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Frederico Lourenço: um prémio e tudo o mais

por FJV, em 11.12.16

A atribuição do Prémio Pessoa a Frederico Lourenço deixa-me feliz — não apenas por ser o autor da tradução da Bíblia que a Quetzal publica, mas porque é o reconhecimento do seu notável trabalho ao longo dos últimos vinte anos. E porque, através deste prémio (que me escuso a comentar mais, por pudor) ficam também homenageados os estudos clássicos, os resistentes que continuam a ensinar e a traduzir (e a estudar) grego e latim. 

Este prémio, além de distinguir o trabalho do Frederico, deve servir para alertar para a penúria em que se encontram os estudos clássicos: história, língua, cultura, cosmogonias – não para que os alunos se transformem em eruditos e tradutores de Horácio ou Tucídides, mas para que pelo menos a escola não perca a memória do nosso mundo nem da herança que o conhecimento humanístico transporta como uma luz de beleza, de experiência e de consolação diante do vazio de hoje.

Em 1995, havia 13 mil estudantes a estudar Latim; o número passou para para 114 (em 2014). 

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100 anos de Kirk.

por FJV, em 09.12.16

Wyatt Earp (o xerife verdadeiro, não o personagem imortalizado por Burt Lancaster) dizia que Doc Holliday era o atirador mais veloz e mais mortal que jamais conhecera – talvez por isso tenha sido interpretado por Kirk Douglas na versão de John Sturges. Espero que se lembrem de Douglas. No ano em que nasci, ele interpretava o papel de um cowboy (em Fuga sem Rumo, Lonely Are the Brave) cheio de intensidade, melancolia e dramatismo, ao lado de Gena Rowlands, uma das suas grandes companhias no cinema, ao lado de Barbra Stanwick ou da amiga Lauren Bacall. Western? Homem sem Rumo, de King Vidor – reparem no olhar: honra, perdição, um físico invejável. Policial? A História de um Detetive, de William Wyler: traição, drama, perda. Vejam-no em O Grande Ídolo (Champion), em Spartacus (de Kubrick), nos numerosos filmes de guerra – poucos atores sublinham em conjunto a força física, a originalidade, a inteligência e a sobriedade na interpretação como Kirk Douglas. Mais do que uma força da natureza – de quem hoje festejamos o seu centenário – é uma das memórias do próprio cinema. Um atirador veloz e letal.

[Da coluna do CM]

 

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Alunos felizes.

por FJV, em 09.12.16

Vai uma grande barulheira em redor dos resultados do inquérito PISA 2015. O essencial é isto: os resultados melhoraram para os estudantes portugueses; tamanha revelação deixa esquerda e direita a batalhar sobre quem tem mais responsabilidade nessa melhoria, e transforma a leitura dos dados numa encenação ideológica sobre o papel da escola, do ensino, dos exames e dos vários ministros que passaram pela Av. 5 de Outubro, onde está instalado o monstro. O monstro é o Ministério da Educação. A ninguém há de passar pela cabeça que melhores resultados se conseguem com menos trabalho, menos autonomia das escolas e dos professores, menos dedicação, menos exigência e menos desperdício no sistema educativo. O monstro – e o complexo de pedagogos, técnicos e pessoas que há muitos anos não põem o pé numa escola e escrevem textos ilegíveis – nunca aceitou como boas nem a experiência nem as recomendações de professores. Como resposta, prepara-se para manejar as estatísticas a fim de acabar com as retenções, em vez de insistir na preparação dos alunos para enfrentar o destino e escolherem o seu caminho.

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Benite.

por FJV, em 09.12.16

Passam quatro anos sobre a morte de Joaquim Benite (1943-2012), jornalista, crítico e encenador de teatro, fundador do Grupo de Campolide e, mais tarde, da Companhia de Teatro de Almada – e, como o recordo comovidamente, grande recriador de Shakespeare. A última das suas encenações foi justamente Timão de Atenas, que já tinha encenado em Mérida, em 2008 (dois anos antes de Troilo e Créssida) – e que foi estreada pela Companhia 16 dias depois da sua morte, a 20 de dezembro de 2012, uma homenagem maravilhosa a um homem encantador, uma grande voz (no sentido literal) do nosso teatro, um encenador corajoso de O’Neill, Gogol, Brecht, Raul Brandão ou Mozart (inesquecível, A Clemência de Tito), Marivaux e Molière, Pushkin e Gil Vicente ou António José da Silva, Saramago e Thomas Bernhard. A obra completa da Companhia de Teatro de Almada (as suas encenações, a dos convidados, a do seu grande Festival) continua hoje pela mão de Rodrigo Francisco, mas não cessa de evocar a presença tutelar de um homem generoso e sonhador, capaz de arriscar quase tudo pelo teatro. Com uma voz quase sobrenatural.

