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Sobrevivamos à solidão.

por FJV, em 24.12.18
No ocidente, a festa do Natal deixou de ser a do nascimento de Jesus, excepto para um número residual de cristãos, a maior parte deles ostracizados ou sitiados. Mesmo entre estes é mais corrente a designação de “festa da família” ou “do encontro” numa sociedade essencialmente laica, gentia ou ateia. O andamento das coisas é o andamento das coisas e não parece que se volte à Missa do Galo, ao presépio, ou à celebração ritual de um Jesus de Nazaré tão histórico como simbólico — uma espécie de paragem no círculo do tempo (como a Páscoa). A velha e tradicional consoada, familiar e doméstica, está a passar para o ramo alimentar, florescendo no negócio dos restaurantes, na sequência, aliás, da institucionalização da “época das compras”. Ao cristianismo ocidental sucede uma espécie de “paganismo da felicidade”, turbulento, comercial e irrisório, como o sinal do início do inverno — mesmo assim, alguma coisa existe que não conseguimos esquecer. Mesmo para quem não é cristão, a “quadra natalícia” é um pretexto para nos vermos. Sobrevivamos à solidão; isso será o bastante.

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Beethoven no inverno de 1808.

por FJV, em 24.12.18

Hoje, o dia terá apenas uma duração de 9h27 e os astrónomos estabelecem que o inverno chegará às 22h23 – é o dia mais curto do ano. Amanhã, sábado, teremos mais um segundo de luz solar (o pôr do sol ocorre às 17h18m38) – todos os anos há ligeiras mudanças. Haverá coisas importantes a dizer sobre o inverno (os poetas são banais nessa matéria, repetindo-se muito), mas eu prefiro falar sobre o primeiro dia do inverno de 1808, há 210 anos, em Viena: um concerto memorável que havia de ser a despedida de Ludwig van Beethoven (1770-1827) como solista ao piano, e no qual foram tocadas oito grandes peças, incluindo as estreias da Fantasia Coral, uma ária (a notável Ah, Perfido), três dos andamentos da Missa em Dó Maior e ainda duas das suas grandes sinfonias, a 5.ª e a 6.ª (Pastoral). Das seis e meia da tarde até às dez e meia, durante quatro horas – com um pequeno intervalo – a música inaugurou aquele inverno num teatro gelado e cheio de gente, não só celebrando o génio de Beethoven mas também a grandeza interminável da música. Pode ser uma boa maneira de começar este inverno.

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A água do capote.

por FJV, em 20.12.18

As declarações do Presidente da República, anteontem, são das mais importantes do seu mandato. A chamada classe política incumbente não se incomodou por aí além, e compreende-se, porque o PR fala com uma frequência exagerada, comentando quase todos os assuntos e aparecendo em todos os lugares, o que é um mimo para os alvos das críticas. Seja como for, o Presidente disse o essencial: que o Estado (para o qual todos contribuímos e que nos suga o que puder), falhou em Pedrógão, em Tancos, nos hospitais (veja-se o escândalo da ala pediátrica do S. João), em Borba e em Baltar – e que isso gera uma sensação de desconfiança, de desconforto e de incerteza. Veja-se Tancos: ao fim de um ano e meio, ainda não há conclusões definitivas. Veja-se Pedrógão: só diante da lista trágica de mortos o Estado assumiu algumas responsabilidades (a capa do CM de ontem é uma imagem dolorosa). As pessoas sabem que o governo não é responsável pelas calamidades; mas (ironia!) o Estado, que se julga senhor de tudo, sacode a água do capote antes de perceber que não foi em cima dele que choveu. Foi de nós. É sempre.

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Emily Brontë, um relâmpago.

por FJV, em 19.12.18

 

As irmãs Brontë são um tema literário permanente. Charlotte escreveu o fascinante Jane Eyre, que hoje passa também por ser um romance feminista; Anne deixou Agnes Grey; Emily (nascida há 200 anos, a 30 de julho), compôs O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights) – todos escritos e publicados entre 1846 e 1847 –, que não pode ser reduzido à relação entre Heathcliff e Catherine (e Edgar) ou à rede de violência, humilhação, decadência e vingança que persegue a família Earnshaw. É um romance poderoso e sombrio num mundo em que os livros de Jane Austen abriam um clarão de airoso otimismo. Na literatura inglesa, O Monte dos Vendavais é uma explosão de todas as penumbras e confrontos da sociedade vitoriana (visível no filme de William Wyler, interpretado por Lawrence Olivier e Merle Oberon); no romance não há vida eterna para os territórios do amor; a invenção de Catherine Earnshaw e a descrição do sofrimento feminino, ardente e intenso, são momentos únicos. Passam hoje 170 anos sobre a morte de Emily Brontë – que sobreviveu apenas um ano à publicação do livro. 

