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Os relatórios internacionais.

por FJV, em 04.02.09

Num avião, nesta segunda-feira, vejo na TAP-TV a notícia de que um relatório internacional com a chancela da OCDE festejou abundantemente a qualidade do nosso ensino. Nunca se deve recuar diante de uma boa notícia, sobretudo se ela é falsa. Sobretudo uma semana depois de ser desmentida.

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A educação em geral.

por FJV, em 20.01.09

[Abelardo e Heloísa.]

 

Através do Jansenista fico a saber que o bispo católico de Lancaster, Patrick O'Donoghue, atribui à educação superior grande parte dos males de que a sua igreja padece ou, pelo menos, afirma padecer – para o bispo, as pessoas que frequentaram escolas superiores e universidades andam por aí a «espalhar o cepticismo» em vez de seguir à risca os mandamentos e, além do mais, são pessoas egoístas que valorizam o hedonismo. A educação, acrescenta, tem um «lado negro»: semeia a dúvida. Ora, eu acho interessantes estas declarações. Normalmente, ouvir-se-ia um coro de insultos e de denúncias contra o cavalheiro. Mas eu limito os danos à pergunta: a quem diz respeito esta arenga bispal? Aos católicos. Limito-me a pedir aos responsáveis da igreja que nos esclareça sucintamente: são todos assim ou é só um vírus de Lancaster?

 

O Jansenista faz, justamente, um link para esta notícia da BBC onde se relata o ataque de uma milícia talibã a jovens adolescentes afegãs, em Kandahar: com ácido, primeiro; à bomba, depois. Parece que os «estudantes de teologia» são contra a educação das mulheres. À atenção superior.

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Magalhortografia.

por FJV, em 11.01.09

A senhora directora da DREN escreveu uma carta sobre a distribuição dos computadores Magalhães. Um mimo de estilo, como se vê e como prova a Ana Cristina Leonardo.

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Disciplina.

por FJV, em 28.12.08

Não se pode pedir disciplina, porque é uma palavra de imbecis, segundo ouvi hoje na rádio. O caso da Escola do Cerco do Porto, não vale a pena exagerá-lo ou ceder à tentação da disciplina. Que uma professora seja ameaçada, isso é um pormenor nas estatísticas anuais. Também não se pode dizer que os miúdos andam mais mal criados, porque isso é desconfiar das novas gerações. A fabulosa responsável da DREN pergunta se nós nunca fomos adolescentes ou tivemos uma brincadeira na sala de aula; apetecia-me responder que já fui adolescente e que tive brincadeiras na sala de aula, mas incomoda-me que as brincadeiras de hoje sejam assim. Estamos definitivamente ultrapassados pelo andar dos tempos, pelas novas pedagogias, pelos interesses das Associações de Pais e pela necessidade de arranjar culpados que não apontaram uma arma de plástico à professora. Bom, a professora é culpada, não há dúvida, porque não conseguiu motivar os alunos de forma criativa e «inclusiva». De facto, a culpa também é dos telemóveis, porque permitem pôr estas imagens no You Tube. Como diz a fabulosa responsável da DREN, «no Norte acontecem sempre coisas no último dia de aulas», é Natal, ninguém leva a mal. Entendam-se.

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75 por cento.

por FJV, em 19.12.08

Houve um tempo de completa indigência nas escolas. Uma parte da “classe” safava-se como podia e fazia o papel do funcionário público previamente cansado, evitando o trabalho, aproveitando o artigo 4.º, subindo com diuturnidades e antiguidades, gozando férias prolongadas, recusando avaliações e formação. Com o tempo, a coisa mudou. A escola era vigiada e, ela própria, exigia mais atenção. Ontem, um estudo mostrava que 75 por cento dos professores escolheria outra profissão. É um bico de obra. Não se pode ter uma escola pública de qualidade com o actual ambiente de desconfiança. Por um lado, tem de haver mais exigência e mais rigor; por outro lado, os professores não podem ser tratados como sentinelas de aula ou funcionários do Ministério. É esse o dilema dos dias de hoje.

