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Anita Brookner, 90 anos.

por FJV, em 16.07.18

Hoje, falar de Anita Brookner é uma espécie de curiosidade literária para quem não leu ‘Hotel du Lac’ (que obteve o Booker em 1984, publicado em Portugal em 1986) ou para quem não sabe que foi a primeira mulher a ocupar a cátedra de Fine Arts na universidade de Cambridge em 1967. A família é curiosa: o avô materno, polaco, fundou uma companhia de tabaco, a mãe era cantora, o pai era também um imigrante judeu vindo da Polónia. Sempre solitária, “a mulher mais triste do mundo” (é este o retrato das suas personagens femininas) só publicou o primeiro romance aos 53 anos, em 1981 (antes disso escreveu sobre pintura) – mas foram ‘Olhem para Mim’, ‘Hotel du Lac’ e ‘Uma Amiga de Inglaterra’ os seus livros mais marcantes, cheios de melancolia, de tristeza, de mulheres tímidas da classe média inglesa que nunca viveram uma história de amor ou vivem sozinhas (ela própria nunca casou e escreveu um romance luminoso sobre o tema, ‘As Regras do Compromisso’) – ou seja, sobre pessoas que nunca têm aquilo que procuram. Hoje completaria 90 anos, mas morreu em 2016, com 87 anos. Sozinha.

[Da coluna no CM]

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Mulheres na bola.

por FJV, em 13.07.18

A certa altura de ‘Os Maias’, a saborosa condessa de Gouvarinho começa a desconfiar das visitas de Carlos da Maia à casa de “uma senhora brasileira”, que era “muito linda”. Carlos explica-lhe que um médico não podia exigir um atestado de hediondez às suas doentes; já se sabe o resto da história. Para evitar estes problemas no mundo do futebol, a FIFA (que tem um “responsável pela diversidade”) mandou que as televisões deixem de filmar mulheres bonitas nas bancadas dos estádios, explicando que a medida se destina a combater o sexismo no futebol. A partir de agora, durante os jogos de futebol, os realizadores de TV procurarão evitar rostos bonitos de mulheres e, suponho, de homens, para não ferir suscetibilidades. É uma estupidez monumental. A ida de mulheres aos estádios foi uma tremenda vitória da humanidade e significou o fim de uma era em que só os homens iam ver futebol. Alguns dos melhores comentadores de futebol-futebol hoje em dia são mulheres. As mulheres são aguerridas e festivas nos estádios. Pois que sejam bonitas também. Mesmo que a FIFA as censure na TV.

[Da coluna no CM]

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A Netflix antes do Quixote.

por FJV, em 10.07.18

Lê-se hoje menos ficção; parece que parte da responsabilidade se deve à televisão e às séries da Netflix, o que me parece argumento de peso e substância. Quando Miguel de Cervantes quis publicar o Quixote, dirigiu-se a Francisco de Robles, livreiro de Madrid com olho para o negócio e desejoso de repetir o sucesso de romances best-sellers da época. Em 1605, saiu a primeira parte do Quixote (1500 exemplares esgotados em três meses, além de uma edição pirata em Lisboa, note-se). A segunda edição saiu em abril desse ano, mas era preciso continuar a escrever as aventuras do amalucado cavaleiro da Mancha. Como Cervantes preguiçasse ou andasse distraído, apareceu em 1614 uma falsa segunda parte do Quixote, mas assinada por Alonso de Avellaneda, nome também falso – vendeu-se muito bem, parece, com várias reimpressões. Cervantes tratou então de apressar a parte em falta do verdadeiro e glorioso Quixote, o que aconteceu um ano depois, o autor fatalmente doente (morreu em 1616). Foi um insucesso. Os leitores já tinham devorado a versão falsa. De Avellaneda. Da Netflix, queria eu dizer.

[Da coluna no CM] 

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Tailândia.

por FJV, em 09.07.18

Apesar do regresso do calor e da época balnear, quem não ficou, ao menos por alguns instantes, suspenso das imagens que chegavam da Tailândia? Mesmo as coisas estapafúrdias do futebol (ou a comédia da libertação falhada de Lula, no Brasil) ficaram para segundo plano. Sim, comovemo-nos diante das imagens e dos relatos sobre os miúdos presos na caverna; não é possível ser de outra maneira – “ainda temos um lado humano”, oiço dizer. Também nos comovemos com a qualidade e discrição das operações de resgate, evidentemente. Mas há coisas que talvez fossem diferentes na Europa, ou nos EUA, e uma delas é a magoada carta de desculpas escrita pelo treinador dos miúdos. Ou os pedidos de alguns destes por uma refeição com a família (‘moo krat’ ou frango frito, por exemplo) mal o tormento passe. Ou uma outra, especial, assinada por Bew: “Não se preocupem, mãe e pai. Estou fora há duas semanas, mas vou voltar e ajudá-los na loja.” Tenho a impressão de que isto seria a última coisa que diria uma criança ocidental. Escutada a esta distância, a frase comove mais do que o habitual.

[Da coluna no CM]

 

 

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ViaCTT.

por FJV, em 02.07.18

A história do ViaCTT é exemplar para ver como o Estado se julga no direito de modelar a vida dos cidadãos de acordo com a sua paranoia. Para abrir o século XXI, o Estado quis facilitar a vida aos cidadãos e oferecer-lhes uma caixa de correio eletrónico, o ViaCTT – que funcionava mal e era de acesso mais penoso do que qualquer email de outros provedores. Como se tratava de “democratizar” a net, todos teríamos o mesmo serviço de email (um mimo para quem quisesse ou vigiar ou torpedear o serviço), coisa que o fisco aproveitou: era preciso ter uma conta ViaCTT para receber notificações. Ninguém ligou; não só o ViaCTT não funcionava bem, mas também porque os cidadãos escolheram e usavam a sua conta de email. Passados anos – agora –, o absurdo foi total: os cidadãos que não tivessem ViaCTT seriam multados. No passado, os funcionários públicos tinham de ter uma conta na Caixa – e pagamentos a instituições públicas só com um cheque da Caixa. Porque não um email? O governo recuou ontem (quem não quiser ViaCTT não é multado), mas a pergunta fica: e todos vestidinhos da mesma maneira?

