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O novo desenho do blog é de Pedro Neves. A ele e à Maria João Nogueira, agradeço mais este trabalho notável -- além do que não se diz em público.

No meio da neve, eis o regresso do blog.

Há amigos que têm blogs e às vezes desistem; e há blogs que continuam. Há outras pessoas que têm blogs e não são meus amigos. Há pessoas que conheço e outras que não conheço. De vez em quanto há a tentação de fazer um balanço sobre a blogosfera e o seu ressentimento, a sua inutilidade, a sua maldade -- tanto como sobre as coisas indispensáveis que ela trouxe. Evito. Há coisas que nos deixam irritados com os outros e coisas que nos deixam despertos para os outros; os blogs fazem, em todos nós, parte da irritação e da sensação de partilharmos ideias comuns ou incomuns. Já gostei mais de blogs e já os li mais, logo de manhã. Por vários motivos, continuo a lê-los e encontro neles grandes virtudes, a par de coisas dispensáveis (a verdade é que, antigamente, muitos idiotas andavam anónimos pelas ruas e, hoje, grande parte deles se encontram na blogosfera). O género humano é assim. E há quem escreva maravilhosamente, quem escreva superiormente; e quem devia escrever mais. E quem leio sempre com prazer; há blogs que nunca leio pelo simples motivo de que não concordo com uma única palavra do que possa estar lá escrito (porque uma coisa é não concordar e discutir, e outra, inteiramente diferente, é evitar encarar o ressentimento e a ignorância); há blogs com que raramente concordo mas que leio todos os dias; e há blogs que fazem parte do meu roteiro de leituras diárias. Gostava de fazer uma lista, mas tenho medo de esquecer este e aquele; e se é uma injustiça para esses blogs, também o seria para mim. De modo que já várias vezes pensei em acabar com o blog, «acabo com esta merda do blog», mas a idade vai aconselhando cuidado com «estados de alma» e alguma persistência. Nem sempre escrevo o que quero; nem sempre escrevo quando quero; e nem sempre quero escrever no blog. Debater sobre a blogosfera é capaz de ser uma coisa muito fragmentária se não se tem uma agenda, um plano & objectivos para o quinquénio. De modo que vou escrevendo; quando posso, quando tenho tempo, quando -- mesmo não tendo tempo -- invento tempo para não perder o blog. Já tive mais tempo disponível. Tenho menos. Tenho menos tempo e mais idade. Quando comecei um blog, o Aviz, eu tinha mais tempo e menos idade e escrevia a todas as horas possíveis, de madrugada, de manhã cedo, pela tarde dentro. Depois, o Aviz acabou e Aviz também, pelo menos para mim. O Origem das Espécies era uma homenagem a coisas dispersas: ao título de um livro, ao seu autor, às suas viagens, às suas descobertas, ao espírito do tempo, a um tom, a uma dúvida, a uma perturbação sobre a origem das coisas. Mas o Origem das Espécies não é um blog íntimo, pessoal, autobiográfico; não é o meu GPS senão em relação ao mapa onde circulam a política, as leituras, as imagens, as irritações, tudo isso. É uma coisa inútil só porque quero que seja inútil, dependendo apenas da minha disponibilidade, do «hoje sim, amanhã talvez». Estamos hoje muito vigiados; somos vigiados por leitores, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas que nos amam ou nos detestam, gente irrelevante, gente a que damos importância, gente que não tem importância. A net é barata, acessível e livre. Dá para tudo, para o melhor e para o pior, para a maledicência e para a aldrabice, para as cartas de amor (ridículas, evidentemente) e para a banalização de tudo. É aí que estamos todos. Perdeu-se muita inocência na internet. Às vezes, ainda bem; de outras vezes, infelizmente. Provavelmente hoje devia ter escrito sobre Obama, ou sobre o descaramento de o dr. Rendeiro ter perorado sobre economia & finanças apesar do pântano do BPP, ou devia ter comentado uma frase muito boa do Maradona e que se devia repetir de vez em quando («pessoas de má índole vieram aqui desmentir-me, utilizando para tal, à falta de melhor, argumentos»), mas não tenho agenda nem isto é a delegação de um jornal diário. Chegados a este ponto, o leitor prepara-se para o anúncio de que o blog vai terminar, mas desengane-se. O Origem vai para férias daqui alguns dias; depois, na próxima semana, regressará à vida com um novo desenho. E é assim; para acrescentar alguma falta de sentido a tudo isto.
João Cândido da Silva e Vítor Matos regressaram, animadíssimos, ao Elevador da Bica. Com companhia.
No A Causa Foi Modificada, um relato de viagem de comboio do Algarve para Lisboa com princípio de uma outra para norte de Vila Franca de Xira. Aprendam.
Acabou o Estado Civil.
Os meus blogs pessoais do ano: A Terceira Noite, Albergue dos Danados, Alexandre Soares Silva, Ana de Amsterdam, Complexidade e Contradição, Estado Civil, Irmão Lúcia, Life and Opinions of Offely, Gentleman, Mar Salgado, Ouriquense, Pastoral Portuguesa, Sinusite Crónica, Teatro Anatómico, Vida Breve, Vontade Indómita, Voz do Deserto.
Os meus blogs políticos do ano: Atlântico, Bicho-Carpinteiro, Blasfémias, Corta-Fitas, Da Literatura, Hoje Há Conquilhas, Jugular, Mar Salgado, O Cachimbo de Magritte, O Insurgente, Portugal dos Pequeninos, Vox Populi.
Livros: A Terceira Noite, Almocreve das Petas, Bibliotecário de Babel, Blogtailors, Cadeirão Voltaire, Ciberescritas, Da Literatura, Manchas, Os Livros Ardem Mal, Pastoral Portuguesa, Pó dos Livros, Rua da Castela.
Pedro Mexia responde a Pacheco Pereira acerca do estado geral da blogosfera.
Juntamente com este, do Rogério Casanova, um dos melhores posts do ano, de João Bonifácio.
Há coisas que nos salvam. O regresso do leopardo às páginas da blogosfera é uma delas. Bem-vindo sejas, Filipe, depois destas duas últimas semanas.
E, já agora, fiquem com a capa do novo livro do FNV, nas livrarias no final do mês. Assim mesmo:
Voltarei ao assunto (o chip electrónico nas matrículas dos automóveis) mas recomendo o curto, directo, zangado e essencial post de Tomás Vásques: «Alguém acredita que, quem tiver acesso à informação, seja ministro, deste governo ou de outro, chefe de polícia ou secretária de qualquer coisa, não vai bisbilhotar por onde a respectiva mulher (ou o marido) anda e identificar o amante (ou a amante)?»
O Mar Salgado em alta. Nuno Mota Pinto regressa à blogosfera, preparando-se para escrever sobre as eleições americanas. Filipe Nunes Vicente com um texto antológico (depois deste) que quase me leva a dar um saltinho a Coimbra; cito só este pedacinho: «...e Ruben Amorim ( um trinco de segunda linha que o sr. Flores põe a jogar a médio-ala por causa da situação na Ossétia do Sul).»
Filipe Nunes Vicente deu por encerrado o período de reflexão. Já escreve, de novo.
Para que conste, o encontro com o Tomás foi a uns bons metros de altitude, mas maneirinhos, a fim de comer grão com acelgas, arroz de feijão e outros elementos onde havia hidratos de carbono e parcimónia de proteínas. A foto foi tirada pelo meu relapso companheiro de blog.
O Tomás Vasques também mudou de casa; estamos agora ainda mais próximos. Começou a temporada das conquilhas.

