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Revista de variedades.

por FJV, em 18.10.18

Sempre que tropeço em notícias sobre “grandes avanços da humanidade” fico petrificado. Apenas por instantes. Refiro-me a pessoas & coisas estapafúrdias que povoam redações e universidades. Outro dia um lunático (formado numa universidade portuguesa de vanguarda e docente numa outra, onde espalha o seu credo – porque hoje os credos substituem a ciência e o saber) defendia que obrigar as crianças a dar um beijo aos avós era um acto agressivo e violento que, naturalmente, traumatiza os jovens seres. Uma outra, mas no estrangeiro, sugeria que dar de mamar a crianças do sexo masculino podia transformá-los, mais tarde, em violadores. Uma psicóloga australiana acaba de anunciar que os pais devem aguardar por alguma forma de consentimento dos bebés para lhes mudar as fraldas; de contrário, trata-se de uma forma de abuso sexual. Uma universidade proibiu as palmas no fim das conferências a fim de não ofender os estudantes surdos ou “com problemas cognitivos”. Como disse, fico petrificado – mas finjo surpresa. Depois murmuro “que maravilha”, e sigo adiante. Vivemos tempos interessantes.

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100 anos de beleza.

por FJV, em 17.10.18

a rita-hayworth.jpg

Margarita Carmen Cansino nasceu há exatamente cem anos e só ela me ia impedir de falar sobre o orçamento de Estado – não com esse nome, mas com o de Gilda (ela, não o Orçamento). Ou seja, Rita Hayworth, o nome que adota a partir de 1937. É aí que começa a “construção de Gilda”, logo com a figura de Judy em Only Angels Have Wings (de 1939), um filme maravilhoso de Howard Hawks. Gilda é de 1936 – um filme de Charles Vidor em que Rita Hayworth contracena com Glenn Ford: a sua beleza dramática evapora toda a história (um guião de bandidos de casino e de passados que regressam ao cenário dúbio de Buenos Aires) e nunca mais desaparecerá da nossa memória. Dois anos depois ela será Elsa em A Dama de Xangai, de Orson Welles (com quem tinha casado em 1943), mas não atingirá nunca mais aquele pico de beleza, intensidade, perda, doce amargura de Gilda. Cem anos depois do seu nascimento em Nova Iorque (assinalados hoje) é essa beleza que nos atordoa. Claro, há a frase célebre (“A maioria dos homens apaixona-se por Gilda, mas acorda comigo.”). É a maldição que persegue as mulheres fatais.

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Tragédias de primeira e de segunda.

por FJV, em 16.10.18

A forma como lidamos com as tragédias é controversa: tanto esperamos que elas venham, como nos escandalizamos com a atenção que lhes dedicamos – como, finalmente, as valorizamos e desvalorizamos consoante a sua “oportunidade”. Esperava-se que o furacão Leslie (já em regime de “tempestade tropical”) chegasse a Lisboa sob os holofotes das televisões e a atenção da imprensa. A verdade é que, mal as televisões e a imprensa saltaram para a rua, surgiram acusações de alarmismo. No entanto, as imagens mais dramáticas não vieram de Lisboa nem do Porto – mas da Figueira da Foz, de Coimbra ou de Aveiro, porque as tempestades não têm palco reservado. O dia seguinte revelou o costume: os estragos, os dramas, as queixas. Sou suspeito, mas o rasto de destruição seria ampliado caso o Leslie tivesse “escolhido” passar mesmo por Lisboa, onde teria mais atenção, em vez de ter espalhado a destruição em Soure ou na Figueira, terras simpáticas mas com glamour relativo nesta matéria. O Presidente da República esperou até ao almoço de ontem para aparecer. Imagino se tivesse sido em Bragança, vá lá.

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S.S. Van Dine, o criador de Philo Vance. E vários mistérios.

por FJV, em 15.10.18

Willard Huntington Wright (1888-1939) nasceu no mesmo ano de Fernando Pessoa; foi o ano em que Sherlock Holmes continuava as suas aventuras em O Signo dos Quatro, e também o ano da publicação de Os Maias. Jornalista de esmerada educação, como então se dizia, foi editor no ‘LA Times’, crítico e ensaísta (Faulkner apreciava-o muito) – até que a cocaína o salvou. Explico-me: o consumo de droga levou-o a um esgotamento e, depois, a escrever romances policiais. O Caso Benson saiu em 1926, ao fim de três anos de depressão, assinado por S.S. Van Dine, o nome que lhe conhecemos. Com A Morte da Canária e Os Crimes do Bispo (todos publicados na Vampiro) tornou-se best-seller nos EUA – o seu detetive Philo Vance é um esteta, um gourmet e um homem estranho, quase assexuado, um conservador de inteligência rara. Van Dine marcou o policial da primeira metade do século XX (as suas 20 Regras para Escrever Histórias de Detetives eram o modelo de Ellery Queen, mas também de Agatha Christie – até aparecer Chandler). É tão fora de moda que é bom. Nasceu há 130 anos, assinalados hoje.