[Da coluna do CM]

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Empoderamento, aitem e genderificar.

por FJV, em 09.12.16

 

Em português, gentrificação é a palavra usada para significar gentrification, do inglês (gentry), que vem do francês arcaico (genterise) – significa a ocupação do centro das cidades por gente mais ou menos rica. O seu uso pode irritar-nos; é um pouco como se escrevêssemos roque em vez de rock. Na rádio, sobretudo, ouvem-se coisas desta novilíngua – mas admito que nos gabinetes da burocracia há ainda mais abundância de expressões, que convinha registar. Outro dia ouvi dizer que era preciso fazer um debate sobre a genderificação (do inglês gender, género), uma vez que há cargos que estão muito genderificados. Semanas antes escutei uma senhora exigir mais empoderamento (empowerment) para as mulheres e que ela própria tinha contribuído para empoderar mulheres num país de que já não me recordo da América Latina, e o presidente da Câmara de Valongo publicou um livro sobre política onde insiste na necessidade de empoderar os cidadãos do concelho. Depois, há os cidadãos e as cidadãs que dizem aitem em vez de item (um advérbio latino, igualmente) e que já evito corrigir, embora apeteça chicoteá-los. Pessoas que falam mal o português decidiram falar em portinglês. Mas pensam mal em ambas as línguas.

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Cinatti.

por FJV, em 09.12.16

Conheci Ruy Cinatti (1915-1986) num sábado de verão, em Lisboa – uma figura maravilhosa, palradora, exuberante e triste, com uma cruz ao peito, uma sacola de pano onde viviam papéis amarrotados e poemas que distribuía de vez em quando. A maior parte deles sobre Timor (estávamos já nos anos da ocupação indonésia). E Deus. Falámos de ambas as coisas. E de África, Portugal – e do mar. Mais tarde eu veria esse seu mar, em Baucau, Tutuala, Loré, Díli. Mas também o de São Tomé, outra da suas paixões. Encontrei-o mais vezes, a cruz ao peito, mais triste, e o resumo destas conversas era o título do seu primeiro livro, Nós Não Somos deste Mundo (de 1941). A sua poesia acaba de ser publicada (pela Assírio & Alvim) num livro volume com mais de mil páginas, organizadas pelo minucioso e apaixonado Luís Manuel Gaspar (com Joana Matos Frias e o Padre Peter Stilwell) – a poesia inédita e póstuma sairá depois num segundo volume. Cinatti recorda-nos todas as nossas heranças: cristã, oriental, africana, índica, atlântica, clara e escura, tempestuosa ou comovida, como a manhã imensa de que falam os seus poemas. Bem vindo sejas.

 

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Quaraouiynie, Fès el-Bali.

por FJV, em 06.12.16

Onde queria eu estar hoje? Em Fez, Marrocos – sob as cordilheiras que delimitam a planície. Mas hoje não venho falar de geografia e sim de recolhimento, em plena Fès el-Bali, a velha cidade fundada em 789 e onde se encontra a universidade Quaraouiynie, criada 70 anos depois, com a sua biblioteca – a mais antiga do mundo em atividade. Nunca foi devorada pelas chamas, como a de Alexandria; nunca foi destruída por religiosos suspicazes nem assaltada por fanáticos. Conserva manuscritos de uma beleza inestimável, de Ibn Khaldoun ao evangelho de Marcos na sua primeira tradução árabe ou aos estudos teológicos do avô de Averróis, o grande comentador de Aristóteles, sem falar dos tratados de astrologia ou geometria, da poesia do deserto, do Al-Andalus ou de al-Mutamid, o poeta de Beja, ou de Ibn Amar, o de Silves. A biblioteca de al-Quaraouiynie acaba de reabrir depois de meia década de restauro. E, coisa maravilhosa, foi fundada em 859 por uma mulher, Fatima el-Fihriya, filha de um mercador tunisino convertido aos negócios e ao céu tépido de Fez. Quem sabe, talvez tivesse visitado o Algarve.

