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A indústria mais lucrativa e é bem feito porque andaram anos aos pulinhos atrás disto.

por FJV, em 04.02.09

O problema é este: a indústria jornalística da corrupção é tão produtiva que não sabemos distinguir uma suspeita de uma investigação real. Habituámo-nos a ambas, às suspeitas e às investigações – e não damos grande crédito a qualquer delas, porque os resultados são mínimos. Isto é mau para a democracia, ou seja, para a sanidade da República. Daqui a alguns anos, por este caminho, uma suspeita há-de ser suficiente para se armar um escândalo público; e uma investigação judicial há-de ser tão desvalorizada como um golo num estádio português diante de um árbitro medíocre. Portugal habituou-se a viver no meio da falta de credibilidade nos negócios, na política, na justiça. A palavra de ordem, num país onde o carácter e a aldrabice não conhecem fronteiras, é «desconfiar sempre».

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Sal e outras coisas.

por FJV, em 13.01.09

Se os deputados querem fazer-nos bem à saúde, preparando-se para ocupar algum do seu nobre tempo a legislar sobre a quantidade de sal que um pão deve levar, proponho que se estabeleça uma lista de coisas que nos fazem mal e que é necessário corrigir quanto antes – para que a sociedade seja mais perfeita e as pessoas mais saudáveis, sem insónias nem otites ou joanetes, para que as nossas refeições sejam um exemplo para a humanidade e até para que os deputados demasiado saudáveis não sejam tão feios, mas isso é um pormenor.

 

A Helena Matos já falou dos saltos dos sapatos.

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Alerta amarelo, 3.

por FJV, em 10.01.09

Outra coisa interessante: as reportagens da televisão no velho interior português. Aparece uma repórter embrulhada em roupa importada do Canadá, de microfone estendido, procurando reacções ao frio em Bragança, Vinhais, Montalegre, Terras de Bouro ou Manteigas. Encontra um grupo de cidadãos locais a quem aponta o microfone: «Então, está frio?» Os cidadãos locais entreolham-se: «Está, de facto, está frio... Em Agosto não está assim...» Ela: «Mas está mesmo frio, não está?» Os cidadãos locais, voltando-se de novo para a repórter: «Sim, sim, é capaz de nevar, é...» Ela: «Então é porque está frio...» Os cidadãos locais sorrindo: «Sim. Um friozito. Ontem fez aí dois ou três graus negativos.» E o cidadão local ajeita um pouco o casaco sobre a camisa de flanela: «Bom, no ano passado nevou por esta altura.» Ela: «Nevou? Brrrr... E então como é que fazem?» O cidadão local: «Agasalhamo-nos. Acendemos a lareira mais cedo e tal, um bagacito, e esperamos que passe. A água congela na canalização, mas isso é todos os anos. Em Janeiro não vamos para a rua em tronco nu, pelo menos de manhãzinha.»

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Alerta amarelo, 2.

por FJV, em 10.01.09

 

Não sei quem meteu na cabeça das novas gerações a ideia de que somos um país de clima moderado. Não somos. Portugal é destemperado. Só isso explica a parvoíce e a histeria dos jovens jornalistas que se exaltam com temperaturas negativas como se fosse o fim do mundo e que tratam o fecho de uma estrada no Minho ou «para lá do Marão», por causa da neve, como uma catástrofe a pedir Protecção Civil, «alerta laranja» e primeira página. Muita telenovela carioca, só isso explica a tentação de colocar Portugal nas Caraíbas, ou muito optimismo por causa do aquecimento global. Só assim se compreende esta coisa, citada por «A Protecção Civil recomenda que, em caso de frio, se vista várias peças de roupa em vez de só uma.»

Quando eu era miúdo (bom, eu vivia no meio do frio) vestíamos de Inverno, de meia-estação (bem vistas as coisas, a estação «mais elegante») e de Verão. No Inverno, se havia frio, vestíamo-nos para o frio. Hoje, na verdade, algumas pessoas queixam-se do frio mas estão vestidinhas para um Outono morigerado, com brisas tépidas durante a tarde e sopro de Norte depois do crepúsculo. Portanto, sim, entendo que é necessário que a Protecção Civil avise a pátria, no ecrã da televisão: «Está frio, cidadãos. Tempo de roupinha interior, flanelas, lã à antiga, luvas e cachecol. Se chover, usem botas ou guarda-chuva além da gabardina. Em caso de neve, cuidado com o calçado. Não tomar banho de mar nestas condições. Segue-se um espaço de pedagogia cidadã em que o nosso especialista em meteorologia vai explicar como se usam ceroulas. Continuamos em alerta amarelo.»