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O pai dos povos.

por FJV, em 18.12.18

Iossif Vissarionovitch Djugashvili nasceu há 140 anos, a 18 de dezembro de 1878, em Gori, na Geórgia – um aniversário cumprido hoje. De 1922 a 1953, período em que ocupou o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, o destino do mundo dependeu, em parte, deste homem corajoso, violento, inteligente, calculista, frio, um provocador e arrivista antes de chegar ao poder, um ditador implacável depois de o conquistar – e responsável, tanto pela vitória sobre os nazis na frente Leste, como por um regime cruel e desumano que transformou um continente inteiro num campo de concentração e num cemitério de dezenas de milhões de vítimas. José Estaline, para abreviar (adotou esse nome por volta de 1918; usara o de ‘Koba’ nos anos de juventude), ainda faz parte da galeria dos ditadores a quem os seguidores desculpam as purgas, as deportações e perseguições, o gulag, os julgamentos sumários, as várias “limpezas” e condenações à morte e à fome. O “pai dos Povos” deixou atrás de si um rasto de crueldade, heroísmo e traição. É uma figura tão fascinante como absurda.

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O princípio está certo, toda a máquina está errada.

por FJV, em 17.12.18

A senhora ministra da Saúde tem um curioso entendimento dos códigos e da Constituição. Por exemplo: não negoceia com os enfermeiros em greve porque isso seria “beneficiar o criminoso, o infrator”, como disse numa entrevista à TSF. É a primeira vez, em democracia, que se estabelece – em direto – uma nova categoria de criminosos no Código Penal. Espero que a UGT e a CGTP comentem. Ao mesmo tempo, teorizou sobre os deveres dos jovens médicos: se o Estado providencia a sua formação, então o Estado deve “retê-los” (a expressão é sua, usada como castigo) algum tempo, para que alguma coisa devolvam, de retorno, como penalização. Para minorar os efeitos dessa retenção, a senhora ministra anuncia que está a estudar carreiras aliciantes. E os que se formam em filologia, arqueologia, química, direito, história dos descobrimentos, ciência política ou, vá lá, meteorologia – irá o Estado proceder “à sua retenção”? Não me parece. Tivesse eles escolhido medicina. A senhora ministra parece-me estar a confundir o país com um protetorado cubano, venezuelano ou salazarista. Salvo seja.

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Crónicas.

por FJV, em 14.12.18

Estes textos são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã.

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Sidónio.

por FJV, em 14.12.18

Nada indicava que um homem formado em matemáticas (foi professor catedrático em Coimbra), ainda que tendo feito o curso da Escola do Exército, saltasse para a política desta forma – mas era uma das estrelas do republicanismo e foi também presidente da câmara de Coimbra antes de ingressar na Assembleia que redigiu a constituição de 1911. Tudo era muito rápido. No mesmo ano, Sidónio Pais é ministro do Fomento e segue-se-lhe a das Finanças até ser enviado para Berlim como embaixador – até 1916, quando Portugal entra na guerra, uma decisão trágica e triste, à qual se opôs. Em dezembro de 1917 depõe Afonso Costa e Bernardino Machado – e inicia a República Nova, tentando “o apaziguamento nacional” mas fora do sistema político em vigor, inaugurando um breve presidencialismo e anulando algumas das leis mais radicais da República. O sidonismo pereceu com ele, exatamente há cem anos, num país paralisado pela pobreza e agitado pela violência: Sidónio Pais, o Presidente-Rei de Fernando Pessoa, um dos nossos mitos mais controversos, foi assassinado a 14 de dezembro de 1918. 