[Da coluna no CM]

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Teologia automóvel.

por FJV, em 26.06.18

O mundo corre a várias velocidades. Enquanto os fabricantes de automóveis do ocidente fazem experiências com veículos sem condutor (uma coisa vagamente absurda que se traduz na possibilidade de gente rica que não gosta de conduzir poder comprar um carro novo), vale a pena perguntarmo-nos sobre o que significa ter mão sobre o seu destino. A resposta vem da Arábia Saudita, onde as mulheres podem, finalmente, conduzir o seu carro – quer dizer, ter mão sobre o destino ou, pelo menos, sobre um volante que seja seu. Para pessoas avançadas e ilustradas, cheias de tédio, talvez isto não tenha importância – só que o passo é de gigante. Basta perceber que a decisão de alterar a lei civil que proibia a “condução feminina” se deu no país (um dos territórios do wahhabismo e do salafismo) em que havia mais clérigos e teólogos fundamentalistas a teorizar sobre a justeza dessa proibição. O passo mais importante não foi a autorização para conduzir um carro, o que se traduziu numa notícia para as páginas de “curiosidades” – mas a possibilidade de contrariar uma lei que os teólogos locais defendiam.

[Da coluna no CM] 

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Os telefones que não nos pertencem.

por FJV, em 25.06.18

Ontem, enquanto via o Japão-Senegal na esplanada de um restaurante, fiquei a saber que a Cristina ia ver os Chemical Brothers. Essa informação é talvez irrelevante mas veio acompanhada de uma série de revelações sobre a roupa interior da amiga da Cristina, que comia moelas grelhadas e falava ao telefone mesmo na mesa ao lado. Daí a meia-hora, ainda a tempo do 2-2 do jogo, os novos ocupantes da mesa comiam caracóis e conversaram pelo Face Time com um interlocutor (pude vê-lo em mangas de camisa) alojado num hotel que todos elogiaram, enquanto – o telefone estava em alta-voz – trocavam confidências sobre pessoas de família; escuso-me a revelar as suas opiniões, que os tios podem ser leitores do CM. Quem me conhece sabe que sou pouco curioso acerca da vida dos outros (e até um pouco surdo). Estas conversas decorreram a céu aberto e não têm direitos de autor, tal como as dos gestores e executivos que viajam no comboio Lisboa-Porto e que, semanalmente, me informam em voz alta (sem eu pedir) sobre como vai a vida nas suas empresas. A todos agradeço mas preferia que desligassem o telefone.

[Da coluna no CM] 

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Zé Pedro no panteão dos devoradores.

por FJV, em 21.06.18

Estive no primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985, num Rio de janeiro chuvoso e tropical: Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osborne, B-52’s, Nina Hagen, Queen, ao lado de Barão Vermelho, Pepeu e Baby Consuelo, Go-Go’s ou George Benson, ou até chatos como Gil e Scorpions. Mas isso são outros tempos (a ideia era levar finalmente o rock para o Brasil, que era relapso nessa matéria). Este ano, um grupo de políticos, entre os quais o Presidente da República, o presidente da AR, F. Louçã e Catarina Martins, vai de boleia ao Rock in Rio Lisboa homenagear Zé Pedro – o Zé Pedro dos Xutos. Li a notícia e não estranhei; Zé Pedro era um músico de eleição e um homem bom, popular, um rocker de primeira linha. A ideia das figuras do Estado é perversa: estando no palco, festejam “o cidadão Zé Pedro”, não o músico libertário e rebelde que ele foi. Ou até podem festejar este último, mas a sua omnipresença devora essa dimensão, porque o Estado devora tudo aquilo em que toca. Por pudor, deviam abster-se desse passo. O Rock in Rio não é Woodstock, muito longe disso – mas Zé Pedro não merece ser banalizado.

[Da coluna no CM] 

 

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Esta leitura não é pessimista.

por FJV, em 21.06.18

Se o fenómeno da diminuição de leitores não é português, mas global, há números que são só nossos. E não nos honram.

 

Os pessimistas são geralmente desprezados por estarem fora de moda (de todas as modas) antes do tempo e porque, ao «invocar o mal», parecem ter gosto em estragar o festim. Vejamos, portanto, alguns números desagradáveis que não servem de conforto a ninguém: o mercado do livro em Inglaterra registou em 2017 um aumento de faturação de 0,09% em relação ao ano anterior; «tamanho crescimento» foi, felizmente, acompanhado de outras boas notícias, como a abertura de novas livrarias (só a cadeia Waterstones abriu mais uma dezena lojas) – infelizmente, isso não impediu que se tivessem vendido menos 2,9% de livros. Ou seja, menos leitores. Bons números em Espanha, pelo que se sabe, onde se registou um aumento de 3% do valor faturado (ou seja, subiu o preço médio por título em venda), o que pode ajudar a compensar perdas anteriores da ordem de 700 milhões nos últimos dez anos, mas os números do índice de leitura per capita mantiveram-se baixos ou diminuíram – enquanto o mercado alemão (um dos mais fortes) parece ter perdido mais de meio milhão de leitores (queda de 1,3% em número de exemplares vendidos) e em França, apesar dos números sempre festivos, se ter registado uma quebra real de 1,1%.

