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David Ricardo.

por FJV, em 18.04.22

Nem David Ricardo ou alguém da sua família puderam recorrer às manigâncias deploráveis e imorais com que se sujou a memória da sinagoga Mekor Haim Kadoorie – a sinagoga do Porto – para atribuir títulos de descendentes de judeus sefarditas portugueses. Mas devemos relembrar o economista David Ricardo, nascido há exatamente 250 anos, e cuja família cumpriu a habitual peregrinação dos sefarditas depois da expulsão de Portugal: primeiro Antuérpia, depois a Holanda, depois Inglaterra. Ricardo, que já nasceu em Londres em 1772, converteu-se ao cristianismo (o que lhe valeu o ostracismo da família) e foi um dos grandes pensadores da economia no século de Adam Smith ou de Malthus (de quem foi amigo). Em 1817, já rico e próspero, com grande atividade política e especulativa, publicou o clássico Princípios da Economia Política e Tributação, que teve larga influência, até nos pensadores marxistas. As suas teorias do valor e da renda são fundamentais. No final da vida comprou o palacete de Gatcombe Park, perto de Gloucester – onde morreu em 1823; a rainha Isabel II comprou-o em 1976, já agora.​​

Da coluna diária do CM.

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Putin, coisas básicas.

por FJV, em 14.04.22

Contrariando o princípio de que a História só é previsível depois de as coisas acontecerem, tenho seguido a saga dos analistas que tentam, com ternura muito lambareira, “compreender o lado de lá”, ou seja, a Rússia. Louvo o esforço, muito indulgente e desprendido, mas também era bom entendermos o nosso lado. A primeira coisa a estabelecer é que a Ucrânia é uma antiga colónia russa, e que a Rússia (a maior fornecedora de gás e petróleo, um colosso territorial e estratégico a respeitar como se respeitam os rinocerontes em campo aberto) é uma cleptocracia autocrática que tem financiado o terrorismo digital e a desestabilização das democracias (as nossas, ponto final). A invasão da Crimeia pôs muitos europeus a pensar que as democracias eram mais fracas do que os regimes autoritários; uma vitória da Rússia abalaria a nossa confiança nos pilares da democracia (soberania, fronteiras, liberdade, bem-estar). Por mais fofinha que seja a imagem de Putin nas entrevistas que se têm visto nas televisões (como Hitler fotografado a acariciar cãezinhos), é importante recordar coisas básicas.

Da coluna diária do CM.

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Páscoa.

por FJV, em 13.04.22

Como dizem os hipsters e as pessoas da moda que sermoneiam no Instagram, os mistérios das religiões estão fora do tempo e fazem hoje parte de uma memória muito vaga. Ao “libertar-se da religião”, a sociedade “libertou-se” também da sua dimensão histórica (em Espanha, os novos programas de história do secundário não recuam além de 1812). Depois de laico, o Ocidente fez-se cínico e, seguidamente, envergonhado e ateu. Seja como for, amanhã, quinta-feira, inicia-se o “êxodo” do fim de semana da Páscoa, que ouvi na televisão ser, antes, “férias de Primavera” – para não ferir suscetibilidades. Poucos relacionarão a palavra “Páscoa” com o êxodo bíblico e a libertação dos escravos do Egito que depois tiveram a sua passagem pelo deserto. A Páscoa, de qualquer modo, celebrava-se mil anos antes de Cristo com esse significado, pessach, do hebraico, passagem. Hoje temos o cordeiro da Páscoa (outra herança bíblica, já agora) e os ovos de chocolate, o fim de semana dilatado, o repouso merecido, a alegoria cristã da ressurreição no domingo. Repouso e libertação. Vale a pena explicar tudo isto? 

Da coluna diária do CM.

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Nuno Júdice.

por FJV, em 13.04.22

Desde 1972, Nuno Júdice (1949) publicou 40 livros (além de trinta títulos de ficção e ensaio). De A Noção de Poema até Regresso a um Cenário Campestre (de 2020), há um fio condutor que não nos indica um caminho, mas várias bifurcações reunidas em torno daquele primeiro título – porque quase toda a sua poesia é uma investigação sobre a natureza do poema e da poesia, da sua matéria e da sua transformação, da sua história e da sua existência fora da história, bem como das suas melancolias. Há, nesse percurso, títulos a que regressamos para ler alguma da sua melhor poesia (A Partilha dos Mitos, Lira de Líquen, Meditação sobre Ruínas, O Breve Sentimento do Eterno, A Pura Inscrição do Amor, alguns exemplos), mas numa obra tão vasta é difícil desenhar uma escala ou uma cartografia de temas recorrentes. Construída depois da modernidade e das suas catástrofes, a obra de Júdice procura identificar os sinais de poesia que sobrevivem – parte deles estão reunidos em 50 Anos de Poesia (Dom Quixote), que acaba de sair, e onde o autor faz uma escolha tão difícil como imprescindível. 