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Língua.

por FJV, em 13.12.18

Foi uma grande barulheira por causa da “iniciativa” do PAN de mudar os provérbios portugueses que têm a ver com animais. A ideia é muito generosa e, como todas as ideias demasiado generosas, completamente estapafúrdia (além de que é uma cópia da proposta palerma do grupo PETA, uma agremiação americana dedicada aos direitos dos animais). Acresce dizer que os provérbios e expressões populares como “agarrar o boi pelos cornos” ou semelhantes, têm mais de um século de vida – e que não conheço ninguém que tenha atirado um pau ao gato depois de cantar a respetiva melodia infantil. O que aqui está em causa é, antes de mais, uma apropriação indevida dos usos de linguagem – mudar a língua, para mudar os donos da coisa. E assim se cria uma polícia que passará o tempo a vigiar qualquer deslize pecaminoso na imprensa, nos livros e na vida de todos os dias. Esta gente, inspirada pelo seu desígnio divino, é capaz das piores perseguições, por puro prazer – e a medida mais delicada é pôr-nos a comer quinoa com beringela (um desastre). Onde virdes um puritano, encontrareis um inquisidor terrível.

 

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Europa: impostos sobre a riqueza dos outros

por FJV, em 12.12.18

Salvar a Europa. Era esse o plano de Emmanuel Macron – tal como, agora, o do economista, também francês, Thomas Piketty. Macron foi aplicando taxas à classe média mas mantendo a “glória da França”: um Estado poderoso e com uma clientela entrincheirada. Pikétty propõe taxar as grandes empresas e as grandes fortunas – acontece que as grandes fortunas dão o salto para outro continente e as grandes empresas são estrangeiras. Um e outro, mais à direita e mais à esquerda, limitam-se a pensar em nome do desespero, para conservar uma “Europa da solidariedade” que tem os dias contados. Lamento. Que a Europa taxe mais a Huawei, como a Google e a Apple, pode ser justo – mas o centro do mundo mudou-se mesmo. No seu livro O Despertar da Eurásia (Temas e Debates), Bruno Maçães, que acaba de publicar em Inglaterra o novo Belt and Road, chama a atenção não para “o despertar da China” mas para uma nova ordem mundial a partir da China e das economias orientais. Infelizmente, a Europa (a de Macron ou a de Pikétty) não sobreviverá a inventar impostos sobre a riqueza dos outros.

 

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Soljenítsin, cem anos.

por FJV, em 11.12.18

Aleksandr Soljenítsin morreu em agosto de 2008, na Rússia. Expulso da URSS em 1974, provavelmente pensou que nunca voltaria ao seu país – o que aconteceu 20 anos depois, em 1994. Teve sorte; foi expulso depois de ter sobrevivido a combates da II Guerra (duas condecorações), perseguições, prisões (foi declarado ‘inimigo do povo’ em 1945), um cancro e tentativas de assassínio. Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de 1962, em parte autobiográfico, é uma das primeiras denúncias abertas acerca do Gulag e do horror soviético – a que se seguem, depois da prisão, O Primeiro Círculo e O Pavilhão dos Cancerosos, escritos em exílio interno no Cazaquistão e publicados fora da URSS. O Arquipélago de Gulag, a mais violenta descrição dos campos de concentração soviéticos, foi escrito durante dez anos, até 1967, e publicado no Ocidente em 1973 (em Portugal, em 1975), três anos depois de lhe ter sido atribuído o Nobel. Soljenitsín é um grande escritor, com uma prosa de primeira, mas também um historiador daqueles anos de chumbo e opressão. Passam hoje 100 anos sobre o seu nascimento.

 

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Avanço civilizacional.

por FJV, em 07.12.18

Sou um confesso admirador do Sr. Ratelband, o súbdito holandês que quis alterar a sua idade, de 69 para 49 anos. O argumento que usou é pífio, mas confere: se as pessoas podem mudar de sexo ou de género (coisas diferentes), porque não pode ele mudar de idade, ainda por cima quando os médicos garantem que a sua “idade biológica” é de 45? A resposta dos juízes é interessante: autorizá-lo criaria uma espécie de “buraco negro” no registo civil, complicando contas de nascimentos, mortes e casamentos e “os limites legais de idade tornar-se-iam insignificantes”. O tribunal acha que há apenas um nó burocrático, que pode emaranhar-se – não um problema básico de identidade ou de bom senso. Não estou a invocar “as leis da Natureza”, que estão fora de moda e já não são obstáculo hoje em dia. Temos assistido a tantas “vitórias civilizacionais” que não deixaremos que o Sr. Ratelband envelheça ou se sinta traumatizado pela obrigação de aceitar a sua data de nascimento. Isso nunca. Mais uns anos e a coisa resolve-se com uma lei no parlamento. Em nome do “avanço civilizacional” estamos por tudo. 

