na Margem Sul que não era a futura chique Lisbon South Bay. Também podiam ter ido aos bairros da Bela Vista, em Setúbal, ao Pinheiro Torres, no Porto, ou ao 6 de Maio, na Amadora. Estes bairros, entre outros, são identificados como “problemáticos”, o que é uma designação cretina – como se os seus habitantes estivessem destinados a “causar problemas”, quando o problema mais sério é o de um país em que o Estado se ausenta dos lugares onde deve estar, para providenciar segurança para todos. Mas também para impedir que a pobreza e a discriminação cresçam de mãos dadas, uma na sombra da outra. A ninguém ocorreu, nestes dois dias, que o verdadeiro problema é o da necessidade de acabar com esses bairros e a sua degradação?

Da coluna diária do CM.

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Quem pôs a mão na Caixa?

por FJV, em 22.01.19

Joana Amaral Dias revelou, no domingo à noite (na CMTV), o relatório preliminar da auditoria à Caixa Geral de Depósitos. Não sei se assistiram. Vale a pena. Com a leitura suplementar do livro de Helena Garrido, Quem Pôs a Mão na Caixa? A História que Envergonha o País (Contraponto), são dois documentos importantes para compreender o Portugal contemporâneo e a forma como 1200 milhões de euros (além de outras centenas de milhões de permeio) se evaporaram entre favores, violação das regras de concessão de crédito, jogos de risco e outras irregularidades. Confirma-se que parte do empresariado lusitano vive não só à sombra do Estado mas de conluio obsceno com os incumbentes de ocasião. Trocam favores, claro; mas também casamentos, conveniências e perdas de juízo – uma endogamia perfeita, protegida por vários segredos cujo conhecimento envergonharia toda a gente. A história do banco público é parte dessa vergonha milionária. No entanto, se o leitor tem mais de 50 mil euros num banco, o fisco considera-o um ricaço tremendo e coloca-o na sua lista de vigilância. Brava gente. Bravíssima.

Da coluna diária do CM.

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Magalhães português e Magallanes espanhol.

por FJV, em 21.01.19

Lá para o fim do ano, quando se assinalarem os 500 da viagem de Fernão de Magalhães (um português ao serviço de Espanha) à volta do mundo, há de ouvir-se o ribombar de canhões ao longo da fronteira. A coisa agrada-me. Em setembro passado, Portugal e Espanha anunciaram que cada país teria uma exposição para assinalar o feito – e que, depois, muito amigos, se reuniriam numa só, de braço dado, mostrando que a amizade ibérica é coisa de antanho. Não é. A figura de Magalhães – como a de Colombo – já deu azo a muita asneira e a vários tomos de conspiração sobre os descobrimentos e a primazia de um e outro país nas conquistas de além-mar. Os espanhóis, que anunciaram a “dupla exposição” com serenidade e displicência, acham agora que Portugal (que tem uma “estrutura de missão” para comemorar o feito) ignorou Espanha nos seus papéis enviados à Unesco, de onde não sairão; têm razão, até porque D. Manuel I perseguiu Magalhães até onde pôde (é uma das vítimas da pátria). Mas, caramba, somos os melhores do mundo e ele era portuga; este provincianismo há de queimar-nos, como de costume.

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Mau tempo no canal.

por FJV, em 18.01.19

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Vitorino Nemésio começou a escrever o romance Mau Tempo no Canal em Bruxelas, a 17 de janeiro de 1838, passaram ontem 81 anos (terminou-o em 1944, ano que foi publicado). É o último dos grandes romances portugueses – mesmo se, depois dele, houve títulos como A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, O Delfim, de José Cardoso Pires, Os Meninos de Oiro, de Agustina Bessa-Luís, Para Sempre, de Vergílio Ferreira, ou Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes. A galeria de personagens de Mau Tempo no Canal é grandiosa; as paisagens e os momentos dramáticos são irrepetíveis; Margarida Clark Dulmo, a personagem principal, entra na eternidade da nossa literatura pela porta maior, como uma meteorologia resgatada para nosso deleite e melancolia. Nunca mais houve, até agora, romance como este – uma ventania de beleza que vem dos Açores e nos arrebata até ao fim, com os seus momentos de tragédia e perfeição. Devia ser lido e estudado nas escolas. Ter-se-iam evitado muitos maus escritores. E criado mais leitores.

