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Peggy Lee, Johnny Guitar.

por FJV, em 26.05.20

Joan Crawford está ao piano mas ouve-se a voz de Peggy Lee – é o filme Johnny Guitar, de Nicholas Ray e, se me perguntassem que canções da história do cinema eu mais recordo, certamente que ‘Johnny Guitar’ estaria entre as cinco primeiras na voz de Peggy Lee. Há muitas outras canções de Peggy Lee que entram em várias listas e hoje – quando passam 100 anos sobre o seu nascimento (na paisagem mais ou menos desolada do Dakota, mas de pai sueco e mãe norueguesa): ‘Fever’ é, naturalmente, uma delas, tal como ‘For Every Man there’s a Wooman’ (de Benny Goodman, com cuja banda trabalhou), ‘Golden Earrings’, ‘It’s All Over Now’ ou ‘You Don’t Know’, que às vezes oiço em modo de repetição (tal como ‘Johnny Guitar’ ou ‘I’m a Wooman’). Não se limitou a cantar – essas canções, escreveu-as mesmo. Casou quatro vezes e divorciou-se outras tantas – morreu aos 81 anos (em 2002), nunca desistiu de perder a sua imensa graça (chegou a atuar em cadeira de rodas) nem uma sensualidade raríssima que ecoava pela sua voz, bem humorada apesar dos dramas que viveu e dissimulou. Uma deusa com 100 anos.

Da coluna diária do CM.

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Velho da Costa.

por FJV, em 25.05.20

Aos 81 anos, a vida e a morte levaram Maria Velho da Costa (1938-2020), a autora de Missa in Albis, Myra ou Casas Pardas – os seus romances fazem parte do que seria uma memória literária dos anos 70, que hoje não se podem reconstituir sem essa memória (sobretudo de Missa in Albis, de 1988). Se com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta foi uma das autoras desse livro-documento fundamental para a história do nosso feminismo, Novas Cartas Portuguesas (1972), a sua aventura modernizadora da literatura portuguesa começara antes, em 1969, com Maina Mendes, e praticamente nunca terminara. Maria Velho da Costa era uma voz da elite das letras; escrevia maravilhosamente, um pecado que a banalidade não lhe desculpará, tal como há de marcá-la como uma das escritoras impopulares e pouco “acessível”. Nos seus livros, a história, o jornalismo ou o cinema misturam-se com a sua própria origem social e os sentimentos que lhe despertam um país pobre, mesquinho, cheio de ordem; nesse mundo perdura a vaga sensação do seu riso e da sua ironia imperdíveis. 

Da coluna diária do CM.

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Harry Porter nos Clérigos.

por FJV, em 22.05.20

A Livraria Lello foi vista, durante muito tempo, como inspiradora da escritora J.K. Rowling para a criação do colégio de Hogwarts na série Harry Potter. Confesso que a ideia me comoveu. Gosto bastante de J.K. Rowling, que viveu no Porto durante algum tempo, e ter-se inspirado na vetusta Lello foi uma boa notícia que agora se verificou (por uma publicação da própria JK no Twitter) não ser verdade. A criadora de Harry Potter garante que nem sequer conhecia a livraria. Isto sim, é uma pena, e uma falta lamentável de JK, porque – muito antes de se ter transformado num pólo turístico, com filas de fãs de Potter que pagam bilhete e compram recordações – a Lello já então merecia uma visita. Instalada no edifício onde antes funcionava o editor Chardron (que publicava Camilo e Eça), mantém a magia e continua na lista das mais bonitas do mundo, apesar de o mito Harry Potter, difundido com alegria e permitido com orgulho, ter acabado assim. A Ateneo, de Buenos Aires, a Shakespeare & C, de Paris, a Bookworm, de Pequim, ou a City Lights, de São Francisco, estão na lista e vendem livros.

Da coluna diária do CM.

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Poesia para totós.

por FJV, em 21.05.20

Uma das vantagens do “desconfinamento”, e da abertura das praias e esplanadas, é o fim das reportagens melodramáticas na televisão sobre como a tragédia não tinha fim nem, aparentemente, saída. O tom sentimental, próprio para ler poetas soturnos com problemas nas sílabas átonas, era de ir às lágrimas – e qualquer reportagem, longe de nos apresentar factos com objetividade e clareza, tinha interlúdios de moralidade e declarações quase amorosas ao vírus invisível. Jornalistas criados no mundo do ‘lifestyle’ peroraram interminavelmente sobre o “dever de ficar em casa” e de lavar as mãos, sobre o ioga na varanda ou as receitas de pão caseiro – e tinham arrebatamentos poéticos depois dos quais não sabíamos se se tratava de uma notícia ou de um despacho em verso sobre dois amantes apaixonados. Não era apenas a nossa vida “interrompida”; a própria informação televisiva esteve, na maior parte dos canais de tv, sitiada pela banalidade das jigajogas de “linguagem poética”, esquecendo os telespetadores que desesperavam com tanto soneto, porque tinham uma vida à espera. Esta. 

