Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Tereza.

por FJV, em 19.01.09

Éramos da mesma idade mas de gerações diferentes. Ela chegou antes a vários lugares – a muitos livros e intuições. Tereza Coelho, que agora partiu, não foi apenas uma das nossas melhores jornalistas da área da cultura; foi também uma editora que mudou o mundo à sua volta. No ano passado morreram dois editores invulgares, corajosos e cultíssimos, que transformaram o mundo da edição, Rogério de Moura (Livros Horizonte) e Figueiredo de Magalhães (o genial criador da Ulisseia). De algum modo, é uma parte do mundo da edição que desaparece e fica mais pobre. Não podia ser de outra maneira: editar não é publicar livros. É chegar antes a vários lugares; aos livros, mas sobretudo aos livros que fazem falta a alguém que não é como nós. É escolher. É imaginar. Imaginar o mundo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para lá do ressentimento.

por FJV, em 09.01.09

Muitas coisas se poderiam dizer sobre Bénard da Costa e o seu papel à frente da Cinemateca Portuguesa, que agora abandona. Uma delas tem a ver com a sua paixão pelo cinema (o seu olhar aproxima-se do cinema como um tigre amável, devorando-o sem crueldade), obviamente. Outra, com as suas escolhas para a programação, sempre discutíveis ou indiscutíveis – mas boas. A Cinemateca, graças a Bénard e às suas equipas, transformou-se num lugar essencial da nossa geografia cultural. Talvez ela precise de outro sangue, e Pedro Mexia é um nome capaz de renovar a casa. Eu lembro sobretudo os seus textos (sobretudo um deles, o mais notável e genial, intitulado «As Mamas de Jane Russell») e o seu sofrimento amoroso pelo cinema. E acho que ele merece a nossa homenagem. E o nosso respeito.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Começa hoje.

por FJV, em 05.01.09

Hoje é o começo. Estivemos um mês à espera deste dia, o começo verdadeiro de 2009, com aulas e trabalho a sério. Pelo meio assistimos a toda a espécie de previsões e fizemos as nossas, preocupadas e desconfiadas. Também ouvimos discursos sobre como vai ser difícil o ano. Parece que vamos «entrar em recessão na economia», expressão que não quer dizer nada para os portugueses que atravessaram o último mês – e que julgaram, na sua inocência, que já estavam em recessão. O resto foi dito pelo Presidente, na sua mensagem de Ano Novo: gastamos mais do que produzimos. Significa que o aperto vai ser grande durante estes meses, com menos luxos, menos gastos, menos euforia. Os cépticos tinham razão, como sempre. O que não faz deles pessoas mais felizes: apenas estavam preparados.

 

***

Falamos demais sobre o ano que aí vem – desenhamo-lo como o ano de todos os perigos. Todas as nossas previsões são más, quer na política, quer na economia. É um cenário cinzento, triste, pouco dado para explosões de entusiasmo. Há quem veja nisso vantagens, como se a crise económica tivesse chegado para nos despertar de um optimismo doentio e sem suspeitas, cheio de computadores Magalhães e de novas tecnologias que nos poupariam o sofrimento, o trabalho e o estudo. Eram paraísos artificiais, promessas que não deviam ter sido feitas. Desde há anos que se juntavam as peças deste puzzle. O optimismo a todo o custo é a face visível de uma crise mais profunda, a do carácter. Todas as mudanças positivas nasceram em momentos de grandes dificuldades.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ano que termina assim.

por FJV, em 29.12.08

O governo termina o ano em baixa. Primeiro, com a suspeita de que o presidente da República não vai deixar passar o Orçamento sem uma palavra; depois, com uma mensagem de Natal muito dispensável, em que José Sócrates vestiu a pele de um propagandista em vez de se apresentar como um estadista em que os portugueses confiassem – falando da crise no plural. A questão do Orçamento não é inocente. O governo e o PS quiseram a guerra com o presidente, “pondo-o no sítio”. Cavaco, que é discreto e não gosta de cometer o mesmo erro duas vezes, não deixará o pobre orçamento à solta e à mercê de operações de propaganda ou de “contabilidade política”. Os eleitores, na verdade, podem não confiar na oposição – mas começam a descrer de um governo que os trata como ignorantes ou patetas.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os velhos, sempre.

