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Então e os espanhóis?

por FJV, em 02.12.16

Vamos e venhamos, o 1.º de Dezembro é um feriado importante e estapafúrdio: é o dia anti-espanhol. Para o celebrar sem ferir suscetibilidades, temos de falar na nossa independência em geral e fazer contorcionismos poéticos com a data, assinalada desde 1823 sob a égide do senhor D. João VI – com um baile – e sob o olho conspícuo dos partidários de D. Miguel. É o feriado civil mais antigo, tal como a vizinhança com Espanha. Sobre Espanha já falei: sou bilingue e gosto. O Presidente da República discursou como lhe competia, transformando o feriado anti-espanhol (os reis de Espanha mal tinham regressado a Madrid) em Dia da Soberania, pela ética, contra as “sujeições” e “subserviências”, pela independência económica e seguintes. Já o primeiro-ministro, citou Pessoa, Antero e a causa da decadência dos povos peninsulares a fim de clamar contra o nacionalismo, a xenofobia e o protecionismo, ou seja, não devemos hostilizar os espanhóis nem defenestrar pessoas, ao contrário do que diz o espírito do 1.º de Dezembro, feriado que todos agradecemos. Para o ano, então, uma coisa menos complicada. Um baile.

[Da coluna do CM]

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Espanha.

por FJV, em 01.12.16

Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje: falar sobre Espanha. Por mim, vivi parte da infância com a gravura da defenestração de Miguel de Vasconcelos às mãos dos “conjurados” e com um D. João IV de gola eclesiástica vindo da penumbra. De D. Afonso declarando a independência até 1640, passando por Nuno Álvares Pereira e pelos episódios de Colombo e Magalhães, a Espanha era o inimigo aberto. Mas quis o destino que eu vivesse até ao fim da adolescência encostado à fronteira, que fôssemos aos bailes do colégio da Av. Portugal na vila galega vizinha e que consumíssemos La Casera. Praticamente, sou bilingue. Vi televisão espanhola desde a infância. Li os poetas e filósofos espanhóis. Tive uma namorada espanhola. Escrevi um romance passado em Espanha – o país que tínhamos de atravessar de noite, de comboio, para chegar à Europa. A verdade é que precisamos de Espanha, e não apenas pela economia, mas para que tenhamos alguém de quem desconfiar, ao jeito de um infiel inimigo externo. Digam lá que não causou estranheza ver um Filipe ser festejado no Porto e em Guimarães com gritos de ‘Viva o Rei!’.

[Da coluna do CM]

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Um mundo que esconde os seus.

por FJV, em 30.11.16

Quando o papa João Paulo II adoeceu de Parkinson, houve quem defendesse que não se deviam publicar as imagens da sua debilidade. Não eram “agradáveis”. Mostravam um homem mortificado pela doença, pela idade e pela proximidade da morte. O século XXI, recente, exigia coisas “agradáveis”, um mundo cheio de anjos da Victoria’s Secret e lojas gourmet no Chiado, imbecis felizes numa piscina de spa ou ciclistas de licra a passar rente ao rio. Foi pouco depois que conheci dois casos de paralisia cerebral – a filha do meu amigo Mário Augusto e o filho do jornalista brasileiro Diogo Mainardi. A dedicação, amor, ternura e absoluta entrega desses pais foram uma lição para mim e acompanhou-me até hoje, quando o Conselho Superior de Audiovisual francês censurou a passagem (na TV) de imagens de crianças com síndrome de Down, alegando que elas poderiam ferir “as consciências” de mulheres que tinham abortado – e não eram “serviço público”. Qualquer coisa aconteceu no género humano que transformou as nossas sociedades num pasto para o despotismo e a falta de generosidade. Um mundo que esconde os seus.

[Da coluna do CM]

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A ilha da Liberdade.

por FJV, em 30.11.16

Para compreender a espalhafatosa e falhada invasão americana de Cuba recomendo um livro portentoso, O Fantasma de Harlot, de Norman Mailer. São mil páginas imparáveis – um romance – que tratam de reconstruir a história da CIA, a corrupção do clã Kennedy (e companhia) e a decadência do espírito da América. Para condenar a estupidez dos americanos não é necessário tecer loas ao ditador cubano (basta ver O Padrinho). Jerónimo de Sousa e o PCP nunca perderam a face por isso, mesmo que recomendem Fidel como expoente dos “ideais da liberdade, da paz e do socialismo” e designem Cuba como “Ilha da Liberdade” (vem nos jornais deste domingo). Declarações como estas (ou sobre Estaline como campeão dos direitos humanos) nunca têm contraditório. Há anos, este jornal entrevistou uma deputada do PCP e perguntou-lhe o que pensava do Gulag e dos campos da morte soviéticos – respondeu que não tinha dados, nem tinha estudado o assunto na faculdade. Jerónimo de Sousa é uma excelente pessoa; mas teria ele concordado com o fuzilamento de portugueses, se tivéssemos vivido uma ditadura militar comunista?

