Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um caso de manicómio

por FJV, em 23.10.17

Um tribunal do Porto cita a Bíblia – e um precioso código de antanho – para despenalizar a violência de um marido que já não o era. Justifica-se: há partes da Bíblia que decretam a pena de morte por bem menos, e estou a ver os juízes a usar o Levítico e o Deuteronómio no dia a dia, decepando filhos e noras por comerem toucinho. Eis o que aconteceu segundo o relato do meritíssimo: Y, rejeitado amante de A, raptou-a, trancando-a no carro – e chamou o marido traído, X; este, comparecendo de moca, agrediu a antiga esposa, enquanto Y desandava. Isto é uma história de Camilo Castelo Branco em Felgueiras: um amante cobardolas mancomunado com um ex-marido despeitado (o que há mais). Que seja assim na literatura, ou na vida real, ou num filme de Almodóvar, entende-se; mas que um juiz decida que, para cumprir o argumento canalha (e não a lei), seja necessário humilhar e desrespeitar uma mulher livre, desculpabilizar amante e ex-marido (porque andavam deprimidos por causa do adultério), é caso de manicómio. Em Camilo, ao juiz, ao amante e ao ex-marido, já lhe tinham traçado o destino. E bem.

[Da coluna no CM]

Autoria e outros dados (tags, etc)




Blog anterior

Aviz 2003>2005