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Última flor do Lácio, inculta e bela.

por FJV, em 12.10.18

Gostamos da nossa língua? Duvido. Gostamos de escrever em bom português? Duvido; somos uns trapalhões. Achamos que as questões de correção linguística são coisas de outros tempos, não consultamos os dicionários, temos horror aos mestres da língua, perdemos nas últimas décadas quantidades assustadoras de palavras, adotámos uma telegrafia miserável e repelente, repetimos até ao limite erros de construção de frases, desinteressamo-nos. O livro Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva), inventaria os nossos erros mais comuns e denuncia a enorme capacidade destrutiva do linguajar de hoje – banalizado, pobre, sem gosto nem regras, escrito sem orgulho nem brio sobretudo quando é ‘praticado’ por burocratas e “gente pública”. Além disso, dá exemplos desses erros crassos, pecados veniais, expressões daninhas – e é um elogio aos revisores, essa gente maravilhosa que encontra os nossos deslizes mais fatais. O livro de Manuel Monteiro lê-se e sublinha-se; é uma ajuda preciosa para quem ama esta “última flor do Lácio, inculta e bela” (o verso é de Olavo Bilac e é maravilhoso).

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A meia estação.

por FJV, em 11.10.18

Ontem, enquanto amanhecia, uma menina da rádio advertia para “a chegada do mau tempo” – prevista para hoje, leitores. Por instantes pensei que me tinha escapado a chegada anunciada de um furacão; mas não: era a promessa de alguma chuva, aguaceiros aqui e ali, céu nublado, um ventinho de sul, temperaturas noturnas a descer. Na verdade, apetece a chuva: para limpar as cidades (que bem precisam), molhar os campos e as florestas, humedecer a atmosfera, misturar-se à água dos rios. – mas, infelizmente, será por pouco tempo. Antigamente, caso não saibam, existia uma coisa hoje cada vez mais rara, que dava pelo nome de Outono (em maiúscula hoje), de braço dado com outro nome – o da “meia estação”. Ou seja, não era uma estação quente, não vinha coroada daquele frio de janeiro, mas obrigava a “vestir moderadamente”, olhando para o céu em busca de sinais para o resto do dia. Esse equilíbrio desapareceu. Provavelmente, a minha geração foi a última a poder apreciar os benefícios da “meia estação”: nem quente, nem frio, apenas um tempo bom para contemplar a passagem da natureza.

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O que foram fazer os senhores deputados a Serralves?

por FJV, em 10.10.18

O que foram fazer os senhores deputados a Serralves? A resposta é fácil: foram, em fila e organizados, ver as fotografias de Robert Mapplethorpe, com um de dois propósitos – ou verificar se houve censura por parte da administração de Serralves aos desejos do senhor curador; ou – malandrice – apreciar as obras do fotógrafo americano. Convenhamos que nenhuma das coisas deve ter sido feita. Ver uma exposição requer, digamos, predisposição, tranquilidade, disposição e até anonimato; sentamo-nos diante de uma peça (embora os museus contemporâneos, em geral, não gostem de assentos), submetemo-nos à luz, ao silêncio – contemplamos. Não acredito que os senhores deputados tivessem tempo, disposição e ausência de câmaras para cumprir estes desígnios. Quanto à censura, bom, as obras estavam lá, e não me parece que a sua contemplação esclarecesse os representantes da nação em relação à censura. Nem precisavam (vários representantes dos sindicatos de curadores já tinham decidido que houve censura). Quem sai beneficiada é a exposição. A gritaria fez-lhe imensa publicidade. Continuem.

 

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Saramago não sei quantos anos depois.

por FJV, em 10.10.18

O presidente da República falou ontem sobre a sua relação com José Saramago e abordou o chamado “caso Sousa Lara” – quando este, então subsecretário de Estado da Cultura, vetou o nome de Saramago (com o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo) como candidato português a um prémio europeu de literatura. Fez bem Marcelo Rebelo de Sousa em lembrar o episódio de 1992, seis anos antes do Nobel: foi um acontecimento perfeitamente dispensável, que então já não era do nosso tempo. Mas é bom recordá-lo por outro motivo – porque traduz bem o tipo de imbecilidades que se produzem quando o Estado tem uma política ideológica ou de gosto para a área da cultura. Não cabe ao Estado, como um “comissário”, dizer “o que é português” (foi esse o argumento usado), o que “nos representa”, o que é ideológica ou politicamente correto, o que é “ofensivo”, ou o que está ou não “do lado certo” da História. É por isso, já agora, que o Estado não deve meter-se no “caso de Serralves” – como pretendem algumas vozes, saudosas de uma intervenção amiga e, para todos os efeitos, capturada e manietada. 