[Da coluna do CM]

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Bad sex.

por FJV, em 29.11.16

Em todo o mundo – como dizem os números e as publicações especializadas – a chamada «literatura erótica» está em baixa e foge dos tops. Parece que a vaga de imitadoras e vulgarizadoras dos livros de E.L. James (As Cinquenta Sombras de Grey), que por sua vez era já imitadora e vulgarizadora, entrou no seu inverno. Como nós no nosso. A coisa pode parecer estapafúrdia, mas tenho moeda de troca: acabam de ser anunciados os candidatos ao prémio Bad Sex (Mau Sexo), destinado a galardoar livros que se tenham distinguido por más descrições e narrações de cenas de sexo – em literatura, mau sexo. Há uma lista negra nesta matéria, e nela estão Tom Wolfe, Morrisey, Ben Okri, Jonathan Littel, Ian McEwan, Melvyn Bragg, Erri de Luca ou Norman Mailer, entre outros; um prémio desses no romance português seria fácil de atribuir. Escrever sobre sexo é andar no fio da navalha, ou pior. O ideal seria o autor colocar-se de atalaia à porta do quarto e deixar que os personagens se entregassem às intimidades antes de prosseguir o livro. Mas não; há sempre a tentação de sujar os dedos (é uma maneira de dizer).

[Da coluna do CM]

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O oiro de Portugal.

por FJV, em 28.11.16

 A ceia dos mais pobres era composta de batatas cozidas, pão e azeite. O azeite era uma iluminação nesse prato de esmalte: o seu brilho à luz mortiça das cozinhas não evocava a beleza dos campos, nem os hotéis com spa entre as oliveiras, mas a luta pela sobrevivência, o único sabor que se acrescentava àquelas batatas. Sou ainda desse tempo: um fio de azeite. Aprendi o sabor desse azeite essencial e apanhei (em janeiro) as azeitonas nas encostas do Douro, como o fazia a minha família. Com o tempo, a vida passou a ser muito melhor. Edgardo Pacheco é de outra geração e reúne, para nossa alegria – e espanto meu, naturalmente – 100 azeites diferentes num livro (Os 100 Melhores Azeites de Portugal, bela fotografia de Jorge Simão, edição Lua de Papel), juntando história, receitas, recomendações amáveis, sabedoria, conhecimento. Também sou ainda desse tempo: o azeite tinha um sabor amargo de terra e de granito, evocando o frio da geada e as oliveiras que passavam de gerações em gerações. O grau de sofisticação a que Edgardo Pacheco o eleva, neste livro, faz da minha memória um festival de gratidão.

[Da coluna do CM]

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Cesariny, 10 anos.

por FJV, em 25.11.16

Amanhã – preparemo-nos com tão pouca antecedência – passam dez anos sobre a morte de Mário Cesariny (1923-2006). “Como assim Mário como assim Cesariny como assim ó meu deus de Vasconcelos?”, escrevia num poema dedicado a Artaud e publicado em Pena Capital (de 1957). Poeta – um dos maiores da nossa língua de hoje –, pintor, figura central do surrealismo e da suas derivas, vagabundo, flor de ironia, Cesariny foi recuperado do silêncio por Manuel Hermínio Monteiro, que lhe reeditou a obra (um maravilhoso corpo de fantasmas) na década de 80. Sim, foi marginalizado por ser homossexual, mas sobretudo por ser homem livre. Dez anos. Ficam os poemas: “Entre nós e as palavras há metal fundente/ entre nós e as palavras há hélices que andam/ e podem dar-nos morte violar-nos tirar/ do mais fundo de nós o mais útil segredo/ entre nós e as palavras há perfis ardentes/ espaços cheios de gente de costas/ altas flores venenosas portas por abrir/ e escadas e ponteiros e crianças sentadas/ à espera do seu tempo e do seu precipício.” Tudo fica entre nós e as palavras, Mário. Não há ausência.