Da coluna diária do CM.

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A terra é plana.

por FJV, em 20.05.20

A vice-presidente do governo espanhol é uma das minhas personagens preferidas. Tem alguma coisa que mistura vários portugueses que me divertem de longe mas, na hora certa, ultrapassa as previsões. A andaluza Carmen Calvo, creio que com uma fé inabalável na teoria da terra plana, explicou ontem, no Senado, a razão porque Espanha foi especialmente atingida pela Covid19: porque há uma linha recta (vossas excelências, leitores, hão-de ter reparado nela, certamente) entre Pequim, Teerão, Madrid e Nova Iorque, e o vírus vem a direito, como “um problemão do demónio”, sem desdobramento nem escalas, um maratonista apressado. Há uns tempos, outra ministra espanhola, com a pasta da Transição Ecológica e Desafio Demográfico, Teresa Ribera, também tinha assegurado que a reação portuguesa ao vírus foi melhor do que a espanhola porque Portugal fica mais a Oeste e os ventos de Pequim chegam aqui mais tarde. Que isto suceda num governo chefiado por aquele primeiro-ministro parecido com um modelo Cortefiel, não me surpreende. Mas, caramba, a Espanha teve outrora figuras de grande inteligência.

Da coluna diária do CM.

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O tempo da privacidade.

por FJV, em 19.05.20

Na China é possível, há muito, chegar a um restaurante, escolher o menu num tablet e pagar de imediato – tudo sem “proximidade social”; a coisa é vista como uma “novidade” luminosa entre nós, europeus. Porém, a grande guerra do futuro não se joga nos restaurantes nem nos serviços, onde a China está mais avançada (foi lá que nasceram as bicicletas partilhadas, os pagamentos digitais, etc.) e sim no armazenamento de dados de milhões e milhões de consumidores, onde também vai à frente, tal como no reconhecimento facial. Na Suécia, agora, começou um programa de implante de microchips. Já há milhares de suecos que o usam, identificando-os no emprego, no transporte, no ginásio e em compras com cartão de crédito. Basta uma injeção indolor no pulso e os dados pessoais ficam registados em regime permanente e disponíveis para controle. Uma das razões para o sucesso destes microchips é que, diz um laboratório, “os suecos são um povo pequeno e confiam nas sua autoridades”. Resta-nos confiar nos suecos ou continuar a desconfiar dos chineses? Ou acreditar que o tempo da privacidade terminou?

Da coluna diária do CM.

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O amolador de facas.

por FJV, em 18.05.20

Ontem, domingo, ouvi o som do amolador de facas no meu bairro. Senti-me de regresso. Hoje reabrem mais lojas, esplanadas, muitos restaurantes – há um certo caminho para o regresso à normalidade. Precisamos dela. No sábado passado fui à praia e percebi que já não estava habituado a apanhar sol, nem ao ruído do mar, ou à companhia (distanciada, mesmo assim) de outras pessoas que, como eu, tinham saudades do sol ou, pelo menos, de se sentarem no areal e de assistirem ao espectáculo do ar livre, mesmo que fosse só por cinco minutos antes de reiniciar a caminhada. É certo que faltavam as esplanadas, sim. Faltavam disponibilidade e confiança, mas ao longo da nossa vida aprendemos permanentemente a lidar com as ausências e a driblar as limitações. Hoje recomeçamos parte da vida, ainda que medindo bem as distâncias, poupando bastante nos gestos, mostrando sensatez, ludibriando o medo. A “economia” precisa disto – de vencer o medo – e de pessoas sensatas que já não aguentam mais telejornais integralmente preenchidos com reportagens melodramáticas. Precisamos do som do amolador de facas.

Da coluna diária do CM.

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José Rentes de Carvalho.

por FJV, em 15.05.20

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Ia escrever “não sei o que mais prezo nele”: a irreverência, o bom humor sem bonomia, a ironia, a sabedoria, a amizade que lhe tenho, certas palavras que usa, a inteligência, a dedicação aos que ama, a obra notável, o amor e a irritação que lhe causamos, o conhecimento que tem de nós. Ia escrever isso – mas a verdade é que sei, exatamente, o que mais prezo em J. Rentes de Carvalho, de quem hoje festejamos o aniversário. São 90 anos de vida que não cabem numa autobiografia – e muitos mais, perdoe-se-me o absurdo, de uma obra que, felizmente, está publicada. Seria uma pena perdermos Ernestina, La Coca, Com os Holandeses, O Meças, A Amante Holandesa, O Rebate, Montedor, a graciosidade de Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, as memórias de Mazagran, Tempo Contado ou Pó, Cinza e Recordações – e a leitura do nosso tempo em Portugal, a Flor e a Foice, ou A Ira de Deus sobre a Europa. José Rentes de Carvalho leu-nos melhor do que algum dia podemos reconhecer. Da Holanda ou de Trás-os-Montes ele olha-nos com o mesmo binóculo com que observou a criação do mundo.