[Da coluna do CM]

 

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Itáilia.

por FJV, em 05.12.16

A Itália interessa-nos pouco, como se pertencesse a outro continente, o que é uma pena. Daí a imprensa ter banalizado os termos do referendo deste fim de semana, catalogando o “não” no saco enlameado dos “populismos” – a atitude mais fácil. Na verdade, o “não” italiano foi a resposta a uma tentativa autoritária e de concentração de autoridade por parte do primeiro-ministro Renzi. José Sócrates, nos seus tempos áureos, apadrinharia a solução e chamaria “populista” a quem desafiasse a autoridade “eficaz” do Estado (como acabou por fazê-lo). Ontem ouvi vários jornalistas lamentarem, com uma melancolia abjeta, “o fim de dois anos de estabilidade”. Acontece que, em democracia, é fundamental o equilíbrio de poderes, a que Renzi queria pôr um travão, em nome de maiorias substanciais no parlamento. Que isso venha de jornalistas é ainda mais lamentável – e deve-se sobretudo à ignorância e à preguiça. Se “a Europa” estava ao lado de Renzi (do que eu duvido muito), isso então é pior, porque significaria que estaria a sacrificar tudo (a democracia, a representação, o equilíbrio) em nome do poder sem freios.

[Da coluna do CM]

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Então e os espanhóis?

por FJV, em 02.12.16

Vamos e venhamos, o 1.º de Dezembro é um feriado importante e estapafúrdio: é o dia anti-espanhol. Para o celebrar sem ferir suscetibilidades, temos de falar na nossa independência em geral e fazer contorcionismos poéticos com a data, assinalada desde 1823 sob a égide do senhor D. João VI – com um baile – e sob o olho conspícuo dos partidários de D. Miguel. É o feriado civil mais antigo, tal como a vizinhança com Espanha. Sobre Espanha já falei: sou bilingue e gosto. O Presidente da República discursou como lhe competia, transformando o feriado anti-espanhol (os reis de Espanha mal tinham regressado a Madrid) em Dia da Soberania, pela ética, contra as “sujeições” e “subserviências”, pela independência económica e seguintes. Já o primeiro-ministro, citou Pessoa, Antero e a causa da decadência dos povos peninsulares a fim de clamar contra o nacionalismo, a xenofobia e o protecionismo, ou seja, não devemos hostilizar os espanhóis nem defenestrar pessoas, ao contrário do que diz o espírito do 1.º de Dezembro, feriado que todos agradecemos. Para o ano, então, uma coisa menos complicada. Um baile.

[Da coluna do CM]

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Espanha.

por FJV, em 01.12.16

Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje: falar sobre Espanha. Por mim, vivi parte da infância com a gravura da defenestração de Miguel de Vasconcelos às mãos dos “conjurados” e com um D. João IV de gola eclesiástica vindo da penumbra. De D. Afonso declarando a independência até 1640, passando por Nuno Álvares Pereira e pelos episódios de Colombo e Magalhães, a Espanha era o inimigo aberto. Mas quis o destino que eu vivesse até ao fim da adolescência encostado à fronteira, que fôssemos aos bailes do colégio da Av. Portugal na vila galega vizinha e que consumíssemos La Casera. Praticamente, sou bilingue. Vi televisão espanhola desde a infância. Li os poetas e filósofos espanhóis. Tive uma namorada espanhola. Escrevi um romance passado em Espanha – o país que tínhamos de atravessar de noite, de comboio, para chegar à Europa. A verdade é que precisamos de Espanha, e não apenas pela economia, mas para que tenhamos alguém de quem desconfiar, ao jeito de um infiel inimigo externo. Digam lá que não causou estranheza ver um Filipe ser festejado no Porto e em Guimarães com gritos de ‘Viva o Rei!’.