 

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Banksy, vamos lá rir.

por FJV, em 08.10.18

Tem graça: uma peça de Banksy, o adorado grafiteiro por quem se babam, desfez-se em tirinhas logo depois de ter sido licitada por 1,2 milhões de euros num leilão da Sotheby’s em Londres. Quem aprecia o género merece ser aldrabado – e em público, no meio de gargalhadas. A verdade é que as obras de Banksy são o que são: intervenções de rua, ‘grafiti’ em campanhas políticas, aparições de humor, opiniões populares sobre coisas correntes – mas o seu valor em termos de “arte contemporânea” (ou seja: muito valorizado por papalvos, colecionadores e filósofos do género) atingiu um estatuto de primeira linha. Os últimos grandes pintores (Freud ou Rêgo, por exemplo) foram ultrapassados pelo linguajar desse material histriónico ou apenas irónico, que os “curadores” bem queriam numa loja de “artes decorativas” dos seus museus, junto de caixas de plástico, pneus reutilizados, bonecos de madeira, sujidades, tudo com propósitos provocatórios contra “o sistema” e a arte tradicional. A suprema ironia de Banksy parece de flibusteiro, claro – mas não é: ele só provou quão ridículo é o sistema. 

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Cuidadores. Ver o sofrimento dos outros.

por FJV, em 05.10.18

Por motivos familiares, confrontei-me recentemente com essa classe ignorada e fundamental na nossa sociedade: os chamados ‘cuidadores informais’, gente que abdica de quase tudo na sua vida profissional e pessoal para se dedicar a tratar de familiares. Quase sempre mulheres (esposas, noras, filhas, mães), estas pessoas têm pouco ou nenhum apoio para compensar a sua abnegação, entrega, dedicação e perda de autonomia. Substituindo-se à chamada ‘institucionalização’ de familiares dependentes, que deixam de ser entregues ao Estado, os cuidadores são – hoje em dia – um dos pilares da existência do espírito familiar e do seu prolongamento numa época de dispersão e solidão. São mais do que generosas: sendo um elo familiar, em muitos casos abdicam de uma carreira, de vida afetiva, de independência pessoal. A maior parte não desiste nem olha a sacrifícios. Sofrem e assistem os seus familiares em situações de dor e sofrimento. Aprendem a lidar com o sofrimento dos outros e a torná-lo mais suportável. É indispensável que o Estado reconheça o seu papel e sejam valorizados por todos nós.

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O mundo transformou-se num lugar estranho.

por FJV, em 03.10.18

A Universidade de Manchester tem vindo a habituar-nos a grandes conquistas da humanidade em geral, mas a mais recente é a decisão – da sua associação de estuantes – de banir os aplausos dos eventos promovidos nas suas instalações. Nada de palmas. Nada de oohhh, aaah e quejandos. A partir de agora, os aplausos serão silenciosos, adotando os gestos da linguagem dos surdos-mudos. Bater palmas, diz a associação, pode ser agressivo ou marginalizador para estudantes autistas, surdos ou com problemas sensoriais, e a universidade pretende-se inclusiva; além disso, os aplausos podem desencorajar a participação de pessoas em “eventos democráticos” e ferir a sensibilidade dos que não são aplaudidos ou dos que, sendo aplaudidos, são festejados com aplausos mais ténues. Desta forma, proíbem-se gestos comuns e universais em nome de maior “inclusividade” (a palavra arrepia-me). Virá um dia em que talvez a música seja considerada ofensiva, tal como qualquer manifestação de alegria, qualquer desejo de exceção – tudo em nome de qualquer coisa. O mundo transformou-se num lugar estranho.



