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Ordinary people.

por FJV, em 10.03.21

Tive de ir ao site da agência Reuters para confirmar que a Unilever (o conglomerado de produtos de beleza e higiene pessoal) vai retirar das suas marcas a designação “normal” – cabelo normal, por exemplo, ou pele normal. Julgava que se tratava de uma notícia falsa mas, por outro lado, rejubilei. As marcas da casa já tinham prometido deixar de retocar a cor, a textura ou a forma dos seus modelos publicitários – o que não deixa de ser suspeito; mas retirar a expressão “normal” de um champô porque uma certa percentagem de pessoas se sente “marginalizada” e “humilhada” é, também, uma boa oportunidade de negócio num mundo em que as grandes marcas do capitalismo e dos negócios entram na guerra das políticas identitárias, apropriando-se dos seus símbolos e das suas bandeiras. Depois de tentar normalizar a maior parte dos consumidores, produzindo em massa e sem qualidade, o capitalismo industrial descobriu um novo negócio: criminalizar, de certa maneira, as pessoas aparentemente “normais” (um estigma, daqui em diante) ou que sempre julgaram que não tinham, pelo menos, cabelo seco o oleoso.

 Da coluna diária do CM.

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Como republicano, estou ao lado da Rainha.

por FJV, em 09.03.21

Sabem quem são Harry e Meghan? Eu sabia por alto, mas a a entrevista que deram a Oprah Winfrey (naquele cenário de jardim da Malveira a que só faltava um par de patos) encheu-me as medidas. Meghan Markle, que era uma atriz medíocre, desceu de categoria – e Harry é o típico millenial, a queixar-se do corte na mesada aos 36 anos. Gostei da parte em que os dois falam de “viver autenticamente”, ou seja, num jardim da Malveira rodeados de patos e galinhas, representando os papéis de atriz milionária zangada com a sogra, casada com um príncipe milionário, parlapiando com apresentadoras milionárias de televisão, fingindo que toda a gente acredita nas mentiras piedosas, nas queixas de racismo chique e nas lágrimas de plástico. Não, não me tornei um especialista da “vida da realeza”; apenas me surpreende a forma como um casal de tolinhos (que queriam fazer parte da coroa mas não tinham visto The Crown) é apaparicado pelo moderno ativismo americano, pela Casa Branca e pelos trabalhistas ingleses. Ou seja, queria dar-vos conta de que, como republicano, estou do lado da Rainha de Inglaterra.

 Da coluna diária do CM.

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O perigo das redes sociais, coitadinhos.

por FJV, em 09.03.21

Quem, no seu estado mais ou menos saudável, não alertou já (nem que seja para si mesmo) “para o perigo das redes sociais”? Tornou-se uma ocupação a tempo inteiro. Aliás, creio que não há figura pública que não alerte “para o perigo das redes sociais”, esse mundo em que tudo anda à solta e grande parte em anonimato, distribuindo ressentimento e imbecilidade em roda livre. Ameaças, perseguição e maledicência, violência verbal, maldade pura, mentiras a rodos – há de tudo, como no género humano. No meu caso, quando alguém me diz “vi no Facebook” (não tenho) não ligo importância ao que vem a seguir; não por preconceito – só por sanidade; é um albergue de loucos. Acontece que boa parte dos alertas “para o perigo das redes sociais” são, no entanto, duvidosos. Muita gente ganhou “nome e fama” nesse albergue – e estava tudo bem enquanto eram só beijinhos e retratos com gatinhos. Mas o género humano não engana; o que sobe, há de descer; o que é bom, há de ser atacado com inveja e despeito; por isso, quando alguém alerta “para o perigo das redes sociais”, limito-me a sorrir. É tão bom – não foi?

 Da coluna diária do CM.

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Dai-lhes de ler, que eles não sabem o que dizem.

por FJV, em 08.03.21

A imprensa lusitana despertou da sua letargia cultural e transcreveu ontem os respingos de um texto da agência Lusa sobre um “trabalho de investigação” realizado por uma aluna de doutoramento EUA – acerca da “linguagem racista” de Os Maias. Melhor, como os jornais decretaram ontem, “passagens racistas” do romance. Trata-se, claro, de uma imbecilidade, tomar diálogos irónicos e facetos de João da Ega ou fragmentos e referências igualmente irónicas como exemplos do “racismo” de Eça. Que uma aluna de doutoramento de uma universidade de americana mostre a sua ignorância acerca do que são a literatura ou a ironia e fale de “instrução culturalmente responsável” (só isto já merece gargalhada), não é escândalo num mundo de tolinhos. Mas é notável que um representante da Associação de Professores de Português, escutado a propósito, diga serem evidentes “os preconceitos raciais presentes em Os Maias e em outros textos de Eça”. Além de ser falso (basta procurar nas suas cartas), é mau que um professor de português não distinga ironia, literatura, antonomásia ou catacrese. Caiam do céu as bigornas.