Da coluna diária do CM.

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Justiça e gratidão?

por FJV, em 14.05.20

Duas coisas que toda a gente sabe que não existem na política: justiça ou gratidão. Existem líderes, liderança, influência e interesses, manobradores, vaidade, fortuna diante das armadilhas, oportunidade diante das catástrofes. O resto (como a esperteza mais velhaca e a aldrabice transformadas em virtude) são minudências e duram pouco. Veja-se Mário Centeno: tocado pelo pecado da vaidade (deixou popularizar a história falsa e ridícula do “CR7 das Finanças” e, quando cercado, foi sempre buscar desculpas ao passado), ontem ninguém o poupou enquanto se assistia à sua vergonhosa execução em público – pelo contrário, os que o esfaquearam foram transformados em heróis. O problema é que só se empunha o punhal uma vez. Injusto? Talvez, sobretudo para quem “já fez o serviço”. Ingratidão? De certeza. Mas é uma lei cruel que seria aplicada mais tarde ou mais cedo, sem piedade e com a frieza dos políticos de carreira. É claro que todos sabemos quem mentiu nesta pequena história – mas isso não interessa quando se diz o nome dos vencedores. Quanto à gratidão, nem vale a pena explicar.

Da coluna diária do CM.

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Chatwin

por FJV, em 13.05.20

Bruce Chatwin (1940-1989) morreu novo, aos 48 anos – e deixou uma obra cujo centro é Na Patagónia, um livro que, de certa maneira, reinventou a literatura de viagens. Tudo começa com um «um pedaço de brontossauro» (a avó guardava a relíquia em casa) que teria vivido na Patagónia argentina, aliás na Terra do Fogo, a sul do estreito de Magalhães. Foi para lá que Bruce Chatwin, jornalista e especialista em história de arte numa leiloeira londrina, partiu quando tudo o cansava na sua vida. Tornou-se escritor. Estávamos em 1977, e em dez anos escreveu ainda um livro tão formidável como Canto Nómada (sobre os aborígenes) , ou a curiosidade O Vice-Rei de Ajudá, entre outros. Na Patagónia foi o livro que me levou à Terra do Fogo, onde acaba a terra e começam os mares da Antártida, a sul do canal por onde Charles Darwin entrou em 1833 a bordo do navio Beagle. No seu livro, Chatwin reencontra o rasto a foragidos e a uma estranha comunidade de homens que se perderam entre os glaciares e os pântanos – é de uma beleza comovente. Hoje, se fosse vivo, completaria 80 anos. Resta-nos lê-lo.

Da coluna diária do CM.

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Fátima.

por FJV, em 12.05.20

Quando figuras da Igreja Católica já declararam “não acreditar em Fátima”, os sociólogos e psicólogos tentam explicar a vertigem espiritual dos peregrinos – em vão. O mundo atual diz-se “agnóstico” ou “ateu” e os mistérios da fé são frequentemente vistos como fenómenos fora da corrente, mas Fátima sempre me impressionou. Não tanto pela multidão, que se compreende, ou pela história das aparições, que me não interessa, mas pelo silêncio na grande noite da peregrinação. Nunca a experimentei, mas ouvi relatos. Amanhã, no santuário deserto, esse silêncio será um eco que não deixará de comover os ausentes – e quanto maior for essa ausência, mais forte será o eco de uma peregrinação que não se faz e que fica guardada para mais tarde, como um recolhimento prometido. Estranhamente, a ausência de amanhã é um sinal forte de obediência, outra palavra em descrédito. Nunca a Praça de S. Pedro esteve tão cheia como na noite em que o papa celebrou a Páscoa em completa solidão. Talvez isso ocorra em Fátima, como uma contracorrente, como uma presença discreta no meio do ruído e da incerteza.

Da coluna diária do CM.

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Existir com os outros. Um crime impensável.

por FJV, em 11.05.20

Fala-se em “linhas vermelhas” – devia, antes, falar-se de um “abismo negro”, devorador. O mal não é apenas uma categoria filosófica ou religiosa mas um vírus que anda à solta depois de se ter alojado em silêncio. Comhecemo-lo. E é nele que penso quando reconstituo o egoísmo cruel que leva à violência, a violência que leva ao homicídio, o abandono das crianças (e a indiferença com que acolhemos os sinais de perigo), a inaptidão para lidar com a vida, a estupidez que leva ao horror. O crime de Atouguia da Baleia relembra tudo isso mas, sobretudo, a improbabilidade de imaginarmos um crime assim: um pai que mata uma criança (numa casa onde existem outras duas crianças), a testemunha de uma madrasta cúmplice, um corpo ocultado e abandonado. Quando escrevo “nenhum de nós é capaz desse horror” quero dizer que o abismo negro escapa a qualquer explicação – a não ser pela abundância do mal, a ponto de se transformar numa força demasiado poderosa. Diante disto, o castigo só pode ser uma pena inimaginável, porque se o mal não tem castigo então não vale a pena existirmos com os outros.