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A Cinemateca e o cortejo de amigos.

por FJV, em 10.01.09

Há uma coisa interessante no adeus de João Bénard da Costa na Cinemateca: dois coros de assobios. Um deles, habitual em todas as actividades, é o coro de ressentimentos contra quem ocupou um lugar só porque esteve na Cinemateca depois de Luís de Pina, um dos nossos outros «apaixonados pelo cinema» (sem ironia nenhum); o outro, mais estranho, é o das «conjunções adversativas» – Bénard era muito bom «mas» dirigiu a coisa como se estivesse em casa. Verdade que ele estava em casa. Graças a ele e às suas equipas a Cinemateca foi o que foi: um lugar para ver cinema, para ir protegendo os clássicos (coisa fundamental, como se esquecem com alguma frequência) e para se falar de cinema. Bénard da Costa esteve lá muito tempo? Sim. Conhecendo o saco de gatos que é cada «área da cultura», melhor que fosse Bénard, respeitado e com história, do que um «moderno» que estivesse na disposição de tanto modernizar a Cinemateca que ela deixaria de fazer sentido e estaria a concorrer com as salas comerciais ou com os ciclos de vídeo. A Cinemateca, desculpem lá, deve ser um museu e, já agora, um museu do cinema; o destaque essencial e quase absoluto deve ir para os clássicos e para o património do cinema – apesar de muita gente ignorar o trabalho subterrâneo da Cinemateca em matéria de preservação e restauro, por exemplo. Pessoalmente, e das pessoas que conheço (uma delas é minha amiga), só vejo duas ou três com perfil para dirigi-la neste sentido. Bénard imprimiu um gosto pessoal à programação da Cinemateca? Sim. E estranhava-se o contrário.
Mas agora há outra coisa perigosa. Chama-se Pedro Mexia. O João Gonçalves acha que o ciclo vicioso vai continuar. Eu escrevi «Pedro Mexia é um nome capaz de renovar a casa», coisa que me pareceu inocente, e o João atribui a esta afirmação a suspeita de Mexia se estar a transformar em «outro sério candidato à eternidade e a novo cortejo de amigos» (do qual eu faço parte, portanto, o que é estranho porque não tenho nada a ver com o assunto nem frequento os «interesses do cinema»). Percebo isso noutras pessoas, mas aborrece-me que o despeito cresça e que a suspeita se multiplique, sobretudo a partir de pessoas que prezo muito, como o João. Acontece que o Pedro Mexia (que, quando apareceu nos blogs e nos jornais, era tratado como um vagabundo «de extrema-direita», «jovem turco», «jovem velho», etc.) é uma das pessoas mais talentosas quer para escrever sobre cinema, quer para falar sobre literatura, quer para fazer o que lhe apetecer, excepto, salvo erro, ser um burocrata da política e da cultura ou lidar com ele próprio (o que faz dele uma pessoa ainda mais séria). Tenho uma grande admiração pelo Pedro Mexia, que não deriva, apenas, de ser amigo dele – num mundo de ignorantes e de meias leituras, de nababos experimentais e de gente sem humor, o Pedro Mexia nem precisava de muito esforço para se distinguir. Mas, como é uma pessoa séria (mesmo que não se concorde com ele nisto ou naquilo), ele trabalha muito, não diz as coisas por dizer e não precisa de um partido político para ser quem é. Num mundo de pequenos sevandijas incultos, isto não faz apenas uma pequena diferença; faz toda a diferença. Portanto, caro João, eu não faço parte de um «novo cortejo de amigos» de Pedro Mexia; eu faço parte do «velho cortejo de amigos» do Pedro Mexia; e isso aplica-se a outros amigos, em cujos «velhos cortejos» me incluo e dos quais só sairei muito dificilmente. Sei distinguir o que é pura amizade da admiração intelectual, e suponho que sei distinguir aquilo que é o «valor intelectual» da «capacidade para exercer um cargo» (sendo que há pessoas com grande «capacidade para exercer o cargo» que não têm «valor intelectual» substantivo). Acontece que o Pedro Mexia tem ambas as coisas, embora ele suponha que não tem a segunda delas e nunca se pôs em bicos de pés para chamar a atenção para a primeira.
Suponho, também, que de entre as pessoas capazes de gerir a Cinemateca (e entre as quais estão essas «duas ou três com perfil») é preciso procurar alguém capaz de manter um «perfil clássico» para a instituição. Porque é esse o seu papel. Num país onde tudo tem de ser «novo», «moderno», «atrevido», «divertido», «inovador», «fracturante» e, até, pasme-se, «jovem», tem de haver instituições que mantêm o seu perfil clássico, conservador, de museu, tranquilo, e até regular. A Cinemateca, até porque o cinema está sempre a fazer-se, é uma delas.