P.S. - João Pereira Coutinho escreveu sobre o assunto um belo artigo na Folha de S. Paulo; nele, diz que a única raça que Eça desprezou era “a sua”. Algumas pessoas não entendem a ironia, de novo. Vem no João da Ega, precisamente, quando no (ia a escrever “célebre”, mas tudo em Os Maias é célebre) jantar em honra do Cohen ele se põe aos gritos: “A pior raça da Europa!” Não conhecia, ainda, a nova vaga de investigadores de literatura.

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O partido.

por FJV, em 05.03.21

Passam amanhã, 6 de março, 100 anos sobre a fundação do Partido Comunista Português. Desde aquele objetivo inicial de “transformação radical da sociedade capitalista em sociedade comunista” até aos dias de hoje, o PCP mudou como tudo mudou; Porém, ao longo de um século, nem adormeceu nem conseguiu ser uma força maioritária na vida portuguesa – mas já teve o seu papel decisivo e influente durante os anos 70, quando tentou apropriar-se do país. Tenho uma secreta admiração pela sua história; não por aquilo que o PCP é, ou defende e defendeu, mas pela sua dimensão de “personagem de romance”, marcado pela obstinação, capacidade de resistência, disciplina, espírito de sacrifício pessoal, sentido messiânico e episódios de heroísmo. Essa epopeia, em que Cunhal é o semideus e o grande arquiteto, só pode ser literária e marcada pelo sentimento de culpa, porque não é possível alguém defender os crimes do comunismo (ou absolvê-los) e ficar incólume. O messianismo comunista está hoje vivo em poucos lugares do mundo, mas permanece com Jerónimo de Sousa – na sua idade, no modo de falar, na cadência evangélica herdada de Cunhal, outra figura de romance.

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Gainsbourg.

por FJV, em 02.03.21

De quem sentimos falta desde há 30 anos? De Serge Gainsbourg (1928-1991). Ainda se recordam daquele dueto maravilhoso com Catherine Deneuve, “Dieu est un fumeur de havanes”? Sinto falta dele. Hoje, Gainsbourg seria de novo perseguido por sexismo, má conduta, incorreção política, alcoolismo, seja o que for. Todos nos lembramos de “Je t’aime, moi non plus”, que ele compôs para Brigitte Bardot, uma das suas famosas namoradas, mas popularizada com Jane Birkin, com quem casou (só em 1986 se conheceu a gravação com Bardot, a quem dedicou várias canções). Já agora, as que compôs para Birkin – a eterna, “Ex-fan des sixties” –, minha musa de adolescência; as que compôs para Françoise Hardy (“Comment te dire adieu”), France Gall, Juliette Gréco, Marianne Faithfull, Dalida ou Petula Clark. Judeu (errante e sedentário) que foi obrigado a usar a estrela amarela durante a ocupação nazi da França (a família fugiu da URSS depois da revolução), pintor, ator e autor, cineasta, Gainsbourg não era fácil, mas faz-nos falta. “Je suis venu te dire que je m’en vais”, ainda o oiço. Morreu há 30 anos.

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Quando as Escolas Fecharam

por FJV, em 02.03.21

Os livros sobre a pandemia (ou de filósofos que filosofam sobre a “ditadura sanitária”) não me interessam; estou farto. Por isso, a minha exceção é Quando as Escolas Fecharam, de Paulo Guinote (publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos) – mais do que um livro sobre o “confinamento escolar”, é um diário do isolamento a que fomos condenados e que nos sitiou durante meses. Sem “pontos de partida prévios”, sem condições, sem quebras, Paulo Guinote mostra-nos como as escolas são fundamentais para a estruturação das nossas vidas e como, por vezes, os dias que passaram foram episódios de um filme cómico povoado de personagens de Jacques Tati – apesar dos estudantes, das crianças, dos adolescentes, dos professores, dos pais, das casas de cada família, e das próprias famílias. Gostava que a leitura deste livro nos pudesse ajudar a compreender melhor o papel dos professores e a forma como (“lá em cima”) esse papel é ignorado e subvalorizado. Anotando as contradições do discurso oficial, os erros de palmatória das autoridades – e as nossas perplexidades –, o livro de Guinote é um guia destes tempos.