Da coluna diária do CM.

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As ameaças do Maligno.

por FJV, em 17.01.19

Devemos defender-nos das ameaças do Maligno. Ontem, enquanto lia as reações disparatadas a um anúncio da Gilette (no qual a marca de lâminas de barbear insiste que se pode ser homem sem se ser idiota ou alarve), deparei com as regras de uma empresa do “ramo cinematográfico” para o comportamento dos seus funcionários, a Netflix – uma delas dizia respeito ao ‘namorico e era simples: não namoriques. Não me parece mal; uma empresa é uma empresa. Outra, porém, é decisiva para falarmos dos tempos que correm: não olhes para ninguém mais do que cinco segundos e não dês abraços. Devemos defender-nos dos abraços e dos embaraços do Maligno – evidentemente –, mas já me parece um abuso decretar que olhar nos olhos outra pessoa do sexo oposto (sou pessoa antiga, ainda escrevo “sexo oposto” em vez de “género diferente”) pode levar a abuso e a assédio. Olhemos para o chão. Olhemos para as unhas. Do outro lado há uma ameaça latente e nós (todos nós) somos seres despertos para a inconveniência, incapazes de resistir à brutalidade e à devassidão. Mais ou menos isto; um mundo de doidos.

Da coluna diária do CM.

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Voto secreto.

por FJV, em 16.01.19

Os ‘conselheiros’ do PSD estão divididos sobre a marcação do Conselho Nacional, CN, do partido para amanhã, às 17h00. Ora bem, não têm razão; as 17h00 estão bem para acabar o dia (parte delas não têm emprego propriamente dito): as pessoas reúnem-se, confraternizam, levantam o braço, tomam um mazagrã – e vão para casa calmamente, calçar as pantufas, e ver que imagens foram colhidas pelas televisões nos restaurantes da Mealhada ou na Cufra (onde costumam parar, de viagem), de que forma Luís Montenegro foi trucidado, como os motojornalistas acompanharam a ida de Rui Rio até ao CN, que lances polémicos merecem contestação depois de melhor vistas as repetições, o normal, enquanto não chega a sopa. Claro que, a mim, o que me espanta é ver certas pessoas a defender votações de braço no ar – porque já os vi, compungidos e anti-soviéticos, contestar votações de braço no ar noutros partidos. Este é o pormenor (“nominalmente, com uma chamada individual de cada um dos conselheiros”) que me faz espécie, mas compreendo-o: quando é para fuzilamentos, que seja um de cada vez.

Da coluna diária do CM.

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Estruturalmente.

por FJV, em 15.01.19

A palavra usada por Rui Rio para desafiar os seus críticos e pedir-lhes que saiam do pobre partido a que preside é “estruturalmente”: “Aqueles que discordam estruturalmente devem sair do PSD.” Rio não sabe o que isso quer dizer. A prova é que, em poucos meses, transformou um partido num saco de gatos, obediente, dividido e incapaz de qualquer coisa notável ou digna de nobreza – e, sobretudo, impreparado para sair do pequeno albergue de gente mediana em que ele talvez gostasse de transformar o país. Acontece que, “estruturalmente”, o PSD – mesmo com os seus pecados, a sua gula, a sua cupidez – sempre teve gestos de grandeza para com os seus críticos internos. E, quando não os teve, perdeu o país (como está a acontecer-lhe). “Estruturalmente”, essa é a verdade, Rio conduz o PSD para o “velho PSD” – espertinho e cauteloso, mostrando que irá aproveitar oportunidades mas que é incapaz de deixar de ser “o outro partido do Estado”, que há-de acabar por querer gerir, ou vigiar (para isso tem lá gente), como uma Junta de Freguesia. “Estruturalmente” é assim que as coisas se estão a passar.