 

PS - Disto isto, há ainda o seguinte: não conheço pessoalmente Bénard da Costa. Li os seus livros e acompanhei, como toda a gente, a programação da Cinemateca. A única vez que falámos, num festival de cinema algures, ele cravou-me um cigarro e eu ouvi-o, deliciado, a falar sobre, repito, as mamas de Jane Russell, que nesse dia tinha chegado a Lisboa e matéria sobre a qual tinha escrito um artigo no O Independente.

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Começa hoje.

por FJV, em 05.01.09

Hoje é o começo. Estivemos um mês à espera deste dia, o começo verdadeiro de 2009, com aulas e trabalho a sério. Pelo meio assistimos a toda a espécie de previsões e fizemos as nossas, preocupadas e desconfiadas. Também ouvimos discursos sobre como vai ser difícil o ano. Parece que vamos «entrar em recessão na economia», expressão que não quer dizer nada para os portugueses que atravessaram o último mês – e que julgaram, na sua inocência, que já estavam em recessão. O resto foi dito pelo Presidente, na sua mensagem de Ano Novo: gastamos mais do que produzimos. Significa que o aperto vai ser grande durante estes meses, com menos luxos, menos gastos, menos euforia. Os cépticos tinham razão, como sempre. O que não faz deles pessoas mais felizes: apenas estavam preparados.

 

***

Falamos demais sobre o ano que aí vem – desenhamo-lo como o ano de todos os perigos. Todas as nossas previsões são más, quer na política, quer na economia. É um cenário cinzento, triste, pouco dado para explosões de entusiasmo. Há quem veja nisso vantagens, como se a crise económica tivesse chegado para nos despertar de um optimismo doentio e sem suspeitas, cheio de computadores Magalhães e de novas tecnologias que nos poupariam o sofrimento, o trabalho e o estudo. Eram paraísos artificiais, promessas que não deviam ter sido feitas. Desde há anos que se juntavam as peças deste puzzle. O optimismo a todo o custo é a face visível de uma crise mais profunda, a do carácter. Todas as mudanças positivas nasceram em momentos de grandes dificuldades.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O Presidente.

por FJV, em 30.12.08

Quase nada a dizer: Cavaco esteve à altura, denunciando uma lei mal feita, e explicando-o com clareza aos portugueses. Consequências? Temos um ano pela frente. Talvez agora se perceba (sobretudo os brincalhões do costume, de piada fácil sobre Cavaco) o que significa «cumprir a Constituição». Todos saem mal do retrato: o PS, que tomou por guerra uma birra para «meter o presidente na ordem», lutou por uma lei inconstitucional; José Sócrates, que o permitiu deslealmente, apoiou o comportamento irresponsável de um grupo de arrivistas que julga que a maioria absoluta permite fazer aprovar leis iníquas; o PSD, que inclusive proibiu deputados de votar contra a lei, foi desleal com o Presidente e comportou-se, no Parlamento, como uma múmia sem dignidade. Contra tudo isto, o Presidente foi mais do que claro: está aberto o jogo. Temos quem nos defenda e quem defenda a democracia.

 

PS - Caro Eduardo: não podes alterar a qualidade dos eleitores de Cavaco conforme as circunstâncias, nem interpretar a sua opinião de acordo com as perguntas de Mário Crespo, essas sim, dignas da Somália.

 

P.S.2 - Ler o texto de João Gonçalves.