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Um tradutor que seja de raça.

por FJV, em 01.03.21

Passo a explicar: em janeiro passado, na posse do novo presidente americano, Joe Biden, a poetisa americana Amanda Gorman leu o poema “The Hill We Climb” (“A Colina que Escalamos”, que deu o título a um livro seu), tornando-se na mais jovem autora a ser escolhida para essa cerimónia. Talentosa, negra, jovem (nasceu em 1988), com uma ascensão meteórica, bem paga – a escolha de Biden foi simbólica e bem acolhida. Tanto assim que as traduções dos seus poemas se sucedem um pouco por toda a parte, como nos Países Baixos, onde a prestigiada editora Meulenhoff se preparava para publicar o seu livro com tradução de Marieke Lucas Rijneveld, poetisa e ficcionista que no ano passado ganhou o prémio Booker. Acontece que, apesar do entusiasmo da própria Amanda Gorman, Marieke (nascida em 1991) é branca, o que gerou uma onda de protestos de “ativistas” na imprensa de Amesterdão: a tradução teria de ser entregue a uma pessoa “assumidamente negra”. A editora pediu desculpa; a tradutora, batendo no peito, pediu desculpa e aceitou não traduzir. Um mundo assim, dividido entre brancos e negros, dá pena.

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Imprevisibilidade.

por FJV, em 01.03.21

Ontem, o The Daily Telegraph fazia uma pergunta incómoda e, à primeira vista, ridícula: “Os casos de coronavírus estão a cair globalmente, mas a grande questão é: porquê?” A exceção parecem ser certos países onde houve um ligeiro aumento de casos (Irão, Iraque, Índia e Indonésia). No resto, parece que temos resposta: confinamentos brutais, primeira onda vacinação, uso de máscara (lembrem-se da máscara e do negacionismo da máscara), imunidade de grupo, cuidados pessoais. A maior parte dos cientistas sabe, no entanto, uma coisa perturbadora: que o vírus é “notoriamente imprevisível”. Nos primeiros dias da pandemia fui buscar o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, e A Peste, de Albert Camus, para ver o que nos esperava; voltei agora a esses romances, apesar do que ainda estamos tragicamente a viver – em ambos aparece uma misteriosa sensação: “E então, subitamente, tudo terminou.” Saramago, severo, reteve a lição da nossa desumanidade durante a “epidemia de cegueira”; Camus, melancólico, aceita a lição da imprevisibilidade, mesmo sabendo que um dia o vírus sairá do esconderijo. Regressámos a essa era, a da imprevisibilidade.

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Amiguinhos que trocam censuras. Que pena.

por FJV, em 25.02.21

Em Espanha, a esquerda (ou, pelo menos, um dos partidos do governo) defende que a imprensa precisa de “controle democrático”, de escrutínio político. Em Portugal não é preciso que o poder se candidate a moralizar a imprensa. Cidadãos bem intencionados e na plena posse das suas faculdades declaram “não poder admitir” o “estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes”, o tom das entrevistas (é preciso respeitinho) ou “os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS", ignorando que — em todo o lado, como escreveu Amartya Sen, são as perguntas da imprensa que impedem situações de maior risco. Sim, era preferível não haver imagens dos hospitais, das filas de ambulâncias, dos erros de planeamento, do silêncio dos que partem. Há pontos em que não é difícil concordar (e sobre eles o senso comum já nos alerta há muito) com esta Carta Aberta publicada anteontem (nomeadamente: o excesso de repetições, abuso de imagens dramáticas, a banalização da morte, longos telejornais) – mas, atrás de uma boa ideia, a tentação está lá, misturada com a defesa dos amigos (o que se compreende, devemos defendê-los). As “autoridades”, quando confrontadas, já criaram o rótulo de “anti-patriótico”; é sempre bom sabermos que gente tão bem intencionada também pode cair na armadilha de preferir a imprensa bem comportada, a aplaudir quando convém e a aconselhar moderação. Salvo quando lhes não convém.

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José Atalaya e a música.

por FJV, em 24.02.21

Sei pouco de José Atalaya, que morreu no final da semana passada (1927-2021), como compositor – mas recordo-o bem em mangas de camisa, de colarinho e cabeleira à solta, a dirigir uma orquestra no Coliseu de Lisboa. E a conversar com o público, “maioritariamente jovem”. Sempre sonhei com a ideia dos Concertos Promenade (os Proms, que a RTP2 transmite todos os anos), criados em Inglaterra no final do século passado, reabilitando a ideia de concertos de “música clássica” em jardins e lugares amenos – os concertos para jovens de Atalaya, e o modo como nos divertia, eram um pouco isso. Tive a sorte de ter sido aluno do maestro José Ferreira Lobo, que fazia das nossas aulas de Educação Musical (e Canto Coral, se se lembram) autênticos Proms, manejando discos de vinil com trechos de sinfonias, quartetos, concertos e óperas, mostrando-nos como a música era um acontecimento disponível para ser festejado. Os programas de divulgação de Atalya (como a série A Música e o Silêncio de António Victorino de Almeida), eram um extraordinário acepipe para o amor pela música. Merece a nossa homenagem.