Da coluna diária do CM.

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A censura que esbarra na beleza.

por FJV, em 14.01.19

Por vários motivos veio parar-me às mãos um parecer dos serviços da PIDE, datado de 4 de outubro de 1966 (é o relatório n.º 7.882), relativo a Dona Flor e os seus Dois Maridos, sem dúvida um dos melhores, senão o melhor romance de Jorge Amado. O ‘leitor’ (é assim que ele assina, como um crítico literário encartado pela polícia política) Estêvão Martins aparece rendido ao livro, que é picante: “Romance cem por cento brasileiro de índole muito maliciosa em que são descritas algumas cenas pouco edificantes, senão imorais.” Bastaria isto para proibir o livro? Sim. Mas o colaborador da PIDE leu as cenas entre D. Flor e Vadinho, o defunto licencioso que regressa do Além para importunar os desejos da esposa – e não resiste: “Porém, a beleza da prosa e a delicadeza com que são apresentadas as brejeirices forçam-nos a uma certa condescendência favorável na nossa apreciação.” O texto é curto mas uma peça maravilhosa de “juízo literário”. A esta distância, Estêvão Martins, ai dele, merece a nossa simpatia: em nome da beleza e da “categoria literária do autor” salvou um livro das masmorras.

Da coluna diária do CM.

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Para já, multemos.

por FJV, em 11.01.19

Em Singapura a multa para quem deitar uma ponta de cigarro na rua é bastante alta; também está banida a venda livre de pastilha elástica para que não acabe no chão, pisada e eternizada (andar nu em casa também é punido, mas isso é outro assunto). É Singapura. Em Lisboa, de acordo com as regras anunciadas ontem pela Câmara, as multas também são pesadas para quem deite beatas e pastilhas para o chão (e para os estabelecimentos comerciais que não disponham de cinzeiros públicos, por exemplo) – estas medidas são acompanhadas de muitas outras sobre a utilização de plástico ou recolha de lixo, por exemplo. É uma boa lista. Lisboa merece ser mais limpa. Há anos, Vasco Pulido Valente perguntava-se: Lisboa é suja porque é suja ou porque os lisboetas a sujam? A pergunta tem razão de ser. Tenho tendência para fazer piadas sobre multas desta natureza (não sei se são inconstitucionais, aliás), porque geralmente é o Estado que não cumpre os regulamentos. Ontem, fiz piadas com isto, sim: é a câmara de uma cidade suja que lança multas sobre quem faz lixo. Mas guardei a beata numa caixinha.

Da coluna diária do CM.

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As novas rotas da seda.

por FJV, em 10.01.19

O novo livro de Bruno Maçães, Belt and Road, A Chinese World Order, acabado de publicar em Inglaterra, é um prodígio de informação e de inteligência. Mostra como a China tenciona refazer a economia mundial e as relações culturais através de uma rede de comunicações, influências e ocupação do espaço. A ideia de “transporte” é múltipla, reconstruindo as rotas que há séculos fizeram da seda e da porcelana instrumentos do poderio económico chinês. É esse também o tema do recente livro do historiador Peter Frankopan, The New Silk Roads (já tinha escrito As Rotas da Seda, Relógio d’Água) – onde os caminhos de antigamente levavam a Roma, levam agora a Pequim, que tenta fazer amigos em todo o lado, ao contrário dos EUA (um país cada vez mais isolado). Para Frankopan, este será um “século asiático” (tese de Maçães, em ‘O Despertar da Eurásia’, já publicado pela Temas e Debates) – e cético em relação às virtudes da democracia. Entre nós, o pobre racismo anti-chinês impede-nos de apreciar o nascimento de um mundo novo, perigoso e desconhecido.