Vamos e venhamos — as estatísticas permitem outras leituras mais otimistas como a que valoriza o facto de os leitores não terem desaparecido da face da terra e estarem preparados, na obscuridade, para aparecerem e melhorar os índices dos anos futuros. Assim seja.

Esta leitura não é pessimista. Para um leitor, esses números são sempre baixos, porque é da sua natureza imaginar um mundo onde a leitura – e talvez a literatura (indiferentemente distribuída por ficção, poesia e não ficção) – é uma das primeiras prioridades. Acontece que não é. Dados disponíveis no Eurostat (2011) informam-nos que apenas 5,2% da população portuguesa lê mais de dez livros por ano (metade da Espanha, que tem uma taxa de 11,7%, e muito menos que a Estónia, com 21,9%, a Alemanha, 22,1%, ou a Finlândia, 24,4%). 9% dos portugueses lê entre 5 a 9 livros por ano. Abaixo de Portugal, nesse inquérito que envolve mais de vinte países, só a Roménia e a Turquia. Bom, talvez dez livros seja demais, bem vistas as coisas. Sigamos o bom exemplo do Presidente da República e procuremos aquilo em que somos mesmo bons: a única contabilidade em que Portugal fica no topo é na honrosa categoria «não leu um livro», em que nos classificamos no segundo lugar — entre os países da UE apenas a Roménia nos bate.

Se o fenómeno da diminuição de leitores não é português, mas global, há números que são só nossos. E não nos honram. Mas há pouco que possamos fazer.

 

A crescente desvalorização da literatura no ensino do português, onde foi substituída por exemplos de textos em «português normal», está a produzir vítimas a curto prazo, na companhia da banalização conhecida por «entretenimento» (diretamente do inglês entertainment, uma mistura de «espectáculo» com moda, aliás «fashion», cozinha, música pop, viagens, lifestyle, cinema, gossip, festival da canção), onde se mesclam o bom e o mau em doses idênticas, desde que tenham uma «dimensão cultural» e «festiva». Que isto aconteça na vida dos jornais, compreende-se (apesar de muitos deles, sobretudo nos EUA e no Reino Unido, já terem separado as zonas de livros das áreas de lifestyle) – mas que a escola não se preocupe (como acredito que é o seu papel) com a valorização do cânone, com a leitura dos autores e com o conhecimento da história e das ideias que modelaram as nossas literaturas e as nossas sociedades, é razão para ficarmos preocupados.

Seria talvez importante, por isso, avaliar a qualidade do ensino relacionado com a leitura – e ver até que ponto ela reflete e expande essa crescente banalização do banal.

Participei recentemente num encontro relacionado com bibliotecas escolares – onde ouvi as três cantilenas do costume. Uma: que o digital providencia um «absolutamente notável» progresso da civilização, e que esse progresso é inquestionável. Duas: que é necessário transformar a leitura numa «atividade inclusiva», provavelmente banindo «livros difíceis» e «incluindo» cada vez mais literatura popular «que diga alguma coisa às pessoas». Três: que a vida é como é.

Não sendo já possível questionar a utilidade da literacia digital (mas sendo absolutamente necessário expulsar o vocabulário apatetado dos seus guardiães), convinha recordar que o digital não é um fimmas o meio, tal como o conhecimento da gramática do português não é um fim, mas um meio. Tal como convinha dizer que é apenas na escola que muitas crianças e adolescentes terão contacto com os livros do cânone: eliminar esses livros das salas de aula é prestar um grande serviço à analfabetização das novas gerações e um péssimo serviço à democratização da leitura e do livro. O lero-lero da «inclusividade» e da «leitura inclusiva» não é mais do que uma desculpa para perpetuar essa banalização do banal nas nossas escolas.

[Carta do editor, LER 148, Abril]

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Leituras em dia.

por FJV, em 19.06.18

Tive uma experiência extraordinária um destes dias: confrontar alunos universitários com o pedido de elaborarem uma lista dos dez livros de que mais gostavam. Não a dos dez bares do Cais do Sodré ou a das dez marcas de roupa, ou a dos dez youtubers mais patetas, ou a dos dez rockers deste verão. Como se tratava de alunas e alunos do último ano de humanidades, esperava uma lista condizente e à altura, mas 80% deles foi incapaz de chegar lá. Pensei tratar-se de um problema de memória; mas não: era mesmo falta de conhecimento. Não tinham lido dez livros, não se recordavam de dez títulos (mesmo que os não tivessem lido, romances ou ensaios) nem manifestavam qualquer sentimento de culpa. Eu nem queria clássicos, da Odisseia ao Amor de Perdição ou Cem Anos de Solidão. Queria dez. Ernestine, a professora do romance A Mancha Humana, de Philip Roth, diz a certa altura: “É muito difícil ler os clássicos; logo a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Deixou de haver critérios, para só haver opiniões.” Fiquei velho de repente.

[Da coluna no CM] 

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Entre o “afeto” e o “excesso de proximidade”.

por FJV, em 19.06.18

O miúdo cumprimentou o Presidente francês; chamou ‘Manu’ a Emmanuel Macron: “Tudo bem, Manu?” O Presidente lembrou: “Deves chamar-me senhor presidente ou senhor, está bem?” Esta lição de simplicidade e autoridade não comoveu muita gente, que acha que Macron foi (como é que se diz agora?) “arrogante”. Não foi tal. Foi o Presidente francês. E um Presidente representa-nos, mesmo que não acreditemos em nenhuma virtude da República e das suas hierarquias. Às vezes fico incomodado ao ver a forma como os jogadores de futebol, por exemplo, não são informados pelo seu clube sobre a forma como, na tribuna, devem cumprimentar o Presidente da República quando recebem uma taça e festejam um título – um “passou bem” respeitoso e um gesto com a cabeça não custam nada. Na relação entre as pessoas a informalidade não é tudo – é um quase nada que pode ser disparatado, mesmo quando se multiplicam as ‘selfies’ ao lado do nosso Presidente, frequentemente confundido com “o Marcelo”. Na verdade, não são a mesma pessoa – e nenhum “afeto” pode ser confundido com um “excesso de proximidade”.