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Disciplina.

por FJV, em 28.12.08

Não se pode pedir disciplina, porque é uma palavra de imbecis, segundo ouvi hoje na rádio. O caso da Escola do Cerco do Porto, não vale a pena exagerá-lo ou ceder à tentação da disciplina. Que uma professora seja ameaçada, isso é um pormenor nas estatísticas anuais. Também não se pode dizer que os miúdos andam mais mal criados, porque isso é desconfiar das novas gerações. A fabulosa responsável da DREN pergunta se nós nunca fomos adolescentes ou tivemos uma brincadeira na sala de aula; apetecia-me responder que já fui adolescente e que tive brincadeiras na sala de aula, mas incomoda-me que as brincadeiras de hoje sejam assim. Estamos definitivamente ultrapassados pelo andar dos tempos, pelas novas pedagogias, pelos interesses das Associações de Pais e pela necessidade de arranjar culpados que não apontaram uma arma de plástico à professora. Bom, a professora é culpada, não há dúvida, porque não conseguiu motivar os alunos de forma criativa e «inclusiva». De facto, a culpa também é dos telemóveis, porque permitem pôr estas imagens no You Tube. Como diz a fabulosa responsável da DREN, «no Norte acontecem sempre coisas no último dia de aulas», é Natal, ninguém leva a mal. Entendam-se.

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Alerta amarelo.

por FJV, em 28.12.08

De há uns tempos para cá, a pátria está mais frágil. Chove um pouco mais e os noticiários da rádio abrem com a informação, escaldante, de que não sei quantos distritos «estão em alerta amarelo». Também é verdade que, graças aos maravilhosos urbanistas que tomaram o poder nas autarquias (ou não o tomaram, é outra questão), um pouco mais de chuva significa inundações. Alerta amarelo. A nossa Protecção Civil trata-nos bem.

Neva um pouco e entramos em alerta amarelo no Marão (queriam que nevasse onde?), na Serra da Estrela e na Serra da Nogueira, vá lá. E se há vento? Acima dos 70km/h, as rádios andam à procura de meteorologistas para obterem uma declaração que seja sobre o vendaval que vem aí para varrer o lixo das ruas.

Andamos mariquinhas com o clima. Chove na época das chuvas? Neva no Inverno? Faz calor no Verão? Caiu granizo? Há geadas em Novembro? Alerta amarelo. Há um vírus de gripe por aí? As urgências entupidas e alerta amarelo.

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Os velhos, sempre.

por FJV, em 24.12.08

Segundo parece, o “jantar de consoada” é cada vez mais encomendado de fora ou servido nos hotéis. Nas sociedades tradicionais, as festas tradicionais são essencialmente domésticas, caseiras, familiares – e Portugal está a mudar de hábitos. Não vem daí grande mal, a não ser a revelação de que as pessoas já não sabem nem gostam de cozinhar. Ou não têm tempo para isso, porque trabalham muito. Também não têm tempo para os seus velhos, e isso é mais grave: por esta altura, há famílias que entregam os seus velhos nos hospitais e dão, em troca, números de telefone falsos para não serem incomodados. Uma sociedade sem generosidade nem compaixão, fria e sem paciência – e com vergonha dos seus velhos, que incomodam e relembram que todos morremos e envelhecemos. É um retrato abjecto.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Oliveira.

por FJV, em 12.12.08

Durante o dia de ontem muitos portugueses se perguntaram sobre o que tinham eles a ver com Manoel de Oliveira. Tem sentido, a pergunta – sobretudo porque o cineasta fez cem anos. Gostando ou não de Oliveira, ele transformou-se num monumento, e um monumento raramente se discute; está ali, à chuva, atravessado pelas intempéries, sujeito às caganitas dos pombos e à passagem das estações, é visitado para homenagens e fotografado pelos turistas. Oliveira, portanto, merece – é um monumento que mostramos com dignidade e algum orgulho. Não concordo com aquele crítico espanhol que referiu Oliveira como um dos cineastas mais livres do mundo. Essa ‘liberdade’ foi possível com o generoso dinheiro do Estado e dos contribuintes, o que também foi uma sorte para o seu talento. Não é para todos.

[Na foto: O Dia do Desespero, o filme de que mais gosto.]