[Da coluna do CM]

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Malraux, 40 anos.

por FJV, em 24.11.16

Intelectual, aventureiro, escritor, político – André Malraux (1901-1976) teve contra si os ventos da história do final dos anos sessenta, depois de um período de glória (talvez o derradeiro da velha cultura francesa) em que romances seus, como A Condição Humana ou A Estrada Real, resumiam o espírito do tempo: a parceria entre ética e política, o combate entre o indivíduo e a multidão. Talvez hoje a sua obra possa ser lida de outra forma. As Vozes do Silêncio (que deu lugar a uma série de televisão) ou O Museu Imaginário são duas obras monumentais sobre a necessidade da arte; os seus discursos tornaram-no famoso, num tempo que vivia de grandiosidade e opulência, impossíveis hoje. O Maio de 68 afastou-o definitivamente do palco e passou a ser insultado mas pouco discutido; o que lhe sobrou em pessimismo e penumbra (dramas pessoais e familiares, por exemplo) trouxe-lhe também um tom visionário e místico (“O próximo século será espiritual ou não será nada.”). Vergílio Ferreira dedicou-lhe um ensaio prodigioso, Interrogação ao Destino – Malraux morreu há exatamente quarenta anos, que passam hoje.

[Da coluna do CM]

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Sumo de web.

por FJV, em 18.11.16

Há duas ou três coisas que não se podem criticar entre nós: o papa Francisco, o sushi e a ‘web summit’ de Lisboa. Esta onda de unanimidade arrasta-nos para um mundo de pré-censura onde uma desorganizada, mas muito ativa, polícia do espírito se encarrega de esclarecer o que não se pode dizer, o que não se pode criticar, o que não se pode pensar – quem o fizer é excluído do círculo de eleitos e iluminados. Isto tem a ver com tudo. Tem a ver com política, com as palavras, com os gestos, com a obrigatoriedade do otimismo. Por exemplo, em redor da ‘web summit’. Alguém perguntou o que iam realmente lá fazer Rui Costa, Luís Figo, Bruno de Carvalho ou Patrícia Mamona? Esta última ajuda a preencher a quota de duas mulheres em 20 portugueses? Luís Figo é um exemplo para empreendedores? Os políticos foram na sua qualidade de mestres de cerimónias? Fazer estas perguntas é meio caminho andado para ser olhado de viés. Como se pode pensar que a ‘economia digital’ e o otimismo dos seus sacerdotes não são o maná dos céus – e não uma nova espécie de Bezerro de Ouro? Façamos estas perguntas enquanto é tempo.

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Mustafa Kartal.

por FJV, em 16.11.16

Mustafa Kartal já pode regressar a Portugal. E espero que o faça como herói – porque é um exemplo. Primeiro, porque enfrentou uma dúzia de adolescentes imbecis (um grupo onde havia armas de fogo) que, em abril passado, atacaram o seu restaurante no Cais do Sodré; depois, porque enfrentou a burocracia portuguesa, exigindo (em Ancara, no seu país natal) regressar a Lisboa como imigrante, seja para vender sapatos (como queria inicialmente), seja para reabrir o restaurante. A militância pró-imigrante não o defendeu como devia – não cabe no modelo televisivo –, mas Mustafa Kartal é uma figura de romance. Como muitos que, na primeira década do século, se estabeleceram em Portugal vindos da Ucrânia, da Rússia, da Eslovénia, da Bulgária e se juntaram aos de Cabo Verde, do Brasil ou da Guiné, Mustafa conta, além disso, uma história vulgar no Mediterrâneo de antigamente: uma imigração flutuante e criadora de uma nova “classe média” cujo passaporte se dilui conforme as oportunidades de vida. Mustafa Kartal é nosso. Sejas bem bem-vindo, Mustafa. Espero que o kebab seja bom – para que frutifique, digamos.

[Da coluna do CM]

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Pois tu foste estrangeiro.

por FJV, em 15.11.16

É uma das formas ancestrais de bondade, de generosidade – e de sabedoria: respeitar o estrangeiro que vive na nossa terra. Em várias passagens da Bíblia vem essa recordação: “Pois tu foste estrangeiro.” Numa terra despovoada, os imigrantes são uma garantia de renovação; e, numa terra envelhecida, são uma promessa de vitalidade. Reconhecer essas evidências é sinal de sabedoria. Uma das formas de resgatar os imigrantes que vivem em Portugal – e de diminuir a formação de “ilhas étnicas” onde o Estado é substituído por delinquentes – é o de recordar-lhes que devem respeitar as leis do país. Mas é preciso dar um sinal em troca. A visita do Presidente da República à Cova da Moura, este fim de semana, foi um sinal importante. Ao contrário dos que reagiram à visita como tendo sido uma amostra do “populismo de Marcelo” (visível noutras circunstâncias, muito festejadas, aliás, por pessoas que não distinguem um sorriso de um esgar), eu acho que o Presidente deve visitar mais vezes a Cova da Moura. E o Bairro da Bela Vista em Setúbal. E a Quintas do Mocho ou da Fonte em Loures. E todos os lugares onde existam imigrantes ou portugueses. Esse (“estar presente”) é o primeiro passo para evitar um país de guetos e de isolamento.