Da coluna diária do CM.

 

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Flaubert, 140 anos depois.

por FJV, em 08.05.20

O francês Ernest Pinard foi ministro do Interior, procurador e membro do Conselho de Estado – e distinguiu-se, sobretudo, por ter sido responsável pelos processos de “imoralidade” contra Baudelaire (por causa dos poemas de Flores do Mal), Eugénie Sue (Os Mistérios do Povo) e Gustave Flaubert (Madame Bovary). Não conseguiu nada contra Flaubert (1821-1880), que foi absolvido e agradeceu a publicidade a Madame Bovary e à sua preciosa história de adultério, decadência e pequena miséria provinciana. Pinard podia ser personagem de Flaubert, e deve ter sido, mas ficou como uma anedota censória, como os inteletuais de esquerda franceses que, na década de 80, assinaram uma petição para retirar Flaubert das bibliotecas, sob a acusação de sexismo, pensamento antidemocrático, misantropia, reaccionarismo e pessimismo. O autor de Educação Sentimental, Salambô ou Bouvard e Pécuchet é ainda o génio do mal e da minúcia, impossível de domesticar, sempre em busca do absurdo e da beleza, que andam de mãos dadas. Passam hoje 140 anos sobre a sua morte e é sempre bom festejá-lo.

Da coluna diária do CM.

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Estados de alma.

por FJV, em 07.05.20

O mal dos “estados de emergência” e dos “estados de calamidade” é que provocam hábitos estranhos. O principal deles é poder-se governar com plenos poderes e ultrapassando a lei geral com à vontade. Ninguém de bom senso foi contra o decreto do “estado de emergência” – porém, pequenos tiranetes ou exemplos de absurdo político emergem aqui e ali. O responsável pela Proteção Civil de Santarém pediu a proibição de deslocações no próximo fim de semana, à semelhança da Páscoa e do 1.º de Maio. Porquê? Para não ter peregrinos em Fátima (apesar de a igreja católica ter explicado as regras). Recordemos que, no 1,º de Maio, as violações à lei foram cometidas com a cumplicidade e apoio das autoridades e do governo. E não falemos do uso de máscaras no parlamento. Decretar regras durante um “estado de emergência” é normal e não é tirania – mas já o é quando as proibições atingem uns e não outros, quando as determinações são imprecisas e distantes da realidade, ou quando o bom senso é esquecido e ficamos sem juiz que possa proteger-nos das arbitrariedades. Costumava ser o Presidente da República.

Da coluna diária do CM.

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Estudassem.

por FJV, em 06.05.20

Coisas cómicas: o eurodeputado Nuno Melo iniciou uma campanha contra a utilização de imagens de Rui Tavares (ex-eurodeputado, fundador do Livre, autor e historiador) nas aulas da telescola. Nas “redes sociais” parecia que Rui Tavares tinha tomado de assalto as crianças portuguesas para as inocular com o perigoso vírus do bolchevismo, coisa que me preocuparia. Fui ver: era uma explicação, enquadrada, sobre a Exposição do Mundo Português de 1940, uma ação de propaganda do regime de Salazar. E ponderada, sensata, informada – ao contrário de muito “discurso historiográfico” à esquerda e à direita, muito propagandístico e cheio de adjetivos. Acontece que, como a chamada “direita velha” se tem recusado a estudar e a informar-se, ou – muitas vezes – a adquirir rudimentos de gramática, acaba por reagir como um pateta acossado por uma crise de hipertensão. Eu percebo o problema: é a inoculação. Mas isso resolve-se com trabalho e estudo – e deixando de desvalorizar a cultura e o conhecimento histórico. E eis como a “direita velha” acaba a reconhecer que não comparece às aulas. Estudassem.

Da coluna diária do CM.

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A ingenuidade de Marcelo.

por FJV, em 05.05.20

O Presidente da República, ingénuo, tinha imaginado uma celebração mais “simbólica” do 1.º de Maio pela CGTP – e não a ocupação da Alameda, como se a central sindical tivesse, à maneira bolchevique, ocupado o Palácio de Inverno em 1917 e fuzilado os czares. Como lhe respondeu ontem o Sec. de Estado da Saúde, numa proclamação filosófica, “a realidade é dinâmica” e “de cada vez que pestanejamos, a realidade muda” (toma, Marcelo!). No mundo dos flibusteiros do futebol, isso já se sabia – “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”, dizia um dos filósofos desta área da realidade. Veja-se o senhor presidente da AR, que interpretou com juízo este princípio e ontem, por escrito, impôs o “uso de máscara” no Parlamento, ao arrepio do que defendera dias antes (“não vamos mascarados”) e certamente contra a opinião da senhora Diretora-Geral da Saúde, que foi sempre contra o uso de máscara. Neste jogo de cómicos, muito parecido com o PREC – e sem peregrinos mas com celebrantes –, a igreja católica deu uma inesperada lição de sensatez e dignidade a propósito das suas celebrações em Fátima.