por FJV, em 24.12.08

Segundo parece, o “jantar de consoada” é cada vez mais encomendado de fora ou servido nos hotéis. Nas sociedades tradicionais, as festas tradicionais são essencialmente domésticas, caseiras, familiares – e Portugal está a mudar de hábitos. Não vem daí grande mal, a não ser a revelação de que as pessoas já não sabem nem gostam de cozinhar. Ou não têm tempo para isso, porque trabalham muito. Também não têm tempo para os seus velhos, e isso é mais grave: por esta altura, há famílias que entregam os seus velhos nos hospitais e dão, em troca, números de telefone falsos para não serem incomodados. Uma sociedade sem generosidade nem compaixão, fria e sem paciência – e com vergonha dos seus velhos, que incomodam e relembram que todos morremos e envelhecemos. É um retrato abjecto.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Palavrório.

por FJV, em 23.12.08

Vejamos. Portugal não é diferente dos outros países em matéria de excesso de palavrório. Mas é uma pena que, no meio de tanto discurso, declaração, comissão parlamentar de inquérito, audições e audiências, se percam às vezes coisas que valia a pena reter. António Ribeiro Ferreira fala do assunto na sua crónica de ontem, no CM. Por exemplo, o Procurador-Geral da República afirmou no Parlamento que o senhor Governador do Banco de Portugal foi alertado para uma grande fraude internacional que envolvia o BPN. Quando? Há quatro anos. Devia o BP estar de sobreaviso? Sim. Esteve? Não. O Procurador disse também que não tem meios para investigar crimes de corrupção. Ao ouvir isto, os deputados o que fizeram? Peocuparam-se? Não. Mas devem estar a nomear uma comissão de inquérito.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

A indústria da crise.

por FJV, em 22.12.08

A “indústria da crise” está em grande actividade. Em momentos politicamente difíceis – ou ‘complexos’ – a palavra “crise” é ambivalente. Serve para a oposição e serve para o governo. Vacinados contra o queixume, os eleitores já não se deixam embalar pelo discurso mais fácil que brada por soluções evidentes e quer aplicar receitas milagrosas. Pelo contrário, detectam nos outros a sua própria malandrice. Desconfiam – e fazem bem. Assistem, com a ironia disponível, ao festival dos membros do governo que mencionam “a crise” para justificar a maior parte das medidas de carácter político excepcional. A “crise” é real – mas é também uma muleta para quem já não pode cumprir mais promessas. Em 2009 a “crise” vai justificar tudo. A maioria vai aceitar. Mas sabe que está a ser enganada.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

75 por cento.

por FJV, em 19.12.08

Houve um tempo de completa indigência nas escolas. Uma parte da “classe” safava-se como podia e fazia o papel do funcionário público previamente cansado, evitando o trabalho, aproveitando o artigo 4.º, subindo com diuturnidades e antiguidades, gozando férias prolongadas, recusando avaliações e formação. Com o tempo, a coisa mudou. A escola era vigiada e, ela própria, exigia mais atenção. Ontem, um estudo mostrava que 75 por cento dos professores escolheria outra profissão. É um bico de obra. Não se pode ter uma escola pública de qualidade com o actual ambiente de desconfiança. Por um lado, tem de haver mais exigência e mais rigor; por outro lado, os professores não podem ser tratados como sentinelas de aula ou funcionários do Ministério. É esse o dilema dos dias de hoje.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Limpinho.