[Da coluna no CM] 

 



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Amelia Earhart.

por FJV, em 18.06.18

Foi na Irlanda que, pela primeira vez, deparei com o nome de Amelia Earhart – perto do local onde ela aterrou, em 1932, concluindo o primeiro voo solitário de uma mulher sobre o Atlântico. O filme Amelia, da indiana Mira Nair, com Hilary Swank, não lhe faz inteira justiça: Amelia Earhart é um dos rostos pioneiros da aviação, um modelo notável de mulher independente e livre (o marido era o proprietário da grande editora Putnam), destemida, ousada, lutadora – e uma inspiração para o feminismo americano. Há exatamente 90 anos (entre 17 e 18 de junho) fez o primeiro voo sobre o Atlântico, com piloto e mecânico, entre a Terra Nova e o País de Gales. Repetiu-o, mas na condição de navegadora solitária, quatro anos depois. Desapareceu dos radares durante um “voo mundial”, em 1937 (a 2 de julho), no Pacífico Sul, e o seu corpo nunca foi encontrado (o que motivou várias teorias da conspiração). Restam as suas viagens, o seu pioneirismo, um livro encantador (The Fun of It) e, já agora, uma canção (entre muitas outras) de Joni Mitchell, “Amelia”. Uma pioneira entre as nuvens.

[Da coluna no CM] 

 

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Lendo os capítulos essenciais da “história sexual da América”, o guião moralista repete-se, refém da censura e dos seus traumas.

por FJV, em 15.06.18

Camille Paglia

Os concursos de Miss America deixarão de contar com a prova em fato de banho e, nas avisadas palavras dos organizadores, passarão a avaliar as concorrentes menos pelo “aspeto exterior” do que pelo “interior”. Confesso que não me lembro de ter visto um único desses concursos (que acho razoavelmente pelintras), mas compreendo o júbilo causado por este anúncio. Mas ao contrário: longe de ser uma vitória feminista (basta ler Germaine Greer, a excelente autora de ‘A Mulher Eunuco’, onde criticava estereótipos da feminilidade e à má relação entre as mulheres e o seu corpo), é uma vitória do moralismo americano e do seu horror à beleza, que detesta, também, tanto as novas versões de ‘Os Anjos de Charlie’ como ‘Donas de Casa Desesperadas’ (ou Ursula Andress a sair das águas num filme de James Bond). É o mesmo moralismo que criou a Lei Seca americana e as leis anti-pornografia e anti-liberdade de expressão. Sei que esta posição não é muito popular – mas, lendo os capítulos essenciais da “história sexual da América”, o guião moralista repete-se, refém da censura e dos seus traumas.



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Linguagem truculenta. Não está má,

por FJV, em 15.06.18

 

Mentiu descaradamente. Infâmia. Canalhice. Execrável e peçonhento. Miserável. Pouca vergonha. Conspurcado. Mentiroso compulsivo. Arruaceiro. Insultuoso e inábil. Reles e oportunista. Repelente, indigente e ordinário. Racista ignóbil. Labrego. Abjeto. Tratante. Carraça autoritária. Fenómeno fisiológico. Traidor. Vendido. Sevandija. Bardamerda. Caloteiro e cobardolas. Mafioso. Embusteiro. Sicofanta. Mimado. Presunçoso. Lamaçal de vitupérios. Canalha. Desprezível e infame. Biltre. Venal. Néscio. Infecto. Afrontoso e hipócrita. Espero que tenha apreciado; a escolha das palavras em discursos públicos tem evoluído bastante desde que J. Sócrates inaugurou o seu peculiar estilo no parlamento e desde que no futebol passou tudo a andar em roda livre. A lista que transcrevo é pública (só acrescentei ‘sevandija’, ‘biltre’ e ‘sicofanta’, de que gosto bastante) e tem sido abundantemente multiplicada. Se, por um lado, esta rispidez pode dar algum uso aos dicionários, também é verdade que dá uma ideia de como vai o truculento e hiperbólico debate público lusitano. Que não se poupem.  

[Da coluna no CM] 

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O racismo de Einstein.

por FJV, em 14.06.18

Parece que Einstein não achava atraentes as mulheres chinesas. Ao ver o retrato da Jiang Qing, a última mulher de Mao Zedong, eu concordo; já Luo Yixiu, a primeira, era bonita. Não me pronuncio sobre as outras duas. A revelação sobre Einstein vem numas páginas inéditas do seu diário consagrado a uma viagem ao Oriente. Para o organizador da publicação, esse fragmento demonstra o racismo de Einstein contra os chineses, por oposição à sua benevolência a propósito dos japoneses ou dos cingaleses: “Seria uma pena se esses chineses suplantarem todas as outras raças.” A acusação de racismo é uma arma potente hoje em dia; basta, aliás, mencionar-se a palavra ‘raça’, como o faz Einstein em 1922. A acusação (vem no ‘Guardian’, claro) é absurda, mas junta-se-lhe pior, a de “não ser sensível ao outro” (acontece que “o outro” é uma invenção recente, do pós-guerra). Estas ideias sobre Einstein são publicadas pelo CalTech, uma das mais poderosas universidades americanas, o que dá uma ideia de como a estupidez se espalha com facilidade, julgando Einstein (morreu em 1955) com as ideias de hoje.