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Esta semana não há Nobel da literatura devido a episódios estapafúrdios relacionados com sexo.

por FJV, em 02.10.18

Em “tempos normais”, esta seria a semana da atribuição do Nobel da Literatura. Por uma série de episódios estapafúrdios relacionados com sexo e maledicência (o normal em literatura), o prémio só voltará a ser atribuído em 2020 – de onde não vem grande mal ao mundo. No meu ceticismo, acho mesmo que dois anos de interrupção é muito pouco para apagar da memória as decisões imbecis do Nobel nas últimas décadas. Tirando os funcionários políticos e comissários da cultura, quem daqui a vinte anos se recordará de Dario Fo (premiado) na altura em que ainda viviam Philip Roth ou Norman Mailer (ignorados)? Quem se recordará de Harry Martinson (quem?) na altura em que ainda viviam Jorge Luis Borges e Vladimir Nabokov? Quem se lembrará de Jelinek quando ainda vivia John Updike? Quem se recordará, já mais longe, do miserável Cholokov quando ainda vivia W.H. Auden? Claro que o território do Nobel é campo minado – o palco da literatura alberga muito fanfarrão que passa por estrela da filarmónica. Claro que faz falta aquela emoção do anúncio do Nobel. Mas podemos ler um livro e esperar dois anos.

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Aznavour, as despedidas.

por FJV, em 01.10.18

As minhas canções de Aznavour não são as mais óbvias – e a lista começa por “For Me, formidable”, que é um hino perdido e divertido à própria natureza da arte de Aznavour como compositor, criador de canções, humorista da melancolia. Talvez tenha em segundo lugar outra canção do género, “Mes emmerdes” – em matéria de hinos, toca em todos os capítulos da minha vida. Sim, claro que há ‘La bohème’  e ‘Que c’est triste Venise’, inesquecíveis, mas as canções de segunda linha são sempre mais eficazes, como “J’en deduis que je t’aime”. Neste tempo em que a língua francesa perdeu em todos os campos, as canções de Aznavour mantêm (mesmo com a poeira do tempo, e o inglês, pairando sobre tudo) o seu brilho intenso – e o gosto por uma pronúncia elegante e bem soletrada (os outros eram os de Bécaud e de Regianni). O francês de Aznavour transporta essa nostalgia sem disfarce: é belíssimo de cantar e belíssimo de ouvir (como em ‘Plus bleu que tes yeux”, uma valsa eterna), fala do palco e da rua, apetece dançar e repetir sempre – e sim, fiquei triste, porque sei que Charles Aznavour era único.

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A Master Cooper na vida política.

por FJV, em 01.10.18

A Master Cooper é, como todos sabem, uma frigideira anunciada na televisão; promete milagres. Por aquele preço, evidentemente que se trata de milagres. Parece, no entanto, que a DECO desmontou o anúncio de TV e descobriu aquilo que parecia evidente a um cético que nem precisava de ser cauteloso: trata-se de um anúncio cómico e aldrabão. No entanto, as vendas foram exorbitantes e, mesmo depois de revelado o embuste, há pessoas que continuam a comprar a frigideira vagamente antiaderente, porque gostam de milagres e porque acreditam que as coisas prodigiosas estão ao alcance da mão. Na política é a mesma coisa. Não é que as pessoas gostem de ser enganadas (embora dê essa impressão, tendo em conta a repetição do fenómeno); dá-se apenas o caso de que a realidade não é grande coisa. O que antes era mau no financiamento da investigação científica, por exemplo – agora é desculpável. O que em certas condições era execrável nos serviços públicos – agora é admissível. O que era um abuso no fisco – agora é aceitável. A realidade não mudou. A frigideira é que tem melhor propaganda.

 

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Regular os média, que rica tentação.

por FJV, em 28.09.18

Acaba de sair para as livrarias um nova tradução de António e Cleópatra, de Shakespeare (de Rui Carvalho Homem, Relógio d’Água) – uma das notas do caráter da rainha egípcia é o horror que lhe suscitam os portadores das más notícias. Matar o mensageiro é uma expressão conhecida e Cleópatra é apenas um dos exemplos. Há outros. A responsável pela justiça da Comissão Europeia, a checa Vera Jourová, é uma das candidatas – a comissária acha que é necessário “regular os média” para impedir a disseminação de ideias sobre o “abuso racial, discriminação e a ‘má versão do nacionalismo’ que promove a exclusão e o ódio”. Tudo isto são más notícias, certamente; mas a ideia de que os média devem ser, “se necessário”, submetidos a uma regulação específica, abrirá as portas a formas deliberadas de censura e de controle da imprensa. Todos reconhecemos que a “disseminação do ódio” é um mal, mas a criminalização da opinião e a vigilância ideológica dos média abre a porta a todas as outras formas de censura, mesmo quando mascaradas de actos de bondade. Ou sobretudo com essa máscara.

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O Brasil, teatro de horrores.

por FJV, em 26.09.18

Esta fotografia é importante. O apoio dos evangélicos de Edir Macedo a Bolsonaro não me comove nem enjoa – é banal e esperado, os patifes apoiam-se uns aos outros. Antes de Bolsonaro, Edir Macedo foi um suporte importante de Lula. Aliás, Lula percebeu que estava perdido quando Edir Macedo deixou de atender-lhe o telefone.

