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Seu Jorge, o outro.

por FJV, em 10.08.22

Comecei a ler Jorge Amado (1912-2001) como qualquer português letrado – sobretudo os seus primeiros livros até Capitães da Areia, como O País do Carnaval, Cacau ou Jubiabá, da década de 30. Era a fase comunista de Amado; não nos fez mal nenhum conhecer aquele universo de pobreza, injustiça e poesia (a de Mar Morto, por exemplo), cuja forma definitiva é o seu microcosmos de São Jorge dos Ilhéus (1944). Depois, veio a fase da recusa daquela velharia – de Amado, da sua influência e da aritmética tropical do realismo socialista. Tinha, porém, faltado a leitura de Gabriela (de 1958, que a televisão transformou com êxito), de Os Velhos Marinheiros (1961) ou do seu melhor romance, Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966, depois no cinema, com José Wilker e Sónia Braga, no filme de Bruno Barreto), puro prazer e malandrice, invenção danada e maravilhosa, que talvez lhe tenha permitido depois escrever Tieta do Agreste (1977) ou um belo romance sobre negritude, Tenda dos Milagres (1969). Com estas leituras, e com Jorge Amado (que tive a sorte de conhecer como um homem generoso, afável, com apetite) já distante da engenhoca política inicial (hoje, o seu Bahia de Todos os Santos, um guia de Salvador, está condenado a ir ao castigo dos radicais), era a redescoberta da faísca do seu talento. Passando hoje 110 anos sobre o seu nascimento, deixo-lhe aqui um abraço amistoso, seu Jorge.

Da coluna diária do CM.

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Larkin, cem anos.

por FJV, em 09.08.22

Não é um poeta fácil, mas seria indesculpável deixar passar em silêncio o centenário do nascimento do inglês Philip Larkin (1922-1985), um dos meus autores mais celebrados e certamente um dos poetas mais lidos ou conhecidos em Inglaterra. Associo-o quase sempre a Yeats ou W.H. Auden – dois grandes –, mas a tristeza e a melancolia de Larkin são maiores, vagueiam como uma música (foi crítico de jazz do Telegraph, e alguns dos seus textos são comoventes), importunam como a chuva num dia de outono, ou a dificuldade de encontrar uma palavra feliz para dizer entre “os jardins de sombras oblíquas” a meio da madrugada. A poesia de Larkin vagueia como um diálogo sobre a fealdade das coisas, procurando o retrato fiel, familiar, íntimo, cru, solitário, obsceno muitas vezes. Recentemente, a crítica tem sido pouco amável, descobrindo na penumbra sinais de racismo e misoginia; mas nada apaga a beleza de dois livros traduzidos em Portugal – o romance Uma Rapariga do Inverno, traduzido por Ana Maria Chaves, e a coletânea de poemas Janelas Altas, traduzida por Rui Carvalho Homem. Um dos grandes.

Da coluna diária do CM.

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Humor e poesia.

por FJV, em 08.08.22

Um fim de semana de verão que nos trouxe duas despedidas – a de Ana Luísa Amaral (1956), recordação da poesia, professora de literatura; e a de Jô Soares (1938), humorista de um tempo que já não pode rir-se à vontade. Sobre Ana Luísa (que está ligada à minha vida) já escrevi ontem: ela será sempre a luz de um relâmpago a iluminar a beleza. Jô Soares foi, como Rubem Fonseca ou Jorge Amado, um brasileiro que enriqueceu a nossa língua, tão aborrecida naqueles tempos dos anos 70 e 80, tão cheia de solenidades – recordamos todos os seus tiques, frases, personagens ou quadros de paródia. Os humoristas são essenciais à nossa vida (tal como os poetas). Os grandes, como Jô, inventaram o riso onde não estava nada, puseram-nos a duvidar da língua e das certezas. Brincam com o sexo e com a pátria; hoje, nestes tempos de censura, o seu humor seria perseguido. Escreveu romances em que parodiou o policial; era um homem culto, porque o grande humor precisa de grandeza. Brincou consigo próprio (o gordo), brincou muito com os portugueses. Uma grande arte, notável, a de brincar e de fazer rir.

Da coluna diária do CM.