por FJV, em 18.12.08

Manuel Alegre diz que quer tudo limpinho: “Que as forças conservadoras se assumam e que a esquerda seja esquerda.” Nada mais simples. O retrato desse mundo vem nos manuais, explicado com clareza e ilustrado por esquemas providenciais que mostram duas cores distintas – a da esquerda e a da direita. Infelizmente, essa realidade a duas cores está longe do espectro em que as pessoas se movem: aqui e ali contam mais as tonalidades, as sombras, os declives e até as aparências. Geralmente, queremos que os outros sejam como achamos que eles devem ser. Mas o problema é que a realidade, muito sacana, vem atrapalhar tudo e encher a vida de surpresas. No caixote de lixo da história e da política há bastantes desses manuais feitos para gente simples; alguns nem para reciclar são úteis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sapataria.

por FJV, em 17.12.08

Alguns jornais interrogavam-se, ontem, sobre se Muntadar al-Zaidi, o jornalista iraquiano que atirou um sapato a George Bush, era um herói ou um delinquente num país onde heroísmo e delinquência se cruzam várias vezes por dia. Trata-se, portanto, de uma pergunta deslocada, até porque um sapato não é propriamente uma pedra – e tem mais graça. Mas é um sapato. O gesto corre o risco de virar moda, se bem que as pessoas não achassem tanta graça se o sapato atingisse a cabeça de Hugo Chávez ou de Lula da Silva, ideologicamente protegidos contra o arremesso. Cada sapato tem a sua ideologia. E, desculpando-se o gesto hoje, quem sabe se não o justificaremos amanhã. Mesmo que o sapato de Muntadar al-Zaidi sirva apenas para mostrar que o presidente americano não passa de um alvo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O capital.

por FJV, em 15.12.08

 

Alberto João Jardim acha que há “grupos dentro do PSD” que querem a vitória de José Sócrates para poderem, diz ele, “defenderem os seus interesses económicos”. Não é grande novidade. Para retomar um lugar-comum de séculos, o capital não conhece pátria nem se empata com minudências. Pode ser cruel, mas não deixa de ser verdade. Os “interesses económicos” vêem os tempos de crise a flutuar no horizonte e fazem contas aos milhões de euros que Sócrates anunciou para “apoio à economia”, aos pacotes de “incentivos fiscais” e às “linhas de crédito” que se anunciam – seja lá o que isso for. O pequeno capital lusitano é obrigado a pagar o crédito com o seu silêncio. Jardim esbraceja, como é seu hábito, mas tem razão. Não porque lhe valha grande coisa, mas porque as coisas são como são. Vem nos livros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Smoking again.

por FJV, em 12.12.08

 

Um dos novos desportos para preencher o vazio da cabeça é o de vigiar os hábitos de Barack Obama, como o de fumar. Os parvinhos elegantes, de ideologia tetraplégica, e as tias do século passado ficaram embasbacados com a novidade – Obama fuma; como é que ele vai fazer na Casa Branca, onde não se pode fumar? Naturalmente, vem até à porta das traseiras onde escapará dos moralistas. Interrogado pela imprensa, o presidente americano lá se justificou: “Mas olhem que tento ter uma vida mais saudável...”  Para começar, estar no poder não é nada saudável. Depois, desde que inventaram os políticos com “uma vida saudável” que deixámos de ter bons políticos. Um bom político precisa de um certo suplemento de vício. Olhem para a União Europeia e confirmem: saudáveis, sim, mas uma merda.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Centrão.

por FJV, em 04.12.08

Quando Cavaco abandonou o governo, em 1995, estava farto do PSD. Quando Guterres deixou o governo em 2001 queixou-se “do pântano”, e estava também a falar do seu partido. Treze anos depois, Cavaco continua farto do PSD e Guterres distante de um regresso à vidinha no PS. Periodicamente, há gente que se afasta e deixa no ar suspeitas sobre “o pântano” ou sobre “a política”. Em qualquer dos casos queixam-se do “centrão”, uma espécie de “organização secreta” que deixa a sua marca em todos os grandes negócios do regime e que dilui todas as diferenças entre os dois maiores partidos do sistema. Só assim se explica que Dias Loureiro tenha elogiado Sócrates na apresentação de uma biografia do primeiro-ministro e que as presidências dos bancos sejam ocupadas com um emblema ou outro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