[Da coluna do CM]

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Um mundo que esconde os seus.

por FJV, em 30.11.16

Quando o papa João Paulo II adoeceu de Parkinson, houve quem defendesse que não se deviam publicar as imagens da sua debilidade. Não eram “agradáveis”. Mostravam um homem mortificado pela doença, pela idade e pela proximidade da morte. O século XXI, recente, exigia coisas “agradáveis”, um mundo cheio de anjos da Victoria’s Secret e lojas gourmet no Chiado, imbecis felizes numa piscina de spa ou ciclistas de licra a passar rente ao rio. Foi pouco depois que conheci dois casos de paralisia cerebral – a filha do meu amigo Mário Augusto e o filho do jornalista brasileiro Diogo Mainardi. A dedicação, amor, ternura e absoluta entrega desses pais foram uma lição para mim e acompanhou-me até hoje, quando o Conselho Superior de Audiovisual francês censurou a passagem (na TV) de imagens de crianças com síndrome de Down, alegando que elas poderiam ferir “as consciências” de mulheres que tinham abortado – e não eram “serviço público”. Qualquer coisa aconteceu no género humano que transformou as nossas sociedades num pasto para o despotismo e a falta de generosidade. Um mundo que esconde os seus.

[Da coluna do CM]

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A ilha da Liberdade.

por FJV, em 30.11.16

Para compreender a espalhafatosa e falhada invasão americana de Cuba recomendo um livro portentoso, O Fantasma de Harlot, de Norman Mailer. São mil páginas imparáveis – um romance – que tratam de reconstruir a história da CIA, a corrupção do clã Kennedy (e companhia) e a decadência do espírito da América. Para condenar a estupidez dos americanos não é necessário tecer loas ao ditador cubano (basta ver O Padrinho). Jerónimo de Sousa e o PCP nunca perderam a face por isso, mesmo que recomendem Fidel como expoente dos “ideais da liberdade, da paz e do socialismo” e designem Cuba como “Ilha da Liberdade” (vem nos jornais deste domingo). Declarações como estas (ou sobre Estaline como campeão dos direitos humanos) nunca têm contraditório. Há anos, este jornal entrevistou uma deputada do PCP e perguntou-lhe o que pensava do Gulag e dos campos da morte soviéticos – respondeu que não tinha dados, nem tinha estudado o assunto na faculdade. Jerónimo de Sousa é uma excelente pessoa; mas teria ele concordado com o fuzilamento de portugueses, se tivéssemos vivido uma ditadura militar comunista?

[Da coluna do CM]

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Bad sex.

por FJV, em 29.11.16

Em todo o mundo – como dizem os números e as publicações especializadas – a chamada «literatura erótica» está em baixa e foge dos tops. Parece que a vaga de imitadoras e vulgarizadoras dos livros de E.L. James (As Cinquenta Sombras de Grey), que por sua vez era já imitadora e vulgarizadora, entrou no seu inverno. Como nós no nosso. A coisa pode parecer estapafúrdia, mas tenho moeda de troca: acabam de ser anunciados os candidatos ao prémio Bad Sex (Mau Sexo), destinado a galardoar livros que se tenham distinguido por más descrições e narrações de cenas de sexo – em literatura, mau sexo. Há uma lista negra nesta matéria, e nela estão Tom Wolfe, Morrisey, Ben Okri, Jonathan Littel, Ian McEwan, Melvyn Bragg, Erri de Luca ou Norman Mailer, entre outros; um prémio desses no romance português seria fácil de atribuir. Escrever sobre sexo é andar no fio da navalha, ou pior. O ideal seria o autor colocar-se de atalaia à porta do quarto e deixar que os personagens se entregassem às intimidades antes de prosseguir o livro. Mas não; há sempre a tentação de sujar os dedos (é uma maneira de dizer).

[Da coluna do CM]

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O oiro de Portugal.

por FJV, em 28.11.16

 A ceia dos mais pobres era composta de batatas cozidas, pão e azeite. O azeite era uma iluminação nesse prato de esmalte: o seu brilho à luz mortiça das cozinhas não evocava a beleza dos campos, nem os hotéis com spa entre as oliveiras, mas a luta pela sobrevivência, o único sabor que se acrescentava àquelas batatas. Sou ainda desse tempo: um fio de azeite. Aprendi o sabor desse azeite essencial e apanhei (em janeiro) as azeitonas nas encostas do Douro, como o fazia a minha família. Com o tempo, a vida passou a ser muito melhor. Edgardo Pacheco é de outra geração e reúne, para nossa alegria – e espanto meu, naturalmente – 100 azeites diferentes num livro (Os 100 Melhores Azeites de Portugal, bela fotografia de Jorge Simão, edição Lua de Papel), juntando história, receitas, recomendações amáveis, sabedoria, conhecimento. Também sou ainda desse tempo: o azeite tinha um sabor amargo de terra e de granito, evocando o frio da geada e as oliveiras que passavam de gerações em gerações. O grau de sofisticação a que Edgardo Pacheco o eleva, neste livro, faz da minha memória um festival de gratidão.

