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Catalunha: «Ahora es una sociedad agresiva, con signos evidentes de violencia.»

por FJV, em 31.08.17

Ler a entrevista com Gregorio Morán, um dos melhores colunistas da imprensa espanhola — o La Vanguardia, agora muito catalanista, acaba de despedi-lo; alguns extractos:

 

La manifestación por el atentado pudo haber sido un lugar de encuentro y de suavización de posturas, pero no. En el momento en que se decide encargarle el servicio de orden a la ANC, eso es como poner al lobo a cuidar a las ovejas. Era una manifestación toda ella organizada para la mayor autosatisfacción del secesionismo.

 

Ahora ya han empezado a decir que con un 30 por ciento de participación en el referéndum ya les vale. Si se hace este va a ser un referéndum mucho más a lo bestia que cualquiera que planteara nunca el franquismo, donde uno solo votando no era el aval de millones de votantes del sí.

 

A muchos nos pareció en su día una sociedad más abierta que la madrileña, por decir algo. Eso ha cambiado mucho. Ahora es una sociedad agresiva, con signos evidentes de violencia aunque no aparezcan en los medios ni se reconozcan oficialmente. La paz social de aquí ahora consiste sólo en que el poderoso no tenga contrincante. Esto es como un circo, con sus payasos, sus trapecistas, sus leones domesticados, sus monitos que hacen monerías, y la orquesta como la del Titanic, tocando en pleno hundimiento.

 

Tras los atentados, cuando el Ministerio del Interior daba 13 muertos, la Generalitat quería dar los menos, la cifra más baja posible. Entonces el conseller Joaquim Forn, un talibán secesionista de toda la vida, que en eso no engaña a nadie, que siempre ha sido un desvergonzado absoluto, iba diciendo que sólo había 2 muertos. Y luego que si 2 muertos catalanes y 2 muertos españoles. Y el olvido de la gran cantidad de turistas que han muerto... Claro, después de la campaña de turismofobia lanzada a bombo y platillo por la CUP, ¿qué hacemos ahora con los turistas muertos?

 

El CIS catalán ha hecho un análisis de las últimas elecciones, y resulta que a la CUP la votaron las clases más altas de Barcelona, el semillero de votos lo tienen en Sarrià, lo cual resulta realmente llamativo. Unamuno ya decía, catalanes, os pierde la estética. En realidad él llamaba benévolamente estética a la frivolidad, porque además ya se ha visto cómo todos estos valientes luego salen corriendo a defender su patrimonio…

 

Pero, en fin, si hemos resistido frente a la dictadura, cuando nos decían, si no le gusta España, váyase... Ahora te dicen lo mismo, que si no estás conforme, que te vayas de Cataluña. 

 

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Catacumbas de ressentimento.

por FJV, em 30.08.17

Um dia vai discutir-se se a ASAE vai ou não poder entrar numa loja de brinquedos e acabar com a trampolinice que é a existência de secções para rapazes e para raparigas. O assunto não me incomoda. Ao ler o despacho exarado pela Comissão de Igualdade de Género acerca dos famosos livritos não vi nada de novo além de novilíngua e indigência. O costume, nenhuma novidade; não me interessa. Felizmente, os meus filhos são pessoas livres e não vão sujeitar-se à ignomínia de lerem livros submetidos ao exame prévio daquelas catacumbas de ressentimento. De resto, é uma guerra perdida; o único remédio é rir: basta dizer que alguém encontrou seis atividades mais difíceis para rapazes e apenas três mais difíceis para meninas – e ficou sem poder ter orgasmos durante vários dias. No Centro de Investigação 3B da Universidade do Minho, pelo contrário, trabalham 150 investigadores desconhecidos da CIG (são responsáveis por 50 patentes internacionais, em vez de fazerem ativismo de sofá). Mais de metade são mulheres. São muito melhores do que os rapazes. São o meu – e o nosso – orgulho.

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Autoeuropa.

por FJV, em 30.08.17

O problema da Autoeuropa ultrapassa em muito a questão do Sábado. É o velho combate do PCP pelo domínio da Comissão de Trabalhadores  – que lhe tinha escapado e permitido um acordo entre as partes. O PCP não esquece as traições nem contemporiza com os trabalhadores.