[Da coluna do CM]

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Um desejo de morte.

por FJV, em 10.11.16

Nos últimos dois dias quis saber quem tinha afinal votado Trump. Segundo várias crónicas da nossa imprensa, parece que foram os grunhos, os porcos, os brancos analfabetos, os negros sem educação, os latinos dos gangues, pessoas do Alasca e acho que búfalos do Arizona. E, no entanto, foi Trump que venceu nos estados da Pensilvânia, do Michigan e do Wisconsin, que desde a década de 80 nunca tinham favorecido republicanos. Porque é que pessoas “tão influentes” e “famosas” não conseguiram demover os eleitores de votarem num candidato manifestamente mau (em nome de uma candidata igualmente má, é certo), absurdo, imbecil e abaixo de toda a linha – e não se deixaram influenciar por eles? Segundo uma jovem clintoniana entrevistada numa reportagem que li no Observador, o problema é geracional mas “a nossa sorte é que os mais velhos vão morrer em breve”. É a mesma opinião de um largo setor militante do Podemos espanhol, que pede que “morram os velhos fachos de merda” para que os jovens possam votar, e creio que viver, “sem essa escória”. Esse desejo de morte não é novo, mas parece um filme de Tarantino. O novo mundo vai ser radiante com estas pessoas.

[Da coluna do CM]

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O lixo que vem da morte.

por FJV, em 08.11.16

Enquanto decorre a Web Summit (ui, que não se pode rir do assunto), falemos de geografia de Itália. A nordeste de Nápoles, em plena Campânia, existe uma região (delimitada pelos seus três vértices, Acerra, Nola e Marigliano) conhecida como “o triângulo da morte”. A designação, macabra, deve-se ao facto de aí existir uma rara e altíssima taxa de mortalidade por cancro do fígado e da bexiga. Os primeiros estudos sobre o problema foram publicados em 2004 e atribuíram a causa aos resíduos industriais depositados na região (uma operação atribuída à máfia napolitana) e provenientes do norte de Itália. A partir de 2008 decidiu-se retirar o lixo tóxico da zona (os tribunais europeus tinham aplicado severas multas de 120 mil euros diários) mas o problema era o seguinte: onde depositá-lo? Vários países recusaram a generosa oferta, e em agosto Marrocos também deu nega. Há dias, o jornal Il Matino, de Nápoles, anunciou que os primeiros contentores de lixo tóxico tinham partido com um novo destino. Adivinhou: Portugal. Já chegaram ao porto de Setúbal. Não é simples lixo para ser tratado. É uma ameaça que o país mete dentro de portas. 

[Da coluna do CM]

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O abacate.

por FJV, em 07.11.16

Preocupa-me o comportamento disruptivo do abacate desde que nutricionistas, vegetarianos, tarados por patifarias gourmet e maníacos da saúde o elegeram como super-alimento. As consequências foram catastróficas: além de não haver recanto do mundo livre do horror do abacate (e do guacamole), os mercados estão em pânico. O preço subiu aos 2 euros por unidade em Inglaterra, um dos países que mais come a coisa (130 milhões de libras de abacate no último ano), logo a seguir aos EUA (2,5 dólares). Pois agora há carestia do abacate nos dois países, porque a China encomendou 12 mil toneladas de abacate aos principais produtores, entre eles o México (onde o abacate já é uma catástrofe ambiental), que se recusa a baixar o preço. Na Austrália, deixaram os kiwis e passaram para o abacate (há registos de roubos de abacate e uma cadeia de supermercados deixa este aviso à porta das suas lojas: “Durante a noite não guardamos dinheiro nem abacates.”). Fenómeno idêntico foi vivido há 500 anos, com as tulipas holandesas – um pânico nas bolsas. Mas o Telegraph alertou há uma semana: “Esqueça o abacate, vem aí a beringela.” Ainda é pior.