[Da coluna do CM]

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Cesariny, 10 anos.

por FJV, em 25.11.16

Amanhã – preparemo-nos com tão pouca antecedência – passam dez anos sobre a morte de Mário Cesariny (1923-2006). “Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu deus de Vasconcelos?”, escrevia num poema dedicado a Artaud e publicado em Pena Capital (de 1957). Poeta – um dos maiores da nossa língua de hoje –, pintor, figura central do surrealismo e da suas derivas, vagabundo, flor de ironia, Cesariny foi recuperado do silêncio por Manuel Hermínio Monteiro, que lhe reeditou a obra (um maravilhoso corpo de fantasmas) na década de 80. Sim, foi marginalizado por ser homossexual, mas sobretudo por ser homem livre. Dez anos. Ficam os poemas: “Entre nós e as palavras há metal fundente/ entre nós e as palavras há hélices que andam/ e podem dar-nos morte violar-nos tirar/ do mais fundo de nós o mais útil segredo/ entre nós e as palavras há perfis ardentes/ espaços cheios de gente de costas/ altas flores venenosas portas por abrir/ e escadas e ponteiros e crianças sentadas/ à espera do seu tempo e do seu precipício.” Tudo fica entre nós e as palavras, Mário. Não há ausência.

[Da coluna do CM]

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Malraux, 40 anos.

por FJV, em 24.11.16

Intelectual, aventureiro, escritor, político – André Malraux (1901-1976) teve contra si os ventos da história do final dos anos sessenta, depois de um período de glória (talvez o derradeiro da velha cultura francesa) em que romances seus, como A Condição Humana ou A Estrada Real, resumiam o espírito do tempo: a parceria entre ética e política, o combate entre o indivíduo e a multidão. Talvez hoje a sua obra possa ser lida de outra forma. As Vozes do Silêncio (que deu lugar a uma série de televisão) ou O Museu Imaginário são duas obras monumentais sobre a necessidade da arte; os seus discursos tornaram-no famoso, num tempo que vivia de grandiosidade e opulência, impossíveis hoje. O Maio de 68 afastou-o definitivamente do palco e passou a ser insultado mas pouco discutido; o que lhe sobrou em pessimismo e penumbra (dramas pessoais e familiares, por exemplo) trouxe-lhe também um tom visionário e místico (“O próximo século será espiritual ou não será nada.”). Vergílio Ferreira dedicou-lhe um ensaio prodigioso, Interrogação ao Destino – Malraux morreu há exatamente quarenta anos, que passam hoje.

[Da coluna do CM]

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Sumo de web.

por FJV, em 18.11.16

Há duas ou três coisas que não se podem criticar entre nós: o papa Francisco, o sushi e a ‘web summit’ de Lisboa. Esta onda de unanimidade arrasta-nos para um mundo de pré-censura onde uma desorganizada, mas muito ativa, polícia do espírito se encarrega de esclarecer o que não se pode dizer, o que não se pode criticar, o que não se pode pensar – quem o fizer é excluído do círculo de eleitos e iluminados. Isto tem a ver com tudo. Tem a ver com política, com as palavras, com os gestos, com a obrigatoriedade do otimismo. Por exemplo, em redor da ‘web summit’. Alguém perguntou o que iam realmente lá fazer Rui Costa, Luís Figo, Bruno de Carvalho ou Patrícia Mamona? Esta última ajuda a preencher a quota de duas mulheres em 20 portugueses? Luís Figo é um exemplo para empreendedores? Os políticos foram na sua qualidade de mestres de cerimónias? Fazer estas perguntas é meio caminho andado para ser olhado de viés. Como se pode pensar que a ‘economia digital’ e o otimismo dos seus sacerdotes não são o maná dos céus – e não uma nova espécie de Bezerro de Ouro? Façamos estas perguntas enquanto é tempo.