CR 7

por FJV, em 03.12.08

O problema de Cristiano Ronaldo é que, há uns anos, um futebolista era um futebolista. Hoje em dia, é muito mais coisas: fala com abundância, conhece e pratica com senhoras, colecciona carros, não tem juízo nenhum em público. Mesmo assim, Cristiano Ronaldo é Cristiano Ronaldo e gostamos dele ou não – sendo ele como é. Os estetas acham-no de pechisbeque porque nunca escondeu a família, a vulgaridade ou a ambição. Preferiam-no cantor de ópera, sofisticado, mas ele é futebolista e ganha muito dinheiro. É o primeiro da sua família (humilde, simples) a ganhar dinheiro e a saber que é bom no que faz – e não tem vergonha. Com o tempo, talvez melhore e se torne mais discreto. Mas tem direito à sua euforia de miúdo: é o melhor do mundo com a bola nos pés. O que irrita os invejosos.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sócrates, elegante.

por FJV, em 01.12.08

Ontem, o diário 'El Mundo' escolhia os homens mais elegantes do ano – e entre eles, apenas atrás de Karl Lagerfeld (uma múmia), de Roger Federer, Barack Obama, Brad Pitt, ou do príncipe Haakon (da Noruega) e à frente de Jude Law, de Sarkozy ou do príncipe Carlos, estava José Sócrates. O sexto mais elegante do mundo. É uma distinção e tanto. Mundana, sim – mas uma distinção. Sisudo na foto, talvez isso seja uma das razões a sua popularidade, como diz o jornal, que acrescenta: «Os portugueses respeitam o homem rigoroso, com fatos escuros Armani.» Pode ser. Por isso, a sua ministra da Educação escusava de considerar 'tocante' o caso do aluno que – depois de receber um computador Magalhães – lhe escreveu a dizer que quer inscrever-se no PS. Isso não é elegante. Nem tocante.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Homens de negócios, juízes na Bolívia.

por FJV, em 24.11.08

As coisas devem ser feitas em grande. E nós, portugueses, que não poupemos nisso. Dias Loureiro contou na televisão que conheceu El-Assir, que o apresentou ao rei de Espanha para jogar golfe e, depois, a Bill Clinton. Os banqueiros e a finança têm os seus contactos, como se sabe. Um traficante de armas, um presidente, um rei – fazer negócios é ter influência para abrir portas aqui e ali, tanto no Banco de Portugal como nos corredores da política. É assim o mundo. Mas, ao que parece, também imitamos outros velhos hábitos. Por exemplo, veja-se o caso de um juiz cuja casa foi assaltada – os meliantes deixaram uma arma junto a foto do filho, como ameaça. A sua mulher também foi alvo de uma tentativa de atropelamento. Como em outros casos, a realidade tenta sempre imitar a ficção. Mesmo que seja na Bolívia.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Abraços a Chávez.

por FJV, em 19.11.08

A vida é como é e nada impede o governo português de negociar com a Venezuela; preferia era que o meu governo não andasse aos abraços com o arrivista de Caracas, o homem que ameaça e chantageia os venezuelanos durante a campanha eleitoral que termina esta semana. Chávez ameaça as regiões “rebeldes” com tanques e cortes de verbas, usando dinheiros públicos para promover os seus candidatos, para não repetir os resultados desfavoráveis do referendo com que pretendia ser nomeado ditador. Uma das novidades, desta vez, foi a promessa de prender pessoalmente os opositores e de incendiar as câmaras da oposição. Se é preciso petróleo venezuelano, pois que se compre – e que Sócrates se reúna com Chávez. Mas, repito, evitem as cenas de abraços amorosos e cúmplices diante das televisões.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

 

P.S. Já imagino o discurso de Alberto Martins sobre a falta de cultura cívica...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ovos sobre a política.