Da coluna diária do CM.

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As circunstâncias.

por FJV, em 04.05.20

São contas pequenas mas, para sermos honestos, há explicações para o reinício do futebol em Portugal. O negócio, em si, está abaixo do 1% do PIB (na Europa circula pelos 2,5%) mas, mesmo assim, o papel da bola é decisivo para que se deixe de falar em Covid19, na economia e nas manigâncias numerológicas – só isso explica que, para auxiliar uma indústria tão poderosa e tão de pés de barro, para não mencionar as suspeitas de práticas criminais, o governo tenha decidido que um desporto de multidões se passe a praticar em silêncio a fim de desbloquear receitas de transmissões televisivas. Com as transmissões, regressam a publicidade e a animação televisiva; também se compreende e é meritório. Portanto, trata-se de puro negócio e pura psicologia de massas, e ninguém é ingénuo ao ponto de pensar que a política esteve alguma vez confinada durante estes dois meses. A manipulação dos números de infetados e vítimas mortais, por exemplo, mesmo se feita com elegância, é uma regra nestas circunstâncias. Não se escandalizem. Curiosamente, os números costumam obedecer-lhes, às circunstâncias. Depende.

Da coluna diária do CM.

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Obrigados a ser heróis.

por FJV, em 01.05.20

Os pobres e os empobrecidos, os frágeis e os desprotegidos não entram naqueles anúncios televisivos da nova ideologia sentimental, corolário do “sofrimento lifestyle”. Os do “vai ficar tudo bem”, “vamos superar”, “vamos ficar ainda mais unidos”, “vamos ficar juntos” e semelhantes, todos lidos pelas mesmas vozes fofinhas que parecem estar a sussurrar e a dizer “vamos ficar em casa a evitar problemas psicológicos enquanto fazemos ioga e pedimos comida pela net porque não podemos ir comer tailandês”. Acontece que os desprotegidos serão sempre desprotegidos. Não são atendidos nos hospitais (de que têm medo, porque estão cheios), não entram nas estatísticas (porque os lares são pobres ou porque não há certidões de óbito), não sabem se terão emprego no fim do mês, não sabem se a empresa ainda funciona ou, no caso dos lojistas e pequenos empresários, se terão meios de pô-la a mexer. Uns e outros estão do mesmo lado da barricada, mesmo quando não desistem. A maior parte deles não ficou em casa. São pessoas obrigadas a ser heróis – não são para eles os anúncios fofinhos, cheios de sussurros.

Da coluna diária do CM.

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Mar e sol.

por FJV, em 30.04.20

Voltar à vida – com temperaturas elevadas, como as que se preveem para domingo, é bem provável que o fim do estado de emergência seja uma espécie de armistício antes do tempo. Mas, sobre isso (e, sabe Deus, sobre muitas outras coisas), deixei de fazer previsões. De resto, a temporada forneceu-nos uma enormíssima vaga de especialistas instantâneos em epidemiologia, leitores de estudos científicos complexos e de circulação restrita, e desconhecidos académicos que discutem se o “modelo sueco” é ou não mais eficaz do que o sistema de ataque checo. A todos desejo boa saúde e proteção especial. A mim, incomodam-me as praias. Incomodam-me a economia, o emprego, o sofrimento dos ignorados, sim. Mas incomodam-me as praias. E, daqui, humildemente peço à senhora Diretora-Geral da Saúde que, pelas alminhas, não mas interdite nem se ponha com rigores. Ela, que já considerou que não devíamos usar máscaras, é capaz de me salvar nesta angústia com uma desculpa mais verosímil: a água do mar e o sol são capazes de matar o vírus, por exemplo. Todos somos humanos, desculpem. Precisamos tanto.

Da coluna diária do CM.

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Hitchcock (1899-1980).

por FJV, em 29.04.20

Estamos de acordo em que Alfred Hitchcock (1899-1980) não inventou o cinema; mas, se viesse a propósito, podia tê-lo feito. E se enumerarmos filmes como Vertigo. A Mulher que Viveu Duas Vezes, Janela Indiscreta, O Desconhecido do Norte Expresso, Spellbound. A Casa Encantada, A Corda, Os Pássaros, Psico, O Homem que Sabia Demais, Chamada para a Morte, Rebecca, Marnie – estaremos conversados. Não apenas a história do cinema, mas a história da nossa imaginação passa pela obra deste britânico tão amável quanto atormentado ou divertido, sempre surpreendente e obstinado na busca da perfeição e dos pormenores. Tanto o gosto pela surpresa (ou pelo suspense) como o seu sentido de perversidade (ao abordar permanentemente temas como a suspeita, a duplicidade, a falsa inocência, a culpa, a perseguição ou a dissimulação) estão presentes em cerca de sessenta filmes que nos explicam o significado da expressão “até ao último minuto”. Genial e indiferente, cultíssimo, sempre à espreita dos nossos medos – passam hoje 40 anos sobre a morte de Alfred Hitchcock, o mais influente dos cineastas.