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Ovos sobre a política.

por FJV, em 19.11.08

Acho que não se devem atirar ovos à Ministra da Educação. Acho um comportamento impróprio, como também achei que era abjecto andar a mostrar o rabo a Manuela Ferreira Leite quando esta era Ministra da Educação. Grande parte da esquerda, “rebelde à força” ou por profissão, defende que se devem atirar ovos quando os políticos são de direita; mas defende o respeitinho quando se trata de governantes de esquerda. Penso nisso quando me lembro de políticos que defenderam as ofensas (eram “criativas e revolucionárias”...) a Ferreira Leite ou que atravessavam, sem pagar, a ponte sobre o Tejo. Hoje, vejo-os no outro lado, mostrando um imenso tédio diante da chuva de ovos de Fafe. Os tempos mudam, as pessoas também. Eis por que razão se deve ter tento na língua e cuidado nos actos.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Chumbos.

por FJV, em 31.10.08

O Conselho Nacional da Educação vem propor que acabem os chumbos até ao 9.º ano – é uma medida e tanto, que o Sr. Secretário de Estado Valter Lemos festeja com as mãos ambas, uma vez que parece ser ele o encarregado de velar pelas estatísticas. Acho que o Sr. Secretário Lemos está a ser modesto em matéria de “mecanismos de alternativa a chumbos”. Defendo que, na hora do baptismo, perdão, no registo civil, seja atribuído logo o 9.º ano a cada pequeno cidadão. Assim, evitam-se logo os chumbos. Parece, além do mais, que o chumbo é visto como uma tentativa de responsabilizar os alunos e os pais, o que – no entender do Sr. Secretário Lemos e do sempre espantoso Albino Almeida, da confederação dos paizinhos – não pode acontecer. Sim, de facto, onde é que isto se viu? Na Finlândia?

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Preparem-se. Vamos melhorar ainda mais.

por FJV, em 22.09.08

Governo quer 100% de aprovações no 9.º ano: «Não é uma utopia. Se outros países com os quais nos comparamos o fazem, Portugal também o pode fazer.»

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Excessos.

por FJV, em 11.09.08

José Medeiros Ferreira faz bem em alertar contra «esses excessos». Infelizmente, não se trata apenas de excessos da imprensa, ou da televisão.

É extraordinário que pouca imprensa, e nenhuma televisão, se tenha verdadeiramente interrogado sobre a natureza festiva das estatísticas apresentadas pelo Ministério da Educação, sobre tão bons resultados obtidos no básico e secundário. Basta perguntar aos nossos filhos: «Como foi a prova de matemática?»

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À atenção dos apreciadores de estatísticas. Uma pequena vergonha nacional.

por FJV, em 20.06.08

Ou muito me engano ou, no próximo ano, os hierofantes do Ministério da Educação (aqueles que acham que os professores de Matemática percebem de Matemática mas não percebem de «avaliação» -- uma declaração que deveria forçar a comissão de educação do Parlamento a chamá-los para esclarecer o assunto) dirão que houve uma substancial melhoria da estatísticas e que o homem novo está a caminho com uma taxa de sucesso a festejar. Basta ver a manigância a que eles (os que percebem de «avaliação») se dedicaram. Se não fosse trágico para o sistema de ensino, contaríamos mais uma anedota sobre o assunto.