 

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Um romance sobre outro romance, e a CIA.

por FJV, em 14.06.18

O livro só será publicado em 2020 e o título, ‘We Were Never Here’ (‘Nós Nunca Estivemos Aqui’), de Lara Prescott, não dá a ideia do que trata: é um romance sobre outro romance, ‘Doutor Jivago’, que valeu ao poeta Boris Pasternak (1890-1960) um Nobel que a URSS não o deixou receber (publicado em 1958, mas em Itália, curiosamente por um editor comunista, esteve proibido até 1989 pelas autoridades de Moscovo). O romance de Lara Prescott  mostra, através de documentos desclassificados recentemente, como a CIA conseguiu introduzir exemplares de ‘Doutor Jivago’ na URSS – por alguma razão, durante a década de 60 pensava-se que a literatura, especialmente com os seus bons livros, podia ajudar a mudar as sociedades e, sobretudo, a vida das pessoas que os liam. A história assenta muito na relação entre a musa de Pasternak, Olga, a secção de dactilografia que a CIA terá envolvido nesta missão; ambas vivem, cada uma no seu lado dos muros e fronteiras da época, uma tensão de beleza e perigo. No fundo, é isso que dá (ou dava) força à literatura e às suas grandes obras. Já terá acabado esse tempo?

 

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Aceitar o puramente razoável.

por FJV, em 13.06.18

Mudar, tem de ser. Conservador como sou, escrevo de outra maneira: recuperar o que, afinal, estava bem. Explico: o mundo descobriu de repente que estava afogado em plástico, o que obriga a tomar medidas drásticas: acabar com as sacolas de plástico (uma bênção!), com talheres e copos plásticos, a lista é vasta. Isto leva-me, como um melancólico carregado de melancolia, a pensar no tempo em que nem tudo era descartável: as toalhas de mesa, que eram de tecido, as garrafas de água ou refrigerante, que eram de vidro, tal como os copos. Os talheres. O saco de pano para ir comprar pão. Os guardanapos com argola individual. A roupa, que não era descartável e tinha de durar de ano para ano. As solas dos sapatos, que se gastavam e se substituíam – e engraxavam-se os sapatos, claro. Parte dos meus leitores recorda esse tempo. Não comíamos em pratos de plástico nem de cartão. Éramos naturalmente anti-desperdício, antes da era da abundância: gente moderadamente antiga e com uma certa ideia da duração das coisas. Há um tempo em que somos forçados a aceitar o puramente razoável.



 

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Bourdain não era um grande chef. Mas era aquilo.

por FJV, em 11.06.18

Sexo, drogas e rock’n roll. É possível retirar um dos elementos, ou acrescentar uma parcela – mas o essencial está lá, e esteve sempre, na vida de Anthony Bourdain. Recordo o encontro com o seu livro ‘Cozinha Confidencial’ (2000) e a surpresa que foi ler ‘A Cooks Tour’ (que no Brasil teve o título mais adequado, ‘Em Busca do Prato Perfeito’), uma viagem pelas cozinhas do mundo e, num passo inesquecível, pela portuguesa. Nessa altura, a comida, os ‘chefs’ e as taras gastronómicas ainda não eram uma sombra da obssesão de hoje – e o editor João Rodrigues publicou ‘Um Osso na Garganta’, um policial impopular e divertido passado entre cozinhas. Depois veio a televisão, devoradora, apresentar a personagem rock de Bourdain. Nunca foi um grande ‘chef’ (procurava as raízes, a autenticidade e o prazer fora do circuito ‘gourmet’) – foi um português, José Meirelles, do restaurante Les Halles, em NY, que lhe abriu as portas para a ressurreição. Como todas as estrelas, contagiado por drogas e rock’n roll, navegava em águas de uma tristeza profunda. A sua despedida estava anunciada.

[Da coluna no CM] 

[Da coluna no CM] 

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Roth devia ter escrito mas não escreveu.

por FJV, em 01.06.18

Dara Horn, uma autora estranhamente talentosa (está publicado entre nós O Mundo Que Virá), escreveu para o The New York Times um artigo sobre o legado de Philip Roth, que morreu no passado dia 22. O título é apelativo: “Tudo o que Roth não sabia sobre mulheres dava para encher um livro” (aliás, o que não sabemos sobre mulheres dá para encher bibliotecas). Várias feministas fartaram-se de saltear Roth na frigideira; neste caso, o defunto é acusado de não ter sabido criar personagens femininas complexas, de não ter feito justiça às mulheres e boas profissionais de New Jersey, e de não ter criado verdadeiras mulheres nos seus romances. A acusação procede e é justificada: Roth não estava interessado no assunto. Escrevia sobre o que queria e, quando escrevia sobre mulheres (como em O Complexo de Portnoy, para não ir mais longe), escrevia “do seu ponto de vista”, um judeu sexualmente promíscuo que gostava de gentias e que ignorava questões de género. A polícia da literatura avança a passos largos. Um dia alguém hostilizará Eça por não se ter interessado, vá lá, pela sardinha.

[Da coluna no CM] 

 

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Dez coisas fundamentais sobre «o pessoal do Porto»

por FJV, em 01.06.18

Como todas as cidades que vale a pena visitar – e onde vale a pena viver – o Porto tem as suas «singularidades», o seu sotaque, os seus hábitos, a sua maneira de conduzir o automóvel, as suas figuras emblemáticas, os seus aromas ou os seus interditos (que são sempre importantes). Mesmo para um português não é fácil definir nem a cidade, nem os portuenses.

A tradição manda dizer que eles são alegres, espontâneos, bairristas, acolhedores, afáveis e descontraídos. Que prezam muito uma boa anedota, especialmente se for sobre Lisboa (aquela cidade mais abaixo no mapa). Que gostam de festa e que raramente a traduzem por party. Que gostam de comer e de partilhar a comida. Que enfrentam as dificuldades com energia.