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Uma árvore para Ana Luísa.

por FJV, em 07.08.22

Floresta de carvalhos de outono com um caminho largo | Foto Premium

A última vez que falei com Ana Luísa foi em maio deste ano, quando me chegou O Olhar Diagonal das Coisas (Assírio & Alvim), o volume de 1400 páginas que reúne a sua poesia, de Minha Senhora de Quê (1990) até Mundo (2021) e onde estará sempre, luminosa, a escrita ainda clássica de Entre Dois Rios e Outras Noites (2008). O encontro anterior fora há um ano, numa espécie de congresso sobre “árvores e literatura”, logo depois de ter recebido o Prémio Reina Sofía, que lhe foi atribuído pela sua obra. Nada vinha mais a propósito: as árvores ensinam-nos aquele silêncio que muitas vezes vem na poesia e que, quase sempre, inclina a nossa vida para a contemplação. Depois, a notícia da doença – e tudo seria rápido demais, como sempre é; a recordação dos que deixam marca nunca é mais do que o brilho de um relâmpago. Passando os olhos pelos seus poemas, vêm lá esses relâmpagos. O da poesia inglesa (Blake, Dylan Thomas, Emily Dickinson), o de Camões, o de si mesma, o da sua melancolia. Brilhante, intuitiva, cultíssima nos estudos comparatistas de literatura, poeta maior, Ana Luísa Amaral será sempre esse relâmpago que mostra o caminho da beleza que fica como uma árvore que ainda não tem nome.

Da coluna diária do CM.

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Chavela Vargas.

por FJV, em 05.08.22

Eu me chamo Chavela Vargas. Não se esqueçam do meu nome” | Cultura | EL  PAÍS Brasil

Na vida mexicana, Chavela Vargas (1919-2012) nunca precisou de anunciar a sua sexualidade para se perceber o essencial: era lésbica, vestia-se como homem, murmurava-se do seu namoro com Frida Khalo (e Ava Gardner) e tinha uma voz incomparável. Em 1995 quis ouvi-la num bar em Coyoacán, na Cidade do México, onde decidiu que ia regressar à música depois de uma descida aos infernos do álcool; ouvir as suas rancheras e boleros era regressar às origens: José Alfredo Jimènez, Cuco Sanchez ou Agustín Lara, clássicos que a apadrinharam. A sua voz áspera e arrependida a cantar ‘Llorona’ ou ‘Paloma Negra’ ecoava por todos os pátios do México. Porém, Chavela Vargas, que foi amiga de Juan Rulfo, Picasso ou García Márquez, era mais do que uma cantora de rancheras – era o álcool, a alma perdida, o excesso de todos os seus demónios sobre um bando de mariachis. Nos seus últimos anos foi redescoberta (em parte, graças aos filmes de Almodóvar) como uma grande dama da canção. Passam hoje dez anos sobre a sua morte, em Cuernavaca, a terra onde se passa Debaixo do Vulcão, o livro de Malcolm Lowry.

Da coluna diária do CM.

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Norma Jeane.

por FJV, em 04.08.22

Cuba lembra Marilyn Monroe com exposições e cinema | Exame

Chegados aqui é preciso concordar no seguinte: Norma Jeane Baker (1926-1962) não era uma grande atriz. Como cantora, aquela voz foi sempre perversamente adolescente. Em Clash by Night (1952), um filme de Fritz Lang em que contracena com Barbara Stanwyck, podia ter escolhido aquela saída interpretando papéis dramáticos e “sérios” – como o seu derradeiro filme, Os Inadaptados, de John Huston, com Clark Gable e Montgomery Clift, num argumento do seu marido, Arthur Miller. Mas recordamo-la sobretudo em Como Se Conquista Um Milionário, O Pecado Mora ao Lado, e Quanto Mais Quente Melhor – ou a cantar os parabéns a JFK três meses antes de ter sido encontrada morta por overdose. Tudo o resto, sabemos: as suspeitas sobre a morte, a vida de adolescente, o início da carreira, os casos amorosos. Mas nada lhe retira um grão de beleza – aliás, o maior ícone de beleza e de sensualidade no século passado. Marilyn Monroe morreu há 60 anos e continuamos suspensos desse “grão de beleza” que nos devolve tanto a sua imagem de inocência perversa como de atrevimento e perdição permanentes.

Da coluna diária do CM.