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Latim.

por FJV, em 10.06.08

Em apenas dois anos a frequência das aulas de Latim diminuiu 80%. Este ano há apenas 300 alunos a fazer exame da disciplina, o que é bem pouco. A tendência portuguesa é contrária à dos outros países europeus e americanos, onde os estudos clássicos não baixaram a frequência. Não nos podemos queixar. O secretário de Estado Valter Lemos, uma luminária, diz que os alunos não têm interesse no Latim e que “as políticas educativas” não são culpadas. Está errado, como é seu costume. Basta ver a forma como “as políticas educativas” tratam as Humanidades e como o linguajar dos seus queridos técnicos têm assassinado o Português. A “sociedade” não preza o Latim como não preza o património nem o passado, e está no seu direito. Mas fica mais pobre. É uma notícia para o 10 de Junho.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

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A escola desejável.

por FJV, em 14.05.08

Periodicamente, ao longo do dia, interrogo-me sobre este magnífico pedaço de texto. Volto atrás e leio, decomponho em frases, palavras e orações. Dá sempre o mesmo resultado. É como se estivéssemos a falar com um dicionário de horrores. E volta o eco: «aprender e ensinar competências», «cenário estruturante e holístico», «desempenhos ajustados à exigência de uma sociedade global multidiferenciada», «saberes mobilizáveis», «conhecimentos reais e instrumentais, muito para lá da simples informação trazida pelos conteúdos». Como foi possível que esta gente, com esta gramática, tomasse o poder e abusasse dele e da nossa paciência?

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Eu sou contra a escola desejável. (Ou vejam lá onde eles aprenderam a escrever.)

por FJV, em 12.05.08

«Na escola desejável, alunos e professores encontram no seu quotidiano um fio condutor apelativo e comum, que é o de aprender e ensinar competências, num cenário estruturante e holístico onde ser pessoa é ser tolerante, flexível, crítico, e é, também, ser capaz de desempenhos ajustados à exigência de uma sociedade global multidiferenciada, que apela a saberes mobilizáveis, conhecimentos reais e instrumentais, muito para lá da simples informação trazida pelos conteúdos, em si mesmos redutores e simplistas.» (Miriam Rodrigues Aço)

Citado pelo João C. D., directamente do Público.

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Serviço administrativo.

por FJV, em 09.05.08
Por mais vontade que uma pessoa tenha de deixar um aceno simpático para a ministra da Educação, a verdade é que ela se encarrega de impedir o gesto. Não apenas por culpa dela, mas sobretudo por causa da «doutrina» que domina o Ministério e os seus pedagogos oficiais. É por isso que a ministra diz (numa entrevista à TVI) que a liberdade de escolha é nefasta e prejudicial e é por isso que admite veladamente que o caminho para acabar com o insucesso escolar é o fim das reprovações. Todos sabemos de onde vêm essas ideias e todos (com as naturais excepções dos génios que a ministra tem a cercá-la no ministério) sabemos que os resultados podem ser bons para as estatísticas mas são maus para o ensino. Os governos pensam que um bom ministro da Educação se deve limitar a pôr a casa em ordem; isso, a ministra fez. Mas pedia-se mais: uma mudança na cultura da escola, um sinal de que o ministério não quer apenas melhorar as estatísticas, mostrando serviço administrativo.
[Da coluna do Correio da Manhã.]

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Estratégias específicas são baratas.

por FJV, em 30.04.08
Façamos contas: reprovações na escola saem caras aos cofres do Estado. É melhor «adoptar estratégias específicas para cada estudante que tenha maus resultados». Todos sabemos isso.

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Ponto final.

por FJV, em 29.03.08
Ponto final. Ponto final mesmo. Como estive fora uns dias não reparei neste fragmento de uma notícia do Público e do Correio da Manhã: «Numa das reuniões do conselho executivo, a professora Adozinda Cruz confirmou que autorizou os alunos a manterem os telemóveis ligados, permitindo-lhes que ouvissem música. Patrícia terá extravasado a ordem atendendo uma chamada da mãe.» [bold meu]
O que isto significa? Que estão bons uns para os outros. Ponto final. Uma pessoa vê as notícias, lê os relatos e ouve testemunhas; forma uma opinião, não só porque a opinião é barata mas porque tem de ter opinião ou então não vale a pena andar por cá. E de repente, faz-se luz: estão bem uns para os outros. Bom proveito e, como diz o João G., parabéns à prima. Vão pentear macacos.