Da coluna diária do CM.

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Roupa a secar.

por FJV, em 12.04.22

Acabo de ler um texto de Ralph Nader (foi quatro vezes candidato à presidência dos EUA entre 1996 e 2008) em que este jurista e ambientalista implora que os seus concidadãos salvem o mundo secando a roupa ao ar livre. Não é um pedido no vazio. Ele invoca a sugestão do ambientalista Joe Wachunas que há 20 anos descobriu que “os italianos secavam a roupa em varais, estendais, varandas e janelas abertas”. Devia ter vindo a Portugal, Ralph Nader. Desatento como sou, não sabia que existia uma hashtag, por sinal bem popular (#sundrying): “É uma nova tendência que consiste em secar a roupa ao sol. Poupa energia e é bastante ‘ecofriendly’, amiga do ambiente.” O meu filho enviou-me vários posts aparecidos na net e na imprensa inglesa e americana sobre esta descoberta fantástica, e verifico que o International Journal of Research publicou mesmo um artigo intitulado “Benefícios de secar a roupa ao sol”, onde se assevera que “protege o meio ambiente, evitando combustíveis fósseis”. Sim, é uma descoberta de truz. Peço aos meus leitores que salvem o mundo, pondo a roupa a secar lá fora, por favor. Que descoberta fantástica, não é?

Da coluna diária do CM.

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Tartini, o Diabo.

por FJV, em 08.04.22

Eu teria 18 anos quando, por vários motivos, ganhei coragem para escrever a Jorge Gil (1945-2019), o realizador do programa «Em Órbita», da Rádio Comercial. O «Em Órbita» passava música antiga e barroca e eu ouvia-o todos os fins de tarde. Na volta do correio, Jorge Gil respondeu com uma bela carta (a lápis) e um disco com três concertos para violino de Giuseppe Tartini (interpretação dos Solistas de Veneza e Uto Ughi). Devo muito da paixão pela música a Jorge Gil e a esse disco de Tartini (1692-1770, veneziano nascido na atual Eslovénia) – sobre cujo nascimento passam hoje 330 anos. Tartini começou por estudar música porque a família queria vê-lo frade – mas a sua obra mais conhecida, quinze minutos de desafio, delírio, fantasia e frenesi, leva o nome de Trilo do Diabo (de que há uma bela versão de Ughi, justamente). A lenda é a de que Tartini sonhou que o Diabo estava ao pé da sua cama a tocar violino. Mas se o ‘Trilo’ é puro virtuosismo, difícil de tocar, os seus concertos e sonatas são uma busca de espiritualidade e de uma harmonia em repetição contínua. Convido-vos a ouvi-lo.

Da coluna diária do CM.

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Relações de poder.

por FJV, em 07.04.22

Há cinco anos, David Friend, que foi editor da revista Vanity Fair (e portanto sabe do que fala), publicou um livro intitulado The Naughty Nineties, sobre “o triunfo da libido americana”. Eram os anos em que a vida conjugal de um magnata espalhafatoso chamado Donald Trump vinha nas primeiras páginas, em que o caso Clinton-Lewinsky estava horas seguidas na televisão, em que o sexo estava em todos os lugares num país historicamente puritano, mas degradado e pornógrafo. Ontem, a manchete do CM era sobre assédio sexual na faculdade de Direito de Lisboa, uma das nossas fábricas e fornecedora do poder. Isto não se estranha num país que fala de sexo e exibe a sexualidade privada e vida pública nas tvs, e em que as relações de poder são muitas vezes estabelecidas através de troca de favores sexuais. Os desejos sexuais, os vícios, as ameaças e os preconceitos são agora públicos. Não se trata apenas das “relações de poder”, mas de uma nova psique nacional: pessoas mimadas (geralmente palonços tristes e deslumbrados) que julgam tudo lhes ser devido e que todos os desejos são para satisfazer.

Da coluna diária do CM.