Da coluna diária do CM.

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Um país que quer ser civilizado pondo-se nos bicos dos pés.

por FJV, em 09.01.19

A manchete de ontem do CM faz-nos pensar num país condenado; três anos de espera por uma consulta de cardiologia no SNS é tempo suficiente para se morrer. Não é preciso ser doente cardíaco para perceber a enormidade – três anos, para qualquer coisa (para qualquer consulta médica), é tempo a mais. Na aldeia da minha mãe, em Trás-os-Montes, perto de Vinhais, morria-se sem perceber de quê, porque não havia médicos nem hospital à mão, e quem queria uma consulta andava a pé cerca de dez quilómetros. Mas esse não era – nem poderia ser, nunca – o país da Web Summit ou das trotinetas. A afirmação é, como se diz agora, populista – porque a Web Summit e as trotinetas podem coexistir com um país em que os seus cidadãos e contribuintes podem ter consultas de cardiologia em menos de três anos e os habitantes de Pedrógão ver as suas casas reconstruídas em menos tempo do que aquele que sabemos. Eu sei que uma das soluções é deixar morrer as pessoas que esperam três anos por uma consulta de cardiologia, mas talvez isso não seja bom num país que quer ser civilizado pondo-se nos bicos dos pés.

Da coluna diária do CM.

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Andra no fio da navalha.

por FJV, em 08.01.19

Em fevereiro de 2017, o Presidente da República ligou para a Rádio Comercial para dar os parabéns ao aniversariante Pedro Ribeiro – em direto. Dois anos depois liga para a emissão de Cristina Ferreira, que estreava na SIC. Vá lá: quem não quer que o Presidente ligue? Daqui a uns tempos, tenho certas dúvidas: cuidado, “o Marcelo” pode aparecer, fechem a porta, desliguem o telefone! Estou a exagerar, naturalmente. Quem não quer que o Presidente vá lá a casa beber uma ginjinha em direto? Uma selfie? Um cozido à portuguesa? Um mergulho no açude? Um fino? Estou a exagerar de novo, peço desculpa. Esqueço-me de que se trata do Presidente da República, não “do Marcelo” – e que devemos, em todas as circunstâncias, respeitar o papel e o estatuto do Presidente da República. Mesmo “o Marcelo” merece alguma travagem nos ímpetos mais populares. Afinal de contas, “o Marcelo” é o Presidente da República – mesmo que sejam, aparentemente, duas pessoas diferentes. O problema é que andar no fio da navalha é uma atividade demasiado perigosa para ser praticada pelo Presidente, de quem todos dependemos.

Da coluna diária do CM.

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O Estado que falha.

por FJV, em 07.01.19

Porque é que o Estado falha? Porque dedica parte do seu esforço a lidar com coisas que não têm a ver com as suas funções – e esquece uma das essenciais: estar presente onde é mais necessário. Veja-se a questão do frio. Todos os anos as tvs alertam, com a Proteção Civil, para as ‘vagas de frio’. Para quem já viveu em países moderadamente frios, a questão tem graça. As temperaturas em Portugal não ultrapassam os cinco ou seis negativos, tirando casos excecionais. O problema não está na ‘vagas de frio’ mas na forma como julgamos ser um país de ‘clima temperado’; em segundo lugar, como o Estado deixou que “a construção” enriquecesse vendendo casas mal preparadas para as oscilações de temperatura, húmidas, com maus acabamentos, sem aquecimento, escoamento de lixo, sem jardins ou qualidade de acessos. Desde os anos setenta até hoje, os mais pobres de nós têm mais acesso a casa – mas grande percentagem dessas casas é má ou degrada-se facilmente. É mais fácil ‘protestar’ contra a vaga de frio (porque não depende de nós) do que contra casas mal construídas. Sim, o Estado falhou.

Da coluna diária do CM.