 

Os países são aquilo em que se transformam – e o Brasil ameaça transformar-se naquilo que conseguiu não ser até agora, ou seja, uma vasta república sul-americana onde os caudilhos, patifes e pusilânimes podem chegar ao poder central. Antes e depois da ditadura militar (que terminou de forma trágica, com um presidente – Tancredo – que não chegou a ser), ninguém como Bolsonaro, um fanfarrão encartado, ameaçou chegar a Brasília. Muitos como ele (e outros piores, convenhamos) espalharam-se aqui e ali, em prefeituras e governos estaduais – mas a presidência acabaria sempre nas mãos de alguém que conservava o mínimo de senso. A casta dos poderosos brasileiros é uma das mais imbecis da espécie; e a esquerda local, afilhada do PT, vive entre o corrupto leninismo tupi e o folclore dos anos sessenta. Bolsonaro emerge como o chefe de gangue que quer “pôr o país na ordem” – não será eleito na segunda volta, mas forçará a eleger o mal menor. O tempo não é dos moderados (na esteira de Fernando Henrique), mas a culpa é também deles por terem deixado que os demónios emergissem desta maneira.

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Tancos? Pois muito me contam.

por FJV, em 26.09.18

Pois muito me contam. Recordo as sábias palavras com que, há um ano (a 10 de setembro), o senhor ministro da Defesa espinoteou o país: “No limite, pode não ter havido furto nenhum.” Há aqui qualquer coisa de Wittgenstein: ou me dão aqui, já, as armas roubadas, ou não se pode falar das armas roubadas. E elas lá apareceram – mas, no meio de uma garabulha tremenda, em número desigual apareceram parte das que desapareceram, se me entendem, e ainda outras que não tinham desaparecido, como uma espécie de bónus. Com isso, a “instituição militar” salvou a honra do quartel; o ministro salvou a honra do governo; e as autoridades resmonearam: não há aqui nada para ver, é desandar, é desandar, Tancos não aconteceu. Parece que, afinal, houve mesmo um roubo de armas em Tancos – o que, conforme as palavras do presidente da AR, segunda figura do Estado, se revestiu de “momentos altamente cómicos”. Não exageremos, portanto. Roubaram armas em Tancos? E foram militares? Ora. Conforme disse o senhor ministro da Defesa (a 30 de junho de 2017), “não foi o maior roubo do século”. Pois muito me contam.

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A cidade é nossa.

por FJV, em 26.09.18

É muito interessante esta ideia de “a cidade é nossa”, gritada por uns manifestantes e supiníssimos, dedicados amantes de Lisboa. Eu julgava que a cidade era de quem nela vive, de quem passeava nas suas ruas – mas também de quem a visita para aprender a amá-la ou a esquecê-la (depende muito), para fazer negócios com os seus habitantes ou para entregar a sua alma (acontece). Aqueles lisboetas que anunciaram que “a cidade é nossa” (um slogan um pouco xenófobo, não acham?) não o faziam com esta veemência há uns anos, quando o centro estava decrépito, abandonado, entregue à bicharada – e o chão e as paredes dos bairros da moda cheiravam a porcaria. Infelizmente, os números às vezes são chatíssimos; por exemplo, os que dizem que pela primeira vez em muitos anos o número de habitantes do centro de Lisboa aumentou significativamente. As cidades são feitas de trocas e de negociações; e o turismo ajudou bastante a recuperar o centro de Lisboa e do Porto. Às vezes, ao escutar estes slogans fascistazinhos, apetece responder “fiquem com ela”. Mas paguem-na. E, já agora, limpem-na.

 

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Basílio de Cesareia e os clássicos.

por FJV, em 25.09.18

Basílio de Cesareia (330-379), uma das grandes figuras do cristianismo oriental, dizia que “a saúde em extremo é perigosa”. Escreve-o num texto maravilhoso, Discurso aos Jovens ou, na versão que acaba de ser publicada por Miguel Cabedo e Vasconcelos, Aos Jovens, Sobre como Tirar Proveito da Literatura (edição da Universidade Católica). São Basílio foi um erudito que amava a música e as letras; conviveu com os clássicos, mas sempre preocupado com aquilo que hoje designamos “realidades sociais”. É uma figura fantástica; atravessou tanto as academias como os silêncios da época, da Síria ao Egito, de Alexandria a Constantinopla, de Atenas à Mesopotâmia. Escreve a certa altura que aprendeu bastante com os homens cultos da Antiguidade “que vos deixaram palavras tais que fazem de vós [jovens] seus discípulos”. Na temporada atual, consagrada ao final do verão, o texto de Basílio é uma cratera aberta no coração das nossas inquietações. Nunca saberemos realmente como tirar proveito da literatura – a não ser a sua respiração. E, mais tarde, fartos de “saúde em extremo”, a sabedoria.