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Quem disse? (1)

por FJV, em 27.08.17

«Os feminismos são teorias. Eu acho que a teoria na nossa época tem desempenhado um papel terrível na política, tem desempenhado um papel terrível na arte, e também na vida.»

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O Estado, porquê?

por FJV, em 27.08.17

Não percebo o silêncio em redor desta indignidade antecipada. Melhor: percebo perfeitamente — todos os partidos têm os seus regimentos na função pública, administração pública, serviços públicos, conta geral do Estado. Só isso explica que se peça — publicamente, descaradamente — que o orçamento de Estado continue a financiar a ADSE, vejam bem, «aliviando as contribuições directas dos beneficiários». Por que é que tenho de ser eu a contribuir para «o alívio» dos beneficiários desses sistema privado de saúde?

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Uma história de fantasmas.

por FJV, em 25.08.17

A mensagem do Estado Islâmico para Espanha é de uma grande perversidade. Não só declara que o atentado de Barcelona foi a primeira incursão da sua jihad em Espanha (ou seja, desvaloriza o ataque de Atocha em 2004) mas insiste na memória do Califado desfeito no século VIII, e do mapa de al-Andalus. Ao longo das duas últimas décadas, uma malha de radicais islâmicos estabeleceu-se no litoral espanhol do Mediterrâneo, sobretudo em Barcelona – ao ponto de as autoridades policiais da Catalunha, para mostrarem a sua “singularidade” (face ao “espanholismo”), desvalorizarem avisos das polícias belga e francesa sobre essas células. A invocação do Califado não é inocente; a promessa da sua reconstituição está na letra do wahabismo e no espírito das alianças que no final do século XIX se fizeram nas montanhas do Iémen e que têm alimentado o fundamentalismo islâmico e o poder das grandes famílias da região. À distância, o passado faz sentido; mas para nós, que vivemos só na passagem do século XX para o XXI, julgando que a vingança estava esquecida, parece uma história de conspiração e fantasmas.

[Da coluna do CM]

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John Lee Hooker: 100 anos.

por FJV, em 22.08.17

Lembram-se de “One Bourbon, one Scotch, one Beer”? De “Boom, Boom”? De “Dimples”? De “Boogie Chillen”? Uma resposta: John Lee Hooker, a voz e a guitarra dos blues – no pódio, ao lado de Muddy Watters e Sam Lightnin’ Hopkins. Aos oitenta anos (em 1997), um videoclip absolutamente notável, o de “Don’t Look Back”, com Van Morrison (de quem tem duas versões de “Gloria”). Dois anos antes cantava “Too Young” no disco ‘Chill Out’, ao lado de Van, de Carlos Santana ou de Charles Brown (o de “Driftin Blues”): John Lee Hooker tinha a grande arte de arranjar companhias para fazer música – lembram-se de “Crawling King Snake” num dueto inesquecível com Keith Richards, ou o palco em que cantou “Boogie Chillen” com Eric Clapton e os Rolling Stones? Hooker transformava os blues numa festa permanente. Calçava meias coloridas, vestia maravilhosamente, a sua guitarra nunca perdeu o timbre, a voz era uma pepita de ouro que resistiu à idade, até ao fim. Morreu em 2001, calmamente (como as suas últimas canções). Completaria hoje cem anos de idade. “One Bourbon, one Scotch, one Beer” para festejar.

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Em Sabadell estão a fumar substâncias estranhas

por FJV, em 21.08.17

Os nacionalismos são geralmente imbecis – em Espanha têm a agravante de serem estapafúrdios. Veja-se Sabadell, na Catalunha: o município (uma coligação de independentistas de esquerda e Podemos) pediu um documento para mudar a toponímia local; vem daí a ideia de retirar o nome de António Machado a uma praça da cidade – por, apesar de grande poeta universal, lá no fundo ser “espanholista e anticatalanista”. À distância, o município abusou da bebida ou fumou erva estragada. O documento, muito xenófobo, exige ainda expurgar das suas ruas nomes como Goya, Calderón de la Barca, Quevedo, Góngora, Adolfo Bécquer ou Lope de Vega, acusados de terem perfil franquista – ou serem parte de um “modelo pseudocultural franquista”. Goya? Quevedo? Calderón? Sim, todos eles “ferramentas da propaganda franquista”. Há tempos, imbecis em San Sebastián quiseram mudar o nome da bela Praça Cervantes, porque o genial autor do Quixote é “espanholista”. E em Madrid, a extravagante alcaide Manuela Carmena quer mudar a estátua de Cervantes, que é capaz de ser franquista. Pobre Espanha, entregue a tontos.