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O problema é a sociedade, porque as pessoas são boazinhas.

por FJV, em 25.03.08
A nova teoria que vale a pena ter em conta pertence ao secretário de Estado Valter Lemos, segundo parece: o mal não está nas escolas, um retrato do paraíso, mas na sociedade (o «lá fora»), que às vezes entra na escola. Esta variação do melhor Rousseau pode fazer escola e tudo se resolverá com os programas de vigilância «lá fora»; um dia destes, além de autarcas e de pais, também teremos os agentes policiais à porta da sala de aula, caso o «lá fora» se escape para «cá dentro». Todos os casos de violência são importados de fora da escola, porque, evidentemente, naqueles corredores passam rios de mel e há vasos com flores. Bem-vindo ao reyno maravilhoso.

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De facto, todos falamos de educação, 3.

por FJV, em 21.03.08
Pergunta o Eduardo Pitta, a propósito do caso Carolina Michäelis: «Onde é que está a novidade?» Precisamente aí, Eduardo. Ao contrário de Laranja Mecânica, pelo menos, este não é «o resultado de um sistema que exclui largas franjas da sociedade». Nada a ver. É o caso de um sistema que absorveu todos os vícios de todas as franjas da sociedade. Não, não é na Cova da Moura, para onde «o sistema» enviaria polícias com medo de alterações na ordem pública; é no Carolina Michäelis, se me posso explicar assim, onde em Dezembro passado uma aluna agrediu uma professora por esta lhe ter dado negativa, para não falarmos de outros casos. Pode não se ser sociólogo para compreender estatísticas, mas a ideia é simples e o Manuel Jorge Marmelo escreve-a de forma clara neste post. Pode não haver novidade em relação ao fenómeno, à violência, ao bullying entre estudantes e contra professores; mas não creio que baste considerar que é inevitável a nossa entrada no cosmopolita mundo das agressões dentro das escolas.
Compreendo a ideia: não vale a pena fazer escândalo, só porque isto acontece a cada passo. Se é assim, de acordo.

Por outro lado, não vejo como o governo deva ser ouvido no parlamento a propósito disto. Levar a ministra ao parlamento por este caso é, naturalmente, um exagero; tudo devia ser resolvido na própria escola, com recurso a um processo disciplinar simples. Tirar conclusões sobre o sistema de ensino a propósito de uma aluna que agride uma professora e de um grupo de vândalos que lhe chama velha é, manifestamente, exorbitar. Mas trata-se de um retrato que não vale a pena desvalorizar.

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De facto, todos falamos de educação, 2.

por FJV, em 21.03.08
Escreve Gabriel Mithá Ribeiro nos comentários ao post anterior:

«Lecciono desde 1991 e cedo ficou claro para mim, como provavelmente para a maior parte dos professores do ensino não superior, que os dois maiores problemas do sistema são a indisciplina e o facilitismo. A questão arrasta-se porque o discurso político e público em geral (mas especialmente o primeiro) insistem em inventar outros problemas ou transformar, por incompetência, questões laterais em essenciais (como é o caso do ECD, das aulas de substituição, etc.). Essa incapacidade doentia em pensar o sistema a partir dele próprio é que fez com que, na última década, se fossem sucedendo medidas que agravam até ao absurdo esses problemas: manutenção do número máximo de alunos por turma, «invenção» de áreas curriculares absurdas - «área de projecto», «estudo acompanhado» ou «formação cívica» -, aulas de 90 minutos, incapacidade de se perceber o valor estratégico dos exames nas políticas educativas, ou o ataque, desde 2005, à dignidade dos docentes sem se perceber que, independentemente dos dinheiros, estão a degradar-se ainda mais as réstias simbólicas que permitiam salvar alguma coisa. E como são problemas estruturais, o pior é debatê-los em cima dos factos para ver quem leva a taça. Se há área da política muito mal servida há décadas, e com sucessivos agravamentos, é a da educação. Tinha escrito em 2003 «A pedagogia da avestruz» e em 2007 foi a vez d'«A lógica dos burros». Esse parece-me, infelizmente, o sentido evolutivo da espécie. É a triste realidade.»