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O Espírito das Leis.

por FJV, em 04.12.08

O que pede o Ministério da Educação? Que se cumpra a lei sobre “a avaliação”. Quem fez a lei? O governo e a sua maioria. A quem se dirige a lei? Aos professores. Os professores concordam com a lei? Não. É possível aplicar uma lei quando aqueles a quem ela se dirige não querem a sua aplicação? Não. Este imbróglio diz respeito a todas as leis, ou seja, ao “espírito das leis”, de que falava Montesquieu. Há quem pense que basta redigir uma lei para que a lei se cumpra; seria fácil, a um punhado de “pessoas esclarecidas”, passar um ano a produzir leis e três anos a mandar executá-las, fechando um ciclo eleitoral. Infelizmente, as leis dirigem-se a pessoas concretas que vivem em condições concretas, nem sempre as desejáveis. As “pessoas esclarecidas” às vezes não vêem isto.

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Ah, estou muito confusa.

por FJV, em 05.11.08

Chego ao Rio (com chuvinha e garoa, descansem, invejosos...) e descubro pela coluna do Joaquim Ferreira dos Santos (que acaba de publicar uma biografia de Leila Diniz!), no O Globo, que Maria de Medeiros está a fazer furor como cantora. Seja. Agora reparem: «Maria disse que as novelas brasileiras influenciaram até as relações entre os casais de Lisboa: "Agora, quando a portuguesa briga com o namorado, ela coloca a mão na cabeça e diz 'ah, estou muito confusa'."» Sabiam que isto era das novelas?

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Todos gostávamos de ter uma palavra de esperança para Figueira de Castelo Rodrigo.

por FJV, em 03.10.08

“Os municípios do interior estão despovoados de massa crítica, investimento e receitas próprias”, diz António Edmundo, presidente da Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo, que decidiu (e bem) tomar medidas para fixar jovens casais no seu concelho. É uma tarefa do outro mundo, tendo em conta as armas de que dispõe a câmara local: prémios de 500 a 750 euros para cada criança que nasça na vila ou para cada casal que decida fixar-se no interior da barreira de xisto que delimita o concelho. Com essa quantia, António Edmundo luta heroicamente contra a força do destino, que é animada pela inércia e pela concorrência desleal das cidades do litoral. Todos gostávamos de ter uma palavra de esperança para Figueira de Castelo Rodrigo; mas, sinceramente, os tempos estão difíceis. E caros.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Preparem-se. Vamos melhorar ainda mais.

por FJV, em 22.09.08

Governo quer 100% de aprovações no 9.º ano: «Não é uma utopia. Se outros países com os quais nos comparamos o fazem, Portugal também o pode fazer.»

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O Momento da Verdade.

por FJV, em 22.09.08

 

O presidente da entidade que vigia a comunicação social, a ERC, acha que o programa da SIC ‘O Momento da Verdade’ é “uma forma de prostituição”. A acusação é grave e merece ser lida com atenção, vinda de quem vem. Os dicionários são claros sobre o que significa “prostituição” e a palavra deve ser utilizada com cuidado. Passei os olhos sobre o programa e parece-me – estando o mundo como está – que há evidente exagero na designação, mas não o verei mais. Um dos problemas é que o Sr. Nogueira, o mais criticado dos concorrentes, não tem a aura de prostituto de luxo, que se desculpa em situações semelhantes, quando os personagens se vendem por muito mais, mas com aplauso chique; o outro problema chama-se “comando da televisão”. Tem uma série de botões e serve para mudar de canal.

Da coluna do Correio da Manhã.]

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Eu mandava-os à merda.

por FJV, em 20.09.08

 

Que haja políticos que viveram da «política da emigração», não me espanta. Espanta-me que agora falem em chapeladas, depois de terem passado vinte ou trinta anos a organizar chapeladas, a participar em jantares e «festas da emigração», a angariar fundos entre emigrantes – para o partido, para as campanhas –, a promover nomenklaturas locais e estudar colocações políticas escandalosas. Basta viajar um pouco pelas comunidades de emigrantes para ficar surpreendido com o que está em jogo: pequenos interesses, falta de ligação às próprias comunidades, desprezo pela condição de emigrante, desprezo pela ideia de participação democrática. Sim, parece que a opinião da emigração é um pouco «reaccionária». É gente que teve de sair de Portugal para poder viver com dignidade – dizem-lhe agora que, afinal, não tem dignidade bastante para votar e meter o seu voto num envelope. É uma democracia controlada, manejada consoante a feição dos interesses? É, provavelmente, sim. Mas é sobretudo uma vergonha. Uma vergonha que dá vergonha.
Eu, se fosse emigrante – e da próxima vez que fossem visitar-me em romagem, à cata de votos e fundos para as campanhas, a falar de diáspora e das «remessas» – mandava-os à merda.