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Os portugueses – quem vê, um vê todos,

por FJV, em 03.08.22

Além de racistas e xenófobos, como ontem não se cansavam de dizer, os portugueses – esta gente à nossa volta – são também, e passo a enumerar, pessoas preguiçosas, honradas, loiras, de ascendência africana, gordas, complacentes, generosas, praticantes de umbanda, benfiquistas, angustiadas, diabéticas, de pernas esculturais, de pele branca, com seios generosos, de ascendência paquistanesa, de cabelo frisado, sem bigode, com barbas hirsutas, de tornozelos finos, calvas, saudáveis, fanáticas de atletismo, que gostam de receber os estrangeiros, sportinguistas, demasiado descuidadas ao volante, com gosto pela comida, magras, com problemas de dioptrias, de ascendência ostrogoda e vagamente celta, boas nadadoras, fracas futebolistas, fraquíssimas em economia, de rabos elegantes e bíceps controversos, que não gostam de bacalhau, que usam bigode, de ascendência macaense ou goesa, portistas, apreciadoras de quinoa e cabidela, mentirosas, preocupadas, morenas, doutoradas em engenharia, que gostam de cantar sevilhanas e detestam fado. Amanhã podemos continuar. Isto quem vê um vê todos, não é?

Da coluna diária do CM.

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Estruturais, tão estruturais que somos.

por FJV, em 02.08.22

Houve um tempo em que os linguistas se ocupavam também de filologia e faziam a história das palavras – também era a época em que as pessoas se preocupavam com a elegância e a correção das suas frases e não apenas com a sua “eficácia”. A “eficácia” é um conceito demasiado sensível, porque não depende de nenhuma gramática, de nenhum sentido, de nenhum respeito pelas palavras. O objetivo é conseguir determinado efeito. Com o analfabetismo reinante e desculpado (e muitas vezes valorizado), o uso de palavras como “resiliência”, “robusto”, “evidência (científica)” leva a que seguidores compenetrados e servis usem a mesma linguagem e a repliquem – apreciam ser identificados como parte do exército que usa aquele dicionário truncado. Depois de o primeiro-ministro ter usado a expressão “problemas estruturais” para mencionar aqueles que só iria resolver depois de setembro, multiplicou-se o uso de “estruturais”. Está a ser uma epidemia de coisas “estruturais”, com o repenicar do beicinho muito volátil, a dizer: “Eu já aprendi, eu já sei fazer coisas estruturais.” A tolice tem certa resiliência.

Da coluna diária do CM.

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Ler Vidal em Agosto, enquanto os políticos portugueses posam no areal.

por FJV, em 01.08.22

Em agosto, os políticos vão de férias e “aproveitam o tempo” para ler alguns livros (que não leem durante o ano) de que dão público conhecimento para saibamos como são “os seus interesses”, as suas “preocupações” e o nível do seu “endividamento cultural”. Lembrei-me disso porque vi as listas de leitura de alguns deles (no Público), cheias de atualidade ou de virtude – e porque ontem passavam 10 anos sobre a morte de Gore Vidal, um dos grandes autores americanos do final do século XX (os outros são Updike, Bellow, e talvez Roth e Mailer). As duas coisas não têm ligação; Gore Vidal (1925-2012) é puro génio, elegância e pontaria, autor de um ciclo de sete romances (Narrativas do Império) que é bom ler para compreender a América, mas também de Juliano e Myra Breckinridge, e de alguns ensaios luminosos. Já as escolhas dos nossos políticos são o que são – ou sinceras ou música de baile, mas não os ajudarão muito. Vidal, cáustico, e pessimista, via o mundo repleto de lixo, barbárie e vulgaridade, assistindo ao fim de uma civilização; infelizmente, tinha razão. São os dois caminhos.

Da coluna diária do CM.

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Os impérios e a história.

por FJV, em 28.07.22

A invasão da Ucrânia despertou algum interesse pela história, mas foi sol de pouca dura. O ensino público europeu dá cada vez menos espaço ao estudo da história. É um erro grave – e o resultado do sentimento de culpa insuflado hoje em dia no ocidente, que vive da retórica anti-imperial e onde a regra é a de pedir desculpa pelo passado.Uma suposta “nova ordem internacional” assenta na forma como se interpretam as heranças dos vários impérios, a começar pela violência da Rússia dos Romanov (1613-1917) e dos sovietes (1917-1986), mas também pelo da dinastia Qin (221 a.C-206 a.C) à Qing na China (1644-1912), pelo da ambição otomana de Erdogan (1299-1922) ou na dos domínios persas em torno do Irão (do Líbano ao Afeganistão) ou na Índia. Estas coisas aprendem-se no contacto com a história, que também ensina que a União Europeia agrupa antigos impérios (do de Carlos Magno aos Habsburgos ou à Prússia, por exemplo). A questão é distinguir-se a ordem imperial de outrora e a geografia da memória. Se o ocidente abdica da memória porque ela não está conforme às ideias de hoje, daqui a pouco não terá passado nem futuro.