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Asimov.

por FJV, em 06.04.22

Isaac Asimov (que nasceu na Rússia em 1920, perto de Smolensk) foi um adolescente até ao final da vida, fascinado com a ideia de um mundo imaginado até ao mais ínfimo pormenor. Um universo que funcionasse na perfeição. Se o checo Karel Čapek imaginou uma revolta dos robôs, por exemplo (na peça RUR, de 1920), Asimov estabeleceu as regras para que isso não acontecesse, as chamadas “três leis da robótica”: nada falhava no seu mundo, não por imposição de um poder superior, mas porque o universo se encaminharia um dia para a perfeição. Na série Fundação (que nos recorda vagamente a saga de Star Treck), a mais famosa de toda a sua bibliografia, estabelece os princípios dessa ordem, em que a velha ordem é substituída por uma hierarquia equilibrada de valores científicos, humanos e morais. Asimov levou milhões de adolescentes e adultos a acreditar na invenção e na imaginação científicas e no poder do conhecimento. Quando morreu, em abril de 1992 (há 30 anos, assinalados hoje), tinha escrito mais de 400 obras. Era um dos modelos do americano utópico, ingénuo e visionário. Destes, agora, só no cinema.

Da coluna diária do CM.

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Xangai portuguesa, China Machado, Art Carneiro e outros.

por FJV, em 05.04.22

Histórias que me apaixonam: pessoas que atravessam o mundo e nunca sabemos quem são. A de ​​Artur José dos Santos Carneiro, aliás Art Carneiro (pai do ex-ministro Roberto Carneiro e avô da maestrina Joana), trompetista e multi-instrumentista da Whitney Smith Orchestra, antes de fundar a Art Carneiro Band e de se tornar estrela do jazz em Xangai (e depois em Hong Kong). A da família Collaço, que manteve, inclusive, uma equipa de hóquei em Xangai. Ou a aventurosa biografia de China Machado, aliás Noeli Maria Machado, pai de ascendência chinesa, mãe com raízes goesas, portuguesa de nascimento, criada em Xangai, menina de família até ter encontrado o toureiro Dominguín, que a deixaria por Ava Gardner – que nunca foi tão bonita como China, claro, que viveu em todo o lado, modelo das grandes marcas e dos grandes fotógrafos (como Richard Avedon) e capa das grandes revistas. Vão ver: é linda. Todas estas histórias, e mais trinta, são contadas por António Caeiro (20 anos correspondente da Lusa em Pequim) no livro Os Retornados de Xangai (Tinta-da-China), que sai hoje. Um livro maravilhoso.

Da coluna diária do CM.

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Intelectuais pela Rússia.

por FJV, em 04.04.22

As cidades tomadas às forças russas mostram o horror a regressar à Europa, pelas mesmas mãos que no final da II Guerra foram responsáveis por carnificinas idênticas na Polónia, na Ucrânia, na Alemanha e na própria Rússia – na altura, o Exército Vermelho, agora o exército russo. Durante anos, muitos intelectuais silenciaram os massacres para não ferir suscetibilidades políticas nem beliscar o regime de Moscovo. Agora, alguns deles, professores, jornalistas, escritores, artistas, queixaram-se de a sua voz não ser escutada (o que é falso) e de as suas posições serem criticadas (o que é normal na democracia de que sempre desconfiaram), mas o essencial é a sua recusa em condenar a agressão russa e em manifestar o mínimo de empatia para com a Ucrânia. Serão cúmplices dos massacres, do morticínio, das violações e da destruição causada pela Rússia num país soberano que invadiu. Em agosto de 1939, Estaline assinou um pacto com Hitler. Em março de 2022, estes intelectuais assinaram um pacto semelhante, com a agravante de já conhecerem as provas da sua infâmia e a forma como a Rússia assassina.

Da coluna diária do CM.

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Haydn.

por FJV, em 31.03.22

Franz Joseph Haydn (1732-1809) nasceu há 290 anos, cumpridos exatamente hoje, quando chove e não chove, quando há um sol tímido a cobrir as mesmas florestas de carvalhos, pinheiros, abetos, faias, urzes, escarpas montanhosas e florestas à beira dos campos da chamada Baixa Áustria. Há uma certa doçura na sua música – sinfonias que nos fazem estar de acordo com a passagem do tempo, discretas e sem grande enigmas, quartetos de cordas que serviram de padrão para a música posterior. Contemporâneo de Mozart, professor de Beethoven, ponte entre o período “clássico” e o romantismo (ou entre o século XVIII e o século XIX), Haydn é esse padrão da música europeia. O terceiro e último andamento do Concerto n.º2 para violoncelo é uma das peças mais populares da sua obra; convido-vos a escutar o concerto na totalidade, mas terminem, por favor, a ouvir todo o Concerto n.º1, menos festivo, com menos flores, menos feliz – mas mais belo. Diz-se que, antes de tomar Viena pela força, em 1809, Napoleão mandou estacionar uma divisão à porta da casa de Haydn para o proteger das bombas; Deus teve isso em conta.