 

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Dia de Finados.

por FJV, em 02.11.16

Num mundo que glorifica o corpo e o seu culto narcísico (e a sua paranóia alimentar), que despreza os velhos e endeusa a juventude, a ideia de visitar os mortos – os nossos mortos – é absurda. Mas não devia. Os sinos dobram por eles, os sinos dobram por nós. O Dia de Finados pertence à categoria das velharias que a civilização da frivolidade dispensa como um incómodo; para os neurónios (por assim dizer) dos especialistas em “auto-ajuda” e em “bem-estar”, devemos ignorar a morte e declarar os mortos como coisa inexistente. A verdade é que a morte (que nos levou os mais próximos, que nos desafia permanentemente) é essa fronteira que coloca a nossa pobre existência diante do desconhecido; é um tabu que pretendemos ignorar em vão, tal como a experiência religiosa ou o contacto com a melancolia e o silêncio. Uma civilização arrapazada e fedelha que não relembra os seus mortos talvez não mereça um futuro promissor. Este dia merece uma pausa, uma paragem: para que contemplemos o invisível e relembremos os que partiram e viveram connosco. É por eles que os sinos dobram. Um dia será por nós.

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Consolação.

por FJV, em 27.10.16

Sim, João Lobo Antunes (1944-2016) era um príncipe: um homem elegante e notável, um cientista de eleição que acreditava tanto na importância do trabalho disciplinado e coerente como na força da criatividade; uma alma generosa, cosmopolita e disponível, um médico que refletia sobre a própria natureza da medicina, quer em obras de natureza científica, quer em livros tão maravilhosos onde recolhia ensaios e memórias, como ‘Um Modo de Ser’ (de 1996), ‘Sobre a Mão e Outros Ensaios’ (2005), ‘O Eco Silencioso’ (2008) ou ‘Inquietação Interminável’ (2010). Neles era um escritor admirável, de uma elegância e subtileza raríssimas, mas também de uma erudição simples, discreta e amável. Não menciono a sua contribuição para a ciência – mas sei que a via como uma parte da nossa humanidade. Foi uma das pessoas mais belas que conheci. Sabia que vivíamos sempre em busca de consolação. 

[Da coluna do CM]

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Doutores.

por FJV, em 27.10.16

Pobre país de doutores, onde se fabricam licenciaturas a pedido e à medida, e onde a rapaziada tem de falsificar diplomas e mentir ao Diário da República para não fazer má figura. Um sacrifício cruel. E tudo isto para quê? Para que não baixem as estatísticas do número de licenciados produzidos em universidades da treta ou em cursos de ciências políticas e da comunicação (a engenharia eletrotécnica já é um caso bicudo, reconheço), um verdadeiro alfobre de talentos. Os rapazes, a bem dizer, são vítimas de um sistema cruel que até está disposto a baixar a bitola a fim de produzir mais licenciados. Deve ser isso que pensa o Bloco de Esquerda, que dá o assunto por encerrado em duas penadas e é bem capaz de recomendar apoio parapsicológico às vítimas. Acabei de ler o livro de um licenciado em engenharia, que se atreveu recentemente às minudências da ciência política (o tal alfobre) e até, ui, ui, da teologia: para valorizar a coisa, e fazer inveja a latinistas, cita do francês (hélas!) o texto de um teólogo brasileiro. Quando é para brilhar, qualquer manigância serve. Até dá gosto.

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Like a rolling stone

por FJV, em 14.10.16


O livro que Dylan escreveu (‘Tarântula’, publicado em 2007 pela Quási) não é grande coisa e não foi a sua existência que levou a academia a atribuir-lhe o Nobel. Foi, sim, "a sua poesia" e talvez o seu nome (nasceu Robert Zimmerman; Dylan é uma homenagem ao poeta Dylan Thomas). 

Desde ‘Highway 61 Revisited’ e  ‘Blonde on Blonde’ (1965) que os poemas de Bob Dylan seguiam um percurso literário, um desejo de ultrapassar a contingência das canções pop e do seu modelo tradicional. Os anos 70 começaram com dois discos belíssimos e poemas notáveis, os de ‘New Morning’ e ‘Pat Garrett & Billy the Kid’, até chegarem ‘Blood on the Tracks’, ‘Desire’ e ‘Slow Train Coming’, em meados da década. 

Os textos dos últimos discos eram belos, profundos, intensos, um desfiladeiro por onde circulava alguma da sua melhor poesia, como em ‘Modern Times’ (2006) ou em ‘Tempest’ (2012). Dava para ganhar o Nobel? Não é surpreendente. Dylan e Leonard Cohen são grandes poetas. Cohen é melhor; mas Dylan é pop e, pelos critérios, não é assustador para ninguém com ouvido. É merecido? As decisões da academia não têm de ser transparentes (é até desejável que não sejam). Para mim, desde que irritem "o estabelecimento", – e as suas vaidades –, é um grande favor que me fazem. Like a rolling stone.