Da coluna diária do CM.

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Os professores vagamente vingados.

por FJV, em 27.07.22

O Global Teacher Status (Varkey Foundation) analisa a forma como os professores são respeitados em relação a outras profissões, qual o seu estatuto, as suas retribuições, a confiança que neles é depositada pelos pais, alunos e resto da comunidade. Os dados de 2018 incluem 35 países, cabendo o topo à China e, logo a seguir, à Malásia e a Taiwan (nesses três países, os professores são recrutados entre os 10% melhores de cada curso); Portugal está na 23.ª posição. Não admira que a Comissão Europeia tenha admoestado o nosso país sobre os salários de professores contratados a prazo (manchete do CM de ontem) – parentes pobres e recorrentes do sistema, cuja situação profissional pode prolongar-se absurda e indefinidamente. Não basta, no entanto, resolver esse problema. Os partidos, os burocratas e os políticos transformaram os professores em “classe detestada”, desprotegidos em casos de violência e condenados à burocracia. Resta-lhes pouco tempo para serem professores; são psicólogos, animadores, pais de substituição, gestores. A forma como são tratados dá uma imagem de como o país é tratado.

Da coluna diária do CM.

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Alexandre Dumas, pai (1802-1870).

por FJV, em 25.07.22

Nunca gostei de histórias de espadachins, de modo que o meu primeiro livro de Alexandre Dumas (1802-1870) foi A Tulipa Negra, uma história de amor holandesa, passada no cárcere – que me aborreceu muito e nunca terminei. Depois li Conde de Monte Cristo, na velha edição da Civilização, em quatro volumes, que ainda guardo. Como todos os adolescentes, a figura de Edmond Dantès foi apaixonante, tal como a sua vingança sobre Danglars, Mondego, Morcerf e Villefort, os malvados de Paris. Só na idade adulta li Os Quatro Mosqueteiros (bom como A Rainha Margot e o aventuroso conjunto de Memórias de um Médico, com Joseph Balsamo), e por causa de O Clube Dumas, romance de Arturo Pérez-Reverte; foi acertado – os imbróglios de D’Artagnan com Athos, Porthos e Aramis só se compreendem realmente no contexto da política francesa sob Luís XIII (casado com Ana de Habsburgo, infanta de Portugal), Richelieu e Mazarin. Alexandre Dumas, espalhafatoso e figura de romance de quem hoje assinalamos 220 anos sobre o seu nascimento, escreveu o retrato folhetinesco dessa época. De capa e espada, como no cinema.

Da coluna diária do CM.

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Hopper.

por FJV, em 22.07.22

Edward Hopper | Meer

Passam hoje 140 anos sobre o nascimento de Edward Hopper (1882-1967), um dos mais importantes pintores norte-americanos. Há pouco a dizer sobre os seus quadros, aos quais aderimos como uma sombra à procura do original: seres abandonados, envoltos em silêncio, lendo, bebendo, esperando, contemplando. Nenhum pintor conseguiu, como Hopper – que foi um mestre da melancolia americana – mostrar esse mundo urbano, solitário e cheio de cinema, transitando entre quartos de hotel, balcões de restaurantes, salas de leitura, compartimentos de comboios ou casas da Costa Leste, penduradas sobre o mar ou em pradarias e falésias indefinidas. As suas personagens parecem sempre suspensas e paralisadas, como se aguardassem alguém com quem possam dialogar no meio dessa geometria colorida e amável. Era fácil compreender estas referências no século XX; ao contrário das vanguardas em que cresceu, Hopper preferiu uma pintura figurativa, realista, a meio caminho entre a réplica fotográfica e a ilustração – nada disso o impede de ser absolutamente genial, deixando em cada quadro um rasto de beleza sem tormento.

Da coluna diária do CM.