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Mustafa Kartal.

por FJV, em 16.11.16

Mustafa Kartal já pode regressar a Portugal. E espero que o faça como herói – porque é um exemplo. Primeiro, porque enfrentou uma dúzia de adolescentes imbecis (um grupo onde havia armas de fogo) que, em abril passado, atacaram o seu restaurante no Cais do Sodré; depois, porque enfrentou a burocracia portuguesa, exigindo (em Ancara, no seu país natal) regressar a Lisboa como imigrante, seja para vender sapatos (como queria inicialmente), seja para reabrir o restaurante. A militância pró-imigrante não o defendeu como devia – não cabe no modelo televisivo –, mas Mustafa Kartal é uma figura de romance. Como muitos que, na primeira década do século, se estabeleceram em Portugal vindos da Ucrânia, da Rússia, da Eslovénia, da Bulgária e se juntaram aos de Cabo Verde, do Brasil ou da Guiné, Mustafa conta, além disso, uma história vulgar no Mediterrâneo de antigamente: uma imigração flutuante e criadora de uma nova “classe média” cujo passaporte se dilui conforme as oportunidades de vida. Mustafa Kartal é nosso. Sejas bem bem-vindo, Mustafa. Espero que o kebab seja bom – para que frutifique, digamos.

[Da coluna do CM]

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Pois tu foste estrangeiro.

por FJV, em 15.11.16

É uma das formas ancestrais de bondade, de generosidade – e de sabedoria: respeitar o estrangeiro que vive na nossa terra. Em várias passagens da Bíblia vem essa recordação: “Pois tu foste estrangeiro.” Numa terra despovoada, os imigrantes são uma garantia de renovação; e, numa terra envelhecida, são uma promessa de vitalidade. Reconhecer essas evidências é sinal de sabedoria. Uma das formas de resgatar os imigrantes que vivem em Portugal – e de diminuir a formação de “ilhas étnicas” onde o Estado é substituído por delinquentes – é o de recordar-lhes que devem respeitar as leis do país. Mas é preciso dar um sinal em troca. A visita do Presidente da República à Cova da Moura, este fim de semana, foi um sinal importante. Ao contrário dos que reagiram à visita como tendo sido uma amostra do “populismo de Marcelo” (visível noutras circunstâncias, muito festejadas, aliás, por pessoas que não distinguem um sorriso de um esgar), eu acho que o Presidente deve visitar mais vezes a Cova da Moura. E o Bairro da Bela Vista em Setúbal. E a Quintas do Mocho ou da Fonte em Loures. E todos os lugares onde existam imigrantes ou portugueses. Esse (“estar presente”) é o primeiro passo para evitar um país de guetos e de isolamento.

[Da coluna do CM]

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Um desejo de morte.

por FJV, em 10.11.16

Nos últimos dois dias quis saber quem tinha afinal votado Trump. Segundo várias crónicas da nossa imprensa, parece que foram os grunhos, os porcos, os brancos analfabetos, os negros sem educação, os latinos dos gangues, pessoas do Alasca e acho que búfalos do Arizona. E, no entanto, foi Trump que venceu nos estados da Pensilvânia, do Michigan e do Wisconsin, que desde a década de 80 nunca tinham favorecido republicanos. Porque é que pessoas “tão influentes” e “famosas” não conseguiram demover os eleitores de votarem num candidato manifestamente mau (em nome de uma candidata igualmente má, é certo), absurdo, imbecil e abaixo de toda a linha – e não se deixaram influenciar por eles? Segundo uma jovem clintoniana entrevistada numa reportagem que li no Observador, o problema é geracional mas “a nossa sorte é que os mais velhos vão morrer em breve”. É a mesma opinião de um largo setor militante do Podemos espanhol, que pede que “morram os velhos fachos de merda” para que os jovens possam votar, e creio que viver, “sem essa escória”. Esse desejo de morte não é novo, mas parece um filme de Tarantino. O novo mundo vai ser radiante com estas pessoas.

[Da coluna do CM]

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O lixo que vem da morte.

por FJV, em 08.11.16

Enquanto decorre a Web Summit (ui, que não se pode rir do assunto), falemos de geografia de Itália. A nordeste de Nápoles, em plena Campânia, existe uma região (delimitada pelos seus três vértices, Acerra, Nola e Marigliano) conhecida como “o triângulo da morte”. A designação, macabra, deve-se ao facto de aí existir uma rara e altíssima taxa de mortalidade por cancro do fígado e da bexiga. Os primeiros estudos sobre o problema foram publicados em 2004 e atribuíram a causa aos resíduos industriais depositados na região (uma operação atribuída à máfia napolitana) e provenientes do norte de Itália. A partir de 2008 decidiu-se retirar o lixo tóxico da zona (os tribunais europeus tinham aplicado severas multas de 120 mil euros diários) mas o problema era o seguinte: onde depositá-lo? Vários países recusaram a generosa oferta, e em agosto Marrocos também deu nega. Há dias, o jornal Il Matino, de Nápoles, anunciou que os primeiros contentores de lixo tóxico tinham partido com um novo destino. Adivinhou: Portugal. Já chegaram ao porto de Setúbal. Não é simples lixo para ser tratado. É uma ameaça que o país mete dentro de portas. 