Bom. A tradição também manda dizer – embora apenas entre portuenses, e em voz baixa, como se fosse uma confidência entre gente da mesma família – que podem ser o contrário de tudo isso.

 

  1. A primeira coisa: os portuenses são mesmo bons. Ou seja, que são os melhores. Em quase tudo. A melhor obra de Eiffel, por exemplo, está no Porto (há aquela torre em Paris, sim, uma tentativa bem conseguida). Os portuenses são tão bons e tão «os melhores» que apreciam muitas coisas que vêm de fora – e de que logo se apropriam – porque houve uma distração as fez nascer noutro lado qualquer.
  1. Falam alto. Esta ideia é verdadeira de vez em quando, mas não traduz nenhuma indelicadeza ou falta de urbanidade. Pelo contrário: os portuenses não só acham que os visitantes têm dificuldades de audição, como também gostam de lembrar que não têm receio de dizerem o que pensam em voz alta. Alguns exageram – puro excesso de simpatia e cordialidade. Há quem diga que há um sotaque do Porto (no fundo, trata-se de uma forma extremamente musical de falar o português), o que também inclui uma grande variedade de palavrões de grande utilidade. Não tente imitar. Seja cuidadoso.
  1. Têm orgulho na sua cidade. Com certeza. Portugal nasceu aqui. São João nasceu aqui (não sabia?) e todos os anos a cidade o celebra durante um dia e uma noite explosivas (de 23 para 24 de junho) naquela que é a melhor e a maior festa urbana do país – todas as outras festas que decorrem na mesma data em todo o mundo para assinalar o solstício de verão são inspiradas no São João do Porto. Quem diz São João diz quase todos os outros santos. Também é preciso dizer que os santos, no Porto, não são apenas santos– também são ligeiramente malandros. Como o pessoal do Porto.
  1. São alegres. É uma ideia tão nobre quanto verdadeira. O portuense inventa piadas e justificações para tudo. Se tudo fizer rir um pouco, tanto melhor. Os portuenses não apreciam gente enfatuada e convencida (claro que há portuenses enfatuados e convencidos, mas não são de cá). Ser alegre não é ser pateta-alegre. Até porque não há tristeza tão genuína como a do Porto; se a tristeza é verdadeira, então, é mesmo a mais triste (mas nada de exibicionismo: não fazem cantiguinhas sobre isso, nem lhe chamam fado). Ninguém leva a melhor aos portuenses, como se sabe.
  1. Um cêntimo é um cêntimo. Os portuenses têm fama de serem poupados – e não sovinas. Cada tostão é um tostão, mesmo que o tostãojá não se use há décadas. O portuense vive do seu trabalho, preza a poupança e, por vezes (nas anedotas, por exemplo), até a ostentação. «Contas à moda do Porto» diz quase tudo: cada um paga a sua parte.
  1. Há outros lugares onde se come bem. As tripas. As francesinhas. A costela mendinha. O arroz – o arroz de todas as maneiras (branco, malandrinho de feijão, malandrinho de tomate, de grão, de grelos, de vitela, de polvo, de sardinhas, de frango, de cenoura, de couve – e de arroz). O cabritinho. A broa de Avintes. Os bolinhos de bacalhau. As iscas de bacalhau (o mesmo que pataniscas – uma ideia estranha). As sanduíches de pernil da Casa Guedes. A vitelinha no forno. Os rissóis de peixe. As sardinhas fritas. O bacalhau à Gomes de Sá. A punheta de bacalhau. Os filetes de polvo e de pescada. A aletria e o arroz doce. Claro que há outros lugares – em Portugal e até fora do país, estranhamente – onde se come bem; mas digam lá um lugar, um que seja, vá. Imbatíveis, os portuenses.
  1. São gente de confiança. Por isso desconfiam. Os portuenses conhecem como ninguém o género humano (basicamente, o género humano nasceu aqui), portanto confiam nele – mas não exageram. Sabem que um certo grau de ceticismo tem o seu charme.
  1. São espontâneos. Este é um mito posto a circular por gente que não entende que os portuenses gostam de fazer crer que são espontâneos. O que eles são é naturais, diretos, francos, e sem tempo para perder com demasiadas cerimónias. «Gostas?» «Gosto.» «Então.»
  1. E Lisboa? Todas as cidades se distinguem por detestar outras cidades. Grandes rivalidades, claro que existem: Madrid e Barcelona, Rio e São Paulo, Atenas e Esparta, a lista é imensa. Criou-se o mito de que os portuenses não gostam de Lisboa, de que gostam de contar piadas sobre Lisboa e os lisboetas, de que o melhor lugar de Lisboa é aquele onde fica a placa que diz «Porto: 299 kms», ou de que – finalmente – há uma rivalidade entre o Porto e Lisboa. Mentira. Absolutamente mentira. Em primeiro lugar, porque o Porto não tem rival. E outra coisa: existe uma Praça de Lisboa em pleno coração do Porto; toda a gente sabe que Lisboa se chama Lisboa graças a essa praça portuense – de contrário teria outro nome qualquer, muito menos agradável.
  1. São antigos. Prezam o antigo, valorizam o contemporâneo (mas brincam com ele). Portugal nasceu aqui. O mais belo rio do mundo, o Douro, encontra o mar aqui. O melhor vinho do mundo guarda-se aqui – como uma preciosidade. Não há razões de queixa.

Na revista UP, da TAP.