[Na imagem, Caracas.]

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Fracturas.

por FJV, em 17.09.08

Inteiramente de acordo com o Filipe.

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Mandioca. Aí está, mandioca, exactamente.

por FJV, em 16.09.08

 

Não sou economista e não ponho em causa as relações económicas entre Portugal e o país dessa figura exótica que é Hugo Chávez (a classificação é do nosso Ministro dos Estrangeiros). Mas, como cidadão, gostava de saber quando começa a chegar a mandioca, e estranho — sobre essa matéria — o silêncio da blogosfera lusitana. De resto, já estamos preparados.

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Viagens na minha terra sustentável.

por FJV, em 11.09.08

 

Graças à Agência Lusa, fiquei a saber que Vila Nova de Foz Côa vai este ano aderir ao Dia Europeu sem Carros, no sentido de “uma política mais sustentável de transportes”. O leitor não sabe, mas a notícia comove-me – nasci lá e sofri, como todos os seus naturais, para ter uma rede de transportes, sustentável ou não. Ainda há menos de 30 anos, familiares meus deslocavam-se dezenas de quilómetros a pé para tratarem das suas vidas e não havia “transportes sustentáveis”. A minha aldeia (o Pocinho) tinha comboio, que era “sustentável”; agora, o comboio vai desaparecer. Muita gente naquelas paragens, antes de se falar de “mobilidade sustentável”, sabia muito do assunto – simplesmente, há vinte anos, não tinha transporte. Eis como Portugal se transforma – pelo topo. Pelas palavras.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Turismo, o destino.

por FJV, em 27.08.08

 

A Câmara de Pedrógão Grande vai transformar dez escolas do ensino básico, desactivadas por falta de alunos, em alojamento para turismo rural (excepto uma que vai para sede da Filarmónica). É uma boa opção, muito louvável. Há mais escolas à espera pelo país fora – e, como são das antigas, a construção é boa e sólida (as escolas da democracia são caixotes apodrecidos, feios e sujos). Portugal encontra finalmente um sentido para o seu destino: transformar-se em entreposto turístico. Veja-se o ministro da economia, que recebe estrelas como Deneuve ou Phelps para conseguir uma promoçãozinha do país na imprensa internacional, na esperança de isso trazer mais turistas. Talvez eles venham e comprem mais escolas abandonadas, que finalmente terão alguma utilidade para a pátria.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O relevo mediático.

por FJV, em 26.08.08

Há uns dias, o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança e Criminalidade dizia que a criminalidade não tinha aumentado; o que aumentou, segundo Leonel de Carvalho, foi a «cultura da violência». Hoje, o problema já não é a cultura da violência mas o relevo mediático. É muito estranho que o coordenador de um gabinete dessa natureza diga que não sabe se há mais ou menos ocorrências (até do «ponto de vista matemático»). Mesmo partindo do princípio de que não há aumento dos «níveis de criminalidade» e que sejam «coisas residuais», de Verão, é estranho que se limite a empurrar a culpa, agora para os jornais.

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Medalhas.

por FJV, em 26.08.08

Marco Fortes (com quem fiquei a simpatizar) foi recambiado para Lisboa, como bode expiatório, e a honra do comandante Vicente de Moura estava salva porque ia retirar-se e o campeonato de futebol estava aí. Mas Nelson Évora ganhou a medalha e estragou tudo: o comandante já admite que pode ficar e a pátria está salva com Vanessa Fernandes a segurar a bandeira. Está mal. Já estávamos todos contentes com a pulhice que tinham feito a Marco Fortes (que não é tão bonito como Naide Gomes) e agora é isto: vamos ter de aguentar esta gente no Comité Olímpico, a brincar à batalha naval. Bons tempos em que gostávamos das nossas derrotas. Agora contentamo-nos com uma medalhinha para salvar a pátria. A propósito: viram a paraguaia lançadora de dardo? Quantas medalhas não valia?

 

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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O Verão.

por FJV, em 22.08.08

Os mais velhos contentam-se, abrem os olhos a custo diante da luz do Verão. Uma medalha de ouro não é nada, mas alegram-se, festejam, seguem pela vida fora. As novas gerações tiveram tudo prometido, um lugar no cume, fortuna, caminhos abertos antes de chegarem, e não se habituam aos desaires. São vencedores, sobretudo quando exigem uma disciplina total, uma perfeição que só existe antes de a vida chegar.