Da coluna diária do CM.

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Se a Rússia sobreviver.

por FJV, em 30.03.22

No Diário do Escritor (agora traduzido por Nina e Filipe Guerra, Relógio d’Água), escrevia Fiódor Dostoiévski: “Mais um confronto com a Europa está de novo em cima da mesa”, e “mais uma vez os europeus olham para a Rússia com desconfiança. Aliás, porque haveríamos de procurar a confiança da Europa? Será que alguma vez a Europa olhou os russos com confiança?” Estávamos em 1876, e o autor de Crime e Castigo comentava a guerra nos Balcãs contra a Turquia num fragmento em que se queixa de os russos serem vistos “como uns bárbaros que vagueiam pela Europa, muito contentes com a possibilidade de destruirmos alguma coisa em qualquer lado”. Dostoiévski é um dos sismógrafos para ler “a alma russa” (o outro seria Tolstoi, mas a sala está cheia de vozes). Enquanto neste momento se joga o destino da Rússia depois de os seus bárbaros terem andado à solta na Ucrânia, convinha que se olhasse para o futuro após Putin, que não sobreviverá muito tempo. As enormes perdas que se aproximam com o balanço dos horrores e da destruição causada são uma vingança a exigir reparação – se a Rússia sobreviver.

Da coluna diária do CM.

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A bofetada dos Óscares.

por FJV, em 29.03.22

Já há alguns anos que não vejo a coisa – nem a noite dos prémios nem o resumo da noite seguinte, mas houve um tempo em que a cerimónia dos Óscares era um palco de elegância, riso, vaidade, celebração e mexericos (tudo natural e humaníssimo) para artistas que tinham merecido chegar lá e se tinham distinguido pelo caminho. Lembro-me de várias dessas noites mas não me recordo de nenhuma cena de bofetada transmitida pela televisão; toda a gente sabe que aconteceram, mas não no palco. Também é verdade que a linguagem e as piadas mudaram bastante, que toda a gente discute sobre se as gracinhas podem versar questões de raça e género, que os únicos momentos agradáveis são os pequenos ‘trailers’ dos filmes, e que os rabos de palha políticos ameaçam transformar aquilo numa modorra insuportável e pouco esclarecida, com atrizes chatas e atores analfabetos a perorar sobre o fim do mundo. Há pouco escrevi a palavra “elegância” porque só um palerma brinca com as doenças dos outros – e isso não tem discussão possível. Merece uma bofetada? Não. Mas merece que pensemos quão tolo se pode se ser.

Da coluna diária do CM.

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O vetusto e pró-soviético Conselho Português para a Paz e Cooperação.

por FJV, em 28.03.22

 que restar da Ucrânia, depois da agressão russa, será reerguido; o que restar da influência russa será castigado durante muito tempo, até à queda definitiva de Putin. Se acontecer qualquer coisa muito diferente, isso significará que o crime compensa e que as monstruosidades cometidas pela campanha russa (negadas, sob todas as evidências, por um grupo de parlapatões que continua a alimentar alguns canais de televisão) são um instrumento admissível no diálogo entre as nações. As ruínas da Ucrânia são o produto dos mitos soviéticos acerca da II Guerra e da sua invencibilidade militar, além dos mitos históricos russos – para não falar da vaidade e da insanidade de Putin, que parece acreditar nos seus delírios, tanto como os seus pobres epígonos portugueses, que se mascaram de “neutros”. O que é extraordinário não é que isto aconteça (é da tradição nefelibata dos herdeiros de Estaline): é que o vetusto e pró-soviético Conselho Português para a Paz e Cooperação tenha ressuscitado com uma campanha para “parar a guerra, dar uma oportunidade à paz” sem condenar claramente a agressão russa.

Da coluna diária do CM.