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A revolução será transmitida pela televisão.

por FJV, em 23.02.21

A revolução será transmitida pela televisão porque, como de costume, é sempre melhor longe de casa. A Europa revolucionária sempre gostou da América Latina por isso – era do outro lado do mar; os maoistas dos anos 70 eram sobretudo “maoistas de Paris”, e não esperava vê-los a limpar os destroços do Agosto Vermelho de Pequim, o início da revolução cutural. Espanha é mais perto e colocar o acento tónico na liberdade de expressão é um avanço. Acontece que o rapper Hasell, em nome de quem os vândalos destroem todas as noites o pedaço de uma cidade diante das câmaras de televisão, não é propriamente uma vítima inocente. Nem é detido por ter “insultado a  a Coroa”, um direito seu – e ninguém se importa – mas por ter acumulado acusações sucessivas por mitificar os terroristas da ETA ou dos GRAPO (muito maoistas também), por defender que se vá “mais além” das palavras, por ameaçar testemunhas e incitar à violência (e à morte) sobre políticos, jornalistas ou polícias – é um chique tremendo. Em resumo, Hasell declara-se um “preso antifascista” e, de máscara, os seus fãs assaltam o que podem. A imprensa portuguesa nem pestaneja a fazer-lhe a biografia de herói.

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Pobre Eça.

por FJV, em 19.02.21

Em Itália há uma ONG que quer banir a Divina Comédia, de Dante (este ano comemoram-se os seus 700 anos), das escolas italianas, porque a obra – um dos livros essenciais da cultura ocidental –, “ofende homossexuais, muçulmanos e judeus”. Sejam bem vindos. Nada disto é novo. Em 1983, a esquerda francesa, através do jornal Libération, pedia que o governo de Mitterrand colocasse no índex (por “provocação pública e ódio sexista”) obras de Hemingway, Thomas Hardy, Rabelais, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, todo o Kafka e a poesia de Baudelaire. Avancemos: ontem, 18, numa universidade americana, Darmouth (Mass.), uma investigadora fez uma conferência intitulada “É Os Maias um romance racista?” Pobre Eça, que tanto se preocupou com o racismo, a injustiça e a segregação. Nada disto é novo. Como não entendem nada de literatura, os ativistas dos cursos de letras preocupam-se com a “misoginia”, o “racismo” ou o “machismo” de Eça. Para os mais otimistas, aviso que nas nossas universidades vamos ainda ouvir falar do Pessoa racista & colonialista, do Camilo protofascista e misógino, do Camões e do Vieira imperialistas. Os tolinhos estão em todo o lado, e vão continuar.

Da coluna diária do CM.

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Sonetos Portugueses (Sonnets from the Portuguese).

por FJV, em 18.02.21

Diz-se que o escritor Robert Browning (1812-1889) tratava a sua mulher Elizabeth Barret Browning (1806-1861), que escreveu a mais bela poesia inglesa da época vitoriana, por “minha pequena portuguesa”. É certo que os antepassados de Elizabeth viveram na Jamaica, para onde se registou uma elevada imigração de judeus portugueses – mas o marido escolheu “portuguesa” por causa da tez morena da autora de “How Do I Love Thee?”, um poema maravilhoso, publicado justamente no livro Sonetos Portugueses (Sonnets from the Portuguese), que terminou por volta de 1845, altura em que o casal viajou para Roma, primeiro, e Florença, depois, onde se fixaram para o resto da vida – trabalhando “a partir de casa”, como diz a sua biógrafa Fiona Sampson no livro Two Way Mirror, biografia que é publicada hoje em Inglaterra. Os Browning criaram, pois, uma espécie primitiva de teletrabalho – e a cura contra os males de saúde de Elizabeth (que estava em confinamento perpétuo devido a dificuldades respiratórias), graças a comida fresca, sol, vinho e caminhadas noturnas. Não sei se estão a ver onde quero chegar.

Da coluna diária do CM.