[Na coluna do CM]

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Mario Vargas Llosa no CCB.

por FJV, em 09.10.16

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Sala cheia na apresentação de Cinco Esquinas — uma conversa com o jornalista Luís Caetano (Antena 2), com divertimentos pelo meio. Vargas Llosa improvisou e deu autógrafos, o que é raro acontecer. Diz que, enquanto falava, ficou inspirado com a visão dos Jerónimos através da janela.

No próximo ano há mais.

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Mario Vargas Llosa hoje, no CCB, às 18h00.

por FJV, em 08.10.16

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Um mundo sem limite.

por FJV, em 03.10.16

Muitos ficam extasiados com as imagens: um automóvel sem condutor, um robô a ocupar-se de operações aritméticas, um drone substituindo um exército. Quando escrevi sobre isto, há uns meses, houve quem dissesse que se tratava de falta de assunto; na semana passada, a Amazon anunciou que iria juntar-se a um grupo onde já estão, entre outros, a Google, a Microsoft, a IBM e a Facebook para desenvolver “novas plataformas e objetivos” para a Inteligência Artificial. A ideia é que, no futuro, o trabalho humano possa ser substituído em cerca de 50% por máquinas cuidadosamente preparadas e, a promessa foi feita, eficazes. O número assusta. Há questões a serem discutidas: a do desemprego e o da desvalorização do trabalho humano; a da “filosofia moral” que pode ou não ensinar-se (“programar-se”) a um robô; finalmente, a da própria programação do algoritmo do futuro estar entregue a empresas cujo trabalho ainda não está regulado. Não se trata de “regular” um sistema de transportes ou o mercado financeiro – trata-se de saber até onde a dimensão do humano pode ser limitada no futuro da espécie.

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Um ano. 5777.

por FJV, em 03.10.16

שנה טובה ומתוקה.  כתיבה וחתימה טובה

Um bom Rosh Hashanah.

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Breton, o amor louco.

por FJV, em 28.09.16

Em 1924 a Europa vivia um período de desgaste e de astenia – entre a Guerra que terminara e a ameaça entorpecente de uma vida sem alegria. Isso explica, talvez, as palavras de André Breton, que nesse ano publica o ‘Manifesto Surrealista’ (houve um segundo, em 1930): uma homenagem à imaginação, ao maravilhamento e à dissolução “do conflito entre sonho e realidade”. Talvez o mundo não pudesse ser o mesmo depois desse reconhecimento – o de que a civilização estava a destruir a capacidade de imaginação e de sonho de gerações inteiras, e que era preciso deixar uma parte de nós à solta. Não interessa aquilo em que o surrealismo se tornou depois (uma espécie de saco de gatos em que a vaidade se misturava com a busca pelo poder do ‘movimento surrealista’), mas aquilo que libertou, na literatura e nas artes (Artaud, Mário Cesariny, Buñuel, Dali, Magritte, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, O’Neill) – e o seu apelo ao delírio, à invenção e à beleza. Quando a vida está ausente (“la vie est ailleurs’), como dizia Breton, resta-nos o amor louco (L’Amour Fou, o seu livro de 1937). Passam hoje 50 anos sobre a sua morte.

Da coluna no CM.

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E quem remedeia os remédios?

por FJV, em 27.09.16

Em 2010, provavelmente sob o efeito de drogas, alguns deputados do PS elaboraram uma lei para divulgar os rendimentos e a identificação de todos os contribuintes. Isto aconteceu depois de, em 2009, a violação de dados pessoais pelo Estado ter suscitado 745 processos.

A lei, que era absurda e imoral, levantava o sigilo fiscal “para que cada um possa ter consciência que a comunidade nos olha”, ou seja, abrir a porta à coscuvilhice alheia, à calhandrice dos vizinhos, à quebra da privacidade. A lei não foi aprovada na altura, mas hoje vai ser possível que o Estado (onde há gente capaz de tudo), sem mandato judicial, sem ter de invocar qualquer suspeita, tenha acesso a contas bancárias com mais de 50 mil euros.

O argumento, dado pelo primeiro-ministro, é o de ‘quem não deve não teme’ (em vez de ‘quem deve, que tema’), princípio que já serviu no passado para justificar os piores regimes e abusos, e hoje serve a escalada da chantagem e da arbitrariedade. Dizem o governo e o Bloco de Esquerda que isto é um remédio para a evasão fiscal. Perguntava o Padre António Vieira: “E quem remedeia os remédios?”