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Évora Monte.

por FJV, em 04.01.19

Esta semana, aproveitando a luz do sol, fui até Évora Monte; a paisagem é deslumbrante, vista do castelo – a Serra d’Ossa, as colinas que separam Estremoz de Borba ou o pico de luz que se estende até Évora; e, quanto à história, propriamente dita, não preciso de dizer muito – desde as muralhas construídas durante o reinado de D. Dinis até à Concessão de Évora Monte em maio de 1834, encerrando a guerra civil, há sinais que nunca se perderam. E, de facto, lá está a placa, na modesta casa de Joaquim António Saramago, assinalando o restabelecimento da paz. A meio das “férias de final de ano” as muralhas de Évora Monte guardavam um silêncio melancólico (havia mais dois visitantes a caminhar pelas ruas de empedrado) – mas pouco justo para o lugar, que é o da sede inaugural do regime que moldou o Portugal moderno. Sem Évora Monte e o seu acordo honroso, a tragédia da guerra talvez consumisse mais tempo e mais vidas. Por isso, é estranho que tão pouca gente visite estas muralhas, estas ruas e as suas penumbras abandonadas num dos lugares mais simbólicos (e mais belos) da nossa história. 

Da coluna diária do CM.

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Bolsonaro.

por FJV, em 03.01.19
A deputada Joana Mortágua assinalou anteontem no Twitter dois eventos paralelos: o início do ano e o fim do Brasil. Determinar que um país com a história — épica e rocambolesca — do Brasil pode “terminar” desta forma abrupta depois da eleição democrática de um presidente da República, é um manifesto exagero literário. Não vale a pena debater as razões que levaram à eleição de Bolsonaro, um fanfarrão que, mesmo assim, foi escolhido como um mal menor depois de a corrupção e a degradação da vida quotidiana tomarem proporções quase trágicas. Daqui a cinco anos, ou Bolsonaro estará em vias de ser corrido (como espero), ou — para Joana Mortágua — alguma coisa falhou de novo. Ora, “o fim do Brasil” pode bem ser o título de uma comédia com vários anos de palco, e uma das explicações pode ter a ver com a ausência de um sector moderado forte, esclarecido e pouco permeável ao populismo, representado pelo bolsonarismo (que, no meio de algumas propostas patetas, ainda não sabemos como se sairá) ou pelo lulismo (que conduziu o Brasil a um crescimento negativo em tudo exceto na corrupção).

Da coluna diária do CM.

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Marcha das mulheres.

por FJV, em 02.01.19

Não tenho, ao contrário das pessoas em geral, previsões para o ano (além dos três fins-de-semana prolongados e da bela ideia de negociar cinco pontes em doze meses) – nem tomei grandes decisões. Um ano novo continuará a ser uma extensão dos pecados do anterior, como acontece nas trapalhadas das “guerras culturais”, que (é uma das minhas previsões grátis) nos farão aguentar a gritaria de maluquinhos por mais uma década, até todos se cansarem. Veja-se o que aconteceu na Califórnia, onde essa espécie folclórica (a dos maluquinhos) é muito abundante: a Marcha das Mulheres, que se realiza tradicionalmente a 19 de janeiro, foi cancelada pela organização. Porquê? Porque se temia que a maior parte dos participantes nesse evento pelos direitos das mulheres fosse “esmagadoramente branca” e que uma das minorias mais representadas fosse a judaica, o que iria contra os propósitos “inclusivos” da coisa. Haveria sempre a hipótese de alugar esquimós (diz-se agora “inuítes”) ou índios maori, mas parece que ninguém estava pelos ajustes. Sendo assim, cancelou-se. Se são brancas não servem.

Da coluna diária do CM.