[Da coluna do CM]

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Teologia activa.

por FJV, em 21.08.17

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Por exemplo, só deixar entrar os ricos nas nossas fronteiras

por FJV, em 21.08.17

Não custa a admitir, como princípio, uma quota de visitantes a determinar por cidades ou países que acham que a avalancha de turistas põe em perigo o seu bem estar, o seu património ou até – no caso de o argumento ser do Bloco de Esquerda – a economia. No fundo, Veneza e outras cidades-estado adoptaram esse princípio ao longo da história. A questão está em como se procede para limitar o acesso a Dubrovnik, por exemplo, ou a Pequim, ou a Idanha-a-Nova (não falo de Barcelona antes do referendo) – os “mais ricos” que fazem reserva nos melhores hotéis e se recusam a alugar apartamentos de curta duração?; os “mais cultos”, que querem visitar os monumentos, as bibliotecas e os museus das cidades?; os que passarem num exame de etiqueta, e se verificar que nunca mijariam da varanda de um hotel de Ibiza?; os “poliglotas”, que falam a língua local?; os “gastrónomos”, que prometem tomar pelo menos uma refeição diária de faca e garfo? Os que se inscreverem primeiro na lista de vagas disponibilizada pelas autoridades ou (horror!) pelo mercado de quartos? Eis uma grande arena para discussão. 

[Da coluna do CM]

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Aproveitamento político.

por FJV, em 17.08.17

Claro que ninguém fica indiferente à energia e à presença do Presidente da República no Funchal, depois da tragédia da Senhora do Monte, de Pedrógão ou de outros cenários onde os portugueses percebem que o Estado não os ignora de todo. Mas a consolação tem de dar lugar, depois, ao apuramento de responsabilidades da parte do mesmo Estado a quem os portugueses entregam os seus impostos, delegam a procura de justiça ou de segurança. Não faz sentido, por isso, que o primeiro-ministro critique o “aproveitamento político” das tragédias. Não são as tragédias que estão em causa – mas uma soma inacreditável de incompetências, mentiras, desacertos, além da descoordenação de meios e de respostas. O próprio primeiro-ministro alterou várias vezes a sua posição em relação ao Siresp, por exemplo. Não basta que faça perguntas aos seus serviços: nós fazemos perguntas; o Estado tem de dar respostas – é assim que funciona a democracia. Não se trata de “aproveitamento político” das tragédias, mas de verificar que o Estado, para o qual contribuímos mais do que generosamente, falha e mente onde não pode falhar nem mentir.

[Da coluna do CM]

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No Delito.

por FJV, em 17.08.17

Por convite do Pedro Correia, o Delito de Opinião publica esta semana um texto meu, «O tempo sem pessimistas».

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Catalanistas.

por FJV, em 17.08.17

O «provincianismo independentista» não esconde um certo rabo de palha: decretada a independência, terminariam estes processos que fazem da Catalunha a capital da corrupção em Espanha. O número de delitos de corrupção investigados na Catalunha é o dobro de Madrid ou da Andaluzia e 300 vezes mais do que Navarra, 15 vezes mais do que a Galiza, superior em 40 vezes às comunidades de Aragão, de Castela e Leão ou de Múrcia. Para entusiastas do independentismo catalão, ler La Soledad del Manager ou Los Mares del Sur, de Manuel Vázquez Montalbán – e comparar com as biografias políticas de alguns líderes catalanistas. O velho Tarradellas definiu a coisa como uma dictadura blanca.