[Da coluna do CM]

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O abacate.

por FJV, em 07.11.16

Preocupa-me o comportamento disruptivo do abacate desde que nutricionistas, vegetarianos, tarados por patifarias gourmet e maníacos da saúde o elegeram como super-alimento. As consequências foram catastróficas: além de não haver recanto do mundo livre do horror do abacate (e do guacamole), os mercados estão em pânico. O preço subiu aos 2 euros por unidade em Inglaterra, um dos países que mais come a coisa (130 milhões de libras de abacate no último ano), logo a seguir aos EUA (2,5 dólares). Pois agora há carestia do abacate nos dois países, porque a China encomendou 12 mil toneladas de abacate aos principais produtores, entre eles o México (onde o abacate já é uma catástrofe ambiental), que se recusa a baixar o preço. Na Austrália, deixaram os kiwis e passaram para o abacate (há registos de roubos de abacate e uma cadeia de supermercados deixa este aviso à porta das suas lojas: “Durante a noite não guardamos dinheiro nem abacates.”). Fenómeno idêntico foi vivido há 500 anos, com as tulipas holandesas – um pânico nas bolsas. Mas o Telegraph alertou há uma semana: “Esqueça o abacate, vem aí a beringela.” Ainda é pior.

 

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Dia de Finados.

por FJV, em 02.11.16

Num mundo que glorifica o corpo e o seu culto narcísico (e a sua paranóia alimentar), que despreza os velhos e endeusa a juventude, a ideia de visitar os mortos – os nossos mortos – é absurda. Mas não devia. Os sinos dobram por eles, os sinos dobram por nós. O Dia de Finados pertence à categoria das velharias que a civilização da frivolidade dispensa como um incómodo; para os neurónios (por assim dizer) dos especialistas em “auto-ajuda” e em “bem-estar”, devemos ignorar a morte e declarar os mortos como coisa inexistente. A verdade é que a morte (que nos levou os mais próximos, que nos desafia permanentemente) é essa fronteira que coloca a nossa pobre existência diante do desconhecido; é um tabu que pretendemos ignorar em vão, tal como a experiência religiosa ou o contacto com a melancolia e o silêncio. Uma civilização arrapazada e fedelha que não relembra os seus mortos talvez não mereça um futuro promissor. Este dia merece uma pausa, uma paragem: para que contemplemos o invisível e relembremos os que partiram e viveram connosco. É por eles que os sinos dobram. Um dia será por nós.

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Consolação.

por FJV, em 27.10.16

Sim, João Lobo Antunes (1944-2016) era um príncipe: um homem elegante e notável, um cientista de eleição que acreditava tanto na importância do trabalho disciplinado e coerente como na força da criatividade; uma alma generosa, cosmopolita e disponível, um médico que refletia sobre a própria natureza da medicina, quer em obras de natureza científica, quer em livros tão maravilhosos onde recolhia ensaios e memórias, como ‘Um Modo de Ser’ (de 1996), ‘Sobre a Mão e Outros Ensaios’ (2005), ‘O Eco Silencioso’ (2008) ou ‘Inquietação Interminável’ (2010). Neles era um escritor admirável, de uma elegância e subtileza raríssimas, mas também de uma erudição simples, discreta e amável. Não menciono a sua contribuição para a ciência – mas sei que a via como uma parte da nossa humanidade. Foi uma das pessoas mais belas que conheci. Sabia que vivíamos sempre em busca de consolação. 