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Amoz Oz, uma vida inteira.

por FJV, em 31.12.18

Amos Oz (que morreu na passada sexta-feira, aos 79 anos) era um homem tranquilo, amável, luminoso. Mas era também israelita – o que fez dele um marginal e um pecador aos olhos dos patetas. No entanto, há poucos romances autobiográficos com a complexidade e a beleza de Uma História de Amor e Trevas; e livros como Judas (o pano de fundo é a visão de Cristo aos olhos dos judeus, e o aparecimento da figura maldita de Judas Escariotes), A Caixa Negra, Cenas da Vida da Aldeia ou A Terceira Condição, publicados em Portugal pela D. Quixote, são romances admiráveis sobre a intranquilidade, a memória e a perturbação humanas. Nos ensaios Contra o Fanatismo e Caros Fanáticos, Amos Oz combate os fantasmas que assolam o Médio Oriente, mas também a sociedade ocidental, que não aprende grande coisa com os fanatismos políticos, que venera – e são testemunhos de um observador atento e humanista maravilhoso. Alguma imprensa tratou a morte de Oz como se ele fosse apenas um “ativista” pela paz, deixando em segundo lugar as suas qualidades como grande e notável escritor. É uma pena.

Da coluna diária do CM.

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Olavo Bilac (1865-1918).

por FJV, em 28.12.18

Não sei se os lisboetas conhecem o Jardim Olavo Bilac – mas os diplomatas deviam conhecê-lo: fica defronte do Palácio das Necessidades (e do ministério dos Estrangeiros) e a designação homenageia o carioca Olavo Bilac (1865-1918), falecido há exatamente 100 anos. Imagem do poeta parnasiano, obsessivo com a própria poesia, jornalista e autor de livros escolares, interrompeu os seus estudos de medicina e de direito para se dedicar por inteiro à boémia literária e jornalística. Parecia um andor de versos, admitamos. Mas o que todos devemos a Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac é sobretudo um soneto, intitulado “A Língua Portuguesa”, um elogio brutal da nossa língua e da sua história: “Última flor do Lácio, inculta e bela,/ És, a um tempo, esplendor e sepultura:/ Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela...” Não há, na nossa poesia, tirando talvez uma referência de Pessoa e um poema de Vasco Graça Moura, tratamento tão emotivo do tema, em torno da língua “em que Camões chorou, no exílio amargo,/ O génio sem ventura e o amor sem brilho”. Abençoado Bilac.

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Marcelo lançou um aviso curioso.

por FJV, em 27.12.18

Houve, ao longo dos anos, vários especialistas em mensagens presidenciais. O problema é que as mensagens eram, quase todas, acompanhadas de outros códigos não escritos. Todos tiveram contra si as manobras de Mário Soares, que controlava os bastidores e influenciava a imprensa (é certo que todos o faziam, mas a agenda de Soares era a mais poderosa); as meteorologias instáveis com que Jorge Sampaio tentava esconder os seus verdadeiros obejtivos políticos; e os aparentes silêncios e tabus de Cavaco, o mais institucional dos três. Com Marcelo, há uma certa euforia permanente, que estraga as contas a todos os conspiradores. É uma responsabilidade acrescida e há quem, à esquerda, não esqueça que se trata de uma co-habitação que não atingirá os picos de tensão de Soares-Cavaco. Na terça-feira, Marcelo lançou um aviso curioso: o de que o clima pré-eleitoral começou muito cedo – ninguém melhor do que o antigo analista político para o perceber. Por detrás da aparente bonomia e dos sorrisos do Presidente, há um sismólogo que não procura desculpar-se das más notícias que pode vir a dar.

Da coluna diária do CM.