por FJV, em 19.11.08

Acho que não se devem atirar ovos à Ministra da Educação. Acho um comportamento impróprio, como também achei que era abjecto andar a mostrar o rabo a Manuela Ferreira Leite quando esta era Ministra da Educação. Grande parte da esquerda, “rebelde à força” ou por profissão, defende que se devem atirar ovos quando os políticos são de direita; mas defende o respeitinho quando se trata de governantes de esquerda. Penso nisso quando me lembro de políticos que defenderam as ofensas (eram “criativas e revolucionárias”...) a Ferreira Leite ou que atravessavam, sem pagar, a ponte sobre o Tejo. Hoje, vejo-os no outro lado, mostrando um imenso tédio diante da chuva de ovos de Fafe. Os tempos mudam, as pessoas também. Eis por que razão se deve ter tento na língua e cuidado nos actos.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Comissão Europeia: «Uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas.»

por FJV, em 13.11.08

É um documento notável e maravilhoso. De acordo com uma directiva da Comissão Europeia, espécies hortícolas e frutícolas, como damascos, espargos, beringelas, feijões, couve-de-bruxelas, cenouras, couve-flor, cerejas, pepinos, alhos, repolhos, melões, cebolas, ou espinafres poderão passar, finalmente, ser vendidos em formatos ‘deformados’. Já outras espécies, malévolas, irregulares e desobedientes, como maçãs, kiwis, alfaces, pêssegos, morangos e tomates terão de se apresentar com os tamanhos que a comissão define no gabinete. Segundo a comissária da agricultura (a sério), é “uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas”. Os nossos quintais rejubilam, eufóricos, ao verem que Bruxelas continua a meter os legumes na ordem. E os cidadãos festejam por não lhes alterarem o calibre dos tomates.

 

 

Chamo ainda a atenção para esta notícia: «O Banco Alimentar de Luta contra a Fome esteve impedido este ano de distribuir frutas e legumes a quem recorre aos seus serviços para poder comer porque não está autorizado a distribuir frutas e legumes que não cumpram os parâmetros de tamanho e cor impostos pela União Europeia.»

 

 

Adenda: o boneco do Pedro «Irmão Lúcia» Vieira:

Autoria e outros dados (tags, etc)

Chumbos.

por FJV, em 31.10.08

O Conselho Nacional da Educação vem propor que acabem os chumbos até ao 9.º ano – é uma medida e tanto, que o Sr. Secretário de Estado Valter Lemos festeja com as mãos ambas, uma vez que parece ser ele o encarregado de velar pelas estatísticas. Acho que o Sr. Secretário Lemos está a ser modesto em matéria de “mecanismos de alternativa a chumbos”. Defendo que, na hora do baptismo, perdão, no registo civil, seja atribuído logo o 9.º ano a cada pequeno cidadão. Assim, evitam-se logo os chumbos. Parece, além do mais, que o chumbo é visto como uma tentativa de responsabilizar os alunos e os pais, o que – no entender do Sr. Secretário Lemos e do sempre espantoso Albino Almeida, da confederação dos paizinhos – não pode acontecer. Sim, de facto, onde é que isto se viu? Na Finlândia?

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

O «caso Esmeralda».

por FJV, em 31.10.08

 

O ‘caso Esmeralda’ não é folclore. Convém, para pessoas sensíveis e cosmopolitas, pensar que o drama de uma criança dividida por duas famílias é apenas uma coisa provinciana e pouco digna de figurar nas páginas dos jornais – quanto mais da nossa vida. Mas acontece que os tempos modernos não são apenas uma metáfora para nos mostrarmos mais luminosos e agradáveis. Com eles vêm as famílias monoparentais, pluriparentais ou o que quiserem – e novas formas de manifestar em público o afecto que nasce em privado. A história do nascimento de Esmeralda tem a ver com tudo isso e com uma soma de decisões judiciais que acabam por ser contraditórias ou discutíveis, quando pretendiam fazer justiça a todo o custo. Não há justiça nestes casos. Há apenas o sentimento do irremediável.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