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O coiso.

por FJV, em 17.02.21

Nada pode justificar as imagens de violência policial captadas ontem, no Barreiro. Caçar desobedientes ao “confinamento” tornou-se um desporto por parte das entidades policiais; não que não estejam em cumprimento da lei e das suas obrigações, mas porque se trata, muitas vezes, de um dispositivo desproporcionado e invulgar, com vistosas operações de auto-stop, controle discricionário, apoio das televisões e, por vezes, uso e abuso da posição de autoridade junto de pessoas que se limitam a ir trabalhar e não podem limitar-se a “ficar em casa” para cumprir um retiro espiritual. O “confinamento” tornou-se um pesadelo para muitos portugueses – e tanto o Estado em geral como as autoridades de proximidade parecem ter-se habituado ao controle que exercem e ao seu papel de mestres-escola quando o pano de fundo é a incompetência para passar mensagens não contraditórias. Não se podem desculpar a violência nem a insensatez dos que desobedecem às medidas mais elementares. Mas o “confinamento” está a tornar-se além das injustiças e situações de desespero que provoca – caso de anedota e de inabilidade.

Da coluna diária do CM.

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Mau Tempo no Canal.

por FJV, em 16.02.21

Regresso por vezes à leitura de Mau Tempo no Canal (de que coleciono várias edições, de 1944 até hoje), de Vitorino Nemésio, para espairecer e recordar como era a Língua Portuguesa quando a escrevíamos com maiúsculas. Não porque um escritor deva ser um repositório do Dicionário da Academia (que, aliás, não temos) ou da gramática escolar (que tem pouco interesse) – mas porque os transcende. A história de um desamor (entre Margarida Dulmo, João Garcia e Roberto Clark) e de uma guerra de famílias passa-se entre quatro ilhas: Faial em primeiro lugar, depois o Pico, depois São Jorge e, finalmente, em epílogo de passagem, a Terceira. Almanaque de famílias, manual de botânica e geologia, estudo de meteorologia e de arquitetura, recolha de dialeto, apontamentos de humor ocasional, notas sobre endividamento e isolamento, Mau Tempo no Canal é trágico e como na literatura portuguesa do século passado talvez só conseguiram ser Aquilino e Agustina, nossa última voz clássica; a sua melancolia, iluminada pelo clima das ilhas, produz personagens que não podem esconder nada. É uma obra-prima.

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Os livros não choramingam.

por FJV, em 15.02.21

De excepção em excepção, e sem um pingo de bom senso, a novela das proibições de venda de livros ameaça não ser apenas uma tolice, mas entrar no anedotário português. Daqui a uns anos havemos de recordar este tempo em que se podiam vender livros em quase todos os lugares, excepto em livrarias – e em que o primeiro-ministro anuncia que só não proibiu a venda de livros porque o Presidente da República o proibiu. Se Portugal fosse um país de leitores impenitentes, vorazes e entusiastas, as autoridades sanitárias bem podiam temer ajuntamentos de cidadãos diante das livrarias – mas a realidade é que estamos nos últimos lugares das estatísticas europeias de leitores. Primeiro, proibiu-se a venda de livros nos supermercados invocando normas de concorrência; agora, permite-se o negócio em supermercados e certos espaços comerciais que também tenham livros nas prateleiras, agudizando as questões de concorrência, mas mantendo a proibição de as livrarias abrirem para vender a única coisa que podem: livros. Como os livros não choramingam nem se empoleiram em protestos, não são escutados.

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Incomodados com ideias desagradáveis.

por FJV, em 12.02.21

Ao contrário do que acontecia com a tradição universitária que mandava discutir, arriscar e contrariar, as novas gerações “protegem-se do perigo” – nos EUA criaram “zonas seguras” onde os estudantes não podem ser “agredidos” com discursos que os contrariem ou contenham ideias maléficas. No Reino Unido vigiam-se bem as audiências, proibindo-se conferencistas importantes mas discutíveis e cujos livros possam ser “problemáticos”. Basta sair um pouco do cânone, pressentir-se o mais pequeno risco de polémica. Veja-se a universidade de Durham (RU), onde a associação de estudantes exige ser informada do tema das conferências com duas semanas de antecedência, ou de quatro se o tema for “controverso” – caso em o texto da conferência deve ser conhecido previamente, a fim de não conter referências racistas, misóginas, transfóbicas ou homofóbicas, anti-semitas ou colonialistas. Os estudantes têm o direito, diz a comandita que governa a universidade, de não serem incomodados com ideias desagradáveis. Em silêncio, isso já se passou entre nós. Os nossos antepassados, que criaram a Europa e discutiram com intensidade e paixão, devem estar a rir. 