Da coluna no CM.

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Povoar o interior.

por FJV, em 25.09.16

Em primeiro lugar, as boas intenções: povoar o deserto do interior. Quem não quer fazê-lo, remediando décadas – século e meio – de despovoamento acelerado das províncias? Por isso, durante a tarde de sábado, as rádios rejubilaram com o anúncio de mais uma medida anunciada – o governo subsidia, através do IRC e da Segurança Social, o emprego no interior. Empresa de Mirandela, Moncorvo ou de Elvas que contrate pessoas que saem de Lisboa, Setúbal ou de Aveiro, tem um prémio (a medida foi anunciada no encontro do PS de Lisboa). De quanto é a redução de imposto ou de contribuição para a previdência? Ninguém cuidou de saber, porque o jornalismo não está preparado para perguntar. Basta a intenção – sobretudo a boa intenção, e especialmente quando as empresas de Mirandela, Moncorvo ou Elvas podem querer contratar pessoas de lá, uma vez que as taxas de desemprego não são apenas elevadas em Lisboa. [A medida foi já ensaiada na altura em que Elisa Ferreira era ministra do Planeamento, no início do século, prometendo uma redução do IRC às empresas que se fixassem no interior.] Por exemplo, este Verão, as auctoridades mandaram para o Algarve os médicos que estavam a fazer falta em Bragança. Aliás, podiam começar por perguntar por que razão, depois de abertos vários concursos, os hospitais e centros de saúde do interior fenecem de médicos, para citar Severim de Faria, um clássico.

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Fim de setembro é assim, 5.

por FJV, em 24.09.16

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De Marx, esse saco de gatos – até porque quem não deve não teme.

por FJV, em 24.09.16

1. Vai uma grande agitação pela direita – com uma pequena nódoa de escândalo – com um dos últimos discursos de António Costa. Do género: «Vejam, vejam, ele citou Marx.» De facto, Costa, ou alguém por ele, enfiou duas frases da Crítica ao Programa de Gotha numa intervenção parlamentar. Não compreendo a agitação – Costa foi sempre marxista (Marx é um saco de gatos quando o descobrimos nos discursos mais inflamados), citar Marx é talvez uma inevitabilidade. Esperar o contrário seria como pedir a Jeremy Corbyn que cantasse o «God Save the Queen» depois de passar uma vida inteira a declarar-se republicano. 

Escândalo é ninguém se recordar de um dirigente político à direita (ministro, deputado, mestre de obras) ter alguma vez citado uma ideia fundadora, um autor conservador, um princípio ideológico – e ter fugido sempre da «discussão ideológica», com medinho de ser apanhado, desde os tempos em que até o CDS era socialista.

Aprendam. À esquerda, a ideologia é boa; à direita é uma excrescência, e fundamentalmente por culpa dos analfabetos que lá andam.

 

2. Grave, grave mesmo, é na direita partidária ninguém se ter insurgido com algum pingo de dignidade quando o primeiro-ministro diz que «quem cumprir as suas obrigações nada tem a temer ou a recear», para justificar a vigilância, extra-judicial e determinada pelo mais completo sistema de vigilância de que entre nós há memória, das contas bancárias com mais de 50 mil euros. Ninguém cita Brecht (vale tudo, hélas!) ou introduz um módico de ideologia nesta questão. Pelo contrário, vão ter medinho de dizer que o combate à evasão fiscal não pode abrir portas a uma devassa extraordinária e total da vida de cidadãos sobre os quais não há suspeita. 

 

3. A paixão doentia pelo Estado é um caso patológico da politologia portuguesa, para quem os direitos civis são um óbice, um obstáculo e – crescentemente – uma ninharia que põe em causa os interesses absolutos e intocáveis do Estado. Uma sociedade civil fraca, sem opinião, invejosa, ressentida, pateta, rendida ao argumento de «quem não deve não teme», aceita tudo – o poder discricionário do Estado, a inversão do ónus da prova, a violação da privacidade, sucessivos e injustificados agravamentos fiscais, a má gestão da coisa pública, o assalto aos rendimentos em nome dos interesses de um Estado mal gerido e gastador, investimentos mal estudados e mal realizados, tudo. E vota em conformidade, vota por simpatia, porque é mais fácil, porque é mais facilmente convencida e ludibriada – e porque quer ser convencida e ludibriada. Para esta sociedade civil delapidada e privada de si mesma, ressentida e silenciosa, é normal que os constitucionalistas forneçam pareceres à medida do Estado. Nada a prende à Constituição, que é uma espécie de disco voador.