O passado.

por FJV, em 28.10.08

José Eduardo Agualusa escreveu um livro notável, O Vendedor de Passados, em que o personagem principal se dispunha a isso mesmo – a inventar o melhor passado possível para cada um dos seus clientes.Quem não quer ter um bom passado, altamente recomendável? A luta política em Portugal, longe de esgrimir argumentos e propostas, vale-se frequentemente da trafulhice de combater o passado dos adversários (se possível esquecendo o próprio). É um método como qualquer outro, disponível nos manuais – mas há-de acabar por rebentar nas próprias mãos do utilizador. Há sempre uma vergonha escondida, uma distracção, um gesto menos próprio, uma coisinha humana e natural que atraiçoa os defensores da moralidade ou os super-homens impolutos. As pobres viúvas de Lorca são o pior da política.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Scanner.

por FJV, em 27.10.08

José Medeiros Ferreira chamou a atenção para este assunto no sábado passado: a Comissão Europeia, para que não a acusassem de não prestar atenção aos detalhes, já enviou para o Parlamento Europeu uma proposta que autoriza a utilização de 'scanners' nos aeroportos. Para quê? Para ver os cidadãos por dentro – uma ideia que faria as delícias dos adolescentes de há uns anos quando se sonhava com câmaras fotográficas que eliminassem as roupas. Pois a Comissão Europeia consegue, por lei, obter aquilo que nós apenas imaginávamos na nossa adolescência cheia de hormonas, libido e apetites. Blimunda, a personagem de Saramago, no Memorial, também via as pessoas por dentro desde que estivesse em jejum. Para a Comissão Europeia basta-lhe uma lei. Não precisa de imaginação nem de juízo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Turbilhões.

por FJV, em 14.10.08

Vivemos em turbilhão. Depois da “onda de criminalidade violenta” durante o Verão, veio a crise financeira no Outono, com a questão dos combustíveis pelo meio. Não sabemos o que nos reserva o Inverno (Steinbeck escreveu “O Inverno do Nosso Descontentamento”), mas de uma coisa podemos estar certos: dificilmente iremos encarar o futuro com a mesma leviandade. As crises obrigam-nos a repensar o modo de vida e a forma como lidamos com as coisas banais: o preço da bica, as compras de Natal, a roupa do ano passado, os gestos menores do dia-a-dia. Há quem se lamente de que, assim, ficamos mais conservadores. Se for verdade, é uma vantagem. Os ‘optimistas’ têm mais desilusões; os ‘pessimistas’ estão mais preparados para os dias que aí vêm. É uma verdadeira lição de teoria política.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Economia pública, 4.

por FJV, em 14.10.08

Enquanto os EUA se iniciam nos mistérios da nacionalização da banca (uma perversidade que vai sair cara), aqui os tempos não estão para minudências. O presidente da Associação de Bancos, por exemplo, diz que a abundância acabou, sem que ninguém lhe tenha chamado astronauta, porque abundância, propriamente, não tem havido. A abundância está sempre a meio caminho da crise num mundo em que se pensa que o crescimento é infinito e que o crédito é o outro nome da riqueza. As pessoas querem uma vida mais fácil. Tem sido, mas para os gastadores, para as companhias de crédito e para os que ganham dinheiro rápido – as empresas e as pessoas têm de trabalhar no duro para sobreviver. É estranho, por isso, que sejam empresas e pessoas a pagar os desvarios de quem esbanjou quase tudo.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todos gostávamos de ter uma palavra de esperança para Figueira de Castelo Rodrigo.