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O vinho é o novo alvo dos proto-higienistas.

por FJV, em 31.05.18

Não é fácil explicar a um europeu que viva a norte dos 45º de latitude, que nós (no Sul) bebemos vinho às refeições, que temos o costume de não beber vinho como os finlandeses bebem vodka, que raramente bebemos sem comer, que dois copos de vinho por dia não são uma ameaça à paz mundial (como determinou o SNS britânico) – e que desprezamos o seu hábito de beber forte durante dois ou três dias (até cairem) e de aparecerem, depois, como puritanos, em culottes, com mau hálito e a implicar com tudo. Parece que há na UE uma “corrente de pensamento” proto-higienista, fomentada por burocratas que usam todos a mesma gravata, as mesmas cuecas e o mesmo tom de pele, que quer equiparar as garrafas de vinho a cargas de álcool eslavo, inutilizando os nossos rótulos com avisos mortais e ameaças de morte (à semelhança dos maços de tabaco). Se isso acontecer, Portugal e outros países civilizados do Sul da Europa devem pedir a rápida desanexação da UE. Esta é, por isso, uma crónica racista: contra a raça dos palermas e dos rostos pálidos que não sabem distinguir um vinho (com a sua carga de cultura, tradição, brilho, humanidade) de uma ampola de vodca bebida no aeroporto. Ninguém me convence de que isto não é uma conspiração de fascistas tolos, ainda por cima – lamento dizê-lo, ó pátria de grandes bebedores – irlandeses, o que é uma pena.

[Da coluna no CM]

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Emigração.

por FJV, em 30.05.18

Ao contrário dos “patriotas” que choram a emigração de hoje, eu compreendo-a. Desde o século XVI que ela é um protesto permanente contra Portugal, contra a penúria e a pobreza (na minha aldeia, emigrou um quarto da população nos anos 60); foi assim até ao final dos anos 70. E desde 2011, quando os números dispararam, que é também uma sequência da abertura dos mercados de trabalho europeus, da globalização da economia e da liberdade de movimentos “de pessoas e bens”. Desde então nasceram várias iniciativas “patrióticas” e folclóricas para trazer de volta pessoas que estão noutros países (dentro e fora da UE, maioritariamente entre os 20 e os 30 anos, alguns deles já com Erasmus no currículo) a ganhar o dobro ou o triplo do salário, a cultivar-se, a ganhar mundo e a experimentar viver de outra maneira. O primeiro-ministro aposta em trazê-los de volta, mas creio que não sabe como (há um programa, de 2015, que o PS chumbou) – ou se isso é possível num país que tanta gente exportou. Lamento pelos “patriotas” mas há coisas que se estudam na História de Portugal. Espalhai-vos.

[Da coluna no CM]

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Uma ilha longe demais.

por FJV, em 25.05.18

A Alfaguara, que já tinha publicado Submissão, de Michel Houellebecq, bem como Extensão do Domínio da Luta e O Mapa e o Território, publica agora A Possibilidade de uma Ilha, um romance (de 2005) perturbante e cruel que volta a obrigar-nos a pensar no Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley: uma descrição exaustiva e provocadora da forma como a humanidade se foi desumanizando. Para o fazer, Houellebecq não fala da solidão, nem tem sentimentos piedosos, cúmplices, poéticos, cheios de amor – pelo contrário, chega a ser obsceno, sempre mordaz e a rondar o abismo, contando a história de um mundo em que os homens e as mulheres se tornaram imortais, quase perfeitos, mas inevitavelmente imbecis. A “literatura estabelecida” não gostou, porque o seu negócio são os “bons sentimentos”, em aliança com as “boas políticas” e as “palavras corretas” de escritores laureados. Tudo lerolero – e do mais cretino. A verdade é que a imbecilidade e a desumanização cresceram de mãos dadas com as boas intenções – nada que não nos falte com esta gente que ascende ao poder para nos purificar.

[Da coluna no CM] 

 

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Philip Roth: até quando seremos capazes de resistir à morte?

por FJV, em 24.05.18

Quando olhei para o telemóvel, por volta das sete da manhã, era isto: a primeira notícia do dia anunciava a morte de Philip Roth e, com ela, uma certa sensação de catástrofe; acontecera quase o mesmo com Gore Vidal, Mailer, Updike, até com Tom Wolfe. Claro que não era catástrofe, o mundo podia continuar a rodar, porque haverá sempre O Complexo de Portnoy, A Mancha Humana, Pastoral Americana, Casei com um Comunista, O Teatro de Sabbath. Uma genial feminista portuguesa, convenientemente analfabeta, destratou-o como misógino e machista, o que dá bem a ideia de como Roth tinha razão nos seus livros acerca de literatura, do género humano e da obsessão pelo sexo. A Academia Sueca não o considerou para o Nobel – suponho que por ser judeu e ter escrito Operação Shylock (ou O Complexo de Portnoy, quem sabe). Quanto à América, alertou os seus leitores (Conspiração contra a América): devagar, o terror pode instalar-se, basta uma distração. Mas a principal pergunta deixada por Philip Roth, no meio de tantos livros, foi esta: até quando seremos capazes de resistir à morte? 

[Da coluna no CM] 

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Savonarola.

por FJV, em 22.05.18

Pouco tempo depois da invasão francesa da península italiana, em 1494, o frade dominicano Girolamo Savonarola (nasceu em 1452, alguns meses depois de Da Vinci), pregador e profeta, queria fazer de Florença uma “república popular”. Odiava os Médici e a corrupção do clero, detestava o ambiente de luxo em que os florentinos e a cúria romana viviam, defendia o regresso às virtudes piedosas do cristianismo primitivo e, de seguida, uma boa perseguição, com pancada se possível, aos hereges, pagãos e libertinos. Um dos rituais purificadores passava pelas “fogueiras das vaidades”, durante as quais se destruíam “livros desnecessários” (como os de Ovídio, Dante ou Bocaccio, para simplificarmos), objectos de luxo ou instrumentos musicais, manuscritos clássicos, tapeçarias, pinturas, tecidos, espelhos, esculturas, etc. – e Florença devia passar a ser governada “pela lei de Cristo”. Julgando-se a voz de Deus, foi excomungado pelo papa; acabou enforcado e queimado. Da Vinci emprestou o seu rosto ao Judas da Última Ceia. Amanhã passam 520 anos sobre a sua morte. Não foi um bom destino.