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Apropriação cultural.

por FJV, em 21.07.22

Em maio de 1928, o poeta Oswald de Andrade publicou o Manifesto Antropofágico e com isso começou a cultura brasileira; a “antropofagia cultural” não defendia o canibalismo em si mesmo – mas que se devorasse tudo o resto: na música, pintura, literatura, cozinha, moda, o que fosse. Deglutir o que nos é estranho, usar o que é dos outros, desde as tranças no cabelo aos ingredientes da sobremesa. Essa foi a génese da modernidade, que hoje enfrenta uma barulhenta e decidida vaga reacionária que luta contra a “apropriação cultural”, encabeçada por indigenistas e nacionalistas. Não são criadores nem pessoas ousadas e livres; no mundo da cultura, são uma espécie de fiscais que controla a licença de isqueiro, como no tempo do fascismo. Esta pobre gente inculta mas com berraria, acha que a posta mirandesa só pode ser comida em Sendim, que os piercing dos ianomani só podem ser usados na Amazónia e que o cérebro só pode ser usado longe deles. Uma das coisas que ignoram é que tranças frisadas se usavam no Mediterrâneo há mais de 2000 anos, mas isso é um pormenor para o seu exibicionismo flibusteiro.

Da coluna diária do CM.

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D. Maria de Lourdes Modesto.

por FJV, em 20.07.22

Maria de Lourdes Modesto - Documentários - RTP

No seu derradeiro livro, Coisas Que Eu Sei (Oficina do Livro), publicado em maio do ano passado, Maria de Lourdes Modesto (1930-2022) lamenta que estejam a desaparecer as memórias da cozinha portuguesa e declara que “o risco de desfiguração e perda se tornou superlativo”. Ao longo dos últimos 50 anos, preocupou-se em divulgar, proteger e clarificar essa herança cultural transmitida nas nossas cozinhas – ela sabia que a principal fonte dessa tradição eram os fogões domésticos onde nascia um sistema que juntava paladar, história económica e social, geografia, biologia e sensatez. Esse último livro é um modelo de precisão, simplicidade e gosto. Só isso permite que a receita de ovos Bénédictine, por exemplo, tenha apenas três linhas e meia; nada mais. O seu Cozinha Tradicional Portuguesa (1981) continuará a ser uma referência monumental; mas o que permanece, e não se deve desprezar, é esse ideal de sensatez e descoberta que trouxe para a nossa mesa, relembrando o que construiu os grandes sabores das nossas vidas. Num mundo de exibicionistas, ela foi uma Grande Dama discreta e sábia.

Da coluna diária do CM.

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O general Verão.

por FJV, em 19.07.22

Tanto os suecos (no século XVIII), como os franceses (Bonaparte, em 1812) ou os alemães (1943) experimentaram a força do “general Inverno”, o grande aliado da Rússia que derrotou exércitos e chefes militares otimistas. Temo que, desta vez, os russos agradeçam ao “general Verão” a desmobilização do interesse ocidental pela Ucrânia. Com o verão e as férias europeias, essa desmobilização deixa à solta, como um fantasma, a agressividade da invasão russa – que, além das cidades e das vidas destruídas, da fome e da ameaça a todo o mundo, arrasou bibliotecas, museus, edifícios históricos e religiosos, centros culturais, museus, escolas e universidades (os dados da UNESCO falam de mais de 300 locais de interesse cultural atacados ou destruídos). O ocidente, muito preocupado com as políticas identitárias e as pequenas “guerras culturais” sobre o que é “género” e o que é “sexo”, sobre o que é censurável, admissível e ofensivo, esquece esta verdadeira guerra cultural – a destruição massiva e propositada, orientada pelo aparelho militar russo em território estrangeiro. Esta é uma guerra verdadeira.

Da coluna diária do CM.

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A censura.

por FJV, em 18.07.22

Agora, que se fala muito em cancelamento e censura, ou em reavaliação da história, recordo apenas que a onda de maluquinhos já vem de há muito, e sempre em nome de excelentes causas. Ninguém se recorda hoje mas, em março de 1983, o jornal francês Libération (um porta-voz dessa espécie) propôs que a ministra dos Direitos da Mulher (no 3.º governo socialista de Mitterrand-Mauroy, e na sequência da sua lei anti-sexista), colocasse no índex o Pantagruel, de Rabelais, As Neves de Kilimanjaro, de Hemingway, Judas, o Obscuro, de Thomas Hardy, toda a obra de Kafka, a poesia de Baudelaire e, claro, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Porquê? “Provocação pública e ódio sexista.” Toda a obra de Kafka e Baudelaire? Flaubert? Convém lembrar que a sanha persecutória que hoje é praticada pelas boas consciências progressistas tem raízes profundas na história dos seus desejos. A ministra não acedeu (Mitterrand não deixou); mas é bom saber que certas almas defendiam um mundo que não podia ler Kafka, nem Baudelaire, nem Flaubert, nem Hardy ou Hemingway, entre outros. Ontem como hoje.