 

Manuel Jorge Marmelo sobre Nelson Évora.

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Lino.

por FJV, em 22.08.08

Ele tem um ar despachado, o que o leva a coleccionar uma notável série de frases que era melhor não ter dito. Algumas, por conveniência; outras, por evidente desacerto; outras, por decência. Neste caso, é indecente.

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Estatísticas.

por FJV, em 21.08.08

Em Portugal as estatísticas não são números e sim pretextos. Talvez por isso não tenhamos estatísticas fiáveis; as da criminalidade, então, não existem – porque Portugal é terra de paz e melros nas oliveiras. O responsável de um observatório resolveu o assunto dizendo que a criminalidade não aumentou; o que aumentou, sim, foi a ‘cultura da violência’. Ora, alguns dos ‘bairros sociais’ são zonas abandonadas à criminalidade que está acima da lei e já controla as ruas. Os desprotegidos não podem recorrer à violência e não têm para onde ir; enquanto os sociólogos discutem se existe ou não criminalidade, famílias condenadas ao subúrbio vêem os filhos serem assaltados. Ou assaltarem. Eles sabem que não há ‘pequena criminalidade’ e que cada ‘pequeno crime’ é uma afronta à sua honra.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Olímpicos.

por FJV, em 20.08.08

Não acredito que «a questão das medalhas» se resolva com investimento e mais dinheiro do Estado, que participou com 15 milhões de euros na aventura olímpica deste ano. A questão é, no nosso caso, sobretudo escolar (basta fazer contas, no secundário, a quantos estudantes participam em actividades desportivas concretas e regulares). Não é um problema de dinheiro, de sapatilhas e de fatos de ginástica. É, antes, da fábrica que falece ao desporto: ambição, discrição, mas também público e promoção. E do desaparecimento da grande escola de fundo e meio-fundo, que muito deve entristecer o Prof. Moniz Pereira.

Fora isso, Portugal raramente se apaixona por modalidades (no sentido em que os argentinos acompanham o rugby e o hóquei em campo, paixões nacionais) – além do futebol, que está cada vez mais longe de ser um desporto, e do Maradona, que é uma referência. O último exemplo foi o rugby, quando descobrimos que uma série de rapazes (logo desvalorizados porque eram do Restelo e de Cascais) estava a competir entre os melhores e sem medo de perder. Emoções dessas fazem parte do ambiente de formação de atletas, como acontecia antes com o hóquei e mais tarde com o atletismo. Basta ver este exemplo do provincianismo lusitano num país que não enche os estádios.

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Uma amostra.

por FJV, em 20.08.08

Recomendo esta pequena amostra de interesse olímpico português recolhida pelo Pedro Sales.

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A natureza da maldade.

por FJV, em 18.08.08

A maior parte dos comentários sobre a violência nos subúrbios de Lisboa divide-se entre a paranóia do medo e o ventriloquismo da «violência policial». São reacções de cães de Pavlov. Ontem, na rádio, um morador da Quinta do Mocho definiu as coisas com alguma grandeza: que há falta de respeito pela lei e que esta é a «natureza da maldade» (eu só lhe somaria a guerra surda em nome do tráfico). A descrição do assassínio de Marco Vaz, durante o fim-de-semana, fornece esse retrato com fidelidade. Os sociólogos da televisão transferem a realidade para os laboratórios e os deputados que falam da polícia como de um bando de assaltantes têm a casa protegida. Os pobres e os humildes são as principais vítimas da violência – da falta de respeito pela lei e da natureza da maldade. Sempre.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Estatísticas.

por FJV, em 18.08.08

O pobre conde de Gouvarinho (marido da mais injustiçada personagem da literatura portuguesa, a Sra. Condessa de Gouvarinho) protestava a meio do Chiado: «Quer a gente um ministro? Não há um ministro. Quer-se um economista? Não há um economista.»

Pois a pergunta é mais simples: José Sócrates anunciou ou não que Portugal criou «133 mil empregos líquidos desde o mês de Março de 2005»? Isso é mentira ou é verdade? «Quer a gente uma estatística fiel? Não há uma estatística.»

Resposta para o apartado. Mas esclareçam esta dúvida: criou ou não criou? Ou é da Jamaica?

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