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Depois disto.

por FJV, em 11.02.21

Todos imaginamos o que vamos fazer “depois disto”. Um almoço de família, um jantar com amigos; um reencontro com os pais, com os filhos, os avós; um manhã na esplanada, uma caminhada pelas ruas da cidade; uma ida às compras (roupa, livros, inutilidades), um jantar ao ar livre; um passeio ou uma pequena viagem de fim de semana, uma saída noturna. Deixar de estarmos vigiados, controlados aqui e ali. Receber amigos em casa. Nem tudo vai ser fácil – uma pandemia não se interrompe; devagar, vai cedendo; e nós, com igual lentidão, vamos reconstruindo o tempo. Este é um aviso sério para os políticos que têm de decidir e para as empresas que têm de reabrir com urgência: tudo vai ser lento e quase tudo vai ser difícil. No Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago, ou em A Peste, de Albert Camus, a vida retoma-se de um dia para o outro, mas haverá muitas feridas para tratar, as janelas abrem-se para o ar entrar em casa, ainda que sem provocar vendavais. Esse – a pressa – foi o erro fundamental do verão passado. Vamos reaprender a caminhar, passo a passo. E lembrar os que partiram. Não vai ser fácil.

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Livros nos hipermercados.

por FJV, em 10.02.21

Os livros devem ser vendidos em livrarias, estejam elas onde estiverem – no nosso bairro, em praças onde entramos à procura delas, num beco escondido da chuva de inverno e da luz do sol, num supermercado onde compramos comida, em corredores de um centro comercial. Onde elas estiverem como estamos nós. O pedido para que, isoladamente, se autorizasse a venda de livros nos hipermercados soou-me sempre mal: porque nunca compreendi que, estando autorizada a abertura de lojas com venda à porta, ou no postigo, se proibisse a abertura de livrarias à porta – ou no postigo. Um interessante e compreensível lóbi de livreiros, aliados do governo, defendeu esta ideia como totalmente justa, na medida em que permitia aproveitar os apoios ao ‘lay off’. Apesar dos argumentos deste lóbi junto das autoridades, a decisão de proibir a venda de livros em livraria (à porta ou no postigo) não é justa e não está a ter bons resultados. É um argumento ideológico que menoriza e infantiliza a área do livro; esperamos que novo estado de emergência isto seja corrigido e as livrarias possam entreabrir as portas.

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Christopher Plummer (1929-2021).

por FJV, em 09.02.21

Gostava bastante de Christopher Plummer (1929-2021), que interpretou a figura do barão Georg Ludwig von Trapp no filme Música no Coração (de Robert Wise, 1965) – e havia um belo motivo: ele considerava-o “aborrecido, sentimentalão e banal” e irritava-o muito a parceira Julie Andrews; trabalhar com ela “era como ser todos os dias atingido na cabeça por um postal a dar-nos os parabéns”. Este canadiano de Toronto era tudo menos aborrecido, de bigode ou sem ele, na televisão ou no cinema, sempre em estado de ironia e auto-ironia, representando personagens tão variadas (de comandante no Star Trek IV a Sherlock Holmes) como modeladas pelo seu temperamento de resmungão amável e divertido, muito melhor a representar um “mau” do que um “bonzinho”. Talvez por isso ele tenha sido genial no palco, interpretando Shakespeare. Para quem o julga apenas capaz de papéis secundários (em que se tornou um especialista) há registos notáveis de A Tempestade, de Henrique IV, Macbeth ou Sonho de uma Noite de Verão. Morreu aos 91 anos na semana passada. Fazendo, por certo, uma piada sobre si próprio.

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Lana Turner.

por FJV, em 08.02.21

Hoje, se fosse vivo, James Dean festejaria os seus 90 anos – desapareceu aos 24, depois atuar em A Leste do Paraíso e Fúria de Viver, ambos de 1955, o ano da sua morte. Mas hoje assinalamos também o centenário de uma das grandes lendas de Hollywood, Lana Turner – não sei se se recordam de O Destino Bate à Porta, a versão de 1946 de O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes (também podemos ver a de 1981, com Jack Nicholson e Jessica Lange, ou a de 1943, de Luchino Visconti, Obsessão), onde Lana sobe ao estatuto de estrela. É um filme e tanto; o seu papel é marcante, cheio de falsa inocência, escaldante, e é definitivo na história do erotismo. A sua vida – uma criação do cinema – há de estar ligada a ele e aos seus equívocos: sete casamentos, sete divórcios, muitas ligações perigosas, o drama da filha Cheryl (que matou o seu amante Johnny Stompanato), alcoolismo – e filmes que construíram um destino nem sempre feliz. A sua beleza era tão mítica quanto rara e infernal. Há momentos discretos, bem como parcerias eternas (com Clark Gable, por exemplo). E não a esqueceremos nunca.