 

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O Senhor Lubbock.

por FJV, em 06.12.18

Talvez saber quem foi John Lubbock seja o menos importante para o leitor de Miscelânea de Factos Essenciais e Curiosidades Inúteis do Senhor Lubbock (Objectiva), de Paulo Ferreira. O mais importante é o prazer do conhecimento, o delírio das relações que se estabelecem entre factos aparentemente distantes, o acumular de dados sobre o funcionamento do universo (da criação do mundo às cotações na bolsa ou à astrologia), história de Portugal, o papel do acaso e das contrariedades na criatividade humana (do post-it à penicilina) – e, também, a insuspeita alegria de colecionar explicações sobre banalidades. O hoje ignorado John Lubbock (1834-1913), político, banqueiro, contemporâneo e amigo de Darwin, biólogo, arqueólogo, etnólogo (escreveu cerca de trinta livros, de política a entomologia, economia ou religião), também acreditava que não bastava a uma pessoa contentar-se com uma única vida; assim funciona o livro de Paulo Ferreira: é uma coleção maravilhosa de descobertas que faz os nossos dias mais felizes e a nossa condição muito menos solitária. É um dos meus livros deste ano.

 

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Uma máquina de fazer fascistas.

por FJV, em 05.12.18

Existe na Europa, como se sabe, uma máquina de fazer fascistas. Os “coletes amarelos” em França e o Vox em Espanha, além de outras partículas, fazem parte dessa cada vez maior “mancha humana” que – em eleições livres – entra nos parlamentos e dá voz e ruído às ruas. Ontem, no Twitter, um amigo espanhol zurzia a sua imprensa indígena por ter dado espaço ao Vox, permitindo a este partido entrar no parlamento andaluz; é uma opinião grave. Segundo depreendo, o ideal é que se estabeleça uma censura que impeça “essa gente” de divulgar a sua opinião nos jornais. Foi assim que os ‘rednecks’ (‘pacóvios’) se esforçaram por eleger Trump; atirados para fora do sistema, votam contra ele. Claro que em França a questão é diferente: os ‘coletes amarelos’ representam o país médio, habituado a salários exigentes e direitos sociais de primeira (a receita que alimentou a classe política urbana durante décadas); forçados a pagar a conta, as multidões respondem, copiando as piores estratégias da esquerda que gosta muito de revoluções. Chamar-lhes fascistas é capaz de não ser o melhor remédio.

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Grilhetas amáveis.

por FJV, em 04.12.18

Já vi editores caírem na pobreza depois de uma vida consagrada a publicar livros notáveis (coisa que não lamentam, honrados como são). Nunca vi grandes conglomerados da imprensa apoiá-los com vigor em nome da diversidade cultural, do pluralismo e da liberdade. Pelo contrário, vi-os fazerem acordos políticos para estenderem o seu poder para além da fronteira da decência – muitas dessas jogadas resultaram em prejuízo do jornalismo e dos jornalistas e, por extensão, da liberdade de imprensa, do pluralismo e da independência, mas em benefício de estratégias pessoais e dos políticos amigos. Alguns, agora, festejam a ideia de apoios do Estado (e do contribuinte que já pagou a fatura dos despautérios da banca pública e privada que se misturou com os seus interesses) para salvar empresas que conheceram o apogeu, a ostentação, a soberba e a ideia de elegerem presidentes da República ou de andarem de braço dado com o Estado, do qual todos querem depender ou receber comendas. A imprensa precisa de apoio dos seus leitores – mas não de absolvição política, nem de grilhetas amáveis.

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Crónicas.

por FJV, em 04.12.18

Estes textos são, na sua quase absoluta maioria, crónicas diárias publicadas no Correio da Manhã.