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Perigosa, esta coisa.

por FJV, em 16.08.17

Há tempos, uma dirigente socialista escreveu no Twitter um post escandalizado: então esta jornalista ainda não foi despedida? A ideia de calar os que têm outra opinião, que interpretam os factos de outra forma, que dizem uma verdade inconveniente (como era o caso), ou fazem uma piada, tem vindo ser adotada como regra. As opiniões de um funcionário num documento interno da Google foram o suficiente para que fosse despedido pela empresa porque o texto “perpetuava estereótipos de género”. A atriz Lena Dunham (série Girls) declarou no Twitter que, enquanto esperava um voo, ouviu dois empregados da American Airlines numa conversa “transfóbica” (o seu voo era noutra companhia, já agora); a companhia tratou de saber quem seriam os funcionários, para despedi-los. O comediante Bill Maher, insuspeito de simpatias republicanas (é campeão de piadas contra Trump), protestou esta semana contra o despedimento de Jeffrey Lord, um comentador pró-Trump da CNN apanhado numa piada de mau gosto – mas declaradamente piada. Há tempos, o próprio Maher usou a palavra ‘nigger’ numa piada e originou uma campanha para o seu despedimento da HBO. Está perigosa, esta coisa – e imbecil.

[Da coluna do CM]

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Proiba-se.

por FJV, em 15.08.17

Antigamente, havia extraordinários desejos inconfessáveis: ter uma aventura com um ator ou uma atriz de cinema, aceder a uma profissão, pensar em sexo (a maior parte do tempo) – a lista é muito variada e, ai de nós, pecadores, quase interminável. Hoje, uma das ambições da humanidade esclarecida é proibir. Proibir uma palavra, proibir açúcar, proibir uma ideia, proibir uma pessoa. Não basta não gostar, discordar, achar imbecil – é preciso proibir. Desta vez, quem chamou a atenção para o assunto foi o escritor espanhol Javier Marías. Fui ver à fonte, a imprensa inglesa: a principal associação de estudantes de Oxford quer proibir as togas (é uma questão antiga) ou, agora, proibir que existam togas diferentes. É que o tamanho das mangas das togas são importantes: se forem compridas, significam que os estudantes chegaram, digamos, ao topo e foram distinguidos de alguma maneira. A rapaziada acha que é traumatizante a exibição dessas mangas largas e compridas para os que tiveram notas inferiores – e que “perpetuam” um estatuto de desigualdade que é preciso banir. Proíbam-se.

[Da coluna do CM]

 

P.S. - A associação de estudantes de Oxford (OUSU) é especialista em pedir proibições – uma delas foi a de uma conferência da feminista Germain Greer, pelo facto de não concordarem com as suas ideias sobre género – o que não conseguiu; também tentou, e conseguiu, proibir um debate sobre o aborto (por considerar ofensivas certas ideias defendidas por dois dos participantes) e outro sobre, tome nota, «Freedom of Speech and Right to Offend».

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Os avanços civilizacionais e a avó que vai dar à luz um neto.

por FJV, em 15.08.17

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O admirável mundo novo lusitano rejubilou porque, a acreditar na primeira página do Expresso de anteontem, uma avó irá dar à luz um neto, ou seja, será “portadora” (o termo é letal) de uma criança para a sua filha, que não pode engravidar. A ideia não me enternece. Há crianças abandonadas pelo mundo fora e os números portugueses dão conta de estatísticas que devíamos baixar: repito, crianças abandonadas pelos seus progenitores. A maior parte deles é entregue às instituições sociais do Estado e podem vir a ser, ou não, adoptadas por famílias desde muito cedo. Compreendo o que dizem ser as “alegrias da maternidade” e, à distância, entendo (mas não o partilho como um valor absoluto) o desejo de perpetuar o património genético de uma família através de uma criança gerada no laboratório ou no ventre de uma barriga de aluguer. Trata-se de um manifestação moderna do egoísmo das gerações para quem não existe um impossível ou um interdito. Aldous Huxley já referia o assunto em Admirável Mundo Novo um livro aborrecido, mas premonitório. Os avanços civilizacionais são cruéis.

[Da coluna do CM]

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Bolivarianos.

por FJV, em 11.08.17

Pedro Correia sobre dois pataratas bolivarianos. 

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Viver num T2 no centro da cidade por menos de 400€? Sim, é possível.

por FJV, em 11.08.17

Carlos Guimarães Pinto explica como não tem sentido nenhum dizer que as pessoas estão a ser expulsas do centro das cidades — e prova-o, indicando mesmo apartamentos disponíveis a menos de 400€ mensais. Uma oportunidade para «os jovens», mesmo os do Bloco.