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O Estado no meio do ridículo

por FJV, em 05.02.21

Os livros vendidos nos hipermercados não são os mesmos das livrarias físicas ou online (onde há diversidade e pluralidade) – são, sobretudo, livros que os hipermercados decidem vender depois de as livrarias, que arriscam a pele e são o nosso orgulho, os terem promovido. Mesmo assim, os hipermercados não podem vender livros. No entanto, podemos comprar magníficos e insubstituíveis bens à porta de lojas que decidiram abrir; não livros, porque o ministério da Cultura foi formatado para não o autorizar. Depois de criar-se a ideia de que “a cultura” se esgotava no universo do espectáculo e dos concertos, que atravessam uma crise grave, as autoridades da Cultura & da Economia são indiferentes à crise igualmente grave em que vivem editores, livreiros, autores, tradutores, designers, impressores e distribuidores – o setor que nunca lhes dá trabalho nem fornece dependentes. Pelo contrário: é um dos mais importantes nas chamadas “indústrias culturais”. Espero que dia 14, na renovação previsível do estado de emergência seja corrigida esta injustiça tremenda que coloca o Estado no meio do ridículo.

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Adelaide João.

por FJV, em 04.02.21

Eu gostava muito quando ela aparecia no ecrã. Tinha um ar doce e sorridente – Adelaide João passou por nós, por todos nós, com aquela graciosidade de senhora simpática, mas é importante que falemos do seu talento, da sua carreira no teatro, da popularidade na televisão que tanto a fazia desempenhar papéis de gravidade (em projetos de Artur Ramos, em textos de Camões, Arthur Miller ou Tchekov) como personagens de comédia. Não é fácil ser atriz de papéis secundários, estar na sombra e iluminar o palco, obrigar-nos a rir quando aparece (ela fingia maravilhosamente aquele seu ar desajeitado e desorientado), obrigar-nos a reconhecer nela uma mãe, ou uma avó, ou uma tia com quem gostamos de conversar precisamente sobre a telenovela onde entrava Adelaide João. Ou reconhecê-la nesse papel secundário sempre que nos cruzávamos com ela num filme (de Fonseca e Costa, Fernando Lopes ou Manoel de Oliveira, por exemplo). Houve magníficos atrizes e atores de papéis secundários (supporting actors sem os quais não há nada), Adelaide João era uma das nossas melhores, até anteontem, até aos 99 anos. 

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Mehmed II e o império otomano.

por FJV, em 03.02.21

Passam hoje 570 anos sobre a definitiva subida ao poder de Mehmed II (ou Maomé II, 1432-1481) no Império Otomano, de que é uma das figuras históricas admiráveis, juntamente com a de Solimão, o Magnífico, que viveu um século mais tarde. A data tem interesse porque dois anos depois, em 1453, Mehmed II, o Conquistador, pôs termo ao Império Romano do Oriente, ou Bizantino, com a tomada de Constantinopla – determinando que a catedral de Hagia Sofia passava a mesquita, mas nomeando o patriarca cristão como governador da cidade. Criou bibliotecas, palácios, universidades, rodeou-se de humanistas, permitiu a liberdade religiosa – e foi amigo de Gentile Bellini, pintor a quem encomendou um retrato seu e paisagens de Constantinopla. E também uma pintura de S. João Batista decapitado – ou seja, da cabeça oferecida a Salomé. Quando o quadro chegou, Mehmed achou que Bellini, que estudara anatomia com Leonardo Da Vinci, não fizera uma boa representação do pescoço dilacerado. Para o provar, mandou decapitar um escravo, mostrando-lhe o erro de pormenor. Já o retrato do imperador, esse, é perfeito.

Da coluna diária do CM.

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O Dicionário de Oxford e a nossa pobreza.

por FJV, em 02.02.21

Como fui criado no tempo em que ainda existiam caderninhos para “palavras difíceis”, vi com interesse O Professor e o Louco, um filme (com Mel Gibson e Sean Penn) sobre a criação do primeiro grande dicionário moderno, “o Oxford”, como designamos a obra monumental organizada por James Murray a partir de 1879 (20 volumes). Ora, não bastava incluir uma palavra no dicionário – era preciso mostrar como ela tinha chegado até nós, como fora usada ao longo dos séculos e de que forma “os autores” lhe tinham modificado o sentido. Murray, que falava 18 línguas, era um erudito mas, além de anotar as palavras dos escritores, acabou por prestar atenção à linguagem popular, o que fez do Dicionário de Oxford uma obra pioneira. Uma beleza. Penso nisso quando imagino o dicionário informal de certos best-sellers portugueses; parece que a ideia, hoje, não é a de usar o tesouro e os mestres da nossa língua, mas a de, por preguiça (“e para ser entendido”) banalizar e empobrecer orgulhosamente a escrita. Ao folhear os manuais de Português vejo a mesma pobreza. É um legado muito triste.

Da coluna diária do CM.