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Tabucchi, nunca nos despedimos.

por FJV, em 25.03.22

Despedimo-nos de Antonio Tabucchi (1943-2012) há dez anos. Apaixonado por Fernando Pessoa, que estudou longamente e a quem dedicou inteligência e uma intuição elegante, seduzido por Lisboa, onde acabou por morrer, este italiano de Pisa, que ensinou em Siena, Bolonha e Génova, é um dos grandes autores do tempo de que nos despedimos. Noturno Indiano (1984) é uma preciosidade que não merece ser esquecida, juntamente com outras pequenas novelas, narrativas curtas, pequenas histórias – como Mulher de Porto Pim (1983), O Fio do Horizonte (1986) ou Pequenos Equívocos sem Importância (1985). E há a graça de Os Voláteis do Beato Angélico (1987), e os seus memoráveis estudos sobre Pessoa (Pessoana Mínima e A Nostalgia, o Automóvel, o Infinito), além de A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro (1997) ou Afirma Pereira (1994), levado ao cinema com Marcello Mastroianni e Joaquim de Almeida. Fernando Lopes levou ao cinema O Fio do Horizonte (1993), Alain Corneau tratou de Noturno Indiano e Alain Tanner filmou o seu pessoano Requiem. Ainda não nos despedimos.

Da coluna diária do CM.

 
 

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Um longo período de recolhimento.

por FJV, em 24.03.22

Como de costume, estou de acordo com duas coisas. Uma: que o pior está ainda para acontecer. Duas: sim, o mal anda à solta com a ajuda do nosso conforto. Como se sabe, o pior ainda pode estar para acontecer porque o halo de loucura que tomou conta do Kremlin é bem capaz de ser insaciável e, em geral, as coisas más acontecem mesmo – na maior parte das vezes com a nossa permissão. Nesta fase da destruição russa da Ucrânia não vale a pena chorar acerca da irrelevância europeia e da forma como a UE está prisioneira da teia energética russa; é uma parte do preço que pagamos atualmente pelo nosso conforto e pela bondade das nossas ações. Os próximos tempos serão de incerteza. Se durante a pandemia (que oscila, que vai e vem) houve limitações de acesso à cultura e a área do espectáculo foi claramente prejudicada, as ondas da guerra impedem agora que “pensemos noutra coisa”. Talvez a música nos acompanhe, talvez os livros nos salvem, talvez uma ida ao museu nos reconcilie com o mundo como ele devia ser, talvez um filme nos ajude. Suspeito que começou um longo período de recolhimento.

Da coluna diária do CM.

 
 

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Cantigas.

por FJV, em 23.03.22

O que se passou em Portugal entre 1940 e meados dos anos 70? Como se pensava o futuro e o presente durante essas décadas entre duas guerras – uma, a mundial, outra, a colonial? Podemos sabê-lo através das canções que se ouviam na época e é isso que Luís Trindade tenta mostrar num livro saboroso, quase um documentário: Silêncio Aflito. A Sociedade Portuguesa Através da Música Popular (Tinta-da-China). Está lá o Portugalinho e o país maneirinho da “música ligeira”, os produtores e os locutores de rádio (e os seus programas), as estrelas do palco, os compositores da “canção nacional”, as vozes do fado e os nossos crooners de época, deliciosos, românticos, de papelão – mas também os sons inaugurais do rock e do ié-ié, a ascensão de Amália ou a entrada da televisão. Entre A Menina da Rádio e Simone a cantar a “Desfolhada” ou as canções que passaram pelo Zip-Zip, Portugal desfila aqui como uma pequena província de outro tempo. Estas canções são as lágrimas de amor e as tímidas ousadias desse tempo. Passavam na rádio. Ainda hoje as ouvimos com saudade de um tempo que não queremos viver.

Da coluna diária do CM.

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Gastão.

por FJV, em 22.03.22

Publicados para além da idade madura, Fogo (2013) e Existência (2019) são – se acreditarmos que cada poema é uma interpretação – dois dos livros que mais prolongarão a vida de Gastão Cruz (1941-2022). Por um lado, são uma espécie de leitura da sua própria obra, o anúncio de uma despedida, a confirmação esplêndida de uma voz onde não há uma grande alegria nem, tão pouco, uma grande e brava melancolia. Gastão Cruz era um dos poetas portugueses em que foi mais intensa a preocupação acerca da linguagem (tal como Ramos Rosa, por exemplo) – não porque a linguagem, em si mesma, fosse a matéria da sua longa, vastíssima obra (desde 1961), mas porque nela se pressente essa garantia: a de que não há poema sem a procura da palavra, não há vida sem uma ideia do fim, não há amor sem ocultação, não há inovação sem mestres (o que o levou a regressar às formas clássicas do poema). Essa procura da palavra não se esgotou no verso acabado – mas numa peregrinação pelo teatro, pela crítica e, sobretudo, pela leitura. Terminou a sua vida como um dos nossos grandes poetas clássicos.