 
Gabriel Mithá Ribeiro é autor dos livros A Pedagogia da Avestruz e A Lógica dos Burros. Nasceu em Moçambique em 1965, é professor do ensino secundário.

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De facto, todos falamos de educação.

por FJV, em 21.03.08
É cada vez mais frequente ouvirem-se especialistas em educação (que existem e devem ser respeitados) afirmarem que «todos comentam assuntos de educação». É verdade. De facto, todos falamos de educação. E não é pecado. Porque todos estamos, de uma forma ou outra, implicados no assunto.
É estranho, aliás, que alguns desses especialistas, que tencionam meter nas escolas (além dos estudantes, dos professores, do pessoal administrativo e auxiliar) os pais, os autarcas e a «sociedade civil», achem que ninguém tem inteira legitimidade para discutir assuntos de educação. Estranha contradição, mas adiante.

Ora, o caso da escola Carolina Michäelis, de facto, não é isolado. Recordo, não sem uma pontinha de comoção invejosa, o dia em que publiquei este post («duas agressões por dia [a professores] nas escolas portuguesas»); logo apareceram comentários, em outros blogs, ruminando que «a média não era muito alta». Santa estatística: duas agressões por dia em escolas portuguesas não era um número por aí além. Eu pensava que uma agressão por dia já era excesso. Eu compreendo: nesse post ironizava sobre «o bom selvagem». O pessoal não gosta que mexam no «bom selvagem, porque a existência do «bom selvagem» lhes proporciona momentos de grande elevação teórica e de generosidade pedagógica, transformando o professor nesse oleiro que trabalha o puríssimo barro em que as crianças, bem espremidas, consistem. Daí até à avaliação dos professores como oleiros vai um passo.

Passei a manhã a ler comentários na imprensa e na blogosfera. Grande parte deles, na imprensa online, pedia dois estalos na aluna. Compreensível. Acredito que não seria considerado um caso de violência familiar ou «cometida sobre o bom selvagem». Mas o cepticismo ficou reconfortado com os comentários que: 1) achavam que a culpa era da professora, que não soube lidar com a situação; 2) atribuíam a culpa às companhias de telemóveis; 3) achavam que a culpa era do mundo actual, cheio de indisciplina e de benevolência; 4) defendiam que a coisa não se resolvia punindo a adolescente que tratava a professora por «tu» (em «dá-me o telefone já!») nem a turma que dizia «a velha vai cair», precisamente porque «é preciso compreender».

sociólogos que alertam para a existência de bullying sobre os professores; grande novidade. Como escreve Maria Manuel Viana, nos comentários ao post anterior:
«A cena que vimos não é um caso isolado, por mais que o Mministério, a DREN, o conselho executivo nos queiram fazer crer. É uma cena, com contornos mais ou menos semelhantes, frequente nas turmas de básico e sobretudo nessas turmas de 'sucesso' que dão pelo nome de Novas Oportunidades. Se a tutela tem tido, ao longo destes 3 últimos anos, um discurso desvalorativo e humilhador para com os professores, como poderia pensar-se que esse discurso não seria reproduzido pelas famílias e depois pelos filhos? Que ninguém se atreva a falar em falta de autoridade ou em fragilidade, como já vi um psicólogo fazer do alto da sua cátedra. E não, isto não acontece só aos outros. Experimentem estar fechados numa sala com 20 e tal adolescentes descontrolados, pendurados nas janelas, de cadeiras em riste, a gritar obscenidades, a agredirem-se, sem nenhum funcionário por perto, durante 90 minutos 4 vezes ao dia, 5 vezes por semana e então podem falar com conhecimento de causa. Já nos anos 90 Marçal Grilo escolhera para título de um dos seus livros a lúcida frase: O difícil é sentá-los.»