Da coluna diária do CM.

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Kevin Spacey.

por FJV, em 15.07.22

Kevin Spacey é um dos atores que mais admiro, que mais gosto de ver atuar (revejo House of Cards todos os anos, vejo Beleza Americana de vez em quando) que mais me espantam pelo silêncio em redor das acusações de “comportamento inapropriado”. Refiro-me a “cinco crimes sexuais” cometidos sobre três homens, “entre os 30 e os 40 anos”. Vejamos. Olarila. Que coisa. Entre os 30 e os 40, repito – ou seja, gente na plena posse das suas responsabilidades e no chamado “gozo da idade adulta”, que acusa Kevin Spacey de agressão. Castiguem-no. O segundo ponto é o do “comportamento inapropriado”; parece que Spacey teve esse tipo de “comportamento” enquanto passava pelo corredor ou no acesso ao palco, ou num vão de escada, ou entre os reposteiros de um salão onde decorria um cocktail. O “comportamento inapropriado” dá hoje origem a julgamento em tribunal, processo judicial, despedimento compulsivo, desprezo pelos seus pares, silenciamento geral em tudo quanto é lugar e inclusive cenas suas, em filmes (de Ridley Scott), que foram retiradas. Bem vistas as coisas, mariquinhas é o que eles são.

Da coluna diária do CM.

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Angola.

por FJV, em 14.07.22

Independentemente da tragicomédia familiar, que o pudor impede que se comente, há um grande desfile de elogios fúnebres e de discussões solenes sobre o legado de José Eduardo dos Santos. Para afastar a polémica podia dizer-se que se trata de uma personagem “boa para um romance” – a verdade é que já está em alguns, sobretudo na sua capacidade de algoz. Desde a independência, para não irmos mais além, houve vários regimes: o de Agostinho Neto até ao 27 de maio de 1977, quando se realizou a grande purga no partido do poder e se instalou em definitivo o gulag angolano; os dois tempos de José Eduardo dos Santos, que herdou o paísem desordem e instalou a sua oligarquia cleptocrata num país cheio de pobreza, derrotou a UNITA, fingiu não ser um chefe de regime de partido único, continuou a encher as prisões e a empregar bandidos arrogantes até entrar em derrocada; finalmente, o de Lourenço, que tenta uma certa normalidade, que só será conseguida quando o partido sair do poder. Em resumo é isto, com mais ou menos elegância. Dado o número de vítimas dos vários regimes, prefiro esta maneira.

Da coluna diária do CM.

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O calor.

por FJV, em 13.07.22

Mesmo a milhares de quilómetros, a vaga de calor não tem apenas um valor meteorológico – tem uma dimensão trágica. Urbano Tavares Rodrigues tem um romance com esse título, tomando o lado benigno do calor. Eça de Queirós escreveu sobre o “calor de ananases” e citou um outro – conhecido de Camilo, naturalmente –, o “de derreter untos”. Era o calor do século XIX, manso como um aldeia com campanário e filarmónica ao domingo. A citação mais literária que conheço é a de Wilfred Thesiger, um inglês nascido em Addis Abbeba, também conhecido pelo nome de Mubarak bin Landan (1910-2003), que se apaixonou pelas arábias e escreveu sobre “a fornalha do deserto”. Mas nunca encontrei calor tão maléfico como o de Grande Sertão Veredas (1953), de João Guimarães Rosa, ou o de Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938). O calor mais hipócrita é o das vozes da rádio logo de manhã, e que ao longo de mais de metade do ano pedem “bom tempo” e o fim da chuva como se o mundo fosse uma cidade à beira mar onde nascessem caipirinhas debaixo de jacarandás pegajosos. Depois, à tarde, são “ativistas pelo planeta”.

Da coluna diária do CM.

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