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The Cook, the Thief, The Mayor, The Judge, His Wife & Her Lover

por FJV, em 10.08.17

Nesta novela deliciosa não falta praticamente nada. O único pormenor trágico é mesmo a indiferença.

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A cozinha de Pandora.

por FJV, em 10.08.17

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Que a BBC o diga parece-me bem: que a cozinha portuguesa é a mais influente do planeta inteiro. Tudo começou com o jornalista David Farley a pesquisar as origens da tempura japonesa, que o levou até aos nossos peixinhos da horta; daí, para a curiosidade em relação aos nossos Descobrimentos quinhentistas e à relação que estabelecemos com ingredientes e cozinhas de todos os continentes; daí, para a nossa própria cozinha: plural, variada, criativa e aberta a influências. Há muita gente que fica espantada quando lhes digo que o prato de referência dos judeus de Bagdade era o bacalhau (numa variante parecida com a patanisca, keftes) tal como os judeus de Roma popularizaram o nosso filete de bacalhau salgado, os nossos fritos de grão singraram no Levante e Médio Oriente, ou o nosso estufado de borrego em Java e nos mares da região – além da feijoada no Brasil, claro. Ou quando refiro que somos os melhores a preparar arroz (temos mais de uma centena de variantes) ou pratos de vegetais. Sinceramente, acho que está aberta a caixa de Pandora, e que esta Pandora é saborosa. E suculenta. (Ainda ouço alguns a rir da sugestão de globalizar o pastel de nata...)

[Da coluna do CM]

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O cantinho do hooligan. Bem vindos. 2.

por FJV, em 10.08.17

Nada de novo, portanto: se tivesse sido usado o vídeo, o FC Porto teria concluído o campeonato anterior no primeiro lugar, acima dos 82 pontos.

Por falar nisso, revejam os arquivos: no campeonato de 2007-2008, que foi viciado pela tomada de assalto da Liga, o FC Porto terminou com 75 pontos e não com 69. Dez anos depois, o Conselho de Justiça dá razão ao FC Porto, devolvendo-lhe os pontos, ou seja, assumindo que o Apito Final foi — vamos lá escolher uma palavrinha — uma roubalheira para favorecer o Benfica. Com todas as letras.

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O cantinho do hooligan. Bem vindos.

por FJV, em 09.08.17

1. Foi preciso o video-árbitro para validar o golo de Marcano no jogo de hoje, que o árbitro-assistente tinha anulado. Infelizmente, o video-árbitro não foi usado na Supertaça para invalidar o primeiro golo do SLB, para marcar o penálti cometido por Sálvio ou para puxar do cartão vermelho que não foi mostrado a Jardel (o do Benfica).

2. Medo: seis falhanços de Aboubakar (Moreira prometeu só defender os remates de Aboubakar).

3. Vinganças merecidas: o regresso de Marega, Óliver a dar cartas, dois voos de Casillas.

4. Tiquitaca: Óliver, Alex Telles e Brahimi — e golo.

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Má consciência.

por FJV, em 09.08.17

Regresso em grande de Filipe Nunes Vicente no blog Má Consciência:

Um belo texto aqui, para começar: «Bronzeadas, musculadas e, sobretudo, tatuadas. Enxameiam as páginas  das secções-vidas dos media. Se andam assim têm boas razões, mas estou desfazado do meu género: masculino e, até à data, hetero (ainda não conheci o Nené).Aqueles corpos provocam-me a mesma sensação que os dobermanns. Sempre tive cães, noto bem o interesse de um bicho elegante, mas o dobermann lembra-me a Uzi do tenente Macias, meu instrutor do tempo do desperdício. A psicanalista de serviço já sacou do moleskine: medo de mulheres poderosas. Os psicanalistas são viciados na forma: filha-colo-pai-édipo, bebé-cocó-prazer etc. Não há nada mais excitante do que uma cabeça premiada e um carácter generoso num corpo discreto. A traição da aparência é a atracção.»