Ler a crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias. E a de Manuel António Pina no JN.

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Altamente, ganda cena, 2.

por FJV, em 20.03.08
O vídeo em que se mostrava uma aluna da E. S. Carolina Michäelis, do Porto, a agredir uma professora, foi retirado do You Tube pelo aluno que filmou os acontecimentos e dizia coisas divertidas durante a gravação, «altamente», «sai daí, deixa ver». Gostava de saber, pessoalmente, quanto tempo vai demorar o processo disciplinar a esta aluna. Mantenham-me informado, quem puder.

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Altamente, ganda cena.

por FJV, em 20.03.08
Os colegas, a princípio, vibraram com a ideia; só foram em defesa da professora 1m 20s depois de ter começado a cena. No Carolina Michaelis, do Porto.

(Via Blasfémias.)

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Memória.

por FJV, em 15.03.08
O Pedro Correia cita George Steiner (de As Lições dos Mestres) para falar, por exemplo, da importância da memória na aprendizagem; ainda sobre o meu post «A guerra das escolas. Um ponto da situação», é outro dos pontos essenciais da balbúrdia pedagógica promovida pelas autoridades pedagógicas: a desvalorização da memória.

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A guerra das escolas. Um ponto da situação.

por FJV, em 12.03.08
As queixas sobre a educação encontraram agora um argumento político de força, graças à manifestação dos professores. A avaliação iria pôr termo a todos os males e levar-nos ao caminho da civilização. Mas, na verdade, a guerra contra os professores e os pedidos para que as autoridades actuem sem recuo faz esquecer o pormenor: avaliem o trabalho do Ministério nos últimos vinte anos. Não dos proprietários ou ocupantes temporários da pasta, mas dos verdadeiros donos do ME, uma classe de experimentalistas que elaboraram programas, preâmbulos a programas, ordens burocráticas e documentos sobre procedimentos burocráticos, escalas de reuniões e curricula absurdos (e que, inclusive, autorizou curricula ainda mais absurdos para valorização «profissional» de professores hábeis, muito hábeis), ausência de razoabilidade em processos disciplinares, reformas e contra-reformas curriculares ao sabor de pantomineirices (como a TLEBS, a imbecilização no ensino da Matemática, da História e da Ciência) que favoreceram a falta de cultura científica e de hábitos de trabalho dos estudantes. Esses são os verdadeiros responsáveis. Meter na escola – essa arena onde o ME sempre esteve impune e sempre defendeu a sua autoridade para impor regras e princípios sem discussão e sem participação – pais, autarquias, estatísticas, julgamentos pelos pares, inspectores sem competência científica e até gente analfabeta mas com todo o conhecimento da novilíngua ministerial providenciada por génios que raramente ou nunca deram aulas ou estiveram mais de dois anos seguidos numa escola, não é o melhor método de nos levar ao caminho da civilização.
Claro que se pode questionar uma avaliação feita contra os professores, mas essa é uma guerra fácil e cheia de armadilhas. Basta ver os blogs, de esquerda e de direita, pedindo autoridade, disciplina e avaliação. Avaliam-se resultados, sim; mas com que instrumentos, com que programas escolares, com que linguagem técnica?
A questão, aqui, não é a de dar crédito aos sindicatos ou às multidões, a de apoiar a ministra (mais uma vez, aliás, é o secretário de Estado Jorge Pedreira que vem salvar a nau...) ou a de considerar que qualquer recuo é uma derrota de José Sócrates. Outras equipas optaram por outro caminho: primeiro, tratar da matéria educativa, dos programas, dos curricula, de um estatuto do aluno sério e capaz, da chegada do rigor (esse sim) ao ensino das ciências e das humanidades – depois, tratar também da avaliação dos professores. Estranho, por isso, que tanta gente caia na armadilha.
Na verdade, esta ministra não tratou de reformar a escola, nem o ensino, nem a educação; tratou, isso sim, e com razoável eficácia, de melhorar as estatísticas e de disciplinar o funcionamento da rede ministerial (desde os célebres corredores da Av. 5 de Outubro às regras para auxiliares administrativos, comportamento de professores e de sindicalistas). Fez bem. Era um ponto. Mas a verdadeira reforma, aquela que este sistema de avaliação há-de esconder, essa não me parece que esteja a ser feita. Coisas simples: o que defende o ME sobre a utilização de calculadoras no ensino básico?; o que diz o ME sobre o programa de ensino de Português?; por que razão entrega de mão beijada o ensino da Literatura e da Filosofia?; por que razão se continua a autorizar o aumento do preço do livro escolar (vem aí, vem aí, preparem-se...)?; foram os professores ouvidos sobre as reformas curriculares? Eu queria um ME que se preocupasse com isso. Argumentarão que a avaliação é o primeiro passo para que o ME deixe de tratar todos os professores como «os professores» e passe a distinguir os bons, os maus e os outros. Mas a fazer o quê, nas escolas?