Da coluna diária do CM.

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Primavera, bem vinda.

por FJV, em 21.03.22

Podíamos falar de algumas canções sobre a temporada de primavera que entrou ontem a meio da tarde de domingo (como “Some Other Spring”, de Billie Holiday, “Spring Is Here”, de Nina Simone, ou “Might As Well Be Spring”, de Frank Sinatra), mas se uma pessoa não fica rendida ao segundo andamento (um larghetto melodioso e romântico) da 1.ª Sinfonia de Schumann (1810-1856) não merece ouvir mais música – toda a sinfonia é dedicada à primavera. Se acordes tão expressivos não nos comovem, então há um recurso: o segundo andamento da 6.ª Sinfonia, Pastoral, de Beethoven (1770-1827), antes da pequena e belíssima “Canção de Primavera”, de Mendelssohn (1809-1847), curiosamente dedicada a Clara Schumann (pianista e mulher de Schumann), ou da profundíssima peça com o mesmo nome do finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Talvez a mais conhecida seja a primeira das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss (1864-1949), com o poema sobre a primavera de Hermann Hesse (oiçam a versão de Elisabeth Schwarzkopf). Sim, também há a primavera das Quatro Estações de Vivaldi (1678-1741). Toda a música é infinita.

 

A findar o dia, com chuva, a morte de Gastão Cruz (1941) – lembro-me de um poema seu: “Não estamos preparados para nada: / certamente que não para viver/ Dentro da vida vamos escolher / o erro certo ou a certeza errada (...) Não estamos preparados para o nada: / certamente que não para morrer.”

Da coluna diária do CM.

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Anfiteatro Anatómico ¶ Uma nuvem na nossa vida.

por FJV, em 20.03.22

Descubra o que visitar e o que fazer em Kiev: atrações, tours e atividades  | musement

As palavras de Volodymyr Zelensky ecoam como uma espécie de poeira. Esta semana não convinha falarmos de poeira – depois da nuvem alaranjada que chegou de Marrocos. No entanto, foi como uma bênção no final deste inverno sem fim e sem chuva: como se uma onda de cor baça tivesse poisado sobre todas as coisas. Uma melancolia. Não sei como é com os meus leitores – mas comigo é simples: entrei em negação e a partir de certa altura recuso-me a ver televisão como se uma explosão fosse igual a outra, como se um rosto fosse parecido com outro, como se um prédio de Kiev fosse semelhante ao de uma cidade onde estive há muito tempo. Por isso, a nuvem alaranjada foi como uma bênção que pairou sobre as nossas cabeças para lembrar a cólera do silêncio depois das explosões – ou a despedida amarga de cada vez que desligamos a televisão para não ver o que acontece depois de a neve ter ficado suja.

“Lembrar” é uma palavra difícil e, no entanto, foi sobre a recordação que Zelensky falou aos americanos pela net: “Lembrem-se de Pearl Harbour”, disse, “lembrem-se do 11 de Setembro.” Como se dissesse: lembrem-se da nuvem alaranjada. Lembrem-se de uma esplanada onde se bebe um café de manhã. Lembrem-se de um piano a tocar numa rua deserta (é uma das grandes imagens da semana: um habitante de Kiev a tocar piano no meio da rua). Lembrem-se da escadaria de Odessa no filme de Eisenstein. Lembrem-se das florestas e das escolas, de ‘vareniki’ (bolinhos de massa recheados) ou de ‘deruny’ (bolinhos de batata) ucranianos. Lembrem-se do escritor Mikhail Bulgakóv, que nasceu em Kiev. Lembrem-se dos contos de Nikolai Gogol, que nasceu na Ucrânia. Lembrem-se de um beijo roubado e de um comboio que atravessa os campos. Lembrem-se das margens do Dniepr. Lembrem-se da nuvem alaranjada e de como março nunca mais acaba. Lembrem-se do que nunca mais esqueceremos.

 Da coluna semanal do CM.

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