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Tancos: “O que o país precisa é de uma verdade simples de cinco cêntimos.”

por FJV, em 25.09.18

O caso de Tancos preocupa e diverte. Preocupa, naturalmente, porque se trata de armamento não apenas desaparecido mas roubado de instalações militares – e na lista está material para explosivos e munições de 9mm, sempre com boa procura. Diverte porque é uma traquinice: as autoridades clamam ter recuperado material que, inicialmente, estava a mais e que, agora, está a menos. Pelo meio, um ministro kantiano, sorrindo como Falstaff, e admitindo que “no limite, pode não ter havido furto”, uma vez que a realidade (pelo menos na geringonça) é o que quisermos que seja – e, quanto a armas roubadas, vão à internet. Claro que o ministro podia ter dito a verdade, mas preferiu aparecer como um bacano. Thomas Marshall, que foi vice-presidente de Woodrow Wilson, era um bacano semelhante. Quando o aborreciam com questões que deviam ser respondidas com a verdade, ele era lapidar: “O que este país precisa é de um bom charuto de cinco cêntimos.” A frase foi depois recuperada num romance de Saul Bellow, mas podemos adaptá-la: “O que o país precisa é de uma verdade simples de cinco cêntimos.”

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Caligrafia.

por FJV, em 25.09.18

A ideia de que todas as mudanças “são boas” não é seguramente verdadeira – sobretudo no “sistema educativo”, onde as experiências se acumulam depois de produzirem vítimas que dificilmente serão recuperadas. Uma organização independente inglesa, a Education Endowment Foundation, realizou durante três anos um estudo – em 140 escolas do Reino Unido – sobre os efeitos da utilização de iPads ou quadros interativos na sala de aula: a conclusão é a de que se deviam reintroduzir o giz e os quadros negros de ardósia. Os efeitos benéficos têm a ver com uma maior concentração por parte das crianças, mais atenção aos processos, aprendizagem mais sólida, melhoria da relação física com a natureza das matérias e com a ortografia, além de uma maior interação com o tempo e com os outros. Tamanha descoberta (vem no ‘Telegraph’) não me comove por aí além; procede, igualmente, do bom senso, da intuição e da experiência. Estamos a assistir a alguns regressos importantes. Depois de passar a “febre finlandesa” na educação, anseio pelos cadernos de duas linhas estreitas para treino de caligrafia.

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Mapplethorpe.

por FJV, em 24.09.18

A polémica em redor da exposição de Robert Mapplethorpe em Serralves tem sido vista como censura; se isso é verdade, ou seja, se a Administração de Serralves interditou obras devido a conteúdo sexual, incorreu num erro lamentável – mas a administração garante que não o fez. Aguardemos; os subterrâneos que ligam o “poder cultural” e a “arte contemporânea” são sempre flutuantes. O museu não pode interditar obras, substituindo-se às famílias, que fazem o que entendem, incluindo colocar na sala de estar de suas casas um gigantesco pénis fotografado por Mapplethorpe (o autor da maravilhosa fotografia andrógina de Patti Smith). De resto, as “guerras da moralidade” são tão obtusas como as interdições e as “intenções provocatórias” destinadas a chocar as burguesias que apreciam a “arte contemporânea” como subgénero das artes decorativas em geral. Se alguém estrebucha, faz-se escândalo; se ninguém estrebucha, faz-se escândalo na mesma até que a provocação seja tão banalizada que se imprima em t-shirts para oferecer às tias. Quem vai ver obras de Mapplethorpe sabe ao que vai. Aguardemos.

 

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Táxis e táxis.

por FJV, em 21.09.18

A greve de taxistas, sendo justa ou injusta, não me suscita simpatia; nem grande antipatia – mas alguma há de perceber-se. Depois de uma cansativa viagem de comboio (atrasado), eu e algumas centenas de pessoas não encontrámos táxis naquele mono lisboeta e desconfortável conhecido por Estação de Oriente; expliquei porquê a uns turistas – e a maior parte dedilhou os polegares no telefone e recorreu à Uber. Entretanto, à enorme fila entretanto formada, chegavam alguns táxis que anunciavam que só transportavam passageiros para fora de Lisboa. Bela amostra. Até ontem, eu era um cliente regular de táxis dentro das cidades. Fui mal atendido várias vezes (sobretudo no aeroporto de Lisboa), mas bem atendido de outras (quando peço um táxi do meu bairro). No entanto, bloquear as cidades e ameaçar com chantagem e ruído não me parece uma boa ideia para ganhar apoio da população que, munida de telemóvel, chama um carro (limpo e confortável, já agora), não quer discutir preço e não está para aturar recriminações. Este é o rumo que as coisas tomam, caso os táxis não percebam.