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Estar errado.

por FJV, em 08.03.08
Sobre alguns comentários acerca da posição do Ministério da Educação, convém dizer que a questão não é a de desvalorizar e punir a ministra por estar a ser contestada na rua; digamos que até é um ponto a seu favor. Não ceder à rua é meritório hoje em dia. O problema é outro, completamente diferente: a proposta do ME está errada, cheia de maus critérios. Para os que nunca ou raramente visitam as escolas, ou as conhecem, ou falam com professores, seria melhor ver o que ME fez da vida das escolas e dos bons professores, antes de disparar para os alvos mais à mão para parecerem valentões. Anda tudo de peito cheio a pedir «ponha-os na ordem, senhora ministra».

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Avaliação de professores, 2.

por FJV, em 08.03.08
Lamento muito. Concordo que deve existir uma avaliação de professores (ao contrário de Vasco Pulido Valente), mas não deixo de notar o tom de ressentimento, que é sempre mau conselheiro, naqueles que não vêem nesta questão mais do que um confronto do governo com o Partido Comunista ou com a Fenprof. A arma é tratar todos como se pertencessem ao mesmo saco («pseudoprofessores», «soldados do Partido Comunista», «preguiçosos», etc.) e, pior, tratar uma manifestação de professores como um ataque ao coração da democracia. É de um exagero absolutamente notável e deselegante.

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Avaliação de professores.

por FJV, em 08.03.08
Agradecia aos espíritos disciplinadores que lessem o artigo de Vasco Pulido Valente no Público de hoje.

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Escolas, e justiça pelas próprias mãos.

por FJV, em 07.03.08


Ontem visitei uma escola no concelho de Sintra. Era a “semana da leitura” numa escola cuja biblioteca está permanentemente aberta das 08h00 às 22h00 por devoção dos seus professores. Os de várias disciplinas, de Português a Educação Física e Geometria – cada um faz uma escala para garantir um dos objectivos internos da própria escola: mantê-la aberta nesse período. Havia alunos a ajudar no bar e no refeitório, porque não há pessoal suficiente. Alunos, funcionários administrativos e professores promoveram uma maratona de leitura. A ministra da educação pede a estes professores para “trabalharem mais um pouco”, coisa que eles já fazem há bastante tempo; ouvi alunos portugueses, africanos, indianos, do Leste europeu, a falar com orgulho da sua escola. Falando com eles, um a um, percebe-se entusiasmo em várias coisas. Acho natural, são professores. Percebo pela blogosfera uma grande vontade de fazer “justiça pelas próprias mãos” aos professores, mas vejo poucas pessoas com disponibilidade para ouvi-los nas escolas – não nas ruas, onde as parvoíces são sempre amplificadas, mas nas escolas, nos corredores da escolas, quando fazem turnos de limpeza, quando atendem alunos em dificuldade ou fazem escalas para Português como língua estrangeira para rapazes ucranianos ou indianos que não entendem sequer o alfabeto ocidental, ou quando tratam dos problemas pessoais de alguns deles (ou porque não tomam o pequeno-almoço em casa, ou têm dificuldade em aceitar um namoro desfeito, ou andam na droga). Os professores, estes professores, são um dos últimos elos (percebe-se isso tão bem) entre os miúdos e miúdas desorientados e um mundo que é geralmente ingrato. São avaliados todos os dias pelo ambiente escolar, pelo ruído da rua, pelas horas de atendimento, pelas reuniões que o ME não suspeita. Muitas vezes, as famílias não sabem o ano que os miúdos frequentam; não sabem quantas faltas eles deram; não sabem se os filhos estão de ressaca. Os professores sabem.