António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Bebiano, ainda com colaborações de Ana Bela Almeida, Manuel Portela e Miguel Cardina estão na rede neste blog, Os Livros Ardem Mal. Basicamente, é o encontro mensal no TAGV, em Coimbra, para falar de livros recentemente publicados; o blog prolonga a vida desses encontros.

Jantar magnífico, o do Corta-Fitas, ontem à noite. Recebem muito bem, os vizinhos, e a ementa estava apropriada. Os temas da conversa oscilaram muito, entre política e até alguma (pouca, felizmente) literatura, passando por assuntos vinícolas, quase nada de futebol, bastante blogologia, alguma gastronomia (evidentemente). Na minha qualidade de convidado, aprendi muito com eles, que estavam bem-dispostos e faladores, desde o Pedro Correia (que, além de ter feito o discurso comemorativo dos dois anos do blog, apontou a direcção da ementa, com um arroz de peixe e perna de galo; ficar ao seu lado significou ficar perto das melhores entradas & acepipes e ficar a par da vida política) ao João Távora (um monárquico muito divertido e cheio de sentido de humor, que dividiu comigo as melhores partes da salada de laranja), passando pelo Duarte Calvão (que escolheu os vinhos enquanto recordava os seus tempos de Brasil, muito vigiado por todos; depois conto os pormenores biográficos), pela Cristina Ferreira de Almeida (apesar de ter ficado à minha frente, foi quem esteve mais próximo do leite-creme), Teresa Ribeiro (mais sentido de humor, com tiradas no momento certo), João Villalobos (que chegou tarde, ocupado com a vida social, e me pareceu que começou pela sobremesa, ligeiramente cansado da vida social), Fernando Sobral (que chegou com o João Villalobos, ocupado com a vida social, mas saiu mais cedo, disciplinado), o Francisco Almeida Leite (que chegou tarde, ocupado com o jornal mas jantou bem e via saída para as coisas da política), o Rodrigo Cabrita (que, além de fotógrafo oficial, ficou com o melhor lugar da mesa, mesmo diante dos papos d’anjo) e o Luís Naves que é menos loquaz e (fiquei a saber) escolhe sempre ementa diferente. A Inês Almeida, muito grávida, esteve de viva voz pelo telefone. A Marta Rebelo também chegou tarde mas participou activamente, apesar de se se saber que, a partir de agora, o grupo parlamentar socialista vai passar a desconfiar da sua «correcção política». Fiquei a saber que se pode ser monárquico da facção trotsquista e da IV Internacional (eu só conhecia republicanos miguelistas com simpatia pela Internacional Situacionista), que a maioria dos elementos do blog é benfiquista apesar de ser voz corrente a sua inclinação sportinguista, que todos os semestres o Corta-Fitas tem objectivos definidos e tem conseguido cumprir a quase totalidade, que um dos próximos objectivos é altamente ambicioso mas muito louvável – e que o blog tem (como todos nós) o seu Bei de Tunes, evidentemente. Como gente civilizada, todos respeitaram a lei sem vacilar e só se acenderam charutos, cigarrilhas e cachimbos na rua, mas distinguindo-se dos outros cidadãos pela elegância, porte e elevação, saindo do restaurante a horas convenientes. Ou seja, tarde e bem-dispostos. Quando me cansar, passo a escrever lá.