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Alberto de Lacerda.

por FJV, em 20.09.18

Alberto de Lacerda morreu no verão de 2007 (a 26 de agosto). É um poeta singular e, infelizmente, ignorado ou pouco lido entre nós. Nasceu na Ilha de Moçambique em 1928 (passam hoje 90 anos) e veio para Lisboa aos 18 anos. Com David Mourão-Ferreira, Cinatti, Couto Viana e Fernanda Botelho, fundou a Távola Redonda mas, depois disso, viveu pelo mundo fora: primeiro em Londres (trabalhou na BBC) e depois nos EUA (em Austin, no Texas, em Nova Iorque ou em Boston), onde foi um notável professor; e, finalmente, Londres de novo – onde se reuniu a dois velhos amigos dessa geração de prata portuguesa do Índico (Rui Knopfli e Eugénio Lisboa) e acabou por viver mais de 50 anos. Experimentou o drama e as vantagens da extraterritorialidade, cultivando sempre uma ironia ácida, uma melancolia tingida de cinismo, uma poesia apreciada por eleitos. O seu vastíssimo espólio, esse, continua sem encontrar uma casa. Fica a poesia: “A minha intenção/ Se a tivesse/ Era interromper de vez em quando as vossas falas/ E fazer-vos voltar a cabeça silenciosos/ Na única direcção em que os versos existem.”

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As estrelas de Marco Pierre White.

por FJV, em 19.09.18

Tenho uma grande admiração por Marco Pierre White. Para quem leu a sua biografia, ‘Um Diabo na Cozinha’, ou para quem acompanhou as suas tropelias pela imprensa, o feitio do ‘chef’ inglês (que aparecia amiúde no MasterChef australiano) não é novidade. No mundo do comércio, Marco Pierre White (mentor de vários ‘chefs’ como Ramsay, Blumenthal ou Batali) fez o que tinha a fazer e, como estrela pop, deve ter negociado bem; mas o que mais me interessou foi o seu gesto de, aos 33 anos, recusar as três estrelas Michelin para o seu restaurante londrino – devolvendo-as para “reconquistar a liberdade”. A verdade é que as estrelas Michelin são uma armadilha e acabam por impor um padrão de gosto, de etiqueta e de esquizofrenia – e são um braço armado da política cultural francesa. Agora, o Guia Michelin procurou Marco em Singapura, onde tem o seu novo restaurante, mas o cozinheiro recusou a visita dos inspetores – quer fazer comida à sua vontade. Há uns tempos dizia que preferia comer um pastel de nata no aeroporto de Lisboa do que um menu de degustação. Um tipo livre e de mau feitio.

 

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Ilha de Moçambique.

por FJV, em 18.09.18

Número especial da revista Oceanos, editado por mim.

 

Foi há duzentos anos que a Ilha de Moçambique – mil e quinhentos quilómetros a norte de Maputo – foi elevada ao estatuto de cidade pelo governo português de então, em 1818. A Ilha, que fora entreposto de escravos desde a passagem de Vasco da Gama em 1498 (e até ao século XIX), e primeira capital da então província ultramarina, foi também um

lugar de “cruzamento de culturas”. A expressão hoje banalizou-se, e não quer dizer senão “muita gente diferente”, mas quem captou melhor essa herança foi o poeta Rui Knopfli: “Caminhos sempre abertos para o mar,/ (...) uma lentura / brâmane (ou muçulmana?) durando no ar.” Hindu, muçulmana, cristã, animista ou puro lugar de contemplação – a ilha teve muitos poetas de visita (Camões, a abrir, mas também Tomás Gonzaga, Jorge de Sena, Alberto de Lacerda, Knopfli, Mia Couto, Eduardo White, Luís Carlos Patraquim, Virgílio de Lemos, a lista é vasta) e foi uma espécie de paraíso que sobreviveu às várias guerras, a colonial e a civil (a esta, com dificuldade). É, se me permitem o devaneio, um dos lugares mais belos do mundo. Uma herança luminosa.