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Bolo-rei, sempre.

por FJV, em 26.12.18

Se há instituição cuja vida merece ser prolongada nesta quadra, além da do bacalhau — é a do bolo-rei. Nos últimos anos, bandos de pessoas vagamente ilustradas, cheias de boas intenções nutricionais e com pouca noção das coisas, têm vindo a promover o “bolo-rainha”, uma espécie de bolo-rei sem aquilo que constitui a excentricidade, a falta de regras nutricionais e a explosão de euforias do propriamente dito: os açúcares, as frutas cristalizadas e as pinceladas de glúten. Sim, o bolo-rei não é tão “saudável” como um bolo de milho sem açúcar. Ora, o bolo-rainha é um bolo de frutos secos, que até podia ser de quinoa ou farinha de espelta, e nada obsta a que seja servido em secções de dietética; pelo contrário, o bolo-rei é a apoteose dos sentidos doces, com artifícios, cores e tradição. Há duas casas (a Garrett, no Estoril, e a Petúlia, no Porto) que me abastecem de bolo-rei ao longo de todo o ano. Conservador como sou, assusta-me que as “boas práticas alimentares” sacrifiquem um dos nossos emblemas mais tradicionais. É assim que as nações começam a perder-se. Depois queixem-se.

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Sobrevivamos à solidão.

por FJV, em 24.12.18
No ocidente, a festa do Natal deixou de ser a do nascimento de Jesus, excepto para um número residual de cristãos, a maior parte deles ostracizados ou sitiados. Mesmo entre estes é mais corrente a designação de “festa da família” ou “do encontro” numa sociedade essencialmente laica, gentia ou ateia. O andamento das coisas é o andamento das coisas e não parece que se volte à Missa do Galo, ao presépio, ou à celebração ritual de um Jesus de Nazaré tão histórico como simbólico — uma espécie de paragem no círculo do tempo (como a Páscoa). A velha e tradicional consoada, familiar e doméstica, está a passar para o ramo alimentar, florescendo no negócio dos restaurantes, na sequência, aliás, da institucionalização da “época das compras”. Ao cristianismo ocidental sucede uma espécie de “paganismo da felicidade”, turbulento, comercial e irrisório, como o sinal do início do inverno — mesmo assim, alguma coisa existe que não conseguimos esquecer. Mesmo para quem não é cristão, a “quadra natalícia” é um pretexto para nos vermos. Sobrevivamos à solidão; isso será o bastante.

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Beethoven no inverno de 1808.

por FJV, em 24.12.18

Hoje, o dia terá apenas uma duração de 9h27 e os astrónomos estabelecem que o inverno chegará às 22h23 – é o dia mais curto do ano. Amanhã, sábado, teremos mais um segundo de luz solar (o pôr do sol ocorre às 17h18m38) – todos os anos há ligeiras mudanças. Haverá coisas importantes a dizer sobre o inverno (os poetas são banais nessa matéria, repetindo-se muito), mas eu prefiro falar sobre o primeiro dia do inverno de 1808, há 210 anos, em Viena: um concerto memorável que havia de ser a despedida de Ludwig van Beethoven (1770-1827) como solista ao piano, e no qual foram tocadas oito grandes peças, incluindo as estreias da Fantasia Coral, uma ária (a notável Ah, Perfido), três dos andamentos da Missa em Dó Maior e ainda duas das suas grandes sinfonias, a 5.ª e a 6.ª (Pastoral). Das seis e meia da tarde até às dez e meia, durante quatro horas – com um pequeno intervalo – a música inaugurou aquele inverno num teatro gelado e cheio de gente, não só celebrando o génio de Beethoven mas também a grandeza interminável da música. Pode ser uma boa maneira de começar este inverno.

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A água do capote.

por FJV, em 20.12.18

As declarações do Presidente da República, anteontem, são das mais importantes do seu mandato. A chamada classe política incumbente não se incomodou por aí além, e compreende-se, porque o PR fala com uma frequência exagerada, comentando quase todos os assuntos e aparecendo em todos os lugares, o que é um mimo para os alvos das críticas. Seja como for, o Presidente disse o essencial: que o Estado (para o qual todos contribuímos e que nos suga o que puder), falhou em Pedrógão, em Tancos, nos hospitais (veja-se o escândalo da ala pediátrica do S. João), em Borba e em Baltar – e que isso gera uma sensação de desconfiança, de desconforto e de incerteza. Veja-se Tancos: ao fim de um ano e meio, ainda não há conclusões definitivas. Veja-se Pedrógão: só diante da lista trágica de mortos o Estado assumiu algumas responsabilidades (a capa do CM de ontem é uma imagem dolorosa). As pessoas sabem que o governo não é responsável pelas calamidades; mas (ironia!) o Estado, que se julga senhor de tudo, sacode a água do capote antes de perceber que não foi em cima dele que choveu. Foi de nós. É sempre.