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Olha que bom, vêm aí apoios.

por FJV, em 03.12.18

Deve o Estado, que já detém a RTP (onde devia investir em qualidade), apoiar financeiramente a imprensa e a comunicação social em geral? A ideia foi sugerida pelo Presidente – e logo apareceram órgãos de comunicação a apoiá-la e a confirmar que sim, precisam de apoios. Uma coisa é a existência de benefícios pontuais (para todos) – diferente é o apoio a empresas que ruíram depois de gestores e proprietários loucos terem perpetrado, com o apoio da banca, pública e privada, jogadas suicidas e estratégias de grande monopólio. Quase sempre em conluio com interesses particulares que no momento ocupam “o Estado”. Eu trabalho num negócio periclitante, o da edição de livros (líder de criação de emprego e de valor nas chamadas “indústrias culturais”), onde lutamos diariamente contra a indiferença “da imprensa”, o despautério do sistema educativo e os “perigos do mercado” – aguardo apoios, então. Para todos e aos magotes. Sem reservas. Em nome “da cultura” e da pluralidade. Tenho uma grande lista de livros a publicar e não me interessa se vendem ou não – é isso? Venham apoios. Que riqueza.

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António Lobo Antunes. Por extenso.

por FJV, em 30.11.18

O mundo das letras & das artes incomoda-se muito; frequentemente escandaliza-se – mas discute pouco. Gosta de unanimidades e de verdades banais, daquelas que põem toda a gente de acordo. Quem diz das letras, diz das artes. Em Guadalajara, no México, António Lobo Antunes contrariou mais uma vez essa unanimidade de tons cinzentos; eu admiro-o por isso, mesmo que não concorde com ele. Diz coisas incómodas, inesperadas, que deixam as audiências em suspenso. As autoridades esperam um escritor que seja escritor, de casaca e comenda, e que não incomode muito – Lobo Antunes é como os personagens dos seus livros: nunca fazem o que está no guião (lembro-me sempre de O Manual dos Inquisidores, um dos seus romances mais perfeitos), enternece-se em público, os olhos brilham, ninguém sabe o que vai dizer a seguir. É esse o seu enorme talento. Chegou ao ponto ideal: não deve favores. Dizem que tem “um temperamento difícil” e há histórias sobre o seu mau feitio. Que pena, quererem um funcionário das letras, estimado e respeitador, e lhes sair um Lobo Antunes. 

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C.S. Lewis.

por FJV, em 29.11.18

Falar de velharias reconcilia-nos com uma estranha sabedoria, a do tempo que já passou. Uma dessas velharias é Clive Staples Lewis, conhecido apenas como C.S.Lewis – poeta bissexto e romancista, além de um dos grandes críticos literários do século XX. Lewis (1898-1963) nasceu há 120 anos, assinalados hoje, em Belfast e é um dos representantes da velha Inglaterra literária. Os seus livros mais conhecidos compõem as Crónicas de Nárnia, cuja adaptação ao cinema, cheia de efeitos especiais, ganhou milhões de adeptos e, depois, felizmente, leitores encantados. As Crónicas estão atravessadas pelo temor e pelo prazer do desconhecido, com referências às mitologias nórdicas, grega e ao cristianismo, e são um produto do pós-guerra (foram publicadas entre 1949 e 1954), diante do espectáculo devastador de um continente destruído. Amigo de autores como J.R.R. Tolkien (de quem leu os livros, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, antes de serem publicados), Chesterton ou T.S. Eliot, o maior poeta da sua geração, C.S.Lewis foi um teólogo carinhoso e um excelente leitor e crítico de literatura. 

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Bola.

por FJV, em 28.11.18

É difícil fazer o elogio do futebol nestes dias, depois dos acontecimentos violentos de Buenos Aires — mas também depois de parte do “futebol português” se ter transformado num ringue para energúmenos armados, traficantes, advogados e polícias se cruzarem fora e dentro dos estádios. O problema está na génese do próprio futebol. O editor e psicanalista Vasco Santos publicou recentemente um artigo (no blogue da Sociedade Portuguesa de Psicanálise) sobre o futebol como um jogo de substituição dos próprios jogos de guerra; ele tem razão — a fé na tribo substitui a avaliação e a ponderação. Mas quem quer ver ponderação num jogo de bola? O ideal era que violência e paixão pudessem estar separadas por um dique. As grandes lições sobre futebol, de Camus a Assis Pacheco, passando por Galeano ou Valdano, e estou a saltar por alto, falam da beleza pura, acessível a todos; aí, um golo pode ser um relâmpago no céu mais negro; ficamos deslumbrados quando isso acontece. Infelizmente, a malandragem (a rapinagem, abjeta e poderosa) rouba sempre esse prazer. O espectáculo foi tomado de assalto. 