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Vasco Graça Moura, seis anos. (1942-2014)

por FJV, em 28.04.20

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No meio da quarentena, passaram ontem seis anos sobre a morte de Vasco Graça Moura (1942-2014). Relembro-o com saudade, não só por ser um dos nossos maiores poetas, mas também por ter sido um homem espirituoso e cultíssimo, romancista cheio de ironia, leitor e tradutor exigente, crítico de todos nós – e, no entanto, tantas vezes mal amado porque Portugal continua a queimar opiniões com certa leviandade e, em nome dessa leviandade, a triturar quem não pensa “como quase toda a gente”, na política, na literatura, na vida de todos os dias. Tomando os dois volumes da sua Poesia Reunida depressa se compreende como constituem um guião contra o pobre e fácil sentimentalismo da maior parte da poesia portuguesa – e como Vasco, mestre da nossa língua, vinha de outras tradições, de outra cultura e de uma mais forte exigência que sempre marcou a sua obra e o seu espírito crítico. Tive a sorte de conhecê-lo, de trabalharmos juntos aqui e ali, e de ter sido seu editor; infelizmente, o tempo é curto e morre-se facilmente. Seis anos depois, Vasco Graça Moura continua a fazer-nos ainda mais falta.

Da coluna diária do CM.

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Vasco Graça Moura, nos seis anos da sua morte.

por FJV, em 27.04.20

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De Uma Carta no Inverno. 1997.

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Celebração, ritual e comédia.

por FJV, em 27.04.20

Fotografia de Alfredo Cunha.

Dentro de dois anos o regime saído do 25 de Abril terá a idade daquele que o antecedeu – e haverá ainda gente a descobrir-lhe inimigos. Não é possível celebrar cinquenta anos de regime como se ele estivesse em perigo iminente, como nos anos de 75 e 76, ou antes de os militares (a quem se agradeceu devidamente) regressarem aos quartéis e “entrarmos na Europa”, o que consagrou uma nova fase da nossa História. Celebrar o 25 de Abril com o mesmo tipo de cerimonial dos anos 70 e 80, com os mesmos discursos, cantilenas e pavores – é uma alegria que se concede à meia dúzia de saudosistas cuja existência é pouco menos do que uma curiosidade folclórica. Sinceramente, lendo-os um dia depois, os discursos do 25 de Abril não comovem ninguém para lá dos seus exercícios de boa retórica (o do PR especialmente) – foram o que foram, mas não dizem nada de novo para lá da “urgência” e da “necessidade” de “celebrar Abril”, como se o dia fosse, não uma festa, mas uma espécie de fatalidade zangada com o nosso destino. Isto transformará qualquer celebração, não num ritual, mas numa comédia dispensável.

Da coluna diária do CM.

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Dia do Livro. E dos livros desarrumados.

por FJV, em 24.04.20

A japonesa Marie Kondo é a fada do lar. Os livros de Marie Kondo (Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida, por exemplo) ensinam como arrumar e simplificar a casa, mas ela não tem livros – e ontem foi Dia Mundial do Livro. Tenho-os arrumados pela casa fora e também amontoados, em pilhas, além de espalhados por outras casas. É impossível ter livros arrumados a não ser que se seja completamente maníaco; mal adormecemos, eles mudam de lugar, por birra; dialogam uns com os outros e o pior é que pode acontecer é dispô-los por assuntos, porque facilmente se passa de um tema a outro, de um medo a outro, de uma forte alegria a uma brava depressão. Tem sido assim ao longo de toda a minha vida: arrasto livros de um lado para o outro; guardei neles bilhetes de cinema ou de comboio, notas de 100 escudos e talões de estacionamento em lugares que já não existem. Há livros que nunca li e que me acompanham há 30 anos – e não me desfaço deles; a minha vida ia ficar incompleta. Depois do Dia do Livro podiam criar o Dia da Arrumação do Livro, e eu faria o discurso de encerramento.

Da coluna diária do CM.

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Não merecemos um mau 25 de Abril.

por FJV, em 23.04.20

A maneira singular como o presidente da Assembleia da República dirige os trabalhos do parlamento alterou, digamos, a fisionomia do cargo. Frequentemente, aparece nos ecrãs das televisões a dar puxões de orelhas acerca de democracia, etiqueta e história – em que o tom e a própria gramática deixam muito a desejar. Vamos e venhamos, não temos de simpatizar com o presidente do Parlamento, mas trata-se da segunda figura do Estado e temos de ajudá-lo a interpretar com honorabilidade o seu papel. Não lhe pedimos que tenha humor e verve (como Almeida Santos e Mota Amaral), brilho inteletual e sentido de Estado (como Jaime Gama) ou simpatia natural, mas podemos pedir que tenha sobre o 25 de Abril uma visão empática e nacional; 46 anos depois, não é apenas uma data fundadora do regime democrático (o que seria já suficiente) mas constitui, também, uma referência central na nossa História. Permitir que se inventem perigosos fascistas que não querem festejar o 25 de Abril é um erro básico, transformando a data numa imposição folclórica em tempo de coronavírus. Não merecíamos.