 

4. Em Janeiro de 2010, algumas almas vastamente iluminadas do PS queriam avançar com uma lei para divulgar os rendimentos brutos de todos os contribuintes – «sem o imposto final pago, sem as despesas reembolsáveis (despesas de saúde, educação, etc.), mas com o rendimento bruto anual declarado». E, «evidentemente, com a identificação do contribuinte». Isto aconteceu depois de, em 2009, a «violação de dados pessoais pelo Estado ter produzido 745 processos».

Segundo o então deputado Strecht Ribeiro, a medida teria um efeito pedagógico (a lei «levanta [o sigilo fiscal] o suficiente para que cada um de nós possa ter consciência que a comunidade nos olha»). Ou seja, a ideia era mesmo a de que cada um saiba que está a ser vigiado pelo vizinho, que procederia as denúncias da ordem. Tudo segundo o manual. Esta mania de nos ensinar boas maneiras a toda a hora tem consequências dramáticas no estilo e na gramática; repesco as suas declarações da época (2 de Fevereiro de 2010): «Parece-nos razoável que, sendo nós um imenso condomínio de 10 milhões, cada um de nós saiba a 'permilagem' de cada um dos outros para sabermos se há um efectivo contributo que corresponda àquilo que é o bocado que temos neste imenso latifúndio.» Esta ideia de que somos um condomínio de dez milhões é, senão verdadeiramente peregrina, pelo menos desenhada à imagem da classe parvenue na política; um condomínio, estão a ver? E «permilagem»; nada de quilometragem.

Não é novo. Em Junho de 2007, o presidente Jorge Sampaio (em nome da «justiça e moralidade», vem nos jornais da época) fez uma campanha nacional pela inversão do ónus da prova em matéria fiscal, sem se saber se os cidadãos que tinham de «passar a fazer prova da proveniência lícita dos seus bens» eram aqueles que já estavam sob investigação da máquina judicial ou aqueles que o Estado não consegue investigar, transformando todos os cidadãos em personagens do Big Brother televisivo.

 

5. Faz falta a presença de pessoas como José Medeiros Ferreira. Na altura, no blog Córtex, Medeiros escrevia contra essa ideia de «quem não deve não teme»: «O Google não terá tido problemas com as autoridades portuguesas para colocar em funcionamento o serviço Street View que mostra com detalhe ruas, quintais carros e matrículas. Mas já na Alemanha, e no Japão, a coisa não tem sido fácil. Aconteceu-lhes alguma coisa desagradável no passado? Vejam lá se aprendem connosco, cidade aberta, que também queremos ver as vossas caras e casas mesmo desfocadas! Quem não deve não teme, etc.

Há, naturalmente, quem pense que não estamos «diante da ameaça de um novo tipo de vigilância», uma vez que se trata apenas de agilizar procedimentos por parte do Estado, «o que permite acesso a uma série de dados» que, «naturalmente» [espaço para gargalhadas] «não serão cruzados». E tudo para benefício do Estado e da sua máquina, pessoas que não elegemos mas que sabem tudo sobre nós, velando pela nossa instrução, pela nossa moralidade e pelos nossos proventos.
Este debate é oportuno; os sinais que ele fornece são letais, mesmo que – num caso ou noutro – possam ser injustos para alguns sectores da Administração, ou mesmo que as pessoas dêem pouco valor à sua liberdade e à sua «reserva individual»; encantados com a «modernização», os portugueses desinteressam-se por todo o tipo de quebras de privacidade, da videovigilância nas auto-estradas à monitorização da vida familiar. O argumento mais imbecil de todos: quem não deve, não teme – a «reserva individual» é um assunto menor diante da necessidade de «reforçar o colectivo» ou de «melhorar a máquina do Estado».
Num longínquo texto dos anos oitenta, António Barreto chamava a atenção para o ambiente de liberdade em que vivíamos – liberdade de imprensa, de reunião, de associação, mobilidade, etc. Mas lamentava o facto de não existirem «liberais» (esqueçam a denominação, que a mim me parece justa), no sentido em que a liberdade não existe sem pessoas que se interessem por ela. 

6. Não temam. Um dia seremos, todos, problemas a serem solucionados. Com acesso aos dados em bruto, que maravilha para vizinhos com gosto pela calhandrice, para padrecas e estalinezinhos, para processos de divórcio e famílias «transparentes», para a chantagem política e para a canalhice, para a malandragem e para os invejosos — está aqui a sua pátria. Legislem, mesmo contra a Constituição, a vida dos cidadãos e o bom-senso. Avante.

 

 

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