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Clark Gable.

por FJV, em 01.02.21

Podíamos dar voltas e voltas em redor de Rhett Butler, a personagem interpretada por Clark Gable (1901-1960) em E Tudo o Vento Levou (1939), ao lado de Vivien Leigh. Cínico, destemido, perigoso, herói em silêncio mesmo quando sabe que está do lado errado ou condenado a uma derrota previsível, Rhett nunca perde nem a aura de cavalheiro nem o tom de amargura sem ilusões. É difícil separar Clark Gable desse papel, que marcou todos os filmes que fez daí em diante, de Mogambo (de John Ford, com Ava Gardner e Grace Kelly) a Os Inadaptados (de John Huston, com Marilyn Monroe), até mesmo em comédias inocentes, como Começou em Nápoles (com Sophia Loren). Mas a filmografia de Gable, que é vasta, deu-nos sobretudo um grande ator, um intérprete capaz de usar quase todas as máscaras sem perder a elegância de um patife e o sorriso de um cavalheiro. Modelo de uma masculinidade de outros tempos (até na sua paixão comovente por Carole Lombard), mítico sedutor de Holywood, Clark Gable é inesquecível. Até hoje, quando passam 120 anos sobre o seu nascimento. Não, não podemos esquecê-lo.

Da coluna diária do CM.

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Diálogos bufos e facetos.

por FJV, em 28.01.21

De entre os “romances políticos” do século XIX, há três que vale a pena ler a propósito dos nossos tempos: As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis (com o suplemento militante e o idealismo infantil de Os Fidalgos da Casa Mourisca), o extraordinário Eusébio Macário (e a continuação em A Corja), de Camilo, e O Conde de Abranhos, uma comédia burlesca (a que se podem acrescentar A Capital e Os Maias) de Eça. É um mundo: os diálogos bufos e facetos, as nomeações de conveniência, a corrupção, os pantomineiros e velhacos, as conveniências, a impunidade dos peraltas e caciques, a ignorância provinciana, a boçalidade, a apropriação de vantagens; mas também o povo maltratado e pobre a quem se pode mentir e que não sabe nem quer distinguir a verdade da mentira, bem como a manipulação sem vergonha que passa por habilidade pura. A classe que está hoje no poder (bem como a que espera que, por milagre, o poder lhe caia no colo) sabe que tudo isto lhe podia ser fatal noutro país – mas só aqui os 303 mortos da pandemia podiam ser anunciados apenas depois do debate parlamentar.

Da coluna diária do CM.

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O patriotismo é o último refúgio de um canalha.

por FJV, em 27.01.21

O patriotismo é o último refúgio de um canalha. A frase é de Samuel Johnson (1709-1784), autor notável, e convém lembrá-la. Frequentemente, em circunstâncias funestas, críticas e dolorosas, invoca-se o patriotismo como uma espécie de benção e tábua de salvação. Não é. Temos uma ideia do que é patriotismo – mas não somos capazes de o definir. Como temos uma noção do que é a pátria – mas ela é várias coisas. Nos últimos tempos, as autoridades (um conceito que também é flutuante) insistem em que criticar o governo, duvidar das suas decisões ou discutir as medidas durante a pandemia – é anti-patriótico. Ou criminoso, até. Trata-se, naturalmente, de resultado do cansaço e da pressão extrema vivida no último ano, e só assim pode ser desculpada. Não encontro outra explicação porque uma acusação como essa é, sempre o foi, o último refúgio de um canalha. Em termos políticos é a expressão de um autoritarismo provinciano; no resto, é uma pulhice disfarçada. No momento em que diariamente morrem os nossos, anonimamente e sem qualquer outra proteção diante do silêncio, a acusação é vergonhosa. 

Da coluna diária do CM.

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Limpar todo o passado.

por FJV, em 26.01.21

Estamos salvos. A Disney americana acaba de retirar do seu catálogo filmes infantis como Dumbo, Peter Pan ou Os Aristogatos – e onde os colocou? No catálogo para adultos, porque os filmes “incluem estereótipos e conteúdos racistas”. Mas, como se não bastasse esta imbecilidade, a Disney – que se transformou numa fábrica de patetas – também inclui na projeção dos vídeos um aviso informando os adultos de que “este filmes podem conter representações culturais obsoletas”. Basta uma referência (há um gato siamês em Os Aristogatos que pode ofender pessoas asiáticas) para estragar tudo. Não vale a pena invocar a razão, a necessidade de alguma correção sensata, um módico de serenidade e ponderação – a revolução tem de ser feita depressa e com violência. É um princípio leninista e maoista que as plataformas e a indústria americana do entretenimento adotam, tomadas de assalto por uma nova elite ignorante e quadrada, formada por “ativistas do bem”, desejosos de limpar todo o passado e toda a memória. No fundo, são pornógrafos disfarçados de puritanos.

Da coluna diária do CM.

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