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As nadadoras-salvadoras de Gijón.

por FJV, em 09.08.17

Gosto da indumentária das nadadoras-salvadoras de Gijón: vermelho, como convém, e com uma reduzida cuequinha de biquíni que se perde entre os glúteos – o resultado é interessante, se me faço entender. Este comentário seria considerado machista e sexista pela conselheira municipal de Segurança Cidadã da cidade asturiana – e eu seria denunciado pela local Associação de Mulheres Separadas e Divorciadas, que não admite piadas nem exclamações de júbilo heterossexual. Várias comissões de igualdade de género espanholas, muito bigodudas, consideram sexistas algumas observações sobre o assunto nas “redes sociais”. Fui ver, indignado. Por exemplo: “10 afogados e só de manhã. Alguns, duas e três vezes”, e foto de uma nadadora. Ou: “Onde é que me inscrevo para poder afogar-me um pouco?” Escandaloso machismo e sexismo. O município, entretanto, pediu às nadadoras para usarem calções, o que levou a jornalista (e romancista) Carme Chaparro, da Telecinco, a protestar contra esta atitude ainda mais sexista, dizendo que o problema é dos homens, que “não são capazes de se controlar”. Assim vai o radicalismo ibérico.

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Serra do Roboredo.

por FJV, em 09.08.17

Nunca descobri a Serra do Roboredo, que agora arde perto de Moncorvo: ela descobriu-me a mim, inventou-me, fez-me amar aquelas árvores (os carvalhos brancos, as faias, negrilhos, amendoeiras, castanheiro bravo, sobreiros, medronheiros, cerejeiras, cedros, zimbros e ciprestes), as colinas de vegetação suave (urze, giesta amarela, cravinas, orquídeas, esteva e carqueja, pilriteiros, rosa-brava e refúgios de espargo, serralha e acelga), as suas sombras humedecidas (onde nascem míscaros, sanchas e roques), a capela de N.S. da Teixeira (frescos que lembram El Greco), as ruas silenciosas de Maçores, Açoreira, Felgueiras, Peredo e Urros, ou a Fraga do Facho e a água do seu ribeiro (“os castanheiros curvam-se sobre ela, para que o sol do estio a não aqueça”, como escreveu Campos Monteiro). Eu saía a pé da minha aldeia, Pocinho, e a Serra do Reboredo era o esplendor aberto ao céu, comovente, de onde levantava a neblina para deixar ver, da outra margem, todo o Vale do Nídeo onde flutuavam águias, açores e falcões) até à foz do Côa. Não são eucaliptos que ardem, ó ignorantes. É a minha serra.

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A Caixa, com certeza.

por FJV, em 09.08.17

Durante anos, os do “oásis” e os da “euforia” (até se acabar o dinheiro, como todos sabemos – e frequentemente se esquece), Portugal podia não ter a extraordinária vaga de turistas que enchem as nossas ruas. Mas, à mesma dimensão, havia uma extraordinária vaga de gestores (os melhores do mundo, os pilares da Europa, as colunas da economia) a encher os gabinetes das “nossas empresas”, incluindo o banco público. Parece que em grande parte delas houve irregularidades e má gestão, ou não estariam como estão ou como acabaram por desaparecer; parece que, no caso da Caixa, houve dinheiro para todos os amigos do regime comprarem ações de outros bancos (que depois foram destruir, também metodicamente), montarem empresas inviáveis, negócios tão ruinosos que nunca empobreceram os gestores amigos que, entretanto, transitaram para outros negócios em que era necessário ser muito amigo “das autoridades”. E o que concluem os relatórios (como o da Caixa)? Que é tudo exagero e maledicência. Em literatura, nem o Cohen de Os Maias, de braço dado com o conde Gouvarinho, era capaz desse descaramento.