Essa vontade de disciplinar os professores, eu percebo-a. Durante trinta anos, uma série de funcionários que abundou “pelos corredores do ME” (gosto da expressão, eu sei), decretou e planeou coisas inenarráveis para as escolas – sem as visitar, sem as conhecer, ignorando que essa geringonça de “planeamento”, “objectivos”, princípios pedagógicos modernos, funcionava muito bem nas suas cabecinhas mas que era necessário testar tudo nas escolas, que não podem ser laboratórios para experiências engenhosas. Muitos professores foram desmotivados ao longo destes anos. Ou porque os processos disciplinares eram longos depois de uma agressão (o ME ignora que esses processos devem ser rápidos e decisivos), ou porque ninguém sabe como a TLEBS é aplicada. Ninguém, que eu tivesse ouvido nas escolas onde vou, discordou da necessidade avaliação. Mas eu agradecia que se avaliasse também o trabalho do ME durante estes últimos anos; que se avaliasse o quanto o ME trabalhou para dificultar a vida nas escolas, com medidas insensatas, inadequadas e incompreensíveis; que se avalie a qualidade dos programas de ensino e a sua linguagem imprópria e incompreensível. Sou e sempre fui dos primeiros a pedir avaliação aos professores, porque é uma exigência democrática e que pode ajudar a melhorar a qualidade do ensino. Mas é fácil escolher os professores como bodes expiatórios de toda a desgraça “do sistema”, como se tivessem sido eles a deixar apodrecer as escolas ou a introduzir reformas sobre reformas, a maior parte delas abandonadas uns anos depois. Por isso, quando pedirem “justiça”, e “disciplina” e “rigor” (coisas elementares), não se esqueçam de visitar as escolas, de ver como é a vida dos professores, porque creio que se confunde em demasia aquilo que é “o mundo dos professores” com a imagem pública de um sistema desorganizado, oportunista e feito para produzir estatísticas boas para a propaganda.

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Abrir a escola?

por FJV, em 23.02.08

A ministra da Educação garante que o decreto sobre o novo regime de autonomia e gestão escolar vai proporcionar “uma maior abertura ao exterior”. Precisamente o que eu temia. Exactamente aquilo que o leitor deve temer. Esta anunciada abertura da escola aos “agentes da comunidade local”, como pais, autarquias e “outros agentes” é muito perigosa. Já acho duvidoso que a gestão das escolas possa albergar pais e autarcas; o seu limite deve ser, apenas, uma espécie de conselho consultivo. Mais nada. A ideia de “abrir a escola à sociedade”, muito certinha, não quer dizer absolutamente nada. Penso, aliás, que a escola já está “aberta” demais à sociedade, que a enche de lugares-comuns, erros ortográficos, sintaxe de 'sms', discursos sem nexo, e vários elementos de distúrbio. A democracia, que transformou as escolas em “estabelecimentos de ensino”, uma espécie de “fábrica de cidadãos” em regime industrial, ainda não se desfez da ideologia que a conduziu ao desastre.

[Na coluna do Correio da Manhã.]

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Música, ensino da música.

por FJV, em 12.02.08
A reforma do ensino da música é ridícula. Sobre o assunto assino por baixo este post fatal e minucioso do Fernando Sobral onde estão todas as palavras certas sobre o assunto.

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