Da coluna diária do CM.

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Lenine.

por FJV, em 22.04.20

Depois de expulso da Rússia czarista, conheceu o exílio em Munique, Londres ou Genebra, de onde regressou num comboio selado até à Estação Finlândia, na então Petrogrado (nome czarista que mudou para Leninegrado em 1924 e, após o colapso da URSS, recuperou o inicial de São Petersburgo). Na verdade, a revolução russa de 1917 não teria existido sem Lenine. Manobrador paciente e corajoso, sacrificando quase tudo aos “interesses da revolução” pela qual deu a vida e pela qual obrigou milhões de russos a dar as suas, foi o teórico central do comunismo como o conhecemos até aos anos 80. Molotov, que conheceu bem os dois ditadores, disse um dia que Lenine era bem mais cruel e implacável do que Estaline, que lhe herdou o trono depois de afastar Trotsky. Indiferente ao sofrimento, ao sono e aos apelos de humanidade, egocêntrico, tudo nele se confundia com a revolução, o novo regime, o terror vermelho, os ódios pessoais e políticos, tão mortais como mortíferos, a sua crueldade pública, as ordens de fuzilamento e a paixão pela violência. Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924) nasceu há 150 anos.

Da coluna diária do CM.

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Silvana.

por FJV, em 21.04.20

Diz-se que Marcelo Mastroiani foi o seu primeiro namorado e, contra isso, não há nada a fazer – seria um casal perfeito. Mas não foi assim. Silvana Mangano, que hoje completaria 90 anos (1930-1989) é uma dessas presenças raras do cinema do pós-guerra – um símbolo que modelaria o nosso ideal de beleza. Com o filme de estreia, Arroz Amargo (1949), ao lado de Vittorio Gassman, conheceu o produtor Dino de Laurentiis, com quem viria a casar. Agora, é enumerar alguns dos filmes que fizeram a nossa memória: Anna, onde interpreta a figura de uma freira (e dança); Ouro de Nápoles, do fantástico De Sica (com Sophia Loren ou Totò); Ulisses, contracenando com Anthony Queen e Kirk Douglas e onde faz o papel de Penélope; e aqueles filmes de Visconti, Violência e Paixão, com Burt Lancaster, Ludwig ou Morte em Veneza; os de Pasolini, Decameron ou Édipo Rei (é Jocasta) ou Teorema – e aquela aparição de melancolia em Olhos Negros, de Nikita Mikhalkov, finalmente ao lado de Mastroianni. A beleza de Mangano nunca nos cansou ou desiludiu. Nem o seu talento cheio de luz e sombras.

Da coluna diária do CM.

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Um homem belo.

por FJV, em 20.04.20

Morreu Rubem Fonseca, morreu Luis Sepúlveda – e morreu Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020) autor dos belíssimos romances policiais onde é personagem principal o detetive Espinosa. O Silêncio da Chuva, Achados e Perdidos e Uma Janela em Copacabana foram publicados em Portugal, mas o seu destino não foi feliz, infelizmente; ficaram por publicar muitos outros, como Vento Sudoeste, Fantasma, Um Lugar Perigoso, Espinosa em Saída ou o belo título Céu de Origamis. O seu universo são sobretudo as ruas de Copacabana (onde fica a esquadra de Espinosa) e o Bairro do Peixoto (a casa do detetive), mas as personagens podiam ser de qualquer lado – solitárias, como Espinosa, tristes, melancólicas, preparadas para um desenho em miniatura. Espinosa é um polícia-leitor, um gastrónomo de má comida, um sentimental de quem aprendemos a gostar, mas rigoroso e observador. Conheci Luiz Alfredo em 2001: o seu escritório era fantástico, com uma das paredes toda em vidro, voltada para o mar – e a outra totalmente coberta pelo mapa de Copacabana; era esse o seu mundo, como vem nos seus livros.

Da coluna diária do CM.

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Luís Sepúlveda: despedidas de um longo inverno.

por FJV, em 17.04.20

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Fotografia de Maria João Sales Machado.

 

Ninguém sabe como foi apanhado pelo vírus, mas Luís Sepúlveda (1949-2020), Lucho, morreu ontem nas Astúrias, num hospital de Oviedo, ao fim de dois meses de internamento, complicações várias e também cansaço. Tínhamo-nos despedido em fevereiro, na Póvoa de Varzim, num sábado de tarde em que nunca mais chovia – e da mesmíssima forma, com um abraço, um beijo e a saudação “adiós, gordito”. Estávamos com o uruguaio Mario Delgado Aparaín, “el negro” (escreveram a quatro mãos o mais que divertido Os Piores Contos dos Irmãos Grim) e Luís estava constipado. “Que melhores.” Mal sabíamos.