 

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Bertolucci.

por FJV, em 27.11.18
Bernardo Bertolucci é um dos herdeiros e obreiros do cinema clássico; talvez por isso pudesse emprestar um brilho raro a filmes como o seu O Último Imperador, que aos olhares mais distraídos parece uma montagem de Hollywood. Mas não é. Mural de história e de drama, tem atrás de si Antes da Revolução (muito bom) ou O Conformista (menos) para não mencionar a adaptação de O Céu Que nos Protege, de Paul Bowles, transformado em Um Chá no Deserto, onde há momentos de uma beleza demorada, densa, literária, tanto arrancada ao livro como à tensão de uma relação amorosa desfeita. Pelo meio há O Último Tango em Paris, menor, mas muitos não lhe perdoam La Luna, outro vitral luminoso, mas anti-romântico, em redor do incesto; sinceramente, nada ultrapassa a saga de 1900 — um díptico comunista sobre os tempos do fascismo e da revolução imperfeita. O filme é grandioso, tanto quanto irreal a sua leitura da história, forçada para construir um elemento heróico (o povo que resiste ao fascismo), ordenador e disciplinador da História. Mas a beleza dos seus filmes é um pilar bem assente e duradouro. Para lá da morte.

 

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A Sra. D. Catarina de Bragança.

por FJV, em 23.11.18

Civilização. Penso nessa palavra para referir que no próximo domingo passam 380 anos sobre o nascimento de Catarina de Bragança (1638-1705), mulher de Carlos II de Inglaterra e, portanto, senhora dos reinos de Inglaterra, da Irlanda e da Escócia – e do que isso significava. Os americanos impediram a colocação de uma estátua sua no bairro de Queens (blablabla, multiculturalismo, blablabla), mas há coisas mais importantes. Odiada por uma parte da corte britânica por ser “papista”, católica, a rainha Catarina, filha de D. João IV, levou-lhes o hábito de beber chá às cinco da tarde (e a entrega de Bombaim, já agora, em troca do apoio militar para a guerra com Espanha), a ópera italiana (a ópera, portanto), o uso de pratos e talheres à mesa e, também (mas há discussão sobre isso) o bolinho conhecido por “queque” (aportuguesamento de “cake”) e a utilização de tabaco para fins medicinais – e recreativos. Rainha sitiada no país onde reinou, regressou a Portugal sete anos depois de ter enviuvado (em 1685). Antonia Fraser e Jean Plaidy escreveram sobre ela, maravilhosamente. Salve, Rainha.

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Borba. O meu país.

por FJV, em 22.11.18

Passou o verão, passou a euforia do turismo, e a da “uébessamite” – e regressou o país. A esta distância, compreendo (malevolamente) o ar atarantado das autoridades diante do drama dos incêndios de Pedrógão: como é que “aquilo” podia acontecer no país mais na moda em todo o mundo, o melhor do mundo na bola (vê-se, com os processos judiciais acumulados, abjetos e vergonhosos), o melhor da Europa a receber turistas e personalidades do mundo do espectáculo? As imagens não eram bonitas: desespero, sim, mas também pobreza e desconsolo. A ideia de desconsolo não é “fofinha”; viu-se nas pessoas que de repente ficaram sem casa e sem vida – e nas declarações de políticos interessados em salvar a pele (o Presidente compreendeu bem a “necessidade de consolo”) e que “pareceram” imunes à desgraça alheia, como se governar um país fosse apenas administrar as querelas entre o Chiado e São Bento. O país voltou com a pequena tragédia de Sabrosa e, depois, com a de Borba. Não interessam, para já, as culpas nem as responsabilidades – é o meu país triste que regressa. Nunca deixou de ser assim.