[Da coluna do CM]

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Doutores.

por FJV, em 27.10.16

Pobre país de doutores, onde se fabricam licenciaturas a pedido e à medida, e onde a rapaziada tem de falsificar diplomas e mentir ao Diário da República para não fazer má figura. Um sacrifício cruel. E tudo isto para quê? Para que não baixem as estatísticas do número de licenciados produzidos em universidades da treta ou em cursos de ciências políticas e da comunicação (a engenharia eletrotécnica já é um caso bicudo, reconheço), um verdadeiro alfobre de talentos. Os rapazes, a bem dizer, são vítimas de um sistema cruel que até está disposto a baixar a bitola a fim de produzir mais licenciados. Deve ser isso que pensa o Bloco de Esquerda, que dá o assunto por encerrado em duas penadas e é bem capaz de recomendar apoio parapsicológico às vítimas. Acabei de ler o livro de um licenciado em engenharia, que se atreveu recentemente às minudências da ciência política (o tal alfobre) e até, ui, ui, da teologia: para valorizar a coisa, e fazer inveja a latinistas, cita do francês (hélas!) o texto de um teólogo brasileiro. Quando é para brilhar, qualquer manigância serve. Até dá gosto.

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Like a rolling stone

por FJV, em 14.10.16


O livro que Dylan escreveu (‘Tarântula’, publicado em 2007 pela Quási) não é grande coisa e não foi a sua existência que levou a academia a atribuir-lhe o Nobel. Foi, sim, "a sua poesia" e talvez o seu nome (nasceu Robert Zimmerman; Dylan é uma homenagem ao poeta Dylan Thomas). 

Desde ‘Highway 61 Revisited’ e  ‘Blonde on Blonde’ (1965) que os poemas de Bob Dylan seguiam um percurso literário, um desejo de ultrapassar a contingência das canções pop e do seu modelo tradicional. Os anos 70 começaram com dois discos belíssimos e poemas notáveis, os de ‘New Morning’ e ‘Pat Garrett & Billy the Kid’, até chegarem ‘Blood on the Tracks’, ‘Desire’ e ‘Slow Train Coming’, em meados da década. 

Os textos dos últimos discos eram belos, profundos, intensos, um desfiladeiro por onde circulava alguma da sua melhor poesia, como em ‘Modern Times’ (2006) ou em ‘Tempest’ (2012). Dava para ganhar o Nobel? Não é surpreendente. Dylan e Leonard Cohen são grandes poetas. Cohen é melhor; mas Dylan é pop e, pelos critérios, não é assustador para ninguém com ouvido. É merecido? As decisões da academia não têm de ser transparentes (é até desejável que não sejam). Para mim, desde que irritem "o estabelecimento", – e as suas vaidades –, é um grande favor que me fazem. Like a rolling stone.

[Na coluna do CM]

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Mario Vargas Llosa no CCB.

por FJV, em 09.10.16

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Sala cheia na apresentação de Cinco Esquinas — uma conversa com o jornalista Luís Caetano (Antena 2), com divertimentos pelo meio. Vargas Llosa improvisou e deu autógrafos, o que é raro acontecer. Diz que, enquanto falava, ficou inspirado com a visão dos Jerónimos através da janela.

No próximo ano há mais.

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Mario Vargas Llosa hoje, no CCB, às 18h00.

por FJV, em 08.10.16

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Um mundo sem limite.

por FJV, em 03.10.16

Muitos ficam extasiados com as imagens: um automóvel sem condutor, um robô a ocupar-se de operações aritméticas, um drone substituindo um exército. Quando escrevi sobre isto, há uns meses, houve quem dissesse que se tratava de falta de assunto; na semana passada, a Amazon anunciou que iria juntar-se a um grupo onde já estão, entre outros, a Google, a Microsoft, a IBM e a Facebook para desenvolver “novas plataformas e objetivos” para a Inteligência Artificial. A ideia é que, no futuro, o trabalho humano possa ser substituído em cerca de 50% por máquinas cuidadosamente preparadas e, a promessa foi feita, eficazes. O número assusta. Há questões a serem discutidas: a do desemprego e o da desvalorização do trabalho humano; a da “filosofia moral” que pode ou não ensinar-se (“programar-se”) a um robô; finalmente, a da própria programação do algoritmo do futuro estar entregue a empresas cujo trabalho ainda não está regulado. Não se trata de “regular” um sistema de transportes ou o mercado financeiro – trata-se de saber até onde a dimensão do humano pode ser limitada no futuro da espécie.

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Um ano. 5777.

por FJV, em 03.10.16

שנה טובה ומתוקה.  כתיבה וחתימה טובה

Um bom Rosh Hashanah.

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