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Ainda não era isto — a história do comunismo.

por FJV, em 17.09.18

Não sei se reconhecem esta argumentação, mas ela assenta em duas frases acopladas: “Ainda não era isto. É outra coisa, mesmo ao lado – mas muito melhor.” Com o fim da URSS ouviram-se muitas vozes defendendo que não se tratara – ainda – do verdadeiro socialismo; por isso é que tinha falhado; por isso e por falta de tempo. Escuso de falar do Camboja (que em poucos anos eliminou milhões de cambojanos nos campos de reeducação), da China, do “modelo albanês”, da pobre Roménia ou da caricata Coreia do Norte. Com o caso da Venezuela era importante reler hoje as grandes declarações de apoio ao “socialismo do século XXI”. Houve entre nós epígonos ilustres que chegaram ao cúmulo de defender Hugo Chávez quando encerrou televisões e fechou jornais. Parte deles repete a lengalenga do “ainda não era isto”. Assisti na Venezuela ao nascimento desta ditadura anunciada e ominosa enquanto, na academia e na imprensa, europeus fartos (quase sempre confortados com dinheiros públicos) defendiam a catástrofe e os “bons revolucionários” que faziam a revolução onde ela não podia incomodá-los.

 

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Plágio.

por FJV, em 13.09.18

Em Portugal tivemos (e temos) os nossos casos, mas agora comovem-me estas revelações sobre o currículo de políticos espanhóis: primeiro-ministro (um habilidoso), ministros, líder da oposição, mais uma série de políticos de pequeno e médio porte – todos apareceram manchados por acusações de plágio descarado nas suas teses universitárias, e há mesmo casos de mestrados inexistentes ou de teses que não valem um chavo, sem falar de menções a cargos anteriores que depois se percebe que não foram exercidos. A primeira reação é a mais óbvia e compreensível: trata-se de uma geração de aldrabões notórios que quer parecer o que não é, tratando de embelezar com dignidade académica o ‘lerolero’ e o ‘parlapié’ moderninho com que traulitam na vida política, com o apoio e a cumplicidade de universidades da treta. Na circunspecta Alemanha, ministros (um deles, a da educação) e deputados caíram por plágio de tese, a provar que o vírus é universal – mas que deve ser castigado. Já agora, a informação: há dois anos, a Universidade de Coimbra anunciou 60 casos de plágio entre teses dos seus alunos.

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David Foster Wallace (1962-2008).

por FJV, em 12.09.18

Passam hoje dez anos sobre a morte – trágica – de David Foster Wallace (1962-2008). O seu romance A Piada Infinita é um emblema da literatura americana dos anos da mudança de século (foi publicado em 1996, só em 2012 saiu a edição portuguesa) e, até agora, sem sucessor à altura. Pelo movimento da prosa, pela ironia, pelo pessimismo radical, pela forma como leu o espírito do tempo, A Piada Infinita era o livro ideal para ser esquecido – mas não foi. Wallace ainda começou a escrever um novo romance (O Rei Pálido), uma obra incompleta que arrebatou o Pulitzer postumamente. O livro Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, onde mistura ensaios e reportagens delirantes (um congresso de necrologistas, um cruzeiro nas Caraíbas, a indústria da pornografia, a ficção televisiva, um festival da lagosta, o ténis de Federer, etc.) é o grande guia para a sua obra e a sua dispersão. Wallace suicidou-se aos 46 anos, mergulhado numa profunda depressão que o atormentava sem cessar. Olhando para trás – não há ainda um sucessor desta obra nem da sua energia maníaca.

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Já ouviram — mesmo — os professores?

por FJV, em 12.09.18

Para lá do debate sobre o caráter facultativo da leitura de Os Maias no ensino secundário há outras questões que deviam colocar-se acerca dos currículos propostos. Em primeiro lugar, a linguagem usada para justificar os programas – uma trapalhada que, em certos casos, não resiste sequer à primeira leitura. Custa a crer que no Ministério da Educação não exista gente que escreva com clareza, elegância e sem atropelos. Provavelmente não há (duvido), mas o problema não é ‘deste’ ME, mas de qualquer um dos anteriores ‘ME’, onde por vezes parece que um bando de cripto-pedagogos anda à solta com os complicómetros ligados. E, depois, se me permitem, gostava de saber se os professores têm sido ouvidos sobre as alterações curriculares. Se alguém – lá, no céu ministerial onde os cripto-pedagogos congeminam – andou pelas escolas, ouvindo professores que estão todos os dias em contacto com os alunos (não falo daqueles que não dão aulas) e que acumulam anos e anos de experiência. E se esses professores, muito deles o orgulho da profissão, são mesmo ouvidos. Porque merecem ser ouvidos.

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