por FJV, em 03.10.08

“Os municípios do interior estão despovoados de massa crítica, investimento e receitas próprias”, diz António Edmundo, presidente da Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo, que decidiu (e bem) tomar medidas para fixar jovens casais no seu concelho. É uma tarefa do outro mundo, tendo em conta as armas de que dispõe a câmara local: prémios de 500 a 750 euros para cada criança que nasça na vila ou para cada casal que decida fixar-se no interior da barreira de xisto que delimita o concelho. Com essa quantia, António Edmundo luta heroicamente contra a força do destino, que é animada pela inércia e pela concorrência desleal das cidades do litoral. Todos gostávamos de ter uma palavra de esperança para Figueira de Castelo Rodrigo; mas, sinceramente, os tempos estão difíceis. E caros.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Contribuições & solidariedade.

por FJV, em 30.09.08

De repente, à esquerda e à direita surge uma onda de solidariedade com “as vítimas” do desastre financeiro que está à vista. Os mais “solidários” voltam-se contra o Congresso Americano que desobedeceu aos chefes partidários e achou que não devia aprovar o plano de salvamento que lhes era proposto lá de cima. Os “solidários” acham que é egoísmo não querer dar uns dólares ao vizinho. O problema é que não se trata de “uns dólares” – são, pelo menos, 2500 por cada cidadão americano. E não é ao vizinho – mas sim aos bancos que usaram e abusaram do risco. Não é preciso perceber de economia para saber que são os contribuintes que vão pagar a despesa; por isso, a falência desses bancos não me parece mal. Se é preciso aplicar o dinheiro dos contribuintes, há muito por onde começar.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexões sobre o almoço.

por FJV, em 30.09.08

Para já, a crise financeira chega a Portugal como um eco de falências e turbulências na bolsa. O “cidadão médio”, no entanto, faz contas. E são simples: afastado da ribalta da grande especulação, limita-se a recordar as aulas de contabilidade salazarista, que é a mais apropriada para o seu caso – não pode gastar mais do que ganha. Bem vistas as coisas, pela lógica dessa contabilidade, também os bancos não podiam emprestar mais do que tinham, para que os clientes não pudessem dever mais do que podiam. O alto capitalismo vive na corda bamba, o que é bom para grandes contas e riscos incalculáveis, mas fatal para a economia de quem vive com decência. E é isso: o “cidadão médio” faz contas: deve o telemóvel, parte da casa, parte do carro, parte das férias. Ou seja, aprende o que já sabia – que um almoço nunca é de graça.

[Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Momento da Verdade.

por FJV, em 22.09.08

 

O presidente da entidade que vigia a comunicação social, a ERC, acha que o programa da SIC ‘O Momento da Verdade’ é “uma forma de prostituição”. A acusação é grave e merece ser lida com atenção, vinda de quem vem. Os dicionários são claros sobre o que significa “prostituição” e a palavra deve ser utilizada com cuidado. Passei os olhos sobre o programa e parece-me – estando o mundo como está – que há evidente exagero na designação, mas não o verei mais. Um dos problemas é que o Sr. Nogueira, o mais criticado dos concorrentes, não tem a aura de prostituto de luxo, que se desculpa em situações semelhantes, quando os personagens se vendem por muito mais, mas com aplauso chique; o outro problema chama-se “comando da televisão”. Tem uma série de botões e serve para mudar de canal.

Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Casamento.

por FJV, em 19.09.08

Um deputado social-democrata moderninho diz que a nova lei do divórcio é «uma inovação» no País face à legislação europeia. Pode ser. Mas o espírito das leis é uma coisa – e a aplicação é outra. O legislador (o Parlamento, enfim) devia pensar no assunto em vez de aprovar leis feitas para um mundo ideal onde habitam pessoais ideais e em condições ideais. Nunca é assim. As pessoas concretas, os seus problemas e a maldade habitual acabam por lutar contra as leis para serem mais felizes ou aproveitar-se delas para passarem adiante. Pode ser que eu esteja a ser conservador mas não tenho medo da palavra; simplesmente, basta imaginar divórcios litigiosos concretos (agora exterminados por diploma) para perceber que quem vai sofrer são os mais fracos. Neste caso, as mais fracas.

Da coluna do Correio da Manhã.]

Autoria e outros dados (tags, etc)



Blog anterior

Aviz 2003>2005


subscrever feeds