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Emily Brontë, um relâmpago.

por FJV, em 19.12.18

 

As irmãs Brontë são um tema literário permanente. Charlotte escreveu o fascinante Jane Eyre, que hoje passa também por ser um romance feminista; Anne deixou Agnes Grey; Emily (nascida há 200 anos, a 30 de julho), compôs O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights) – todos escritos e publicados entre 1846 e 1847 –, que não pode ser reduzido à relação entre Heathcliff e Catherine (e Edgar) ou à rede de violência, humilhação, decadência e vingança que persegue a família Earnshaw. É um romance poderoso e sombrio num mundo em que os livros de Jane Austen abriam um clarão de airoso otimismo. Na literatura inglesa, O Monte dos Vendavais é uma explosão de todas as penumbras e confrontos da sociedade vitoriana (visível no filme de William Wyler, interpretado por Lawrence Olivier e Merle Oberon); no romance não há vida eterna para os territórios do amor; a invenção de Catherine Earnshaw e a descrição do sofrimento feminino, ardente e intenso, são momentos únicos. Passam hoje 170 anos sobre a morte de Emily Brontë – que sobreviveu apenas um ano à publicação do livro. 

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O pai dos povos.

por FJV, em 18.12.18

Iossif Vissarionovitch Djugashvili nasceu há 140 anos, a 18 de dezembro de 1878, em Gori, na Geórgia – um aniversário cumprido hoje. De 1922 a 1953, período em que ocupou o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, o destino do mundo dependeu, em parte, deste homem corajoso, violento, inteligente, calculista, frio, um provocador e arrivista antes de chegar ao poder, um ditador implacável depois de o conquistar – e responsável, tanto pela vitória sobre os nazis na frente Leste, como por um regime cruel e desumano que transformou um continente inteiro num campo de concentração e num cemitério de dezenas de milhões de vítimas. José Estaline, para abreviar (adotou esse nome por volta de 1918; usara o de ‘Koba’ nos anos de juventude), ainda faz parte da galeria dos ditadores a quem os seguidores desculpam as purgas, as deportações e perseguições, o gulag, os julgamentos sumários, as várias “limpezas” e condenações à morte e à fome. O “pai dos Povos” deixou atrás de si um rasto de crueldade, heroísmo e traição. É uma figura tão fascinante como absurda.

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O princípio está certo, toda a máquina está errada.

por FJV, em 17.12.18

A senhora ministra da Saúde tem um curioso entendimento dos códigos e da Constituição. Por exemplo: não negoceia com os enfermeiros em greve porque isso seria “beneficiar o criminoso, o infrator”, como disse numa entrevista à TSF. É a primeira vez, em democracia, que se estabelece – em direto – uma nova categoria de criminosos no Código Penal. Espero que a UGT e a CGTP comentem. Ao mesmo tempo, teorizou sobre os deveres dos jovens médicos: se o Estado providencia a sua formação, então o Estado deve “retê-los” (a expressão é sua, usada como castigo) algum tempo, para que alguma coisa devolvam, de retorno, como penalização. Para minorar os efeitos dessa retenção, a senhora ministra anuncia que está a estudar carreiras aliciantes. E os que se formam em filologia, arqueologia, química, direito, história dos descobrimentos, ciência política ou, vá lá, meteorologia – irá o Estado proceder “à sua retenção”? Não me parece. Tivesse eles escolhido medicina. A senhora ministra parece-me estar a confundir o país com um protetorado cubano, venezuelano ou salazarista. Salvo seja.

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