[Da coluna no CM] 

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Vai ser uma competição e tanto para ver quem vai ganhar.

por FJV, em 22.05.18

Não sei se se recordam, mas o antigo primeiro-ministro José Sócrates era de esquerda. Fizesse o que fizesse, dissesse o que dissesse, promovesse a construção de auto-estradas ou viveiros de marmota, a digitalização da administração pública ou o aumento das tarifas elétricas, fazia-o porque “era de esquerda”. Isto coloca problemas sérios de teoria política – reconhecem-se cada vez menos diferenças entre “ser de esquerda” ou “ser de direita”. E, no caso de Sócrates, mesmo quando tomava decisões declaradamente “de direita” (no primeiro mandato, por exemplo), fazia-o brandindo as bandeiras “de esquerda”, porque era ele que decidia o que era “de esquerda” ou “de direita”. O recente congresso do PS repetiu a anomalia, mas alargando o espectro ao rigor nas contas públicas, ao combate à corrupção ou à diminuição do défice (não se ria em nenhum destes três casos, leitor!, porque a piada fica logo feita). As duas principais correntes socialistas discutiram mesmo quem era mais de esquerda e quem mais iria combater a direita. Vai ser uma competição e tanto para ver quem vai ganhar. Perdendo.

[Da coluna no CM] 

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Pelourinhos.

por FJV, em 21.05.18

Bom aviso, o de Pedro Correia: «Esses que andam a levantar os novos pelourinhos ainda não perceberam a perversidade da coisa. Alguns acabarão também pendurados neles. Novos Dantons, novos Robespierres: a criatura acabará por ganhar autonomia, virando-se contra os criadores. Seguindo o exemplo da guilhotina, sua feroz mana mais velha.»

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Imobiliário.

por FJV, em 21.05.18

Um casal preparando o seu retiro.

Crónica de costumes, vamos lá. O líder do Podemos espanhol, que é pessoa da minha predileção, muito pespineta e arrivista, decidiu comprar um casarão nos arredores de Madrid por cerca de 600 mil euros. Não me choca; quem tem dinheiro que o use em casas, Maserattis ou chinelos de praia. Neste caso, um empréstimo bancário serve (desde que os eleitores espanhóis continuem a mantê-lo deputado para pagar a hipoteca). Acontece que Pablo Iglésias tem razões ponderosas: quer constituir família com a sua namorada Irene Montero, número dois do partido – e precisam de uma casa ajardinada e apiscinada para que os filhos cresçam como merecem. Esta história de amor reaccionária, ao contrário da de Lenine e Krupskaia, foi submetida à votação do partido: os militantes autorizam ou não? Autorizam, claro; quem não fica sensibilizado com uma história de amor? Querem que eles se demitam, ou não? Claro que não; quem não gosta de ver uma família feliz? Tudo isto é justo e decente. Sem ironia. Os dirigentes da classe operária não hão de querer viver como a classe operária. Em caso de dúvida, faça-se um referendo à vida amorosa dos líderes revolucionários.

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A silly season.

por FJV, em 21.05.18

Um arguido, entretanto vituperado pelo seu próprio partido, e que deixou de ser arguido. Um presidente de um clube de futebol – escuso de me alongar em explicações. Uma invasão de um centro de treinos de um clube de futebol – não preciso de dizer do que se trata. Uma invasão de baratas na Assembleia da República. Uma manifestação de duas pessoas noticiada nas televisões como um grande acontecimento. Uma coligação de banqueiros, financistas, gravatas, moralistas e candidatos a arcebispos, salvo seja – falando sobre futebol, e escuso de explicar mais. Um domingo de grandes transmissões televisivas cinco horas antes do jogo da “festa da taça” – e duas após ele. Políticos e governantes exarando opiniões sobre segurança, violência e conforto no futebol – estou a repetir-me um pouco, eu sei –, enquanto deixam escapar, por entre as pernas (como um guarda-redes de terceira divisão), casos de corrupção e malformação desportiva. Peço desculpa aos leitores, mas a ‘silly season’ que toma conta do verão, todos os anos, começou mais cedo este ano. Eu queria escrever sobre ópera, mas é isto.

[Da coluna no CM] 

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Um português na Crimeia.

por FJV, em 18.05.18

Já ninguém se lembrava de que, há quatro anos, a Rússia tinha anexado a Crimeia – a Europa desinteressou-se do assunto –, quando Vladimir Putin, há dois dias, inagurou a ponte que vai de Taman, no sul da Rússia, até Kertch, na Crimeia que já foi ucraniana. Com os problemas de Alcochete nós também nos desinteressámos do assunto; mas não devíamos, porque temos especiais responsabilidades no tema: em 1788, durante a guerra entre a Rússia e o império Otomano, o primeiro oficial do exército russo comandado pelo marechal Potemkin a entrar na praça militar de Ochákiv, de onde se dominava o Mar Negro, chamava-se Gomes Freire de Andrade. Feito coronel mais tarde, Gomes Freire, também recebeu a ordem russa de S. Jorge numa ocasião em que se suspeita que Catarina II o pôde preferir a Potemkin; o seu destino foi de altos e baixos, curvas e contracurvas, general de vários exércitos e países, maçon ao lado dos franceses contra a regência inglesa e o absolutismo – acusado de traição e enforcado em Portugal em 1817. Com o seu sentido de oportunidade, estaria ao lado de Putin na anexação.

[Da coluna no CM]

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