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Bolero, Ravel.

por FJV, em 21.11.18

Uma mesa gigantesca. Era isso o Bolero de Maurice Ravel (1875-1937) interpretado pela coreografia genial de Maurice Béjart (1927-2007). Estávamos em Paris, em 1983, e pude comprar um degrau na Ópera para ver o Bolero com a força genial de Jorge Donn, o bailarino que o interpretara pela primeira vez como figura masculina no filme Les Uns et les autres, de Lelouch. E, portanto, hipnose pura – quinze minutos (14 minutos e 10 segundos na partitura de Ravel) de um crescendo maravilhoso e sensual. A peça estreou no dia 22 de novembro de 1928; passam amanhã exatos 90 anos sobre o pequeno escândalo que foi a execução do ballet por Ida Rubinstein (uma figura magnífica, judia russa, bissexual, amiga de Claudel, D’Annunzio, Debussy, Stravinsky) com coreografia de Bronislava Nijinska, irmã do bailarino russo. Fica a música, hoje – e a sua intensidade, familiar de peças como Pavana para uma Infanta Defunta, La Valse ou Daphnis et Chloé, outras peças de Maurice Ravel que amanhã devíamos também ouvir – para assinalar a efeméride de Bolero e a grande beleza da música.

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Sensacionalismo e violência sobre as mulheres.

por FJV, em 20.11.18

A entidade reguladora para a comunicação social acha que a maior parte das reportagens ou notícias das televisões sobre violência doméstica são pouco rigorosas. A ERC acha que há, por parte das televisões, “pouco investimento na problematização deste fenómeno social”, e que essas notícias não fazem “referências a causas estruturais e sociais da violência e suas consequências, nas diversas dimensões”. É todo um programa: a ERC não quer apenas que as televisões apresentem a notícia corretamente mas, já agora, que expliquem “o fenómeno”, suponho que de acordo com a cartilha oficial. A violência doméstica é um crime abjecto e repulsivo; ponto. E, também, um caso de polícia. Houve um tempo em que as elites urbanas achavam repulsivo que a imprensa “se metesse na vida privada das pessoas” quando o CM (muito antes da criminalização da violência doméstica) fazia notícias sobre casos pungentes que geralmente terminavam em homicídio. Nessa altura, o CM era “sensacionalista” – porque falava de violência sobre as mulheres antes de o assunto entrar na agenda política. Não tagarelava.

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Schubert.

por FJV, em 19.11.18

Num cemitério de Viena há uma gloriosa praceta onde estão duas sepulturas e um “memorial” – este é dedicado a Mozart, cujo corpo se perdeu numa vala comum; as sepulturas são de Beethoven (1770-1827) e de Franz Schubert (1797-1828), e compõem, com a amarga ausência de Mozart, uma espécie de pódio da música europeia. Podíamos passar uma vida inteira a escutá-los: Mozart, Beethoven e Schubert – o momento mais alto do classicismo e dois génios que traduziram as aventuras do romantismo. Schubert ajudou a transportar a urna no funeral de Beethoven (morreria no ano seguinte), mas a sua obra é de um veio diferente: os seus tormentos nunca tiveram uma “dimensão épica” ou “sinfónica”. Como qualquer pessoa, comovo-me com O Canto do Cisne (Schwanengesang, canções do fim da sua vida), o seu Ave Maria, Viagem de Inverno, A Truta (o segundo andamento é um emblema romântico) ou, naturalmente, com os seus “Improvisos” (bela versão de Maria João Pires) ou o que fica da 8.ª Sinfonia, Inacabada. Passam hoje 120 anos sobre a morte de Schubert. Devíamos ouvi-lo como um encontro com a beleza.

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Eis uma máquina de fascistas.

por FJV, em 16.11.18

Por falar em fascistas (era o último dos temas da coluna de ontem). O jornalista Angus Berwick, da Reuters, acaba de publicar uma extensa reportagem sobre a Venezuela. Ou seja, não sobre a Venezuela propriamente dita, mas sobre o novo cartão de identidade dos cidadãos venezuelanos – fabricado por uma empresa estatal chinesa, a mesma que produz os cartões do seu país (a ZTE, de Shenzhen). Através deste novo cartão, a acreditar na reportagem, o Estado venezuelano fica com toda a informação familiar do cidadão, alargando-a a emprego e rendimentos anuais, propriedades, história médica, benefícios recebidos do Estado, presença nas redes sociais, se é ou não membro do PSUV (o partido no poder), ou a qual pertence, que participação tem no PSUV – e em quem votou (que é o processo mais complexo, mas calculado através de um algoritmo trabalhado sobre dados recolhidos pela CanTV venezuelana). O cartão anterior tinha sido produzido por uma empresa cubana mas o seu software foi atacado por hackers – razão por que Nicolás Maduro escolheu o fornecimento chinês. Eis uma máquina de fascistas.