Foi ele que começou, há muitos anos, por chamar-me “gordito” (até em público, numa entrevista), e eu imitei-o. Depois eu emagreci e combinámos que continuaria na mesma a chamar-me “gordito”, em espanhol. Ele dispunha de alcunhas para todos. O Mario Delgado era “el negro”; o seu editor português que muito amava, o Manuel Alberto Valente era várias coisas mas eu gostava de “hermano viejo”, porque o Manuel, para mim, também é um “irmão mais velho”. Se calhar eu devia, nesta despedida escrita, falar dos seus livros (especialmente dos que mais gosto, como O Velho que Lia Romances de Amor, Diário de um Killer Sentimental e Patagonia Express, por exemplo), mas anteontem morreu o brasileiro Rubem Fonseca, meu mestre como escritor, e ontem morreu mesmo Lucho Sepúlveda, amigo tão divertido e amável, cozinheiro tranquilo, conversador com se usava antes disto tudo, contador e inventor de histórias que nunca terminavam. De modo que isto não se faz, “gordito”; é como se deixássemos um copo a meio. Não se faz.

Conhecemo-nos depois de publicar O Velho que Escrevia Romances de Amor. Nessa altura escreveu um texto para a revista Ler, sobre a Patagónia e os moleskines que vira ao mítico Bruce Chatwin, os célebres e igualmente míticos caderninhos italianos. Nessa altura, impedido de voltar ao Chile, Lucho passava mal; o dinheiro era pouco e a Europa um inverno permanente. Ainda não tinha chegado o sucesso extraordinário de O Velho que Lia Romances de Amor e dos livros seguintes, e que lhe permitiram mais preguiça, mais serenidade e mais tempo para não escrever. Fez filmes e guiões para filmes; passou a escrever livros para crianças, o que o libertava para uma vida mais tranquila. Desses tempos, lembro um jantar maravilhoso em que Lucho cozinhou para todos nós (estava o Fernando Assis Pacheco) num terraço do Lumiar; e um desencontro de férias no Minho, perto de Caminha: eu queria falar com ele, mas não conseguia telefonar-lhe; estivemos uma semana separados por cem metros do rio Âncora sem sabermos, comigo a ligar para Paris e para a Alemanha, a tentar apanhá-lo. E ele do outro lado do rio, numa casa defronte.

Era, de resto, um homem fiel às suas convicções e ao seu passado. Foi ecologista antes da moda “do ambiente”. Se o Chile não o queria, não era ele que ia mudar. Ficaria em Gijón, onde esse grande mexicano, o Paco Taibo, tinha criado a Semana Negra, de que o Lucho cuidaria por anos. Vieram os prémios. Veio o reconhecimento internacional. E Lucho seria sempre aquela voz dengosa e pastosa, terna, dócil, mesmo quando insultava os fascistas e os que acusava de destruir o planeta (e destruíam). Mas, ao contrário dos tolos, as suas convicções e as suas ideias políticas nunca foram linhas vermelhas para construir e manter amizades. Porque, acima delas havia ainda a defesa da liberdade, a solidariedade entre pessoas concretas – e a amizade entre gente de bem.

Hoje recordo esse último abraço na Póvoa de Varzim. “Gordito, gordito, que magro estás.” Com aquela voz dengosa, dócil. Estás ligeiramente constipado, Lucho. Agasalha-te.

Da coluna diária do CM.

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Patriotismo, começa a saga.

por FJV, em 16.04.20

Os serviços da DGS têm agora novo trabalho: depois de nos ensinar como usar e retirar as máscaras, vão mostrar aos militantes do PSD como usar e manter a mordaça. Decretando que fazer perguntas sobre a ação do governo não é “patriótico”, o Dr. Rui Rio, calculista e compreendendo o povo, quer ser um “estadista imune à política”, como se não soubesse o essencial – que ela não vai de férias nem entra em confinamento, coisa provada, e de maneira letal e inteligente, pelo próprio primeiro-ministro, que já cilindrou o PR. Ninguém de bom senso pretende colocar em causa o governo ou o seu esforço atual – é da mais elementar inteligência prática, e não são necessários choques de eletrólitos para o perceber. Um mérito do governo, aliás, é nunca ter usado o argumento “patriótico” em seu apoio, e espero que o não faça (“O patriotismo”, dizia Samuel Johnson, “é o último refúgio de um canalha.”), mesmo quando corrige decisões erradas dos seus generais. Já para o Dr. Rio, se alguém duvidasse da DGS sobre a questão das máscaras ou sobre os seus números, por exemplo, era exilado para o purgatório. 

Da coluna diária do CM.

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