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Portugueses na Venezuela.

por FJV, em 08.08.17

Por motivos, digamos “literários”, colecionei histórias de emigração portuguesa um pouco por toda a parte – e do tempo em que não havia Skype, nem internet, nem voos acessíveis. Em quase todo o lado havia histórias de heróis. Em todos os continentes. De vencedores e derrotados, de luz e de sombra, de glória e de perda. Na Venezuela conheci gente que se espalhou de Caracas (no belo bairro da Candelaria) às cidades do petróleo, das ilhas à penumbra dos Andes, do Orinoco a Maracaibo – quase todos tinham sobrevivido às adversidades. Penso neles como heróis: no imobiliário e na construção, nos restaurantes e no comércio, no ensino e na agricultura. Guardo da comunidade portuguesa da Venezuela uma impressão amável e malandra, de gente ambiciosa e grata – o Centro Português de Caracas, obra coletiva, é a prova. Talvez um dia, quando a literatura ou o cinema portugueses quiserem fazer o retrato dos seus contemporâneos, eles possam figurar nessas páginas e nessas imagens como heróis discretos que defrontaram o país que os empurrou para a emigração e a terra que lhes está a ser tão amarga.

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O mundo moderno e a falência das pessoas normais.

por FJV, em 08.08.17

O mundo comoveu-se com o relato de Lamar Odom, estrela da NBA, basquetebolista de eleição, grande talento (sem ironia: esteve nos Lakers, nos Clippers, nos New York Knicks e nos Dallas Mavericks), ex-cônjuge de uma Kardashian, e, portanto, milionário e consumidor de drogas. O desfile de explicações vem da infância, naturalmente: marijuana num bairro pobre, vítima e algoz, pobre e sonhador, cocaína entre sexo e adultério, bebida e fama – e mais cocaína ainda. Parece que Lamar bateu no fundo, entrou em coma, despertou, viu os filhos (finalmente) e se arrependeu de ser um idiota, publicando um texto mais ou menos comovente. A internet e as televisões choraram e aplaudiram. Acontece que percursos como os de Lamar Odom com a cocaína são comuns; em quase todos eles, os imbecis transformam-se em heróis depois de confessarem ser imbecis. Infelizmente, as pessoas que não se drogam, não casam com uma Kardashian, não são milionários, não publicam fotos parvas no Instagram ou não abandonam os filhos são consideradas gente sem grande interesse e exemplos para ninguém. Nisto estamos.

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Christian Millau (1928-2017), absolutamente perto do divino.

por FJV, em 05.08.17

Insolente, impertinente, desrespeitador – é o que significa impoli em francês. É esse o título do diário de Christian Millau (1928-2017), Journal impoli, publicado em 2011 e que, em subtítulo, leva os anos a que diz respeito: 2011-1928, assim, invertendo a ordem do tempo. São 700 páginas que afrontam a cultura francesa mais oficial, a dos mandarins e das universidades, falando de Céline e de Hemingway, de Churchill e de Orson Welles, do grande Blondin ou de Mauriac e Cendrars, vultos que hoje estão na galeria dos esquecidos. Como o próprio Millau, um autor desconhecido em Portugal – e aqueles que o conhecem associam-no a Henri Gault, com quem se associou para lançar em 1972 o mais famoso dos guias gastronómicos, o GaultMillau, a quem se deve a consagração da nouvelle cuisine. Jornalista de política e romancista, no pós-guerra lutou contra o moralismo literário, essa literatura de tias velhas que destruiu a cultura francesa. O seu humor era corrosivo. O seu gosto era absolutamente divino – sem ele, a literatura gastronómica seria banal. Morreu anteontem.

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Férias de um selvagem.

por FJV, em 04.08.17

Quando comecei a escrever sobre viagens, no início dos anos 80, havia lugares tão sombrios como maravilhosos para descobrir. Atravessar África de uma costa à outra, descer a América do México à Antártida, cruzar as rotas do Médio Oriente ou subir pela Ásia até à Mongólia: era difícil, um desafio sem comodidades, uma tentativa de chegar a “um lugar único”. Hoje, qualquer “lugar único” desses tempos tem um ‘spa’ igual aos do Algarve, cozinha gourmet como a de Tóquio e uma rede ‘wifi’ que atravessa o deserto. Claro que há sempre possibilidades, mas não convém falar delas (são o nosso segredo). Eça dizia que o mundo se estava a tornar banal e que um dia chegaríamos a Tombuctu para encontrar um cavalheiro local a ler um jornal de Paris. A diferença seriam as pessoas, as suas histórias, a sua comida, a sua língua. Com a televisão e a net há cada vez menos diferenças (além das guerras – vejam no mapa) e há quem venha a Lisboa para comer um sushi igual ao de Los Angeles. Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem.

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