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Terror e terrorismo.

por FJV, em 15.11.18

Deve ter sido, naturalmente, a generosidade da personagem – mas para todos os efeitos o papa Francisco classificou a “coscuvilhice” como “terrorismo”. Errou; o Papa caiu na esparrela da tagarelice. Quando queremos chamar a atenção para qualquer coisa, damos-lhe um nome superlativo: terrorismo, arrasar, escândalo, mortífero. O que for, desde que funcione. Por exemplo, o ataque a Alcochete é “terrorismo”, designação que serve o interesse do Ministério Público, porque alarga o prazo de investigação. O que separa este “terrorismo” daquele a que eu próprio assisti no Médio Oriente e a que os leitores assistiram pela televisão em muitos atentados pelo mundo fora, em nome da religião, do patriotismo ou da política? Tudo – a começar pela dimensão e pelo horror do espectáculo. Quando houver terrorismo a sério, o que lhe chamarão? Da mesma forma, a moda de chamar “fascista” a tudo o que não entra no dicionário da esquerda – e que desvaloriza o termo, banalizando-o até à irrisão e irritando os incautos. Quando chegar um verdadeiro fascista, o que lhe chamarão? Cuidado com as palavras.

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Pedro Mexia.

por FJV, em 14.11.18

É uma poesia esquecida, a de Pedro Mexia – e tão recente. O próprio autor facilita esse esquecimento, mas é uma injustiça. De Duplo Império (1999) a Uma Vez Que Tudo se Perdeu (2015), vai um programa inteiro, como um plano de reflorestação do próprio deserto. Até a sua invocação de Ruy Belo neste poema que resume o seu lugar no mundo: “Vencido do catolicismo, sem plural/ que me conforte ou confronte,/ sem o ombro gratuito, conveniente,/ de uma geração que me console.” Os poemas de Pedro Mexia, além desta herança, ecoam a uma autobiografia sentimental em estado de permanente catástrofe – mas também às observações minuciosas do mundo dos domingos urbanos, das ruas desertas, dos desencontros ocasionais, dos poetas igualmente vencidos (que Eliot e Outras Observações, de 2003, melhor transcreve), de uma desilusão sem mágoa, apenas melancólica. Na sua geração, ninguém como Mexia soube conciliar essa melancolia com a auto-ironia, evitando comiseração e egocentrismo. Os Poemas Escolhidos (Tinta-da-China) agora publicados são uma das melhores coisas deste outono. Tirando o outono.

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Camarad(x)s.

por FJV, em 13.11.18

É evidente que todos rimos um pouco da forma como Pedro Filipe Soares, o dirigente do Bloco de Esquerda, se dirige aos seus companheiros de partido (durante a convenção do fim de semana passado): “Pois é, camaradas e camarados...” Claro que é um lapso desculpável, sejamos generosos. Vem do “portuguesas e portugueses”, do “companheiras e companheiros”, “cidadãs e cidadãos”. No tempo em que me indignava com erros de Português, ouvi “estudantas e estudantes” (era uma professora em lides políticas), tal como acho cómico e ridículo “presidentas e presidentes” – e, um dia, ouviremos “palermas e palermos” tal como, em Espanha (onde o delírio da tontice atinge níveis estratosféricos, como de costume), uma dirigente política se dirigiu à audiência tartamudeando “miembros y miembras”. Pedro Filipe Soares deu conta do lapso, corrigiu para “camaradas e camaradas”, a audiência aplaudiu o lapso e o seu reconhecimento, e tudo seguiria em frente se o líder do grupo parlamentar do BE não tivesse acrescentado “a linguagem inclusiva tem destas coisas”. Incluindo o bom e o mau português. Ora, a “inclusividade” há de levar-nos a todos e a todas, a enfrentar as pessoas que não se reconhecem na relação binária de género. E então como faremos? Até amanhã, “camarades”.

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